BaixaTV no ar

março 9th, 2011 § 4 Comentários

 

BaixaTV – nosso instrumento de dominação das massas, cúmplice da espetacularização da sociedade – é uma das nossas novidades (bem, não tão novidade, vai) para 2011, que englobam desde coisas simples, como trazer mais colaboradores e conteúdos exclusivos a este singelo front da cultura livre, até coisas mais trabalhosas, como dominar o mundo.

O que o leitor-espectador encontrará a princípio nessa nova versão da Baixa TV (a “antiga” está aqui) será uma seleção de programas de TV, documentários e trailers de alguma forma relevantes para as discussões aqui propostas – alguns destes arquivos já foram inclusive apresentados no blog. E por que reciclar informação já disponível aqui mesmo? É simples: nós acreditamos que organizá-la de modo a facilitar o acesso permitirá que a informação siga circulando. Livre circulação como princípio de liberdade de informação.

Clicando em BaixaTV, logo abaixo da biblioteca no lado esquerdo da tela, você já poderá ver alguns dos vídeos que comentamos nestes tempos de blog. Tem desde os já clássicos “Good Copy, Bad Copy” e “Roube Este Filme” até coisas mais obscuras como o curta “The Disney Trap: How Copyright Steals Our Stories”, da italiana integrante do Wu Ming Monica Mazzitelli, que fala das falacatruas Disney sobre os direitos autorais e do qual explicamos uma parte em “A Armadilha Disney“.

Resgatando o nosso “vasto” arquivo achamos também um bom debate sobre descriminalização da pirataria com Túlio Vianna, num programa da TV mineira Novo Horizonte em 2007, que indicamos no natal de 2008, e o excelente “A História das Coisas”, que versa sobre o quanto o famigerado capitalismo está destruindo nosso querido planetinha. Falamos dele em outubro de 2008.

Assim como a Biblioteca, o BaixaTV será atualizado daqui pra frente com alguma frequência. E também como a Biblioteca, está sempre aberto a contribuições.

Créditos: Revista Time.

 

Flattr e a uma nova (velha) discussão

fevereiro 22nd, 2010 § 5 Comentários

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O loiro com cara (e DNA) da Escandinávia de nome Peter Sunde já é nosso velho conhecido de algumas postagens. Inclusive, publicamos uma entrevista dele para a Folha de S. Paulo, onde Sunde comentava os recentes eventos sobre o site na qual foi um dos fundadores, o Pirate Bay. À época, discutia-se o quão definitiva seria a decisão do tribunal sueco que condenou ele e mais três parceiros a pagar uma quantia de exagerados 3,6 milhões de euros à entidade que representava os grandes poderosos de Hollywood e da Indústria Fonográfica. Dizia-se que seria o fim do Pirate Bay, o que na prática não se comprovou – procure você um arquivo de torrent para download e lá estarão os piratas suecos para te mostrar um link, ainda que não com a mesma eficiência pré-condenação.

Sunde veio ao 10ºFisl (Fórum Internacional do Software Livre), que ocorreu em junho do ano passado na Porto Alegre capital do Rio Grande do Sul, e por esta época já  dava a entender que tomaria rumos diferentes ao do Pirate Bay, o que veio a se confirmar algumas semanas depois. O caminho tomado pelo outrora pirata sueco foi o projeto que, no início do mês, tornou-se realidade: o Flattr, um sistema de micropagamentos por conteúdo, que ainda está funcionando em fase beta, apenas para teste, mas que pode ser melhor visualizado neste pequeno vídeo de apresentação:

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O Flattr baseia-se na ideia de que o público está disposto sim a pagar por conteúdo, desde que ele possa ser facilmente acessado e da maneira que os usuários quiserem. Apesar de eu particularmente duvidar desta sentença, recente pesquisa realizada pela consultoria Nielsen com 27 mil pessoas em 52 países afirma que metade das pessoas está realmente disposta a pagar por conteúdo – desde que, confirmando a ideia que balizou o funcionamento do Flattr, esse conteúdo seja consideravelmente melhor/diferente daquele que se pode conseguir gratuitamente. A grande questão fica, como Tiago Doria comenta, em descobrir qual conteúdo realmente proporciona “valor” para os seus consumidores, tarefa que será fundamental para o sucesso ou não da ferramenta de Sunde.

