V de Vertigem

Um fake salvou minha vida. Minha vida, ou pelo menos minha vida do jeito como a levo, depende da maneira como insisto em acreditar na humanidade. A humanidade, essa peça estranha no balé do planeta, penso que apenas sua capacidade de criar beleza seja capaz de redimir sua capacidade de destruí-la. Mas eu dizia que um fake salvou minha vida.

Minha vida, ou pelo menos minha vida do jeito como a levo, depende duma espécie de serenidade, de talvez sanidade proveniente em grande medida do prazer e das porradas que, voluntariamente ou não, diariamente eu levo. Às vezes, isso custa caro.

Eu não quero falar do preço que a vida nos cobra, a grande vida, a vida extraída de cada poro e seu alto risco. Não é isso, não agora. O que eu dizia é que manter a linha nem sempre é fácil e que as coisas que ajudam a mantê-la podem ser caras, mesquinhamente caras, estou falando de Grana, estou falando que há coisas muito simples que me deixam tranqüilo, não me lembro se o trema já caiu, um milhão de coisas muito simples como a beleza de um diálogo, um naco de nuvem, ou quadrinhos. E quadrinhos, ao contrário das duas outras opções, custam Grana.

Agora, voltemos ao fake.

Agora sei que seu nome é Thiago, que trabalha com publicidade e parece com aqueles retratos de Jesus. Mas antes disso, fui apresentado ao fake Von DEWS!, foi esse cara quem salvou minha vida. Entenda que não foi preciso muito e que esse papo não tem nada a ver com a leve semelhança de Von DEWS! com Jesus. Tem a ver com o Vertigem, o blog de scans de HQs que hoje comemora 02 anos e cerca de 600 posts de existência. Entenda que às vezes salvar a vida de alguém pode ser só uma expressão, um pequeno exagero nascido de uma alegria, nesse caso a alegria de contrariar os preços conhecidamente abusivos dos quadrinhos no Brasil.

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Quarto membro de uma equipe inicial da qual é o único sobrevivente, Von DEWS! hoje coordena uma equipe fixa com cerca de 10 colaboradores [além dos colaboradores eventuais e das parcerias com outros blogs e sites], a maioria deles leitores que resolveram ajudar, gente que nunca se viu na vida e trabalha conjuntamente para me impedir de gastar um dinheiro que não tenho com coisas que amo. Coisas que admiro, como esta série do Warren Ellis, coisas das quais já falei aqui, como The Walking Dead, coisas que me divertem muito, como o doido do Steve Niles, coisas geniais, como a obra do genial Grant Morrison. Tudo gratuito – traduzido, diagramado e escaneado com cuidado e persistência.

Fell (Warren Ellis+Ben Templesmith)
Fell (Warren Ellis+Ben Templesmith)

Com método, mesmo. Não é, Von DEWS? “Atualmente cada revista tem um tradutor e um letrista fixos, e raramente uma pessoa só faz as duas coisas. Eu faço as capas e os títulos, e reviso todo o trabalho dos tradutores mais de uma vez. Leio e reviso a tradução que chega em Word, e faço o mesmo trabalho quando volta das mãos do letrista”.

O trabalho é de editora, eu penso, e aproveito para perguntar sobre mercado. “É uma incógnita, as editoras escondem os números de vendas, de tiragem. Nos EUA, as editoras exibem com orgulho os números das vendas. Aqui, elas escondem. Tenta perguntar pra Panini quantas edições de X-Men foram vendidas esse mês…Nem pagando eles te falam. É dificil mensurar qualquer coisa”. E ele pergunta mesmo, seu interesse pelo mercado editorial é mais sério que a minha pergunta: apesar de figura conhecidíssima nas comunidades de download e de preparação de scans, Von DEWS! não troca os quadrinhos de papel pelos arquivos de computador, e acredita que seu trabalho deva ser de parceria com as editoras.

Os Invisiveis (Grant Morrison)
Os Invisíveis (Grant Morrison)

E com outros grupos de scans. Segundo o editor do Vertigem, sempre que pinta uma dúvida de tradução ou diagramação, sempre que aparece a oportunidade de colaborar com resenhas e artigos, enfim, sempre que há a possibilidade de diálogo, há diálogo. “Quase todo mundo tem o msn de todo mundo”, por exemplo. Mas vamos voltar ao papo sobre mercado.

