Um remix brasileiro sim senhor

Saiu um novo vídeo sobre “essa coisa toda que tá aí” que ora costumamos chamar de cultura digital, ora de cultura livre, ora ambas e outras coisas mais.

Chama-se “Remixofagia – Alegorias de uma Revolução” e foi produzido pela Casa da Cultura Digital, remixado/dirigido por Rodrigo Savazoni e pela produtora Filmes para Bailar.

A produção começou no Fórum da Cultura Digital 2010, e é por isso que muitos dos depoimentos ali vistos tem aqueles tijolinhos bonitos da Cinemateca (local onde aconteceu o Fórum do ano passado) ao fundo. Entre os depoimentos, Pablo Capilé, do Circuito Fora do Eixo (em momento filósofo Capilé das Bolas), Pedro Markun, da Esfera e também da Casa da Cultura Digital, o provocador da cultura digital Cláudio Prado, Alfredo Manevy, ex-secretário executivo do MinC, John Perry Barlow, ativista e co-fundador da Eletronic Frontier Foundation, além dos ex-ministros Gilberto Gil e Juca Ferreira, entrevistados na Cinemateca mas numa sala sem os tijolinhos ao fundo, e diversos outros.

Comentávamos por aqui, e com os próprios produtores/diretores do curta e diversas outras pessoas, que faltava um tipo de video que tentasse explicar o atual momento pela via da cultura digital brasileira. Nos ciclos copy, right? (primeiro e no 2.0), quase todos os filmes exibidos eram de outros países por conta dessa carência – embora boa parte deles trouxessem casos brasileiros como exemplos. O único nacional passado foi Brega S/A, que, focado no criativo modelo de negócio do tecnobrega paraense, tangenciava a cultura digital sem tentar compreendê-la. Natural, pois não era esse o foco.

“Remixofagia” toca direto na questão da cultura digital pelo viés brasileiríssimo-antropófogo de personagens como Macunaíma – aqui na cara que acostumamos a vê-lo, como Grande Otelo no filme de Joaquim Pedro de Andrade de 1969 – e por causos como o dos índios caetés que, em 1556, comeram o bispo sardinha, no “acontecido que fecundou a terra e deu origem ao espírito do Brasil”, como diz as legendas no filme.

A mesma Caetés de onde saiu os comedores (literalmente) do Bispo Sardinha é terra de outro “filho antropófogo” brasileiro: Lula. A partir de então, é o ex-presidente que guia o vídeo com suas falas, aparições e, principalmente, com o seu proclamado resgate da ideia de que a antropofagia é a profissão de fé do povo brasileiro – o que é ilustrado com a presença de Gil, um tropicalista, no ministério da cultura.

Entra aí o digital, a internet, vinda dos “outros”, dos “estrangeiros”, como um “presente” para o Brasil deglutir e fazer um “banquete” próprio – ilustrado na boa (vá lá, partidários de todas as querências) metáfora da fala de Lula no FISL 2009 sobre o porquê da adoção do software livre no seu governo

nós tínhamos que escolher: ou nós íamos para a cozinha preparar o prato que nós queríamos comer, com os temperos que nós queríamos colocar e dar um gosto brasileiro na comida, ou nós iríamos comer aquilo que a Microsoft queria vender para a gente.  Prevaleceu, simplesmente, a ideia da liberdade.

A 2º parte do vídeo foca naquela ideia que aqui falamos desde os primórdios: de que as corporações correm atrás do velho lucro e tentam impedir a cultura de ser livre. Aí entram diversas falas para ilustrar os argumentos, especialmente dos defensores da cultura livre/digital. Destaque para os dizeres sempre lúcidos/viajantes de Gilberto Gil: “as corporações começam a se defrontar com o fantasma do custo zero, e aí o capitalismo entra em parafuso, onde é que nós vamos ganhar dinheiro?“.

E do pós-tudo Cláudio Prado:

O Brasil é o remix total. Por isso que quando bateu aqui as pontas dessa nova realidade colaborativa que estava pra nascer no mundo, ela encontra um terreno extremamente fértil no Brasil, e por isso se explica a demanda por uma política pública de banda larga“.

O raciocínio implícito da fala de Prado pode ser: se o Brasil já anda tomando a frente mundial em diversas frentes pró-cultura livre e digital com uma banda larga de quando muito 1 mega (!) que temos – que nem a todos lugares chega, e quando chega ainda pode ser muito caro – imagina quando se tiver um plano de acesso à rede decente, barato e acessível a (quase) todos, como já acontece em muitos lugares do mundo, como em Portugal, e se quer implantar aqui através do Plano Nacional de Banda Larga, ainda que com muitas restrições de velocidade, locais e preços.

