Robos e jornalismo – um futuro próximo?

robo e jornalismo

Na primeira semana de maio de 2014, li um texto que me instigou bastante: “um jornal impresso feito por robôs é o futuro da mídia ou apenas uma atividade secundária?”. Nele, o jornalista relatava o causo de que o The Guardian, um dos principais jornais da Inglaterra – certamente um dos mais inovadores do planeta, especialmente na seara digital – experimentou uma edição limitada de seu jornal impresso totalmente produzido por algoritmos, as sequências de cálculos automatizadas que estão por trás de todo software. E a partir da notícia, fazia a pergunta que dá título ao artigo, questionando também se é este, de fato, o jornalismo que queremos de nossos famigerados jornais impressos.

Como ando pesquisando a cultura hacker e o jornalismo no doutorado, esse é um assunto que me interessa. Não é de hoje que vemos um crescimento absurdo da influência da tecnologia digital em todos os processos e produtos jornalísticos. Enquanto trabalhamos como jornalistas, apuramos, escrevemos, filmamos, editamos, gravamos, fazemos fotos, publicamos e fazemos circular nossas matérias, reportagens, vídeos e fotografias em máquinas governadas por dígitos, combinações infinitas e complexas de binários (0 e 1).

Não importa o suporte que o jornalismo é veiculado, todos eles estão tomados por máquinas digitais em alguma – ou em todas – etapas. A não ser que você queira fazer um jornal artesanal, escrever a mão, copiar o texto em mimeógrafos (existem ainda?) e distribuir na rua, ou em bancas e livrarias, não há como escapar da digitalização.

Daí que, ao ler a matéria sobre o avanço dos “robôs” sobre os processos jornalísticos que antes humanos faziam, diversas questões vieram à tona. Se a competência da técnica é cada vez mais importante na produção do jornalismo, e se a forma de ‘objetividade’ na atividade jornalística, especialmente nas seções “últimas notícias” dos sites, desumaniza tanto o processo que fica fácil um robô fazer isso, o que aconteceria se eles, robôs (scripts, combinações várias de algoritmos bem construídos de seleção e hierarquização da informação) substituíssem de fato um editor de um jornal?

Teríamos um jornal somente da “bolha” de nossos amigos ou pessoas com pontos de vistas semelhantes, com informações sobre coisas que já demonstramos interesse em algum momento na rede, como é o caso da timeline do Facebook, o nosso “jornal diário” que consultamos diariamente (alguém de vocês não faz isso?) e mistura notícias importantes, exibição turística, gastronômica e apaixonada alheia, memes da internet e muito, mas muito comentário sobre tudo e todos?

Imagino que nem eu nem ninguém tenha respostas a estas questões. Para produzir um jornalismo de qualidade, que traz uma informação que as vezes nem sabíamos ser de suma importância para o interesse público, sempre foi necessário aquele “feeling” do repórter em buscar informações, sentir quando elas podem se tornar notícias relevantes e de que forma elas devem ser apresentadas para fisgar quem lê/assiste/ouve. Com a maior influência da tecnologia no jornalismo, e a onipresença das redes digitais, cada vez mais informações podem ser buscadas por ferramentas digitais, quanto mais avançadas as buscas melhor a qualidade e a possibilidade de cruzamentos dessa informação – e taí o jornalismo de dados (ou datajournalism) e as reportagens multimídia para provar o quão bom jornalismo é possível fazer dessa maneira.

Mas o “faro” de identificar “isto é notícia!” depende de tantos fatores, tantas variáveis e de tantas questões subjetivas, que fica difícil de elaborar, hoje, uma coleção de algoritmos (um “robô”) tão robusta que dê conta de fazer automaticamente esse processo. Os robôs do The Guardian talvez estejam tateando nesse caminho, mas se não houver quem os programe, quem coloque sentenças do tipo “se a informação X estiver na rede deve ser notícia, portanto publicada”, não há robô que dê conta.

