Retratos do ciclo copy, right?

Passaram pouco mais de uma semana do ciclo copy, right? em SP, tempo suficiente para digerir tudo do que aconteceu.

Mas como foram 4 dias de ciclo, 6 filmes exibidos, 7 convidados e muitas outras conversas aleatórias, deixemos as fotos e os vídeos do evento falar por si só. No decorrer dos próximos dias, meses e até anos vamos recuperando algumas das histórias ali ouvidas, conversadas, etc, e relacionando com outros temas factuais, subjetivos, afetivos, etc.

Uma possível constatação depois de tudo isso é: estamos bem informados sobre as batalhas “novo” e “velho mundo” da cultura/industria cultural/direitos autorais. A segunda, mais realista e pessimista, é que somos muito poucos: falamos de termos como copyleft e crowdfunding, para citar dois exemplos, como se fossem coisas que todo mundo sabe o que é – e não, a imensa maioria não faz nem ideia do que seja.

Daí que as duas conclusões se juntam numa só: precisamos ser didáticos para nos fazer ouvir. O mundo da cultura livre/digital é um ovo. E só quando deixar de ser é que vamos conseguir alterar a sociedade tal como a tecnologia (e a cultura) digital tem pedido.

[Leonardo Foletto]

P.s1: Ainda temos algumas imagens e especialmente vídeos para recuperar das palestras. Avisamos aqui.

P.s2: Há possibilidades concretas da próxima edição do ciclo ser em no FISL 2012, em julho deste ano, em porto alegre.

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1ºdia – 12/6
Centro Cultural da Espanha

“¡Copiad, Malditos! (2011)
“Produção audiovisual em cultura livre: Brasil X Espanha”
Stéphane M. Grueso (diretor do filme, videoconferência) e Rafael Frazão (Casa da Cultura Digital, Filmes para Bailar)

2ºdia – 16/6
Matilha Cultural

“Patent Absurdity” (2010), “Arduíno: o documentário” (2011).
“ Hardware & software livre: cultura e cidadania P2P
Rodrigo Rodrigues (Garoa Hacker Clube, MetaMáquina) e Bernardo Gutierrez (Future Media, 15M Espanha).
A apresentação de Bernardo foi gravada pela Raquel Diniz, sua esposa, e pode ser vista aqui. A do Rodrigo disponibilizamos aqui em breve.

3ºdia – 23/6
Matilha Cultural

“RIP: A Remix Manifesto” (2009)
Cultura remix, RIP & direito autoral: 2009-2012
Pedro Markun (Casa da Cultura Digital, Esfera e Transparência Hacker).

(Neste dia, estamos sem fotos; em breve vamos pegá-las com o pessoal da Matilha Cultural e colocamos aqui).

4ºdia – 26/6
Centro Cultural da Espanha

Feira do Compartilhamento
“Ctrl-V – Video Control (2011)”,  “Remixofagia – Alegorias de uma Revolução” (2011)
Produção e políticas públicas em cultura digital”.
Rodrigo Savazoni (Casa da Cultura Digital, Festival CulturaDigital.br) e Leonardo Brant (Cultura e Mercado, Empreendedores Criativos).

Créditos fotos: Juliana Bassaco (1, 2, 3, 5, 6, 7, 8,9, 11, 12); Regina Elias/CCE (4, 10, 13, 14, 15)

Remix e políticas de cultura digital encerram o ciclo copy, right?

Eis que nos encaminhamos para o fim do ciclo copy, right? em São Paulo.

O 3º dia (ou penúltimo dia) do ciclo é amanhã, às 16h30, novamente na Matilha Cultural. Exibiremos “RIP: A Remix Manifesto” (2009, 86 min) na sala de cinema (3º andar) da Matilha Cultural. Já quase um “clássico” da cultura digital, “RIP” é narrado em primeira pessoa pelo diretor, o canadense Brett Gaylor, e trata de discutir as tentativas de controle do arsenal cultural de hoje (e do passado) com a desculpa de proteção dos direitos do autor.

Para tocar no assunto, Brett ilustra seu filme com casos como o do DJ Girl Talk, do copyright do “Parabéns a Você”, dos filmes da Disney e até do funk carioca brasileiro. E traz para a conversa gente como Lawrence Lessig, o “criador” do Creative Commons; Cory Doctorow, um dos mais requisitados defensores da liberdade na rede; e Gilberto Gil, que tem seu trabalho no MinC brasileiro elogiadíssimo no filme – cita-se que a cultura do remix sempre fez parte da cultura brasileira e evoca-se até mesmo o grande Manifesto Antropofágo de Oswald de Andrade.

