cuba – BaixaCultura https://baixacultura.org Cultura livre & (contra) cultura digital Fri, 31 Oct 2025 19:25:41 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.0.11 https://baixacultura.org/wp-content/uploads/2022/09/cropped-adesivo1-32x32.jpeg cuba – BaixaCultura https://baixacultura.org 32 32 Informática do Oprimido – conversa com Rodrigo Ochigame, Paola Ricaurte, Rafael Grohmann e Leonardo Foletto https://baixacultura.org/2025/10/15/informatica-do-oprimido-conversa-com-rodrigo-ochigame-paola-ricaurte-rafael-grohmann-e-leonardo-foletto/ https://baixacultura.org/2025/10/15/informatica-do-oprimido-conversa-com-rodrigo-ochigame-paola-ricaurte-rafael-grohmann-e-leonardo-foletto/#respond Wed, 15 Oct 2025 18:31:55 +0000 https://baixacultura.org/?p=15943  

No dia 1 de outubro de 2025 reunimos Rodrigo Ochigame (Universidade de Leiden), autor de “Informática do Oprimido”, junto com Paola Ricaurte (Tecnológico de Monterrey), Rafael Grohmann (Universidade de Toronto) e Leonardo Foletto (Universidade de São Paulo) para discutir o livro, publicado pela Funilaria em parceria com Baixa Cultura neste 2025. O diálogo explorou as experiências históricas de informática na América Latina – desde a biblioteconomia revolucionária cubana até as redes de intercomunicação da teologia da libertação – e suas conexões com as lutas contemporâneas por infraestruturas digitais mais democráticas e justas. Abordamos também questões de memória, documentação, soberania digital e a urgência de imaginar e construir alternativas tecnológicas a partir do Sul Global.

Segue uma transcrição editada do papo, que pode ser visto na íntegra aqui abaixo no Canal do DigiLabour, coordenado por Rafael.

 

Rafael Grohmann: Boa tarde, bom dia a todo mundo que acompanha o canal do DigiLabour. Meu nome é Rafael Grohmann, sou professor da Universidade de Toronto. Estamos aqui hoje em português e espanhol para falar sobre o livro “Informática do Oprimido“, do Rodrigo Ochigame, professor da Universidade de Leiden, publicado pela editora Funilaria em parceria com Baixa Cultura. Estamos aqui para conversar com Rodrigo junto com Leonardo Foletto, professor da Universidade de São Paulo e editor do Baixa Cultura já há 17 anos, e a professora Paola Ricaurte, do Tecnológico de Monterrey. Nós quatro somos também integrantes da rede Tierra Comúm e temos feito um trabalho coletivo muito bom.

O livro “Informática do Oprimido” nasce do ensaio que Rodrigo escreveu para a Logic Magazine em 2021, chamado “Informatics of the Oppressed“, e ganhou uma edição nova, atualizada e ampliada, com toda uma parte nova sobre pensar o futuro. Acho que é um livro que conecta o passado da América Latina, muitas vezes invisibilizado, e conecta com possibilidades de futuro.

Vou passar a palavra pro Léo comentar um pouco sobre essa coleção e sobre o livro, e depois a gente passa pro Rodrigo.

Leonardo Foletto: Boa tarde, boa noite, bom dia, dependendo do lugar onde a gente está. Prazer estar aqui com vocês, muito boa companhia com Rodrigo, Paola e Rafa.

Queria comentar um pouquinho sobre como nasceu a ideia desse livro e da coleção também. “Informática do Oprimido” é o segundo livro da coleção Âncoras do Futuro, da Baixa Cultura, que é um projeto que eu mantenho há 17 anos – ano que vem vai completar a maioridade. Temos um selo editorial e publicado livros ao longo dos últimos 5-6 anos. Propusemos essa coleção junto com a editora Funilaria, que é uma editora aqui de São Paulo, para publicar livros que discutem de alguma forma esse mal-estar que temos com os rumos que a internet tomou nos últimos anos, especialmente a partir da plataformização.

Digo “nós”, ativistas da cultura do conhecimento livre, do software livre, que há muito tempo discutem e trabalham na internet e percebem o quanto a internet se transformou ao longo desses últimos anos. O primeiro livro que publicamos dessa coleção se chama “Extinção na Internet“, do Geert Lovink, professor e pesquisador holandês, diretor do Institute of Network Cultures em Amsterdam. O segundo é esse, “Informática do Oprimido”, do Rodrigo.

Conhecemos o livro a partir do ensaio inicial que foi traduzido pelo DigiLabor, pelo Rafa, e foi publicado no site do DigiLabour. Quando fomos olhar os textos que gostaríamos de publicar para essa coleção, eu e Caio Valiengo (Funilaria), que somos editores da coleção, nos deparamos com esse texto e pensamos: “acho que ele tem tudo a ver com essa discussão”, também com essa ideia de trazer uma perspectiva do Sul Global, latino-americana, sobre os rumos da internet.

Fomos atrás do Rodrigo, conversamos bastante, pegamos o texto inicial, demos uma editada, e Rodrigo escreveu uma segunda parte do livro com propostas mais concretas para a construção de perspectivas mais justas para a internet. Eu e Caio escrevemos a apresentação do livro e acabamos também trazendo alguns outros casos de perspectivas que nos fazem tentar imaginar outras possibilidades da tecnologia, especialmente da América Latina. Trouxemos casos como o Cybersyn no Chile, que é um dos casos discutidos frequentemente por quem trabalha na discussão tecnopolítica.

O livro foi lançado agora em junho aqui no Brasil, primeiramente na Flipei, que é a Feira Literária Pirata das Editoras Independentes organizada aqui em São Paulo, que foi um sucesso de público. Inclusive Rodrigo esteve presente em pelo menos uns três lançamentos aqui em São Paulo, na Flipei, na Tapera Taperá e em outros locais. Aproveitamos a estada dele no Brasil para fazer essa circulação do livro. Queremos agora também aproveitar a presença de todo mundo aqui para fazer um debate sobre algumas das ideias do livro.

Rafael Grohmann: Excelente, obrigado Léo. Agora passo a palavra pro Rodrigo para comentar um pouco sobre o livro e também, se quiser, sobre os debates em São Paulo, como foram, para quem não esteve por lá.

Rodrigo Ochigame: Olá, boa tarde a todo mundo. É um grande prazer estar aqui em conversa com pessoas cujo trabalho me inspira bastante. Vou falar um pouco do livro para o início da conversa.

Como o Léo comentou, o livro tem duas partes principais. Uma delas é um ensaio histórico sobre a história da informática na América Latina. A segunda parte é mais propositiva e contém algumas propostas mais concretas para os dias de hoje, para infraestruturas digitais mais democráticas.

Na parte histórica, o que quis fazer foi recuperar algumas experiências latino-americanas que me pareceram bastante inspiradoras e relevantes para debates que temos nos dias de hoje, por exemplo sobre regimes de visibilidade regulados por algoritmos. Esse ensaio discute como dois movimentos sociais latino-americanos – o socialismo cubano e a teologia da libertação – inspiraram alguns experimentos com informática entre as décadas de 60 e 80.

Após a revolução cubana em 1959, o novo governo nomeou uma bibliotecária chamada Maria Teresa Freire de Andrade para ser a nova diretora da Biblioteca Nacional José Martí em Havana e também para liderar o planejamento do sistema de bibliotecas e da infraestrutura de informações na Nova Cuba. Ela tinha sido uma dissidente política, tinha sido exilada por regimes autoritários anteriormente, e há muito tempo defendia o que ela chamava de uma biblioteconomia popular. Ela queria criar bibliotecas que participassem ativamente de um processo de conscientização política.

No processo revolucionário, nos primeiros anos da revolução, uma das coisas que ela e a equipe dela fizeram, por exemplo, foi criar Bibliobus – que eram ônibus que serviam como bibliotecas móveis – para tentar levar livros a partes de Cuba que nunca tinham tido nenhuma biblioteca antes. Outra preocupação que essa equipe teve foi tentar repensar que tipo de materiais são incluídos e excluídos das coleções das bibliotecas. Por exemplo, fizeram um esforço grande em tentar recuperar, preservar e indexar materiais da imprensa clandestina revolucionária da década de 50.

Todo esse pensamento revolucionário sobre bibliotecas acabou influenciando a forma que tomou o novo campo de ciência da informação em Cuba a partir da década de 60, que foi a década em que esse campo da ciência da informação, ou da informática como era chamado em alguns países, foi institucionalizado. Quando você lê alguns dos trabalhos de ciência da informação publicados em Cuba, principalmente nesse período, você vê que esses trabalhos têm ideias, até mesmo alguns modelos técnicos, que divergem tanto da ciência da informação estadunidense quanto da soviética.

A criação de uma indústria da informática em Cuba foi um projeto muito difícil, em parte por causa do embargo comercial imposto pelos Estados Unidos a partir de 1962. As pessoas em Cuba trabalhando em informática não podiam importar computadores e também não podiam importar vários dos componentes eletrônicos que eram necessários para criar os primeiros computadores.

Uma das histórias que menciono um pouco mais brevemente no livro é que a primeira equipe que tentou criar o primeiro computador em Cuba, e foi bem-sucedida no fim da década de 60, não conseguiu comprar alguns dos componentes eletrônicos necessários na Europa por causa do embargo, mas acabou conseguindo comprar no Japão com ajuda de um militante cubano de ascendência japonesa que trabalhava como comerciante em Tóquio e apoiava a revolução.

