BaixaCultura https://baixacultura.org Cultura livre & (contra) cultura digital Wed, 22 Apr 2026 22:07:40 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.0.11 https://baixacultura.org/wp-content/uploads/2022/09/cropped-adesivo1-32x32.jpeg BaixaCultura https://baixacultura.org 32 32 Canções que migram: música, literatura e cultura livre https://baixacultura.org/2026/04/22/cancoes-que-migram-musica-literatura-e-cultura-livre/ https://baixacultura.org/2026/04/22/cancoes-que-migram-musica-literatura-e-cultura-livre/#respond Wed, 22 Apr 2026 22:05:15 +0000 https://baixacultura.org/?p=16036  

Na próximo segunda-feira, 27 de abril, às 17h (horário de Brasília) / 21h (horário de Portugal), o BaixaCultura recebe, em seu canal do Youtube, os criadores do projeto “Songs of Seeking / Fragmentos de viagens” para uma conversa sobre música, viagem, criação colaborativa e circulação cultural no eixo lusófono.

O projeto é um ciclo de canções e textos que nasce da colaboração entre o músico e professor luso-brasileiro Gilvano Dalagna, o artista e escritor luso-canadense Richard Simas e a violinista e professora luso-brasileira Clarissa Foletto, todos ligados à Universidade de Aveiro e ao INET-md (Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança). Inspirado em “A Conferência dos Pássaros”, texto sufi persa do século XIII de Farid Ud-Din Attar, o álbum acompanha a jornada de dois personagens — Tomás e Sofia — que partem em busca de sentido pelo mundo, transformando-se, ao longo do caminho, em seres híbridos, meio pássaros, meio humanos.

O resultado é uma obra bilíngue (português e inglês), eclética, com 20 faixas entre canções e narrações, gravada com um ensemble de músicos de origens diversas em Aveiro. O álbum está disponível no Bandcamp com preço livre (“name your price”), e o ebook que acompanha a obra pode ser baixado gratuitamente no repositório aberto da Universidade de Aveiro. Na live, vamos conversar sobre o processo criativo colaborativo entre escritor e compositor, uma inversão do modelo habitual em que o texto literário se subordina à estrutura musical. Vamos discutir também como um projeto acadêmico-artístico nascido em Portugal pode circular pelo mundo lusófono e além dele, os desafios da distribuição independente de música hoje, e como práticas de acesso aberto podem ampliar o alcance de obras artísticas sem sacrificar a sustentabilidade dos criadores.

Quando: Segunda, 27 de abril de 2025, 17h (Brasil) / 21h (Portugal) Onde: Canal do YouTube do BaixaCultura — youtube.com/@BaixaCultura Com: Gilvano Dalagna, Richard Simas e Lara Teang (designer) Mediação: Leonardo Foletto (BaixaCultura)

Ouça o álbum: songsofseeking.bandcamp.com  Baixe o ebook: ria.ua.pt/handle/10773/46762

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Cultura livre na era da IA generativa: o que resta dos comuns digitais? https://baixacultura.org/2026/04/15/cultura-livre-na-era-da-ia-generativa-o-que-resta-dos-comuns-digitais/ https://baixacultura.org/2026/04/15/cultura-livre-na-era-da-ia-generativa-o-que-resta-dos-comuns-digitais/#respond Wed, 15 Apr 2026 14:12:08 +0000 https://baixacultura.org/?p=16027  

Texto base para a participação no seminário “IA e Capitalismo de Vigilância no, pelo e a partir do Sul Global“, 15 de abril de 2026

 

“Não quero ter que defender o copyright para ir contra a OpenAI.” Essa é uma frase que já repeti diversas vezes em eventos, aulas e conversas com amigos quando quero expressar minha opinião sobre direitos autorais e IAs generativas, assunto que tem sido um dos mais comentados dos últimos anos na cultura digital. Quem conhece o BaixaCultura sabe que sempre fomos contra o copyright, usamos e endossamos o copyleft, porque acreditamos que a propriedade intelectual favorece muito mais, e desde seus princípios (como escrevi em A Cultura é Livre), os intermediários e não quem cria. Na prática, propriedade intelectual foi, e continua sendo, mais um mecanismo de captura e escassez artificial operado por quem distribui do que um instrumento de proteção de quem cria.

Como também é bastante sabido por aqui, denunciamos os abusos das plataformas e o “engolimento” completo da internet pelos sistemas de IA generativa – não só o ChatGPT, mas Claude, Gemini, DeepSeek e tantos outros –  sem nenhum tipo de favorecimento, e às vezes nem menção, às pessoas criadoras. Já dissemos também que, sem os dados produzidos por todas as pessoas nesses cerca de 30 anos de internet comercial, não haveria IA generativa como a conhecemos hoje. Nada desse maravilhamento ingênuo que quer enfiar IA em qualquer processo digital seria possível sem a produção coletiva, sistemática e massiva de “conteúdos” (textos, imagens, sons, vídeos) pelas pessoas. Estamos falando de conhecimento humano capturado em dígitos, datificado em plataformas, e agora também tokenizado ad infinitum nos sistemas complexos de aprendizado de máquina dos grandes modelos de linguagem.

Mas, diante desse cenário, o que fazer? É possível denunciar e agir contra as big techs de IA generativa sem precisar defender a propriedade intelectual? Sem ter que criar mecanismos que, a pretexto de proteger autores, acabam fortalecendo justamente quem sempre os explorou?

O copyright não é mais o inimigo principal – nem a solução

Não há respostas fáceis. Mas tenho trabalhado com a ideia de que sim, é possível ir contra a OpenAI e as outras big techs de IA sem ter que defender o copyright. Por diversos motivos: primeiro, e principalmente, porque o copyright não é mais o inimigo principal; portanto, também não é mais solução para o entrave colocado entre autores e empresas de tecnologia – se é que algum dia foi. Não é o inimigo principal porque, num cenário em que o poder real está concentrado em meia dúzia de empresas que controlam infraestrutura computacional, dados e modelos, as batalhas de propriedade intelectual se tornaram uma frente secundária da disputa: importante, mas insuficiente para enfrentar o que efetivamente está em jogo.

Um exemplo. Há diversas iniciativas legislativas e jurisprudenciais bastante restritivas em relação ao uso de obras protegidas para treinamento de IA em vigor hoje no mundo. A União Europeia, por meio do AI Act (2024) somado à Diretiva de Copyright no Mercado Único Digital (2019), passou a obrigar que os provedores de IA generativa de propósito geral (GPAI) respeitem as reservas de direitos expressas pelos titulares – o chamado mecanismo de opt-out do text and data mining – além de tornar pública uma síntese detalhada do conteúdo usado no treinamento. O Reino Unido, em 2025, propôs um modelo similar ao europeu. Nos Estados Unidos, sem legislação específica, a disputa migrou para os tribunais, onde dezenas de processos contra Anthropic, OpenAI, Microsoft, Meta, Google e Perplexity tramitam simultaneamente.

Mesmo assim, nenhum desses arranjos jurídicos serviu para impedir a extração massiva de dados pelos principais sistemas de LLMs hoje, que, como se sabe, “engoliram” toda a internet e não vão vomitar mais aquilo que já digeriram, transformaram, copiaram, remixaram. O caso recente da Anthropic é emblemático: a empresa aceitou pagar US$ 1,5 bilhão para encerrar um processo coletivo movido por autoras nos EUA – cerca de US$ 3 mil por cada um dos aproximadamente 500 mil livros que baixou de bibliotecas-sombra como a LibGen para treinar seus modelos. Mas, fora desses litígios, o que tem ocorrido majoritariamente são acordos diretos entre empresas de mídia e empresas de IA.

É o caso do The New York Times, que processou a OpenAI e a Microsoft em dezembro de 2023 por uso indevido de seu acervo, mas em maio de 2025 firmou um acordo de licenciamento com a Amazon, estimado em US$ 20 a 25 milhões anuais, para que sua produção, incluindo NYT Cooking e The Athletic, alimente os modelos de IA da empresa de Bezos. É também o caso da Folha de S.Paulo, que fechou recentemente um acordo com o Google para que sua produção informativa treine o Gemini, com acesso ao acervo histórico e a um feed de textos em tempo real. Ambos engrossam uma fila que já inclui News Corp (Wall Street Journal, NY Post), Le Monde, Financial Times, Reuters, Associated Press, El País, The Guardian, Estadão, entre tantos outros que firmaram contratos similares com OpenAI, Google, Meta ou Amazon nos últimos dois anos.

E há ainda o caso das grandes editoras acadêmicas, que vêm vendendo o acervo de seus autores como matéria-prima para modelos de IA. A Wiley anunciou em junho de 2024 dois contratos de licenciamento somando US$ 44 milhões. No mesmo ano, a Taylor & Francis firmou acordo de US$ 10 milhões com a Microsoft sem consultar os autores envolvidos, gerando revolta na comunidade acadêmica britânica. E a HarperCollins tornou-se a primeira das chamadas Big Five a fechar um acordo de licenciamento de IA para seu catálogo de não-ficção, oferecendo aos autores a opção de aceitar ou recusar e pagando cerca de US$ 2.500 por título – valor que a Authors Guild considera muito abaixo do justo, recomendando uma divisão de 75% a 85% para o autor, enquanto na prática os contratos têm oferecido divisão 50/50.

É possível dizer, portanto, que o direito autoral acaba sendo instrumentalizado pelas próprias big techs e pelos grandes intermediários, que têm recursos jurídicos e poder de mercado para negociar licenças entre si. Enquanto autoras e autores individuais ficam à margem, sem advogados, sem poder de barganha, recebendo muito pouco dos acordos firmados em seu nome.

Do lado deles, mas não no nosso lado

O copyright não é a solução, em segundo lugar, porque fechar tudo nele seria entregar o terreno a quem já tem poder de negociação – que, novamente, não serão os artistas, mas as grandes gravadoras, editoras, estúdios, agências. Como escreveu Cory Doctorow num texto que traduzimos aqui no BaixaCultura, “só porque você está do lado deles, não significa que eles estejam do seu lado”. E ele segue: “Os trabalhadores criativos — escritores, cineastas, fotógrafos, ilustradores, pintores e músicos — não estão do mesmo lado que as gravadoras, agências, estúdios e editoras que colocam nosso trabalho no mercado. Essas empresas não são instituições de caridade; elas são motivadas a maximizar os lucros, e uma maneira importante de fazer isso é reduzir os custos, inclusive e principalmente o custo de nos pagar pelo nosso trabalho.”

Toda vez que a discussão sobre IA generativa é reduzida a “treinamento viola copyright, logo é preciso ampliar o copyright”, quem sai ganhando não são os criadores. São os mesmos intermediários que criticamos há mais de uma década, agora travestidos de defensores da autoria para negociar acordos bilionários de licenciamento de catálogo com as big techs – acordos dos quais, vale repetir, os artistas dificilmente vão receber um valor justo. O resultado é o pior dos dois mundos: cultura mais fechada, criadores igualmente precarizados, e o poder concentrado nas mesmas mãos de sempre, agora com mais uma camada de captura no topo.

Recusar o copyright como resposta não significa, porém, fingir que não há problema. Não podemos ignorar o fato de que a IA está ferindo gravemente a infraestrutura que produz o conhecimento aberto. A Wikimedia, por exemplo, já sente o peso: bots de IA impõem cargas massivas em sua infraestrutura, consomem o trabalho editorial coletivo sem atribuição, sem encaminhar usuários de volta, sem contribuir financeiramente. É uma relação vampírica – usando a imagem de Molly White no texto Wait, not like that – em que o extrator compromete sua própria fonte de sustento no médio prazo e, de quebra, corrói o trabalho voluntário que torna os comuns possíveis.

A reação imediata que o copyright e seus defensores propõem é fechar licenças, erguer paywalls, migrar para plataformas muradas, ou simplesmente parar de publicar (na rede). O problema é que esse movimento defensivo corre o risco de destruir os próprios comuns que se quer proteger, enquanto as big techs continuam raspando tudo de qualquer jeito, inclusive conteúdo com todos os direitos reservados. Fechar a porta da frente não impede quem entra pela janela; apenas impede quem vinha pela porta com boas intenções: professores, pesquisadores, estudantes, jornalistas, movimentos sociais.

A falsa escolha: extração ou exclusão

Essa encruzilhada revela aquilo que a Mozilla Foundation e outras iniciativas têm chamado de “falsa escolha” imposta às comunidades: abrir seus dados e correr o risco de exploração extrativa, ou fechá-los e ser excluídas da possibilidade de moldar os sistemas de IA que já as afetam de qualquer forma. É uma armadilha cuidadosamente construída e historicamente familiar para quem vem da tradição da cultura livre latino-americana e do Sul Global. A mesma lógica que privatizou sementes, saberes tradicionais e patrimônio genético se reapresenta agora sob o nome de “dados de treinamento”. Ou você partilha (e vira matéria-prima extraída sem compensação), ou você fecha (e assiste a disputa sobre o próprio conhecimento ser decidida por outros, longe de você).

O que penso ser preciso entender é que o copyright não foi, e cada vez menos será, o instrumento adequado para resolver esse problema. Como argumenta Sarah Pearson em texto recente no blog do Creative Commons, a fraqueza do direito autoral diante da reutilização por máquinas é estrutural e, em certa medida, por design: as licenças CC foram pensadas justamente para não restringir usos que o copyright já permitia. Apertar a licença, portanto, não só não resolve como fortalece a lógica de que apenas quem tem poder de negociação individual – grandes editoras, estúdios, detentores de catálogos – pode sentar à mesa. O pequeno criador, o coletivo, a biblioteca comunitária, a universidade pública do Sul Global continuam de fora. Ao transformar o debate numa disputa de propriedade intelectual, abandonamos o terreno ético e político mais amplo, aquele em que a cultura livre sempre se moveu melhor, e entregamos a discussão a advogados corporativos.

Uma saída possível, então, não está em fechar os comuns, mas em reconstruí-los com guardrails que protejam sua reciprocidade. Vale dizer desde já: nenhuma das ideias que apresento a seguir é a solução. São experimentações em curso, tentativas situadas, com tensões internas e contradições próprias — menos modelos a replicar e mais pontos de partida para pensar o problema.

Primeira saída: reciprocidade infraestrutural e compromisso mútuo

A primeira ideia é a aposta mais visível hoje: reciprocidade infraestrutural e compromisso mútuo. Está representada por iniciativas como o Wikimedia Enterprise, programa pelo qual a Wikimedia Foundation passou a cobrar das big techs por acesso estruturado, via API, ao conteúdo da Wikipédia. Em janeiro de 2026, no aniversário de 25 anos do projeto, a fundação formalizou acordos com Amazon, Meta, Microsoft, Mistral AI e Perplexity, somando-se ao Google, parceiro desde 2022. A lógica é direta: se essas empresas dependem estruturalmente do trabalho voluntário de cerca de 250 mil editoras e editores para treinar seus modelos, que ao menos sustentem financeiramente a infraestrutura que torna esse trabalho possível.

Na mesma direção caminham outras experimentações. O CC Signals, do Creative Commons, busca um mecanismo para comunicar preferências de uso fora do aparato do copyright, funcionando como um “contrato social” legível por máquinas em que criadores podem sinalizar termos de reciprocidade – atribuição, contribuição financeira, reinvestimento nos comuns – sem precisar restringir licenças. O Mozilla Data Collective, lançado em novembro de 2025 como evolução do projeto Common Voice (hoje o maior conjunto público de dados de fala do mundo, com mais de 30 mil horas em 300 línguas), funciona como uma plataforma onde comunidades mantêm a propriedade dos seus datasets, definem termos de uso, podem exigir compensação (recebendo 100%) ou restringir o uso a fins específicos como pesquisa, educação ou projetos alinhados com seus valores, com contratos legalmente vinculantes sobre quem pode acessar o quê.

O modelo de acesso diferenciado proposto pela Europeana e pela Open Future Foundation para patrimônio cultural, apresentado em dezembro de 2025, desenha camadas distintas de acesso para instituições culturais europeias: uso livre para pesquisa e fins não-comerciais, uso pago e contratualizado para grandes desenvolvedores comerciais de IA, o que cria um mecanismo para que o setor cultural público seja agente ativo na produção de modelos. O também europeu NGI Commons elabora estratégias de longo prazo para a soberania digital dos comuns. E a licença NOODL (Nwulite Obodo Open Data License), desenvolvida por pesquisadoras das universidades de Strathmore (Quênia) e Pretória (África do Sul) em diálogo com o coletivo Masakhane de processamento de linguagem natural para línguas africanas, articula reciprocidade como obrigação contratual por meio de um sistema de licenciamento em camadas: acesso amplo e gratuito para pesquisadores africanos e do Sul Global, termos de negociação e compensação, monetária ou via colaboração, para atores comerciais do Norte.

No Brasil, apesar de um cenário hostil, poderíamos pensar, por exemplo, em exigir que o financiamento estatal do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial priorize infraestrutura de comuns digitais (universidades, institutos federais, bibliotecas) em vez de apenas subsidiar parcerias com provedores privados de nuvem.

O limite desse caminho, porém, é nítido: trata-se de uma forma de negociar com a assimetria de poder existente, e não de confrontá-la. Depende, no fim das contas, da boa vontade, ou do cálculo de longo prazo, das mesmas empresas que vinham raspando tudo de graça. O Wikimedia Enterprise, afinal, só existe porque o Google, a Meta e a Amazon aceitaram pagar. Quem garante que eles não vão deixar de pagar amanhã?

Segunda saída: soberania desde abajo, infraestrutura comunitária

A segunda ideia de saída é menos visível, mais radical, e me parece particularmente potente do ponto de vista da tradição da cultura livre brasileira. Consiste em investir deliberadamente na construção de redes, servidores, arquivos e plataformas fora da lógica extrativista para produzir comuns que simplesmente não estejam disponíveis às big techs da mesma forma.

O Fediverso é um dos laboratórios mais vivos dessa aposta hoje: milhares de instâncias autônomas de Mastodon, Pixelfed, PeerTube, Funkwhale, Lemmy, cada uma governada pela sua própria comunidade, com seus próprios termos de uso e regras de federação. Não é que o Fediverso seja imune à raspagem; como sabemos, a Meta aparentemente ignora robots.txt e coleta dados de instâncias independentes. Mas a arquitetura federada torna a extração estruturalmente mais difícil, cara e politicamente custosa. Em 2025, a instância mastodon.social passou a proibir explicitamente o scraping para treinamento de IA em seus termos de uso, e muitas outras seguiram o mesmo caminho. No Brasil, experiências como ursal.zone, bolha.us e organica.social mostram que é possível construir esses espaços desde o Sul, com governança situada e vínculos orgânicos com movimentos sociais.

A experiência do professor J.J. Sylvia IV nos Estados Unidos aponta, porém, alguns desafios. Ao ensinar Mastodon num curso de ética de mídias sociais na Fitchburg State University, em Massachusetts, criando uma instância específica para a turma, ele e seus alunos notaram que as promessas éticas do Mastodon (maior agência do usuário, redução da exploração de dados, governança descentralizada) são inseparáveis do trabalho que exigem: aprender normas de federação, construir redes significativas sem assistência algorítmica, participar de atividades de governança e moderação. O experimento revelou que essas redes exigem um nível de participação cívica similar ao necessário para viver numa democracia. Ou seja: elas demandam contribuição ativa dos usuários, não apenas o consumo passivo a que estamos acostumados nas redes proprietárias mediadas por algoritmos.

Nessa mesma direção comunitária e descentralizada há iniciativas fora do Fediverso que convergem. Bibliotecas-sombra como a Anna’s Archive, que centralizam acesso livre a milhões de obras científicas e literárias contra a lógica de paywall das grandes editoras. O Acervo Bajubá, arquivo comunitário LGBTQIAPN+ criado em 2010 e hoje hospedado pelo Grupo de Incentivo à Vida (GIV), que reúne mais de 20 mil itens de memória dissidente (revistas, zines, panfletos, audiovisuais, literatura) sob lógica de cuidado coletivo e não de propriedade institucional. O Museu da Pessoa e a rede de Pontos de Memória articulada pelo Ibram, que apostam em narrativas comunitárias de história oral. E a Tainacan, software livre brasileiro desenvolvido na UFG e UFMG para repositórios digitais comunitários, hoje usado por dezenas de instituições culturais públicas e coletivos para hospedar seus próprios acervos sem dependência de plataformas proprietárias.

A força dessa aposta está exatamente em não esperar permissão: em vez de pedir às big techs que respeitem, a estratégia é construir infraestrutura onde a lógica das big techs simplesmente não opera. O limite, claro, também é óbvio: é um caminho de formiga, sustentado por trabalho voluntário, com financiamento intermitente, sem a escala nem a visibilidade da primeira aposta. E corre o risco permanente de virar enclave, uma espécie de jardim murado pelos próprios jardineiros.

Soberania de dados às margens

A aposta ganha contornos ainda mais radicais quando olhamos para arquivos e iniciativas de soberania de dados liderados por comunidades historicamente violentadas pela lógica extrativa. O caso mais elaborado é o da Te Hiku Media, rádio comunitária maori da Nova Zelândia, que desde 2013 constrói sua própria plataforma de distribuição de conteúdo  – a Whare Kōrero (“casa da fala”) —, hoje hospedando mais de 30 anos de material arquivístico e cerca de 1.000 horas de falantes nativos de te reo māori, muitos nascidos no final do século XIX. A organização desenvolveu seus próprios modelos de reconhecimento de fala para o idioma, recusando-se a entregar o material para Google ou OpenAI, e criou a Kaitiakitanga License, que rompe com a lógica de “propriedade” e opera sob o princípio de guardiania (kaitiakitanga): os dados não são posse, são cuidados, e qualquer benefício deles derivado deve retornar à fonte que os originou.

A experiência inspirou projetos similares entre havaianos nativos e o povo Mohawk no sudeste do Canadá. Na mesma direção, o Local Contexts, iniciativa fundada em 2010 por Jane Anderson e Kim Christen, desenvolveu os Traditional Knowledge (TK) Labels e os Biocultural (BC) Labels – etiquetas digitais que permitem a comunidades indígenas embutir seus próprios protocolos de acesso (incluindo restrições sazonais, de gênero, de sacralidade) diretamente nos metadados de materiais arquivísticos mantidos por museus, bibliotecas e repositórios. Operam como camada paralela e complementar ao direito autoral — e já foram adotados, por exemplo, pela Library of Congress para coleções do povo Passamaquoddy.

Na Europa, arquivos como o Pad.ma (arquivo comunitário de vídeo do coletivo CAMP, com origem indiana) e infraestruturas como a Framasoft, na França, oferecem dezenas de serviços federados como alternativa explícita às big techs, sustentados por doações e trabalho voluntário. São experiências heterogêneas, de escala modesta, mas que partilham o princípio de que a infraestrutura não é neutra, e a única forma de garantir que comuns digitais sejam realmente comuns é construí-los com governança situada, desde baixo.

Articular as duas saídas, sem capturar nenhuma

As duas saídas trazidas aqui não são excludentes, e talvez o interessante esteja justamente na tensão entre elas. A primeira opera na frente da disputa institucional e tenta impor regras aos atores que já dominam o terreno; a segunda constrói terreno novo, em paralelo, onde outras regras podem existir. Para quem vem da cultura livre como eu, a tentação histórica é sempre a segunda: há algo consistente e engajador nessa tradição mesclada com a cultura hacker, o copyleft, o software livre, as redes autônomas. Mas seria ingenuidade pensar que se pode abrir mão da primeira num momento em que o poder das big techs se consolida em escala planetária.

A pergunta política real, acredito, é como articular as duas: como fazer com que experimentações comunitárias alimentem disputas institucionais, e como fazer com que conquistas institucionais não capturem nem esvaziem as experimentações comunitárias. Nada disso elimina a assimetria brutal de poder que caracteriza o momento, mas reposiciona o problema. A pergunta não é mais “como impedir que minha obra seja usada”, e sim “como garantir que a produção de comuns digitais continue sendo possível, sustentável e plural”.

[Leonardo Foletto]

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Bem-vindos ao campo minado https://baixacultura.org/2026/04/09/bem-vindos-ao-campo-minado/ https://baixacultura.org/2026/04/09/bem-vindos-ao-campo-minado/#respond Thu, 09 Apr 2026 18:00:35 +0000 https://baixacultura.org/?p=16019

_ O dia que Mark Fisher destruiu seu mentor” (Jacobin Brasil)

Publicado em 13 de janeiro de 2026 — data que marca o aniversário da morte de Fisher em 2017 —, o texto da Jacobin Brasil traz a tradução de Terminator vs Avatar, ensaio em que o filósofo britânico desmonta de forma cirúrgica o pensamento de Nick Land, seu ex-mentor e hoje uma das referências intelectuais do movimento neorreacionário trumpista. O texto foi publicado originalmente em 2014 na coletânea #Accelerate e permanece como uma das críticas mais certeiras ao aceleracionismo de direita: mostra como o niilismo de Land, que flertava com o marxismo dos fluxos e da desterritorialização, desembocou em um elogio sem mediações à destruição capitalista. No ensaio, Fisher propõe distinguir o aceleracionismo de esquerda — que ele ainda sustentava, com reservas — do niilismo tecnocapitalista de Land. O ponto central da crítica é a análise do livro Economia Libidinal, de Lyotard, e da afirmação de que os operários britânicos “gostavam” do sofrimento industrial. Para Fisher, esse argumento revela uma filosofia da submissão: ao confundir os fluxos de desejo com os vetores do capital, Land abandona qualquer horizonte de transformação e transforma a aceleração em fim em si mesmo. Fisher chama isso de “capitalismo cibernético sem rosto”, um sistema que não precisa mais de sujeito, de classe, de política, apenas de velocidade e de colapso. Land não é apenas um “desvio intelectual”, mas um sintoma do que acontece quando a teoria perde o fio que a conecta à vida coletiva.

O que torna o texto ainda mais valioso hoje é a clareza com que Fisher identifica a estrutura do problema antes que ela se tornasse mainstream. Escrever em 2014 sobre Land como precursor do movimento neorreacionário, da aliança entre capitalismo extrativista e autoritarismo digital, era fazer diagnóstico com uma década de antecedência. Lido em 2026, o texto é mais um daqueles que tem um tom profético: o mentor que Fisher “destruiu” é hoje citado por Marc Andreessen como seu filósofo favorito e circula nos corredores do Vale do Silício como um dos pensadores mais influentes da singularidade.

 

_ Traduções de Nick Land, por Fabrício Silveira;

O pesquisador gaúcho Fabrício Silveira (autor do livro O Exterminador do Futuro: Mídia, horror e política em Nick Land) vem publicando sistematicamente em seu Medium traduções dos principais textos de Nick Land para o português. Land, como se sabe, é a referência filosófica central do movimento neorreacionário que embasa partes do trumpismo tecnológico, e quase nada de sua obra estava disponível em português.

Três textos recentemente traduzidos por Silveira permitem entender o núcleo duro da Neorreação: A ideia da Neorreação (de junho de 2013) formula o conceito de “catraca degenerativa” — a ideia de que o progressismo instala mecanismos irreversíveis de deterioração e que qualquer reversão simples é impossível, pois “a saída não pode ser a entrada”. Não há caminho de volta (de abril de 2014) condensa esse argumento numa só imagem: a da restauração malsucedida do Ecce Homo de Elías García Martínez, usada por Land para ridicularizar qualquer tentativa de “restauração” política; Reaceleracionismo (também de 2014) retoma a distinção entre aceleracionismo de direita e de esquerda — Land acusa o segundo de querer usar a velocidade sem aceitar o colapso que ela implica.

Lidos em conjunto, esses textos mostram a arquitetura de um pensamento que é simultaneamente sofisticado e perigoso. Land é um filósofo torto que elaborou, com rigor conceitual, uma justificativa para o colapso das instituições democráticas como condição evolutiva. Entender Land, voltamos a dizer aqui, é uma tarefa política e necessária para os tempos de hoje. Silveira, que é pesquisador em Comunicação e vem há anos mapeando esse terreno, oferece ao leitor brasileiro acesso a materiais antes inacessíveis, com notas críticas que contextualizam o que se lê. O projeto de tradução é complementado por outros textos em seu Medium, incluindo a tradução da matéria da New Yorker que perfila o retorno de Land ao mainstream do Vale do Silício; a crítica de Mikey Downs à obra de Land (“A tese fundamental de Nick Land é que o capitalismo é inteligência artificial”); e textos de outros autores no campo neorreacionário, como o russo Alexander Dugin, “filósofo de Putin” e Peter Thiel, além de alguns nomes ligados ao aceleracionismo, como Reza Negarestani. Bem vindos ao campo minado.

