Paródias by “Weird Al” Yankovic

Cantor, comediante, produtor, escritor e acordeonista, Alfred Matthew Yankovic – ou “Weird [Esquisito] Al” Yankovic – é mais conhecido fantasiado  das mais engraçadas formas possíveis imitando alguma celebridade da música pop do que como na foto acima, com cara limpa e jeitão de loco. Tu provavelmente já viu ou ouviu algum clipe/música dele, mas talvez não sabia que ele lançou seu último disco, “ALpocalypse” no último 21 de junho, e continua parodiando a cultura pop a torto e direito.

Desde o final dos anos 70, ele se aproveita da melodia de outras músicas para fazer algo que todo mundo já fez uma vez na vida: usar a criatividade para criar paródias e dar risada. Após cursar arquitetura na Universidade Politécnica da Califórnia, estado onde nasceu, e ser DJ numa rádio da mesma universidade, Yankovic gravou o single “My Bologna“, sua versão gaiteira de “My Sharona” do grupo The Knack, agradando aos músicos e aos ouvintes da estação. A partir daí, não parou mais.

Em 1983, lançou seu primeiro CD, homônimo, com canções satirizando outras e também com melodias originais, criadas em seu acordeão – ou sanfona/gaita, escolha a palavra que tu quiser. Já nesse ano, ano de nascimento da MTV, Yankovic sabia da força do videoclipe e lançou logo dois:  I Love Rocky Road e Ricky. A notoriedade, no entanto, só veio no segundo album: ‘Weird Al  in 3-D’, de 1984, com a pérola Eat It, paródia de Beat It do Rei do Pop Michael Jackson. Outro destaque foi o surgimento de suas polka pot-pourri, nas quais junta trechos de outros sucessos numa mesma música – levada, claro, pelo seu acordeão/sanfona/gaita.

Al e sua indefectível sanfona/gaita, em chamas

Daí em diante, Weird Al ironizou videoclipcamente vários medalhões da cultura pop:  Madonna em ‘Like a Surgeon‘, Nirvana em Smells Like Nirvana, Extreme em You Don’t Love me Anymore, Red Hot Chilli Peppers em Bedrock Anthem, Bob Dylan no genial Bob feito só com palíndromos; e filmes, como Forrest Gump, Jurassic Park e Star Wars em The Saga Begins. Ainda sobrou tempo para produzir uma a versão de Pedro e o Lobo, do compositor russo Serguei Prokofiev.

Nesses 30 anos de carreira, Yankovic sempre procurou pedir permissão para parodiar ou fazer covers de outras músicas. Na verdade, ele nem precisaria, já que se tratam de casos que se encaixam no conceito de “fair use“, ou uso justo, existente no copyright estadunidense. Caso haja um processo, o que é julgado é a paródia (o trabalho ridicularizando o mesmo trabalho no qual é baseado, necessitanto do trabalho original) ou a sátira (o trabalho ridicularizando outros assuntos, dispensando o trabalho original). Porém, não é tão simples.

Como nas composições Al sempre faz uso de paródia, isto é, uma imitação cômica que necessita da obra original, teoricamente elas não precisariam de autorização. Essa é a explicação do blog Technically Legal. Mesmo assim, Yankovic recorre a burocracia necessária para evitar possíveis processos, como dito em seu site oficial:Well, as I always say, we live in a country where anybody can sue anybody else for any reason at any time, so it’s always a gray area.” [Bem, como eu sempre digo, vivemos em um país onde qualquer um pode processar alguém por qualquer motivo, a qualquer hora, então essa é sempre uma área cinzenta].

