De e-livros e livros

outubro 26th, 2008 § Deixe um comentário

É visível, a livre distribuição e consumo de literatura na rede ainda não alcançou a mesma dinâmica que o tráfego de arquivos de som e vídeo, e o que talvez à primeira vista possa não passar de um reflexo da frágil educação brazuca possui pra mim uma causa mais imediata e ao mesmo tempo de mais fácil remédio: o formato.

[Abro em meu computador a pasta de ibúks e reparo na profusão de peixes fora d'água, livros que são apenas isso, livros, mídias da idade da imprensa perdidas no espaço da tela, e não tenho paciência pro incômodo de lidar com aquelas páginas e volto a este texto.]

Há por um lado e evidentemente iniciativas como o Dossiê Deleuze, das quais não se poderia mesmo cobrar coisalém dos scans das obras [repara que estão lá inclusive os livros caprichados da editora 34, gloriosamente grátis], e é o caso na verdade de tirar o chapéu para a disposição de se catalogar e disponibilizar um acervo pirata tão variado e cuidadoso. 

Mas para mim o dossiê consegue funcionar apenas como espaço de referência, nunca de leitura integral, e a iniciativa assim me diz algo sobre o problema do formato, e me diz que o problema reside em etapas anteriores ao consumo das obras, reside na produção e na distribuição, os pontos do processo onde se encontram autores e editores. A escassa leitura de livros na rede fala portanto da indisposição dos autores de escreverem para esse espaço [e, ah, abandonarem as prateleiras e a longo prazo as traças], ou do desinteresse das editoras em explorarem esse tipo de produto.

Entre os escritores as excessões, e entre as excessões gostaria de destacar o poeta Marcelo Sahea, que estreou em 2001 com o e-livro ‘ejs [15 mil downloads em 1 ano, esgotado]. À estréia se seguiu carne viva, e-livro que depois virou livro e, esgotado, voltou ao formato original [download aqui], e de onde o poema visual que abre este texto foi tirado. Na sequência veio leve (2006), em livro, que Marcelo pretende jogar na rede assim que esgotar.

[Mas baixa lá o carne viva antes de continuarmos. É que talvez o livro ganhe uma reedição e saia do ar, e só volte quando novamente esgotado. "A idéia é deixá-lo acessível. Se não tem no mercado, tu baixa. Se tem, compra e me ajuda", palavra do autor.]

O livro de Sahea tu lê assim que baixa, e até o fim. O formato das páginas é ideal [elas abrem inteiras na tela] e a metragem do livro, adequadíssima. Só a tua preguiça pode te impedir de lê-lo inteiro, de uma vez. Também a imaginação veloz e altamente visual do poeta transformam a obra num produto perfeito, a começar de que sei que Marcelo não se ofenderá com a palavra produto. Visual é mesmo uma boa palavra para o livro, objeto pensado para a visibilidade, prazer dos olhos.

Como também o são, no caso das editoras, os discos-para-ler da Mojo Books. O ponto de partida da editora [100% virtual] é a pergunta: se um disco fosse um livro, que história contaria? E independente da resposta a pergunta aponta para duas características de que todo o seu catálogo se beneficiará: a popularidade da canção e, ele novamente, o formato, nesse caso de cd.

Funciona assim: tu te cadastra pra baixar os livros [os singles, ou comix] e pra enviar material também. Nesse caso, escolhe um disco [ou música, para escrever um single] e segue as orientações [as obras não devem fazer qualquer referência direta aos discos e devem obedecer a um limite específico de caracteres, por exemplo].

Embora o trabalho da editora seja uma excelente lição sobre livros virtuais, é preciso dizer que frequentemente a qualidade dos produtos deixa a desejar. O ponto de partida sendo a música, ocorre o curioso efeito de por vezes os trabalhos enviados serem realizados por fãs das bandas, não por escritores. Por ouvintes afetuosos, mas sem grandes preocupações ou envolvimentos com a linguagem. Ainda assim, há experiências a serem conferidas, como a do graaaaande Gastão Moreira [VJ do tempo em que a MTV tinha música no M, depois piloto do Musikaos na TV Cultura] e da escritora Andréa del Fuego [de quem li Engano Seu e gostei].

E banda boa tem um monte também!

[Reuben da Cunha Rocha.]

O quanto rende um parabéns

outubro 24th, 2008 § 3 Comentários


Ia fazer um post sobre a questão do Copyright e a música “Parabéns a você“, mas achei aqui um texto bastante interessante e completo, de modo que irei reproduzir abaixo alguns trechos dele, acrescentando alguns comentários e detalhes.

