Simpósios, seminários e entrevistas

.

As discussões sobre a informação na era digital não dão folga essa semana. Tem três ocorrências bem importantes que parecem ter combinado de acontecer na mesma época, justamente a em que estamos com pouco tempo pra escrever. Hoje começa o Copyfight, seminário que discutirá por dois dias o tema Propriedade Intelectual e Pirataria. O evento é organizado pelo Pontão da ECO da UFRJ e é uma continuação do Fórum Livre de Direito Autoral, ocorrido em 2008 e divulgado por aqui. A programação consiste em laboratórios práticos de conhecimentos livres durante a parte da tarde e em palestras à noite. As incrições para as oficinas parecem ter se encerrado, mas pra quem mora longe dá para acompanhar os quatro interessantíssimos debates através da transmissão ao vivo, que segundo o site estará disponível lá, ou pela mala-direta e pelo grupo de e-mails do Pontão.

Um outro evento de debates que está acontecendo é o Simpósio Internacional de Políticas Públicas para Acervos Digitais, que como o nome explica, atenta para a digitalização de conteúdos de instituições brasileiras. Legislação, padrões, tecnologias e os projetos são as pautas dos quatro dias do evento, que começou segunda, dia 26, e termina amanhã, dia 29. Assim como o Copyfight, o Simpósio também tem transmissão ao vivo, mas pode ainda ser acompanhado pelo twitter “oficial” @culturadigital e pelos “extra-oficiais” @gabiagustini e @andredeak, dois dos jornalistas que integram a FLI multimídia, empresa que tem feito a cobertura jornalística no site oficial do evento. A Fli, vale dizer, integra a Casa de Cultura Digital, o simpático agrupamento mezzo-anárquico sediado na tranquila rua Vitorino Carmilo, na Barra Funda, São Paulo capital, que desde o início do ano tem estado a organizar eventos e propor discussões no âmbito da cultura digital e que, por conta disso, mui provavelmente, tem sido o mais atuante catalizador no que diz respeito à este(s) assunto(s) no Brasil.

A organização do simpósio está a cargo do Ministério da Cultura, do Projeto Brasiliana USP, que tem digitalizado e tornado possível o acesso à documentos e obras essenciais para se conhecer a história do país [e que já deveria ter sido mais comentado por aqui, aliás], e da Casa da Cultura Digital. Como o simpósio está em andamento, algumas boas discussões já foram travadas, mas menos mal que elas estão bem documentadas no site oficial. Em especial, destacamos o post que fala de Pablo Ortellado – historiador, pesquisador do Gpopai-USP – que defende a tese de que o direito autoral não faria sentido no contexto da produção/consumo de livros no Brasil de uma forma tão cartesiana e precisa que causa estranhamento, como é dito no início do texto do post; e o texto que trata da disponibilização (gratuita) para download de toda a poesia de Vinícius de Moraes, aquele que Drummond dizia ser o único poeta nacional que realmente viveu como poeta – olhe a aventuresca vida do poetinha que você entenderá o porquê.

Hoje e amanhã a programação continua com mais quatro mesas de debate [que, vale repetir, podem ser acompanhadas também do conforto do lar na transmissão ao vivo no site].

E o último acontecimento desses sete dias correntes foi a participação do nosso já conhecido Gerd Leonhard no Roda Viva (foto), o tradicional programa de entrevista que ocupa a grade de segunda-feira à noite na TV Cultura faz mais de 20 anos. A edição do programa foi gravada na última passagem do mediafuturist pelo Brasil , em 24 de fevereiro deste ano, quando o alemão residente da Suiça fez uma palestra sobre “o futuro da comunicação e midia social“.  Aqui tem algumas fotos da entrevista  – de onde retiramos essa aqui de cima, por sinal – e neste endereço será possível assistir alguns trechos do programa, daqui a dois longos meses. “Por ser um programa em outro idioma, o processo de edição é diferente. A íntegra estará disponível 2 meses após a exibição.” informou-nos o twitter do programa. Aproveitando a ocasião, Gerd lançou em seu blog a tradução para o português de uma carta aberta para a indústria fonográfica independente, que tem o grandioso título de “Carta aberta de Gerd Leonhard para a Indústria Fonográfica Independente – a música 2.0 e o Futuro da Música são seus – se você conseguir resistir a tentação de se tornar apenas outro cartel da música“.

A carta é interessante e algo polêmica. Defende uma boa ideia, a de que se tu (gravadora independente) parar com o compartilhamento tu vai acabar com o negócio da música. Ao final, traz aquilo que Gerd, por auto-instituído cargo, sabe fazer de melhor: previsões. Reproduzimos um trecho da carta aqui abaixo, que foi traduzida para o português por Juliano M. Polimeno e pode ser livremente distribuída, desde que para fins não comerciais e que seja feito a distribuição pela mesma licença creative commons. Recomendamos a leitura da original completa, nem que seja na busca de uma argumentação (contrária, até) mais consistente:

Dentro de 18 meses, em muitos territórios chave para a música ao redor do mundo, redes wireless de banda larga e redes específicas para conexão entre dispositivos irão conectar todos os aparelhos concebíveis entre si, assim como com um gigante depositório de conteúdo online – ou deveria dizer switch-boards – que conterá toda e qualquer música, filme ou programa de TV imaginável.

Se você pensa que o “compartilhamento” é um bom negócio agora, espere mais 2 anos – ele será 100 vezes mais rápido e disponível para todo e qualquer dispositivo (não só computadores). Três bilhões de celulares e um bilhão de tocadores irão se conectar perfeitamente entre si.

O acesso wirelless de banda larga e os dispositivos se tornarão tão baratos, super-rápidos e onipresentes que o compartilhamento de conteúdo será o padrão, em alta velocidade e com qualquer um que estiver próximo. Busque – Ache – Selecione – Troque. Clique e tenha.

Como você pode monetizar isso? Licenciando participação – e as redes e dispositivos que a permitem. Você terá que licenciar o uso de toda e qualquer música nestas redes, e fazer ofertas universais irresistíveis, irrefutáveis e imprescindíveis àqueles que a administram. Esses negócios de licenciamento devem ser conversas e não monólogos. Não um dedo apontado para os ISPs mas um grande, brilhante e atrativo incentivo.

[Leonardo Foletto, Marcelo De Franceschi]

Sita canta o blues

Esta cela costuma ser um freio pra muita criatividade. Novos e velhos filmes, músicas e livros são deixados de serem criados e consumidos pelo fato de que muito do que já foi feito estar ali dentro, inacessível e na maioria das vezes esquecido, mofando. Os prisioneiros só costumam ver a luz quando estão de pé se segurando nas barras até que cansam e vão para o fundo escuro e silencioso. O grande problema, além das grades, é o cadeado, cujo poder de liberdade é de quem tem as chaves, e não de quem produziu e deixou o que está aprisionado. Para abrir, só na base da fiança, quando se tem.

Quem quase foi vítima dessa prisão foi Sita, nascida de uma flor de lótus num lago.  Ela é personagem da epopéia Ramáiana, poesia clássica da mitologia Hindu, que conta a história dela com Rama, um avatar azul [!] de um dos deuses indianos. Acontece que Sita resolveu cantar uns blues  antigos na mais recente adaptação da história. Numa animação lançada há pouco mais de dois anos, as letras das músicas são interpretadas na íntegra pela personagem e se integram mui bien à narrativa original. Mas o “problema” por ela ter quase ficado presa era que as canções que Sita entoava só foram autorizadas para a cantora de jazz Annette Hanshaw. Quem foi ela? Ora, foi uma cantora que teve o auge de sua carreira em 1920, ou seja, quase um século atrás. Tudo que Hanshaw cantou naquela época ainda está atrás das grades do copyright, o que impossilita a reprodução em quaisquer meios audiovisuais públicos, como televisão, cinemas e teatros, sem que se pague os sagrados direitos do autor. Mesmo que esse autor já não exista mais e que haja a possibilidade de relembrá-lo.

