El Plágio Literário de Kevin Perromat

Entre as buscas incessantes efetuadas na web e os links que pipocam a todo instante, eis que as vezes surgem alguns endereços que nos transportam para lugares maravilhosos. Um desses lugares foi “El Plágio Literário”. Trata-se de uma página com um vasto material sobre as relações entre a propriedade intelectual e a produção artística, com ênfase nas cópias descaradas da literatura hispânica. Em cada seção, encontra-se uma rica bibliografia aliada a um contexto histórico, sempre com algumas imagens. Dá pra passar umas boas horas e ainda assim não ter visto tudo.

A página traz um amplo (e põe amplo nisso) panorama do questionamento a respeito da produção da arte contemporânea, o que exigiu também trazer uma definição de plágio não somente jurídica, mas também uma revisão histórica dos conceitos de plágio. Mais ou menos isso encontramos na seção “Que és El Plágio?“,  em que constam definições para plágio de dicionários espanhol, francês e inglês dizendo quase a mesma coisa:  cópia ou apresentação de uma obra ou de uma ideia alheia como se fossem próprias. Mais ou menos porque não espere achar uma definição definitiva, única.

São apresentados diversos conceitos, alguns bem pobres – como os da lei espanhola e da convenção universal de Genebra de 1952 – e outros bem aprofundados, como os (claro) da Semiótica, com quatro indícios que podem autenticar um plágio, e os da Crítica Literária, com uma tabela classificatória dos tipos de cópia literária.

Escher, um plagiador?

A longuíssima seção “História do Plágio“, além de portar muitos kilobytes de texto, é ilustrada com (muitos) arquivos remetendo à Antiguidade, ao período antes da imprensa, à “Galáxia de Gutemberg”, ao direito moderno e às ultimas tendências – em que o plágio tem “sido uma peça sempre presente no mecanismo de produção artística”, apesar de “seu peso relativo ter sido sempre escasso no discurso sobre a criação artística ou sobre o status do artista“.

Igualmente interessante é a Plagiadores Ilustres, com uma lista de notáveis escritores hispânicos que praticaram ou foram acusados de plagiadores do mal. Aqui estão baluartes como Miguel de Cervantes, Pablo Neruda e Gabriel García Marquez, só pra ficar nos mais conhecidos.

[Aliás, a acusação de Garcia Marquez ter plagiado outro autor rendeu um efeito curioso. Em 2002, na II Feria Internacional do Livro da Guatemala, o escritor colombiano Fernando Vallejo reafirmou que o coronel Aureliano Buendía, que fabricava peixinhos de ouro em “Cem Anos de Solidão”, era cópia de um personagem de Honoré de Balzac, da novela “Búsqueda del infinito”, que buscava fabricar um diamante. Tais acusações serviram de mote para o I Concurso de Plágio Criativo de Cem Anos de Solidão, promovido pela Escola de Escritores em 2003.]

O Copyleft, edições piratas (tão prolíficas no Peru, lar do Nobel 2010 Mario Vargas Llosa), os autores coletivos (como o Wu Ming), os fandoms (que merecem um post nosso pra já), e o mais radical copyFight é falado na parte “Fénomenos Conexos y Desafíos“. Embora não pareça muito diferente do copyleft, o copyFight se assemelha mais a um anticopyright, cujos defensores “arguyen razones humanitarias, y señalan evidencias objetivas que, en su opinión, muestran una evolución irrevocable hacia una (re)utilización no limitada ni jerarquizadas de las obras intelectuales, entre ellas las artísticas”.

“El Plágio” também conta com os já clássicos geradores de plágio, além de links a outros sites que que tratam do assunto. Na seção Plagioteca há links para o LORQVIANA – um gerador de poesias com versos do poeta e dramaturgo Federico Garcia Lorca -, o “navegador poético” Badosa.com e, inclusive, para um site  focado na ideia de fazer experimentos poéticos com tradutores automáticos, passando a escrita para o inglês e depois para a língua original. Boas indicações constam ainda em Enlaces.

Outra seção imperdível é a com citações de escritores que se referem ao plágio. Uma das melhores é a do argentino Ernesto Sabato, falecido esse ano, presente no livro “O escritor e seus fantasmas”:

Quê, querem uma originalidade absoluta? Não existe. Nem em arte nem em nada. Tudo se constrói sobre o anterior, e em nada humano é possível encontrar pureza. Os deuses gregos também eram híbridos e estavam “infectados” por religiões orientais ou egípcias. Também Faulkner provém de Joyce, de Huxley, de Balzac, de Dostoievski. Há páginas em “O som e a fúria” que parecem plagiadas de Ulisses. Há um fragmento de “O Moinho de Flos” em que uma mulher experimentava um chapéu diante de um espelho: é Proust. Quer dizer, o germe de Proust. Todo o resto é desenvolvimento. Desenvolvimento genial, quase canceroso, mas mesmo assim desenvolvimento.”