Capa do EP Internet Leaks, de 2009

Às vezes ele consegue autorização somente para as músicas, às vezes somente para o clipe, às vezes para nenhuma das duas coisas. O site 11 Points mostrou 11 casos conhecidos nos quais artistas caretas disseram ‘não’ para paródias. Teve a Yoko Ono, que não permitiu a gravação de Gee I’m a Nerdy (versão de Free as a Bird); a gravadora do chato James Blunt que negou na última hora You’re Pitiful (depois disponibilizada na internet); o rapper Coolio, que mudou de ideia depois de autorizar a paródia de Gangsta Paradise (vejam só, que era sampleada de Pastime Paradise); Eminem, que não deixou fazerem um clipe de Couch Potato; entre outros, como Paul McCartney, Prince, Michael Jackson e Jimmy Page. Lady Gaga quase entrou nessa lista. Ela só permitiu a mais recente paródia, Perform This Way, em abril, dois meses antes do lançamento de ALpocalypse.

Quanto aos medleys de várias músicas em estilo bandinha, aí é outro departamento. Conforme o pergunte ao Al, sempre houve um acordo com os detentores das músicas originais:

“In principle I don’t need permission, but if I paid everybody their full royalty rate for songs in the medley, I would wind up LOSING money on each album! So each and every songwriter needs to agree to only take their rightful share of the royalties (meaning, if a Green Day song takes up 11% of the medley, then Green Day will only get 11% of the songwriting royalties for that one song). We can’t make exceptions because it’s a “favored nations” deal, meaning that if one person gets the full amount, EVERYBODY gets the full amount. Obviously, a whole lot of artists have been good sports about this – but it’s a mountain of paperwork every time I do a medley.”

[“Em princípio, eu não preciso de permissão, mas se eu pago todos os royalties deles para músicas no medley, eu acabaria perdendo dinheiro em cada álbum! Assim, todos e cada compositor têm de concordar em receber apenas a sua parte justa dos royalties (ou seja, se uma música do Green Day ocupa 11% do medley, em seguida, o Green Day só vai ficar 11% dos royalties de composição por aquela canção). Não podemos abrir exceções, porque é um acordo de “nações favorecidas”, o que significa que se uma pessoa recebe o montante total, TODOS ficam com o valor total. Obviamente, um monte de artistas tem levado na esportiva – mas é uma montanha de papelada toda vez que eu faço um medley.]

Com suas letras engenhosas e seus clipes malucos, Al ganhou três Grammys latinos e sempre esteve entre os mais vendidos da lista da Billbboard, seja na 139ª posição do primeiro album ou nas 10ª e 9ª dos dois últimos, de 2006 e 2011. Pois justamente nesses últimos, a internet acabou virando alvo: ganharam músicas o  site de fofocas TMZ e o site de classificados Craigslist, que ainda teve a  participação de Ray Manzarek, ex-tecladista dos The Doors. Além da rede, o copyright e suas “infrações” também renderam um single.

A canção ‘Don’t Download This Song‘ [Não baixe essa canção], do disco Straight Outta Lynwood, soa como hino We are the World e é uma crítica cáustica ao pensamento da indústria do copyright: dos processos feitos sem discriminação contra uma criança de 7 anos de idade e uma falecida vovó, passando pelas extravagâncias de  artistas ricassos à culpa exercida pelas campanhas, que relacionam o compartilhamento de arquivos com o roubo de bebidas, o tráfico de crack e até atropelamentos. Na época, sarcasticamente foi feito um site disponibilizando “Don’t Download This Song” para baixar, e é ela que tu vê aqui abaixo, com  letra e clipe oficial. A discografia de Weird Al Yankovic está nesse link aqui e o último disco, aqui.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=zGM8PT1eAvY&w=425&h=349]

Once in a while [De vez em quando]
Maybe you will feel the urge. [Talvez você sinta a vontade]
To break into national copyright law [De quebrar a Lei dos Direitos Autorais]
By downloading mp3s [Baixando mp3s]
From file sharing sites [De sites de compartilhamento de arquivos]
Like morpheus or grokster or limewire or kazaa. [Como morpheus ou grokster ou limewire ou kazaa]
But deep in your Heart.  [Mas no fundo do seu coração]
You know the guilt would drive you mad [Você sabe que a culpa lhe deixará louco]
And the shame would leave a permanent scar [E a vergonha vai deixar uma cicatriz permanente]
Cause you start out stealing songs [Porque você começa roubando músicas]
Then you’re robbing liquor stores [E depois está roubando loja de bebidas]
And selling Crack [E vendendendo Crack]
And running over school kids with your car [E atropelando crianças com seu carro]