Não vamos entrar em mais detalhes aqui que é para tu não deixar de querer o vídeo no final desse post. Independente de qualquer “tomada de partido” possível da narrativa, vale dizer que o curta não se furta em mostrar as questões políticas por trás da cultura digital, ainda mais salientes nesse momento de Trevas de Hollanda (e também nisso ele ajuda a ver como, de fato, estamos regredindo com o MinC 2011).

Remixofagia é um pequeno e necessário manifesto sobre a cultura digital brasileira, daqueles que conversávamos serem importantes para o Brasil deixar de ser apenas case dos docs dos outros e produzir a sua (uma?) visão sobre “essa coisa toda que tá aí” que ora costumamos chamar de cultura digital, ora de cultura livre, ora ambas e outras coisas mais.

P.s: Vale lembrar que o vídeo está em Creative Commons licença – termos 3.0 não adaptada.

Música eletrônica globoperiférica

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Ronaldo Lemos já é figura carimbada por aqui, o que me faz dispensar apresentações. No Overmundo, site em que ele é um dos criadores e que também tem dois posts do BaixaCultura circulando por lá (“Uma voz do Presente“, sobre Wado, e “O Escritor Coletivo“, sobre o Wu Ming, ambos de Reuben) , Lemos publicou um texto em que faz um interessantíssimo apanhado do que ele chamou de “música eletrônica globoperiférica“. O texto, inicialmente escrito para a exposição I/Legítimo do Museu da Imagem e do Som em São Paulo, na qual Lemos fez a curadoria musical, é uma lista com diferentes, digamos, “tipos” de música que tem pipocado nas periferias mundiais nestes primeiros anos do século XXI, muito (totalmente, vamos dizer) por conta do barateamento da produção e da circulação, o que vem a ser resultado inequívoco da proliferação da internet em todos os confins desse mundão. Nas palavras de Lemos,

Nos últimos anos, por causa da disseminação da tecnologia digital, grande parte das músicas mais pop(ulares) do mundo passou a ser produzida eletronicamente, com equipamentos cada vez mais baratos e acessíveis. Essa música nova anima das festas portuárias de Rotterdam, aos bairros pobres de Belém, das “villas miserias” de Buenos Aires às emissões piratas das rádios de Londres, sem falar nos DJ´s canadenses (alô Paul Devro) ou americanos (alô Diplo) que surfam nessas ondas.

Eis aqui abaixo os estilos, apresentados nas palavras de Lemos, com videos auto-explicativos editados por mim (menos o tecnobrega e o funk carioca, mais que conhecidos por aqui) e mais alguns pequenos acréscimos (em itálico). Cabe, numa próxima postagem aqui mesmo ou em qualquer outro lugar que você queira ver, um aprofundamento sobre o funcionamento de cada uma dessas cenas, inclusive uma entrada em questões como os direitos autorais, a circulação de dinheiro (quem ganha, e como ganha, e porquê ganha) e o esquema de produção. Desconfio que todas cenas – inclusive o tecnobrega, que já tratamos por aqui, e o funk carioca, muito apreciado no exterior e (ainda) detonado no Brasil – tem muito a nos ensinar sobre o que vai ser esse planeta musical num futuro próximo.

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Champeta – fenômeno cultural colombiano (que inclui a música) derivado sobretudo dos descendentes negros na região de Cartagena. Apesar do termo ser usado há mais de 90 anos (quando tinha caráter depreciativo), a champeta consolidou-se como um ritmo musical nos anos 80, e nos últimos anos vem-se tornando cada vez mais eletrônica e dançante. Hoje produz hits de estádio, como a faixa “Mueve la Colita” (a do vídeo logo acima).

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Kuduro – Originado de angola (mas agora bastante presente também em Portugal), o kuduro significa exatamente o que sua sonoridade portuguesa indica (“cu duro” ou “bunda dura” para nós brasileiros). O termo diz respeito à forma como o ritmo é dançado. O kuduro, que remonta aos anos 80, tem influências do zouk e da soca, e mais recentemente, do funk carioca também. Este blog é um bom achado pra quem quiser saber mais sobre a cena kuduro, vindo diretamente de Luanda.