O filme foi lançado oficialmente em 2008, no Canadá, mas disponibilizou material online muito antes, através do  Open Source Cinema, um projeto criado por Brett Gaylor que busca facilitar a circulação e o remix de vídeos online. A ideia original era que o filme fosse uma produção colaborativa, onde o público pudesse contribuir com material ou mesmo baixar, editar e remixar o filme de acordo com a sua vontade, seguindo a ideia da propagada pela cultura do remix.

Em seguida à exibição, faremos uma conversa com Pedro Markun – sócio da Esfera Hacks Políticos, integrante da comunidade Transparência Hacker e da Casa da Cultura Digital – sobre o que mudou no mundo da propriedade intelectual e da cultura digital desde a produção de RIP (2008) até hoje, dentre outros assuntos a surgir na hora. Infelizmente, tivemos um problema técnico na internet e não teremos mais a participação de Brett via Skype; pedimos desculpa sinceras.

“RIP” está disponível para download, para ver no YouTube (em 9 partes) e no Vimeo – mas te garanto que ver na bela sala de projeção do Matilha é bem melhor…

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Para encerrar o ciclo, na próxima terça-feira, 26 de junho, às 19h15, no Centro Cultural da Espanha, serão exibidos dois filmes sobre a produção audiovisual/digital recente: “Remixofagia – Alegorias de Uma Revolução” (2011, 16 min), realizado por Rodrigo Savazoni e a produtora Filmes para Bailar, ambos da Casa da Cultura Digital; e “Ctrl-V – Video Control” (2011, 56 min), de Leonardo Brant.

Remixofagia é um remix de trechos de filmes, entrevistas e músicas que faz uma espécie de “arqueologia” da cultura digital brasileira recente, com destaque para a luta pelo conhecimento livre e a presença das práticas de apropriação e reciclagem ao longo de nossa história. É uma realização de Savazoni, Rafael Frazão e Paula Alves, da Filmes para Bailar, e faz parte do projeto 5X Cultura Digital – cinco ensaios sobre a cultura contemporânea realizado por coletivos de audiovisual do Brasil.

Já “Ctrl-V” é um doc, dirigido por Leonardo Brant e produzido por uma extensa equipe, fruto de uma pesquisa sobre convergência audiovisual que explora as relações de poder e efeitos da indústria audiovisual sobre as sociedades contemporâneas. Traz entrevistas com pesquisadores/pensadores da indústria audiovisual internacional, como Edward Jay Epstein, Neil Gabler (EUA), Gilles Lipovetsky, Yvon Thiec (França), Massimo Canevacci (Itália) Octavio Getino (Argentina), Orlando Senna, Ismail Xavier, Newton Cannito (Brasil) e remixes de vários filmes hollywoodianos.

A pesquisa que originou o filme foi financiada pela Aecid (Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento), e o documentário tem o apoio do Sesc e co-produção da TV Cultura. Já fizemos uma espécie de “resenha” dele por aqui, caso queira saber mais do filme/projeto.

Depois da exibição, Rodrigo Savazoni – integrante da Casa da Cultura Digital e da nova CCD Santos, diretor do Festival CulturaDigital.br e mestrando em Ciências Humanas e Sociais pela UFABC – e Leonardo Brant, coordenador da plataforma Empreendedores Criativos e editor do site Cultura e Mercado, vão falar mais sobre seus filmes e também sobre políticas públicas de cultura digital, audiovisual em tempos de convergência, cultura livre, indústrias culturais (ou “criativas”) e outros assuntos decorrentes desses.

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Feira do Compartilhamento

Nesta terça 26 de junho, a partir das 16h, estaremos promovendo uma “Feira do Compartilhamento” no Centro Cultural da Espanha, a partir das 16h até o encerramento da exibição e dos debates. Uma estrutura montada com um HD externo, um roteador e um HUB com entradas USB facilitarão a troca de arquivos digitais presencialmente: basta levar seu HD, Notebook, pendrive e escolher o arquivo a compartilhar ou copiar. A intenção é poder reproduzir o ambiente de troca de arquivos comum na rede também presencialmente. Vale lembrar que todos os seis filmes exibidos no ciclo estarão disponíveis para compartilhar neste HD.