[Refrão]:

So Don’t Download This Song [Então Não Baixe Essa Música]
The record store is where you belong [A loja de discos é lugar a que você pertence]
Go and buy the CD like you know that you should [Vá e compre um CD como sabe que deveria]
Oh Don’t Download This Song [Oh Não Baixe Essa Música]

Oh you don’t want to mess [Oh você não quer se meter]
With the R I Double A [Com a R I Duplo A]
They’ll sue you if you burn that Cdr. [Eles vão lhe processar se você gravar esse CD-Rom]
It doesn’t matter if you’re a grandma [Não importa se você é uma vovó]
Or a seven year old girl [Ou uma garota de sete anos]
They’ll treat you like the evil Hard-bitten criminal scum you are [Eles vão lhe tratar como lixo criminoso e maldoso que você é]

[Refrão]

Don’t take away money [Não tire o dinheiro]
From artists just like me [De artistas como eu]
How else can I afford another solid gold Humvee [De que forma eu posso comprar um outro Humvee de ouro puro]
And diamond studded swimming pools [E piscinas cravadas de diamante]
These things don’t grow on trees [Essas coisas não nascem em árvore]
So all I ask is everybody Pleaseeeeee [Então tudo que eu peço é que todos Por Favor]

[Refrão]

Don’t Download This Song (Oh please don’t you do it or you) [Não Baixe Essa Música (Oh por favor não faça isso ou você)]
Might Wind up in Jail like Tommy Chong (Remember Tommy) [Pode acabar na cadeia como Tommy Chong (Lembre-se de Tommy)]
Go and buy the CD (Right Now) like you know that you should (Go out and Buy it) [Vá e compre o CD (Agora) como você sabe que deveria fazer (Saia e compre-o)]
Oh Don’t Download This Song. [Oh Não Baixe Essa Música]

Don’t Download This Song (No no no no no no) [Não baixe essa música (Não não não não não não)]
Or you’ll burn in hell before to long (And you deserve it) [Ou você vai queimar no inferno (e você merece)]
Go and buy the CD (Just buy it) like you know that you should (You should get it) [Vá e compre o CD (Apenas compre-o) como você sabe que deve (Você deveria tê-lo)]

Crédito das Imagens: 1,2, 4.

[Marcelo De Franceschi]

Notícias do Front Baixacultural (14)

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Música erudita gratuita ganha espaço na rede (Folha Online, 6/01)

Tempos atrás fizemos um post contando de um ótimo blog com um tremendo acervo de discos de música erudita. No início deste ano, a Folha Online, por meio do colaborador Irineu Franco Perpétuo, fez uma matéria contendo algumas dicas de mais blogs e sites com música erudita para baixar. Destaque para o italiano Branle de Champaigne, especialista em música renascentista, medieval e barroca;  o argentino Il Canto Sospeso, centrado na música erudita contemporânea (séculos XX e XXI); e o brasileiro Brazilian Concert Music, só com compositores brasileiros.

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Download de “Watchmen” de Alan Moore completo (Comunidade Revista Bizz no Orkut, 1/03)

Em semana de estréia do filme Watchmen, o nobre colega Marcello foi à comunidade da Revista Bizz para disponibilizar para download a edição completa da revista de Alan Moore e Dave Gibbons. O link para baixar é esse aqui, mas entra lá no tópico da comunidade para ver o  quanto Marcello foi espinafrado por sua atitude de apoio a “pirataria”.

Em tempo:  Neste link está o trailer do filme; o site oficial, muito bonito como costumam ser a maioria das páginas dos filmes de hollywood; e o verbete na Wikipédia sobre o filme, bastante completo.