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Tecnobrega – Desdobramento da poderosa e antiga cena do brega paraense, o tecnobrega nasceu da fusão da música eletrônica com o brega tradicional. Antecedido na década de 90 pelo bregacalypso (também resultado de uma fusão), o gênero do tecnobrega se renova sem parar. Atualmente, há diversas vertentes: cybertecnobrega, brega melody e o novo e empolgante eletromelody (de nomes como Maderito & Joe e Banda Eletro Melody).

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Kwaito
– Surgido nas periferias de Johanesburgo na década de 90, o kwaito é o resultado da fusão do hip hop norte-americano, samples de música africana, house music com batidas um pouco mais lentas e linhas de baixo pronunciadas. Muitas vezes cantada em dialeto, o kwaito vem-se transformando de música do gueto a trilha sonora da juventude sul-africana pós apartheid.
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Cumbia Villera
– Originada das “villas miserias” de Buenos Aires (o adjetivo “villera” é depreciativo), é uma variação da cumbia colombiana (que se espalhou por praticamente toda a América Latina). De origem acústica (violão, acordeão, bateria, flautas etc), na sua vertente villera, torna-se cada vez mais eletrônica e se torna notória pelas letras pesadas sobre drogas e sexo. Nos últimos anos, vem-se tornando chic (com noites “fashion” em Buenos Aires) e até mesmo experimental. O blog Dancincg Cheetah dá mais uma explicada no estilo, conhecido popularmente como a cumbia das favelas.

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Funk Carioca – Influenciado pelo Miami Bass, o funk carioca teve origem a partir de versões em português feitas nas favelas cariocas para sucessos do estilo. A partir daí, passou a se desenvolver como um estilo próprio, incorporando elementos afro-brasileiros (como o tamborzão, atribuído ao candomblé), ao mesmo tempo em que absorve rapidamente as últimas novidades em termos de tecnologia (como o uso hoje dos samplers e seqüenciadores MPC´s nos bailes). Apesar de ainda ser referido com o adjetivo “carioca”, está presente hoje em todo o Brasil. [ E me arrisco a dizer que não tem brasileiro que já não o tenha rebolado alguma vez na vida, mesmo  – ou principalmente – em função do alto teor de borracheira].
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Bubblin – Estilo musical eletrônico que conecta o Suriname à Holanda, de batidas eletrônicas secas e arranjos econômicos, é responsável por animar festas de Rotterdam a Paramaribo. O bubblin em geral é acompanhado pelo boeke, fenômeno de dança também cada vez mais popular. Talvez por conta do bubblin ser popular em holandês, é difícil achar alguma coisa mais aprofundada sobre o estilo.

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Dubstep – Originário das periferias de Londres no começo dos anos 2000 e popularizado através de rádios-pirata e mixtapes. O dusbstep é produto da cena Garage na inglaterra. De ritmo lento, sincopado e linhas de baixo profundas e atordoantes, o dubstep é notório também por ser difícil de dançar (e nesse sentido, reinventar as possibilidades da dança). A BBC fez, ainda em 2006, um documentário que dá uma boa apresentada no estilo.

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Coupé Decalé – O coupé decalé é ao mesmo tempo um estilo de música e de dança. Originado dos imigrantes da Costa do Marfim, o ritmo nasceu na França e rapidamente migrou de volta para a Costa do Marfim, onde se tornou sucesso também. O estilo usa fortemente elementos africanos e linhas de baixo bem marcadas, tendo geralmente um tom festivo e otimista. De novo o Dancing Cheetah fez uma postagem mais explicativa sobre o ritmo que vale uma conferida.

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Segundo Lemos, a ideia de periferia tratada aqui não tem muita relação com o tradicional conceito geográfico, embora eu consiga entender que tem sim, pois a própria ideia da compilação desses ditos estilos tem um foco comum, que é o de justamente tratar de novos estilos musicais (eletrônicos) criados em lugares que raramente apareciam no disputado e massivo mercado musical mundial (Hermano Vianna diz que que o “centro” está se tornando cada vez mais “a periferia da periferia”, especialmente do ponto de vista simbólico, o que eu tendo a acreditar com um certo pé atrás cético).

Mas mais importante que a discussão sobre o que é e o que não é periferia está a constatação de que assistimos a um incrível boom mundial de cenas musicais bastante distintas umas das outras. Como diz Lemos, basta um computador, criatividade e gente com vontade de dançar que tá feito um estilo altamente dançante, pegajoso, tosco e engraçado, o que não deixa de ser a mais pura e sincera expressão cultural de quem finalmente tem as condições necessárias para poder se manifestar e ser ouvido.

