{"id":4534,"date":"2011-03-14T17:15:37","date_gmt":"2011-03-14T17:15:37","guid":{"rendered":"https:\/\/baixacultura.org\/?p=4534"},"modified":"2011-03-14T17:15:37","modified_gmt":"2011-03-14T17:15:37","slug":"a-falsificacao-da-numerologia-pirata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/baixacultura.org\/2011\/03\/14\/a-falsificacao-da-numerologia-pirata\/","title":{"rendered":"A falsifica\u00e7\u00e3o da numerologia pirata"},"content":{"rendered":"

\"\"<\/a><\/p>\n

Volta e meia s\u00e3o divulgados os n\u00fameros da pirataria no Brasil, na Am\u00e9rica Latina, no Mundo. Menos R$ 24 bilh\u00f5es aos cofres p\u00fablicos nacionais em 2010. Menos US$ 6, 1 bilh\u00f5es para os multinacionais est\u00fadios de cinema. Menos 2, 4 milh\u00f5es de empregos. Menos credibilidade para a fonte n\u00e3o divulgada desses n\u00fameros fajutos – que geralmente s\u00e3o inventados<\/del><\/span> divulgados por entidades representativas de gravadoras e est\u00fadios de cinema (APCM)<\/a> ou ind\u00fastrias (FIRJAN<\/a>, por exemplo). E o pior \u00e9 que o alarme falso quase sempre \u00e9 aumentado pela imprensa que n\u00e3o contesta e reproduz as “estat\u00edsticas”, formando opini\u00f5es prontas em muita gente.<\/p>\n

Pois um grupo formado por pesquisadores de nove pa\u00edses decidiu contestar e averiguar a realidade. Desde 2006, e divulgado desde 2010<\/a>, as organiza\u00e7\u00f5es lideradas pelo Social Science Research Center, dos Estados Unidos, analisaram os mercados informais de l\u00e1 e da \u00c1frica do Sul, Bol\u00edvia, Brasil, \u00cdndia, M\u00e9xico e R\u00fassia. Como resultado foi publicado o relat\u00f3rio “Pirataria em economias emergentes” com 440 p\u00e1ginas em ingl\u00eas, 86 delas dedicadas ao Brasil. Aqui, a pesquisa foi realizada pelo Instituto Overmundo e pela Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, que desvendaram alguns mist\u00e9rios, como disse Ronaldo Lemos<\/a>:<\/p>\n

\n

– Fala-se que o Brasil perde dois milh\u00f5es de empregos por ano com a pirataria. \u00c9 um n\u00famero creditado \u00e0 Unicamp, ent\u00e3o fomos \u00e0 Unicamp tentar descobrir que pesquisa apontaria isso. Conversamos com as pessoas l\u00e1 e descobrimos que essa pesquisa n\u00e3o existe. Outro dado bastante utilizado \u00e9 que o Brasil deixa de arrecadar R$ 30 bilh\u00f5es por ano em impostos por causa da pirataria, e esse tamb\u00e9m \u00e9 um valor sem fundamento.<\/p>\n<\/blockquote>\n

Na mesma mat\u00e9ria do Globo de onde pescamos a fala de Lemos, nos dois \u00faltimos par\u00e1grafos n\u00e3o publicados online, mas publicados neste blog<\/a>, o chefe da Divis\u00e3o de Propriedade Intelectual<\/a> do Itamaraty e membro do Conselho Nacional de Combate \u00e0 Pirataria e Delitos contra a Propriedade Intelectual (CNCP<\/a>), Kenneth da N\u00f3brega, admite que “a ind\u00fastria apresenta dados cuja metodologia nem sempre \u00e9 clara<\/strong>. Existe um debate internacional sobre essa metodologia, e o governo brasileiro ainda n\u00e3o tem n\u00fameros oficiais sobre pirataria<\/strong>“. Ou seja, a metodologia utilizada em “pesquisas” sobre consumo de produtos piratas, como a da Fecomercio-RJ<\/a>, n\u00e3o \u00e9 confi\u00e1vel, tornando os n\u00fameros n\u00e3o aut\u00eanticos. S\u00e3o falsificados.<\/p>\n

\"\"<\/a>As estat\u00edsticas da pirataria s\u00e3o mais falsas do que os produtos<\/p>\n

Dessas “estimativas”, os representantes das grandes empresas e de \u00f3rg\u00e3os governamentais conseguem a deixa para promover campanhas e propagandas enganosas que ligam o consumo de produtos falsificados ao Crime Organizado, ao Terrorismo, ao Trabalho Escravo, ao Tr\u00e1fico de Drogas – como aquelas que nos deparamos antes de ver um filme em dvd ou mais recentemente no cinema. Um exemplo mais concreto \u00e9 a campanha “Brasil sem pirataria”, resultado da pesquisa supracitada encomendada pela Fecomercio-RJ, e apoiada pelo CNPC – aquele cujo representante disse ao fim da mat\u00e9ria que defendem “que elas n\u00e3o fa\u00e7am rela\u00e7\u00f5es simpl\u00f3rias”<\/strong>.<\/p>\n

\"\"<\/a><\/p>\n

“Simpl\u00f3rio” \u00e9 justamente o que mais \u00e9 feito, pois h\u00e1 um grande problema na utiliza\u00e7\u00e3o do termo gen\u00e9rico “pirataria” para qualquer tipo de infra\u00e7\u00e3o de propriedade intelectual. Nessas campanhas existem dois tipos de viola\u00e7\u00e3o: a dos direitos autorais e a da propriedade industrial. Os primeiros valem para os produtos que incidem sobre as ideias, como cds, dvds e livros; os segundos, para inven\u00e7\u00f5es ou marcas, como brinquedos, rem\u00e9dios e t\u00eanis. Por isso Oona Castro, diretora-executiva do Overmundo diz que “A gente acaba fazendo um debate com problemas distintos, de natureza diferente, mas que s\u00e3o tratados da mesma forma”<\/strong>.<\/p>\n

