“Tecnologia é mato, o importante são as pessoas”

Nossa terceira e última (de 2019) edição do curso “Tecnopolítica e Contracultura” ocorreu nos dias 24, 25 e 26 de outubro de 2019 na APPH, em Porto Alegre. Sala lotada, gentes diferentes, encontros bastante potentes! Agradecemos mais uma vez a todas/os presentes, à APPH pelo espaço de trocas que mantém e à Iuri Guilherme (Matehackers, Partido Pirata) e Janaína Spode, da CCD POA, por se disporem a participar como convidadas/os. Esta foi a última edição do curso em 2019, voltaremos em 2020!

Victor Wolffenbüttel, colaborador assíduo por aqui e também editor do webzine “à moda antiga” Quasar, de periodicidade quinzenal e enviado por e-mail, esteve no curso e escreveu algumas linhas que resumem a sua percepção desses três dias:

“O ditado diz que o professor faz a turma, e nesse caso posso afirmar que é bem verdade. A dose dupla de Leonardos veio densa, reflexiva e empática. A turma entrou no embalo e logo na primeira aula pudemos aproveitar da abertura que os mestres davam para compartilhar sobre o tema da aula, cada um com sua base.

Tecnopolítica e Contracultura, o curso, parece curto demais pra ser uma disciplina e longo demais pra ser um workshop, e justamente por isso entra no espaço perfeito pra te dizer que nem tudo está perdido e que nada está a salvo. Caí perfeitamente na provocação e saí pilhado pra fazer mais.

Como bem citado por um dos convidados do curso, parafraseando Daniel Pádua, “tecnologia é mato, o importante são as pessoas”, e este poderia ser muito bem o subtítulo do curso. Sabemos como já foi, como está sendo, e como pode ser a técnica, mas queremos mesmo é contagiar quem aparece no nosso caminho pra fazer uma realidade melhor.

Parecia tangível na atmosfera o clima de desconfiança com a internet, a ansiedade das redes sociais. Talvez seja uma impressão minha sobre todo lugar e não só ali, mas quando entramos no assunto dá pra perceber que não é pura paranoia, mas sim um fenômeno percebido. E que acreditar que a tecnologia vai nos salvar não basta.

Encerro este depoimento da mesma forma que o curso encerrou, citando a frase que serve de melhor ensinamento para os três dias de prática e teoria, através do autor que está desde o início até depois do fim da discussão, Franco Berardi: “a deserotização é o pior desastre que a humanidade pode conhecer, porque o fundamento da ética não está nas normas universais da razão prática, e sim na percepção do corpo do outro como continuação sensível do meu corpo. Aquilo que os budistas chamam de “grande compaixão”, ou seja: a consciência do fato de que teu prazer é meu prazer e teu sofrimento é meu sofrimento. A empatia. Se nós perdemos esta percepção, a humanidade está acabada.”

*

Enquanto isso, trazemos aqui algumas das muitas inquietações desses três dias organizadas em uma síntese poético-filosófica-existencial, trabalho em processo. E, ao final, referências na íntegra, as apresentações utilizadas e mais fotos.

Estamos frente ao esgotamento da relação público-privado. O tema mesmo é o comum, irredutível ao par público-privado e aos rituais de soberania. É cada vez mais gritante e urgente compreendermos o comum.
A água é um comum (commons), não porque cai do céu, mas porque é a força da cooperação social que fez e faz ela chegar, em tese, à casa de cada um. O comum é diretamente cooperação social, sociabilidade, riqueza comum.

Sabemos como (o comum) é usado para criar uma raridade artificial, precarizar e despotencializar – decompor as forças e  inviabilizar a autonomia. A metrópole, as vias, tudo: cooperação social estatizada ou privatizada. As próprias conexões sociais ao serem individualizadas (patrimonialismo individualista, ou individualismo patrimonialista, dá no mesmo), a proliferação dos contratos individuais (ou descontratualização, inviabilizando as representações sindicais e políticas coletivas). Esse poder sobre a vida, colocada toda a trabalhar: não reconhecida, não valorizada, não remunerada. Biopoder.
Esse o nosso tempo.

Precarização; decomposição; tentativa de Inviabilizar qualquer traço de autonomia e privatizar o comum.  Não mais via lucro, mas renda e impostos, ambos via financeirização (digitalização/informatização dos mercados de contratos, ou seja, mercados de dívidas e promessas de pagamentos, ou rentismo: juros, usura) aquilo que fez do sistema atual a fábrica d@s homens e mulheres endividad@s. Assentados nesse mercado de dívidas e na ‘convenção financeira’, ou seja, o uso da assimetria de informações para gerar o comportamento de manada, indução de desenvolvimento do comportamento gregário, mimético e egoísta, com base na memética, no meme, via aceleração da infosfera e criação de uma situação demencial.

O crédito de consumo aí tem um duplo papel: legitimar a desvalorização salarial e fidelizar o endividado. Endividamento individual e extorsão via arrecadação difusa por impostos e transferência rentista (pagamento de juros) via dívida pública. A governança se desloca inteira para o sistema financeiro: desloca-se a política des-democratizada.
Esse o quadro.

Quem afinal toma decisões e efetuar a chantagem de fazer obedecer? O que nos mobiliza (ativa interesses, quereres, desejos, vontades) é o que ao mesmo tempo nos interpela e adverte. Como as coisas, os eventos, o mundo, nos interpela e adverte ao mesmo tempo?
Essas são perguntas.

*

Conforme prometido, liberamos boa parte das referências, organizadas por pastas de acordo com as temáticas principais do curso – autonomia/operaísmo na Itália; Altermundismo, pós-operaísmo, anos 1990 e 2000; “hackers”; e “ressaca da internet” – usadas neste arquivo torrent (magnet link). Ajudem a semear que já fica de backup também.

A Biblioteca do Partido Pirata tem alguns textos complementares (ou não) que pode ser útil para quem quer ir fundo em alguns tópicos. A Biblioteca do Comum, projeto mantido pelo BaixaCultura e o Instituto Intersaber, também tem um bom acervo; é para lá que logo subir todo esse material do torrent.

Aqui a apresentação utilizada no curso em PDF (e em odp pra quem quiser remixar, com os devidos créditos).

As fotos abaixo foram feitas por Douglas Freitas, jornalista e fotógrafo, Alass Derivas no Instagram e Facebook.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *