Efêmero Revisitado em Santa Maria

Depois do lançamento no Rio, desembarcamos com “Efêmero Revisitado” em Santa Maria, no coração do Rio Grande.

Muitos talvez já saibam, mas o lançamento vai ser hoje, sexta 6 de janeiro, às 18h, no Sesc Santa Maria (Avenida Itaimbé, 66); primeiro uma conversa sobre o livro e o tema teatro e cultura digital, com a participação de Lucas Pretti – que é ator, jornalista, parceiro de Casa da Cultura Digital e integrante do Teatro para Alguém, um dos grupos estudados para o livro – e depois o lançamento propriamente dito, com um coquetel e o livro a disposição, de graça (mas atenção; temos um limite de livros a disponibilizar).

Segue abaixo um texto que remixamos para o folder de divulgação. Amigos e interessados de Santa Maria, apareçam!
Atores + bits, eis um teatro digital?

O teatro foi a última das artes a perceber que somos todos feitos de 0 e 1. A música já era mp3, o cinema avi, os livros pdf e as fotos e quadros jpg quando, enfim, os atores sobre um palco diante de um público se viram representados por avatares feitos de dígitos. Estão ali atores, palco e público, cada um num espaço e num tempo, na mais complexa das manifestações artísticas já produzidas por humanos. As 11 artes misturadas.

O espectador normalmente não pensa nesses termos quando repete o gesto já habitual de apertar play em um vídeo transmitido ao vivo na internet. São apenas pessoas em algum lugar com uma câmera em punho enviando a gravação na hora para a rede. Digitalizar a presença – e portanto questioná-la, relativizá-la, expandi-la – foi o que emancipou a cena dos seus limites físicos. Limites. Amarras. Finitude. Controle. Até o século 20 o teatro era (só) assim.

Na segunda metade da primeira década deste nosso novo milênio, dois grupos de São Paulo romperam formalmente esta barreira da matéria. O trio do Teatro para Alguém arriscou ao produzir e encapsular peças curtas na internet (ao vivo e em arquivo). O quarteto da Phila7 conectou três palcos em três países no mesmo espetáculo. Misturaram cultura livre a encenações proprietárias, filosofia open source a dramaturgias fechadas, remix a interpretações autorais. Começou-se, então, a falar em teatro digital no Brasil.

Produzido a partir de uma bolsa de pesquisa da Funarte (Fundação Nacional das Artes) chamada Reflexão Crítica e Produção Cultural para Internet 2010, “Efêmero Revisitado: Conversas sobre teatro e cultura digital“ conta um pouco dessa história recente da arte brasileira a partir da fala dos seus personagens.

O livro é o primeiro projeto do Selo BaixaCultura, braço impresso do baixacultura.org, página criada em 2008 que trata de temas como cultura livre, (contra) cultura digital, direitos autorais, remix, pirataria, entre outros tantos temas relacionados.

Em Santa Maria, “Efêmero” será apresentado em uma conversa/palestra com a presença de Lucas Pretti, integrante do Teatro para Alguém, que vai mostrar alguns vídeos do seu grupo, pioneiro no trabalho com peças teatrais pensadas para a internet e indicado ao prêmio Shell de 2009, na categoria Especial.

Após a conversa/ palestra/debate, vai acontecer um coquetel de lançamento do livro, no hall do andar térreo do SESC, onde o livro estará disponível, de grátis. Vale lembrar também que o livro está também para download.


 

“Efêmero Revisitado” para download

Depois do lançamento no Festival CulturaDigital.br, prometemos e, com alguma demora, aqui estamos cumprindo: “Efêmero Revisitado: Conversas sobre teatro e cultura digital” na íntegra, pra download e visualização on-line.

Colocamos o livro no Scribd:

no Issuu, aquela site/ferramenta muito usado para disponibilizar revistas;

e em PDF, pra download simples, neste link do rapidhsare (só clicar no “save”, mais a direita).

Para obter a versão impressa do livro, estamos esquematizando uma distribuição via Estante Virtual que, esperamos, até o fim de 2011 esteja azeitado, escreva para baixacultura@gmail.com que a gente conversa. Por enquanto, são três os lugares onde você pode encontrá-lo:

_ São Paulo (SP): Casa da Cultura Digital, Rua Vitorino Carmilo, 459, Barra Funda. Tel: (11) 3662 0571

_ Santa Maria (RS): Cesma (Cooperativa dos Estudantes de Santa Maria), Rua Professor Braga, 55, Centro. Tel: (55) 3222-5584;

_ Porto Alegre (RS): Casa Fora do Eixo, Rua José do Patrocínio, 34, apto 111, Cidade Baixa. Tel: (51) 3225-3975;

Selo

“Efêmero” é o primeiro projeto do Selo BaixaCultura, braço impresso da página, que quer publicar livros, revistas, zines, coletâneas e assemelhados que se encaixam no vasto cabedal de temas que tratamos por aqui desde setembro de 2008: cultura livre, (contra) cultura digital, remix, plágio, copyleft, direito autoral, software livre, ativismo nas redes (e ruas), cut-up, pirataria, comunicação digital, anarquia & utopia criativa, vanguardas digitais, contracultura, etc.