E esse foi o empecilho enfrentado pela diretora da animação, Nina Paley, para conseguir distribuir sua arte, o filme Sita Sings The Blues. Paley teve que bolar um complicado esquema de negociação para liberar Sita da jaula. Os detentores dos direitos das músicas pediram 220 mil mangos para regularizar o filme. Paley pechinchou e o preço diminuiu para 50 mil doletas. A diretora teve que apelar então para um empréstimo e conseguir pagar o valor, na condição de que seriam produzidas no máximo 5 mil DVDs de cópias promocionais. Esse tipo de cópia geralmente é entregue a comentaristas, comitês de festivais e jornalistas, mas Paley pegou os arquivos dessas cópias, hospedou on-line e licenciou em Creative Commons 3.0, ou seja, qualquer pessoa pode compartilhar, distribuir, exibir à vontade. Só não pode vender, porque aí tem que pagar o pessoal das gravadoras.

Agora, Nina Paley conta com o retorno da audiência para ajudar a pagar o custo do filme – de 80 mil dólares – e do empréstimo. Através de uma parceria com o ótimo site QuestionCopyright, Paley espera as doações do público – há inclusive um contador da porcentagem que falta para chegar no valor do empréstimo – e tem uma loja de vendas de produtos do filme, como  adesivos, bótons, camisetas, pôsters, dvds e cds da trilha sonora. Na imagem de cada produto, é indicado o quanto do valor será revertido para a autora. E segundo o site, as doações tem sido estáveis desde a liberação de Sita:

This is the opposite of the traditional “burst and fade” distribution model that so many works endure, dragged out of circulation prematurely to avoid competing with new releases from the same publisher. Because Nina’s film is audience-distributed, it’s in circulation forever, whenever and wherever people want to see it. And all those audience members are potential customers and donors, as the financial results bear out.

[Isto é o oposto do modelo tradicional de distribuição “estouro e desaparecimento” que suporta tantos trabalhos, deixados fora de circulação prematuramente para evitar competir com os novos lançamentos da mesma editora. Como o filme de Nina é distribuído pela audiência, está em circulação para sempre, quando e onde as pessoas quiserem vê-lo. E todos os membros da audiência são os potenciais clientes e doadores, como confirmam os resultados financeiros.]

A confiança nos usuários era tanta que foi criada uma página Wiki no site do filme. Ali estão disponíveis os links para as versões de vários tamanhos, os locais e datas das exibições pelo mundo afora, mais de 20 legendas diferentes, os audios dos comentários da diretora, além de sugestões, perguntas frequentes, curiosidades e leituras recomendadas. Aliás, o arquivo .srt da legenda em português está aqui, e foi feito por uma brasileira. Todas as versões do longa estão hospedadas no site Archive.org, que indica que o filme já foi baixado mais de 150 mil vezes.

E não é pra menos. O filme faz uma feliz comparação entre as dificuldades de relacionamento dos dois deuses hindus com uma situação amorosa parecida pela qual passou a diretora. O Ramáiana é contado resumidamente por três bonecos de teatro de sombras que vão improvisando o que sabem sobre a lenda, intercalados por  outras montagens, clipes musicais com as músicas de Hanshaw e partes que contam a história da separação de Paley. São quatro tipos distintos de animações combinadas numa comédia romântica musical. Uma arte muito bem detalhada, pois em apenas um trecho existem 15 elementos colados, como conta a diretora em um post de seu blog. Advertimos que há uma parte do filme que pode causar estranheza naqueles que não estão acostumados com o cinema indiano. Lá pelo meio dos 80 minutos de filme, descem umas cortinas e surge uma tela com a palavra “Intermission” e uma contagem regressiva de uns três minutos – tipo de cena comum em Bollywood, nome dado à poderosa indústria cinematográfica da Índia, e aqui colocada como homenagem. Durante esse tempo, os personagens aproveitam e vão no banheiro ou compram pipoca, costume dos espectadores locais durante esses intervalos. De resto, o enredo é um tanto normal para a maioria dos mortais espectadores.

Desde o lançamento, em 2008, o longa-metragem já ganhou 28 prêmios em festivais, de acordo com a página da Wikipédia. Outra produção da mesma autora que vem circulando já faz um tempo na rede é o videozinho de um minuto “Copying is not Theft” [Copiar não é Roubar], em que é explicado o conceito de que cópia não exclui, mas sim se soma ao que já existia, praticamente o mesmo conceito de outro video da mesma série chamado “All Creative Work Is Derivative” [Todo o trabalho criativo é derivado”].  E mais dez curtas estão planejados para Paley produzir na mesma linha.

Assim, Nina Paley está divulgando a milenar cultura indiana e os primeiros blues, compostos há 90 anos, obtendo junto reconhecimento, retorno financeiro e mais trabalho, mesmo depois de dois anos do lançamento de sua obra. Nada mal para a dona de um pássaro que por pouco não ficou preso dentro da gaiola.

[Marcelo De Franceschi.]

Lionshare, ficção P2P

.

Na edição impressa da segunda-feira dia 8 de fevereiro do Caderno Link, do Estadão, uma das mais importantes referências brasileiras quando se fala de caderno de CULTURA digital (e não de tecnologia, como a maioria dos cadernos dos jornais brasileiros), traz uma matéria com os diretores e produtores de The Lionshare, uma ficção que trata do contexto de um simpático jovem usuário das redes sociais e assíduo frequentador das redes de compartilhamento. Um cara como nós ou você que assistem, escutam, leem as coisas e que depois conversam sobre isso com os amigos.

O filme, que pode ser baixado por torrent clicando no cartaz lá em cima, é o 3º lançamento do site Vodo, uma espécie de coletivo de 22 distribuidores de torrent ou compartilhadores de redes P2P que ainda estão vivos, como o The Pirate Bay, o Mininova, o Lime Wire, o Vuze (ex-Azureus), só pra citar os mais populares aqui no Brasil. Aliás, sites e/ou programas como esses fazem uma ponta na produção, dirigida pelo estreiante Josh Benhard, que juntou um pouco de dinheiro, mais os amigos dele e resolveu botar umas câmeras na mão e umas ideias pra fora da cabeça.

Evidentemente que a matéria acima linkada já contou uma boa parte do enredo do filme, mas um outro blog também teve uma boa visão da ficção. Segundo o OpenAttitude (Atitude Aberta):

the film is both subtle and effective at showing the stake we all have in the media we consume, whether it’s paid for or not. There’s no finger-wagging here, as the sharing (or piracy, as per your point of view) isn’t put in any kind of judgmental light. It’s just there, in the background, but as pervasive as the media on real P2P networks tends to be.”

[o filme é ao mesmo tempo sutil e eficaz ao mostrar a parte que todos temos no consumo de media, seja paga ou não. Não há dedos apontados aqui, como o compartilhamento (ou pirataria, depende do seu ponto de vista) não é colocado a luz de nenhum julgamento. Isso só está aqui, nos bastidores, mas tão penetrante quanto a media na redes P2P reais tendem a ser.”]

Há momentos de exceção, é claro. Em certa parte, Nick, o protagonista, e um amigo amaldiçoam os grandes estúdios por não permitirem a eles assistirem a uma série de televisão, ou quando Nick e a namorada desse mesmo amigo execram a atitude de uma instituição de ensino cobrar a mensalidade além do valor do material didático. Mas no restante do média-metragem, o tema do compartilhamento de arquivos está tão natural quanto o modo de filmar ou a atuação dos atores. A produção encarna totalmente o conceito do “meio é a mensagem”, de Marshall Mcluhan, como dito claramente no site oficial. Feito no faça-você-mesmo, da necessidade de compartilhar ideias, informações, bens culturais, arte, que estão espargidos entre todos os nossos comportamentos, desde um simples flerte ou andando internamente conosco nas ruas até uma pizza com os amigos. Sendo ele mesmo um desses bens culturais, você pode baixá-lo e passar uma hora com seus amigos ou com sua namorada se vendo na tela.