Gerd Leonhard - auto-denominado mídia futurista e autor de Music 2.0, dentre outros livros - declarou ter gostado do Flattr.

“Uma ideia brilhante (ainda que não seja inteiramente nova, e esteja de alguma forma relacionada ao Paypal e ao Kerchoonz). Ela corresponde a algo que eu vivenciei nos últimos anos: as pessoas pagam se a) são valorizadas e ganham méritos por isso, por isso ficam inclinadas a devolver o favor, b) elas confiam em você e c) o preço é justo. Talvez o Flattr possibilite isso; no meu ponto de vista, a economia do “muito obrigado” via micropagamentos pode ser poderosa.

Como se supõe, a ideia dos micropagamentos não é coisa nova na web. O Flickr funciona mais ou menos assim, sustentado pelos poucos (que, em escala global, são muitos) que pagam para ter o serviço pro da página, assim como diversos outros serviços. Porém, como também salienta Leonhard, micropagamentos não funcionam pra qualquer um, o que dá um tom para a dificuldade da manutenção do serviço do Flattr: ” seu público precisa ser bem grande para que o sistema funcione. Acho que esse será o primeiro desafio [para o Flattr]: conseguir 50 milhões de usuários e se tornar um serviço considerado padrão, como o PayPal, ou então o Flattr se tornará insignificante.

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Sunde disse, em entrevista ao caderno Link da semana passada, que o Flattr é “uma maneira de mostrar que você gostou de algo – e remunerar o criador por isso“. Tu escuta uma música, gosta, e dá um jeito de remunerar o autor de alguma forma por ela – no caso do Flattr,  pagando uma quantia mensal para usar todo o serviço. Ao final, o dinheiro é dividido igualmente entre os criadores do conteúdo (confesso que ando curioso em saber como essa divisão vai se dar de forma igualitária). É um sistema que se encaixa no que o mesmo Gerd Leonhard aponta como os mais interessantes de se “monetizar” o conteúdo digital; para ele, os únicos modelos realmente válidos são

os que funcionam por classificação de mérito do produtor de conteúdo e os que se parecem com o consumo gratuito de música, por exemplo, com pagamentos embutidos em faturas de provedores de acesso ou operadoras móveis, ou mesmo o download patrocinado por anunciantes”.

Acompanho estas discussões faz algum tempo, e posso dizer que a ideia do Flattr não é nada nova. Parece que alguns tem tentado cada vez mais adivinhar o futuro apostando na ideia de que o serviço de download ilimitado (ou streaming ilimitado, quem sabe) seja considerado como um serviço tipo energia elétrica e água encanada, onde se paga uma certa taxa por mês para ter acesso facilitado à tudo. Pagaria-se, por exemplo, para ter o acesso ao download (ou streaming) de todas as músicas possíveis de maneira fácil, de modo que qualquer usuário semi-familiarizado com o computador e a internet conseguiria, por conta própria, baixar aquele disco que tanto quer escutar. Seria talvez uma nova intermediação – que, na bem da verdade, seria uma facilitação, onde o valor seria cobrado mais para facilitar o serviço do que propriamente para o viabilizar. Não sei até que ponto isso é viável, e fico sempre com um pé atrás em iniciativas que visam restringir em vez de amplificar o acesso a cultura, mas seguimos acompanhando a discussão para ver no que (e se) vai dar.

[Leonardo Foletto.]

Créditos fotos: 1,2.

O fenômeno Ai que vida! e a “pirataria” digital

outubro 14th, 2009 § 18 Comentários

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O cartaz que abre este post é de “Ai que Vida!”, longa-metragem produzido no Maranhão e no Piauí, 24º filme do jornalista e cineasta maranhense Cícero Filho. É muito provavelmente o primeiro dos 24 que tu deve ter ouvido falar – se é que ouviu. Trata-se de um pequeno fenômeno do cinema (independente) nacional: produzido em 2007, ainda hoje encontra-se em cartaz em alguns cinemas da região Nordeste, especialmente nos estados do Piauí e Maranhão. Em sua semana de estréia, no já longínquo setembro de 2007, fez mais espectadores no Cinema Riverside, em Teresina, do que fez, no mesmo cinema,  o badalado Harry Potter e Ordem da Fênix, 5º filme do bruxo criado pela hoje bilionária escocesa J.K. Rowling, em um mês.