Controlemos, pois

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É em ritmo ainda lento, de preguiçosa volta de férias, é que o BaixaCultura segue com suas atividades. A indicação para relaxar o corpo, mas não o pensamento, é o webdocumentário Ctrl-V:VideoControl, resultado de uma pesquisa sobre a predominância do audiovisual em nossa sociedade.

Na verdade, é só a primeira das três partes do documentário. Mas essa parte de 23 minutos já é uma rica introdução para o assunto. O vídeo fala um pouco sobre a origem do distrito-capital da cultura norte-americana, Hollywood, e principalmente das consequências do padrão Hollywood de qualidade audiovisual. Grandes estudiosos do tema expõem seus pontos de vista sobre como sempre se deu a disseminação de valores políticos e econômicos através dos filmes veiculados pela maior industria cultural do mundo.

Dentre outras coisas, é esclarecido como essa indústria ganhou força. Por ser uma arte cara, em que era, e ainda é, necessário grandes equipamentos para a capitação e reprodução de imagens em movimento, pouquíssimos possuíam condições de fazer cinema no início do século XX. Os monopólios cinematográficos se formaram e criaram as primeiras salas de cinema, que estruturaram os chamados circuitos de distribuição. Estava criado um sistema exclusivo de entretenimento audiovisual dominante no mundo inteiro desde a Primeira Guerra. O governo americano tinha total consciência da força das imagens e por isso sempre apoiou a maior máquina de fazer filmes do mundo, uma grande exportadora do american way of life. A nossa conhecida Motion  Picture Association of Amercia (MPAA) inclusive tinha o nome de Motion Pictures Export Association entre 1945 e 1994, palavrinha esta que consta no site da MPAA da Ásia mas não no site da MPAA da América.

E o resto é conhecido. A industria cre$ceu e dominou o mundo. Mas chegaram os tempos de Internet, com seus computadores conectados, compartilhando conhecimento, música, livros, e, mais tarde, filmes. Então Hollywood sentiu o perigo de perder seus poderes altamente lucrativos e políticos e começou a caça às bruxas, ou melhor, aos piratas. Pressionando a Justiça americana com sua influência esmagadora, afundou o Pirate Bay e fez a mais recente baixa, o Mininova, além de processar individualmente diversos usuários  de programas P2P. Essa relação simbiótica entre o governo e a industria cultural é tratada ao fim do documentário, pelo jornalista Edward Jay Epstein que faz um alerta: “Teremos (já temos) uma enorme batalha pelo direitos digitais. Um dos principais meios de influência da Casa Branca sobre Hollywood é a necessidade que esta tem de que o governo vá a um país como, por exemplo, a Tailândia e diga: ‘Se quiserem que façamos X, Y e Z por vocês, inclusive socorro militar, queremos que façam algo sobre a pirataria digital”.

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Infelizmente, por enquanto só está acessível a primeira parte do documentário [que dá pra ver no site, nessa tela aí acima]. Isso porque as outras partes serão editadas colaborativamente, com trechos que estão disponíveis no canal do youtube do documentário. O resultado do processo de pesquisa e edição será um longa-metragem de aproximadamente 70 minutos no total das três partes do webdocumentário. Conforme o diretor Leonardo Brant, a produção de Ctrl-V:: VideoControl, contou com o apoio da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID)  e inúmeros pesquisadores e profissionais envolvidos com o tema, além da participação ativa da equipe do Instituto Diversidade Cultural e dos membros da Red Audiovisual Iberoamericana , fundações que Brant ajudou a criar.

O diretor, pesquisador de políticas culturais e autor de quatro livros sobre o assunto, revela que todos as entrevistas foram gravadas com uma câmera fotográfica digital com a função vídeo. Atitude compatível com seu discurso de democratização do acesso ao audiovisual, e que não comprometeu a qualidade das imagens. Outros recursos utilizados foram ainda o uso do preto e branco em todos os depoimentos, não desviando dos discursos a atenção do espectador ; e enfatizando esses depoimentos, a intercalação entre eles com trechos de filmes hollywoodianos, como do filme “This is the Army”, de 1943, e do famoso Matrix, de 1999.

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Amanhã, dia 26 de janeiro, o documentário completo será apresentado no primeiro dia do Fórum Social Mundial, em São Leopoldo, durante a 2ª Reunião Pública Mundial da Cultura. No dia seguinte, quarta-feira, o webdoc vai fazer parte da mostra “Outros Mundos – O Cinema Contra as Injustiças da Globalização”, em Porto Alegre.