O próximo lançamento do Selo é para o 1º semestre de 2012 (mais detalhes nos próximos meses). Trata-se de uma revista com textos sobre cultura livre, estética do plágio, cópia, remix e cultura digital, alguns inéditos, outros traduções, outros ainda versões remixadas do que já publicamos por aqui.

Festival CulturaDigital.br (3): notas pessoais e aleatórias

Continuemos de onde parou o relato sobre o FestivalCulturaDigital.br: da festa no primeiro dia, logo após a conferência de abertura oficial do evento e da palestra de Benkler.

A festa serviu para lavar a alma e matar a fome de diversão de muita gente que estava li no Odeon. Cerveja, champanhes e canapés liberados, mas extremamente disputados pela multidão que se apertava no hall, mezanino e entrada do Odeon, a maioria entretida com o tete a tete com amigos/conhecidos/novos amigos –  afinal de contas, são essas conversas uma das coisas mais importantes de um Festival como o CulturaDigital.br.

O fato do Odeon ser localizado em plena Cinelândia – região central do Rio, onde, por exemplo, o OcupaRio estava acampado até domingo passado – trouxe algumas intervenções à festa. Em especial, teve um grupo de teatro, devidamente maquiado e paramentado para uma performance que não bem lembro qual, que ficaram na frente do cinema, aparentemente felizes por haver um público grande para suas ações. Depois de alguma tensão, dizem que até que entraram no coquetel e se misturaram à plebe do Festival. Não recordo se houve incidentes no Odeon, mas o certo é que o coquetel (que virou balada) foi divertido e serviu para desfazer um pouco a sisudez da abertura oficial.

Leonardo e Lucas no debate sobre teatralidade digital

O lançamento do “Efêmero Revisitado” e apresentação do Teatro para Alguém, que estava marcado para o sábado às 18h, acabou ocorrendo no domingo, ao meio dia. O que tinha tudo para ser uma troca negativa, já que às 18h de sábado o Festival estava fervilhando de ideias e pessoas circulando, acabou sendo uma troca muito boa.

O pessoal que esteve presente na tenda de Visualidades estava interessado, perguntou, pegou seus livros e, ao que parece, gostou muito dos vídeos que Lucas, do Teatro para Alguém, mostrou, com destaque especial para este mostrado logo abaixo, que diz muito sobre a dificuldade de se encaixar nesse mundão fazendo algo que se gosta.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=qEzOcpveUnY]

Até o início da semana que vem, sem falta, o “Efêmero” estará para download. Aos que gostaram do TPA, vale acompanhar o site do grupo, que estreia novas produções semana que vem.

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[vimeo http://vimeo.com/29523075]

Projeto dos mais interessantes da Mostra de Experiências do Festival é o chamado “Deleted City“, que propõe um estudo arqueológico da rede através de um backup gigante do Geocities, aquela ferramente de construir sites popular nos anos 1990 que tu deve ter conhecido.

[Não ouviu falar? tratava-se de um serviço de hospedagem gratuito de sites do portal Starmedia. Ele contava com um bom espaço de armazenamento para a época e agrupava as páginas em “bairros” e “cidades”, conforme seus temas. Em 1999, o serviço foi comprado pelo Yahoo! (por 3,5 milhões de dólares!), e acabou sendo descontinuado em 2009]

Mariel Zasso, repórter da Revista Select e companheira de cervejas festivas, fez uma matéria sobre o projeto que inclui, também, uma entrevista com o holandês Richard Vigjen, idealizador do Deleted City. Um trechinho da conversa vai aqui abaixo; antes, brinque tu também com o Geocities-Izer, que transforma seu site em um “lindo” Geocities, como fiz com o Baixa aqui abaixo.

Você comentou que a década de 1999-2009 foi um período em que a “world wide web” e seus netcitizens estava em busca de uma identidade. E hoje, quais você pensa que são as questões da web e dos seus webcidadãos?

Eu acho que a internet como um meio público é algo que foi tomando forma entre 1995 – 1999. Foi quando mais gente teve a oportunidade de participar, já que antes a internet era privilégio de grandes instituições. Quando a rede foi aberta ao público, ela passou a ser usada por pessoas cujo o primeiro interesse não era a tecnologia em si, mas o seu potencial de comunicação em relação a seus próprios interesses. E como a internet é um meio aberto por definição, as pessoas começaram a experimentar vários meios de fazer isso, baseados em metáforas como uma biblioteca digital, uma cidade virtual, e coisas do tipo – eram conceitos do mundo existente (ou da ficção científica) sendo aplicados a esse novo meio. A coisa mais importante para mim é isso, quando você compra o acesso a essa rede, como você deveria usá-la ou como ela deveria ser é deixado a seu critério. Os provedores não disseram como a internet deveria ser porque eles mesmos não sabiam.

Eu acho que hoje isso está mudando: ainda há uma evolução em como a internet é usada. De homepages para blogs, de redes sociais a pesquisas em tempo real. Mas esses conceitos cada vez mais vem sendo vendidos como um produto para você consumir. Especialmente com a internet migrando dos provedores de acesso, que apenas vendiam acesso, para celulares: o papel do usuário como consumidor está se tornando dominante. O mesmo acontece com a migração dos PCs de uso geral para dispositivos dedicados, como os tablets. E com os fabricantes e operadores de telefones e tablets vendendo a internet como um produto (quase como uma torradeira ou uma cafeteira), há menos espaço para seus usuários questionarem o sistema, para chegarem a novas soluções ou modelos alternativos.