**

Música “Parabéns a você” rende 2 milhões de dólares ao ano

Um dos exemplos mais frequentemente citados para demonstrar o que está errado nos direitos de autor é a música “Parabéns a Você” (”Happy Birthday to You“), talvez a canção mais popular em todo o mundo.

[Nota do Editor: De acordo com o Guiness Book de 1998, ela é a melodia mais conhecida em língua inglesa, e não se duvide se for também aqui no Brasil.]

A canção surgiu a partir da melodia da música “Good Morning to All” escrita pelas irmãs e professoras norte-americanas Patty e Mildred J. Hill em 1893.

[Nota do Editor: As irmãs eram professoras primárias em Louisville, no Estado sulista de Kentucky, e criaram a música com a intenção de que ela fosse uma melodia fácil de ser cantada por seus pequenos alunos. No mesmo ano de 1893, no aniversário de outra das irmãs Hill, Lysette, Patty Hill sugeriu que, ao invés de "Good Morning to All", elas poderiam cantar "Happy Birthday to You", e assim se fez. O local onde a música foi cantada pela primeira vez - uma casa da época vitoriana bem ao gosto dos filmes de terror norte-americanos - hoje é um local preservado e aberto a visitação: littleloomhouse.org. Neste site há um texto explicativo sobre o surgimento da música, e foi de lá que tirei as informações deste parágrafo]

Acontece que a música só foi oficialmente registada já com a letra e o título actual em 1935 pela Summy-Birchard Company, actualmente uma subsidiária da Warner/Chappell Music, por sua vez pertencente à Warner Music Group, a segunda maior editora discográfica do mundo. O que talvez muitos não saibam é que devido aos sucessivos alargamentos do termo dos direitos de autor, a música continua a ser propriedade exclusiva da Summy-Birchard Company.

[Nota do Editor: O registro da Summy-Birchard Company deu os créditos da música para Preston Ware Orem e Ms. R.R. Forman. Preston foi um importante compositor ligado aos índios americanos, e o "Happy Birthday to You" foi registrada três anos antes de sua morte]

Assim, para todos os efeitos legais, cada vez que nós cantamos “Parabéns a Você” aos nossos entes queridos nós estamos a cometer uma ilegalidade se não tivermos pago de antemão uma licença à Warner.

[Nota do Editor: Uma ressalva: toda vez que a música for usada COMERCIALMENTE, e não em situações como reunião de famílias. Na lei americana, consta que a cada vez que ela for usada desta forma, seja em telegramas, comerciais de TV, filmes, séries, etc, deve-se pagar $25]

Num artigo intitulado “Copyright and the World’s Most Popular Song” (via William Patry) o professor Robert Brauneis da Escola de Direito George Washington faz uma análise minuciosa das origens de “Parabéns a Você” e contesta a validade do argumento de que a música ainda se encontra protegida por direitos de autor. Para além de não existirem provas credíveis que demonstrem quem foram os autores originais da letra, a notificação do registo de direito de autor datada de 1935 contém informação incorrecta. Além disso, os detentores de direitos não se deram sequer ao trabalho de requerer a necessária renovação do copyright após a cessação da obra original em 1963.

O que é impressionante é como é que uma música composta há mais de um século continua a ser uma máquina de fazer dinheiro passado todo este tempo:

No final dos anos 40 e início da década de 50, a música gerava receitas entre os 15 e os 20 mil dólares ao ano. Em 1960, o montante situava-se perto dos 50 mil dólares e em 1970 esse valor já era de 75 mil dólares. Mas o aumento das receitas realmente dramático ocorreu por volta da década de 80. No início dos anos 90, a música representava cerca de um milhão de dólares ao ano e em 1996 a revista Forbes divulgou que essa quantia tinha subido para perto de dois milhões de dólares ao ano.

[Nota do Editor: Estima-se que a canção hoje tenha valor de U$$ 5 milhões de dólares]

O professor Brauneis criou um site que contém cerca de duas centenas de documentos inéditos exclusivamente relacionados com a história de “Parabéns a Você”.

[Nota do Editor: O site é realmente impressionante; tem MUITA coisa sobre o caso, desde diversos registros de copyright das versões da música, fotos e genealogias da família HIll, até MP3 de "Good Morning to All", das irmãs Hill, e outras versões que se seguiram à esta, com diferentes letras e até com variações de melodia que nem mais fica parecendo a mesma música]

***

Uma curiosidade: sabe como a música foi chegar ao Brasil?

Consta-se que a rádio Tupi do Rio de Janeiro organizou em 1942 um concurso para escolher uma letra que casasse com a melodia de “Happy Birthday To You“. A vencedora foi a paulista Bertha Celeste Homem de Mello, filha de fazendeiros, então farmacêutica, (depois virou Doutora em letras e poeta), casada e mãe de duas filhas. Reza a lenda que Bertha escreveu em cinco minutos a letra: “Parabéns a você / Nesta data querida / Muita felicidade / Muitos anos de vida.” – assim mesmo, sem o “prá” nem “Felicidades” como a gente costuma cantar.