Nenhum de n\u00f3s duvida dos danos que um t\u00eanis de marca diabo pode fazer no p\u00e9, ou um rem\u00e9dio de proced\u00eancia duvidosa pode causar no teu corpo, ou um \u00f3culos totalmente de pl\u00e1stico no teu olho, ou um brinquedo no teu filho. O que n\u00e3o se pode colocar no mesmo saco s\u00e3o os cds, dvds e downloads – que, geralmente, possuem os mesmos dados digitais da origem, sendo c\u00f3pias sem perdas de qualidade.<\/p>\n

\"\"<\/a><\/p>\n

“Projetos de conscientiza\u00e7\u00e3o”<\/strong><\/p>\n

O debate das consequ\u00eancias da “pirataria de tudo” tem seus efeitos e \u00e9 levado para crian\u00e7as e adultos, formatando mentes atrav\u00e9s de “projetos de conscientiza\u00e7\u00e3o” escolares ou reportagens na imprensa.<\/p>\n

O\u00a0Projeto Escola Legal<\/a> – promovido a partir de 2007 pela C\u00e2mara Americana de Com\u00e9rcio (AmCham<\/a>), apoiado pelo CNPC e patro$$inado<\/a> pela MPAA<\/a> –\u00a0\u00a0\u00e9 um desses que reproduzem os falsos n\u00fameros. A inten\u00e7\u00e3o do projeto \u00e9 auxiliar professores a doutrinar<\/del> trabalhar a anti-pirataria com seus alunos, atrav\u00e9s de um “kit para educadores” e atividades nas disciplinas – que v\u00e3o desde textos sobre o assunto em Portugu\u00eas at\u00e9 problemas de Matem\u00e1tica com os n\u00fameros das “pesquisas”, passando ainda pela cita\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses fonte de produtos falsificados na Geografia. Segundo o site<\/a>, o projeto foi implementado em\u00a082 escolas (9 particulares e 73 p\u00fablicas) de seis cidades (de SP, GO, e SC), podendo se espalhar para mais escolas.<\/p>\n

E os de mais idade tamb\u00e9m podem reproduzir as mesmas cifras por meio de reportagens veiculadas na imprensa. D\u00e1 uma olhada nessa reportagens do Fant\u00e1stico<\/a> e do R7<\/a> pra tu ver que os n\u00fameros s\u00e3o reproduzidos e a “pirataria” \u00e9 usada tanto para se referir a infra\u00e7\u00e3o de direito autoral quanto a de propriedade industrial. [Na segunda reportagem, mostra exemplar do rid\u00edculo discurso moralizador do combate \u00e0 pirataria, felizmente um entrevistado diz que “as vezes voc\u00ea compra um cd ou dvd que voc\u00ea v\u00ea duas vezes e j\u00e1 vale a pena<\/em>“.]<\/p>\n

Como se percebe, \u00a0as campanhas e reportagens jornal\u00edsticas tentam colocar uma dose cavalar de “culpa” \u00a0na hora de compra de produtos oficiais. Se esquecem de dar o destaque devido \u00e0quela que \u00e9 a principal motiva\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m para comprar um produto considerado “pirata”: o pre\u00e7o mais baixo. \u00c9 p\u00fablico e not\u00f3rio que o pre\u00e7o alto das m\u00eddias n\u00e3o condiz com os baixos sal\u00e1rios dos cidad\u00e3os, especialmente em pa\u00edses emergentes como Brasil, R\u00fassia e \u00c1frica do Sul, onde\u00a0o pre\u00e7o de um CD, DVD ou de uma c\u00f3pia do Microsoft Office \u00e9 de cinco a dez vezes maior do que nos Estados Unidos ou na Europa, e os produtos oficiais acabam sendo \u00edtens de luxo, como Lemos escreve na introdu\u00e7\u00e3o do estudo que pode ser baixado\u00a0aqui<\/a>.<\/p>\n

Cr\u00e9ditos das imagens: 1<\/a>, 2<\/a>, 3<\/a>, 4<\/a>.<\/address>\n
\u00a0<\/address>\n

[Marcelo De Franceschi]<\/em><\/p>\n

\u00a0<\/address>\n
ssas estimativas piratas costumam<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"

Volta e meia s\u00e3o divulgados os n\u00fameros da pirataria no Brasil, na Am\u00e9rica Latina, no Mundo. Menos R$ 24 bilh\u00f5es aos cofres p\u00fablicos nacionais em 2010. Menos US$ 6, 1 bilh\u00f5es para os multinacionais est\u00fadios de cinema. Menos 2, 4 milh\u00f5es de empregos. Menos credibilidade para a fonte n\u00e3o divulgada desses n\u00fameros fajutos – que […]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8083,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[88,122,91,90,126],"tags":[246,591,592,593,594,159,595],"post_folder":[],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/baixacultura.org\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4534"}],"collection":[{"href":"https:\/\/baixacultura.org\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/baixacultura.org\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/baixacultura.org\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/baixacultura.org\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4534"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/baixacultura.org\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4534\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/baixacultura.org\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/baixacultura.org\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4534"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/baixacultura.org\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4534"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/baixacultura.org\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4534"},{"taxonomy":"post_folder","embeddable":true,"href":"https:\/\/baixacultura.org\/wp-json\/wp\/v2\/post_folder?post=4534"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}