Cícero e sua equipe de 25 pessoas começaram as gravações com R$ 800,00 no bolso e uma câmera digital mini-dv, emprestada por uma faculdade de comunicação de Teresina, além de três atores profissionais no elenco. Escolheram como cenário a pequena Amarante, distante 170 KM de Teresina, a capital piauiense, pois segundo o co-roteirista, diretor de arte e Diógenes Machado, :”A cidade é o berço da cultura de nosso estado. A terra do cavalo piancó, do inegualavel poeta Da Costa e Silva, das mais belas construções arquitetônicas do Piauí.

Com ajuda da prefeitura, que hospedou a equipe de Cícero de graça, e dos moradores da cidade, que fizeram desde figuração até empréstimos de carros e casas para a gravação do filme, vinte e cinco dias depois estava finalizado o processo de gravação do filme. O orçamento extrapolou o inicial e  chegou aos R$30 mil. Problema? Que nada, é costume, como de novo nos conta o co-roteirista Diógenes: “Como sempre, pouca gente acretitava no nosso trabalho, só quando terminamos de gravar foi que os empresários resolveram ajudar. Começou a aparecer mil reais dali, cinco mil de um lado, quatro mil do outro e felizmente conseguimos angariar fundos para começar a edição“.

Quatro meses na ilha de edição depois, Ai que Vida! estava pronto para estrear. Mas onde? A primeira rede de cinemas de Teresina que foi procurada pela equipe não topou exibir o filme, nem mesmo numa segunda-feira e com direito a 80% da bilheteria das sessões. “O diretor dos cinemas nos disse que não adiantaria 80% da bilheteria no contrato já que não ia dar ninguem mesmo“, conta Diógenes. Foram duas semanas de negociação, que de nada adiantaram. A equipe tentou outro cinema, o Riverside, localizado num shopping de mesmo nome, que aceitou; ficariam uma semana em cartaz, para ver no que dava. O resultado foi um sucesso estrondoso, com todas as sessões da semana lotadas e mais renda do que um mês de exibição do último Harry Potter. Como prêmio ganharam mais uma semana de exibição, também lotada, e a partir daí o filme se espraiou pelo Cine Praia Grande, em São Luís, capital do vizinho estado do Maranhão, e por festivais de cinema como o de Brasília e da Paraíba.

Dá uma olhada no trailer do filme antes de continuar lendo a postagem:

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Através de um patrocínio do Governo do Estado do Piauí, foram produzidas 300 cópias de DVD, que logo foram distribuídas nas locadoras da capital Teresina. Mas a demanda foi maior que os 300 DVDs, tamanha a identificação dos espectadores com a história simples e popularíssima, carregada de citações à cultura local e ao modo de vida das pessoas da região.  Então, a própria população tratou de trocar/vender/copiar adoidado os dvds nos camelôs, num fenômeno parecido com o do Tropa de Elite, que já era conhecido de boa parte do público brasileiro quando estreou oficialmente nos cinemas em 12 de outubro – e foi a maior bilheteria no período de uma semana no Brasil em todo o ano de 2007, com cerca de 180 mil espectadores.

A cópia/troca dos DVDs do “Ai que Vida!” não foi nenhum pouco condenada por Cícero, segundo o próprio afirmou em entrevista ao site Cabeça de Cuia:

“Ai que vida” se alastrou, tudo culpa da pirataria. Fico feliz, ao ver que o filme está sendo aceito de forma positiva pela população. Difundir o cinema para a população menos favorecida é um foco primordial do meu trabalho. Meu maior lucro é ver as pessoas comentando que gostaram muito do filme, que se retrataram com o enredo e as personagens!”.