Outra curiosidade: ainda se questiona se foram as irmãs Hill que realmente compuseram a melodia, ou se elas apenas “reproduziram” uma melodia popularmente conhecida na época.  Questiona-se mais ainda se foram elas mesmas que modificaram o “Good Morning to All” por “Happy Birthday to You” no aniversário de sua irmã Lysette em 1893, como escrevi neste post. Outras versões, como a publicada em matéria da revista Superinteressante,  consideram que essa sensível modificação da letra foi feita em 1924, quando uma editora americana publicou o livro chamado “Celebration Songs” – como na época não havia uma música própria para ser tocada em aniversários, a editora pegou a melodia das irmãs Smith Hill e acrescentou o “Happy Birthday to You“.

Fica difícil de saber qual versão é a mais próxima da verdade; então, que cada um fique com a sua.

[Leonardo Foletto.]

[Atualização: Por questões estéticas e pessoais, o título foi modificado: Sai o "Como rende um Parabéns" para entrar "O quanto rende um parabéns".]

.

Poesia de ouvido

outubro 22nd, 2008 § 1 Comentário

Vêm de longa data e são de longo alcance as relações entre poesia e música, desde lendários bardos anteriores à palavra escrita, passando pelo velho Paul Valèry [que dizia ser a poesia a oscilação entre som e sentido] até o registro permitido pelas tecnologias de gravação, que interessou gente improvável como Antonin Artaud e Guillaume Apollinaire e em décadas seguintes tornou possível a exploração do potencial popular da poesia operada por sujeitos como Dylan Thomas, Jim Morrison e Allen Ginsberg, e há algumas décadas tem interessado uma boa fatia da melhor poesia contemporânea brasileira, a exemplo de Marcelo Sahea, Ricardo Aleixo, Augusto de Campos e Ademir Assunção.

É nesse contexto, bem maior que este resumo, que se insere o programa Ondas Literárias, iniciativa radiofônica da poeta Andréa Catropa que teve 24 edições produzidas e veiculadas pela Cultura FM de Amparo (interior de SP) no semestre passado.

Mas e daí, Valdenir?

 

Daí que agora o Ondas Literárias vai ao ar pela Rádio Cultura Brasil, em kHz e também online [este charmoso formato, a rádio online, a vitória do gênero sobre a duração das frequências, mas divago], com transmissão ao vivo aqui. O programa de estréia rola neste sábado, dia 25, às 10h30, sendo o poeta de estréia meu conterrâneo, parceiro e amado amigo Celso Borges.

Quando o conheci (em 2003), CB já estava envolvido com o segundo disco-livro, Música (o anterior se chama XXI e é o registro literário-auditivo de suas então duas décadas de atividade poética), que conta com participações como as de Vitor Ramil, Chico César, Cordel do Fogo Encantado, Zeca Baleiro e TA Calibre I sonorizando os poemas e traz também os primeiros registros do Poesia Dub, projeto de Celso com o DJ Otávio Rodrigues (e depois com o acréscimo do baixista Gerson da Conceição) que tem se apresentado há alguns anos em eventos como TIM Festival, Baile do Baleiro e Outros Bárbaros, e do qual dá pra ouvir alguma coisa aqui enquanto o disco não sai.

Ou então tu espera até sábado, escuta a entrevista com Celso, as faixas do Música, e fica ligado na sequência dos programas. Repara lá no site da rádio a turma que promete aparecer, como Alice Ruiz (divulgadora de longa data das poéticas orientais no Brasil), Rodrigo Garcia Lopes (poeta e tradutor de gente como Walt Whitman e Arthur Rimbaud) e Marcelo Montenegro (pra mim o mais discreto entre os maiores). A idéia, segundo a própria Andréa Catropa, é manter os podcasts do programa disponíveis no blog também, mas isso ficou de ser negociado com a rádio e ela (a Andréa, não a rádio) prometeu avisar quando tivesse uma resposta.

Aproveito e compartilho pra encerrar alguns bons momentos da poesia no palco, como este aqui, do poeta curitibano Marcelo Sandmann:

Ou este texto aqui do Ademir Assunção [que também participa do Ondas Literárias], que tive a oportunidade de verouvir em primeira mão no já distante 2004 (ou seria 2005?), quando levei um primeiro lero com o bardo cuja obra e postura tanto admiro:

[Reuben da Cunha Rocha.]

Onde estou?

You are currently viewing the archives for outubro, 2008 at Baixa Cultura.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 756 other followers