Além disso, outras questões surgem: e se as informações de alguma forma não estiverem digitalizadas em nenhum espaço na rede, como um robô irá saber quem entrevistar ou que esse acidente que aconteceu agora em frente a minha casa deve ser notícia? E se esse “jornal diário” feito pelos robôs, baseados nos nossos interesses demonstrados nas redes sociais (posts que curtimos, fanpagens que seguimos, pessoas que mais acompanhamos e comentamos), não trouxer informações básicas sobre o tempo, trânsito, horários e preços, informações básicas de interesse de uma coletividade organizada, em torno de uma cidade, por exemplo, consumiríamos assim mesmo esse produto?

Questões, questões e mais questões que hoje não têm resposta, mas que só o fato de poderem ser colocadas dão uma pista de como o mundo – e o jornalismo – está em profunda mutação.

[Leonardo Foletto]

* Texto publicado originalmente no site de Claudemir Pereira

Crédito imagem: Pepper Robot

Notícias do front baixacultural (24)

Não temos certeza se essa seção é de alguma serventia em tempos de fluxos de Twitter , Facebook e Google +. O certo é que gostamos de fazer esse serviço – que de alguma forma lembra o de “curadoria de informação”, termo e função importante nos dias de hoje – e registrá-lo aqui. Acompanhe.

Fundadores do The Pirate Bay criam novo site para compartilhamento de arquivos (Hardware, 31/08)

Um forte concorrente vai entrar na grande lista de comparação entre provedores de hospedagem de arquivos: o Bayfiles.  É o serviço de hospedagem de arquivos (one-click hosting) criado pelos criadores do cliente bittorrent Pirate Bay. O destaque é que não é necessário se registrar no serviço para subir  um arquivo – que pode ter até 250 MB para usuários não registrados.

O limite do tamanho dos arquivos pode aumentar para 500 MB se for feito cadastro, e para 5 GB se for assinante por 5 euros mensais, 25 por seis meses ou 45 por ano. Caso os arquivos infrinjam o DMCA, o serviço se compromete a deletá-los, e até bloquear a conta, em 14 dias após ser notificado extrajudicialmente. Há intenções de expandir o serviço para o de sincronização de arquivos pela “nuvem”, como o Dropbox.

O Bayfiles pode ser uma alternativa para diminuir o número de 200 mil usuários alvos de ações judiciais só nos Estados Unidos durante o ano passado. Gravadoras, estúdios de cinema e todo tipo de detentores de copyright tem lucrado loucamente com ameaças de processos contra usuários de torrents.

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Secretária do Ministério da Cultura entrega o cargo (Folha, 01/09)

A secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, Marta Porto, entregou uma carta de demissão ao secretário executivo do ministério, Vitor Ortiz. Em solidariedade, a equipe inteira da secretaria, relacionada ao programa Cultura Viva e aos Pontos de Cultura, teria decidido sair. O MinC divulgou uma (pequeníssima) nota “explicativa” sobre o caso.

Segundo o blog do Rovai, a ministra Ana de Hollanda havia impedido Marta de representar o ministério em eventos e passou a não comparecer em solenidades da secretaria. O movimento Mobiliza Cultura lançou uma segunda carta aberta (a primeira foi lançada quatro meses atrás), chamada Pais Rico é País com Cultura, reinvidicando pontos não atendidos pela atual gestão. Resta saber (torcer?) quando Ana de Hollanda vai se juntar (ou por que ainda não se juntou) à lista dos quatro ministros que já caíram esse ano.

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Na Nova Zelândia, entra em vigor a lei Skynet (Twitter, 01/09)

Ela já estava dando as caras desde 2009, mas agora foi. Uma emenda na Lei de Copyright que pode multar em até 15 mil dólares quem baixar conteúdo protegido passou a valer nas duas ilhas cercadas pelo Oceano Pacífico. Com o carinhoso apelido de Skynet, ficou proibido o download de arquivos de filmes e de músicas (mesmo que de autoria própria) por serviços BitTorrent e P2P.