Buscando promover esses momentos e difundir a criativa narrativa, o BaixaCultura se atracou a traduzir a legenda do filme, concedida a nós na maior boa vontade pelo diretor.  É sempre bom ver obras que retratam os hábitos das gerações, e esperamos que grande parte do Brasil possa ter acesso a história contada em The Lionshare. Indicamos também, caso você queira saber mais sobre o submundo dos torrents, o pequeno bônus Are you on The Lionshare?, disponibilizado no canal do filme no Youtube e realizado com os materiais de Steal This Film II, já citado por aqui e que aí sim se aprofunda na livre distribuição de conteúdo. Atentamos ainda para a licença sob a qual está o filme, a Creative Commons 3.0, que teve sua versão brasileira apresentada na Campus Party 2010 e que merece um debruçamento maior de nossa parte num futuro próximo.

***

Agora chega de enrolação. O arquivo SRT com a legenda em português está aqui. Baixe, compartilhe, converse. Boa sessão.

[Marcelo De Franceschi.]

.

Ciclo copy, right?

ciclo_copyright_final_curves

O BaixaCultura, em parceria com o Cineclube Lanterinha Aurélio, ligado à Cooperativa dos Estudantes de Santa Maria (Cesma), orgulhosamente apresenta o ciclo “copy, right?“, a ocorrer em três quartas-feiras deste mês de dezembro no auditório do Centro Cultural da Cesma, em Santa Maria-RS, com a exibição de quatro filmes que discutem cultura livre, direito autoral, pirataria digital e outros temas que este blog vem falando desde há um pouco mais de um ano.

O ciclo começa na quarta feira depois de amanhã, 9 de dezembro, com “Cópia Boa, Cópia Má”, auto-referenciado como um “documentário sobre o estado atual do copyright e da cultura”, dirigido e produzido pelos dinamarqueses Andreas Johnsen, Ralf Chistensen e Henrik Moltke e tema de nosso primeiro post, no longínquo 15 de setembro de 2008. Lançado em 2007, o filme, com duração de 59 minutos, levanta questões delicadas relativas aos copyrights e a propriedade intelectual, trazendo interpretações tanto do ponto de vista dos entusiastas da cultura do remix quanto dos defensores da manutenção do status quo dos direitos autorais.

No segundo dia serão exibidos “Roube este Filme I” e “Roube Este Filme II“, ambos produzidos pela misteriosa The League of Noble Peers e finalizados em 2006 e 2007, respectivamente. O primeiro documentário, de 32 minutos, é centrado no caso do Pirate Bay, e também é um velho conhecido nosso, já tendo aparecido por aqui na nossa postagem campeã de comentários até agora. O segundo, com duração de 44 minutos, busca entender questões tecnológicas e culturais que estão por trás da chamada “copyright wars”, além de discutir algumas transformações culturais e tecnológicas em andamento com o advento da internet.

.

Por fim, na quarta feira dia 30, antevéspera do reveillon, será exibido o brasileiro “Brega S/A“, documentário dirigido por Vladimir Cunha e Gustavo Godinho, finalizado em setembro deste ano. O filme trata da surpreendente cena tecnobrega de Belém do Pará, um fenômeno cultural que nos últimos tempos tem atraído a atenção mundial por conta de sua inovadora estratégia de comercialização, onde a pirataria entra como mais um elemento parceiro na circulação do que um “inimigo” a ser eliminado.

Como os filmes a serem exibidos e o próprio nome do ciclo sugerem, a ideia que percorre esta amostra é a da cópia livre, do livre compartilhamento de informação e de ideias. Todos os documentários estão disponíveis gratuitamente na rede, e alguns deles – caso dos exibidos no primeiro e no segundo dia do ciclo – incentivam a exibição/reprodução e até remixagem de seus conteúdos. Eles partem do princípio, que há tempos vem sido discutido por aqui, de que a criação intelectual se defende ao compartilhar, algo que vem a calhar com outra ideia, trazida pelo notório coletivo italiano Wu Ming, de que obras intelectuais não devem ser apenas produtos do intelecto, mas produtoras de intelecto, como bem Reuben tratou de explicar quando postou a sua tradução de um dos inúmeros textos do coletivo.

Vale lembrar que a cada dia do ciclo um convidado irá comentar os filmes no auditório da Cesma, um tipo de prática corriqueira e importantíssima na atividade cineclubista. Além disso, por aqui também teremos um acompanhamento especial do ciclo; um post com informações básicas sobre cada filme alguns dias antes de sua exibição, e outro com algumas críticas e comentários logo na sequência da exibição dos filmes, como forma de estimular o debate e o confronto saudável de ideias para além do espaço do cineclube.

**

Para finalizar, o lembrete:

Ciclo Copy, right?


Cineclube Lanterninha Aurélio

Auditória da Cesma, Professor Braga 55

19h, de graça

9/12 – Cópia Boa, Cópia Má (Dinamarca, 2007, 59 min)

23/12 – Roube Este Filme I (Reino Unido/Alemanha, 2006, 32 min)

Roube Este Filme II (Reino Unido/Alemanha, 2007, 44 min)

30/12 – Brega S/A (Brasil, 2009, 60 min)

Apareçam!

.

[Leonardo Foletto.]

P.s: Agradecimentos ao Cabala e a Cesma pelo apoio na organização do ciclo, e à Carla pelo “apoio gráfico”.

.

“Pirataria” Digital na Universidade

.

Já havia comentado via twitter, mas por aqui não: ontem participei da aula de Comunicação Digital da Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, com uma apresentação sobre “Pirataria” digital. O convite me foi feito pela professora Luciana Mielniczuk, minha orientadora na graduação na UFSM e desde então parceria de sempre, a quem eu agradeço pela oportunidade.

A apresentação foi centrada na questão da mudança de paradigma na Indústria Cultural a partir do advento da internet, e de como o direito autoral hoje precisa ser urgentemente revisto a fim de poder acompanhar o desenvolvimento tecnológico (e o consequente cultural) da sociedade. Fiz uma pequena revisão sobre a questão da autoria através dos tempos, e também comentei algo sobre o Copyleft e o Creative Commons. Foi uma ótima experiência, em todos os sentidos. Agradeço aos alunos e a Luciana pela receptividade.

Aqui abaixo está o ppt da apresentação, estruturado de forma bem simplificada e didática. Críticas e sugestões de melhoria para uma próxima apresentação são mais que bem-vindos.

.

[Leonardo Foletto.]

Crédito foto: 1.

Seminário Música & Movimento: A ida e a vinda

São Paulo, sexta-feira, 06 da matina. Atravessei a noite adiantando uns trabalhos (ou tirando o atraso, nunca sei direito) e às seis me sinto como a cidade que não quer sair de debaixo do cobertor de neblina. Banho gelado & café expresso, arrumo a mochila, imprimo alguns textos e desbravo a névoa rumo ao aeroporto.

*

O voo atrasa e tenho tempo de ler tudo o que deveria ter lido e não li. A aeromoça tem longos braços finos, muito bonitos sob as luvas brancas. Penso que estamos nos desviando do foco quando pensamos na cultura digital como a matriz das mudanças na legislação autoral, e que na verdade a internet apenas torna visível uma demanda muito mais profunda, que lhe é anterior e lhe sobreviverá. Decolo.

*

Não me lembro de BH. Estive em Minas há uns bons 10 anos e o único registro que guardo é uma sopa fenomenal que experimentei em Ouro Preto. Vai entender. Apesar disso, carrego comigo um grande carinho pela cidade. Porque gosto de Pato Fu e porque todas as mineiras que conheci ao longo da vida possuem pernas grossas. Porque BH tem Ricardo Aleixo, Bruno Brum, Makely Ka, Ludmila Ribeiro, Leo Gonçalves — a turma da arruaça! Por causa da impressão que a cidade me dá de possuir uma produção cultural, mais do que intensa, inquieta.