Prof. Dr. Kevin Perromat, o curador de El Plágio.

Já deu pra notar que esse poço de conteúdo é resultado de uma pesquisa minuciosa sobre o tema. Todo o material foi reunido pelo professor espanhol Kevin Perromat Augustín (foto acima), doutor pela Universidade Paris Sorbonne Paris-IV, com uma ajuda do especialista em linguística computacional Óscar García Marchena e da tradutora Cristina Quintana Déniz.

O pesquisador defendeu sua tese de mais de 700 páginas nomeada “El plagio en las literaturas hispánicas: historia, teoría y práctrica” em 13 de novembro de 2010. Outras produções acadêmicas dele podem ser baixadas no site. Conversamos brevemente com Kevin via e-mail e o resultado está aqui abaixo, acompanhado de sua bela tese de douturado.

Quem sabe alguém não (re)aproveita o material e investiga o plágio nos campos da música, do audiovisual, e/ou de outras artes ?  E se por um acaso alguém já esteja fazendo isso, nos avise pois teremos o maior prazer em conhecer e divulgar.

Desde quando começou a se interessar por plágio?

Me intereso en el plagio desde hace bastante tiempo, aproximadamente desde que estudiaba en la Univesidad de Sevilla, hace unos diez años. Como muchos amantes de la literatura, a veces también escribo y me sorprendía repetir cosas (fragmentos, ideas, frases…) de autores que no había leído, incluso literalmente. Esto me llevó a preguntarme cómo era posible; ¿existiría un inconsciente colectivo literario que preformaría nuestros textos?, ¿serían simplemente los límites del lenguaje literario? En otras palabras, ¿cuál es la parte del individuo y de la sociedad en la creación literaria? Mi investigación ha sido un intento de responder a estas preguntas.

Quando começou o desenvolvimento do site?

Cuando empecé a investigar, Internet y las nuevas tecnologías de transmisión del conocimiento no estaban muy desarrolladas. Sólo tuve acceso muy tardíamente a trabajos e ideas que me hubieran sido de una enorme utilidad. Además, había una gran cantidad de información digamos “interesada” sobre la cuestión que arrojaba mucha confusión. Por estas razones, decidí publicar lo más posible a medida que avanzaba en mis investigaciones, para poder compartir lo que descubría e intentar sistematizar la información de la que disponemos. Durante estos años, las reacciones de los internautas me han sido muy provechosas.

Como foi fazer o  doutorado?

Ha sido una labor de investigación muy compleja y larga, puesto que me ocupo de unos 3 milenios de historia de la Literatura en varias lenguas. Para dar una idea del trabajo realizado, simplemente diré que hay más de 500 referencias bibliográficas. Me llevó unos siete años de investigación y cuatro años de redacción que culminaron en un trabajo de unas setecientas cincuenta páginas.

Como você vê a criminalização do plágio atualmente?

Ante todo es necesario señalar que desde una perspectiva estrictamente artística o literaria el “plagio” no es más que un sinónimo de “intertextualidad”, “parodia” u “homenaje”. Y, a pesar de las apariencias, tampoco es un concepto jurídico, donde lo correcto es hablar de “violación del copyright”, “falsificación” o “piratería”. Lo que entendemos como “plagio” en la mayoría de las ocasiones es una “falsa autoría”. Ahora bien, desde las vanguardias del siglo pasado, el arte ya no es la expresión “auténtica y original” del artista. Warhol o Duchamp no entran dentro de estas categorías y en su día fueron criticados también como falsos autores. Tachar de “plagio” una obra es como un espectador que contempla un cuadro de Arte Moderno y decide que es una estafa, porque no corresponde a sus prejuicios sobre lo que debe ser una obra de arte. En cualquier caso, las acusaciones y la criminalización del plagio obedecen siempre (siempre, insisto) a intereses particulares, con frecuencia corporativos.

Quais são os planos para agora, depois do doutorado?

En la actualidad estoy trabajando en una versión reducida de la tesis con miras a una publicación impresa. También me intereso a algunas de las vías que quedaron abiertas durante la investigación. Tradicionalmente las acusaciones de plagio han sido utilizadas para controlar la producción y difusión artística y literaria; colectivos como las mujeres, minorías raciales, religiosas, herejes, y rivales ideológicos han sido el objetivo privilegiado; me parece extremadamente interesante analizar como los cánones se han construido históricamente a partir de los anti-modelos, los autores y artistas “deficitarios”, Por otro lado, el Plagiarismo, entendido como movimiento y propuesta apropiacionista extrema es de una especial relevancia en la era de la ciberliteratura y del arte digital. Estas son las dos principales vías de mi trabajo para el futuro.