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Daniel diz que pirataria pode ajudar a difundir seu filme (Babel, 5/03)

O bombardeio midiático em cima do novo filme do cantor Daniel fez com que boa parte de nós, pobres consumidores de cultura, ficassemos sabendo que “O Menino da Porteira” estreou semana passada nos cinemas brasileiros. Pois não é que Daniel, ao descobrir só agora que 90% das cidades brasileiras não têm cinema, resolveu ir contra seus patrões e declarar, implícita e explicitamente, que a pirataria pode ser muito boa para a divulgação de seu filme:

“Antes de o filme ser lançado, é complicado. Mas, depois, a gente vai ter que ter noção que, se o filme tiver respaldo, vai ter certa procura da pirataria. Você viu o que aconteceu no Tropa de Elite? Foi pirateado, mas teve sucesso de público também. Então…”.

Daniel entende que seu público principal não é aquele que costuma ir às salas de cinema no Brasil, grande parte delas localizada em shoppings. Para esse seu público preferencial ver seu filme, a pirataria pode sim ajudar. Então, a entrevistadora pergunta: “se souber que, numa cidade pequena, sem cinema, alguém viu o filme num DVD pirata, ficará chateado?

“Acho que é uma coisa quase normal. Lógico que a gente gostaria que fosse tudo da forma correta, mas não é assim.Tem amigos meus, como Bruno e Marrone, que começaram a fazer sucesso depois da pirataria. O complicado é que a pirataria tira emprego, não gera benefício pra ninguém. Mas às vezes a pessoa só vê assim.”

Mas a desobediência de Daniel esbarraria logo depois na fala de Rodrigo Saturnino Braga, diretor-geral da Sony Pictures no Brasil, co-produtora e distribuidora do filme,

“Os DVDs piratas também não chegam nas cidades que não têm cinema. Eles são vendidos aqui debaixo do meu escritório, na Berrini”, diz o executivo da Sony.

Em tempo (2):  a matéria linkada aqui é do Babel, recente e já ótimo blog da jornalista de Carta Capital, Ana Paula Sousa.

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Portrait of an Artist as an Avatar (NY Times, 5/03)

A editoria de tecnologia do NY Times não é a toa referência para boa parte dos jornais (e portais) mundiais: traz informações atuais, bem apuradas e, principalmente, ótimos textos, tudo como manda o tão esquecido Manual do Bom Jornalismo. Esse perfil aqui, produzido por Sarah Corbett, é mais um desses exemplos: conta a história do “artista” Filthy Fluno, um avatar pixelado e black power do Second Life (!) que ajudou seu criador –  Jeffrey Lipsky, artista plástico – a consolidar sua carreira no “mundo real”, com exposições em lugares tão distintos quanto Nova York e Portugal. No meio disso tudo,  muitas questões sobre as fronteiras cada vez mais apagadas entre o mundo digital e o real.

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Lars Ulrich dos Metallica pirateia-se a si próprio (Remixtures, 6/03)

Miguel Caetano do Remixtures nos conta que Ulrich, baterista do Metallica e principal responsável pela guerra declarada pela banda ao saudoso Napster, numa recente entrevista a Eddie Trunk do programa “That Metal Show” da cadeia de televisão VH1 Classic, confessou que baixou de maneira “ilegal” o  próprio disco novo de sua banda, Death Magnetic:

“Eu sentei-me e descarreguei o Death Magnetic da Internet apenas no intuito de experimentar. Foi algo do tipo “Wow, é assim que isto funciona.” Eu pensei para os meus botões que se havia alguém com direito a descarregar de borla o Death Magnetic era eu.”

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[Leonardo Foletto.]

Crédito foto: World War II Photos

Tudo libre

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Mais uma indicação da um pouco esquecida seção Instrucciones: o blog libros libres musica libre é organizado pelo denominado coletivo Ruben Vizcaíno Valencia, assim chamado em homenagem ao maestro e professor mexicano de mesmo nome.