Ilustração criada em 1899, imaginando como os alunos aprenderiam no ano 2000. (De Jean-Marc Côté / Getty Images)

_ “O socialismo após a IA” (Jacobin Brasil / Blog da Boitempo)

Em dezembro de 2025, a Jacobin Brasil publicou este ensaio de Evgeny Morozov, republicado pela Boitempo em 2026, que vai além da crítica habitual às big techs. Morozov questiona diretamente a tradição socialista: seria possível simplesmente “reaproveitar” as tecnologias do capitalismo — incluindo a IA — em um projeto de emancipação? Ou a tecnologia carrega em si os valores e desejos do contexto que a gerou? Dialogando com Aaron Benanav, o autor defende que o socialismo precisa ser capaz de oferecer não apenas distribuição mais justa do que o capital produziu, mas uma forma de vida distinta. Algo que realmente valha desejar. Para sustentar o argumento, Morozov examina a proposta de Aaron Benanav de uma “economia multicriterial” pós-capitalista — e encontra ali, apesar da sofisticação, o mesmo pressuposto que critica: a de que os fracassos históricos do socialismo foram falhas de procedimento, solucionáveis com mais democracia e melhores critérios. Mas se a IA, como Morozov argumenta, não é uma ferramenta neutra que pode ser simplesmente redirecionada — se ela cristaliza, em sua própria arquitetura, os valores e os desejos do capitalismo que a gerou —, então não basta reformar as instituições: é preciso repensar o que queremos produzir, como queremos viver e quais tecnologias são compatíveis com isso. O socialismo, nessa leitura, não pode ser apenas capitalismo com painéis de controle mais sofisticados. Morozov diz que a tradição de esquerda tem sido historicamente tímida ao questionar as tecnologias que promete apenas redistribuir. Em um momento em que a narrativa dominante sobre IA oscila entre o entusiasmo de quem quer acelerá-la e o reformismo de quem quer regulá-la, a pergunta de Morozov — que forma de vida essa tecnologia produz? — é a que mais importa e a que menos se ouve. Ele afirma:

“Um socialismo digno da IA ​​não pode retroceder a uma divisão de trabalho simples, na qual a política decide e a tecnologia provê. Ele precisa reconhecer a tecnologia como um espaço primordial de autoformação coletiva. A questão não é abandonar a composição democrática de critérios, nem romantizar o caos. Trata-se de construir instituições que tratem a existência coletiva como um campo de luta e experimentação — um campo onde novos valores, novas habilidades e novas formas de viver estão constantemente se moldando. (…) Isso significa aceitar a impureza não apenas como um princípio de design, mas como uma condição existencial. Em vez de imaginar uma economia perfeitamente funcional complementada por um Setor Livre isolado, precisamos de arranjos permeáveis ​​nos quais experimentos circulem entre as esferas, às vezes colidindo com as métricas oficiais, às vezes reformulando-as. As instituições não apenas equilibrariam os critérios; elas deixariam espaço para projetos rebeldes que ainda não se encaixam em nenhuma métrica reconhecida e que talvez nunca se encaixem”.

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Tocaia por aí https://baixacultura.org/2026/03/30/tocaia-por-ai/ https://baixacultura.org/2026/03/30/tocaia-por-ai/#respond Mon, 30 Mar 2026 17:34:56 +0000 https://baixacultura.org/?p=16011

Realizamos um Encontros Tocaia na sede da SobInfluencia, na Galeria Metrópole, centro de São Paulo, no dia dia 20/03 (imagem acima). Foi uma conversa aberta para pensar os tremores do nosso presente: o que significa hoje a forma política de uma prática radical? como sustentar um estudo coletivo, clandestino, desalinhado, antagonista e que seja também uma forma de vida?

A conversa é uma extensão dos debates propostos pela revista impressa e teve a participação de Acácio Augusto, Jean Tible, Bru Ferreira e Caio Netto. Entre outros temas, guardei umas falas de Acácio: “como sustentar um espírito coletivo, clandestino, desalinhado, antagonista, e que seja também uma forma de vida? Justamente: não dar uma forma política a uma prática radical é apostá-la como uma forma de vida, em que a prática radical não é uma excepcionalidade. Esse estudo coletivo clandestino precisa, primeiro, sempre ser feito à maneira de um diagnóstico — e não de um receituário, nem de uma profilaxia. Como qualquer pessoa que já fez uma consulta médica sabe, um diagnóstico é sempre provisório. Segundo, esse estudo/diagnóstico precisa ter sempre forma paródica, ou seja, mostrar o ridículo das solenidades. A gente precisa insistir — para dar um exemplo muito caricato — que o Trump é ridículo, que o Bolsonaro é ridículo. A gente precisa ser capaz de produzir um pensamento que, diante do soberano como bufão, parodie esse soberano.

“Terceiro e último: o tipo de pesquisa que invista de forma demolidora na verdade estabelecida, a favor de reintroduzir o discurso no campo da luta — ou seja, tudo aquilo que parece pacificado, que o direito já abençoou, precisa ser agitado por essa pesquisa. É preciso apontar: olha, aqui, onde parece haver um acordo, no fundo há uma luta reencenada. A forma que proponho — no sentido de que compartilho com as pessoas — seria o que gosto de chamar de uma antipolítica da abolição. Ou seja, o mundo não está precisando de novas coisas, nem de novos programas, nem de novas ideologias. A gente precisa operar num processo de desativação dos dispositivos, num processo de subtração. E se eu fosse tomar como exemplo a frase dos anarquistas gregos de 2008 em Atenas — “Nós somos uma imagem do futuro” —, eu diria que a imagem do futuro é a subtração. É isso: trabalhar na abolição disciplinada dos dispositivos.”

Por falar em Tocaia, de dezembro (lançamento da revista) até abril, tivemos mais alguns textos publicados somente online. O primeiro, de Allan de Campos, parte do bloqueio ao terminal da Cargill em Santarém pelos povos do baixo Tapajós para construir uma análise estrutural do agronegócio da soja: seus oligopólios transnacionais, seu financiamento público pelo BNDES, e os seus impactos sanitários devastadores — da contaminação por agrotóxicos às malformações congênitas, da dengue resistente à destruição dos territórios indígenas. O texto recusa o enquadramento da luta indígena como “excepcionalidade” e propõe entender a cosmopolítica dos povos do rio como materialismo radicalmente vivo, capaz de nomear o inimigo com mais precisão do que muita teoria urbana consegue.

O segundo texto, de Paul B. Preciado (publicado no Libération e traduzido para o Tocaia), e o terceiro, de Alana Moraes, se articulam de forma complementar em torno de uma pergunta urgente: de onde vem a aceleração que desorienta o presente e quais formas de resistência ela exige? Preciado rastreia a metodologia da aceleração nos textos de Nick Land e mostra como o aceleracionismo niilista de Land, passando pelo “Iluminismo Sombrio” e pelo hiper-racismo, tornou-se a filosofia prática de Trump, Vance, Musk e Bannon.

No terceiro texto, Alana Moraes, por sua vez, recusa o “pensamento crítico” como nova lança heróica e propõe outra forma de fazer política: a da bolsa e do cesto, das histórias coletivas, das tramas multiespécie — das mães que perdem filhos ao zapatismo, da Revolução Haitiana aos metalúrgicos do ABC. Contra as ficções do sujeito universal e da totalidade revolucionária, ela aposta nas autonomias que se tramam no chão dos territórios: “O que a luta dos povos e de todas as dissidências nos ensinam é que não há nada mais anti-revolucionário e conservador do que a reivindicação pela totalidade e suas instâncias de organização. Proclamar a vitória de “um só mundo” contra todos os outros é justamente o que tem feito o consórcio Estado-Capital, uma movimentação que só pode prosperar, entretanto, a partir de seu arsenal racial-colonial. Quem diz “um só mundo” precisa também dizer qual o mundo que realmente vale e quais os outros que precisam deixar de existir”.

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Estudo, espreita e experimentação: Tocaia https://baixacultura.org/2025/12/17/estudo-espreita-e-experimentacao-tocaia/ https://baixacultura.org/2025/12/17/estudo-espreita-e-experimentacao-tocaia/#respond Thu, 18 Dec 2025 01:16:04 +0000 https://baixacultura.org/?p=15981 2025 só acaba quando termina: 19 de dezembro, na Ocupação 9 de julho (São Paulo), nasce uma revista e um coletivo

 

“Tocaia nasce como erva-daninha entre cultivos acidentais e gestos mais ou menos intencionais, perseguindo todo rastro de presença desobediente nos interstícios das grandes árvores soberanas: ali por onde rastejam as pequenas criaturas, os movimentos imprevisíveis, as associações impróprias, as pequenas antenas que antecipam grandes precipitações. É toca: arranjo sociotécnico estratégico de uma forma de habitar cuja fronteira entre interior e exterior opera como uma interface sensível – o dentro e o fora em constante relação transformativa . É também um estado de presença que espreita o inimigo ao mesmo tempo em que estuda a melhor forma de ataque diante daquilo que cada situação exige. Uma pequena ecologia aberta ao indeterminado, obstinada em conjurar qualquer perspectiva totalizante e transcendental, mas confiante na ação da partilha e na escala da polinização.

Tocaia é tanto um chamado como um gesto que cultiva a atenção a tudo que nos cerca; uma forma de habitar que não dispensa a hipótese do contra-ataque. Por isso propomos investigar os caminhos por meio dos quais seria possível reconhecer os bloqueios e as capturas que governam nosso tempo e imaginação. Mapear os inimigos sem abrir mão daquilo que nos torna capazes de agir. Tateando pistas dentro de uma névoa densa e com pouca visibilidade, nos perguntamos: quais formas de vida ainda estamos dispostos a criar e defender? Mckenzie Wark chama de baixa teoria (low theory) a prática de fazer teoria junto de um movimento, um co￾letivo, um estudo compartilhado, uma pequena conspiração. É a baixa teoria que nos move aqui.

Neste primeiro número, convocamos uma conversa aberta sobre o pensamento radical e os horizontes de transformação diante da aceleração da catástrofe planetária e tecnológica-informacional, produzida pelo ambiente digital-cibernético em que estamos imersos. Espreitamos a expansão da Megamáquina colonial, suas infraestruturas, códigos e artefatos, seus novos discursos tecnológicos e velhas formas de governar modulam a atenção, os regimes de sensibilidade, os engajamentos afetivos, as formas estéticas radicais. Trinta anos após a explosão da internet comercial, nossos sonhos de liberação foram capturados por novas formas de extração, vigilância e controle. A possibilidade da comunicação distribuída não é mais um problema; o que parece como pesadelo é a comunicação permanente, o ritmo que nos faz pulsar a batida do Capital de modo incessante, nos tornando disponíveis para ela. A máquina está em nós.

Se o capitalismo não teme a crítica, o que ainda pode sabotar seu funcionamento material, libidinal, maquínico? Não seria, então, possível pensar que nossa urgência não está em um programa ou em um novo desenho de organização, mas, antes, em uma forma de sentir – uma prática de atenção ou infraestruturas de liberação do nosso tempo para fazer emergir experiências de prazer e cumplicidade para uma vida não fascista? Um materialismo profundo cuja prática é a de concatenar as forças desobedientes que animam o mundo contra os modos de subordinação e os velhos/novos hinos do poder ou da produção? Prompts indomáveis. Uma recusa às formas de inteligência reduzidas ao imperativo da eficiência. A afirmação de uma inteligência terrestre voltada ao problema de fazer perseverar à vida em toda sua interdependência, imprevisibilidade e abertura.

Tocaia é como chamamos também uma política da autonomia que investiga coletivamente as possibilidades de bifurcação no presente: quais arranjos sociotécnicos podem sustentar autonomias para além de enunciados radicais? Como escapar do regime de visibilidade narcísico e da disponibilidade total? Como seria criar formas técnicas que favoreçam territórios de interdependência multiespécie? Quais formas de vida emergem nos interstícios dos circuitos de valor do tecnocapital? Como retomar um horizonte de transformação quando a digitalização se impõe como mediação ubíqua entre nossas práticas, relações, pensamentos, desejos e imaginação? Como partir da exaustão para afirmar coletivamente o que já não podemos suportar? O que nos vincula, afinal? Com que tipo de máquina nos compomos? Que outras máquinas ainda podemos criar e habitar?”

Trecho de apresentação da revista, pelo coletivo editorial desta edição: Alana Moraes, Henrique Parra, Fernanda Bruno, Leonardo Foletto e Pedro Ekman

      

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Cultura digital não é o problema https://baixacultura.org/2025/12/10/cultura-digital-nao-e-o-problema/ https://baixacultura.org/2025/12/10/cultura-digital-nao-e-o-problema/#respond Thu, 11 Dec 2025 00:39:37 +0000 https://baixacultura.org/?p=15976 Um trecho de uma fala de Mark Fisher sobre smartphones trouxe à tona novamente o debate sobre sua obra, mas com uma interpretação um tanto equivocada. Mattie Colquhoun, fotógrafa/ escritora inglesa especialista em Mark Fisher e editora do ótimo Xenogothic, critica como as pessoas têm usado Fisher apenas para reforçar um pessimismo paralisante sobre a cultura digital, ignorando que suas críticas eram sempre direcionadas ao “ciberespaço capitalista” — não à cultura digital em si.

O texto argumenta que o problema não é o digital, mas como o capitalismo colonizou e restringiu as potencialidades da internet nas últimas décadas. Mattie relembra que a internet dos anos 2000 e início dos 2010s era mais livre e criativa, sendo apenas recentemente que se intensificou seu uso para “reforçar modos de subjetividade, dessocialização e trabalho alienado”. A resposta não deveria ser o “decrescimento digital” ou o viver offline, mas sim lutar pela reconstrução de um ciberespaço emancipatório.

Como explica Mattie:

“É claro que a Internet nunca foi uma utopia, mas devemos ao menos estar conscientes da maneira pela qual seus potenciais foram ativamente restringidos por uma classe de bilionários com medo da livre circulação de informação. A resposta a isso, no entanto, não é a retirada; assim como a retirada da sociedade em geral também não é possível (ou desejável) offline. O que buscamos escapar são as Leis de Cercamento Digital de vários governos; devemos redirecionar nossa atenção para as forças que moldam várias estruturas de sentimento, em vez de tomar esses sentimentos como “verdades” puras e subjetivas”.

Em ‘Touchscreen Capture‘ — um ensaio publicado na sexta edição da noon, revista sul-coreana de arte contemporânea, dedicada ao tema do ‘pós-online’, em 2016 — Mark Fisher diz:

uma armadilha colocada pelo capitalismo comunicativo é a tentação de recuar da modernidade tecnológica. Mas isso pressupõe que o bombardeio frenético de atenção é a única modernidade tecnológica possível, da qual só podemos nos desconectar e nos retirar. O realismo capitalista comunicativo age como se a coletivização do desejo e dos recursos já tivesse acontecido. Na realidade, os imperativos do capitalismo comunicativo obstruem a possibilidade de comunização, usando o ciberespaço realmente existente para reforçar os modos atuais de subjetividade, dessocialização e trabalho árduo”.