*

Atravesso uma distância de quase 1h entre o aeroporto de Confins e o hotel, e todo aquele verde de todos aqueles campos e a sensação de ar puro que para um maranhense em Sampa significa “respirar como antigamente” me dão uma espécie muito gentil de felicidade.

*

Chego ao hotel. O recepcionista me pergunta de que banda eu sou. “Da outra banda da terra”, penso em responder. “Não, eu vim pro seminário”, respondo. A reserva está no nome de “Reuben da Silva Costa” e isso causa algum problema. Normal. Acontece o tempo todo. No site do seminário, por exemplo, eu sou “Reubem da Cunha Costa”. E o email que recebi com a confirmação do horário do voo começava com um insuperável “Prezado Eduardo”.

*

Tomo um banho. Anoto alguma coisa, olho pela janela. Desço. Encontro Ana Paula, simpática como todas as meninas da produção do evento. Ela me dá um guia turístico de presente e conversamos um pouco. Tenho 2h até o início da primeira mesa e resolvo caminhar pela cidade.

*

Acredito que a alma de uma cidade esteja sempre em certas coisas, e o centro é uma delas. É no centro das cidades que é possível concretamente testemunhar a briga entre a sobrevivência das pessoas e a permanência da História, entre a existência mais banal e os registros monumentais da existência coletiva. O centro é sempre decadente, e ao mesmo tempo conserva sempre uma verdade que não se encontra nos bairros ricos ou nos shoppings. Me sinto muito à vontade.

*

Passo por acaso pelo Parque Municipal, onde à noite rolam os shows (volto a eles adiante) e onde agora alguém passa o som, acho que Patrícia Ahmaral. Um maluco me cutuca, chama minha atenção e aponta para o parque. Percebe que eu não entendo bulhufas e finalmente diz: “mais tarde eu vou tocar ali. Aparece lá!”. “– Claro!”, respondo, depois me lembro que é Conexão Vivo.

*

Acredito que a grande lição do evento (e a grande lição da música para os demais mercados culturais no Brasil) seja a capacidade de promover a confluência de questões referentes à criação musical e ao mesmo tempo ao contexto de produção. De modo que além dos shows (quantos festivais do mesmo porte vão além dos shows?), rolaram oficinas voltadas para criadores (como “Fisiologia da voz e interação corpo voz“, por exemplo) e outras de interesse mais, digamos, geral, como Divulgação de música. Isso sem falar dos seminários.

*

Eles acontecem no auditório do Museu Inimá de Paula. Na primeira mesa da sexta-feira, A nova lei de direitos autorais brasileira e seus impactos no setor musical, Marcos Souza (coordenador geral de Direito Autoral do MinC), Fernando Brant (compositor e presidente da UBC), Glória Braga (superintendente executiva do ECAD) e o cineasta (e presidente da Associação Curta Minas) Guilherme Fiúza na mediação. Guilherme iniciou os trabalhos observando que “o audiovisual brasileiro não conseguiu acompanhar as mudanças sofridas pelo mercado”, e que tinha muito a aprender com a música, o que nos remete ao parágrafo anterior e ao post passado.

*

A apresentação da proposta de reforma da atual lei autoral brasileira (aquela que em apenas 10 anos se tornou fantasticamente obsoleta) pelo representante do MinC congregou um bom público, e a mesa que deveria terminar às 16h se extendeu até as 17h:30. A reforma merece um post separado, que virá, mas por agora anoto o seguinte: me pareceu bastante evidente que as propostas de reforma se resumem à correção de coisas obsoletas (como a irrestrita criminalização das xerox, por exemplo, que transforma todo e qualquer estudante universitário em criminoso) e a um ajuste da lei às práticas culturais surgidas nos últimos anos. Quer dizer, são alterações não só legítimas, como óbvias. Para minha surpresa, praticamente metade do auditório discorda.

*

No meio do papo, um sujeito simpático e barbudo senta na cadeira vazia ao meu lado. Reconheço-o: é Makely Ka, grande compositor e poeta, de quem partiu o convite para que eu integrasse a mesa seguinte. Me apresento e conversamos um pouco, ele me mostra o terceiro número da Revista de Autofagia e fico devidamente emocionado. Por vários motivos, motivos para outro post.

*

As posições no debate são muitíssimo bem definidas. Há os que propõem mudanças na legislação autoral (e que, no caso dos artistas, já trabalham concretamente com mecanismos alternativos), os que repudiam completamente qualquer tipo de mudança e os que ficam simplesmente assustados diante daquilo que não entendem. As posições atravessam os dois debates, e o resultado é sempre o mesmo: ânimos exaltados e uma infinita indisposição para se deixar convencer — a maioria dos antagonistas presentes já discutiu tudo aquilo antes, já chegaram no debate armados até os dentes. E eu no meio, achando tudo muito divertido e saudável.

*

Ao meu lado na segunda mesa, Um balanço sobre a licença Creative Commons, estavam Sérgio Branco (professor da FGV e representante do Creative Commons) e o advogado Hidelbrando Pontes. Como o Fernando Brant da primeira mesa (mas muito mais articulado), Hidelbrando é um senhor muito simpático, mas bastante raivoso ao atacar o Creative Commons. Não lhe tiro a razão.

*

Embora discorde dos argumentos dos senhores (que estão — sobretudo Fernando Brant — preocupados com o dinheiro que vão perder fora da indústria tradicional, ou conservam a visão romântica de que no mercado musical “aparece quem tem talento”, como se o mercado fosse regido por leis estéticas, e não econômicas, e como se a realidade não mostrasse que boa parte dos milionários da música não é exatamente gente boa de som), preciso dizer que não tiro a razão das pessoas que desconfiam do Creative Commons. Trata-se de um organismo privado com pretensões jurídicas, de uma licença autoral com pretensões de modelo de gestão de negócios, e essas imbricações não estão claras nem foram muito bem esclarecidas por Sérgio Branco — um sujeito tão tímido quanto simpático, de fala extremamente didática, mas que no fim das contas foi bombardeado com perguntas do tipo “quem financia o CC?”, ou “afinal, quem financia o CC?”, ou ainda “responda logo, QUEM FINANCIA O CC?”, e não foi tão incisivo em suas respostas quanto as pessoas foram em suas perguntas.

*

No entanto, repito aqui o que disse em minha fala de abertura: as licenças Creative Commons têm recebido um número cada vez maior de adesões, e isto fala, mais do que sobre o sucesso do projeto, sobre uma demanda social por qualquer coisa que não seja o maldito copyright. E não apenas por parte dos artistas. Se existe, por um lado, um puta desequilíbrio nas relações entre artistas e intermediários, também é problemática a relação entre indústria e público — não conheço nenhum ouvinte de música que queira salvar a pele das gravadoras, para dar um exemplo simples. Isto não pode ser ignorado, e as críticas ao CC não podem ignorar o avanço que a presença da licença no Brasil representa. Quaisquer que sejam os problemas do CC, eles não podem nos cegar aos problemas ainda maiores do copyright. Dito isto, compartilho algumas frases emblemáticas que anotei durante aquela tarde.

*

“O Creative Commons é a anarquia!” (Glória Braga, fugindo do assunto da sua mesa e mostrando que não faz ideia do que está falando.)

*

“A rede é anárquica, e os internautas são megalômanos que acreditam que irão reproduzir as relações sociais na rede” (Hidelbrando Pontes, ignorando que ele mesmo é, provavelmente, um internauta, e que não há mais nenhum tipo de relação social que não seja mediada pela tecnologia.)

*

“Já pensou a loucura que vai virar?” (Não lembro o nome do rapaz que disse isso, mas ele estava na platéia e era estudante de direito. O contexto é o seguinte: ele estava preocupado com a figura da “obra derivada” que algumas licenças CC permitem. Quer dizer que eu libero a minha obra pras pessoas remixarem, por exemplo. É curioso que o cara tenha se apresentado como pesquisador no papo rápido que batemos depois do debate, e que não tenha passado pela sua pesquisa que, a rigor, toda obra é derivada, e antes que uma licença viesse regular este fato já havia o fato, o processo cultural e sua legitimidade).