“Apesar do crescimento da internet, os scans circulam entre uma parcela mínima de leitores. Eu vejo isso no orkut, a quantidade de leitores que nem sabe o que é scan, não sabe que existe uma edição original americana [nota deste repórter: caramba!]. O papel dos scans é mais de divulgação que de qualquer outra coisa. Eu acho que, por exemplo, se ninguém tivesse traduzido The Walking Dead há alguns anos, a [editora] HQM nunca teria investido nos encadernados. Por mim, a gente fazia parceria e a divulgação seria conjunta! Só esse semestre eu gastei mais de 800 reais em quadrinhos! Eu tenho 40 giga de quadrinhos no PC, mas tenho o equivalente a 900 giga em papel! E não os troco por nada!”, ele afirma, com as exclamações que lhe são peculiares.

Parece haver de certa forma uma correspondência entre essa disposição em colaborar com o mercado regular de quadrinhos e, se não a disposição contrária, pelo menos a raridade da fiscalização legal. Porque embora nós dois acreditássemos que a ação do Vertigem e de qualquer outro blog de scans seria ilegal apenas se resultasse em lucro, a legislação de direito autoral é, segundo o Edson, bem menos tolerante. Mas a intolerância tem se mostrado felizmente alheia ao trabalho de divulgação de scans, ao contrário do que ocorre com blogs de download de arquivos de áudio e vídeo.  “Até hoje, em quadrinhos, só o Eudes [do Rapadura Açucarada] teve problemas com isso. A questão é que ele vinha escaneando quase tudo que saía em banca, e na época o blog tinha muita visibilidade. Com a proliferação dos espaços essa visibilidade exclusiva diminuiu, ele precisou parar durante um tempo mas depois voltou com força total”.

Von DEWS! concorda quando digo que a situação é essa: os blogs existem, ninguém sabe direito o que pode ou não pode fazer legalmente, mas também é como se a lei não estivesse preocupada com isso. Parece uma espécie de benefício, fruto do eterno anti-lugar que os quadrinhos ocupam na estante cultural das sociedades, da imagem que preservam de entretenimento inofensivo e fonte de roteiros quadrados pra indústria cinematográfica, e não uma linguagem como qualquer outra, capaz do que é capaz qualquer linguagem quando usada por uma voz sincera e afiada. De ocupar o tempo de pessoas que a amam e não vão ganhar nada em troca, não vão ganhar nada que tenha valor de troca, pessoas que não vão trocar isso por nada.

[Reuben da Cunha Rocha.]

  1. Olá,
    eu sou um dos três (e não quatro como você disse) fundadores do vertigem.
    Os outros dois eram Doni e Diego.
    E eu sou o único fundador ainda ativo, apesar de um pouco ausente, no blog.
    Enfim,
    valew pela matéria,
    quem me dera fosse ela mais acurada.
    abraços.

  2. Olá! Antes queria lhe parabenizar pelo excelente texto. Bem, sou apenas mais um, desses internautas que pouco contribui e que sempre suga o que vocês produzem. Por isso a minha visão será sempre limitada em relação ao grande trabalho e esforço que vocês e todos os demais desenvolvem para manter um site como esse no ar, que por sinal, com muita qualidade. Fui agraciado com obras [Y] que dificilmente um dia iria ler em mãos. Então, a única coisa sincera que posso fazer é dizer um obrigado e torcer para que pessoas com um determinado nível técnico nescessario para se trabalhar nessa area continue se sensibilizando e mostrando apoio nessa grande causa de proporcionar cultura e entreterimento atraves de scans. Infelizmente, a vida me mostra que nada dura, nada mesmo, entratanto essa serenidade que você expressa em seu texto, eu sempre a experimento quando leio os fantásticos titulos públicados pela vertigem, e isso meu caro, nem o fim, quando chegar, ira tirar saboroso gosto que os dois anos de VERTIGEM me proporcionaram…
    Sucesso e sorte!
    Abraços,
    Michel

  3. adorei isso,cara!
    se possivel me adicione no msn que tenho umas idéias e gostaria de partilhar com alguém que ama quadrinhos como eu!
    V DE VERTIGEM MANDANDO VER!/

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