O que me chamou muito atenção é que vários dos cientistas da informação em Cuba tentaram incorporar alguns dos seus ideais sociais e políticos até mesmo nos modelos matemáticos que eles usavam para organizar informação em bibliotecas, por exemplo. Muitos dos modelos mais comuns que vinham dos Estados Unidos ou da União Soviética tinham uma lógica de acúmulo exponencial, que eles fizeram analogia com o acúmulo de capital numa sociedade capitalista, em que os materiais que eram mais visíveis ficavam mais visíveis ainda devido à importância que os modelos matemáticos davam. É uma discussão bastante análoga às discussões que temos hoje em dia sobre regimes de visibilidade na internet e regulação algorítmica.

A outra história foi um experimento que foi inspirado pela teologia da libertação. Um movimento muito formativo na história da teologia da libertação na América Latina foi um encontro em Medellín, na Colômbia, em 1968. Foi um dos momentos-chave na formação do movimento de teologia da libertação. Os bispos que participaram desse evento ficaram muito impressionados com o tanto que aprenderam sobre experiências de luta e experiências de sistemas distintos de dominação em várias partes da América Latina e do mundo.

Isso fez com que eles quisessem continuar esse processo de aprender, de criar um diálogo internacional sobre experiências de dominação em partes diferentes do mundo. Mas eles também fizeram uma autocrítica: uma conferência internacional presencial como a que tinham feito era de certa forma excludente e reproduziu uma lógica opressiva de apenas as pessoas com mais condições materiais, as pessoas mais abastadas, poderem participar, porque comprar uma passagem aérea internacional para atender uma conferência é uma barreira muito alta de participação.

A ideia que eles tiveram foi criar o que chamaram de uma rede de intercomunicação. Como isso era antes da disponibilidade da internet, eles organizaram isso pelo correio. Montaram dois centros de difusão: um no Rio de Janeiro, no Brasil, e outro em Paris, onde muitos latino-americanos moravam no exílio.

O que faziam, como uma tentativa de tentar romper com sistemas de informação controlados – essa foi a terminologia que usaram, se referindo às práticas de censura nos regimes autoritários da América Latina na época – foi deixar em aberto para pessoas ao redor do mundo mandarem por correio textos para esses centros de difusão. As pessoas podiam mandar os textos em qualquer língua e tinham que seguir algumas regras. Por exemplo, uma regra era que o texto tinha que ser curto, tinha um tamanho máximo em palavras. Outra regra é que cada relato tinha que ser um relato ou uma análise de um sistema de dominação, mas tinha que ser escrito a partir da sua própria experiência. Você não podia falar em nome da experiência de dominação que outra pessoa sofria, você tinha que falar sobre a sua própria.

Eles faziam algumas regras e qualquer texto que seguisse as regras, eles se comprometiam a traduzir em quatro línguas diferentes e mandar pros participantes ao redor do mundo de forma gratuita. Estavam tentando criar uma rede de comunicação que tinha esse princípio, essa forma horizontal, em diálogo com o trabalho em pedagogia crítica de Paulo Freire, que era um interlocutor dessa rede.

Eles até pensavam que seria uma nova fase da pedagogia freiriana: em vez de você ter uma conscientização com intermediários, essa rede de intercomunicação poderia facilitar uma interconscientização direta entre os oprimidos. Esse projeto foi bastante ativo, recebeu muitos textos.

Um dos motivos pelo qual o livro se chama “Informática do Oprimido” é que o próprio Paulo Freire foi um dos participantes dessa rede. Junto com um grupo de educadores na Guiné-Bissau, contribuiu um texto para a rede de intercomunicação. Mais ou menos ao mesmo tempo, os primeiros trabalhos técnicos sobre o TCP – que formam a base do protocolo TCP/IP que forma a base da internet moderna – usaram frases muito parecidas: “internetwork”, “rede de intercomunicação”, quase a mesma frase.

Pouco tempo depois, esses próprios participantes começaram a refletir sobre a experiência que tiveram e a relação que esse projeto teve com a internet, e também foi parte do que quis escrever.

Um dos motivos de ter escolhido essas histórias especificamente para contar foi que tentei recuperar experiências que me pareceram particularmente relevantes a discussões que temos agora sobre regimes de visibilidade, poder, justiça na internet, principalmente na incorporação de valores sobre o que é e o que não é relevante, o que merece ou não merece ter mais visibilidade em algoritmos. Quis mostrar que existem tradições de pensamento crítico que até engajam com aspectos técnicos de organização e indexação de informações, que já existiam na América Latina desde a década de 60. Essa é mais ou menos a ideia da parte histórica.

Para o livro, também escrevi uma parte nova, completamente original – no sentido de que é um texto novo, não de que as ideias, as propostas contidas nele são necessariamente originais. Muitas delas são inspiradas tanto em experiências históricas quanto em experiências contemporâneas de movimentos sociais. São propostas mais concretas para os dias de hoje, para infraestruturas digitais democráticas.

Uma das propostas, por exemplo, é incentivos fiscais para tecnologias não extrativistas. Acho que dispositivos que têm software proprietário ou aplicativos comerciais baseados em economias de vigilância, que são impossíveis ou muito difíceis de desinstalar, ou que têm obsolescência programada, esse tipo de dispositivo teria que ser desencorajado com estruturas regulatórias e fiscais, por exemplo impostos seletivos como no caso de tabaco e álcool.

A proposta de incentivos fiscais para tecnologias não extrativistas, por exemplo baseadas completamente em software livre ou em padrões abertos, ou com desenhos modulares para facilitar o reparo e a reciclagem, deveriam ser incentivados com medidas até mesmo fiscais.

Também tem propostas sobre centros comunitários de dados, sobre cooperativas autogestionadas de software, sobre governança democrática em plataformas, sobre economia solidária em serviços digitais, sobre alfabetização digital crítica, e sobre algumas possíveis linhas de pesquisa em ciência da computação de interesse público. Tentei articular como pude algumas dessas propostas.

Principalmente depois desses eventos, debates e encontros no Brasil, em São Paulo, até penso que agora conheço várias iniciativas muito inspiradoras que gostaria de ter citado no livro, mas ainda não conhecia quando escrevi. Essa é uma das coisas muito inspiradoras para mim em estar publicando esse texto: tem me colocado em diálogo com muitas pessoas e coletivos que estão fazendo trabalhos que me inspiram bastante, que não conhecia antes. Para mim isso tem sido uma grande alegria.

Rafael Grohmann: Excelente, obrigado Rodrigo. Vou passar a palavra para a Paola começar com as suas provocações, críticas, comentários. Depois eu aviso pro pessoal que está aí no chat: mandem suas perguntas, seus comentários, que a gente vai ler daqui a pouco.

Paola Ricaurte: Bueno, en primer lugar muchísimas gracias por este espacio de conversación. Digo que los libros son un pretexto para iniciar estas conversas. Y bueno, qué privilegio tener el pretexto de este hermoso libro de Rodrigo para conversar. Agradecer siempre la convocatoria de Rafa, siempre abre esta posibilidad de entablar estos diálogos a lo largo de todo el continente y entre continentes. Creo que es un trabajo maravilloso que hace Rafa de conectarnos. Y en particular este ejercicio que quisimos hacer hoy en portugués y español, mostrando que podemos hablar en distintas lenguas pero encontrar la manera de entendernos. Creo que eso también hay que ponerlo allí.

Y bueno, también reconocer el enorme trabajo que está haciendo Leo, dos décadas promoviendo la cultura libre, y promoviendo la cultura libre en particular comprometida con el proyecto latinoamericano de pensamiento y de acción. Creo que a veces se nos olvida que llevamos mucho tiempo en esos modelos de mundo que pensamos que son los que deben ser, los justos.

Tengo algunos comentarios. Primero contar cómo conocí a Rodrigo. Conocí a Rodrigo cuando él estaba protestando entre las universidades de élite y los fondos corporativos y militares. Había habido unas semanas antes noticias acerca del papel de Kissinger, digamos, interviniendo directamente, y cómo todo este nuevo momento que estamos viviendo alrededor de la inteligencia artificial venía desde allí, desde esos fondos. Cuando yo lo escuché hablar haciendo este recuento histórico, dije: “¿quién es esta persona maravillosa?” Y bueno, desde allí le comencé a seguir los pasos, después coincidimos en otros espacios.

Pienso que Rodrigo hace un trabajo importantísimo, no solamente con este libro sino con todo el trabajo previo que Rodrigo ha hecho para denunciar estos vínculos entre el capital, el poder y la producción de conocimiento. También mostrar el valor de traer las referencias históricas al presente para que entendamos de dónde vienen las cosas que están pasando. Y creo también la otra parte que está de alguna manera explícita en la labor que hace Rodrigo es el trabajo de una academia crítica, una academia que asume la responsabilidad de denunciar estas configuraciones del poder que nos atraviesan desde lo más cotidiano, desde lo más íntimo, hasta obviamente las configuraciones macro geopolíticas.

Comenzando con esa anécdota, yo creo que este libro lo estaba esperando desde hace mucho tiempo. Desde cuando compartía Rodrigo esta idea que estaba escribiendo, luego me tocó de las maneras de la vida, por los casos que escoge, que son cercanos a mi experiencia de vida. He ido a Cuba, he ido los últimos 25 años casi cada año. He visto cómo a pesar de tener todo en contra surgen y existen proyectos. Y eso creo que nos cuestiona a las personas que estamos fuera de esos contextos.

Y luego el caso de la teología de la liberación, porque yo soy también una hija de la teología de la liberación. A mí me tocó hacer la secundaria en una escuela marcada por la pedagogía freiriana. Alfabetizaba en una iniciativa que teníamos allí de educación popular. Entonces el libro me atraviesa de muchas formas.

Pero quiero comenzar la conversación destacando dos puntos fundamentales de pensar. La información como un elemento fundamental para la constitución de poderes. Las infraestructuras de la información, los mecanismos a través de los cuales esa información fluye, quiénes controlan esos flujos y para qué propósitos sirven, siguen siendo absolutamente vigentes como Rodrigo lo muestra en este libro. Y además hoy en particular, pienso, son todavía más visibles cuando vemos regímenes autoritarios, en particular ahora, queriendo controlar estos regímenes de información. Y también asociados con una política de exportar este tech stack para que sea dominante para todo el planeta. Eso siempre ha ocurrido, pero creo que hoy en particular es mucho más visible.

Esto también permite pensar estas necesidades de pensar alternativas, de las que Rodrigo habla en el libro, para que no nos casemos con la idea de que lo que tenemos hoy es inevitable y no hay ninguna posibilidad de transformar la realidad hacia el mundo que queremos ver. Y lo veo ahí en el chat, hay personas que están participando en esas iniciativas. Veo que está Tierra Común, aquí en México, una cooperativa. Veo personas aliadas que están trabajando desde sus distintas trincheras en distintas partes del mundo, apostando por esos otros proyectos alternativos.

Que siempre digo, no es que sean sencillos, no es que sean fáciles de poner en el mundo, de mantener y de sostener. Pero están dando justamente esa pelea frente a los marcos que cada vez se cierran – los marcos financieros, fiscales, narrativos – que se cierran para apoyar esta única narrativa o este único destino manifiesto que tenemos como sociedad y también como modelo de desarrollo tecnológico.

Entonces pensar en volver a traer esa historia, creo que es importante. Poner otra vez en la mesa que ha habido siempre una disputa sobre la información, esta disputa sobre lo alternativo, que Rodrigo nos muestra con estos ejemplos. Que hay formas de articular que no pasen por las infraestructuras dominantes, que hay formas de articularse que no tienen que estar capturadas por esas infraestructuras.

Ahí voy al segundo comentario de estas intranets y vuelvo a estas redes interconectadas sin mediadores, el ejemplo de Rodrigo. Y que a mí me parecen presentes igual en el caso de Cuba, porque cuando uno va a Cuba, ha estado siempre restringida en términos del acceso a internet. Pero algo que a mí me fascinó fue la gente armando intranet, operando, compartiendo contenidos. Y bueno, haciéndolo. No eran contenidos del mundo. No, eran series, música, videos. No, hay un acceso restringido a internet. Pero la gente, a pesar de estas configuraciones en términos de conectividad e infraestructura que eran sumamente limitantes, consiguieron maneras alternativas de organizarse para compartir esos contenidos.

Y creo que ese ejemplo de Cuba del presente no ha sido tan estudiado, pero para mí siempre fue una cosa que siempre me admiró: las capacidades técnicas de la gente, sobre todo de los jóvenes, para mantenerse conectados al margen de lo que ocurriera con las infraestructuras, con internet. Me pareció fascinante.

Después lo hemos visto evolucionar, hemos visto cómo las personas también en Cuba, cuando comenzó a llegar más acceso a internet, comenzaron a instalar sus propias antenas para conectarse directamente, y que esas antenas fueran repetidoras para que personas en un barrio, por ejemplo, tuvieran acceso. Y esas eran iniciativas de personas que armaban sus antenas, o arman sus antenas todavía, de maneras que responden a esta manera de estar en el mundo en Cuba, que es “inventar y resolver”. Los cubanos siempre hablan de “inventar y resolver”.

Y que ahora veo con la crisis energética que también se ha traducido, por ejemplo, en que las personas, las familias, están instalando sus propias fuentes de energía para de alguna manera remediar los cortes de luz que están siendo tan extensos.

Con este ejemplo lo que quiero hacer es volver un poco a la idea de que en los distintos contextos que hemos vivido en América Latina ha habido una búsqueda por la autonomía y la búsqueda por alguna forma de escapar a nuestras condiciones que han sido siempre adversas para la mayoría. Y que también eso ha permitido la emergencia de un cierto sentido y una cierta conciencia sobre las posibilidades que tenemos para pensar estos proyectos alternativos.

Con estos dos ejemplos quisiera regresar con Rodrigo para seguir conversando. Y yo creo que algunas de las cosas que quisiera que recuperaras, Rodrigo, si pudieras seguir hablándonos de estas otras experiencias que a lo mejor no pudiste meter en el libro. Eso que también está presente en el prefacio, que es una frase de Paulo Freire acerca de estos inéditos viables, que contra todo pronóstico, que contra toda adversidad, siguen siendo posibles estos inéditos.

Y pienso en esto porque las personas que trabajamos con personas jóvenes creo que tenemos una responsabilidad de mostrar las posibilidades de estos otros mundos frente a la crisis de la esperanza que existe. Y bueno, Paulo Freire también habló de esta pedagogía de la esperanza. Yo creo que eso también es algo que tenemos nosotros como academia crítica, la responsabilidad de hacer. O como personas que estamos interesadas en ver estos otros proyectos prosperar: que mostremos estos inéditos viables como posibilidades y como esas grietas que se pueden ir abriendo en el sistema para estas otras formas de habitar, estas otras formas de comunicarnos, estas otras formas de producir conocimiento y desarrollar tecnología.

Entonces, Rodrigo, que nos sigas hablando.

Rafael Grohmann: Eu queria aproveitar para fazer um pequeno merchandising deste quadrinho que a gente lançou há pouco tempo. Chegou aqui em inglês para mim, tem português aí em São Paulo, em breve vai ter em espanhol, tem digital, chamado “Outros Mundos Tecnológicos São Possíveis“. Fizemos o primeiro volume com o núcleo de tecnologia do MTST, Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, e a ideia é cada volume ser um projeto diferente da América Latina para mostrar para os meus colegas gringos daqui de Toronto que tem outros mundos tecnológicos para além do norte global, para além do Vale do Silício.

Vou aproveitar para fazer um comentário, talvez o Léo queira fazer depois, e Rodrigo responde tudo. Tem algo que o livro e o ensaio já tinham me feito pensar muito: como a gente conhece ainda muito pouco da nossa própria região. Isso mesmo no caso mais conhecido e repetido entre nós, que é o Cybersyn, às vezes avança pouco para além da página dois. Precisou vir o Morozov para poder ser popularizado mais, esquecendo o próprio trabalho que a Eden Medina tinha feito há mais de 10 anos.

Rodrigo coloca algo que só depois de muito tempo é que Maria Teresa Freire de Andrade em Cuba teve um verbete na Wikipedia. Isso tem me feito pensar nessa questão da memória, no arquivo, na documentação desses projetos que a gente faz. Acho que é uma tarefa coletiva nossa enquanto pesquisadores, enquanto Tierra Común, enquanto educadores, de pensar num arquivo de passado e de presente. Porque vários de nós temos trabalhado com vários coletivos, e Léo está aí, como eu falei, 17, quase 20 anos. Às vezes a gente se sente meio tentando reinventar a roda, mesmo sem querer, porque você começa a tentar recuperar o que outra pessoa já fez e não tem muita sistematização sobre tudo isso.

Agora que o Léo está em emprego novo também, o desafio é pensar em formas de uma documentação coletiva disso que tem sido feito. Como nossos estudantes também conhecem pouco sobre toda essa história.

O segundo comentário é: para mim, a relação entre a primeira e a segunda parte do livro é que não só é uma proposta de políticas públicas, mas uma proposta de engajamento comunitário, coletivo, das pessoas trabalhadoras e cidadãs. Eu vejo como os coletivos hoje eles estão continuando aquela história ou atualizando aquelas histórias mesmo sem saber. O MTST, quando está fazendo esses projetos, eles nem sabiam de Maria Teresa Freire de Andrade às vezes. E como essas conexões entre passado, presente e futuro também são importantes, de fazer essas conexões.

E ao mesmo tempo essa força crítica, criativa, que Paula vem falando há muito tempo com outros colegas – Ignacio Siles, Edgar Gómez Cruz – de algo que não seja romantizar essas experiências, mas de mostrar uma potência que muitas vezes não se vê.

Aqui semana passada eu organizei um evento e veio um representante do MTST. Meus colegas canadenses ficaram espantados e impressionados com uma força de mobilização que, ao menos aqui no Canadá, não tem. Essa coisa mesmo: aqui até o sindicato dos entregadores e motoristas reclama que eles não conseguem mobilizar. A gente costumo dizer que no Brasil mobilizar a gente não é problema. A gente de um dia pro outro reúne 60, 70 pessoas. Os problemas vêm de outras ordens.

Mas eu acho que isso me incomoda muito quando a gente ainda vê editores do norte a dizer que as coisas que vêm dos nossos lugares são coisas específicas, são coisas muito nichadas, como se isso não oferecesse lições globais. Acho que essa é também um aprendizado do livro.

Passo a palavra pro Léo se ele quiser comentar mais algumas coisas.

Leonardo Foletto: Beleza. Bom, dá para pegar essa bola, porque acho que estou envolvido diretamente nesse processo de documentação de experiências “alternativas” de tecnologia há um bom tempo. Via Baixa Cultura, 17 anos, mas via outros coletivos de hackerspaces e tudo mais por aí também.

De fato, muitas vezes a gente se vê reinventando a roda, sabe? Dentro do movimento de software livre, por exemplo, no Brasil, que já foi muito forte – um dos mais fortes do mundo no final dos anos 2000, início dos anos 2010 – onde a gente tinha um dos principais encontros de software livre do mundo realizado no Brasil, em Porto Alegre, o FISL. Onde a gente tinha dentro do governo uma série de iniciativas que alfabetizaram digitalmente uma série de pessoas de todos os lugares do Brasil a partir dos Pontos de Cultura, onde as pessoas tiveram o primeiro acesso com ferramentas livres e não com ferramentas proprietárias.