*

Para além dos posicionamentos, é preciso dizer que nenhum dos presentes tinha a intenção de esgotar o debate, e que todos concordavam num ponto: é fundamental que ele seja tratado assim, de maneira aberta, pela sociedade. Cito como exemplo o Hidelbrando, que ao longo da discussão não disse absolutamente nada com que eu pudesse concordar, mas que estava visivelmente feliz de podermos todos pensar estas questões publicamente.

*

Por falar nisso, justiça seja feita. Fernando Brant é outro sujeito com quem não dá pra concordar, com o demérito adicional de que o figura é uma grande caricatura de si mesmo e está longe de ser um bom expositor de qualquer coisa. No entanto, é preciso pontuar que ele tem uma filha linda com quem tive o privilégio de levar um longo papo à noite, durante o qual ela fez um comentário bastante esclarecedor. Fernando faz parte de uma geração que foi sistematicamente roubada pela indústria (e que também ganhou grana, claro), e em cuja pauta estava bem presente o estabelecimento de uma legislação/fiscalização. “Quando se fala em mudança na lei autoral, a leitura que ele faz é de que estão mexendo em algo que a geração dele lutou para conquistar”, me diz a menina de nariz altivo, sotaque musical e lindas unhas vermelhas. É evidente que isso não é motivo para não atacá-lo em suas posições no mínimo desinformadas, mas considero uma espécie de lealdade entre antagonistas reconhecer a legitimidade do seu ponto de vista.

*

Findo o debate (os trabalhos deveriam terminar às 18h, se prolongaram até as 19h e só terminaram porque o museu precisava fechar), continua a conversa. Comento com Sérgio Branco que no fim das contas, antes da lei, antes da tecnologia, esbarramos todos num problema muito mais profundo e duradouro: a mentalidade das pessoas. Na porta do museu, sou abordado pelo Hidelbrando, que diz que sou um “garoto muito inteligente”, e que não devo cair no papo do Creative Commons. Digo-lhe que minha posição é mais radical que a do CC, que para mim não passa de um punhado de empresários interessados em re-aprender a ganhar dinheiro no contexto digital. Não sei até que ponto isso o deixou satisfeito. Bato o mesmo papo com a Ana Paula, enquanto ela me ajuda a colocar a complicada pulseira que me dará acesso aos shows.

*

Muitos dos presentes desceram juntos até o Parque Municipal. Entre eles, o próprio Makely (de quem me perdi e que fui reencontrar apenas no final do evento) e o mestre Israel do Vale, que atacaria de DJ nas próximas horas. Conheço uma turma da assessoria, a Simone com suas elegantes meias vermelhas e a vontade de voltar ao Maranhão, o Fabrício, seu amigo Vladimir (figura!), suas respectivas esposas e a Isabel, filha do Fernando.

*

Pegamos o finalzinho do show da Soatá (DF), que foi o bastante pra me fazer anotar o nome da banda para futuro download. Mas confesso que perdi os dois shows seguintes (Enéas Xavier+Flávio Venturini e Patrícia Ahmaral+Vander Lee), durante os quais preferi conversar com o grupo de mineiros que me adotou. Uma turma que me deixou a melhor impressão possível da cidade: bem-informada e receptiva, daquelas com quem se bate um bom papo e se sai amigo de infância.

*

Os shows de Pedro Moraes e Curumin eu vi.

*

Não conhecia Pedro Moraes. Descubro que ele está com o segundo disco no forno, a sair pelo sêlo do Israel e do Kuru (Maurílio Kuru Lima, idealizador do evento, com quem não tive oportunidade de conversar mas de quem ganhei um receptivo abraço de boas-vindas). Um puta show bacana, viu? O Moska participou e eu gosto do Moska, mas nem liguei, liguei mesmo foi pra presença de palco e pra voz de Pedro, que ainda preciso baixar. Curumin fechou a noite deixando todo mundo pra cima, com muito samba, Clementina de Jesus, Bob Marley, malandragem, e criminosos samplers.

*

Por volta da 1h da matina Curumin dizia tchau, minhas companhias mineiras diziam tchau (todo mundo tinha que trampar no dia seguinte), e eu perguntava pro Israel qual era a sequência. O mestre Isra, além de um grande exemplo de jornalismo bem-feito e ético (Israel do Vale é um homem com um ideal, sabe como é isso?), é um sujeito exímio na arte de não-dormir e de estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Além disso, morou uns seis anos (seis anos?) em BH. Melhor guia, impossível.

*

Então estávamos lá, eu, Israel, Makely e a Gabi, uma atriz mineira que conheci na última hora, prolongando o papo e deixando o Parque Municipal depois de todo mundo. Como não deu pro Makely atravessar a noite conosco, tive que ameaçá-lo prometendo voltar a BH na primeira oportunidade que tiver. Se tudo der certo, no lançamento da Autofagia.

*

Deixamos ele em casa e seguimos para o Bolão, até onde entendi um dos dois lugares 24h da cidade. Comida e bebida de primeira, um engraçadíssimo aviso “Não servimos pessoas sem camisa” na parede, e nenhum sinal de que alguém ali iria embora antes do sol nascer. Uma conversa boa como o dia inteiro, da qual só aceitamos sair por esgotamento físico. Às 5h30 os dois me deixam na porta do hotel. Odeio despedida, e o lado cruel de ter amigos por todo o Brasil é a condição de viver permanentemente com saudade. O voo é às 8h e acho que não vale a pena dormir. Quando sento na poltrona do avião, percebo que são mais de 24h no ar. Ainda assim foi um dia curto.

[Reuben da Cunha Rocha.]

BaixaCultura em Minas Gerais

seminario

Nesta sexta estarei em Bê-Agá — a aprazível terra da pinga, do pão de queijo e de meninas bonitas como minha amiga Ludmila Ribeiro –, a convite do comparsa Makely Ka, para participar do Seminário Internacional Música & Movimento, que acontece dentro da programação do Conexão Vivo. A sexta-feira é justamente o dia dos debates em torno dos direitos autorais, e eu mediarei uma mesa sobre a licença Creative Commons. Ao meu lado estarão Sérgio Branco (CC – Fundação FGV) e o advogado Hidelbrando Pontes.

As discussões do seminário se estruturam em 04 eixos: Música, Tecnologia e Mobilidade, Direitos Autorais, Movimento e Internacional. Como chego na manhã de sexta e volto pra São Paulo na manhã do sábado, infelizmente não acompanharei o total das discussões. Mas assim, observando apenas os temas e os descritivos [que seguem abaixo], é possível enxergar como tudo o que se propõe debater está profundamente enraizado no presente, sendo, portanto, crucial para se propor caminhos futuros.

Aí está talvez, voltando muito rapidamente ao tema do meu último post, a grande diferença entre a maneira como os profissionais da música e da literatura se organizam. Dentro de um evento grande como o Conexão Vivo, em que além de algumas dúzias de excelentes shows é possível encontrar a presença do poder público e da “iniciativa privada” a começar do folder de divulgação, há espaço para um seminário desses, que reúne um bom punhado de pessoas interessadas em pensar a música para pensar…o mercado da música, o contexto em que se produz e se quer produzir música. Até onde minha enfumaçada memória consegue alcançar, não consigo lembrar de algum encontro de escritores que tenha discutido outra coisa além da obra deles próprios, seus processos criativos e aquelas coisas de emo que começam com “a literatura para mim…”. Não cabe aqui (ou a mim) questionar a relevância de se discutir estas questões. Destaco a diferença pelo que ela possui de sintomático das diferenças de mentalidade dos dois setores artísticos.

