{"id":9802,"date":"2014-02-07T11:56:30","date_gmt":"2014-02-07T11:56:30","guid":{"rendered":"https:\/\/baixacultura.org\/?p=9802"},"modified":"2014-02-07T11:56:30","modified_gmt":"2014-02-07T11:56:30","slug":"luther-blisset-e-as-taticas-antimidiaticas-contra-o-biopoder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/baixacultura.org\/2014\/02\/07\/luther-blisset-e-as-taticas-antimidiaticas-contra-o-biopoder\/","title":{"rendered":"Luther Blisset e a guerra antimidi\u00e1tica contra o biopoder"},"content":{"rendered":"

\"Luther_Blissett\"<\/a><\/p>\n

A monografia de Dairan Paul \u201cO guerrilheiro Luther Blisset: cria\u00e7\u00e3o de t\u00e1ticas antimidi\u00e1ticas contra o biopoder\u201d, \u00e9 um primor de an\u00e1lise: relaciona Foucault, Hardt & Negri, Michel de Certeau, neo\u00edsmo\/mail art com o contexto hist\u00f3rico dos centros sociais italianos e at\u00e9 as teorias do jornalismo para falar dos trotes (as \u201cpranks\u201d) que Luther Blisset fez na m\u00eddia italiana do in\u00edcio dos anos 1990. \u00c9 o trabalho final do aluno no curso de jornalismo da UFSM, banca realizada em dezembro de 2013 que o editor desta p\u00e1gina e quem c\u00e1 escreve hoje, Leonardo Foletto, participou.<\/p>\n

LB, talvez a identidade coletiva mais conhecida desde ent\u00e3o, chegou a enganar os jornais italianos durante um ano, plantando not\u00edcias, provas e cartas falsas e escancarando a fragilidade do jornalismo pregui\u00e7oso que se quer mediador da \u201crealidade\u201d. Foi um caso exemplar de m\u00eddia t\u00e1tica, que Dairan traz para seu trabalho com farta documenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica (muita delas traduzidas diretamente do original em italiano, com ajuda da orientadora Aline Dalmolin) num texto preciso \u2013 e que muito tem a dizer tamb\u00e9m sobre t\u00e1ticas parecidas utilizadas hoje, num mundo hiperconectado de redes sociais.<\/p>\n

Algum tempo depois que participei da banca, escrevi um post no Facebook falando isso tudo acima e dando os parab\u00e9ns ao novo jornalista formado na UFSM. Senti um interesse enorme de amigos e conhecidos pelo trabalho \u2013 afinal Luther Blisset vive! \u00a0– e convidei Dairan para escrever um relato sobre a feitura de seu TCC. \u00c9 esse texto que voc\u00eas v\u00e3o ler logo abaixo, seguido da sua monografia, \u201cO guerrilheiro Luther Blisset: T\u00e1ticas antimidi\u00e1ticas contra o biopoder<\/strong>\u201c,\u00a0que est\u00e1\u00a0dispon\u00edvel desde hoje na nossa biblioteca<\/a>.<\/p>\n

\"lutherblissetproject\"<\/a><\/p>\n

O primeiro contato que tive com o nome Luther Blissett ocorreu atrav\u00e9s de uma m\u00fasica. A banda s\u00f3 poderia ser underground, \u00e9 claro, para citar um tema obscuro confinado em uma It\u00e1lia da d\u00e9cada de 1990. Mas, quando comecei a ler sobre Blissett, entendi que aquele fen\u00f4meno ainda fazia muito sentido nos dias de hoje \u2013 e da\u00ed at\u00e9 adquirir o\u00a0Guerrilha Ps\u00edquica<\/a>\u00a0foi um pulo. O problema \u00e9 que esse livro (assinado pelo pr\u00f3prio L. B. e lan\u00e7ado no Brasil pela Conrad na \u00f3tima\u00a0Cole\u00e7\u00e3o Baderna<\/a>) acabou sendo a minha \u201cb\u00edblia blissetiana\u201d durante um bom tempo, j\u00e1 que h\u00e1 poucos trabalhos sobre L. B. no Brasil \u2013 e Guerrilha n\u00e3o se trata exatamente de um estudo cient\u00edfico, mas de relatos das a\u00e7\u00f5es e dos prop\u00f3sitos de Blissett.<\/p>\n

Durante o estado da arte dessa monografia, pude constatar que o meu objeto de pesquisa \u00e9 muito mais citado do que estudado, servindo como exemplo para trabalhos que versam sobre direitos autorais, ativismo, cultura wiki, etc. O seu aspecto que mais chamou minha aten\u00e7\u00e3o \u2013 a dissemina\u00e7\u00e3o de not\u00edcias falsas que enganaram diversos jornais italianos \u2013 n\u00e3o era debatido. Quando o tema estava posto em algum trabalho, continha basicamente cita\u00e7\u00f5es do Guerrilha Ps\u00edquica contando as narrativas fant\u00e1sticas criadas pelo Blissett \u2013 de prostitutas soropositivas que furavam a camisinha de seus clientes at\u00e9 rituais de missa negra que inclu\u00edam estupro; prato cheio para o sensacionalismo dos tabloides locais. Nada de novo para quem j\u00e1 tinha lido a \u00fanica publica\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas de L. B.<\/p>\n