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Umas das coisas mais inusitadas que aconteceu no FestivalCulturaDigital.br nada teve que ver (a priori) com o digital. Trata-se do “happening” da foto acima. Uma pessoa – não se sabe quem – surgiu nos jardins do festival com um pote com óleo e começou a girar, girar, até que soltou o pote contra as paredes do MAM. O que se formou foi um anel manchado de óleo, a que a pessoa acrescentou uma folha de papel com informações sobre o porquê do protesto – que tinha a ver com o vazamento de óleo na baía de Campos, interior do RJ, de um local explorado pela petroleira Chevron, ou com a Petrobras, uma das patrocinadoras do Festival, não se sabe ao certo.

A organização do MAM, por medo de estragar a fachada do prédio, mandou colocar areia para facilitar a retirada da mancha, como dá pra ver na foto abaixo, feito por Lucas Pretti, que, como diversos outros, não concordou com o “abafamento” do protesto.

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Outro dos muitos destaques da Mostra de Experiências que, aos poucos, vamos falando por aqui foi o “Mapa Sonoro do Estado do RJ“, uma plataforma para mapeamento das paisagens sonoras das cidades do Rio e de Niterói, produzido por uma equipe da  Universidade Federal Fluminense coordenada pela professora Simone Pereira de Sá.

A ideia, ainda em fase inicial de implementação, é tão simples quanto ótima: a pessoa grava um barulho característico de seu cotidiano (o cachorro chato da esquina, o chafariz de uma praça calma, o vendedor ambulante que vende Mate nas praias, etc), georeferencia no Google Maps, cria um pequeno texto explicando o porquê do barulho e publica um post na ferramenta. Juntando todos, temos uma interessante cartografia dos barulhos de uma cidade, dos afetivos aos incomodativos, dos tradicionais aos inusitados.

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Ginger Coons (na foto acima) foi uma das presenças internacionais na cobertura multimídia do evento. A moça veio de Toronto, no Canadá, especialmente para cobrir o Festival pela revista em que é a publisher, a Libre Graphics Magazine, revista de design e cultura focada alinhada com a filosofia do software livre. Ela fez diversos tuítes sobre o evento (@ossington, do dia 2 a 5 de dezembro), além de posts para o blog de sua revista. Destaco em especial dois: DIY and Criticality, em que ela começa dizendo ter se surpreendido com popularidade dos hackerspaces, e neste texto sobre Hugues Sweeney, seu compatriota, diretor de interatividade do National Film Board of Canada.

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Entrada do "estúdio" do Buraco Cavernoso
... e dentro do estúdio improvisado

Outra iniciativa deveras interessante que esteve no Festival foi o Buraco Cavernoso, um programa de uma webtv chamada Angu TV. Capitaneada pelo carioca Márcio Bertoni (o de amarelo à direita), o Buraco usa um sistema baratíssimo (pelo menos em comparação a outros sistemas audiovisuais) baseado em câmera de segurança, que, além de relativamente simples de mexer, dá uma estética interessante para a exibição na web.

No festival, o Buraco gravou diversas coisas na íntegra, especialmente os debates políticos da Arena. No terceiro dia, Bertoni montou seu estúdio numa salinha do espaço multimídia e, nele, fez diversas entrevistas – inclusive com este que vos escreve. Bertoni, figuraça flamenguista que não nega o sotaque chiado de sua terra, puxava as pessoas que estavam dando sopa pelos arredores e arrastava para uma conversa bem informal no estúdio improvisado, que tinha uma bandeira pirata como seu símbolo. Vale conferir os vídeos produzidos no festival no link http://www.ustream.tv/channel/buraco-cavernoso.

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Por fim, não dá pra esquecer a bela junção de encerramento do festival. Começou ali por volta das 17h, quando a Orquestra Voadora, um grupo/bloco de músicos do RJ que toca tudo quanto é música somente com instrumentos de sopro e percussão, se reuniu para um grande ensaio aberto nos jardins do MAM. Logo começou a juntar gente, mais gente depois do encerramento do Brasileirão 2011, no que culminou numa grande celebração alto-astral, coisas que só o RJ e a vista da baía da Guanabara conseguem dar o clima certo.

Ali pelas 19h30, a orquestra liderou o cortejo para uma tenda, onde a Spok Frevo Orquestra encarregou de fazer o show de encerramento, um frevo-jazz quase todo instrumental pra lá de dançante. Lindo desfecho para um belo Festival, que as fotos abaixo dão uma mostra.

[Leonardo Foletto viajou ao Rio para participar da cobertura colaborativa do festival].

Créditos fotos: Pedro Caetano (1, 5, 11), Rafael Vilela (8, 12) e Bruno Fernandes (9, 10, 12, 13), da equipe de fotógrafos oficiais do Festival (Flickr), e Leonardo Foletto (2), Francelle Cocco (3), Lucas Pretti (6).