Prometo voltar a isso, e prometo relatar o que rolar ao meu redor em minha estadia-relâmpago por Minhas. Dormir é que eu não posso prometer, passando tão brevemente por esta terra em que moram tantos bons amigos, alguns que inclusive eu nunca vi pessoalmente, como o próprio Makely. Um brinde!

[Reuben da Cunha Rocha.]

Tema 23/04 – MÚSICA, TECNOLOGIA & MOBILIDADE

Os dispositivos móveis representam uma revolução nas formas de armazenamento, portabilidade e consumo de música. Um novo e promissor negócio para o setor musical começa a estabelecer novos paradigmas para o mercado. Iniciativas cada vez mais ousadas e múltiplas estratégias de comercialização e difusão, possibilitaram, inclusive, o incremento de receita no setor, quando comparados os anos de 2007 e 2008. Que negócios são esses e quais os seus modelos mais viáveis para o desenvolvimento do setor musical independente? Paralelamente ou de maneira integrada, os sites de hospedagem e difusão de música na web (MySpace, Last FM, Sonico, Blip.FM, Trama Virtual e Conexão Vivo no Brasil, entre outros) e mesmo os sites de relacionamento em que as (p)referências musicais estão muito presentes (Orkut, Facebook, Hi5 e outros) pertencem ao fenômeno das redes sociais, cuja importância crucial para a música hoje deve ser analisada pelo menos em dois diferentes aspectos. Por um lado, com a desorganização e fragmentação da indústria fonográfica, eles se tornaram o filtro preferencial de divulgação, reflexão e consumo, cristalizando tendências, revelando artistas e mesmo impulsionando negócios. Por outro, ainda que com diferentes características de interatividade, objetivo e conteúdo, são reflexo da mesma transformação ética da sociedade, de uma nova correlação de poder e autoestima cultural. Os antigos fiadores e formadores de opinião (principalmente gravadoras e imprensa) cedem espaço a uma dinâmica cultural mais ágil, desierarquizada e marcada pela diversidade real.

Tema 24/04 – DIREITOS AUTORAIS

Muitos são os rumores sobre a nova lei de direitos autorais, que substitui a atual legislação, vigente há pouco mais de dez anos. Os defensores das alterações e das licenças Creative Commons afirmam que o desenvolvimento das novas tecnologias tornou mais fácil o processo de produção, difusão e recombinação de obras culturais, mas que a legislação atual é um entrave à sua divulgação e ao seu acesso. Por outro lado, os defensores da manutenção da atual legislação, atentos ao impacto que tais alterações podem provocar em suas receitas e posicionamento mercadológico a duras penas alcançado, afirmam que muito se discutiu para chegar à atual legislação, que dez anos é pouco tempo até mesmo para uma conscientização popular sobre os direitos dos autores e que o Estado não deve ser um adversário, mas um guardião desses direitos. Chegam a indagar: “afinal, deve a sociedade civil ser pautada por questões suscitadas pelo governo? Ou deve ela, sociedade civil, levantar as questões que de fato lhe interessam?”. Polêmica a parte, é um bom momento para entender melhor um dos campos mais delicados do direito em todo o mundo e refletir sobre compartilhamento de informações, sobrevivência, respeito e democracia.

Tema 25/04 – MOVIMENTO

Crise (psico)econômica, falência dos modelos de negócio tradicionais no mercado musical, reforma nos mecanismos de financiamento, ausência de uma política setorial ampla e objetiva, direito de expressão de valores simbólicos potencializado por meio da rede virtual, o “artista pedreiro”. Diante de tantas variáveis e algumas incertezas, o movimento musical independente do Brasil se reinventa de norte a sul, apresentando tecnologias de relacionamento e gestão que enfocam o trabalho em rede, a divulgação viral, o uso de moedas complementares e preconizam a formação de um “mercado médio”, mais democrático e justo, cujas relações se estabelecem distantes dos velhos dogmas de mercado. Seriam sustentáveis tais propostas? Como os gestores públicos nas esferas federal e estadual podem desenvolver modelos e ações capazes de responder a esse imenso potencial econômico e um dos mais expressivos ativos da cultura nacional? Como estabelecer políticas públicas que abarquem todos os estágios e níveis do empreendimento cultural? Será de fato o uso das leis de incentivo pelos departamentos de marketing da iniciativa privada o grande desestruturador do setor cultural ou há um combinado de fatores, um simbionte público-privado que precisa ser reinventado sem preconceitos, discursos ideológicos e corporativismos?

Tema 26/04 – INTERNACIONAL

Pixinguinha e Os Batutas foram os primeiros a levar a música brasileira para fora do país, numa excursão à França em 1922. Com a Bossa Nova, já na década de cinqüenta, nossa música deixou de ter um caráter quase folclórico para assumir lugar de destaque nas principais casas de espetáculo do mundo como referência de vigor e sofisticação. Diante dos novos desafios colocados na atualidade, exportar a música produzida aqui tornou-se imperativo como estratégia vital de desenvolvimento. Prova disso são os desdobramentos econômicos, sociais, políticos e estéticos cada vez mais inegáveis que reverberam tanto fora como dentro do país. Apresentamos aqui algumas iniciativas de estados, países e regiões que podem servir não só de modelo, mas também como ponte para a o diálogo e a criação de redes articuladas de intercâmbio tecnológico e cultural.

Conexão Vivo

O programa nacional Conexão Vivo foi criado há nove anos para promover o desenvolvimento da cadeia produtiva da música independente e suas inter-relações com outras áreas da criação artística, como o cinema de animação.
Suportado por uma rede colaborativa de gestores públicos e privados, artistas e público, o programa é pautado em eixos como gestão compartilhada, respeito e promoção da diversidade, integração entre ambiente virtual e presencial e, sobretudo, promoção da circulação e veiculação de conteúdos autorais em ambientes e territórios não convencionais.

Em 2007, o Conexão Vivo criou sua primeira experiência de plataforma web em formato de rede colaborativa, que evoluiu para o atual portal www.conexaovivo.com.br que, em apenas 3 meses, teve a adesão de mais de 10 mil perfis de artistas, gestores e público interessados em música, cultura digital e cidadania. Desde 2003, o programa incorporou momentos de reflexão e formação em suas diretrizes, promovendo debates, oficinas e seminários.

Um dos objetivos do programa é a continuidade de suas ações. Ainda em 2009, o Conexão Vivo pretende atuar em diversos estados brasileiros, tornando-se o maior programa relacionado à música do país.

O Seminário Música & Movimento – Primeira Edição (2003)

A primeira edição do Seminário Música & Movimento foi realizada, em 2003, em meio à ausência completa de iniciativas dessa natureza no país. O Seminário foi considerado um marco, tendo reunido os principais gestores públicos e privados do setor e empreendedores dos mais diversos segmentos para discutir os rumos da música brasileira sobre os seus mais amplos aspectos.

No âmbito federal, um novo e promissor governo se iniciava, dotado de uma forte base teórica e ideológica e grande desejo de romper com o modelo existente. A música no ambiente virtual ainda era uma tênue promessa, sobretudo no Brasil, e o tratamento dado pela imprensa ao setor independente, quando não o ignorava, era jocoso. A ausência de movimentos fortemente articulados, bem como a necessidade de formação de redes colaborativas em contraposição a esta constatação, foram pontos amplamente debatidos.

Cerca de 40 debatedores e mediadores geraram, em cinco dias, um conteúdo bastante rico e proveitoso para os quase 100 frequentadores diários dos debates. Rui Cesar (Mercado Cultural), André Midani, Sérgio de Sá Leitão (MinC), Ana de Hollanda (Funarte), Felippe Llerena (iMúsica), Gloria Braga (ECAD), Bruno Boulay (Bureau da Música Francesa), Fernando Brant (UBC), Sílvio Pellacani (Tratore), dentre outros, discorreram suas visões e anteviram temas ouvidos pela primeira vez pela maioria dos presentes: “trabalho em rede colaborativa”, “distribuição e difusão digital via web e dispositivos móveis”, “Creative Commons”, “reestruturação das fontes de financiamento público para a música” “núcleos mistos de ação formado por recursos públicos e privados”, “empoderamento das culturas populares”.  Temas e frases que hoje povoam com naturalidade o nosso presente.