Foi delineando esse aspecto do fen\u00f4meno Luther Blissett que resolvi, ent\u00e3o, analisar quais eram as t\u00e1ticas antimidi\u00e1ticas utilizadas para impregnar as not\u00edcias falsas dentro dos jornais da \u00e9poca. O artigo de Marco Deseriis sobre L. B. (um dos poucos estudos que tratam exclusivamente dele) foi de suma import\u00e2ncia para a pesquisa. A partir do autor, pude compreender Blissett como uma resist\u00eancia biopol\u00edtica frente ao biopoder midi\u00e1tico \u2013 a cria\u00e7\u00e3o de narrativas falsas sobre ritos sat\u00e2nicos como forma de desvelar a cruzada moral realizada pela m\u00eddia que acusava, por exemplo, diversos satanistas da \u00e9poca de ped\u00f3filos (a exemplo do caso Marco Dimitri, que fora inocentado posteriormente). Blissett tamb\u00e9m representa a figura do comum, remetendo aos estudos de Michael Hardt e Antonio Negri. Uma produ\u00e7\u00e3o comum de car\u00e1ter imensur\u00e1vel (dado que o contexto que situo Blissett \u00e9 o do trabalho imaterial, onde a produ\u00e7\u00e3o reside nas rela\u00e7\u00f5es sociais e, portanto, torna-se dif\u00edcil de ser quantificada) e excessivo (pois Blissett \u00e9 formado justamente por esses trabalhadores imateriais, que utilizam da criatividade para se voltar contra o biopoder, na for\u00e7a-c\u00e9rebro que o espet\u00e1culo n\u00e3o consegue capturar).<\/p>\n

Uma vez que defini Blissett como resist\u00eancia, o segundo movimento te\u00f3rico do trabalho foi assimilar o fen\u00f4meno como uma m\u00eddia t\u00e1tica, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00eddia alternativa. Esses conceitos ainda s\u00e3o discutidos dentro do meio acad\u00eamico, sem uma defini\u00e7\u00e3o exata \u2013 o que, de certa forma, \u00e9 proposital. A disserta\u00e7\u00e3o de Henrique Mazetti foi um achado, justamente por discorrer sobre essas duas formas de correntes cr\u00edticas a partir de quatro dimens\u00f5es: espa\u00e7o-temporal (remetendo a Certeau), pol\u00edtica, midi\u00e1tica e discursiva. O que conclu\u00ed analisando as t\u00e1ticas de Blissett \u00e9 que elas somente ocorrem a partir da pr\u00f3pria m\u00eddia, pois n\u00e3o possuem um lugar de fala pr\u00f3prio (como \u00e9 o caso da m\u00eddia alternativa). Ao prezar pelas experimenta\u00e7\u00f5es, a t\u00e1tica ridiculariza seu inimigo e a si mesma; ela n\u00e3o precisa se embasar por argumentos racionais e se autolegitimar. Da\u00ed uma s\u00e9rie de brincadeiras feitas por L. B. onde a risada \u00e9 a sua principal arma, e rir da m\u00eddia parece ser seu intuito. Isso, \u00e9 claro, n\u00e3o despolitiza as a\u00e7\u00f5es de Blissett. Entendo que elas s\u00e3o tanto culturais como pol\u00edticas, e que as duas esferas s\u00e3o indissoci\u00e1veis \u2013 portanto, sua caracteriza\u00e7\u00e3o como uma resist\u00eancia h\u00edbrida, que toma para si tanto aspectos de vanguardas art\u00edsticas (a utiliza\u00e7\u00e3o de um nome m\u00faltiplo a partir do Neo\u00edsmo e da mail art) como o referencial neomarxista de Negri, para constituir uma resist\u00eancia biopol\u00edtica a partir da criatividade e da coopera\u00e7\u00e3o imaterial.<\/p>\n

Este trabalho, obviamente, n\u00e3o se pretende uma b\u00edblia blissettiana, mas busca colocar em pauta dentro da academia um tema que (surpreendentemente) pouco aparece nos estudos sobre cibercultura. Mesmo que se constitua por um objeto de duas d\u00e9cadas atr\u00e1s, a figura de Blissett pode ser entendida como um embri\u00e3o do aconteceu em Seattle, no ano de 1999, ou mesmo nos protestos do Brasil, mais recentemente. E, se ainda quisermos regionalizar mais a exist\u00eancia de L. B., recentemente\u00a0uma not\u00edcia postada por Zero Hora retrata a farsa da construtora Luther Blissett<\/a>\u00a0que resolveu construir um parque em meio \u00e0 Reden\u00e7\u00e3o, em Porto Alegre. Em algum lugar, de algum modo, Blissett parece ainda existir \u2013 inclusive escrevendo monografias sobre si mesmo.<\/p>\n

[Dairan Paul]<\/em><\/p>\n

Imagens: http:\/\/www.inenart.eu\/<\/a><\/address>\n
\u00a0<\/address>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"

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