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Efêmero revisitado: conversas sobre teatro e cultura digital

Lembram desse post, uma entrevista com Rubens Velloso sobre teatralidade digital?

Pois bem: o produto final da qual aquela entrevista era uma parte acaba de ser finalizado. Trata-se do livro “Efêmero Revisitado: Conversas sobre teatro e cultura digital“, 192 páginas de pesquisa e entrevistas sobre o pantanoso terreno da relação entre teatro, teatralidade, tecnologia e cultura digital.

O livro, produzido a partir de uma pesquisa financiada pela Bolsa Funarte de Reflexão Crítica e Produção Cultural para Internet de 2010, é o primeiro projeto do Selo BaixaCultura, que pretende ser o braço impresso deste site e que, logo, ganhará uma página própria abaixo da BaixaTV com mais detalhes.

O Selo faz parte de umas reformas que ensaiamos anunciar antes, que incluem uma reformulação completa da Biblioteca e da BaixaTV. Iniciaremos esse processo em janeiro de 2012, mas já andamos estudando algumas coisas. Sugestões e colaborações são sempre bem-vindas.

Mas vamos ao livro, tema desse post.

Contracapa

Ele está divido em duas partes: Contextos e Experimentos & Reflexões.

Em Contextos, estão dois capítulos: o primeiro chamado “Teatro e tecnologia, uma longa história“, uma tentativa de ampliar o contexto de certos momentos da relação entre teatro e tecnologia na história que vai desde o surgimento do mecanismo do deus ex machina na Grécia Antiga até o happening e a performance, passando pela uso da luz elétrica por Adolphe Appia e Gordon Craig, a Gesamtkunstwerk (obra de arte total) de Wagner e pelas vanguardas históricas do inicio do século XX.

O segundo, ”Mídias e cultura digital no teatro“, traz uma visão panorâmica do estado da arte da discussão sobre teatro e as tecnologias digitais. Começa no período pré-internet, com o início do boom do uso de mídias no teatro e dos experimentos que vão resultar no conceito de teatro pós-dramático, de Hans-Thies Lehmann, passa pela discussão sobre o que seria o teatro digital (atores+bits?) a partir do Manifesto Binário, do grupo catalão La Fura Dels Baus, e do conceito da pesquisadora dos Estados Unidos Nadja Masura. E, por fim, fala-se da dificuldade de se categorizar em um mundo híbrido como o de hoje e de um futuro possível para o teatro digital: a aproximação das artes cênicas com a ideia dos jogos eletrônicos/digitais (os populares videogames).

A parte II, Experimentos & Reflexões, traz seis entrevistas e conversas realizadas para a pesquisa. Buscou-se, inicialmente, destacar as opiniões, análises e experiências de dois dos principais grupos que trabalham com teatro e a cultura digital no Brasil: Teatro para Alguém, representados aqui por seus fundadores Renata Jesion e Nelson Kao, e Phila7, através de seu diretor Rubens Velloso.

Na sequência, há a entrevista com o ator e diretor Leonardo Roat, que recentemente defendeu uma dissertação acadêmica sobre o assunto e continua a pesquisa no doutorado em Ciências da Linguagem na Unisul, em Santa Catarina;  com  Tommy Pietra, do Teatro Oficina, grupo que tem uma larga experiência no uso das mídias na cena; Renato Ferracini, do Lume Teatro e professor da pós-graduação em teatro da Unicamp, que embora não se dedique à pesquisa na área, tem sua opinião sobre os meandros da relação entre o teatro e a tecnologia digital como ator, pesquisador, diretor e espectador crítico do que assiste.

Encerra-se esta parte com a conversa com Fabrício Muriana, Maurício Alcântara e Juliene Codognotto, da Bacante, importante centro de crítica teatral na rede, espectadores frequentes dos mais variados espetáculos do país e oriundos de uma experiência de trabalho com teatro e a tecnologia digital na II Trupe de Choque.

Ao final do livro, há ainda um Glossário, com mais detalhes sobre alguns dos inúmeros nomes citados durante o trabalho, além das Referências, dos Agradecimentos e de outros dados indispensáveis para um livro – como a Ficha Catalográfica, o papel em que foi impresso, etc.

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“Efêmero Revisitado” será lançado “oficialmente” neste próximo sábado, 3 de dezembro, às 18h30, no Festival CulturaDigital.br, no Rio de Janeiro, dentro da programação do espaço Visualidades, logo após a apresentação de Lucas Pretti, do Teatro para Alguém.  [Festival que, tu já deve saber, estaremos cobrindo in loco a partir desta sexta-feira; mais infos em breve neste mesmo local]. Cariocas e outros que estejam pelo Rio neste dia e hora, apareçam!

Produzimos um “aperitivo” (ao fim do post) para quem quiser dar uma olhada no livro antes do lançamento, com a apresentação, prefácio, sumário e primeiro capítulo. Depois de sábado, ele será disponibilizado na íntegra para download em “N” formatos, bem como para navegar, no site culturadigital.br/teatralidadedigital.

Será também distribuído para professores, universidades, grupos, companhias e escolas de teatro, bem como outros interessados na complexa relação entre o teatro e a cultura digital – se você é um deles, escreva para baixacultura@gmail.com que a gente conversa.

