Baixa nos jornais

Textos do Baixa andaram circulando por outras paragens nestas últimas semanas.

Os dois artigos foram publicados em jornais da querida Santa Maria, que promoveu sua “polêmica” 38ª Feira do Livro, de 30 de abril à 15 de maio. Em meio a ela, foi impresso o Jornal Rascunho, produzido pela Cooperativa dos Estudantes de Santa Maria (CESMA) – cuja sede aconteceu o primeiro ciclo copy, right?. No jornal, de circulação gratuita na cidade, está o texto da imagem que abre esse post (dá pra clicar nele para aumentar), um artigo que apresenta o blog e nossa visão sobre copyright e cultura livre e digital.

O outro texto apareceu na edição de sábado/domingo do Diário de Santa Maria, o jornal do grupo RBS na cidade. Assim como o texto “De quem é a música”,  em 2009, “Páginas digitalizadas” ocupa a seção “Ideias” do Caderno Mix, e é uma versão totalmente remixada do longo post “Juremir Machado e os (finados) direitos autorais“. A ideia foi apresentar um contraponto à visão que é predominante no jornal, que em março publicou, no mesmo caderno, uma criminalizadora reportagem versando sobre as locadoras da cidade e suas adaptações ao fato das pessoas baixarem filmes ou preferirem comprar no camelô a alugar. O timing de publicação do texto, no final de semana do encerramento da Feira do Livro, ajudou a provocar (alguma) discussão.

BaixaCultura no RS: um relato

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vista interna do prédio da cesma
vista interna do prédio da cesma

Dizem alguns que quanto mais próximo do evento presenciado melhor é o relato sobre o mesmo evento. O pouco tempo para a digestão daquilo que se vê edita naturalmente o que de melhor deve ser dito; saem os excessos contextualizadores e narrativos e sobra a primeira impressão, limpinha,  sem reedições, pedindo para sair e fixar-se em seja qual for o suporte.

Dizia Borges que a memória é inventiva, e por medo de uma possível iniciativa ficcionista por demais da minha memória é que pensei em relatar o Seminário Estadual para a Auto-Sustentatabilidade Cineclubista o quanto antes possível, o que significava escrever um post aqui pro BC na mesma sexta-feira que aconteceu o evento ou talvez no dia seguinte. Mas só hoje, segunda, foi possível escrever, então desculpe possíveis invencionices e bora lá.

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O seminário começou já pela manhã, com um debate sobre distribuição de conteúdo para cineclubes. Quem falou foi Luís Alberto Cassol, figura das mais conhecidas na cidade e que, dentre outras funções, é Vice-presidente do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros e editor do blog Filmes de Junho, e Eduardo Ades, representante carioca da Associação Cultural Tela Brasilis.

À tarde participei da mesa que teve o nome oficial de “Direito Autoral & Constituição de Redes”. Gilvan Dockhorn e Antônio Martins falaram cada um por mais ou menos quarenta minutos, que eu deveria ter cronometrado, já que nesse momento era a minha função. Ambos são ótimos oradores, sabem como se expressar muito bem com palavras, como sabiamente comentou depois do evento Paulo Henrique Teixeira, assessor da Cesma e que, junto com Francelle Cocco, me convidou para o evento.

Gilvan, que além de cineclubista é professor de história, tratou de fazer primeiramente um balanço da história do copyright e do direito autoral, parecido com que Edson fez aqui no BC. Fez depois a necessária distinção entre bens culturais e mercadorias: ao baixar uma música sem o consentimento do detentor do direito autoral da mesma, está se obtendo um bem cultural, e não uma mercadoria que possui um “dono”  a lucrar com esta. Como na própria constituição brasileira se fala em “garantir a todos os acesso à cultura”, nada mais normal que a internet possibilite, com os downloads e tudo o mais, justamente o acesso à cultura para toda a população.

(Não é tão simples essa discussão, mas em outro momento que não aqui cabe complexificá-la)

Depois, passou para relacioná-los com os cineclubes, dizendo que tem muita coisa sendo produzida no Brasil, mas há dificuldades de distribuição desses produtos,  que daí a importância dos cineclubes e de uma formação de profissionais cineclubistas.

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Antonio, yo e Gilvan
Antonio, yo e Gilvan

Antônio Martins, que trabalhava até ano passado como editor da versão web do Le Monde Diplomatique e também faz parte do blog Trezentos, falou logo depois de Gilvan. Com calma e didatismo, tratou de resumir a questão do novo paradigma cultural/social/intelectual/econômico que a internet está possiblitando.

“A cultura e a comunicação de massa são paradigmas associados à modernidade e estão em crise, assim como estão em crise também as formas políticas de representação”.

Martins fala que a web possibilita uma troca (e uma circulação) de produtos culturais nunca antes vista. Da invenção da imprensa no século XIV aos meios de comunicação em massa do século XX,  boa parte (para não dizer TODA) dos bens culturais que tinhamos acesso eram aqueles que  eram selecionados pelos que tinham o controle das formas de  produção e distribuição desses bens – em suma, de quem detinha o $$. Na medida que, com a internet, tudo isso barateia, e, portanto, passa a poder ser produzido e distribuído por qualquer um, nós podemos selecionar àquela cultura que vamor ter acesso. As proporções dessa TREMENDA mudança ainda estão sendo sentidas – e, também, tentando ser entendidas, o que ainda não se concretizou e nem se sabe quando vai se concretizar.

Como jornalista que é, Antônio também falou de sua profissão. Disse que é preciso políticas públicas, como Internet banda larga para todos, para que a população possa ter condições de veícular a sua versão dos fatos e, desta forma, criar alternativas à mídia tradicional. Uma ideia interessante apontada seria a de remunerar, com recursos públicos, as  pessoas que estão produzindo comunicação não mercantilizada – ou que não é produzida em larguíssima escala. Editais de concursos para rede de blogs, criação de programas de formação, oficinas, prêmios, estímulos a formação de redes de blogs sobre difusão do cinema, dentre outras, são ideias que Martins acredita que possam mudar este sistema mercantil dos bens culturais.

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Entrada da cesma
Entrada da cesma

Para encerrar o debate, foi dado chance às perguntas. Que de início não vieram, talvez por acanhamento da platéia. Mas com a intervenção do já citado Cassol, foi dada novamente à palavra aos participantes – e aí me incluíram para falar, pois alguém na platéia (que agora não lembro) falou que “o mediador podia falar um pouco do Baixacultura, que é uma iniciativa bastante interessante no que diz respeito à estes temas“.  Foi bom de ouvir a lembrança ao nosso trabalho. Mas então tive de falar, com nada preparado, uma torrente de pensamentos não conclusos sobre cultura livre, direito autoral, cibercultura, jornalismo… mostraram até mesmo o blog no telão, o que foi legal.

Pelo menos a minha fala serviu (um pouco) de estímulo a platéia, que aí resolveu fazer perguntas aos participantes da mesa, que responderam até quase 17h, quando o coffe-break se tornou mais estimulante do que qualquer outro ponto para se discutir.

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Free-Culture

Tinha pensado em, ao final do debate, indicar dois livros que poderiam ser usados para quem quisesse entender um pouco mais dos assuntos discutidos. Pensei e até escrevi, mas acabei esquecendo. Então aí vai: o primeiro é Além das Redes de Colaboração, organizado por Nelson de Luca Pretto e Sérgio Amadeu e editado pela UFBA (e que está disponível em PDF). O livro conta com textos de muita gente importante no mundo da cibercultura, das artes e do cinema,  e é fruto de um seminário com o mesmo nome realizado em Porto Alegre, em 2007. A apresentação, a cargo do cineasta gaúcho Jorge Furtado, dá o tom da coisa:

“Ao mesmo tempo que devora, digere e recria o telefone, o cinema, a televisão, os correios, o rádio e a indústria fonográfica, a internet se aproxima do sonho de Borges de uma biblioteca infinita, onde o saber humano está disponível ao alcance de um toque. O que fazer com tão imenso poder é a pergunta que definirá o nosso futuro. Esse livro é uma boa contribuição para o debate”.

Outro livro que ia indicar é o Cultura Livre, do Lawrence Lessig, que também tá disponível em PDF – se quiser ler no original, tem em inglês também. Cultura Livre é um dos mais indispensáveis livros para entender o que significa a tal da cultura livre, e Lessig é um dos que melhor fala (por ser simples sem ser simplório) sobre o assunto.

Outra sugestão, aí mais no âmbito da academia e da cibercultura, é o blog de André Lemos, dos mais destacados pesquisadores brasileiros da área, professor associado na UFBA. Em especial, destaco esse texto sobre Cibercultura Remix, apresentado no Seminário Sentidos e Processos, realizado no espaço do Itaú Cultural em agosto de 2005.

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Agradeço à Silvana, que fez um post bem informativo sobre o evento e “me lembrou” de algumas falas dos debatedores. As aspas que usei dos entrevistados foram tiradas do blog dela, que é uma ótima referência para acompanhar o que anda acontencendo em Santa Maria. É dela também a  única foto do evento desse post. Agradeço também a Francelle pelo convite para participar do seminário e por quebrar um galho tremendo depois do debate.

[Leonardo Foletto.]

BaixaCultura no RS

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Nesta sexta volto à minha base de origem (Santa Maria) para participar do Circuito em Construção – Seminário Estadual para auto-sustentabilidade Cineclubista na Cooperativa dos Estudantes de Santa Maria, a popular Cesma, talvez a cooperativa mais atuante do interior do Rio Grande e com certeza a melhor livraria da região central do Estado. Vou mediar (nunca fiz isso na vida, mas) um debate sobre Direito Autoral & Constituição de redes, onde vão falar Antonio Martins – jornalista,  editor do Le Monde Diplomatique até fins do ano passado – e Gilvan Dockhorn, professor de história na URCAMP-RS e Diretor Regional do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros.

Quem está organizando o seminário, além da Cesma, é o Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros, a Associação Cultural Tela Brasilis e o Cineclube Lanterninha Aurélio, que funciona religiosamente toda quarta feira às 19h no quarto andar do belo prédio da Cesma, oficialmente conhecido como Centro Cultural Cesma. Mas vamos a mais informações aqui abaixo:

 Apresentação: 

O advento do novo século trouxe consigo tanto o aperfeiçoamento quanto o barateamento das tecnologias digitais de captação, manipulação, armazenamento e exibição de filmes. Neste ultimo campo, a exibição sem fins lucrativos, ou seja, o cineclubismo experimenta uma verdadeira ebulição, tendo o Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros contabilizado mais de 300 ações por todo o país. Em um contexto em que muitos desses cineclubes começam a completar meia década de vida, é preciso contribuir para o amadurecimento do movimento rediscutindo e reelaborando suas atividades através dos conceitos de Auto-Sustentabilidade e Economia da Cultura. 

O Brasil conta hoje, com pouco mais de 2 mil salas comerciais de cinema concentradas no Rio de Janeiro e São Paulo que conferem pouca visibilidade aos filmes nacionais e praticam ingressos caríssimos. O cineclubismo é, portanto, a via natural para esta produção. Por meio da construção de um circuito sustentável de exibição audiovisual espalhado por todo o país, o projeto é que o público possa ter garantido seu acesso gratuito, e que produtores, realizadores e distribuidores possam ser remunerados por seus trabalhos, e de modo a, inclusive, se assegurar a continuidade da oferta cultural. 

Em consonância, portanto, com os princípios da Convenção Sobre a Proteção e a Promoção da Diversidade das Expressões Culturais e os propósitos do Programa Mais Cultura, e em um momento em que a “Cultura” alcança o status de campo estratégico dentro das políticas de Estado – para a produção, a circulação o acesso e o consumo de atividades, bens e serviços culturais se realizam -, a criação de um modelo sustentável, em rede, é ação prioritária. 

Para tanto, a Associação Cultural Tela Brasilis realizou, de 10 a 12 de julho de 2008, no Rio de Janeiro, a segunda fase do projeto Circuito em Construção – Seminários Estaduais para a Auto-Sustentabilidade Cineclubista. A primeira etapa do projeto aconteceu na Feira Livre – Feira Audiovisual do Rio, de 6 a 8 de março de 2008, quando foram realizadas as primeiras mesas de debate sobre os temas aqui em questão, e onde se estabeleceu, pela primeira vez, uma Feira de Negócios direcionada ao produtor audiovisual independente e de pequeno porte, configurando, já, uma iniciativa da auto-sustentabilidade. A etapa posterior ao Seminário Nacional no Rio de Janeiro está sendo a reprodução deste encontro nos demais estados brasileiros. O conhecimento adquirido pelos participantes e o material didático formulado a partir das palestras e debates, tanto da Feira quanto do Seminário, estão utilizados para a promoção dos eventos locais. 

Como no cineclubismo desembocam diversas questões que permeiam o universo do audiovisual, convidamos para as mesas produtores, realizadores, difusores, distribuidores e representantes de associações de classe do cinema. Para o fortalecimento do cineclubismo nos estados, a proposta é focar em temas como “leis de incentivo” e “programação” além do incentivo à constituição de Federações Estaduais. Assim, este projeto Circuito em Construção tem o compromisso de desenvolver ambiente para que agentes de produção, distribuição e, sobretudo, exibição audiovisual possam desempenhar suas atividades sob a lógica da Economia da Cultura, através do fortalecimento dos pontos de exibição sustentados existentes e o estímulo à criação de outros. 

Associação Cultural Tela Brasilis 
   

Circuito em Construção

Seminário Estadual para Auto-Sustentabilidade Cineclubista/RS 

Data: 05 de junho de 2009

Local: Auditório João Miguel de Souza – Centro Cultural Cesma

Cooperativa dos Estudantes de Santa Maria Ltda – CESMA – Santa Maria/RS 

A realização do Seminário Estadual para Auto-Sustentabilidade Cineclubista/RS é uma é uma co-realização da Cooperativa dos Estudantes de Santa Maria Ltda- CESMA, Cineclube Lanterninha Aurélio, Associação Cultural Tela Brasilis e Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros, e integra a programação dos 31 anos da CESMA, através do Programa Seminário Permanente de Cultura. 
 

9h – inscrições e cadastramento dos participantes 

MESA 01 – 9h30min

Distribuição de Conteúdos  

         Luiz Alberto Cassol

         Vice-Presidente do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros

         Catálogo Cinesud & Cinemateca Carlos Vieira

         Frederico Cardoso

         Coordenador do Cine + Cultura

         Programadora Brasil

         Mediador: Paulo Henrique Teixeira – Cineclube Lanterninha Aurélio 

12h30min – almoço 

MESA 02 – 14h

Direito Autoral & Constituição de Redes 

         Antonio Martins

         Jornalista, Editor do Le Monde Diplomatique Brasil, na internet (1999-2008)

         Gilvan Dockhorn

         Diretor Regional do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros

         Mediador: Leonardo Foletto – Jornalista, Baixacultura.org

17h – café 

MESA 03 – 17h30min

Leis de Incentivo & Sustentabilidade. 

         Rosane Maria Dalsasso

         Representação Regional Sul do Ministério da Cultura

         Nova Lei Rouanet e Programa Cultura Viva

         Josias Ribeiro

         Secretaria de Município da Cultura de Santa Maria

         Lei de Incentivo Estadual e Municipal

         Eduardo Ades

         Associação Cultural Tela Brasilis

         Sustentabilidade Cineclubista

         Mediadora: Cristina Jobim – Produtora Cultural 

                 20h – Coquetel de Confraternização

 

[Leonardo Foletto.]