O texto (de Mattie) fecha alertando que Fisher pensava no que fazer a respeito, não apenas em lamentar. A cultura digital jovem, especialmente a que emergiu durante a pandemia, “nativas digitais, profundamente imersas em suas maquinações”, oferece vislumbres de outras possibilidades – ainda que não saibamos exatamente quais hoje, em 2025. O recado final de Colquhoun é importante: “Mark foi o primeiro grande pensador da era digital, com a maior parte de seus escritos permanecendo online. Ele nunca pensou que a cultura digital era em si o problema, cancelando lentamente o futuro; o capitalismo é o responsável pelas crises digitais do presente, e sua reivindicação de monopólio sobre a digitalidade é um desenvolvimento recente, embora Mark tenha previsto isso com grande clareza. Mas suas críticas eram apenas um diagnóstico; não uma prescrição. Ele pensou muito sobre como responder, e imagino que ele teria odiado ver seu trabalho se tornar um fardo barato para a impotência reflexiva contra a qual ele lutou por duas décadas”.

Ao final, Mattie lembra, defendendo Fisher: the problem isn’t ‘digital culture’; the problem is capitalism.

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O cadáver do aceleracionismo https://baixacultura.org/2025/11/21/o-cadaver-do-aceleracionismo/ https://baixacultura.org/2025/11/21/o-cadaver-do-aceleracionismo/#respond Fri, 21 Nov 2025 18:23:50 +0000 https://baixacultura.org/?p=15964 Benjamin Noys, que cunhou o termo “aceleracionismo” há mais de dez anos, escreveu um interessante balanço sobre o destino desse “movimento”, texto publicado no E-flux em novembro de 2025 (e que é o prefácio da nova edição de seu livro “Malign Velocities: Accelerationism and Capitalism“. Noys questiona por que revisitar o cadáver do aceleracionismo, já que o movimento parece ter se esgotado como vanguarda. Ele observa que “o aceleracionismo, se morto, permanece como um espectro assombroso presidindo sobre a paisagem cultural”, uma vez que as questões sobre o papel da tecnologia na cultura e na mudança política não desapareceram. Em suas palavras (tradução minha):

“Se o aceleracionismo é um movimento de vanguarda, na mesma linha do Futurismo, então, como muitos desses movimentos, ele parece ter se esgotado. Isso não é necessariamente algo a ser lamentado, mesmo por aqueles que o abraçaram. Os futuristas italianos viam seu movimento da velocidade como algo que deveria se tornar obsoleto pelas forças que eles desencadearam. De um ponto de vista cultural e político muito diferente, Guy Debord, líder dos Situacionistas nos anos 1960 e 70, pensava que o papel das vanguardas era desaparecer uma vez que seu trabalho estivesse concluído. O pró-aceleracionista poderia até argumentar que o aceleracionismo cumpriu seus objetivos, colocando os debates sobre tecnologia e mudança no centro das discussões, e agora pode deixar o campo com honra”.

Noys argumenta que, embora as paixões do momento aceleracionista tenham esmaecido e as plataformas que sustentaram seus debates (blogs e Twitter) tenham decaído, os debates sobre IA e grandes modelos de linguagem mostram que as questões permanecem urgentes. As redes sociais de hoje — dominada por bots, memes, IA e monetização — perderam sua carga utópica, deixando para trás uma cena mais esparsa e mais corrosiva. O fracasso do aceleracionismo em persistir no momento atual revelaria, segundo Noys, sua “falta de engajamento crítico com a tecnologia”. O que, por sua vez, levanta a questão de como devemos nos engajar com a tecnologia, seus potenciais e seus perigos, algo que de fato não parece consistente nos aceleracionistas, mas em espaços de ativismo como o nosso, guiados por princípios de transparência, software livre e redes distribuídas, sim.

O que parece estar claro, hoje, é a persistência do aceleracionismo de direita. Como comentamos neste post, a visão do aceleracionismo de direita (o agora chamado “aceleracionismo eficaz”, é usar a tecnologia para sustentar e espalhar a consciência humana (ou o que quer que substitua essa consciência) por todo o universo. Diz Noys: “tomando emprestadas ideias de Nick Land e da ficção científica, o e/acc quer criar o desenvolvimento desregulado da tecnologia, especialmente a inteligência artificial, para nos permitir transcender o que William Gibson chamou de “a carne”. Aqui podemos ver que o aceleracionismo converge com o mercado capitalista, e a noção distópica das corporações como seres sencientes emergentes, encontrada em Gibson, é invertida na promessa de um futuro radicalmente novo”.

Noys afirma que, mais uma vez, o Futurismo italiano pode oferecer um aviso salutar sobre o destino do movimento aceleracionista. O fato de que o Futurismo foi um movimento cultural heterogêneo – com suas tendências niilistas, anarquistas e proto-fascistas – obscurece o compromisso central de uma política estética do mito, que transforma a tecnologia de uma realidade social em uma força mítica. Diz Noys: “A necessidade de entender a tecnologia, e especialmente o controle da tecnologia (o que costumava ser chamado de “controle dos meios de produção”), corre o risco de desaparecer em um movimento que só oferece a pseudo-solução de se fundir com a tecnologia”.

Analisar o aceleracionismo é entender o que tem acontecido nos últimos dez anos, especialmente na discussão tecnopolítica. Noys afirma, e nós concordamos, que foi um movimento muito restrito, desconhecido por grande parte das pessoas – apenas um ponto minúsculo em relação a todas as questões e forças reais que moldaram esses anos. Mas, continua ele, “as formas como o aceleracionismo reencenou gestos do passado, ao mesmo tempo que prometia novos futuros tecnológicos utópicos para a era das redes sociais, ainda me parecem reveladoras. Ele representou algo das forças e trabalhos reais e sua expressão ideológica neste período. Se precisamos, como Hegel sugeriu, de compreender o nosso próprio tempo em pensamento, isso inclui entender onde podemos pensar que ele se desviou. É por isso que ainda acho que vale a pena traçar as velocidades malignas do aceleracionismo e as suas mutações”.

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Colonialismo digital: a nova fronteira da dependência latino-americana https://baixacultura.org/2025/11/07/colonialismo-digital-a-nova-fronteira-da-dependencia-latino-americana/ https://baixacultura.org/2025/11/07/colonialismo-digital-a-nova-fronteira-da-dependencia-latino-americana/#respond Fri, 07 Nov 2025 13:22:05 +0000 https://baixacultura.org/?p=15954  

Publicamos, eu e Joana Varon (Coding Rights) um artigo breve no Le Monde Diplomatique sobre os desafios do colonialismo digital na América Latina. É um texto mais de incidência política no debate brasileiro, que levanta preocupações (geopolíticas e ambientais, principalmente) e propõe alguns caminhos para que possamos pensar em uma autonomia (ou soberania; não problematizamos estas duas definições por hora) digital concreta, a partir de políticas públicas mas também de atuação nas comunidades. Republicamos aqui abaixo na íntegra.
[Leonardo Foletto]
llustração da capa: Giovanna Joo, Tramas Digital

 

A rotina digital de milhões de latino-americanos começa e termina em servidores estrangeiros. WhatsApp, Instagram, Gmail, ChatGPT: cada interação alimenta um sistema de extração sistemática de dados que enriquece corporações do Vale do Silício enquanto aprofunda nossa dependência tecnológica. Não se trata apenas de conveniência: estamos diante de uma nova etapa do colonialismo, agora operando através de cabos de fibra ótica e algoritmos.

Esse processo de extrativismo e exploração dos nossos dados gerados pelas interações cotidianas em serviços em sua maioria de big techs dos Estados Unidos tem sido chamado de colonialismo de dados. No Brasil, os números são expressivos: cerca de 134 milhões de usuários ativos do Instagram, 160 milhões no WhatsApp e 140 milhões de mensagens diárias enviadas ao ChatGPT – somos o terceiro país que mais usa essa ferramenta no mundo em 2025, segundo dados da OpenAI. O colonialismo, como se sabe, não é um período histórico que acabou, mas um sistema de dominação que continua operando no presente, tanto por práticas extrativistas, como pela maneira como formas de conhecimento, corporalidades e territórios diferentes da visão daqueles que tentam dominar são inferiorizados. Nesse sentido, tendemos a estender o conceito de colonialismo de dados para a ideia de colonialismo digital, porque o colonialismo, aqui, vai além de dados: ele se manifesta na extração de minérios para dispositivos tecnológicos, no consumo predatório de água e energia para datacenters, na precarização do trabalho de moderação de conteúdo no Sul Global, na imposição de valores corporativos através de algoritmos que decidem o que merece visibilidade, entre outras tentativas de submissão.

Nesse modelo, o futuro da humanidade no planeta também fica ameaçado. A visão colonialista dá motivos para que CEOs das big tech se alinhem cada vez mais com lideranças da extrema direita nos Estados Unidos e fechem contratos com a indústria militar, acumulando cifras a cada vez que uma guerra eclode, além de usar territórios em conflito como laboratórios para testar, sem qualquer limite ético, novas tecnologias de vigilância e controle. Olhando o mundo como território de conquista, as infraestruturas dessas empresas têm expandido suas buscas justamente para regiões já vulnerabilizadas por crises ambientais. Mas, para as big tech, mudanças climáticas também são vistas como oportunidade de negócio, pois propagam o tecnosolucionismo – a crença de que as tecnologias resolvem tudo, inclusive a crise ambiental, sem considerar que a expansão das IA no modelo de colonialismo digital também gera conflitos socioambientais.

No Brasil, embora tenhamos legislações de proteção de dados (como a LGPD, em vigor desde setembro de 2020) e projetos de leis para regular IAs em estado avançado de tramitação (o PL 2338/2023, aprovado pelo Senado em dezembro de 2024, agora na Câmara dos Deputados), nossa infraestrutura física permanece majoritariamente controlada por corporações estrangeiras. E agora ainda se quer oferecer incentivos para que esse cenário permaneça. O governo brasileiro ofereceu, através da Medida Provisória 1.318/2025, incentivos fiscais visando atrair datacenters – sem contrapartidas efetivas de transferência tecnológica ou garantias sólidas de que não vamos virar apenas um quintal de datacenters para as big tech estrangeiras.

Projetos de mega datacenters avançam em estados como Rio Grande do Sul, São Paulo e Ceará com isenções generosas, sem debate público adequado sobre seus impactos ou benefícios. Um único datacenter de grande porte, como o proposto para Eldorado do Sul – uma das cidades mais atingidas pelas enchentes no Rio Grande do Sul em maio de 2024 – pode consumir água equivalente a uma cidade de 50 mil habitantes e energia para dezenas de milhares de residências. Em Caucaia, no Ceará, onde a TikTok pretende instalar mega estrutura que gastará 30 mil litros de água por dia, moradores, puxados pelos indígenas Anacé, se mobilizam contra os impactos ambientais e sociais dessa infraestrutura, para questionar por que a água chega para as empresas escolhidas pelo governo cearense e fica só na promessa para as comunidades, como revelou a repórter Laís Martins no The Intercept Brasil.

Esse modelo extrativista configura uma dupla pilhagem: extraímos recursos naturais e dados brutos, enquanto o processamento, a análise e o desenvolvimento de inteligência artificial – o valor agregado – permanecem concentrados no Norte Global. A questão da IA agrava esse cenário de dependência. Com datacenters multiplicando-se exponencialmente, uma questão urgente segue sem resposta: afinal, precisamos mesmo dessa IA para tudo aquilo que nos dizem que precisamos?

A América Latina, ansiosa por atrair megaprojetos estrangeiros, tem sofrido bastante. Querétaro, no México, pela proximidade com os Estados Unidos, é um território explorado com essa finalidade já há alguns anos, com resultados catastróficos. Por outro lado, a região tem sido também exemplo de resistência, onde geógrafas, cientistas de dados, jornalistas e movimentos de defesa do território se unem para demandar ações de políticas públicas. No estudo “Não é seca, é saque: Querétaro, o vale dos centros de dados”, muitas dessas estratégias de resistência são narradas.

Países como China, Rússia, Índia e nações europeias têm construído legislações e infraestruturas próprias, como demonstram estudos em “Economia Política de Dados e Soberania Digital: conceitos, desafios e experiências no mundo”, publicados pelo centro Celso Furtado. A China, por exemplo, colocou em prática em 2017 sua Lei de Segurança Cibernética exigindo localização de dados em território nacional, enquanto a Índia expande agressivamente sua infraestrutura de datacenters próprios. O Brasil tem potencial para buscar soberania tecnológica, alinhada com outros valores, como governança democrática, gestão comunitária e promoção de infraestruturas autônomas. Modelos alternativos existem, baseados em dados curados comunitariamente, infraestruturas descentralizadas e federadas. Há, também, exemplos de desenvolvimentos de IA nesse sentido, como os liderados pela cientista da computação Timnit Gebru – que saiu do Google justamente por questionar a ética da empresa – que estão no policy briefing “Fostering a Federated AI Commons Ecosystem”, destinado inicialmente ao G20 que aconteceu no Brasil. Essas alternativas, porém, não recebem o mesmo investimento nem visibilidade midiática que as soluções corporativas.

Acreditamos que construir autonomia digital demanda três frentes articuladas. Primeiro, uma política que incentive datacenters públicos e cooperativos, geridos por consórcios de municípios ou estados, que operem sob controle democrático – com participação de conselhos gestores incluindo universidades, movimentos sociais e representantes de comunidades afetadas – e transparência total sobre uso de recursos hídricos e energéticos, que não apenas atraia Google, Amazon e Microsoft com benefícios fiscais como tem sido feito hoje. Segundo, fortalecer redes nacionais como a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), que desde 1989 demonstra a viabilidade de infraestrutura pública conectando mais de 1.500 campi e instituições em todos os estados, beneficiando milhares de alunos, professores e pesquisadores. A RNP já oferece serviços de nuvem para universidades e poderia ser expandida para governos municipais, escolas e organizações sociais, investindo em infraestrutura realmente pública, sem ceder dados e gestão às big tech. Terceiro, marcos regulatórios que condicionem operações estrangeiras à transferência efetiva de tecnologia – não apenas montagem de equipamentos, mas capacitação técnica avançada e desenvolvimento de componentes nacionais –, respeito à jurisdição nacional e políticas ambientais rigorosas com metas mensuráveis de consumo hídrico e energético.