O funcionamento é da mesma forma que a Lei Sinde: avisam três vezes o usuário antes de darem-lhe um talagaço judicial. Se continuar, é intimado a se apresentar a ju$tiça. Cogita-se cortar a internet de quem reincidir. Vikram Kumar, o presidente-executivo da InternetNZ, empresa que coordena e promove a internet no país (uma espécie de CGI, só que privado, de lá), disse o seguinte: “usuários da internet tem que entender que compartilhamento de arquivos é agora muito arriscado e não vale a pena.” OI?

Um discurso quase igual ao de Tony Eaton, chefe da New Zealand Federation Against Copyright Theft (NZFACT) que considerou a lei “um passo importante para criar um ambiente legislativo mais robusto que incentive o investimento futuro em plataformas de distribuição digital de conteúdo protegido por copyright na Nova Zelândia.” Quem tá por trás da NZFACT é a sua criadora, a temida e onipresente MPAA, que fez até um ridículo site defendendo a emenda.

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Visitas de Pierre Levy e Julian Assange [este via videoconferência] (25/08 e 01/09)

Além de estar com Lawrence Lessig no dia 24 de agosto, Gilberto Gil também fez companhia ao filósofo francês Pierre Levy, que veio para o Oi Futuro Cabeça, realizado pela Aeroplano Editora. Com o tema “O poder da palavra na cibercultura”, Levy afirmou que a inteligência coletiva, o cérebro global já é uma realidade: a internet conectando as pessoas. E insistiu no conceito de web semântica, prevista para 2015. O encontro foi transmitido ao vivo e pode ser visto aqui.

O cara do Wikileaks, Julian Assange, também esteve (virtualmente) no Brasil, no evento Info Trends. Retido no interior da Inglaterra[leia esta entrevista de Assange na Trip] devido a um processo na justiça sueca, Assange falou sobre basicamente dez assuntos: Prisão domiciliar, Guantánamo, o The Guardian e a Rússia, o bloqueio financeiro a seu site, fontes, prisões, quando o segredo (de informações) se justifica, e concorrentes. Depois, respondeu a duas perguntas. A conversa não foi transmitida online  [pra quem não estava no evento, como nós], mas tu pode assisti-la na íntegra aqui.

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Festival CulturaDigitalBr está com chamada pública aberta até 30 de setembro (1/09)

O que era Fórum da Cultura Digital virou Festival CulturaDigital.Br, migrou de São Paulo (as duas primeiras edições foram realizadas na Cinemateca, como você vê aqui) para o Rio, no MAM (Museu de Arte Moderna) e no Cine Odeon, região central da antiga capital nacional, e de mês: vai acontecer agora de 2 a 4 de dezembro É possível se inscrever em quatro áreas (experiências de cultura digital, Mão na Massa, Visualidades e Encontros de Redes); assim que for confirmada a inscrição, seu projeto aparece para ser “apoiado” na página (linda por sinal) como um curtir do Facebook.

A votação do público impacta a escolha, mas não é decisiva. A curadoria coletiva vai avaliar cada projeto recebido e  analisar pontos complementares e comuns entre eles, para “orquestrar um conjunto final de programação, que contemple as diversas perspectivas da cultura digital”, segundo texto da página. Os selecionados terão sua ida ao Festival viabilizada pela organização, que arcará com os custos de transporte (até o Rio de Janeiro e de volta à cidade de origem) e hospedagem durante os dias do evento em quarto individual ou duplo de hotel. Alimentação e demais despesas ficam por conta do participante.

A realização do Festival continua com a Casa da Cultura Digital, parceira do Baixa desde um calorento relato de fevereiro do ano passado.

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Revista Select estreia novo site (Twitter, 6/09)

E finalmente saiu o novo site da Revista Select, o que significa que não vamos mais ter que piratear as edições e disponibilizá-las aqui no Baixa ou em qualquer outro lugar da rede, como falamos aqui. Todo o conteúdo da edição impressa está ali, pronto para ser consultado. Não perca a matéria sobre Escrita Não-Criativa com Mr.Goldsmith, vulgo @ubuweb (http://ow.ly/6mrPT) e Pelo Direito de Não Ser Original, seção em que somos humildemente citados.

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Crédito da foto: 1.

[Marcelo De Franceschi. Leonardo Foletto]