O blog se destaca por disponibilizar material sobre o qual não falamos muito aqui (mais por desconhecimento do que por outra coisa): música clássica – ou erudita, como queiram  – de compositores como Beethoven, Debussy, Bach, Tchaykovski, Mahler, Brahms, dentre outros quantos. E aqui entram material tão amplo e interessante como a coleção de 154 cds com a obra de Bach, executado por vários músicos de prestígio no cenário erudito, ou a íntegra da produção de música de câmara de Brahms, dentre outros quantos concertos e sinfonias disponibilizados, todos em mp3 com qualidade superior ao usual 128 kbps.

Como se não bastasse o amplo acervo de música clássica, há também um excelente arquivo de literatura, com a obra completa de escritores como Faulkner, Salinger, Roberto Bolaño, Paul Auster e Saramago, alguns textos  na língua original em que foram escritos, outros na tradução para o espanhol. E, espantosamente, ainda há links com todas as pinturas de Picasso e mais de 300 de Van Gogh e Andy Warhol.

Segundo o perfil do Blogger, o coletivo atua entre Montreal, no Canadá, Madrid e Barcelona: “Somos un colectivo, organizado en memoria del Maestro Ruben Vizcaíno Valencia, y nos declaramos partidarios de la generosidad, la solidaridad y la entrega anonimas.”

[Leonardo Foletto.]

Notícias do Front Baixacultural (11)

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95% dos downloads de música são ilegais (Estadão, 16/01)

Dados da Federação Internacional da Indústria Fonográfica: mais de 40 bilhões de arquivos de música foram compartilhados ilegalmente no ano passado. No entanto, a mesma federação anuncia que o número de downloads legais também cresceu, e que a venda de músicas digitais corresponde hoje a 1/5 do faturamento total da indústria. Mas a maluquice das pessoas que efetivamente pagaram para baixar singles de Lil Wayne (o campeão de downloads legais de 2008 ) não é o bastante para salvar a indústria do naufrágio – segundo a mesma IFPI, a renda mundial da indústria de discos diminuiu mais 7% no ano passado. Comemoremos.

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A vontade dele é te matar (Pop Up!, 14/01)

A fatídica entrevista de João Carlos Muller, consultor jurídico da Associação Brasileira de Produtores de Discos, continua repercutindo. Desta vez é o jornalista Bruno Nogueira que chama a atenção para alguns pontos pouco destacados aqui no blog. E nós todos continuamos nos divertindo com a falta de noção das pessoas com algum poder e nenhum discernimento. Com a palavra, Bruno Nogueira:

Entre outras coisas, ele compara o cara que pega aquele disco raro do Zé Ramalho, que saiu de catalogo e não vende mais, para download em um blog com um assaltante de caixa forte de banco. E diz que para turma que baixa o disco que eles podem ficar tranquilo, porque agora eles estão atrás apenas do fornecedor. Igual guerra do tráfico.

Sua principal crítica ao Creative Commons tem como base o argumento que Gil, que é todo pró a idéia, até agora só licenciou uma música na vida. Mas entre as várias incongruências – que passam por defender o DRM, licença digital que nenhuma gravadora adota mais, claramente sem saber o que se trata – a cereja do bolo está também no próprio ex-ministro. Depois de um papo de que o autor merece o mundo, ele solta a pérola:

“O Gil recuperou na justiça a obra dele, numa burrice que o Guilherme fez, eu avisei a ele que ia perder aquela obra. Ferrou-se!”

Burrice do Guilherme, porque, segundo Muller, também não é só porque você tem uma idéia que você pode ser dono dela.

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Uma nova cara para o Remixtures (15/01)

O blog Remixtures, onipresente neste clipping e capitaneado pelo bravo colega d’além-mar Miguel Caetano – e não Miguel Jorge, como erroneamente foi informado semana passada, pelo quê pedimos desculpas públicas -, está de cara nova e com um novo e polêmico modelo de negócio: o Freemium. Trata-se de um sistema cuja lógica é a mesma das bandas que disponibilizam suas músicas gratuitamente na intenção de lotar – e lucrar com – os shows: num modelo freemium, o serviço básico é grátis, e o lucro vem dos produtos adicionais. Nas palavras de Caetano:

Em termos concretos, a proposta freemium do Remixtures passa por disponibilizar uma série de serviços personalizados e complementares a uma vasta gama de entidades potencialmente interessadas como jornais, revistas, publicações online, escolas de formação profissional, bandas e músicos independentes, editoras discográficas, promotoras de concertos, universidades, associações industriais e profissionais, etc. Inicialmente e salvo situações excepcionais, este modelo deverá abranger os seguintes serviços disponibilizados ao preço mínimo referido.