[Para saber mais detalhes sobre as exibições, clique aqui. ]

Confira abaixo uma entrevista realizada por e-mail mui gentilmente concedida pelo diretor Leonardo Brant. Ele fala sobre o processo de pesquisa para o projeto, o que o levou a fazer tal inovação, como foram as filmagens, e quais os planos para Ctrl-V.

1)    Há quanto tempo está fazendo a pesquisa? Como ela funciona?

Pesquiso a relação entre diversidade cultural e democracia audiovisual desde 2002. A primeira iniciativa foi a publicação de uma coleção de livros a esse respeito, entre 2003 e 2005. Ctrl-V nasceu da convergência dessa pesquisa com meus experimentos audiovisuais. E sobretudo a partir da decisão de trabalhar com cooperação internacional, em parceria com o Divercult, organização cultural com sede em Barcelona. Ctrl-V é uma pesquisa-ação. Busca resgatar elementos históricos, sociais e mercadológicos relacionados ao audiovisual. O objetivo é ampliar as perspectivas políticas e mercadológicas do processo de convergência digital, alertando para riscos e visualizando as incríveis oportunidades que as tecnologias da informação e comunicação oferecem para a consolidação de uma cidadania cultural.

2) Por que a decisão de produzir o documentário?

Não tínhamos interesse em produzir uma pesquisa teórica. Nosso objetivo foi justamente testar a efetividade dos pensamentos e conceitos com que nos identificávamos. As propostas de comunidade de conhecimento, cultura da convergência, democracia audiovisual são reveladoras e nos fazem acreditar em nossa capacidade de exercer o poder e ocupar as brechas de controle e opressão do capitalismo. Mas até onde podemos esticar essa corda? Além de tratar da propriedade intelectual, por exemplo, buscamos ocupar as brechas da legislação atual. Colocamos o tempo todo o nosso conhecimento, e das redes com que dialogamos, à prova.

3) Quais os motivos para a divisão da produção em três partes? Quando serão distribuídas no site as outras?

O primeiro motivo é que o tempo da Internet é diferente do tempo da sala de cinema ou da televisão. O tempo de maturação de um produto cultural na web também é diferente. Exige a ativação de redes, a discussão de cada um dos pontos abordados em cada uma das partes. O material é denso, complexo. Depois de seu percurso na web, queremos avançar nas possibilidades de difusão em outras plataformas.

4) Há o projeto para extensão da pesquisa em outras plataformas, como um livro, não?

Começamos a pensar no livro apenas agora. É claro que cada entrevista já foi pensada para o suporte livro, mas ainda não tinha ideia de como iria organizar todo o material pesquisado. Agora já temos um experiente e competente editor trabalhando nesse conteúdo, o Ricardo Giassetti. Nossas discussões sobre formato, linguagem, edição apenas começaram. É cedo para falar de como será o livro.

5) Como foi a experiência de filmar com uma câmera fotográfica?

A câmera utilizada em todas as imagens do webdoc é Canon G10, de 14,7 megapixels. A resolução de vídeo é de 640 linhas, suficiente para o ambiente web, mas não para outros suportes, sobretudo numa era de TV em alta definição. Fiz uma pesquisa razoável com máquinas fotográficas, até que cheguei num modelo bem compacto, que guarda as características de um instrumento caseiro, mas oferece algumas possibilidades mais avançadas de fotografia. Não queríamos fazer um vídeo caseiro, mas sim um filme, com textura, linguagem e som de cinema. Tivemos inúmeras dificuldades para buscar uma aproximação maior com esse tipo de linguagem, mas acho que o resultado foi bem positivo. Hoje utilizaria outras câmeras disponíveis no mercado, sobretudo com maior resolução de vídeo e som externo. A captação de som foi, em termos técnicos, o maior complicador de todo o processo.

6) Depois da exibição no Fórum Social Mundial, quais os futuros planos para a produção?

Redes sociais. Precisamos dialogar com sites e redes focados na conversação sobre cinema, televisão, convergência digital. Queremos dialogar também com outros produtores de webdocumentários focados nessa temática. Por fim, vamos lançar uma mostra com debate, testando uma ampla discussão em ambiente transmídia. A mostra será realizada uma vez por mês na Matilha Cultural, um espaço interessantíssimo no centro de São Paulo com quem nos identificamos muito.

[Marcelo De Franceschi]

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