O Seminário Música & Movimento – Segunda Edição (2009)

Quais são os desafios para o desenvolvimento do setor musical a partir de novas plataformas de negócios introduzidas pelos portais de relacionamento e pela demanda de conteúdo em dispositivos móveis? Estamos vivendo uma democracia colaborativa digital? Ela já chegou ao mercado independente? As Web Rádios associadas às redes de relacionamentos são, de fato, um caminho para um novo mercado e uma nova ordem de veiculação e distribuição? É viável comercializar massivamente conteúdo independente por meio de dispositivos móveis? Quem está fazendo isso e como? Quais são as bases desse novo negócio? Como se estruturam e para onde levarão os modelos de organização preconizadas pelo Espaço Cubo, Eletrocooperativa e Circuito Fora do Eixo? Como os Pontos de Cultura podem contribuir na mobilização do setor musical, na mudança e consolidação de novos paradigmas? O novo modelo de financiamento público será capaz de alavancar de vez a gigantesca e qualificada produção musical brasileira e alçá-la à potência econômica mundial que merece ser? E a reforma na Funarte, com sua nova equipe, quais são as diretrizes? A licença Creative Commons trouxe avanços para a ampliação dos processos colaborativos? Quais as perdas para os criadores? Quais os aspectos simbólicos e econômicos da alteração na legislação brasileira do direito autoral? O que a diretoria do ECAD tem a dizer? Os circuitos internacionais de música estão articulados em rede? Os artistas brasileiros estão conseguindo ocupar os espaços disponíveis de forma organizada e continuada? Qual a eficácia das ações da BM&A? Como se estruturam as redes de música latino americanas? Estamos de fato nesse circuito? Quando abriremos um diálogo realmente ativo com o continente africano? E a nossa relação com os paises lusófonos, a quantas anda?

Mais do que responder a essas e tantas outras questões o Seminário Música & Movimento deve analisar as experiências bem sucedidas empreendidas nos últimos anos por coletivos de criação e produção, empresas, fóruns e governos e apontar indicadores e caminhos. Deve, ainda, articular uma nova rede de re-editores de cultura e  de detentores de tecnologias complementares de gestão e produção, capaz de lidar pró-ativamente com as iniciativas estruturantes do setor privado, do poder público e da sociedade civil organizada, potencializando-as.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Notícias do Front Baixacultural (10)

ww2-109.

Banda bate o pé contra Associação Anti-Pirataria (Discofonia, 12/12)

A notícia não é exatamente nova, mas nunca é tarde pra baixar um disco: o Cérebro Eletrônico resolveu disponibilizar o EP Pareço Virtual no 4Shared e, embora isso tenha sido feito oficialmente e em concordância com o selo da banda, nada impediu que o disquinho fosse removido da rede por uma ação antipirataria. Disquinho no sentido carinhoso. O EP – que reapresenta algumas canções do cd Pareço Moderno (um dos grandes lançamentos do ano passado), algumas versões ao vivo e remixes – é um disco de respeito, e está de volta. Além das 08 canções, a pasta vem com o pdf do encarte e da licença Creative Commons que regula o uso do material.

.

O cético e a ciberliberdade (Continuum, dez 2008/jan 2009)

Em sua última edição, a revista Continuum, do projeto Itaú Cultural e linkada à direita, faz uma excelente entrevista com o Sílvio Meira, professor de engenharia de software na Universidade Federal de Pernambuco, editor de um blog no Terra Magazine e autor de duas centenas de textos sobre tecnologia e seu impacto na sociedade, que o tornaram uma referência  nacional quando se fala de assuntos envolvendo as palavras “redes”, “software” ou “internet”. Dá uma olhada em um trecho da entrevista:

“Se olharmos para a história, veremos que sempre se viveu em redes. Os seres humanos são gregários por natureza. O que aconteceu é que a pessoa deixou de viver em seu grupo geograficamente conexo, que foi estendido por um mecanismo de dessincronização de sua capacidade de comunicação. Se pensarmos antropologicamente, os grupos humanos só podiam se comunicar com eles próprios. Como não tinham o domínio da escrita, que é a codificação da informação que permite que ela seja deixada para trás ou levada para a frente, para o futuro e para outras geografias, ficavam parados, fechados entre eles. O que vem acontecendo na história da humanidade é que, à medida que começamos a codificar o que pensamos, a criar a capacidade de transferir isso no espaço e no tempo, ampliamos as redes.”

.

Dub Brasil (URBe, 06/01)

Mais música. Cannabis Records, o autodenominado primeiro selo de dub do Brasil, iniciou suas atividades jogando na rede duas excelentes coletâneas do gênero. Os dois volumes de Pac-o-mania podem ser baixados no myspace do selo, tudo com a tarja do Creative Commons. A Cannabis conta com 08 produtores de dub na ficha técnica, alguns deles veteranos com projeção na cena internacional. Além de conferir o trabalho dos caras nos dois discos, o público ainda leva o belo bônus que é o trabalho visual do artista Rodrigo Dário, responsável pelas capas.

.

Álbum mais vendido em 2008 na Amazon teve licença Creative Commons (Remixtures, 6/01)

O onipresente (em nossos clippings) Remixtures, capitaneado pelo jornalista português Miguel Jorge, fez um post sobre um dado bastante interessante: o disco mais vendido na loja virtual Amazon foi o Ghosts I-IV, do Nine Inch Nails, lançado em março de 2008 sob licensa Creative Commons. Esse dado talvez tenha relação com outra questão importante: o disco foi comercializado em formato digital na sua totalidade ao preço de cinco dólares. Vale dizer também que Reznor, como Reuben explicou nesse post, é um cara no mínimo ligado nas novas tendências colocadas à todos pela web. A lista completa dos mais vendidos, e dos melhores segundo o ranking dos editores da loja virtual, podem ser conferidas aqui.

.

Em busca de uma nova cultura para o digital (Ecodigital, 9/01)

José Murilo Júnior, do blog Ecodigital e do MinC, fez a tradução de um interessante artigo (Queimando Livros, legalmente) de James Boyle, publicado originalmente no Financial Times, em 8 de dezembro último. Advogado e professor de direito, Boyle é autor do livro The Public Domain, uma das obras indispensáveis para entender a questão do domínio público e de como ele está sendo impiedosamente atacado pela polícia do copyright (no link acima dá para ler o livro online, baixá-lo, ou mesmo comprá-lo).

Dá uma sacada no tom do artigo de Boyle:

(…) Imagine o pequeno sublinhado azul sob cada título levando à íntegra do livro. Para meu filho isto faria perfeito sentido. O título do livro no catálogo e quando você clica no link, certamente estaria pronto para começar a lê-lo. Isso é o que ele aprendeu em sua experiência de clicar links. Porque não aqui? Era um velho livro, afinal, há muito sem qualquer chance de ser reeditado. Imagine ser capaz de ler os livros, ouvir a música, assistir os filmes – ou pelo menos a produção comercialmente indisponível que a Biblioteca decidisse que valia à pena digitalizar. Evidentemente esse é o tipo de coisa que a lei, em sua pujança, proíbe. (…)

.

Revista Cult disponibiliza acervo digital (12/01)

A cultura brasileira ganha mais uma biblioteca virtual a partir de hoje. Há alguns anos, quando completou 50 edições publicadas, a revista encartou dois cd-roms contendo o que então era um menor mas já precioso acervo. Agora, o passo é mais adequado a estes tempos líquidos – menos suporte físico, mais conteúdo. A Cult foi fundada em 1997 e a esta altura – tendo passado por mudanças de editora e de publico alvo – já possui uma memória considerável a ser preservada e relida, cheia de contribuições para a literatura, filosofia, política e ciências sociais.