Ele está disponível na íntegra aqui abaixo, e também no no Issuu, aquela site/ferramenta muito usado para disponibilizar revistas.

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Ficha Técnica do livro
Projeto gráfico: Calixto Bento / www.clxb.com.br
Capa: Montagem sobre fotos de Nelson Kao e Alessandra Fratus
Revisão: Ben-Hur Demeneck, Juliana Bassaco, Marcelo De Franceschi
Transcrição das entrevistas: Leonardo Foletto, Giane Lara, Marcelo
De Franceschi, Leonardo Foletto.
Edição: Leonardo Foletto
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Grandes Experimentais da Cultura Digital & Livre (1): Rubens Velloso

Damos início hoje a mais uma nova seção especial (que não sabemos onde vai dar) por aqui: chama-se conforme o título do post acima e tem como resumo “Entrevistas remixadas com experimentais (pouco) compreendidos da cultura digital & livre“. A primeira é com Rubens Velloso, diretor da companhia Phila 7 – talvez o principal grupo brasileiro que  trabalha na pesquisa de novas linguagens cênicas que levam em conta a questão digital, telepresença, corpos biomecânicos, conceitos relativos de espaço, tempo e narrativa, dentre outras questões correlatas.

Foi por acaso que tivemos a ideia dessa nova seção do Baixa. Eu (Leonardo, que a partir de agora, nesse post, deixa o plural de lado para assumir a 1º pessoa) estava fazendo uma entrevista para a pesquisa sobre teatralidade digital que tem me ocupado nestes até agora 6 meses de 2011 e pensei: mas por que não usar esse conteúdo também no Baixa?
[A pesquisa é oriunda de uma bolsa da Funarte, Reflexão Crítica em Mídias Digitais 2010, e vai resultar num livro reportagem tendo por foco o grupo Teatro para Alguém; tenho mantido este blog aqui como uma espécie de making off de tudo isso.]

Fotos de Play On Earth, montagem do Phila 7 de 2006

Rubens me recebeu em sua casa, na Lapa, zona oeste de São Paulo, numa noite de segunda-feira. É um ótimo papo; daquelas raras pessoas que tu pode perceber que está pensando muitas coisas a frente de nós (eu, tu e a gigantesca maioria dos habitantes dessa Terra). Em 2006, com seu segundo espetáculo, “Play on Earth”, o Phila 7 – a companhia na qual é diretor – tornou-se pioneira no uso da internet para a criação e apresentação de uma peça teatral que uniu três elencos em três continentes simultaneamente: Phila 7 em São Paulo, Station House Opera em NewCastle na Inglaterra e Cia Theatreworks em Cingapura. Três audiências, cada uma em sua cidade, a assistir às atuações em tempo real, formaram um quarto espaço imaginário.

Dois anos depois, um experimento ainda mais radical: “What´s Wrong with the World?” da série Play on Earth, um espetáculo ao vivo entre Brasil (Rio de Janeiro) e Inglaterra (Londres). Linkados pela internet, os atores atuaram ao mesmo tempo e ao vivo, fazendo do “mundo” seu palco numa proposta marcada pelo ineditismo de linguagem e estrutura dramática.

"What's Wrong With the World", 2º experimento cênico-digital do Phila 7

Rubens e o Phila 7 avançaram e estão para lançar, no fim deste ano e no 1º semestre de 2012, três “espetáculos” que dão prosseguimento à essa busca. Um deles Rubens chama sabiamente de “superfície de eventos“, porque está longe do que estamos acostumados a entender como teatro, cinema, perfomance, dança  – é tudo isso, mas também um embrião de uma outra coisa ainda sem nome.

O papo a seguir é uma versão editada e remixada de nossa conversa. [Mas se você quer ouvir na íntegra e na sequência correta pode ir lá para o fim do post que o áudio está lá, em duas partes, com qualidade não muito boa mas audível]. Rubens falou muito de teatro, facebook, internet, direitos autorais e outras coisas inevitáveis desses tempos. Mostrou seu trabalho de invenção de linguagens – e de criação de uma gramática para falar dela, como o “MCs de fluxos reflexivos” para se referir ao trabalho dos atores com que vem trabalhando nos processos que prepara para o final deste ano e 2012.

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BaixaCultura: Como você começou com essas experimentações de linguagens?

Rubens: Nessa contemporaneidade, eu me senti muito confortável, muito mais do que me sentia quando jovem. Porque eu fazia estas coisas – eu já misturava super-8 com 35mm, fazia teatro depois filmava, etc. Isso pra te explicar um pouco do que estou fazendo agora. Vou partir de três montagens pra te explicar o que é que eu to fazendo. Dois já estão armados com certeza, o outro eu to armando, vai acontecer.

O primeiro chama On Ego, é um texto inglês contemporâneo [De Mick Gordon e Paul Broks] em que parte das questões da neurociência, da dissolução do eu e das redes neurais como expressão de você – você é uma narrativa de uma rede neural. Em On Eagle, eu trabalho com a ideia de que o cérebro – a rede neural que você tem – já te remete a uma visão muito radical e contemporânea do que é o indivíduo hoje. Muda para várias coisas, e uma questão que me interessa é que o eu já não é tão importante como manifestação, e sim como você se linka com o outro. Quer dizer, estamos falando aqui, mas existe uma outra coisa que está trabalhando aqui e que tá construindo uma ideia que aos poucos vai ficando em conjunto.