Isso foi descontinuado a partir de uma série de governos que a gente teve aqui no Brasil. Então sempre comento que é muito singular que, logo depois da saída da Dilma como presidente aqui no Brasil, na primeira semana que Michel Temer assumiu, ele refez um acordo com a Microsoft, que ajudou a enterrar os projetos de software livre. Hoje a gente sabe que Michel Temer é um dos lobistas das big techs

Por isso também acho que nós quatro aqui, dentro da universidade, estamos tentando justamente trabalhar com essa perspectiva crítica. E isso passa pela documentação, pela tornar conhecido projetos de resistência. No Brasil a gente tem vários projetos de resistência. Acho que Rodrigo, quando esteve no Brasil, viu alguns projetos, alguns que ele já conhecia, viu outros também. Acho que a presença dele aqui fomentou uma série de debates de diversos coletivos, desde o próprio Núcleo de Tecnologia do MTST, que é um dos principais mais ativos aqui no Brasil fazendo formações, buscando uma soberania popular digital, até outros ligados ao software livre com menos escala, mas que têm feito sistemas e projetos muito interessantes por aí.

Há muita gente ainda trabalhando em projetos como esses. A rede de produtores culturais colaborativas que está há 15, 20 anos trabalhando com produção cultural em software livre; a rede Mocambos, que é uma rede organizada aqui no interior de São Paulo em vários povos quilombolas e que tem uma rede de data centers comunitários (Baobáxia) há 20 anos (data centers muito precários, mas que de alguma forma conseguem discutir e hospedar arquivos multimídia dentro dessas comunidades). Hoje muito se fala em data centers, “a invasão” dos data centers por conta da demanda de IA… mas podemos olhar para iniciativas que estão ocorrendo há muito tempo no Brasil, ainda que de forma precária, fazendo isso de forma comunitária, gestão coletiva com código aberto, hospedando às vezes o próprio código dentro das suas plataformas.

Acho que um dos nossos desafios é justamente tornar conhecidos esses projetos, entendendo que muitas vezes eles não vão conseguir ter escala – como muitas vezes a gente até torce – porque são projetos que têm a sua singularidade. E que são mais ligados às vezes a uma discussão de autonomia mais do que soberania: não querem e não vão conseguir ser escaláveis. Mas saber que existe um data center comunitário num povo quilombola no interior de São Paulo, saber que existem plataformas, redes federadas de Mastodon, diversos servidores aqui no Brasil, ajuda a nos inspirar – seja pessoas, seja professores, seja acadêmicos, ativistas – a fazer também em nossas comunidades. Acho que esse é um ponto importante. Isso não quer dizer que não deva haver escala; sim, deve, e há tentativas de redes como a de soberania digital de tentar incluir essa pauta dentro do governo federal brasileiro, que muitas vezes fala em soberania, especialmente desse ano, mas na prática continua extremamente dependente de serviços proprietários de big techs sediadas nos Estados Unidos. Existe um descompasso entre o discurso e a prática evidente também.

Acho que são dois caminhos válidos: primeiramente, fazer essa discussão dentro de governos e, ao mesmo tempo, fomentar as discussões autônomas dentro das comunidades onde elas existem. E eu acho que o nosso trabalho muitas vezes, da documentação, de projeto de pesquisa, também é unir esses pontos e fomentar, a partir da união e da documentação disso, outras ideias, outros projetos, e fomentar autonomia de outros grupos. Acho que esse é um ponto fundamental que eu queria comentar também, e que acho que o livro do Rodrigo dialoga muito com isso.

Porque ele mostra para a gente redes como a de intercomunicação da teologia da libertação, que é muito importante e eu (creio que muita gente) desconhecia. É um processo super interessante que trabalhou com uma tecnologia, uma low-tech, uma tecnologia de baixo nível, num processo de comunicação muito interessante. Acho que também tornar conhecidos esses projetos são importantes. O livro do Rodrigo faz isso, também no caso de Cuba, e com isso faz a gente perceber que existem outras formas de catalogar livros em biblioteca que não apenas as dominantes dos Estados Unidos e da Rússia.

Então o primeiro ponto é reforçar a importância dessa documentação como uma estratégia de fomentar a autonomia e também a soberania em escala dentro de diversos lugares do planeta, no momento onde isso é crucial, onde o discurso da soberania (ou autonomia) finalmente se tornou um discurso fundamental para todo mundo.

Um segundo ponto é que nós, enquanto universidade, temos o papel de justamente entende e fazer uma alfabetização digital crítica. Mostrar, enquanto professores, ativistas, que por mais difícil que seja, existem alternativas. Existem universidades que estão utilizando serviços de videoconferência que não são das big techs, como a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que usa um serviço a partir de código aberto construído dentro da própria universidade em apoio com outros coletivos de outros lugares do planeta.

Esse é um ponto: dizer que acessar a internet é além de acessar as big techs. Parece um clichê falar isso, mas isso é cada vez mais necessário em tempos onde a IA está predominando, está entrando em todos os celulares das pessoas ao redor do planeta. Só ano passado, o ChatGPT foi o aplicativo mais baixado do Brasil. Então vocês imaginam as consequências que o ChatGPT, com mais de 50 milhões de downloads no Brasil, 50 milhões de pessoas usando ChatGPT, no mínimo. Imagina as consequências que isso tem por uma alfabetização digital não crítica, o uso equivocado que vê uma IA generativa, como o sistema do ChatGPT, como algo mágico que resolve coisas sem esforço. A gente tem uma demanda muito importante e urgente de tentar alfabetizar criticamente sobre isso.

Outro ponto essencial nosso enquanto universidade, academia, é o de tentar fomentar a crítica. Todo mundo que me conhece sabe que eu sempre uso a ideia de de tentar um pouco abrir “as caixas pretas”, desmistificar e desvelar um pouco como são feitos esses sistemas. Mostrar como são feitos é um primeiro passo para a gente tentar fazer diferente. Acho que esses dois movimentos estão sendo feitos em paralelo. Então mostrar como é feito para depois fazer, mostrar as práticas de resistência.

Acho que Rodrigo também – e eu queria, aproveitando, já ouvir dele também – além de ser um historiador da tecnologia, ele também conhece uma série de ferramentas e de sistemas que mostram como é possível fazer isso no dia a dia. Então ele pode falar um pouco do uso dele crítico de sistemas, outros sistemas que provavelmente a maior parte das pessoas que estão nos ouvindo não conhece: sistemas de busca, sistemas de organização de dados.

Rodrigo Ochigame: Bom, muito obrigado a todos vocês – Paola, Rafa e Léo – por essas reflexões riquíssimas. Vou tentar responder a todos mais ou menos ao mesmo tempo, costurando algumas ideias que me vieram.

Eu não sabia que Paola tinha me conhecido nesses eventos de militância e protesto contra o patrocínio militar e comercial nas pesquisas. Foi muito interessante para mim ouvir essa anedota. Eu acho que comecei a minha carreira como estudante pesquisador em ciência da computação, antes de virar historiador e antropólogo, e um processo que foi muito formativo para mim foi notar o quanto as agendas de pesquisa em ciência da computação eram determinadas por esses patrocinadores militares e comerciais. E que até mesmo ideias que pareciam muito fundamentais em vários campos de pesquisa dentro de computação eram baseadas em escolhas que pouco tinham… que não eram completamente determinadas por motivos intelectuais, mas que se alinhavam aos interesses desses patrocinadores de pesquisa.

Acho que os sistemas de busca e recomendação são um bom exemplo disso, em que as prioridades da indústria de anúncios, de propaganda, determinaram muitas das métricas e benchmarks para avaliar e guiar o desenvolvimento desses tipos de sistemas.

Ligando um pouco ao comentário do Rafa, eu acho que não acabei estudando essas histórias latino-americanas porque eu sou latino-americano. Acho que primeiramente eu estava interessado em poder pensar a computação de forma crítica, e algumas dessas experiências latino-americanas simplesmente foram o lugar onde eu encontrei algumas das experiências e reflexões mais sofisticadas e profundas em tentar me ajudar a pensar a computação de forma crítica. O meu interesse não foi primeiramente por um interesse regional específico, mas foi numa tentativa de tentar encontrar ideias que me ajudassem a pensar a computação em termos de problemas mais globais.

E eu acho que isso continua nas interações que tenho agora em aprender com experiências contemporâneas. Nessa visita a São Paulo agora, o Núcleo de Tecnologia do MTST, que acabou de ser citado, foi um espaço riquíssimo de experiências e debates. Na minha opinião tem algumas das teorizações e análises mais sofisticadas sobre a computação que eu já ouvi de qualquer pessoa ou grupo no mundo.

Então acho que isso se alinha com o que vocês comentaram da necessidade de recuperar várias dessas experiências da América Latina e de outras partes do Sul Global, não só como um exercício histórico de recuperação de memória regional, mas também porque essas experiências históricas têm muitas ideias que são necessárias para pensar informação de forma mais crítica nos dias de hoje.

Eu também concordo que nós apenas estamos começando a aprender sobre algumas dessas experiências. Por exemplo, pela pesquisadora Lise Jansen, recentemente eu aprendi sobre alguns casos – ela ainda não publicou, mas está escrevendo agora. Aprendi sobre algumas outras experiências muito importantes da América Latina que eu também não conhecia, coisas como o Modelo Mundial Latino-Americano, que foi desenvolvido em Bariloche, na Argentina, como uma alternativa crítica aos supostos modelos globais que estavam sendo desenvolvidos na década de 70 para tentar simular futuros possíveis para o mundo com base em dados demográficos, econômicos e políticos.