No entanto, falar em autonomia tecnológica não se resume a ter servidores em território nacional. Significa desenvolver, manter e evoluir nossas próprias soluções tecnológicas. O pix é um exemplo exitoso, que nos livrou de ter grandes volumes de dados sobre transações monetárias da população geridos pela Meta, via Whatsapp pay, que estava por ser lançado na mesma época. O Brasil tem tradição em software livre e redes de pesquisa e desenvolvimento em ciências da computação com mentes brilhantes – seria importante ter desenvolvimento local para que o sonho dessas pessoas não seja apenas ir trabalhar para uma big tech como acontece hoje. Autonomia tecnológica significa expandir essas iniciativas e plataformas cooperativas com fomento público consistente. Bancos públicos como Banco do Brasil e Caixa Econômica poderiam condicionar financiamentos à adoção de tecnologias abertas. Significa também que comunidades – indígenas, quilombolas, periféricas – possam decidir sobre coleta e uso de dados em seus territórios, revertendo a lógica extrativista. Significa democratizar o poder sobre a infraestrutura tecnológica.

Portanto, a construção de alternativas ao colonialismo digital na América Latina exige articulação regional, troca de experiências de resistência e recusa da narrativa de que nossa dependência das big tech é inevitável. A autonomia tecnológica precisa ser conquistada com organização popular, investimento público estratégico e clareza de que tecnologia é, fundamentalmente, uma disputa de poder.

 

Joana Varon é fundadora e diretora da Coding Righs, entidade integrante da Coalizão Direitos na Rede.

Leonardo Foletto é professor/pesquisador na ECA-USP e integrante do Creative Commons Brasil, entidade integrante da Coalizão Direitos na Rede

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Informática do Oprimido – conversa com Rodrigo Ochigame, Paola Ricaurte, Rafael Grohmann e Leonardo Foletto https://baixacultura.org/2025/10/15/informatica-do-oprimido-conversa-com-rodrigo-ochigame-paola-ricaurte-rafael-grohmann-e-leonardo-foletto/ https://baixacultura.org/2025/10/15/informatica-do-oprimido-conversa-com-rodrigo-ochigame-paola-ricaurte-rafael-grohmann-e-leonardo-foletto/#respond Wed, 15 Oct 2025 18:31:55 +0000 https://baixacultura.org/?p=15943  

No dia 1 de outubro de 2025 reunimos Rodrigo Ochigame (Universidade de Leiden), autor de “Informática do Oprimido”, junto com Paola Ricaurte (Tecnológico de Monterrey), Rafael Grohmann (Universidade de Toronto) e Leonardo Foletto (Universidade de São Paulo) para discutir o livro, publicado pela Funilaria em parceria com Baixa Cultura neste 2025. O diálogo explorou as experiências históricas de informática na América Latina – desde a biblioteconomia revolucionária cubana até as redes de intercomunicação da teologia da libertação – e suas conexões com as lutas contemporâneas por infraestruturas digitais mais democráticas e justas. Abordamos também questões de memória, documentação, soberania digital e a urgência de imaginar e construir alternativas tecnológicas a partir do Sul Global.

Segue uma transcrição editada do papo, que pode ser visto na íntegra aqui abaixo no Canal do DigiLabour, coordenado por Rafael.

 

Rafael Grohmann: Boa tarde, bom dia a todo mundo que acompanha o canal do DigiLabour. Meu nome é Rafael Grohmann, sou professor da Universidade de Toronto. Estamos aqui hoje em português e espanhol para falar sobre o livro “Informática do Oprimido“, do Rodrigo Ochigame, professor da Universidade de Leiden, publicado pela editora Funilaria em parceria com Baixa Cultura. Estamos aqui para conversar com Rodrigo junto com Leonardo Foletto, professor da Universidade de São Paulo e editor do Baixa Cultura já há 17 anos, e a professora Paola Ricaurte, do Tecnológico de Monterrey. Nós quatro somos também integrantes da rede Tierra Comúm e temos feito um trabalho coletivo muito bom.

O livro “Informática do Oprimido” nasce do ensaio que Rodrigo escreveu para a Logic Magazine em 2021, chamado “Informatics of the Oppressed“, e ganhou uma edição nova, atualizada e ampliada, com toda uma parte nova sobre pensar o futuro. Acho que é um livro que conecta o passado da América Latina, muitas vezes invisibilizado, e conecta com possibilidades de futuro.

Vou passar a palavra pro Léo comentar um pouco sobre essa coleção e sobre o livro, e depois a gente passa pro Rodrigo.

Leonardo Foletto: Boa tarde, boa noite, bom dia, dependendo do lugar onde a gente está. Prazer estar aqui com vocês, muito boa companhia com Rodrigo, Paola e Rafa.

Queria comentar um pouquinho sobre como nasceu a ideia desse livro e da coleção também. “Informática do Oprimido” é o segundo livro da coleção Âncoras do Futuro, da Baixa Cultura, que é um projeto que eu mantenho há 17 anos – ano que vem vai completar a maioridade. Temos um selo editorial e publicado livros ao longo dos últimos 5-6 anos. Propusemos essa coleção junto com a editora Funilaria, que é uma editora aqui de São Paulo, para publicar livros que discutem de alguma forma esse mal-estar que temos com os rumos que a internet tomou nos últimos anos, especialmente a partir da plataformização.

Digo “nós”, ativistas da cultura do conhecimento livre, do software livre, que há muito tempo discutem e trabalham na internet e percebem o quanto a internet se transformou ao longo desses últimos anos. O primeiro livro que publicamos dessa coleção se chama “Extinção na Internet“, do Geert Lovink, professor e pesquisador holandês, diretor do Institute of Network Cultures em Amsterdam. O segundo é esse, “Informática do Oprimido”, do Rodrigo.

Conhecemos o livro a partir do ensaio inicial que foi traduzido pelo DigiLabor, pelo Rafa, e foi publicado no site do DigiLabour. Quando fomos olhar os textos que gostaríamos de publicar para essa coleção, eu e Caio Valiengo (Funilaria), que somos editores da coleção, nos deparamos com esse texto e pensamos: “acho que ele tem tudo a ver com essa discussão”, também com essa ideia de trazer uma perspectiva do Sul Global, latino-americana, sobre os rumos da internet.

Fomos atrás do Rodrigo, conversamos bastante, pegamos o texto inicial, demos uma editada, e Rodrigo escreveu uma segunda parte do livro com propostas mais concretas para a construção de perspectivas mais justas para a internet. Eu e Caio escrevemos a apresentação do livro e acabamos também trazendo alguns outros casos de perspectivas que nos fazem tentar imaginar outras possibilidades da tecnologia, especialmente da América Latina. Trouxemos casos como o Cybersyn no Chile, que é um dos casos discutidos frequentemente por quem trabalha na discussão tecnopolítica.

O livro foi lançado agora em junho aqui no Brasil, primeiramente na Flipei, que é a Feira Literária Pirata das Editoras Independentes organizada aqui em São Paulo, que foi um sucesso de público. Inclusive Rodrigo esteve presente em pelo menos uns três lançamentos aqui em São Paulo, na Flipei, na Tapera Taperá e em outros locais. Aproveitamos a estada dele no Brasil para fazer essa circulação do livro. Queremos agora também aproveitar a presença de todo mundo aqui para fazer um debate sobre algumas das ideias do livro.

Rafael Grohmann: Excelente, obrigado Léo. Agora passo a palavra pro Rodrigo para comentar um pouco sobre o livro e também, se quiser, sobre os debates em São Paulo, como foram, para quem não esteve por lá.

Rodrigo Ochigame: Olá, boa tarde a todo mundo. É um grande prazer estar aqui em conversa com pessoas cujo trabalho me inspira bastante. Vou falar um pouco do livro para o início da conversa.

Como o Léo comentou, o livro tem duas partes principais. Uma delas é um ensaio histórico sobre a história da informática na América Latina. A segunda parte é mais propositiva e contém algumas propostas mais concretas para os dias de hoje, para infraestruturas digitais mais democráticas.

Na parte histórica, o que quis fazer foi recuperar algumas experiências latino-americanas que me pareceram bastante inspiradoras e relevantes para debates que temos nos dias de hoje, por exemplo sobre regimes de visibilidade regulados por algoritmos. Esse ensaio discute como dois movimentos sociais latino-americanos – o socialismo cubano e a teologia da libertação – inspiraram alguns experimentos com informática entre as décadas de 60 e 80.

Após a revolução cubana em 1959, o novo governo nomeou uma bibliotecária chamada Maria Teresa Freire de Andrade para ser a nova diretora da Biblioteca Nacional José Martí em Havana e também para liderar o planejamento do sistema de bibliotecas e da infraestrutura de informações na Nova Cuba. Ela tinha sido uma dissidente política, tinha sido exilada por regimes autoritários anteriormente, e há muito tempo defendia o que ela chamava de uma biblioteconomia popular. Ela queria criar bibliotecas que participassem ativamente de um processo de conscientização política.

No processo revolucionário, nos primeiros anos da revolução, uma das coisas que ela e a equipe dela fizeram, por exemplo, foi criar Bibliobus – que eram ônibus que serviam como bibliotecas móveis – para tentar levar livros a partes de Cuba que nunca tinham tido nenhuma biblioteca antes. Outra preocupação que essa equipe teve foi tentar repensar que tipo de materiais são incluídos e excluídos das coleções das bibliotecas. Por exemplo, fizeram um esforço grande em tentar recuperar, preservar e indexar materiais da imprensa clandestina revolucionária da década de 50.

Todo esse pensamento revolucionário sobre bibliotecas acabou influenciando a forma que tomou o novo campo de ciência da informação em Cuba a partir da década de 60, que foi a década em que esse campo da ciência da informação, ou da informática como era chamado em alguns países, foi institucionalizado. Quando você lê alguns dos trabalhos de ciência da informação publicados em Cuba, principalmente nesse período, você vê que esses trabalhos têm ideias, até mesmo alguns modelos técnicos, que divergem tanto da ciência da informação estadunidense quanto da soviética.

A criação de uma indústria da informática em Cuba foi um projeto muito difícil, em parte por causa do embargo comercial imposto pelos Estados Unidos a partir de 1962. As pessoas em Cuba trabalhando em informática não podiam importar computadores e também não podiam importar vários dos componentes eletrônicos que eram necessários para criar os primeiros computadores.

Uma das histórias que menciono um pouco mais brevemente no livro é que a primeira equipe que tentou criar o primeiro computador em Cuba, e foi bem-sucedida no fim da década de 60, não conseguiu comprar alguns dos componentes eletrônicos necessários na Europa por causa do embargo, mas acabou conseguindo comprar no Japão com ajuda de um militante cubano de ascendência japonesa que trabalhava como comerciante em Tóquio e apoiava a revolução.

O que me chamou muito atenção é que vários dos cientistas da informação em Cuba tentaram incorporar alguns dos seus ideais sociais e políticos até mesmo nos modelos matemáticos que eles usavam para organizar informação em bibliotecas, por exemplo. Muitos dos modelos mais comuns que vinham dos Estados Unidos ou da União Soviética tinham uma lógica de acúmulo exponencial, que eles fizeram analogia com o acúmulo de capital numa sociedade capitalista, em que os materiais que eram mais visíveis ficavam mais visíveis ainda devido à importância que os modelos matemáticos davam. É uma discussão bastante análoga às discussões que temos hoje em dia sobre regimes de visibilidade na internet e regulação algorítmica.

A outra história foi um experimento que foi inspirado pela teologia da libertação. Um movimento muito formativo na história da teologia da libertação na América Latina foi um encontro em Medellín, na Colômbia, em 1968. Foi um dos momentos-chave na formação do movimento de teologia da libertação. Os bispos que participaram desse evento ficaram muito impressionados com o tanto que aprenderam sobre experiências de luta e experiências de sistemas distintos de dominação em várias partes da América Latina e do mundo.

Isso fez com que eles quisessem continuar esse processo de aprender, de criar um diálogo internacional sobre experiências de dominação em partes diferentes do mundo. Mas eles também fizeram uma autocrítica: uma conferência internacional presencial como a que tinham feito era de certa forma excludente e reproduziu uma lógica opressiva de apenas as pessoas com mais condições materiais, as pessoas mais abastadas, poderem participar, porque comprar uma passagem aérea internacional para atender uma conferência é uma barreira muito alta de participação.

A ideia que eles tiveram foi criar o que chamaram de uma rede de intercomunicação. Como isso era antes da disponibilidade da internet, eles organizaram isso pelo correio. Montaram dois centros de difusão: um no Rio de Janeiro, no Brasil, e outro em Paris, onde muitos latino-americanos moravam no exílio.

O que faziam, como uma tentativa de tentar romper com sistemas de informação controlados – essa foi a terminologia que usaram, se referindo às práticas de censura nos regimes autoritários da América Latina na época – foi deixar em aberto para pessoas ao redor do mundo mandarem por correio textos para esses centros de difusão. As pessoas podiam mandar os textos em qualquer língua e tinham que seguir algumas regras. Por exemplo, uma regra era que o texto tinha que ser curto, tinha um tamanho máximo em palavras. Outra regra é que cada relato tinha que ser um relato ou uma análise de um sistema de dominação, mas tinha que ser escrito a partir da sua própria experiência. Você não podia falar em nome da experiência de dominação que outra pessoa sofria, você tinha que falar sobre a sua própria.

Eles faziam algumas regras e qualquer texto que seguisse as regras, eles se comprometiam a traduzir em quatro línguas diferentes e mandar pros participantes ao redor do mundo de forma gratuita. Estavam tentando criar uma rede de comunicação que tinha esse princípio, essa forma horizontal, em diálogo com o trabalho em pedagogia crítica de Paulo Freire, que era um interlocutor dessa rede.

Eles até pensavam que seria uma nova fase da pedagogia freiriana: em vez de você ter uma conscientização com intermediários, essa rede de intercomunicação poderia facilitar uma interconscientização direta entre os oprimidos. Esse projeto foi bastante ativo, recebeu muitos textos.

Um dos motivos pelo qual o livro se chama “Informática do Oprimido” é que o próprio Paulo Freire foi um dos participantes dessa rede. Junto com um grupo de educadores na Guiné-Bissau, contribuiu um texto para a rede de intercomunicação. Mais ou menos ao mesmo tempo, os primeiros trabalhos técnicos sobre o TCP – que formam a base do protocolo TCP/IP que forma a base da internet moderna – usaram frases muito parecidas: “internetwork”, “rede de intercomunicação”, quase a mesma frase.

Pouco tempo depois, esses próprios participantes começaram a refletir sobre a experiência que tiveram e a relação que esse projeto teve com a internet, e também foi parte do que quis escrever.