Camelôs, a "origem de todo o mal"

Camelôs, a "origem de todo o mal"

Assim como Tropa de Elite, Wolverine, SICKO e outros tantos,  “Ai Que Vida!” é prova de que uma coisa não necessariamente anula a outra. Ou em palavras mais adequadas: que a dita “pirataria” não necessariamente anula a renda obtida no cinema, como querem nos fazer crer os incomodativos comerciais exibidos antes daquele DVD que alugamos na locadora da esquina. Ao contrário, em alguns casos pode aumentar tanto o burburinho em torno da produção que ela vai circular ainda mais, o que fatalmente resultará em mais prestígio ao seu autor, o que, por sua vez, poderá render mais contatos e condições de produção de uma nova (e melhor) obra cinematográfica.

Como já falamos por aquia pirataria gera mais grana do que querem nos fazer crer. Nisso, o jurista Lawrence Liang, um hábil indiano que investiga questões relacionadas com pirataria, economia informal, direitos de autor e cultura livre no Alternative Law Forum de Bangalore, tem algo a nos dizer, via entrevista no Remixtures:

Todo o circuito da pirataria cria economias locais bastante dinâmicas. Gera emprego, permite a transferência de tecnologia, possibilita o surgimento de inovações locais. Se olharmos o fenómeno de um ponto de vista de uma economia global da informação, onde somos uma multinacional que controla os direitos de um filme ou de uma música, sim, é mau para a economia. Mas se estivermos interessados no desenvolvimento das economias locais, bem como da inovação local, diria que é algo positivo para a economia.

Pode notar: quem joga a culpa pela “morte da indústria cinematográfica” no vazamento de uma cópia dita “pirata” frequentemente são aqueles cineastas/produtores decadentes que estão vendo seu lucro fácil de décadas se esvaírem em milhares de mãos espalhadas pelos mais obscuros quartos ao redor do planeta. Aqueles que se escondem em castelos encantados por lucros de décadas gerado por multinacionais que se acostumaram a controlar os direitos de toda e qualquer produto cultural que o dinheiro lhes permite comprar.

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O casal romântico Valdir e Charleni à frente de todo o elenco do filme

O casal romântico Valdir e Charleni à frente de todo o elenco do filme

O cenário que se avizinha mui provavelmente permite espaço para todos que souberem aproveitar bem as potencialidades de cada mídia. Como disse Gilberto Gil no final desta postagem, não adianta buscar uma resposta pronta a pergunta-que-não-quer-calar “como vou ganhar dinheiro?. Ao que parece, as respostas estão por aí, escondidas em cada tipo de produção, em cada tipo de mídia, em cada tipo de orçamento, em cada tipo de objetivo desejado. O hábito secular de ir ao cinema não irá acabar duma hora pra outra, substituído pela solitária prática de ver um filme numa tela de 14 polegadas em um sistema de som abelhudo de caixinhas de sons toscas; vai, sim, é dividir espaço com esse novo hábito e outros tantos que surgem (e mais e mais vão surgir) de acordo com as possibilidades e criatividades de cada um.

Para fechar, vale citar o que Giba Assis Brasil, veterano cineasta gaúcho, disse em matéria na revista Aplauso de setembro, que infelizmente só circula no estado do Rio Grande do Sul:

“A industria está perdida. No caso do DVD, estão errando o alvo e deixando grandes corporações criminosas ganharem dinheiro as suas custas. Seria mais inteligente se mudassem a sua política de preços. Ou que arranjassem alternativas para vender cópias pela Internet a preço baixo. Em vez disso, preferem chamar garotos que baixam filmes de ladrões e criar uma ficção segundo a qual o compartilhamento está associado ao tráfico de drogas. Ninguém vai acreditar nisso. Eles vão perder de novo.”

Se relacionamos a fala de Giba com esse post do Remixtures começamos a entender que algumas coisas são mais complicadas do que parecem…

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[Marcelo De Franceschi. Leonardo Foletto.]

Créditos fotos: 1, 2, 3.
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P.s: Antes que nos esqueçamos: se você ficou louco pra assistir ao filme “Ai que vida!”, baixe aqui o arquivo, que está em boa qualidade. E se você gostou também da trilha sonora, não deixa de assistir ao clipe da música tema aqui.

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