Também alguns dos modelos de experimentação numérica do grupo do matemático Oscar Varsavski, que operou tanto na Argentina quanto na Venezuela mais ou menos no mesmo período. Era uma tentativa de usar alguns dos primeiros computadores da América Latina para pensar caminhos políticos possíveis, em parte influenciadas por análises da teoria da dependência.

Então acho que muitas dessas experiências que fizeram muitas coisas necessárias para pensar o mundo, o futuro do mundo em geral, e caminhos políticos possíveis de forma crítica foram desenvolvidas com muitos obstáculos: obstáculos de regimes autoritários, obstáculos de inimigos geopolíticos tentando sabotar esses projetos. No caso de duas das histórias do livro, tem o embargo comercial dos Estados Unidos, tem o fato de que o Vaticano se opôs ao projeto dos teólogos da libertação. Nesses projetos que acabei de citar, um golpe militar impossibilitou a continuação do trabalho do Modelo Mundial Latino-Americano em Bariloche. Também vários obstáculos políticos dificultaram o trabalho dos modelos de experimentação numérica.

Eu acho que um dos motivos para nós termos que resgatar várias dessas experiências, que estamos apenas começando a aprender, é exatamente o que vocês comentaram: de não ter que reinventar a roda toda vez. Porque muitas das coisas que essas experiências aprenderam são coisas que qualquer tentativa de pensar criticamente sobre esse tipo de modelo vai ter que concluir, e isso leva tempo. Então o fato dessas iniciativas serem historicamente repetidamente interrompidas ou sabotadas, ou enfrentarem obstáculos que interrompem um desenvolvimento mais contínuo, é uma das coisas que esse trabalho de recuperação, de indexação e arquivamento, pode tentar intervir.

Sobre as experiências mais recentes de controle de informação na internet em Cuba, é claro que, ao meu ver, esse regime de acesso restrito à internet não é particularmente inspirador para mim, da mesma forma que algumas dessas histórias mais do início da formação de um campo de ciência da informação em Cuba foram. De forma alguma eu quero romantizar a experiência de informática que Cuba teve. Certamente a organização de internets e de formas informais de circulação de informação sob um regime de acesso restrito são experiências com as quais nós podemos aprender também.

Mas eu acho que Cuba enfrentou um dilema muito complicado: se Cuba tivesse um acesso completamente irrestrito à internet, certamente várias operações de agências de inteligência ou operações militares para tentar avançar um golpe de estado na ilha, principalmente patrocinados pelos Estados Unidos, certamente aconteceriam. E é claro que, como mecanismo de defesa a isso, um regime de censura não é uma solução muito desejável. Mas eu acho que é mais ou menos esse dilema que Cuba teve que enfrentar num período mais recente.

Acho que parte do problema é que sistemas que possam regular os regimes de visibilidade de uma forma que dê menos vantagem para atores engenheirados, que não tenham sido desenhados para as prioridades da indústria de propaganda, de certa forma ainda não estão, ainda não existem de forma a estarem prontos para um uso em grande escala. E eu acho que essa é uma das direções de pesquisa crítica que são muito necessárias.

Para comentar um pouquinho sobre o que o Léo mencionou: um dos meus interesses de pesquisa atual, também inspirados por essas experiências históricas que documentei no livro, é tentar desenvolver sistemas de busca e recomendação que sejam baseados em outros princípios. Eu acho que, apesar desses sistemas ainda não existirem, vários dos ingredientes técnicos para o desenho desse tipo de sistema agora estão disponíveis.

Existem alguns projetos pequenos, por exemplo, para desenhar novos sistemas, sistemas alternativos de busca, que estão começando a ser desenvolvidos. Um deles, por exemplo, é um sistema que se chama Marginalia, que é um buscador que tenta dar mais visibilidade para conteúdos não comerciais na internet. Então um dos indicadores que usa, por exemplo, é a quantidade de propagandas e trackers numa página, e ele usa isso para penalizar a visibilidade de uma página ou de um site. Então tenta dar mais visibilidade às partes da internet que são menos dominadas por propagandas e trackers.

Outro sistema nessa direção chama Stract, que também é um sistema de software livre, código aberto, que tenta permitir uma certa customização do que eles chamam de “optics”, de óticas ou lentes de busca. Como usuário, você pode programar uma ótica ou uma lente. Com isso, você tem alguma autonomia sobre as lógicas de priorização de partes diferentes da web em que você está buscando.

Um dos grandes desafios com sistemas desses é que ainda requer bastante conhecimento técnico em poder escrever o código que configura uma ótica ou lente. Então uma das coisas em que estou trabalhando agora com uma colaboradora minha, Crystal Lee, é tentar desenhar interfaces que permitam usuários que não têm conhecimento técnico para escrever código poderem configurar essas óticas ou lentes em sistemas como o Stract.

Enfim, então acho que essa é uma das múltiplas direções de pesquisa mais crítica, de pesquisa em ciência da computação, que acho que são necessárias para a construção de uma infraestrutura mais crítica, mas que nós ainda não temos.

Rafael Grohmann: Excelente. Vou ler aqui alguns comentários que estão no chat.

Guilherme Cavalcante diz: “A discussão me fez pensar nos diálogos entre a luta por infraestruturas tecnológicas outras no continente e a luta pela comunicação livre e popular no continente, jornalismo popular e comunitário.” Acho que tem aí também uma história muito importante.

Marciel, professor da USP, desejando abraços.

Walter Lippold perguntando a diferença entre letramento digital e alfabetização digital crítica. Acho que tem aí também a tradição latino-americana de educomunicação, muito baseada em Paulo Freire, que vai muito além de digital literacy, media literacy e data literacy. Acho que essa questão também é muito importante.

As políticas públicas no governo Lula – Pontos de Cultura, Casa Brasil – se estão agora dispersos ou inativos.

Elane também fala da rede Mocambos, da Casa de Cultura Tainã de Campinas como pioneiras, e os encontros de conhecimento livre promovidos pela Gesac, Pontos de Cultura, que foram fundamentais.

Danilo fala que a experiência cubana parece que existe imaginação, uma dificuldade de acesso aos materiais, e hoje parece o inverso: acesso aos materiais, mas imaginação enfraquecida.

E Elane também pergunta se tem algum repositório comum para compartilhar essas iniciativas, ações, projetos. Indicaria desde já o site Baixa Cultura, que tem aí uma entrada para isso.

Vamos fazer uma rodada agora para considerações finais. Vocês querem comentar alguma coisa? Querem falar algo? Querem divulgar alguma iniciativa?

Paola?

Paola Ricaurte: Bueno, creo que nos dejan esta idea del repositorio, esta idea de hacer visibles estas iniciativas, estas personas, pensadoras también de la historia de América Latina. Y creo que, como dice Rodrigo, no es que haya buscado específicamente en América Latina, pero es que en realidad yo estoy convencida de que América Latina ha sido un semillero de ideas desde siempre, ha sido un semillero de ideas y de propuestas. Que es cierto, no se conocen en otros lugares, pero a lo mejor lo problemático es que, como comentaba hace un rato, creo que Rafa, no hacemos que esa historia, esa historia de larga duración, se haga presente en las reflexiones y en las iniciativas de los movimientos de hoy.

Creo que a mí me inspiro, al menos en México, digamos, he pasado, soy de Ecuador, que estas largas duraciones realmente son… entienden esa necesidad. O sea, no es una cosa coyuntural. Estamos aquí, bueno, no, nosotros… estos movimientos están resistiendo más de 500 años y son los mismos que están resistiendo hoy, por ejemplo, aquí en México por la defensa del agua, la vida y el territorio.

Entonces creo que esas experiencias de lucha de larga duración también nos tienen que hacer pensar que cuando tenemos contextos adversos como el de ahora, que son cíclicos – como decía Pepe Mujica – que nos hagan pensar que cuando tenemos estos contextos adversos que borran todo, borran el archivo, borran la memoria, borran todas las cosas que habíamos avanzado, nos tenemos que rearticular porque tenemos que volver a reconstruir. Y así es la historia. Pero creo que ver esto en esa larga duración nos ayuda a entender también cuál es nuestro momento actual.

Rafael Grohmann: Rodrigo, Léo?

Leonardo Foletto: Bueno, muchas gracias, obrigado pelo convite, pela conversa que a gente está tendo aqui. Muito legal estar podendo discutir isso dentro da universidade e dentro de uma perspectiva ativista.

Parabéns mais uma vez pro Rodrigo pelo trabalho. Acho que o livro tem circulado muito bem aqui. A gente está em negociações aí para fazer uma edição em inglês também. Esperamos que até o ano que vem a gente consiga fazer essa versão, porque o artigo, o ensaio que Rodrigo escreveu, que é a primeira parte do livro, foi escrito originalmente em inglês. Teria que traduzir a segunda parte e mais alguns outros elementos, como o prefácio e a introdução.

Uma das pessoas que está aqui é uma das autoras de um dos próximos livros da âncoras do Futuro, Paola.  Ela está escrevendo junto com outros dois autores um livro que dialoga e complementa essa discussão de imaginários e alternativas tecnológicas, a partir também, não por acaso, da América Latina. Esse é o que a gente pode antecipar. A gente tem lançado um livro uma vez por ano, que é vendido nas livrarias em vários lugares, mas também é disponibilizado em PDF gratuitamente via licença Creative Commons não comercial.