A descrição dos serviços e os respectivos preços tu confere no link do título. É uma forma interessante e pra lá de válido de trazer o modelo da música para o campo da produção textual, já que em vários pontos da discussão cultural em torno da internet a música parece vários passos adiante das demais formas de expressão. Boa sorte ao Remixtures na nova fase!

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E por falar em Remixtures, quando me preparava para fazer a segunda tradução para este blog, do artigo Copyright, Copyleft & the Creative Anti-Commons, tive a grata surpresa de descobrir que Miguel Caetano já fez.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Crédito foto: World War II Photos

Amigo Punk

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Há em torno do punk o mesmo desconforto que ronda toda idéia fora de contexto – a de tornar-se pastiche involuntário de si mesmo e recusar-se a enxergar isto, que é precisamente tudo o que os demais enxergam. Caso se tratasse apenas de um gênero musical, não seria tão pertinente a acusação de imobilidade (“esses caras fazem a mesma coisa há 30 anos!”), ou não seria mais pertinente do que o é no caso do blues e do rap, por exemplo. O problema do punk está menos na música do que no apego a um tipo de discurso que só pretende ofender o mundo, mas não consegue mais fazê-lo, porque o mundo muda mais rápido que a capacidade de raciocínio de um punk tradicional.

Mas e daí? Ou, perguntando de outra forma, isso tudo não é evidente o bastante pra que se torne irrelevante, e pra que seja então possível apenas apreciar os bons discos, os refrões antológicos e o inegável papel histórico do gênero? Afinal, apesar dos argumentos contra a “cena”, não há o que se dizer contra a lucidez e pertinência do que diz um Jello Biafra, este sim um punk’s not dead, ou contra o papel do gênero enquanto matriz para outras expressões culturais, como toda a cena indie baseada no bom e velho “faça você mesmo”.

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Baixe você mesmo, neste caso. Bandas de A a Z com atualizações diárias, na Punk’o’teca. Coisas clássicas e conhecidas fora da cena, como Dead Kennedys [a ex-banda do mencionado Jello Biafra], Pennywise, Rancid ou Fugazi, coisas não ortodoxas, como The Offspring e Rage Against The Machine, muitas bandas obscuras e o que é melhor, vários registros de bandas brasileiras, que sempre encontraram dificuldades históricas para gravar.

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Parte dessa dificuldade, aliás, está bem documentada no filme do ex-VJ da MTV Gastão Moreira. Centrado nas bandas de São Paulo, Botinada – A origem do punk no Brasil resgata a confusão que foi a formação de uma cultura punk no Brasil em fins de ditadura. A confusão dos punks (divididos entre os que acreditavam no discurso, os que queriam transformar violência em música e os que queriam dar porrada mesmo) e a confusão gerada pela dificuldade de assimilação do movimento pela sociedade. Embora seja sempre enjoada a ortodoxia de alguns entrevistados, vale a pena se defrontar com a complexidade de um movimento que em todo caso é a face furiosa da periferia industrial brasileira, e as contribuições lúcidas de Clemente (vocalista dos Inocentes), Kid Vinil e do jornalista Antonio Bivar não deixam dúvidas de que vale o download.

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[Reuben da Cunha Rocha.]

Instrucciones (3)

Roubo de Leonardo o título pra seguir falando sobre os links à direita. Aquilo que de cara soa como clichê: logo em seguida ao lançamento de In Rainbows, certo DJ e produtor californiano aparece com a idéia que qualquer um de nós esperaria dum DJ — remixar as faixas do disco.