Cartaz da Leitura pública de On Ego, feita em 28 de março, em SP

O cérebro, de alguma maneira, depois de milhões de anos de evolução, ele cansou de que o homem, para transcender e entender as coisas todas, criassem deuses e coisas assim. Então, o que ele criou? Um simulacro, que são as redes. Ele criou um simulacro dele mesmo para você entender que as coisas precisam estar conectadas com um centro, mas podem estar rizomáticas. Ele criou os computadores para várias coisas, mas uma delas é para mapear ele mesmo e falar assim “Ó como eu sou”, e esse como eu sou é como você é.

A partir destas questões, e de outras questões geracionais muito claras depois do advento da internet – essa geração que nasceu com a internet tem o seu olhar todo modificado, no sentido de que a presença física e a presença virtual são vistas como duas formas de presença. Com manifestações diferentes, mas são presenças: uma presença carbônica, que é como nós estamos aqui, e a presença sílícia, quando tá na rede. Quando voce trabalha com isso, me interessa a potência do teatro na singularidade do local onde ele se dá. Me interessa o que está em torno – e que ainda está em fase embrionária e que tá começando a explodir sem rumo, o que é bom. Me interessa, a partir disso, potencializar estas duas formas de presença e quebrar as paredes do teatro, fazer com que ele, na força que ele tem como uma forma de presença, desdobrar essa reflexão pra fora dele e de fora dele lá pra dentro.

Eu já não penso mais em dramaturgia, mas tramaturgia, que é como você escreve – não só os diálogos mas todos os acontecimentos – como uma trama que vai se enredar nessas várias formas. Profanações [o 2º “espetáculo/superfície de eventos que Rubens e o Phila 7 preparam] é isso: tudo que vai acontecer – teatrais, imagéticas, virtuais – vão estar ali unidos por uma tramaturgia, onde os atores – que eu chamo de MCs de fluxos reflexivos – são os receptores e gerenciam isso junto ao público para que a ideia vá se construindo. É um pouco diferente do Teatro para Alguem porque eu nem estou interessado nem no teatro sozinho nem no teatro transmitido pela internet. Eu estou interessado nas potencialidades destas formas e em como nós podemos enredá-las para gerar uma potência que se espalhe como reflexão.

Em What's Wrong With the World, atores & projeções de atores & vídeos contracenam juntos

Não é teatro, nem cinema, e eu nem quero chamar de híbrido. Voce se apropria de todas as formas de produções estéticas – imagens, teatro, vídeo, formas de presença diferente, artes plásticas. Mas pra você chegar nisso tem que mudar o pensamento inteiro. Você não faz isso só intelectualmente, você tem que mudar a forma de pensar. Tá acontecendo comigo, eu faço exercícios. Por exemplo: Eu pego dois computadores e ligo, ponho dois filmes (ou videoarte) diferentes, ligo música aleatoriamente, deixo a sala do meu escritório aberta para fazer um frame com o real de senso comum, esse real que a gente se apoia. A partir desses fragmentos, eu vou construindo rapidamente uma narrativa, com a ajuda de livros – ponho quatro cinco livros junto disso tudo. Vou vendo onde estas coisas se conectam e vou construindo, na minha cabeça, uma narrativa que vai juntando tudo isso.

B :É a típica cognição da internet, não? Fazer várias coisas ao mesmo tempo.

R: Exato. Voce pega o que acontece no Facebook, por exemplo. Existem vários approachs [modos] pra entender isso, mas os dois mais comuns são 1) ah, isso é legal, mas é muito bobo; e 2) ah, isso é legal, o que me interessa mais. O bobo vai estar lá sempre, porque o bobo tá na vida da gente. Mas isso é legal: como eu posso captar isso como estrutura de reflexão, onde o teatro tem uma potência muito grande, e fazer a junção. Pra isso, você tem que mudar conceito de espaço, você tem que se educar para isso.

O cérebro sabe disso, de certa forma; na zona cognitiva e da razão, ele entende que “ah, onde nós conversamos agora é um espaço físico”. Mas se eu ligar um computador aqui, eu to com esse espaço e outro espaço que eu trouxe pra dentro de casa. Se eu ligar uma câmera, eu jogo esse espaço que eu estou – ou no mínimo um recorte dele – pra dentro de outro espaço, de uma outra pessoa, que está em outro lugar. Eu vou criando espaços conectados e formas de presença, vou enredando tudo isso de uma forma que, se você não se preocupar mais de que forma isso está vindo, você faz uma potência reflexiva espalhada violenta.

B: Ainda é difícil da gente não pensar em como isso está sendo feito.