Um dos motivos de ter escolhido essas histórias especificamente para contar foi que tentei recuperar experiências que me pareceram particularmente relevantes a discussões que temos agora sobre regimes de visibilidade, poder, justiça na internet, principalmente na incorporação de valores sobre o que é e o que não é relevante, o que merece ou não merece ter mais visibilidade em algoritmos. Quis mostrar que existem tradições de pensamento crítico que até engajam com aspectos técnicos de organização e indexação de informações, que já existiam na América Latina desde a década de 60. Essa é mais ou menos a ideia da parte histórica.

Para o livro, também escrevi uma parte nova, completamente original – no sentido de que é um texto novo, não de que as ideias, as propostas contidas nele são necessariamente originais. Muitas delas são inspiradas tanto em experiências históricas quanto em experiências contemporâneas de movimentos sociais. São propostas mais concretas para os dias de hoje, para infraestruturas digitais democráticas.

Uma das propostas, por exemplo, é incentivos fiscais para tecnologias não extrativistas. Acho que dispositivos que têm software proprietário ou aplicativos comerciais baseados em economias de vigilância, que são impossíveis ou muito difíceis de desinstalar, ou que têm obsolescência programada, esse tipo de dispositivo teria que ser desencorajado com estruturas regulatórias e fiscais, por exemplo impostos seletivos como no caso de tabaco e álcool.

A proposta de incentivos fiscais para tecnologias não extrativistas, por exemplo baseadas completamente em software livre ou em padrões abertos, ou com desenhos modulares para facilitar o reparo e a reciclagem, deveriam ser incentivados com medidas até mesmo fiscais.

Também tem propostas sobre centros comunitários de dados, sobre cooperativas autogestionadas de software, sobre governança democrática em plataformas, sobre economia solidária em serviços digitais, sobre alfabetização digital crítica, e sobre algumas possíveis linhas de pesquisa em ciência da computação de interesse público. Tentei articular como pude algumas dessas propostas.

Principalmente depois desses eventos, debates e encontros no Brasil, em São Paulo, até penso que agora conheço várias iniciativas muito inspiradoras que gostaria de ter citado no livro, mas ainda não conhecia quando escrevi. Essa é uma das coisas muito inspiradoras para mim em estar publicando esse texto: tem me colocado em diálogo com muitas pessoas e coletivos que estão fazendo trabalhos que me inspiram bastante, que não conhecia antes. Para mim isso tem sido uma grande alegria.

Rafael Grohmann: Excelente, obrigado Rodrigo. Vou passar a palavra para a Paola começar com as suas provocações, críticas, comentários. Depois eu aviso pro pessoal que está aí no chat: mandem suas perguntas, seus comentários, que a gente vai ler daqui a pouco.

Paola Ricaurte: Bueno, en primer lugar muchísimas gracias por este espacio de conversación. Digo que los libros son un pretexto para iniciar estas conversas. Y bueno, qué privilegio tener el pretexto de este hermoso libro de Rodrigo para conversar. Agradecer siempre la convocatoria de Rafa, siempre abre esta posibilidad de entablar estos diálogos a lo largo de todo el continente y entre continentes. Creo que es un trabajo maravilloso que hace Rafa de conectarnos. Y en particular este ejercicio que quisimos hacer hoy en portugués y español, mostrando que podemos hablar en distintas lenguas pero encontrar la manera de entendernos. Creo que eso también hay que ponerlo allí.

Y bueno, también reconocer el enorme trabajo que está haciendo Leo, dos décadas promoviendo la cultura libre, y promoviendo la cultura libre en particular comprometida con el proyecto latinoamericano de pensamiento y de acción. Creo que a veces se nos olvida que llevamos mucho tiempo en esos modelos de mundo que pensamos que son los que deben ser, los justos.

Tengo algunos comentarios. Primero contar cómo conocí a Rodrigo. Conocí a Rodrigo cuando él estaba protestando entre las universidades de élite y los fondos corporativos y militares. Había habido unas semanas antes noticias acerca del papel de Kissinger, digamos, interviniendo directamente, y cómo todo este nuevo momento que estamos viviendo alrededor de la inteligencia artificial venía desde allí, desde esos fondos. Cuando yo lo escuché hablar haciendo este recuento histórico, dije: “¿quién es esta persona maravillosa?” Y bueno, desde allí le comencé a seguir los pasos, después coincidimos en otros espacios.

Pienso que Rodrigo hace un trabajo importantísimo, no solamente con este libro sino con todo el trabajo previo que Rodrigo ha hecho para denunciar estos vínculos entre el capital, el poder y la producción de conocimiento. También mostrar el valor de traer las referencias históricas al presente para que entendamos de dónde vienen las cosas que están pasando. Y creo también la otra parte que está de alguna manera explícita en la labor que hace Rodrigo es el trabajo de una academia crítica, una academia que asume la responsabilidad de denunciar estas configuraciones del poder que nos atraviesan desde lo más cotidiano, desde lo más íntimo, hasta obviamente las configuraciones macro geopolíticas.

Comenzando con esa anécdota, yo creo que este libro lo estaba esperando desde hace mucho tiempo. Desde cuando compartía Rodrigo esta idea que estaba escribiendo, luego me tocó de las maneras de la vida, por los casos que escoge, que son cercanos a mi experiencia de vida. He ido a Cuba, he ido los últimos 25 años casi cada año. He visto cómo a pesar de tener todo en contra surgen y existen proyectos. Y eso creo que nos cuestiona a las personas que estamos fuera de esos contextos.

Y luego el caso de la teología de la liberación, porque yo soy también una hija de la teología de la liberación. A mí me tocó hacer la secundaria en una escuela marcada por la pedagogía freiriana. Alfabetizaba en una iniciativa que teníamos allí de educación popular. Entonces el libro me atraviesa de muchas formas.

Pero quiero comenzar la conversación destacando dos puntos fundamentales de pensar. La información como un elemento fundamental para la constitución de poderes. Las infraestructuras de la información, los mecanismos a través de los cuales esa información fluye, quiénes controlan esos flujos y para qué propósitos sirven, siguen siendo absolutamente vigentes como Rodrigo lo muestra en este libro. Y además hoy en particular, pienso, son todavía más visibles cuando vemos regímenes autoritarios, en particular ahora, queriendo controlar estos regímenes de información. Y también asociados con una política de exportar este tech stack para que sea dominante para todo el planeta. Eso siempre ha ocurrido, pero creo que hoy en particular es mucho más visible.

Esto también permite pensar estas necesidades de pensar alternativas, de las que Rodrigo habla en el libro, para que no nos casemos con la idea de que lo que tenemos hoy es inevitable y no hay ninguna posibilidad de transformar la realidad hacia el mundo que queremos ver. Y lo veo ahí en el chat, hay personas que están participando en esas iniciativas. Veo que está Tierra Común, aquí en México, una cooperativa. Veo personas aliadas que están trabajando desde sus distintas trincheras en distintas partes del mundo, apostando por esos otros proyectos alternativos.

Que siempre digo, no es que sean sencillos, no es que sean fáciles de poner en el mundo, de mantener y de sostener. Pero están dando justamente esa pelea frente a los marcos que cada vez se cierran – los marcos financieros, fiscales, narrativos – que se cierran para apoyar esta única narrativa o este único destino manifiesto que tenemos como sociedad y también como modelo de desarrollo tecnológico.

Entonces pensar en volver a traer esa historia, creo que es importante. Poner otra vez en la mesa que ha habido siempre una disputa sobre la información, esta disputa sobre lo alternativo, que Rodrigo nos muestra con estos ejemplos. Que hay formas de articular que no pasen por las infraestructuras dominantes, que hay formas de articularse que no tienen que estar capturadas por esas infraestructuras.

Ahí voy al segundo comentario de estas intranets y vuelvo a estas redes interconectadas sin mediadores, el ejemplo de Rodrigo. Y que a mí me parecen presentes igual en el caso de Cuba, porque cuando uno va a Cuba, ha estado siempre restringida en términos del acceso a internet. Pero algo que a mí me fascinó fue la gente armando intranet, operando, compartiendo contenidos. Y bueno, haciéndolo. No eran contenidos del mundo. No, eran series, música, videos. No, hay un acceso restringido a internet. Pero la gente, a pesar de estas configuraciones en términos de conectividad e infraestructura que eran sumamente limitantes, consiguieron maneras alternativas de organizarse para compartir esos contenidos.

Y creo que ese ejemplo de Cuba del presente no ha sido tan estudiado, pero para mí siempre fue una cosa que siempre me admiró: las capacidades técnicas de la gente, sobre todo de los jóvenes, para mantenerse conectados al margen de lo que ocurriera con las infraestructuras, con internet. Me pareció fascinante.

Después lo hemos visto evolucionar, hemos visto cómo las personas también en Cuba, cuando comenzó a llegar más acceso a internet, comenzaron a instalar sus propias antenas para conectarse directamente, y que esas antenas fueran repetidoras para que personas en un barrio, por ejemplo, tuvieran acceso. Y esas eran iniciativas de personas que armaban sus antenas, o arman sus antenas todavía, de maneras que responden a esta manera de estar en el mundo en Cuba, que es “inventar y resolver”. Los cubanos siempre hablan de “inventar y resolver”.

Y que ahora veo con la crisis energética que también se ha traducido, por ejemplo, en que las personas, las familias, están instalando sus propias fuentes de energía para de alguna manera remediar los cortes de luz que están siendo tan extensos.

Con este ejemplo lo que quiero hacer es volver un poco a la idea de que en los distintos contextos que hemos vivido en América Latina ha habido una búsqueda por la autonomía y la búsqueda por alguna forma de escapar a nuestras condiciones que han sido siempre adversas para la mayoría. Y que también eso ha permitido la emergencia de un cierto sentido y una cierta conciencia sobre las posibilidades que tenemos para pensar estos proyectos alternativos.

Con estos dos ejemplos quisiera regresar con Rodrigo para seguir conversando. Y yo creo que algunas de las cosas que quisiera que recuperaras, Rodrigo, si pudieras seguir hablándonos de estas otras experiencias que a lo mejor no pudiste meter en el libro. Eso que también está presente en el prefacio, que es una frase de Paulo Freire acerca de estos inéditos viables, que contra todo pronóstico, que contra toda adversidad, siguen siendo posibles estos inéditos.

Y pienso en esto porque las personas que trabajamos con personas jóvenes creo que tenemos una responsabilidad de mostrar las posibilidades de estos otros mundos frente a la crisis de la esperanza que existe. Y bueno, Paulo Freire también habló de esta pedagogía de la esperanza. Yo creo que eso también es algo que tenemos nosotros como academia crítica, la responsabilidad de hacer. O como personas que estamos interesadas en ver estos otros proyectos prosperar: que mostremos estos inéditos viables como posibilidades y como esas grietas que se pueden ir abriendo en el sistema para estas otras formas de habitar, estas otras formas de comunicarnos, estas otras formas de producir conocimiento y desarrollar tecnología.

Entonces, Rodrigo, que nos sigas hablando.

Rafael Grohmann: Eu queria aproveitar para fazer um pequeno merchandising deste quadrinho que a gente lançou há pouco tempo. Chegou aqui em inglês para mim, tem português aí em São Paulo, em breve vai ter em espanhol, tem digital, chamado “Outros Mundos Tecnológicos São Possíveis“. Fizemos o primeiro volume com o núcleo de tecnologia do MTST, Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, e a ideia é cada volume ser um projeto diferente da América Latina para mostrar para os meus colegas gringos daqui de Toronto que tem outros mundos tecnológicos para além do norte global, para além do Vale do Silício.

Vou aproveitar para fazer um comentário, talvez o Léo queira fazer depois, e Rodrigo responde tudo. Tem algo que o livro e o ensaio já tinham me feito pensar muito: como a gente conhece ainda muito pouco da nossa própria região. Isso mesmo no caso mais conhecido e repetido entre nós, que é o Cybersyn, às vezes avança pouco para além da página dois. Precisou vir o Morozov para poder ser popularizado mais, esquecendo o próprio trabalho que a Eden Medina tinha feito há mais de 10 anos.

Rodrigo coloca algo que só depois de muito tempo é que Maria Teresa Freire de Andrade em Cuba teve um verbete na Wikipedia. Isso tem me feito pensar nessa questão da memória, no arquivo, na documentação desses projetos que a gente faz. Acho que é uma tarefa coletiva nossa enquanto pesquisadores, enquanto Tierra Común, enquanto educadores, de pensar num arquivo de passado e de presente. Porque vários de nós temos trabalhado com vários coletivos, e Léo está aí, como eu falei, 17, quase 20 anos. Às vezes a gente se sente meio tentando reinventar a roda, mesmo sem querer, porque você começa a tentar recuperar o que outra pessoa já fez e não tem muita sistematização sobre tudo isso.

Agora que o Léo está em emprego novo também, o desafio é pensar em formas de uma documentação coletiva disso que tem sido feito. Como nossos estudantes também conhecem pouco sobre toda essa história.

O segundo comentário é: para mim, a relação entre a primeira e a segunda parte do livro é que não só é uma proposta de políticas públicas, mas uma proposta de engajamento comunitário, coletivo, das pessoas trabalhadoras e cidadãs. Eu vejo como os coletivos hoje eles estão continuando aquela história ou atualizando aquelas histórias mesmo sem saber. O MTST, quando está fazendo esses projetos, eles nem sabiam de Maria Teresa Freire de Andrade às vezes. E como essas conexões entre passado, presente e futuro também são importantes, de fazer essas conexões.

E ao mesmo tempo essa força crítica, criativa, que Paula vem falando há muito tempo com outros colegas – Ignacio Siles, Edgar Gómez Cruz – de algo que não seja romantizar essas experiências, mas de mostrar uma potência que muitas vezes não se vê.

Aqui semana passada eu organizei um evento e veio um representante do MTST. Meus colegas canadenses ficaram espantados e impressionados com uma força de mobilização que, ao menos aqui no Canadá, não tem. Essa coisa mesmo: aqui até o sindicato dos entregadores e motoristas reclama que eles não conseguem mobilizar. A gente costumo dizer que no Brasil mobilizar a gente não é problema. A gente de um dia pro outro reúne 60, 70 pessoas. Os problemas vêm de outras ordens.

Mas eu acho que isso me incomoda muito quando a gente ainda vê editores do norte a dizer que as coisas que vêm dos nossos lugares são coisas específicas, são coisas muito nichadas, como se isso não oferecesse lições globais. Acho que essa é também um aprendizado do livro.

Passo a palavra pro Léo se ele quiser comentar mais algumas coisas.