Aquilo que poderia ser um pouco mais. Amplive imaginou lançar o disco [arquivo zipado, 08 faixas, duas a menos que o original, em 320kbp] pela W.A.S.T.E, a loja virtual do Radiohead, e somente pra quem houvesse baixado a versão da banda [eu gosto mesmo de viver num tempo em que dá pra chamar o original de versão da banda.].

Aquilo que não deu certo. Antes do lançamento oficial de Rainydayz [mas não antes da circulação de faixas avulsas na rede], Amplive recebeu uma notificação da Warner/Chappell informando sobre, tu sabe, a ilegalidade do projeto, o quão desinteressante seria para a empresa a vinculação oficial do Radiohead ao trabalho do DJ [através da disponibilização do disco na loja da própria banda] e a impossibilidade de continuá-lo sem nefastas consequências.

[Nada se disse sobre a posição da banda sobre o caso. Ou vai ver foi a banda quem não disse nada.]

Pra encurtar a história, quando já tinha mesmo desistido de lançar o disco, Amplive conseguiu autorização pra disponibilizar Rainydayz para download gratuito aqui.

Acredito que faço parte de uma maioria de pessoas que ouviram o disco sem a menor pista de quem sejam Too $hort, MC Zumbi, Chali2na, Codany Holiday ou Del The Funky Homosapien, familiarizadas que estamos com a música do Radiohead e razoavelmente ignorantes que somos sobre o que se passa no rap. Vergonhoso, no caso daqueles que como eu se interessam por essa fértil cultura de reciclagem que é o remix.

Também acredito, provavelmente com os mesmos colegas de maioria, tratar-se de um disco pouco ousado para a proposta, sobretudo no que se refere às batidas — a monotonia ritmica do rap fica em geral bastante evidente e prejudica canções originalmente desafiadoras até para o Radiohead [como 15 Steps, agora 15 Stepz].

Mas talvez isto que eu e a maioria encaramos como perda seja só a inserção do pós-rock (ou indie, nem sei mais, nem ligo) numa outra lógica musical, e represente aquilo que a apropriação da tecnologia por culturas economicamente subalternas [como o rap ainda é, apesar dos rappers de MTV] significa de melhor: que eu e tu vamos ter que engolir sim o outro, e que esse mesmo outro não pensará duas vezes antes de transformar o que bem quiser em seu.

O que aliás me remete ao que escapa à lógica econômica da Warner: essa disposição de apropriar-se é a mais comprometida das homenagens.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Uma voz do presente

“Escuta Wado, bicho! Esse cara é completamente contemporâneo! Escuta!”, foi o primeiro elogio que ouvi sobre a obra do cantor e compositor catarinense, mas a conexão ruim é a verdadeira inimiga da cultura livre e depois de ouvir o elogio levou ainda algum tempo até que eu conseguisse baixar seu primeiro disco, O Manifesto da Arte Periférica (2001), encontrado solitário numa comunidade de orkut.

Tempo o bastante pra que eu me tocasse do melhor: não apenas o primeiro disco, toda a obra de Wado até aqui tá disponível pra download, desdo Manifesto, passando por Cinema Auditivo (2002) e A Farsa do Samba Nublado (2004) até Terceiro Mundo Festivo, lançado este ano e em processo de divulgação, com shows até agora realizados do Pará a SP, passando por Pernambuco, Ceará, Distrito Federal, Bahia e Alagoas, onde o cantor reside há quase dois anos.

Na verdade, pra onde voltou há quase dois anos. Nascido em Santa Catarina, com oito anos de idade Wado se mudou pra Maceió, e lá viveu o bastante pra chegar a gravar os dois primeiros discos. Depois disso, dois anos e meio no Rio + um ano em São Paulo.

A volta pro nordeste coincidiu com outra mudança, essa na discografia do cantor: o ingresso no independente. Com um primeiro disco lançado pelo selo Dubas [do compositor Ronaldo Bastos] e os dois seguintes pela Outros Discos, Wado primeiro jogou Terceiro Mundo Festivo na rede pra somente em seguida lançar o produto material, sem selo mesmo.