R: É novo. Outro dia eu estava em um seminário sobre teatro e lá estava uma neurocientista. Falei isso que estou te falando e ela disse, “olha, você tem toda razão. O cérebro está constituindo redes de compreensão e ele entende toda a questão digital como extensão de seu corpo. É seu corpo extendido para fora de você, mas dizendo de você”. Mas é claro que isso tem um tempo de amadurecimento. Tanto que quem mais aproxima do nosso trabalho no Phila 7 não é o pessoal do teatro, mas sim o pessoal de multimeios. É que o olhar dessa moçada está mais ligado pra isso. Eu falo pra gente do teatro – que são aqueles que eu mais conheço – e muitos me olham assim, “ih, enlouqueceu, isso não é teatro”. Mas eu falo, “não quero que se chame de teatro, mas o teatro está lá. A teatralidade está lá, a potência do teatro está lá”. Mas não é como você aprendeu sempre, uma caixa preta, palco italiano, é outra coisa.

Making of de “What’s Wrong With the World”

B: No teatro é difícil achar interlocutores pra falar dessa relação com o digital, não?

R: Muito. Eu sou um ET. Às vezes a discussão morre em ver se é ou não é teatro. Mas meu pepino é maior que o do Teatro para Alguém, por exemplo. Porque, quando eles chamam de “teatro digital”, eles abrem essa discussão. Eu nem quero discutir isso. Eu não quero nomear nem de teatro nem de digital essas coisas todas. Eu to trabalhando com redes digitais, digineurais, você entende? Eu to criando um vocabulário pra isso, to escrevendo mesmo, pra poder me comunicar. Porque quando voce fala em teatro digital, voce nomeou duas coisas que já tem carimbo na sociedade. O pessoal do teatro, por questões óbvias, fala: isso não é teatro. Se eles [do Teatro para Alguém] chamassem de teatralidade digital, já começaria a ser mais aceito.

Eu to cagando pra se é teatro ou não é teatro o que eu faço. Mas o teatro está no que o Phila 7 faz, ele está lá linkado com outras coisas, ele não tem o formato que a gente acostumou a ter. Mesmo quando você rompe com o palco italiano – que nem o Vertigem, que foi fazer peça em cadeia, hospital – é um lugar, onde se forma uma singularidade e o teatro se instaura. Esse lugar sempre vai existir pra mim, só que não tem mais parede, dali é pra fora e de fora pra dentro.
[NE: O Teatro da Vertigem é uma companhia de São Paulo que busca trabalhar com espaços não convencionais. “Projeto Apocalipse”, um de seus espetáculos, circulou o Brasil e alguns lugares da Europa sendo apresentado em cadeias; BR-3 se passava num barco que navegava pelo rio Tietê, em São Paulo]

Mas imagina, não é fácil: teatro tem mil e mil anos, e você insere uma questão que, em primeira instância, seria o contrário do que ele é: a força do teatro está exatamente na preseça. De uma certa forma, é difícil derrubar isso. O que você tem de fazer é se desvincular disso. Esquece. Não to fazendo teatro. Mas existe teatro lá, e pode existir sim.

Espaço de convivência da sede "real" do Phila 7, na Rua Tito, 79, em São Paulo

B: Como viabilizar financeiramente uma prática que ainda não tem nome?

R: Tenho pensado nisso. Inclusive, vou te chamar quando isso acontecer. Vai se chamar “Churrascão da Arte Diferenciada” (risos). Eu acho que ele pode se financiar na medida em que o coletivo se apropria disso, principalmente através da rede. Você pode, por exemplo, fazer dramaturgias porosas onde as pessoas das redes virtuais – ou mesmo presencialmente – vão construir na decisão do espetáculo. Elas contribuem com ideias e esse financiamento vem dessas proprias comunidades. Eu acho que isso é viável a médio prazo.

B: Como um crowdfunding?

R: Exatamente. Mas você nao faz a oferta da coisa; você começa a debater, ver onde a ideia se encaixa e vai construindo com ela. Eu tenho uma ideia que a pessoa tem o direito de acompanhar todo o processo, enviar imagens ou textos que elas achem pertinentes. E quando a coisa acontecer, ela tem um acesso a essa coisa – sempre tem um centro onde ela acontece. Você percebe que tudo isso ainda é futuro. Eu to falando de um presente que espera um devir, né. Mas alguem tem que meter a mão na massa, alguém tem que fazer o trabalho sujo.

B: E a colaboração das pessoas, como fica?

R: É complicada, tudo é complicado. Voce tem que mudar seu pensamento. No Profanações, eu me reuni com essas cabeças que vamos trabalhar: a ideia é isso, agora vamos construir juntos. É difícil, primeiro, aceitar que não temos uma coisa feita. A 2º coisa dificil é: pra você fazer esses trabalhos, a questão do ego tem que ser subvertida. Se você for trabalhar não a ideia mas sim o que você quer dessa ideia, e não do que você pode compor com ela, fudeu.