[Leonardo Foletto.]

Brega S/A encerra o ciclo “copy, right?”

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No 3º e último dia do ciclo “copy, right?”, o Cineclube Lanterninha Aurélio e o BaixaCultura.org apresentam o filme “Brega S/A”, documentário dirigido por Vladimir Cunha e Gustavo Godinho, finalizado em setembro deste ano. O filme  trata da surpreendente cena tecnobrega de Belém do Pará, um fenômeno cultural que nos últimos tempos tem atraído a atenção mundial por conta de sua inovadora estratégia de comercialização, onde a pirataria entra como mais um elemento parceiro na circulação do que um “inimigo” a ser eliminado. De Chris Anderson (em seu livro mais recente, “Free – O futuro dos preços“) à Ronaldo Lemos (autor de Tecnobrega – O Pará reiventando o negócio da música”, ao lado de Oona Casto”), passando ainda pelo documentário “Good Copy, Bad Copy” (o 1º exibido no ciclo), todos que tratam e/ou se interessam por música e/ou cultura livre no planeta estão procurando saber, afinal, que diabos tem no tecnobrega do Pará.

O filme teve sua estréia oficial na MTV Brasil no sábado 3 de fevereiro, às 24h, sendo que foi disponibilizado para download na página da produtora Greenvision, responsável pela realização do documentário, na segunda feira 5 de outubro. Segue um texto de apresentação do filme, que também pode ser encontrado no blog da produtora:

Criado em estúdios precários e improvisados e vendido ao grande público através de discos piratas e gravações caseiras, o tecnobrega é a trilha sonora oficial da periferia de Belém do Pará. A música das festas de aparelhagem, dos balneários populares, das feiras livres, dos bares e dos salões de dança de terra batida e teto de zinco. O som que define parte de uma cidade, o seu lado menos visível, mas nem por isso menos importante.

Como qualquer movimento cultural que nasce do underground para depois atingir as massas, o tecnobrega vive de acordo com as suas próprias regras. A principal delas, ser um estilo musical que se estabeleceu como segmento de mercado sem o apoio de grandes gravadoras, estações de rádio ou emissoras de televisão. Para vender sua música, nada do aparato comumente utilizado pela indústria do entretenimento, apenas as aparelhagens de som e os camelôs que vendem discos piratas no centro da cidade.

Dirigido por Vladimir Cunha e Gustavo Godinho, “Brega S/A” é um documentário que pretende retratar esse peculiar fenômeno cultural e social através de personagens como DJ Maluquinho, que se auto-pirateia e enriquece sem precisar de empresário ou gravadora; Marcos Maderito, o “Garoto Alucinado”, que sobrevive de compor tecnobregas para as turmas e gangues de rua de Belém; Beto Metralha, que toca um programa de TV inteiro de um quarto nos fundos do quintal de sua casa; e os DJs Dinho, Ellysson e Juninho, as maiores estrelas do universo das aparelhagens paraenses.

A idéia inicial do filme surgiu no ano de 2003, quando Vladimir Cunha, um dos diretores do documentário, passou a se envolver com a cena tecnobrega e as festas de aparelhagem de Belém do Pará. Não só pela curiosidade em entender melhor a mutação sonora que levou à criação do gênero como também para compreender a relação entre o barateamento e a facilidade de acesso à tecnologia e essa nova cadeia de produção e distribuição que começava a se formar. Uma forma de fazer circular a produção artística local que, progressivamente, foi substituindo o modelo adotado pelas grande gravadoras.

Depois de quase três anos de pesquisa, somente em 2006 foram iniciadas as primeiras captações, que terminaram somente em junho de 2009. Sem leis de incentivo e renúncia fiscal, Vladimir e Gustavo Godinho passaram, com recursos próprios, a documentar o dia-a-dia de produtores, músicos e DJs ligados à cena tecnobrega paraense. Com isso, foi possível radiografar toda a cadeia produtiva do tecnobrega: das gravações em estúdios de fundo de quintal ao processo de distribuição através de pirateiros, camelôs e festas de aparelhagem“.

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Dê uma olhada no trailer aqui abaixo:


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“Brega S/A”, de Vladimir Cunha e Gustavo Godinho.

30/12, 19h, de graça

Cineclube Lanterninha Aurélio

Auditório do Centro Cultural Cesma, 3º andar, Professor Braga, nº55

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[Leonardo Foletto.]