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Perguntado, ele associa tanto o uso da internet quanto a entrada no independente à necessidade de renovação criativa. “Eu tava me reconstruindo, tentando não me repetir. Me pareceu uma boa estratégia”, ele me diz no msn e eu respondo que acredito ter funcionado. Mas voltando um pouco. Como é que os primeiros discos [que têm selo] foram parar na rede? As gravadoras liberaram, e tal? “O que rolou foi que os contratos acabaram. Os contratos estão mais curtos hoje em dia, geralmente com dois anos o disco volta pra mim. Daí chegou uma hora que era tudo meu novamente e eu postei tudo no site”, e se tu [como eu] não fazia idéia dessa mudança nos contratos com gravadora, o compositor explica: “os contratos começam como padrão, mas quando tu não tá mais no primeiro disco dá pra negociar uns detalhes”.

Baixo então disco após disco e sem procurar encontro aquilo de que me haviam alertado, a contemporaneidade da voz, da palavra e do som do artista, profundamente pessoais [pra mim o nome disso é sotaque, nos discos de Wado até os timbres dos instrumentos o têm.] ao mesmo tempo que sempre sensíveis ao outro, ao fora, ao que não é umbigo. É isso para mim a ‘arte periférica’ de Wado: um olhar e um modo de se relacionar com as coisas mais do que um tema. Uma sensibilidade que fala só do que lhe emociona, e que refinada se emociona com coisas que mal vemos. Um carteiro de favela empenhado na ingrata tarefa de vencer as ruas fora de catálogo bebe com coração tranquilo sua cerveja no final do dia. Pé que dá fruta é o que mais leva pedra, e uma raiz é uma flor que despreza a fama. Meu corpo escuta o groove com os poros e pensa, o groove introduz leveza na subversão sonora.

E escuto então isso tudo e penso no dilema do artista contemporâneo, ou melhor, no dilema contemporâneo do artista, construir trajetória, batalhar grana, tocar em Paris e produzir o próprio show, gravar o próprio trabalho e procurar trabalho. É aí que dou uma boa olhada no meu próprio entusiasmo e penso, que beleza, nada é tão simples quanto parece, nada se reduz ao tamanho gigantesco de nossos entusiasmos, e sou obrigado a segurar minha própria onda quando escuto de Wado que voltar pro centro é uma possibilidade, que “voltar é pra ter mais visibilidade”. Que nem tudo são flores no 3º mundo apesar da festa e que mesmo a decisão de descer pro sudeste novamente não depende só do seu talento ou do que sua voz tem a dizer de nós. Que é preciso ainda se “preparar pra poder trabalhar com outras coisas por lá, eu não consigo viver só de música”.

Até a permanência no independente e a distribuição livre do seu trabalho na internet, esses dois enormes entusiamos do declarado fã que sou, não têm futuro certo. Da internet os frutos, segundo o compositor, têm sido mais shows vendidos, melhor distribuição e até, imagine você, mais vendas de disco [“depois de ouvirem as pessoas querem a coisa fisicamente também”]. Eu acho massa. Mas ele mesmo não tem certeza se seguirá na trilha recentemente aberta e tá tranquilamente aberto a negociar contrato com gravadora. “Acumula muita função pra mim, ter de ser artista, gravadora, produtor. Essas porras todas”, né?

É assim que nem tudo é festa no 3º mundo festivo e que apesar da festa, dos quatro excelentes discos [baixa logo, maluco!], do enorme talento, da singularidade de sua proposta e da disposição em seguir fazendo o melhor nas condições dadas, sejam elas quais forem, o futuro do artista periférico é que nem morar de aluguel: provisório e em permanente mudança.

E Wado nem reclama. “A vida tá boa”, ele diz, e eu penso no quanto isso fala sobre sua música, que se fosse pra dizer do que se trata ao invés de escrever este texto eu diria isso, é trilha sonora pra vida boa, pra dançar a lição do samba: dançar a vida boa quando a vida não tá fácil, que a vida mesmo nunca é.

[Reuben da Cunha Rocha.]