E bom, queria então dizer que a gente está à disposição para discutir e trabalhar com essas ideias dentro da universidade, fora dela também. Faço parte de uma coalizão chamada Direitos na Rede aqui no Brasil, e dentro dessa coalizão a gente tem um GT que se chama Laboratório de Experimentações Tecnopolíticas, onde a gente tenta colocar a mão na massa de muitas dessas ideias alternativas de construção de novas tecnologias. Acabamos de fazer no último sábado uma oficina de instalação de um data center comunitário num espaço aqui em São Paulo, onde a gente está no mutirão de colocá-lo em pé, de fazê-lo funcionar, e de que as pessoas possam guardar seus arquivos ali. Justamente colocamos um problema para poder desenvolver nos próximos meses.

O nosso GT também vai publicar uma revista chamada Tocaia, uma revista impressa no final desse ano. Fiquem ligados!

Tem também o Baixa Cultura, que é o espaço que eu edito na internet desde 2008, onde discutimos muito desses nossos temas aqui, de uma forma às vezes não tão acadêmica, mas também que trabalha com um pouco dessa divulgação científica das nossas ideias e projetos e propostas.    Assim como o trabalho que o Rafa faz no DigiLabour, na Universidade de Toronto, que também está muito ligado a isso: a construir de forma concreta organizações, cooperativas, que trabalhem com formas mais justas de construção de tecnologias. Ele tem um trabalho muito ligado a isso. E acho que a gente vai seguir nas nossas conexões diversas aí, tentando fazer isso, tentando arrumar espaço nas nossas pesquisas e para conseguir fazer essas nossas ideias soarem e circularem por aí.

Obrigado, gente.

Rodrigo Ochigame: Eu também só queria agradecer a todos vocês por essa conversa, que me encantou bastante. Eu sou um grande admirador do trabalho de todos vocês, e é uma grande honra para mim poder estar em diálogo com o trabalho que fazem a Terra Comum, o DigiLabor e Baixa Cultura.

Eu adoraria… se nós tivéssemos mais tempo para poder responder a cada uma das perguntas. Mas como estamos finalizando, eu só queria fazer um comentário final: acho que nós estamos vivendo um momento extremamente estratégico. Acho que as discussões que estão ocorrendo agora no mundo inteiro sobre a terminologia de soberania digital e temas relacionados é um momento muito importante, estratégico.

É claro que até mesmo esse discurso de soberania já está sendo capturado de várias formas pelos lobistas corporativos das big techs. No Brasil, por exemplo, esses lobistas estão tentando convencer o governo federal de que instalar data centers da Microsoft ou da Amazon em território nacional, inclusive em territórios em disputa ou até mesmo em terras indígenas, é uma forma de soberania.

Eu acho que nós, que temos uma visão mais crítica disso, realmente precisamos combater e tentar fazer o máximo de esforço nesse embate de ideias, nesse momento que estamos vivendo. E realmente tentar dar uma mensagem clara de que não, isso não é soberania digital, e tentar ao máximo refocar o debate nas questões que achamos mais urgentes e na forma de análise que já estamos desenvolvendo há bastante tempo.

Enfim, só queria dizer que acho que estamos vivendo um momento bastante estratégico e de que tem muito potencial para ações de infraestruturas digitais mais justas.

Rafael Grohmann: Beleza. Obrigado, Rodrigo. A gente se vê em algum momento, em algum lugar deste planeta, em alguma língua disponível que a gente consiga se comunicar. Fica aí a dica para ler “Informática do Oprimido”, ou comprar na editora Funilaria, ou baixar o PDF no site do Baixa Cultura. E em breve então teremos um livro novo no ano que vem também. Fiquei feliz que o livro vai ter uma versão em inglês, que eu preciso fazer meus alunos lerem. Isso é muito importante.

Um abraço a todo mundo que nos acompanhou por hoje. Tchau, gente!

 

]]>
https://baixacultura.org/2025/10/15/informatica-do-oprimido-conversa-com-rodrigo-ochigame-paola-ricaurte-rafael-grohmann-e-leonardo-foletto/feed/ 0
Bibliotecas, redes e revoluções: o legado tecnológico dos oprimidos https://baixacultura.org/2025/08/01/bibliotecas-redes-e-revolucoes-o-legado-tecnologico-dos-oprimidos/ https://baixacultura.org/2025/08/01/bibliotecas-redes-e-revolucoes-o-legado-tecnologico-dos-oprimidos/#respond Fri, 01 Aug 2025 22:56:53 +0000 https://baixacultura.org/?p=15881  

Informática do Oprimido, de Rodrigo Ochigame, é o segundo livro da coleção <âncoras do futuro>, criada pela Funilaria em parceria com o BaixaCultura, que busca tentar politizar o mal-estar que nos acomete hoje sobre os rumos da internet e das tecnologias. Neste texto, publicado originalmente em 2021, Rodrigo explora algumas narrativas alternativas à visão dominante da tecnologia e que desafiam a pretensa universalidade dos modelos técnicos ocidentais. Como seria, por exemplo, nossas bibliotecas digitais, plataformas de busca e sistemas de catalogação se o “modelo cubano” descrito por Setién Quesada neste livro tivesse se tornado o paradigma dominante da ciência da informação? E se, em vez de redes sociais centralizadas em servidores corporativos, tivéssemos desenvolvido plataformas inspiradas nessas práticas de intercomunicação dos oprimidos, onde a topologia da rede refletisse as relações éticas e políticas que desejamos construir?

A segunda parte do livro, Propostas para infraestruturas digitais democráticas, avança para a proposição ao trazer sua experiência com movimentos sociais e redes de pesquisadores no Sul Global para apresentar sete propostas concretas para infraestruturas digitais orientadas ao interesse público e sob controle democrático.

Da recuperação histórica de alternativas tecnológicas do passado à imaginação de possibilidades concretas para o futuro, este livro nos lembra sempre que a tecnologia não é – nem nunca foi, nem nunca será – neutra.  Seus códigos, algoritmos e interfaces são campos de batalha onde valores, visões de mundo e projetos de sociedade disputam hegemonia. E é precisamente no reconhecimento dessa não-neutralidade que reside nossa capacidade de resistir e recriar.

Rodrigo Ochigame é um historiador e antropólogo que estuda computação e inteligência artificial sob uma perspectiva crítica, professor na Universidade de Leiden (Holanda) e doutor pelo MIT (EUA). O livro tem ilustrações de Léo Daruma, prefácio do Instituto Paulo Freire e texto de apresentação de Leonardo Foletto (editor deste espaço) e Caio Valiengo, também editores da coleção. Publicamos aqui abaixo o texto de apresentação na íntegra.

Bibliotecas, redes e revoluções: O legado tecnológico dos oprimidos

Leonardo Foletto e Caio Valiengo

A ascensão do poder das plataformas digitais na vida de bilhões de pessoas do planeta nos fez acostumar a ouvir (e repetir) um mantra: a tecnologia não é neutra. Felizmente, para uma grande parcela da população mundial não é (como nunca foi) novidade entender que um sistema de gerenciamento de bibliotecas digitais, ou um intrincado algoritmo que faz funcionar os feeds de uma rede social, carrega muitos dos valores e das visões de mundo de quem o programa. A forma de organizar a informação, ou com que se prioriza um conteúdo em vez de outro, reflete escolhas políticas, econômicas e culturais que frequentemente permanecem invisíveis para o usuário comum – e às vezes até para alguns dos programadores que arquitetam algoritmos, que não raro se perguntam “mas como que o algoritmo é político? Isso é matemática, multiplicação de matrizes, lógica pura”.

Langdon Winner, no clássico livro de 1986 intitulado The Whale and the Reactor [A baleia e o reator], utiliza um exemplo distante dos algoritmos atuais, mas que explicitam a mesma dinâmica:  o processo de mecanização de uma fábrica de máquinas agrícolas em Chicago nos anos 1880. Comumente lido como parte “natural” da história dos desenvolvimentos industriais do período, motivados principalmente pela eficiência econômica gerada pela mecanização, o contexto específico dessa inovação técnica nos conta outra história. Trabalhadores qualificados da fábrica haviam organizado um sindicato para conquistar melhores condições de trabalho. Como reação, os proprietários da fábrica fomentaram a mecanização do processo que permitia o manejo das máquinas por trabalhadores não qualificados. A mudança produtiva e tecnológica nem sequer gerava resultados mais eficientes, visto que apresentava produtos com qualidade inferior e custos mais altos. As novas máquinas foram abandonadas depois de três anos de uso, mas cumpriram a função de destruir o sindicato.

Esta inconsciência técnica não é acidental. A formação dos profissionais de tecnologia nos centros hegemônicos, aqui tanto no Norte como no Sul Global, tende a separar deliberadamente o “como fazer” do “por que fazer” e “para quem fazer”, criando gerações de programadores que, mesmo brilhantes em suas habilidades técnicas, raramente compreendem o impacto social e político das ferramentas que desenvolvem. Assim como o operário na linha de montagem que não apenas desconhece o produto final de seu trabalho, mas é alienado da compreensão de seu papel como classe produtora de valor na engrenagem capitalista, muitos cientistas da era digital produzem fragmentos de código sem consciência do sistema econômico, político e social que ajudam a construir e perpetuar. Este trabalhador digital, frequentemente seduzido pela narrativa meritocrática do setor tecnológico e pelo fetiche da inovação, raramente percebe como sua atividade intelectual, aparentemente neutra e puramente técnica, está inscrita em relações de poder que transformam conhecimento em commodity, dados em capital e usuários em produtos.