Você tem que trabalhar em outras instâncias da sua relação com a arte. Eu escrevo lá no Facebook só pra provocar as pessoas: processos desse tipo são propriedades de uma inteligência coletiva, não de uma inteligencia individual que direciona tudo. É uma inteligência coletiva que constrói a coisa toda. Eu vi que há uma narrativa mas é sempre aberto a experimentações, a novas ideias. Não é uma coisa fechada. Nunca tá pronto. É processo. Eu não estou trabalhando mais com coisas fechadas

Eu não estou atrás de sucesso, entendeu. Não to mesmo. To cagando. Eu sou um sujeito fadado ao fracasso, porque eu trabalho no fracasso. O que eu faço não é sedimentado, e você não pode se importar com isso. E te falo, parece utopia, mas é possível. Eu detesto quando alguém fala assim: você tem um projeto. E fala projeto para não falar produto. Eu não tenho e não quero ter. Não tenho nem produto pra te dar. Eu tenho uma coisa que nem é minha, é coletiva. Se é pra fazer o mais do mesmo, isso eu já fiz pra caracoles na minha vida. Na verdade nem fiz, já misturava, já era problema, mas não tão radical. Eu não tenho nenhum interesse no espetáculo ficar prontinho, bonitinho, se repetir toda a noite.

"WeTudo: Desesperando Godot" (2009) último "espetáculo" do Phila 7, dirigido por Rubens

B: Existe uma dificuldade de gerações mais velhas em entender que o direito autoral, do jeito que é posto hoje, não tem mais serventia.

R: Acabou! Acabou o direito autoral. Acabou mesmo. Tem que achar outra coisa. Isso já era. E quer saber, eu acho do caralho! Faz parte da inteligência coletiva, é genético, DNA, coisa da consciência humana. Pra mim, pro meu trabalho, jogar esse jogo (do direito autoral) seria negar tudo o que eu estou fazendo. É negar tudo. Claro, eu sou um artista, temos que ganhar dinheiro para sobreviver. Mas nós temos que construir outras formas desse dinheiro chegar na gente.

B: E isso não está estabelecido ainda, o que angustia as pessoas. Vai substituir pelo quê? Ninguém sabe ainda.

R: O problema é que ninguém sabe porque ninguém pensa diferente. Eles ficam pensando em como substituir o direito autoral e eles ainda pensam em direito autoral como uma propriedade privada que vai valer pelo resto da minha vida e quem quiser usar vai pagar pra mim. Não tem mais isso! Acabou! Tem que ter outro jeito.

Eu falo: “não fica sonhando com coisas que não vão acontecer mais”. A música já entendeu, tá aprendendo na marra. O cinema, a mesma coisa. Mas ele fica inventando coisas, tipo o 3D. Eu sou partidário – falo isso com gente de cinema, e sou xingado – de uma ideia intermediária. É assim: quando voce faz um filme pela lei do audiovisual, você, cineasta, já ganha por isso, o seu valor já tá embutido no valor obtido. A empresa que patrocina, não patrocina porra nenhuma, é o povo que patrocina o cinema brasileiro. Bradesco nao patrocina pica nenhuma, nem Petrobras. É tudo lei de incentivo, tu não paga o imposto lá e joga aqui.

Portanto, nós deveríamos pegar o filme e disponibizá-lo de todas as formas possíveis, pra maior quantidade de pessoas possivel. A arrecadação que possa vir tem que formar um fundo de cinema pra gente começar a ser independente do cinema mercadológico. Entendeu? Você ir lá pedir dinheiro pro Bradesco e ele perguntar “ah, mas vai ter ator da Globo?”, “o filme é comportado? tem uma linguagem certinha?”. O fundo seria pra ficar livre disso, experimentar outras coisas, outras linguagens. Isso é uma solução intermediária, e nem isso o pessoal do cinema topa…

Eu adoro essas revoluções que estão acontencendo agora, que às vezes parecem eufóricas e juvenis. O que eu adoro nelas é que elas não tem centro, é uma ideia. “Marcha da liberdade“, por exemplo. Cada um vai lá gritar liberdade do que lhe interessa. E tá chegando (no Brasil), vai chegar no mundo inteiro.

Essa geração nova [que tá organizando essas pequenas revoluções] já tem introjetado coisas que você não precisa mais trabalhar para introjetar. Essa moçada que eu chamei pra trabalhar raramente ia ao teatro. Esse pessoal gosta de um monte de coisa legal, mas detesta teatro. Eles só se interessaram por teatro porque eu os chamei para trabalhar nessas ideias. Temos que construir um olhar pra poder ver o teatro, se não ele vai virar ópera, com aquele público senil, aquela coisa formal.

É necessário aprender a ouvir também. Eu falo dessas conversas do Facebook, que parecem idiotas, mas não são por um motivo muito simples: pra essa geração mais nova, a questão da presença é muito diferente do que a gente caracteriza como “estar presente”, do “estar aqui vendo uma imagem”. Nada. São formas de presença. Aquele bate-bapo ali é como se estivessem numa mesa de botequim. Não há diferença entre essas formas de presença pra eles.

Claro, existe muita merda no facebook, mas acho que a arte é um caminho para fazer a reflexão sobre isso. Ela tem que gerar reflexão, gerar conteúdo, gerar proposta, pensamento. As pessoas estão abertas pra isso, mas você tem que chegar nelas de algum jeito. Cabe as artes respectivas entrar ali e gerar atrito para gerar conteúdo. Eu acho isso, e é o que eu to tentando fazer.

Parte 1: [soundcloud url=”http://api.soundcloud.com/tracks/16697089″]

Parte 2: [soundcloud url=”http://api.soundcloud.com/tracks/16711475″]

Créditos fotos: Site Phila 7