Leonardo Foletto: Beleza. Bom, dá para pegar essa bola, porque acho que estou envolvido diretamente nesse processo de documentação de experiências “alternativas” de tecnologia há um bom tempo. Via Baixa Cultura, 17 anos, mas via outros coletivos de hackerspaces e tudo mais por aí também.

De fato, muitas vezes a gente se vê reinventando a roda, sabe? Dentro do movimento de software livre, por exemplo, no Brasil, que já foi muito forte – um dos mais fortes do mundo no final dos anos 2000, início dos anos 2010 – onde a gente tinha um dos principais encontros de software livre do mundo realizado no Brasil, em Porto Alegre, o FISL. Onde a gente tinha dentro do governo uma série de iniciativas que alfabetizaram digitalmente uma série de pessoas de todos os lugares do Brasil a partir dos Pontos de Cultura, onde as pessoas tiveram o primeiro acesso com ferramentas livres e não com ferramentas proprietárias.

Isso foi descontinuado a partir de uma série de governos que a gente teve aqui no Brasil. Então sempre comento que é muito singular que, logo depois da saída da Dilma como presidente aqui no Brasil, na primeira semana que Michel Temer assumiu, ele refez um acordo com a Microsoft, que ajudou a enterrar os projetos de software livre. Hoje a gente sabe que Michel Temer é um dos lobistas das big techs

Por isso também acho que nós quatro aqui, dentro da universidade, estamos tentando justamente trabalhar com essa perspectiva crítica. E isso passa pela documentação, pela tornar conhecido projetos de resistência. No Brasil a gente tem vários projetos de resistência. Acho que Rodrigo, quando esteve no Brasil, viu alguns projetos, alguns que ele já conhecia, viu outros também. Acho que a presença dele aqui fomentou uma série de debates de diversos coletivos, desde o próprio Núcleo de Tecnologia do MTST, que é um dos principais mais ativos aqui no Brasil fazendo formações, buscando uma soberania popular digital, até outros ligados ao software livre com menos escala, mas que têm feito sistemas e projetos muito interessantes por aí.

Há muita gente ainda trabalhando em projetos como esses. A rede de produtores culturais colaborativas que está há 15, 20 anos trabalhando com produção cultural em software livre; a rede Mocambos, que é uma rede organizada aqui no interior de São Paulo em vários povos quilombolas e que tem uma rede de data centers comunitários (Baobáxia) há 20 anos (data centers muito precários, mas que de alguma forma conseguem discutir e hospedar arquivos multimídia dentro dessas comunidades). Hoje muito se fala em data centers, “a invasão” dos data centers por conta da demanda de IA… mas podemos olhar para iniciativas que estão ocorrendo há muito tempo no Brasil, ainda que de forma precária, fazendo isso de forma comunitária, gestão coletiva com código aberto, hospedando às vezes o próprio código dentro das suas plataformas.

Acho que um dos nossos desafios é justamente tornar conhecidos esses projetos, entendendo que muitas vezes eles não vão conseguir ter escala – como muitas vezes a gente até torce – porque são projetos que têm a sua singularidade. E que são mais ligados às vezes a uma discussão de autonomia mais do que soberania: não querem e não vão conseguir ser escaláveis. Mas saber que existe um data center comunitário num povo quilombola no interior de São Paulo, saber que existem plataformas, redes federadas de Mastodon, diversos servidores aqui no Brasil, ajuda a nos inspirar – seja pessoas, seja professores, seja acadêmicos, ativistas – a fazer também em nossas comunidades. Acho que esse é um ponto importante. Isso não quer dizer que não deva haver escala; sim, deve, e há tentativas de redes como a de soberania digital de tentar incluir essa pauta dentro do governo federal brasileiro, que muitas vezes fala em soberania, especialmente desse ano, mas na prática continua extremamente dependente de serviços proprietários de big techs sediadas nos Estados Unidos. Existe um descompasso entre o discurso e a prática evidente também.

Acho que são dois caminhos válidos: primeiramente, fazer essa discussão dentro de governos e, ao mesmo tempo, fomentar as discussões autônomas dentro das comunidades onde elas existem. E eu acho que o nosso trabalho muitas vezes, da documentação, de projeto de pesquisa, também é unir esses pontos e fomentar, a partir da união e da documentação disso, outras ideias, outros projetos, e fomentar autonomia de outros grupos. Acho que esse é um ponto fundamental que eu queria comentar também, e que acho que o livro do Rodrigo dialoga muito com isso.

Porque ele mostra para a gente redes como a de intercomunicação da teologia da libertação, que é muito importante e eu (creio que muita gente) desconhecia. É um processo super interessante que trabalhou com uma tecnologia, uma low-tech, uma tecnologia de baixo nível, num processo de comunicação muito interessante. Acho que também tornar conhecidos esses projetos são importantes. O livro do Rodrigo faz isso, também no caso de Cuba, e com isso faz a gente perceber que existem outras formas de catalogar livros em biblioteca que não apenas as dominantes dos Estados Unidos e da Rússia.

Então o primeiro ponto é reforçar a importância dessa documentação como uma estratégia de fomentar a autonomia e também a soberania em escala dentro de diversos lugares do planeta, no momento onde isso é crucial, onde o discurso da soberania (ou autonomia) finalmente se tornou um discurso fundamental para todo mundo.

Um segundo ponto é que nós, enquanto universidade, temos o papel de justamente entende e fazer uma alfabetização digital crítica. Mostrar, enquanto professores, ativistas, que por mais difícil que seja, existem alternativas. Existem universidades que estão utilizando serviços de videoconferência que não são das big techs, como a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que usa um serviço a partir de código aberto construído dentro da própria universidade em apoio com outros coletivos de outros lugares do planeta.

Esse é um ponto: dizer que acessar a internet é além de acessar as big techs. Parece um clichê falar isso, mas isso é cada vez mais necessário em tempos onde a IA está predominando, está entrando em todos os celulares das pessoas ao redor do planeta. Só ano passado, o ChatGPT foi o aplicativo mais baixado do Brasil. Então vocês imaginam as consequências que o ChatGPT, com mais de 50 milhões de downloads no Brasil, 50 milhões de pessoas usando ChatGPT, no mínimo. Imagina as consequências que isso tem por uma alfabetização digital não crítica, o uso equivocado que vê uma IA generativa, como o sistema do ChatGPT, como algo mágico que resolve coisas sem esforço. A gente tem uma demanda muito importante e urgente de tentar alfabetizar criticamente sobre isso.

Outro ponto essencial nosso enquanto universidade, academia, é o de tentar fomentar a crítica. Todo mundo que me conhece sabe que eu sempre uso a ideia de de tentar um pouco abrir “as caixas pretas”, desmistificar e desvelar um pouco como são feitos esses sistemas. Mostrar como são feitos é um primeiro passo para a gente tentar fazer diferente. Acho que esses dois movimentos estão sendo feitos em paralelo. Então mostrar como é feito para depois fazer, mostrar as práticas de resistência.

Acho que Rodrigo também – e eu queria, aproveitando, já ouvir dele também – além de ser um historiador da tecnologia, ele também conhece uma série de ferramentas e de sistemas que mostram como é possível fazer isso no dia a dia. Então ele pode falar um pouco do uso dele crítico de sistemas, outros sistemas que provavelmente a maior parte das pessoas que estão nos ouvindo não conhece: sistemas de busca, sistemas de organização de dados.

Rodrigo Ochigame: Bom, muito obrigado a todos vocês – Paola, Rafa e Léo – por essas reflexões riquíssimas. Vou tentar responder a todos mais ou menos ao mesmo tempo, costurando algumas ideias que me vieram.

Eu não sabia que Paola tinha me conhecido nesses eventos de militância e protesto contra o patrocínio militar e comercial nas pesquisas. Foi muito interessante para mim ouvir essa anedota. Eu acho que comecei a minha carreira como estudante pesquisador em ciência da computação, antes de virar historiador e antropólogo, e um processo que foi muito formativo para mim foi notar o quanto as agendas de pesquisa em ciência da computação eram determinadas por esses patrocinadores militares e comerciais. E que até mesmo ideias que pareciam muito fundamentais em vários campos de pesquisa dentro de computação eram baseadas em escolhas que pouco tinham… que não eram completamente determinadas por motivos intelectuais, mas que se alinhavam aos interesses desses patrocinadores de pesquisa.

Acho que os sistemas de busca e recomendação são um bom exemplo disso, em que as prioridades da indústria de anúncios, de propaganda, determinaram muitas das métricas e benchmarks para avaliar e guiar o desenvolvimento desses tipos de sistemas.

Ligando um pouco ao comentário do Rafa, eu acho que não acabei estudando essas histórias latino-americanas porque eu sou latino-americano. Acho que primeiramente eu estava interessado em poder pensar a computação de forma crítica, e algumas dessas experiências latino-americanas simplesmente foram o lugar onde eu encontrei algumas das experiências e reflexões mais sofisticadas e profundas em tentar me ajudar a pensar a computação de forma crítica. O meu interesse não foi primeiramente por um interesse regional específico, mas foi numa tentativa de tentar encontrar ideias que me ajudassem a pensar a computação em termos de problemas mais globais.

E eu acho que isso continua nas interações que tenho agora em aprender com experiências contemporâneas. Nessa visita a São Paulo agora, o Núcleo de Tecnologia do MTST, que acabou de ser citado, foi um espaço riquíssimo de experiências e debates. Na minha opinião tem algumas das teorizações e análises mais sofisticadas sobre a computação que eu já ouvi de qualquer pessoa ou grupo no mundo.

Então acho que isso se alinha com o que vocês comentaram da necessidade de recuperar várias dessas experiências da América Latina e de outras partes do Sul Global, não só como um exercício histórico de recuperação de memória regional, mas também porque essas experiências históricas têm muitas ideias que são necessárias para pensar informação de forma mais crítica nos dias de hoje.

Eu também concordo que nós apenas estamos começando a aprender sobre algumas dessas experiências. Por exemplo, pela pesquisadora Lise Jansen, recentemente eu aprendi sobre alguns casos – ela ainda não publicou, mas está escrevendo agora. Aprendi sobre algumas outras experiências muito importantes da América Latina que eu também não conhecia, coisas como o Modelo Mundial Latino-Americano, que foi desenvolvido em Bariloche, na Argentina, como uma alternativa crítica aos supostos modelos globais que estavam sendo desenvolvidos na década de 70 para tentar simular futuros possíveis para o mundo com base em dados demográficos, econômicos e políticos.

Também alguns dos modelos de experimentação numérica do grupo do matemático Oscar Varsavski, que operou tanto na Argentina quanto na Venezuela mais ou menos no mesmo período. Era uma tentativa de usar alguns dos primeiros computadores da América Latina para pensar caminhos políticos possíveis, em parte influenciadas por análises da teoria da dependência.

Então acho que muitas dessas experiências que fizeram muitas coisas necessárias para pensar o mundo, o futuro do mundo em geral, e caminhos políticos possíveis de forma crítica foram desenvolvidas com muitos obstáculos: obstáculos de regimes autoritários, obstáculos de inimigos geopolíticos tentando sabotar esses projetos. No caso de duas das histórias do livro, tem o embargo comercial dos Estados Unidos, tem o fato de que o Vaticano se opôs ao projeto dos teólogos da libertação. Nesses projetos que acabei de citar, um golpe militar impossibilitou a continuação do trabalho do Modelo Mundial Latino-Americano em Bariloche. Também vários obstáculos políticos dificultaram o trabalho dos modelos de experimentação numérica.

Eu acho que um dos motivos para nós termos que resgatar várias dessas experiências, que estamos apenas começando a aprender, é exatamente o que vocês comentaram: de não ter que reinventar a roda toda vez. Porque muitas das coisas que essas experiências aprenderam são coisas que qualquer tentativa de pensar criticamente sobre esse tipo de modelo vai ter que concluir, e isso leva tempo. Então o fato dessas iniciativas serem historicamente repetidamente interrompidas ou sabotadas, ou enfrentarem obstáculos que interrompem um desenvolvimento mais contínuo, é uma das coisas que esse trabalho de recuperação, de indexação e arquivamento, pode tentar intervir.

Sobre as experiências mais recentes de controle de informação na internet em Cuba, é claro que, ao meu ver, esse regime de acesso restrito à internet não é particularmente inspirador para mim, da mesma forma que algumas dessas histórias mais do início da formação de um campo de ciência da informação em Cuba foram. De forma alguma eu quero romantizar a experiência de informática que Cuba teve. Certamente a organização de internets e de formas informais de circulação de informação sob um regime de acesso restrito são experiências com as quais nós podemos aprender também.

Mas eu acho que Cuba enfrentou um dilema muito complicado: se Cuba tivesse um acesso completamente irrestrito à internet, certamente várias operações de agências de inteligência ou operações militares para tentar avançar um golpe de estado na ilha, principalmente patrocinados pelos Estados Unidos, certamente aconteceriam. E é claro que, como mecanismo de defesa a isso, um regime de censura não é uma solução muito desejável. Mas eu acho que é mais ou menos esse dilema que Cuba teve que enfrentar num período mais recente.

Acho que parte do problema é que sistemas que possam regular os regimes de visibilidade de uma forma que dê menos vantagem para atores engenheirados, que não tenham sido desenhados para as prioridades da indústria de propaganda, de certa forma ainda não estão, ainda não existem de forma a estarem prontos para um uso em grande escala. E eu acho que essa é uma das direções de pesquisa crítica que são muito necessárias.

Para comentar um pouquinho sobre o que o Léo mencionou: um dos meus interesses de pesquisa atual, também inspirados por essas experiências históricas que documentei no livro, é tentar desenvolver sistemas de busca e recomendação que sejam baseados em outros princípios. Eu acho que, apesar desses sistemas ainda não existirem, vários dos ingredientes técnicos para o desenho desse tipo de sistema agora estão disponíveis.

Existem alguns projetos pequenos, por exemplo, para desenhar novos sistemas, sistemas alternativos de busca, que estão começando a ser desenvolvidos. Um deles, por exemplo, é um sistema que se chama Marginalia, que é um buscador que tenta dar mais visibilidade para conteúdos não comerciais na internet. Então um dos indicadores que usa, por exemplo, é a quantidade de propagandas e trackers numa página, e ele usa isso para penalizar a visibilidade de uma página ou de um site. Então tenta dar mais visibilidade às partes da internet que são menos dominadas por propagandas e trackers.

Outro sistema nessa direção chama Stract, que também é um sistema de software livre, código aberto, que tenta permitir uma certa customização do que eles chamam de “optics”, de óticas ou lentes de busca. Como usuário, você pode programar uma ótica ou uma lente. Com isso, você tem alguma autonomia sobre as lógicas de priorização de partes diferentes da web em que você está buscando.