.

[Leonardo Foletto. Reuben da Cunha Rocha.]

Crédito foto: World War II Photos

stallman
O que você quer dizer com "protegido por copyright"?

Richard Stallman é um barbudinho invocado. Na década de 70 ele trabalhava no desenvolvimento de um programa de computador e resolveu compartilhá-lo com uma companhia de softwares, que, em singelo gesto de agradecimento, fez modificações sobre a obra, tacou-lhe uma licença de copyright e assim impediu Stallman de trabalhar sobre sua cria. Indignado, na década de 80 o programador resolveu criar uma licença própria para seu projeto de software GNU, a General Public License (GPL), que a partir de então impediria a restrição de copyright sobre a obra. Assim nascia o Copyleft, termo associado à GPL posteriormente por Don Hopkins, amigo de Stallman.

Como você pôde ver na resumida historinha, o copyright é o maior amigo do explorador, o maior inimigo da boa-fé. Mas… o que é copyright mesmo?

Copyright é o direito de cópia que um autor possui sobre suas obras. Até aí tudo lindo. O problema é que esse direito de cópia não tem como titular unicamente o autor. Na verdade, ele é majoritariamente exercido, via imparcialíssimos contratos de cessão, por empresas que dão suporte financeiro e material às obras intelectuais. São elas as grandes produtoras de filmes, as  gravadoras, as grandes editoras de livros e por aí vai. Assim você pode entender porque o Alan Moore faz cara feia pra todas as adaptações de suas obras no cinema. O copyright também faz com que tudo seja automaticamente proibido. Se por motivos de força maior eu tivesse de inserir aquele cêzinho xarope bem aqui neste texto, você teria que me pedir permissão para reproduzí-lo, mesmo se minha vontade fosse que todo e qualquer infeliz habitante da terra, céu e inferno lesse minhas palavras.

captain_copyright
O Copyleft, criado por Richard Stallman e sua turma do software livre, é uma linda afronta ao copyright. Primeiro porque tanto o significado da palavra (o trocadilho entre right – direita – e left – esquerda) quanto seu símbolo (um belo “c” contraposto) cospem fogo contra a retrógrada prática de apropriação intelectual da restrição do direito de cópia. Depois, temos o próprio conteúdo inovador do Copyleft, lançado ao mundo através da licença pública do GNU: “‘Software livre’ se refere à liberdade dos usuários executarem, copiarem, distribuírem, estudarem, modificarem e aperfeiçoarem o software”. A licença também permite a exploração econômica da obra, desde que não a torne objeto de monopólio, ou seja, se eu escrever um livro licenciando-o por copyleft, você pode produzí-lo em série e vendê-lo, mas não pode impedir que as pessoas o copiem livremente. Leia mais sobre as liberdades da licença aqui.

Aí o mundo ocidental inteiro viu que renunciar ao copyright não mata nenhum autor de fome, muito pelo contrário. Aqueles que o fazem atuam com convicção e, querendo ou não, erguem a bandeira da cultura livre. Diferentemente da indústria cultural, que deve gastar boa parte de seu pequenino orçamento contratando carpideiras.

copyleft
Com o desenvolvimento e constante crescimento do uso do Copyleft surgiram as licenças Creative Commons (simbolizadas por dois cês). Estas são, basicamente, uma via mais organizada e detalhada de disponibilização de obra intelectual. O Copyleft nasceu como uma licença livre que visava a livre distribuição e modificação de programas de computador. Com a expansão para outros formatos, surgiram licenças mais específicas, que, por exemplo, permitiam a distrubuição livre, mas não a modificação do conteúdo. Muitas dessas diferentes formas de publicação de trabalho intelectual começaram a ser regulamentadas por escritórios de Creatives Commons, que possuem atuação em diversos países e oferecem registro pela internet, possibilitando vários tipos de disponibilização da obra, incluindo a própria GPL do GNU e o domínio público (quando todos podem explorar como bem entenderem a obra de um autor, restando intacta apenas sua autoria).

Enfim, a Creative Commons nada mais é do que uma licença mais “organizada” do que o Copyleft. Ambos têm demonstrado como o copyright é cada vez mais dispensável para o mundo. Mas não posso negar uma coisa: o Copyleft, por toda a sua carga ideológica e significado direto me soa mais apropriado para a representação da cultura livre, que tem como principal oponente um modelo de exploração econômica que se iniciou como monopólio de livreiros na Idade Média e hoje tenta manter seus lucros através de propaganda caluniosa e lobby cara-de-pau. Através do copyright, quem fica mais rico com arte é quem menos entende ou cria arte.

[Edson Andrade de Alencar.]

Crédito das imagens:

1)Linux Educacional

2)Wikipedia – Captain Copyright

3)Jornalismo Digital

Notícias do Front Baixacultural (2)

worldwar2

Expecionalmente (mesmo) hoje, uma quarta-feira.

Do lado de cá

_ A Indústria do P2P apoiou Obama. Mas será que Obama apoia a P2P? (Remixtures, quarta 5/11)

Obama recebeu apoio financeiro de diversas pessoas envolvidas diretamente com o P2P.  Apoio de não mais de $1000, mas que não deixa de ser apoio. Isso, somado ao fato de Obama ter sido o presidente que melhor entende a lógica da web nos últimos tempos, pode indicar que Obama irá apoiar a P2P? Infelizmente, nada indica para esse lado, pelo contrário: Joe Biden, o vice do novo presidente, é um inimigo declarado do P2P e amigo conhecido da RIAA, a patrulha dos direitos autorais dos EUA. Mas seria por demais interessante ter um “cabo eleitoral” do P2P alguém com o poder e o respeito de Obama, hein?

.

_ TV Cultura licencia em Creative Commons programa Roda Viva com Jimmy Wales (Cultura Livre, semana passada)

O Roda Viva licensiou em Creative Commons o programa onde o entrevistado é Jimmy Wales, o criador da Wikipédia. É uma iniciativa pequena, mas que pode indicar um bom começo. Ainda mais sendo o Roda Viva um dos programas da TV brasileira que mais está sabendo se adaptar à rede, haja vista o recente uso do Twitter durante o programa.

.

_ São Paulo vai publicar documentos da ditadura na internet (IDG Now, quarta 12/11)

Arquivo Público de São Paulo pretende colocar à disposição do público na internet os registros documentais do período da ditadura. Uma iniciativa a servir de exemplo para o restante do país.

.

_ Youtube fecha acordo com MGM para exibir seriados e filmes online (IDG Now, segunda 10/11) e Youtube será cinema (Tiago Dória, quinta 6/11)

A primeira notícia trata da parceria com a MGM pretende exibir filmes e séries do estúdio. Já foram criados dois canais no Youtube: “Impact” será usado para transmitir, em streaming, filmes de ação (?), e “American Gladiator” vai exibir episódios completos da primeira temporada do seriado (alguém conhece isso??).]

Já a segunda fala que essa ação da primeira notícia, junto com outras quantas, é parte de uma estratégia do Youtube de passar a disponibilizar filmes completos. Isso porque, segundo consta, o Youtube tá com medo da concorrência do Hulu, que apesar de ser bem menos acessado, rende mais em publicidade que o Youtube. O ruim disso é que, provavelmente, estes filmes estarão bloqueados para usuários não-residentes nos EUA…

.

MTV cria site de exibição de clipes (Baixa Cultura, quarta 12/11)

Inacreditável: a MTV tocará música. A filial americana finalmente resolveu digitalizar seu acervo de videoclipes (não todos, mas algo perto de 22 mil) e disponibilizar no endereço MTVmusic.com. Claro que há diversos clipes que só usuários americanos podem ver, mas, ainda assim, o acervo que nós pobres sulistas do mundo podemos ver é deveras interessante. Como diriam todos, antes tarde do que nunca – ou, como diria outros, o que não faz a concorrência…

[Leonardo Foletto]

.