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Crédito das imagens: 1, 2.

[Marcelo De Franceschi]

Faulkner hipertextual

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Começou do óbvio: queria ler O Som e a Fúria (ou The Sound and the Fury), 3º romance de William Faulkner, um dos grandes da Literatura Americana do século XX. A iniciativa veio por dois motivos principais: de tanto ouvir Faulkner ser citado por muito dos escritores que mais li na vida até hoje, especialmente Juan Carlos Onetti e Julio Cortázar; e por ler este trecho da entrevista de Cormac McCarthy à Rolling Stone Latino América, em fevereiro de 2008, capa com o Radiohead:

“Faulkner solía decir que comenzó El Sonido y La Furia con una única imagen de una chica en un árbol mirando a através de una ventana el funeral de su abuela, y otra chica mirando los húmedos armários donde se habían estado jugando. Sólo era esa imagen, que problablemente provenía de su infância. Uno piensa en esa imagen. Sale El Sonido y La Furia inevitablemente de esa imagen? Bueno, yo creio que no”.

Daí a procurar o livro foi um pequeno passo, que logo se tornou em uma tremenda busca, dada a dificuldade de achar o livro nas bibliotecas (da UFSC e da UFSM e em algumas públicas), livrarias (Saraiva, Cultura, Cesma, e outras menores) e mesmo em livrarias virtuais. Na internet, resolvi então procurar pela versão original, em inglês, e como quarta opção da busca, apareceu esta baita edição em hipertexto do livro, que reproduzo a capa aqui abaixo.

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Edição em hipertexto não é nem parecido com aqueles PDF’s que baixamos. E esta é extremamente bem cuidada: tem uma introdução geral – explicando o porquê do livro ser especialmente  interessante para uma leitura hipertextual -,  um guia de leitura para cada um das quatro partes principais da obra e, o supra-sumo desta edição, uma série de links (localizados à direita do texto principal) que tornam a leitura hipertextual completamente diferente de um outro tipo de leitura. Trata-se de quatro tópicos contendo ensaios críticos, intertextos (com outras obras, sejam de Faulkner ou de outros escritores), gráficos com estatísticas sobre os mais variados dados acerca do livro e links para outras páginas sobre Faulkner.

(O detalhe é que todo esse cabedal de informações pode ser acessado ENQUANTO tu lê o livro, o texto principal no centro da página e o complemento numa janelinha à direita, como a imagem abaixo indica)

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Não há dúvida que se trata de outro tipo de experiência de leitura; podemos ler, em uma mesma tela, ao mesmo tempo, o livro e a sua obra crítica, o livro e um gráfico da cronologia dos acontecimentos do livro, o livro e referências pessoais da vida de Faulkner enquanto escrevia o livro. É possível, inclusive, alterar a estrutura da obra, onde a sequência original (não-cronológica) dos capítulos pode passar a ser cronológica.

As possibilidades de leitura que esta versão hipertextual dá são tantas que muitos vão achar que elas alteram e até estragam a apreciação da obra – na medida em que os hipertextos “guiam” nossa imaginação por diversos caminhos, ela não trabalha tanto quanto se estivéssemos lendo a versão original impressa do livro, onde os vazios são preenchidos, para bem ou para mal, única e exclusivamente por nossa capacidade de imaginar e fazer referências.

Acontece que não é pelo motivo de que ainda não estamos acostumados a ler literatura desta forma que devemos deixar de tentar entender como que essa nova leitura vai se dar. Existe muita gente por aí buscando entender isso, e outros tantos fazendo literatura assim – e mais outros tantos fazendo um misto de jornalismo e literatura sobre isso, como meu caro amigo Augusto Paim neste blog aqui.

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Mas eu confesso: ainda não me acostumei. Tanto que finalmente comprei uma edição  – bonitaça e um tanto cara, essa aí acima da Cosaic & Naify – de O Som e a Fúria, em português, e é nela que leio e a cada página me embasbaco com o impressionante talento de Faulkner em construir a história dos Compson e de Yoknapatawpha County através de tantas vozes diferentes, usando tão absurdamente bem o fluxo de consciência, e me pondo tantas dúvidas que, desde já, tentam se disfarçar de admiração para que só assim consigam se esconder atrás da absurda racionalidade que busca respostas para tudo, inclusive e principalmente pra aquilo que não deveria querer saber.

[Leonardo Foletto]