Um dos grandes desafios com sistemas desses é que ainda requer bastante conhecimento técnico em poder escrever o código que configura uma ótica ou lente. Então uma das coisas em que estou trabalhando agora com uma colaboradora minha, Crystal Lee, é tentar desenhar interfaces que permitam usuários que não têm conhecimento técnico para escrever código poderem configurar essas óticas ou lentes em sistemas como o Stract.

Enfim, então acho que essa é uma das múltiplas direções de pesquisa mais crítica, de pesquisa em ciência da computação, que acho que são necessárias para a construção de uma infraestrutura mais crítica, mas que nós ainda não temos.

Rafael Grohmann: Excelente. Vou ler aqui alguns comentários que estão no chat.

Guilherme Cavalcante diz: “A discussão me fez pensar nos diálogos entre a luta por infraestruturas tecnológicas outras no continente e a luta pela comunicação livre e popular no continente, jornalismo popular e comunitário.” Acho que tem aí também uma história muito importante.

Marciel, professor da USP, desejando abraços.

Walter Lippold perguntando a diferença entre letramento digital e alfabetização digital crítica. Acho que tem aí também a tradição latino-americana de educomunicação, muito baseada em Paulo Freire, que vai muito além de digital literacy, media literacy e data literacy. Acho que essa questão também é muito importante.

As políticas públicas no governo Lula – Pontos de Cultura, Casa Brasil – se estão agora dispersos ou inativos.

Elane também fala da rede Mocambos, da Casa de Cultura Tainã de Campinas como pioneiras, e os encontros de conhecimento livre promovidos pela Gesac, Pontos de Cultura, que foram fundamentais.

Danilo fala que a experiência cubana parece que existe imaginação, uma dificuldade de acesso aos materiais, e hoje parece o inverso: acesso aos materiais, mas imaginação enfraquecida.

E Elane também pergunta se tem algum repositório comum para compartilhar essas iniciativas, ações, projetos. Indicaria desde já o site Baixa Cultura, que tem aí uma entrada para isso.

Vamos fazer uma rodada agora para considerações finais. Vocês querem comentar alguma coisa? Querem falar algo? Querem divulgar alguma iniciativa?

Paola?

Paola Ricaurte: Bueno, creo que nos dejan esta idea del repositorio, esta idea de hacer visibles estas iniciativas, estas personas, pensadoras también de la historia de América Latina. Y creo que, como dice Rodrigo, no es que haya buscado específicamente en América Latina, pero es que en realidad yo estoy convencida de que América Latina ha sido un semillero de ideas desde siempre, ha sido un semillero de ideas y de propuestas. Que es cierto, no se conocen en otros lugares, pero a lo mejor lo problemático es que, como comentaba hace un rato, creo que Rafa, no hacemos que esa historia, esa historia de larga duración, se haga presente en las reflexiones y en las iniciativas de los movimientos de hoy.

Creo que a mí me inspiro, al menos en México, digamos, he pasado, soy de Ecuador, que estas largas duraciones realmente son… entienden esa necesidad. O sea, no es una cosa coyuntural. Estamos aquí, bueno, no, nosotros… estos movimientos están resistiendo más de 500 años y son los mismos que están resistiendo hoy, por ejemplo, aquí en México por la defensa del agua, la vida y el territorio.

Entonces creo que esas experiencias de lucha de larga duración también nos tienen que hacer pensar que cuando tenemos contextos adversos como el de ahora, que son cíclicos – como decía Pepe Mujica – que nos hagan pensar que cuando tenemos estos contextos adversos que borran todo, borran el archivo, borran la memoria, borran todas las cosas que habíamos avanzado, nos tenemos que rearticular porque tenemos que volver a reconstruir. Y así es la historia. Pero creo que ver esto en esa larga duración nos ayuda a entender también cuál es nuestro momento actual.

Rafael Grohmann: Rodrigo, Léo?

Leonardo Foletto: Bueno, muchas gracias, obrigado pelo convite, pela conversa que a gente está tendo aqui. Muito legal estar podendo discutir isso dentro da universidade e dentro de uma perspectiva ativista.

Parabéns mais uma vez pro Rodrigo pelo trabalho. Acho que o livro tem circulado muito bem aqui. A gente está em negociações aí para fazer uma edição em inglês também. Esperamos que até o ano que vem a gente consiga fazer essa versão, porque o artigo, o ensaio que Rodrigo escreveu, que é a primeira parte do livro, foi escrito originalmente em inglês. Teria que traduzir a segunda parte e mais alguns outros elementos, como o prefácio e a introdução.

Uma das pessoas que está aqui é uma das autoras de um dos próximos livros da âncoras do Futuro, Paola.  Ela está escrevendo junto com outros dois autores um livro que dialoga e complementa essa discussão de imaginários e alternativas tecnológicas, a partir também, não por acaso, da América Latina. Esse é o que a gente pode antecipar. A gente tem lançado um livro uma vez por ano, que é vendido nas livrarias em vários lugares, mas também é disponibilizado em PDF gratuitamente via licença Creative Commons não comercial.

E bom, queria então dizer que a gente está à disposição para discutir e trabalhar com essas ideias dentro da universidade, fora dela também. Faço parte de uma coalizão chamada Direitos na Rede aqui no Brasil, e dentro dessa coalizão a gente tem um GT que se chama Laboratório de Experimentações Tecnopolíticas, onde a gente tenta colocar a mão na massa de muitas dessas ideias alternativas de construção de novas tecnologias. Acabamos de fazer no último sábado uma oficina de instalação de um data center comunitário num espaço aqui em São Paulo, onde a gente está no mutirão de colocá-lo em pé, de fazê-lo funcionar, e de que as pessoas possam guardar seus arquivos ali. Justamente colocamos um problema para poder desenvolver nos próximos meses.

O nosso GT também vai publicar uma revista chamada Tocaia, uma revista impressa no final desse ano. Fiquem ligados!

Tem também o Baixa Cultura, que é o espaço que eu edito na internet desde 2008, onde discutimos muito desses nossos temas aqui, de uma forma às vezes não tão acadêmica, mas também que trabalha com um pouco dessa divulgação científica das nossas ideias e projetos e propostas.    Assim como o trabalho que o Rafa faz no DigiLabour, na Universidade de Toronto, que também está muito ligado a isso: a construir de forma concreta organizações, cooperativas, que trabalhem com formas mais justas de construção de tecnologias. Ele tem um trabalho muito ligado a isso. E acho que a gente vai seguir nas nossas conexões diversas aí, tentando fazer isso, tentando arrumar espaço nas nossas pesquisas e para conseguir fazer essas nossas ideias soarem e circularem por aí.

Obrigado, gente.

Rodrigo Ochigame: Eu também só queria agradecer a todos vocês por essa conversa, que me encantou bastante. Eu sou um grande admirador do trabalho de todos vocês, e é uma grande honra para mim poder estar em diálogo com o trabalho que fazem a Terra Comum, o DigiLabor e Baixa Cultura.

Eu adoraria… se nós tivéssemos mais tempo para poder responder a cada uma das perguntas. Mas como estamos finalizando, eu só queria fazer um comentário final: acho que nós estamos vivendo um momento extremamente estratégico. Acho que as discussões que estão ocorrendo agora no mundo inteiro sobre a terminologia de soberania digital e temas relacionados é um momento muito importante, estratégico.

É claro que até mesmo esse discurso de soberania já está sendo capturado de várias formas pelos lobistas corporativos das big techs. No Brasil, por exemplo, esses lobistas estão tentando convencer o governo federal de que instalar data centers da Microsoft ou da Amazon em território nacional, inclusive em territórios em disputa ou até mesmo em terras indígenas, é uma forma de soberania.

Eu acho que nós, que temos uma visão mais crítica disso, realmente precisamos combater e tentar fazer o máximo de esforço nesse embate de ideias, nesse momento que estamos vivendo. E realmente tentar dar uma mensagem clara de que não, isso não é soberania digital, e tentar ao máximo refocar o debate nas questões que achamos mais urgentes e na forma de análise que já estamos desenvolvendo há bastante tempo.

Enfim, só queria dizer que acho que estamos vivendo um momento bastante estratégico e de que tem muito potencial para ações de infraestruturas digitais mais justas.

Rafael Grohmann: Beleza. Obrigado, Rodrigo. A gente se vê em algum momento, em algum lugar deste planeta, em alguma língua disponível que a gente consiga se comunicar. Fica aí a dica para ler “Informática do Oprimido”, ou comprar na editora Funilaria, ou baixar o PDF no site do Baixa Cultura. E em breve então teremos um livro novo no ano que vem também. Fiquei feliz que o livro vai ter uma versão em inglês, que eu preciso fazer meus alunos lerem. Isso é muito importante.

Um abraço a todo mundo que nos acompanhou por hoje. Tchau, gente!

 

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17 anos de BaixaCultura https://baixacultura.org/2025/09/26/17-anos-de-baixacultura/ https://baixacultura.org/2025/09/26/17-anos-de-baixacultura/#comments Fri, 26 Sep 2025 23:22:35 +0000 https://baixacultura.org/?p=15939 Seguindo a tradição, todo 15 de setembro esquecemos de comemorar nosso aniversário. Ano pasado, nos 16, começamos essa tradição de assumir o esquecimento. Em 2023, nos 15 anos, fizemos um texto um mês depois. Os 14, em 2022, foi um raro ano com um texto na data certa – apenas porque lançamos o site novo nesse mesmo período. Em 2021, não fizemos nada. Em 2020, no auge da pandemia, só lembramos de mencionar um breve comentário em uma newsletter semanas depois. 2019 nada, mas 2018 foi um ano inédito: fizemos uma pequena comemoração presencial, quando ainda estávamos em Porto Alegre, chamado “BaixaCultura 10 anos – História Aberta”.

Anterior à tradição de comemorar atrasado nosso aniversário é o de lembrar o primeiro post do site: Cópia Boa, Cópia Má – ou o início. A grande discussão em 2008 era o download livre e suas consequências para o direito autoral, a indústria cultural, o acesso ao conhecimento (e à informação) – daí o nome BaixaCultura. Dizíamos (eu e Reuben da Rocha, co-fundador) que a lógica industrial da cultura dominante ao longo do século 20 foi baseada num esquema feroz de controle autoral (o copyright), e que, naquele momento, a tecnologia digital dificultava esse controle e tornava os lucros cada vez menores nesta indústria, mesmo com os esforços (hoje até engraçados) das campanhas antipirataria promovidas sobretudo pelos estúdios de Holywood e as grandes gravadoras. A pretexto do documentário “Good Copy, Bad Copy”, endossávamos o sampler – “numa sociedade entupida de informação, a utilização de materiais pré-existentes pode ser bem mais subversiva do que produzir a partir dum vago princípio de originalidade” – a cópia livre, o acesso à cultura como elemento central na qualidade de uma democracia, o dub, o rap, o trabalho “criminoso” do Dj Danger Mouse, a contra-indústria do tecnobrega do Pará e a Nollywood nigeriana.

Desnecessário dizer que muita coisa mudou de lá pra cá. Podemos dizer que fomos ingênuos em acreditar no potencial transformador de uma internet livre. Ou talvez não: a transformação ocorreu, mas para pior. 17 anos atrás – como 20, ou 25 anos – parecia uma boa tática liberar informações da forma de propriedade. Mckenzie Wark disse, em 2023, no prefácio à edição brasileira de “Um Manifesto Hacker”, – e nós não poderíamos endossar mais – que “as forças de produção, neste caso as forças de produção de informação, ultrapassaram as relações de produção existentes”. A produção de informação livre surgiu como uma prática a partir da qual se cria uma produção autônoma de conhecimento. O que para nós era uma prática de vanguarda rapidamente, e de forma independente, tornou-se um movimento social: o movimento pela informação livre. À medida que a internet se tornou uma forma de comunicação mais popular, todos começaram a compartilhar. Como diz a tese 126 de “Um Manifesto Hacker”: “a informação quer ser livre, mas está acorrentada em todos os lugares”. (Uma frase que é um desvio de Rousseau e do teórico utópico da internet John Perry Barlow). Parecia que poderíamos abrir a forma-mercadoria da informação em favor de uma espécie de economia de dádiva (gift) abstrata.”

Mas como segue dizendo Wark, “A resposta da classe dominante ao movimento social pela informação livre foi a criação de uma forma de propriedade ainda mais abstrata”. A classe dominante dominante, que ela chama de classe vetorialista, recuperou a energia do movimento popular pela informação livre transformando-a em trabalho não remunerado. Este ciclo foi acelerado em escala ainda maior com a popularização dos sistemas de Inteligência Artificial Generativa, já que, como temos acompanhado, estes sistemas foram treinados no vasto tesouro de informações livres que criamos para nós mesmos, muitas vezes querendo (ou pensando que) estas informações poderiam ser bens comuns (commons). O que a classe vetorialista está tentando fazer agora, segundo Wark, é a substituição da classe hacker por máquinas capazes de fabricar a diferença – e achamos que tem conseguido, não?

Apesar desse cenário menos esperançoso que o de 17 anos atrás, seguimos por aqui. Também acreditando que podemos falar da cultura livre como liberdade positiva; tentando entender os meandros do colonialismo digital e as interferências das IAs nos direitos dos escritores; divulgando iniciativas para infraestruturas autônomas e comunitárias de tecnologias; recontando histórias de uma informática do oprimido latino-americana para soltar nossa imaginação sobre tecnologias alternativas, talvez como uma hiperstição aceleracionista – inventar futuros ficcionais para que eles possam se tornar reais. Seguimos documentando a cultura livre e entendendo as IAS de código aberto – mesmo que tenhamos muitas dúvidas se de fato o software livre possa derrotar as big techs. E buscando entender como a história da cópia e do desvio no século XXI pode dar luz sobre as práticas futuras de criação desviante – a cópia na era de sua proliferação técnica. Por fim, também achamos que para criticar e desconstruir artefatos complexos como os monopólios de IA, devemos fazer o trabalho meticuloso de desfazer – passo a passo, arquivo a arquivo, conjunto de dados a conjunto de dados, metadado a metadado, correlação a correlação, padrão a padrão – o tecido social e econômico que os constitui na origem. E que, para reagir e propor alternativas concretas, precisamos cada vez mais de uma cultura de invenção, concepção e planejamento que se preocupe com as comunidades e o coletivo, sem nunca ceder totalmente a agência e a inteligência à automação.

É por aí que seguiremos adelante.

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