O que raramente se questiona nestes ambientes, porém, é como seriam essas tecnologias se tivessem sido desenvolvidas sob outras premissas, em outros contextos históricos e geopolíticos, por pessoas que experimentaram realidades diferentes daquelas dos centros de poder do Vale do Silício. Enquanto a narrativa hegemônica nos apresenta uma linha evolutiva aparentemente natural e inevitável dos sistemas técnicos — da ARPANET financiada pelo Departamento de Defesa americano à Internet comercial dominada por gigantes como Google e Facebook; dos mainframes da IBM aos computadores pessoais da Apple e Microsoft; dos sistemas proprietários e fechados às plataformas de “economia compartilhada” que, ironicamente, concentram riqueza como nunca —, há, nas brechas do mundo capitalista, experiências tecnológicas alternativas que ainda permanecem obscurecidas, relegadas às notas de rodapé da história oficial da computação.

“Informática do Oprimido” explora justamente algumas dessas narrativas alternativas à visão dominante da tecnologia e que desafiam a pretensa universalidade dos modelos técnicos ocidentais. Como seria, por exemplo, nossas bibliotecas digitais, plataformas de busca e sistemas de catalogação se o “modelo cubano” descrito por Setién Quesada neste livro tivesse se tornado o paradigma dominante da ciência da informação? Em vez de algoritmos otimizados para maximizar cliques e tempo de permanência, teríamos sistemas que medem e valorizam uma efetiva “comunicação social autor-leitor” – aquela relação dialógica onde o leitor não é mero consumidor passivo de conteúdo, mas participante ativo num processo de construção coletiva de sentido através do acervo bibliográfico? O modelo cubano reconhecia esta dimensão social da leitura, mensurando não apenas quantas pessoas acessam determinado material, mas como esse acesso se traduz em apropriação crítica e transformadora do conhecimento. Sob esse modelo, nossas plataformas digitais não reduziriam o conhecimento a mercadorias distribuídas por métricas de engajamento e economia de atenção, mas reconheceriam a complexidade das interações humanas com a informação? A avaliação do sucesso de um sistema não seria baseada apenas em quantos usuários acessam determinado conteúdo, mas na qualidade e profundidade dessas interações, permitindo comparações contextualizadas entre diferentes comunidades e períodos históricos? Teríamos, enfim, uma internet que não apenas conecta pessoas a conteúdos, mas que compreende e nutre as relações sociais que dão significado ao conhecimento compartilhado?

Estes são exercícios de especulação, claro, que trazemos aqui porque fizemos enquanto líamos este texto pela primeira vez – e fica o convite para vocês fazerem também. Ao trazer à luz experiências do Sul Global, especialmente da América Latina, “Informática do Oprimido” nos convida a questionar a história única da tecnologia e a perceber que outros futuros tecnológicos não apenas foram imaginados, mas efetivamente construídos, mesmo que por breves períodos ou em circunstâncias adversas. As redes de solidariedade e comunicação popular desenvolvidas pelos movimentos de base ligados à Teologia da Libertação, também descritas neste livro, nos oferecem outro vislumbre dessas possibilidades: comunidades eclesiais que criaram sistemas de comunicação horizontal e participativa, muito antes da internet, antecipando aspectos fundamentais da teoria de redes distribuídas. As tecnologias sociais que emergiram dessas experiências – onde meios analógicos como rádios comunitárias, boletins mimeografados e redes de mensageiros se entrelaçavam para formar uma infraestrutura de comunicação resiliente à repressão – nos mostram como uma tecnologia verdadeiramente libertadora não está necessariamente atrelada à última inovação de software ou hardware, mas também à forma como suas arquiteturas de rede incorporam e amplificam valores de reciprocidade, proteção mútua e construção coletiva de saberes. E se, em vez de redes sociais centralizadas em servidores corporativos, tivéssemos desenvolvido plataformas inspiradas nessas práticas de intercomunicação dos oprimidos, onde a topologia da rede refletisse as relações éticas e políticas que desejamos construir?

Oprimidos no Chile 

Ainda que não citadas no livro, as experiências de Cuba e da intercomunicação nos anos 1970 e 1980 dialogam com outras duas experiências, no Chile de Salvador Allende (1970-1974), que ecoam um imaginário do que poderia ser uma espécie de modernidade tecnológica latino-americana em que a tecnologia não está afastada das necessidades sociais. O Cybersyn, concebido pelo ciberneticista britânico Stafford Beer em parceria com engenheiros chilenos liderados por Fernando Flores, representou uma visão radicalmente democrática da computação aplicada à economia. Utilizando tecnologia computacional modesta para a época – uma rede de apenas 500 teletipos e um computador mainframe IBM – o sistema criava um fluxo de informações em tempo quase real entre fábricas, centros de distribuição e órgãos governamentais*. Ao contrário dos sistemas cibernéticos soviéticos centralizados, o Cybersyn foi desenhado como uma rede de autonomia viável, onde as decisões fluíam tanto de baixo para cima quanto de cima para baixo, com trabalhadores das fábricas tendo papel ativo no monitoramento e ajuste da produção. A icônica “Sala de Operações” com suas cadeiras futuristas e telas de visualização de dados encarnava uma estética alternativa de tecnologia e também uma ideia de que sistemas técnicos poderiam amplificar, em vez de substituir, a inteligência coletiva dos trabalhadores**.

Paralelamente, a Editora Nacional Quimantú (que em mapuche significa “Sol do Saber”) representou uma revolução na democratização do acesso ao conhecimento. Nacionalizada a partir da antiga Editora Zig-Zag, a Quimantú transformou radicalmente tanto os processos de produção editorial quanto os modelos de distribuição editorial ao produzir livros com tiragens de até 50 mil exemplares vendidos a preços acessíveis*** em bancas de jornal, estações de trem e sindicatos. A editora estatal criou coleções como “Minilibros”, “Cuadernos de Educación Popular” e “Nosotros nos chilenos”, que levaram literatura, história, teoria política e a tentativa de construção de uma identidade nacional socialista, a setores historicamente excluídos do mercado editorial – além de ter experimentado com formas participativas de definição de seu catálogo, incluindo consultas a organizações de base sobre suas necessidades de formação****. Essa foi uma experiência do governo da Unidade Popular que buscava a criação de novos meios e indústrias de comunicação, como a criação da Chile Films, da Televisão Nacional e a estação de rádio Magallanes, onde Allende fez seu último discurso em meio a bombardeios e rajadas de metralhadoras.

Tanto Cybersyn quanto Quimantú foram brutalmente interrompidos pelo golpe militar de Augusto Pinochet em 11 de setembro de 1973. A perseguição a estes projetos foi estratégica: representavam perigosas alternativas ao modelo tecnocientífico e cultural que o neoliberalismo chileno precisava implantar. O Chile, como se sabe, foi o laboratório experimental das políticas que mais tarde seriam globalizadas, e o Golpe Militar que tirou Allende do poder (e o matou) é reconhecido pelo filósofo inglês Mark Fisher como o evento fundador do realismo capitalista – o reconhecimento fatalista de que não há alternativa ao capitalismo*****. Para Eden Medina*******, pesquisadora chilena, professora do MIT (EUA) e uma das pioneiras na sistematização da experiência tecnológica da Unidade Popular, a história do Cybersyn mostra também que não se trata apenas de sonhos utópicos, mas sim uma iniciativa construída coletivamente que fazia parte de um projeto político que tinha aspirações reais e tentava transformar a sociedade.

Estas experiências chilenas, assim como as bibliotecas cubanas e as redes de comunicação popular descritas em “Informática do Oprimido”, compartilham não apenas visões alternativas de tecnologia, mas também destinos marcados por interrupções violentas ou por pressões sistemáticas para sua descaracterização. Se os projetos chilenos foram abruptamente destruídos pelo golpe de Pinochet, as bibliotecas cubanas enfrentaram décadas de embargo econômico que limitaram severamente sua capacidade de modernização tecnológica, enquanto as redes de intercomunicação popular ligadas à Teologia da Libertação foram perseguidas e desmanteladas pelos regimes militares que se espalharam pela América Latina. Estes movimentos revelam um padrão: alternativas tecnológicas que desafiam a lógica dominante raramente são permitidas a amadurecer ou escalar, pois são cortadas ainda em germinação. Ou, quando sobrevivem, são relegadas a nichos marginais, impossibilitadas de competir em condições justas com os modelos hegemônicos.

Aprender com o passado, resistir ao futuro

As experiências chilenas e as descritas em “Informática do Oprimido” são apresentadas aqui não como meras curiosidades históricas ou utopias fracassadas, mas como sementes de possíveis futuros tecnológicos alternativos que persistem na memória e nas práticas de comunidades resistentes. Em um momento onde o colapso climático se aproxima, exacerbado pela crescente demanda por energia e água para os data centers dos serviços de Inteligência Artificial Generativa, retomar estas experiências e criar novos imaginários tecnológicos torna-se cada vez mais necessário para quem resiste às tecnologias hegemônicas das Big Techs do Vale do Silício.

É nesse contexto que se insere a segunda parte do livro, “Propostas para infraestruturas digitais democráticas”, escrita por Rodrigo Ochigame quatro anos depois da publicação que dá nome a este livro na Logic Magazine. Professor de Antropologia na Universidade de Leiden e doutor pelo MIT, Ochigame não se limita à análise histórica, mas avança para a proposição ao trazer sua experiência com movimentos sociais e redes de pesquisadores no Sul Global para apresentar sete propostas concretas para infraestruturas digitais orientadas ao interesse público e sob controle democrático. Essas propostas – que vão desde novos modelos de financiamento até arquiteturas técnicas descentralizadas – formam um programa para gestores e comunidades comprometidas com uma tecnologia inclusiva e democrática. O livro, assim, fecha seu ciclo: da recuperação histórica de alternativas tecnológicas do passado à imaginação de possibilidades concretas para o futuro, lembrando-nos sempre que a tecnologia não é – nem nunca foi, nem nunca será – neutra. Seus códigos, algoritmos e interfaces são campos de batalha onde valores, visões de mundo e projetos de sociedade disputam hegemonia. E é precisamente no reconhecimento dessa não-neutralidade que reside nossa capacidade de resistir e recriar.

————————————-

* Essa história é extensamente relatada por Eden Medina no livro “Cybernetic Revolutionaries: Technology and Politics in Allende’s Chile”, publicado em 2014 pela MIT Press.
** Vale conferir o podcast “The Santiago Boys”, escrito e apresentado pelo bielorusso Eugeny Morozov, que conta essa história em detalhes.
*** Vendido nos tradicionais quioscos, uma espécie de banca de jornais e livros no Chile, a editora tinha o lema de que o preço de um livro deveria ser equivalente a um maço de cigarros.
**** Para saber mais sobre essa experiência, ver “Quimantú y la colección Nosostros los Chilenos”, da editora independente chilena Tiempo Robado e, em breve, pela Funilaria.
***** Ver “Comunismo Lisérgico”, texto introdutório de um livro que, infelizmente, Mark Fisher nunca publicou.
******* “Aprendendo com Cybersyn, 50 anos depois: entrevista com Eden Medina”, entrevista para o Digilabour.

]]>
https://baixacultura.org/2025/08/01/bibliotecas-redes-e-revolucoes-o-legado-tecnologico-dos-oprimidos/feed/ 0
Um pacote semanal de arquivos offline https://baixacultura.org/2018/03/15/um-pacote-semanal-de-arquivos-offline/ https://baixacultura.org/2018/03/15/um-pacote-semanal-de-arquivos-offline/#respond Thu, 15 Mar 2018 19:08:06 +0000 https://baixacultura.org/?p=12171

Quatro anos atrás hospedei em minha casa por alguns dias um programador cubano, que veio à Porto Alegre para um evento internacional de software livre, o FISL. Ele aproveitou a ocasião também para acompanhar alguns jogos da Copa do Mundo de 2014, então depois de Porto Alegre andou por várias outras cidades do Brasil, inclusive esteve no Rio de Janeiro quando ocorreu a final, aquele Alemanha X Argentina vencido pela primeira com um gol na prorrogação. Por conta das viagens, ele veio com uma mala grande, carregada com roupas para uma estadia longa e também com algumas lembranças de seu país, entre elas algumas garrafas de Rum para presentear seus anfitriões. Festeiro e alegre como boa parte dos cubanos que conheci, adorava sair pra dançar à noite; nos “aquecimentos” em nossa casa, ensinava a fazer mojitos com o rum que trouxe, completados com açúcar, água com gás e muita “hierbabuena” – como é chamado o hortelã em espanhol.

Além da bagagem física, ele também trouxe uma bagagem considerável de arquivos em seu HD. Compartilhava com quem quisesse seu acervo: mais de 10 gigas de música e ouros tantos de filmes cubanos. Ainda que tivessem alguns clássicos de fácil circulação na internet, boa parte era material mais raro de conseguir, músicas e filmes que não estão no YouTube ou em outro serviço de streaming, e que talvez só seja encontrado na internet em clubes de download, ainda os melhores espaços para se baixar qualquer coisa na rede. O fato da velocidade de conexão em Cuba ser muito lenta torna bem mais difícil o compartilhamento de arquivos online e na “nuvem”, um dos motivos pelos quais nosso amigo programador usou constantemente nossa (meia boca) internet de 15 megas para baixar os mais diversos arquivos enquanto esteve em casa.

Soube depois, conversando com ele, que carregar arquivos digitais em pastas (em pendrives, HDs, etc) para compartilhar é um hábito comum em Cuba, onde a rede é acessado por uma minoria do país: algumas estimativas internacionais falam em 5% de pessoas com acesso na ilha em casa, enquanto que a “Oficina Nacional de Estadística de Cuba” disse que, em 2014, eram 27%, embora essa estatística reflita os conectados à intranet local. Mesmo estes 5%, o acesso ainda é lento e caro: na maioria das casas, a velocidade é 56 kbits, como nos velhos modens dos anos 1990, e há restrições de horas (a de meu amigo cubano é de 30h por mês). Há zonas de wifi públicas presentes em algumas das principais cidades cubanas e cybercafés públicos, mas ambos são caros: dados de 2016 dizem que a primeira saía em torno de US$2 dólares por hora e o segundo entre US$6 e 10 por hora – sendo que o salário médio no país gira em torno de U$$20 mensais. As torres de dados para telefonia móvil estão sendo implantadas e, por enquanto, o acesso ocorre apenas para algumas pessoas do governo ou de (poucas) instituições privadas, segundo me contou o programador da ilha.

Esta realidade de conexão ajudou a manter por lá o hábito do compartilhamento físico, offline, de arquivos dos mais variados. Um dos principais arquivos digitais compartilhados da ilha é o chamado “El Paquete Semanal“, um pacote de arquivos de quase 1 TB (contendo entre 15 e 18 mil) distribuídos toda semana ao redor do país com softwares, esportes, telenovelas, desenhos animados, mangás, películas, videogames, músicas, revistas e muito outros conteúdos que a internet traz. “É a melhor maneira de estar atualizado offline” me disse, meses depois, o amigo cubano.

São dois modos os mais comuns de receber o material de “El Paquete”. O primeiro é pagar entre U$1 e U$2 (ou CUC, o peso convertible cubano, usado mais por turistas; diferente do CUP, o peso cubano usado no dia a dia) e receber em sua casa, toda semana (segunda ou terça, dependendo da cidade), alguma pessoa com os arquivos em HDs portáteis ou em memórias flashs (cartões de memórias de máquinas fotográficas, por exemplo), que copia para o seu computador o que você escolher. A outra é comprar nas mais diversas lojas pelo país, especialmente a de aparelhos para smartphones, que revendem para outros clientes. Daí ele se espalha de mão em mão, tal qual um arquivo na internet.

No site de “El Paquete” é possível ver uma lista detalhada dos arquivos de cada semana, divididos por pastas e sub-pastas; na da segunda semana de março de 2018, por exemplo, havia 5 gigas de documentários, curtas, novelas e longas cubanos em “Cinemateca Cubana”; quase 4 GB de aplicações para Android e Iphone em “Aplicaciones para Móviles”; 20 GB em “Música MP3 2018”, com sub-pastas como “Top UK 40 Singles”, “Unreleased Puerto Rico”, “Temas de Estreno Internacionales”, “Top de Febrero”, entre outras; 30 GB de séries de países de língua inglesa em “Series en Transmision”, de “Outlander” a “Grey’s Anatomy”, de Law & Order” a “Arquivo X”; 4GB de revistas em inglês e espanhol, atualizadas semanalmente; entre muitos outros arquivos – lembrando que é quase 1 TB, a capacidade média de boa parte dos HDs que vem nos computadores portáteis hoje vendidos.

Além destes arquivos, “El Paquete” contém também os arquivos de um mercado digital chamado Revolico, que funciona de modo semelhante ao Craigslist: as pessoas compram e vendem todo tipo de coisas, de bicicletas à aulas de matemática, incluindo o próprio acesso à Internet a um preço com desconto. É considerado o principal mercado negro de Cuba, mas tem uma particularidade: é oficialmente bloqueado na ilha desde 2007, quando foi começado por expatriados cubanos na Espanha. Ainda assim, alguns conseguem acessar porque os fundadores do site criaram uma série de servidores proxy, soluções de DNS, endereços web privados e espelhos que mantém o site no ar em Cuba – há, inclusive, seções inteiras sobre o como acessar o site no próprio Revolico.

Os que não conseguem, que são a maioria dos usuários, baixam os arquivos de “El Paquete” e depois usam offline. Uma vez baixado do pacote, Revolico pode ser navegado normalmente em um navegador da Web, de modo que você poderá entrar em contato com os vendedores com um telefonema, assim como você faria se você encontrou o anúncio em um jornal. Em uma reportagem da Vice de 2015, um artista cubano que vive em Havana e consome o “El Paquete” diz que o Revolico é conhecido por todos no país, e é essencial para muita gente.

*

A realidade de uma internet lenta e de pouca penetração não explica sozinha, claro, a escala e o alcance de “El Paquete”. No início dos 1970, cerca de dez anos após a revolução cubana e a nacionalização dos meios de comunicação social, uma economia baseada no aluguel de material de entretenimento começou a florescer em escala na ilhaCom o desenvolvimento de novas mídias, o comércio se adaptou: passou de revistas para as fitas de vídeo VHS e Betacam, depois CDs, VCDs e DVDs e hoje os HDs e pendrives. O Pacote Semanal é o resultado do desenvolvimento gradual dessas redes por mais de quatro décadas.

Não há informação precisa de quantos pacotes são distribuídos semanalmente. Até pouco tempo atrás, não se conhecia publicamente os distribuidores dos pacote. Muitos perguntam como, semanalmente, é possível baixar 1 TB de arquivos com a conexão lenta que existe em Cuba; alguns já especulam que ele vem diretamente dos Estados Unidos. No vídeo abaixo, produzido em 2015 pela CiberCubaTV, “El Transportador”, conhecido como criador de “El Paquete” dá mais detalhes de como funciona o esquema.

*

Fotos: 1 e 3 print vídeo, 2 BBC.

 

]]>
https://baixacultura.org/2018/03/15/um-pacote-semanal-de-arquivos-offline/feed/ 0