Luther Blisset e a guerra antimidiática contra o biopoder

Luther_Blissett

Uma das coisas boas de estar na tal academia é poder ler, como trabalho, pesquisas excelentes de final de curso, como foi o caso da banca que participei  do Dairan Paul, do jornalismo da UFSM, em dezembro de 2013.

A monografia do guri, “O guerrilheiro Luther Blisset: criação de táticas antimidiáticas contra o biopoder”, é um primor de análise: relaciona Foucault, Hardt & Negri, Michel de Certeau, neoísmo/mail art com o contexto histórico dos centros sociais italianos e até as teorias do jornalismo para falar dos trotes (as “pranks”) que Luther Blisset fez na mídia italiana do início dos anos 1990.

LB, talvez a identidade coletiva mais conhecida desde então, chegou a enganar os jornais italianos durante um ano, plantando notícias, provas e cartas falsas e escancarando a fragilidade do jornalismo preguiçoso que se quer mediador da “realidade”. Foi um caso exemplar de mídia tática, que Dairan traz para seu trabalho com farta documentação histórica (muita delas traduzidas diretamente do original em italiano, com ajuda da orientadora Aline Dalmolin) num texto preciso – e que muito tem a dizer também sobre táticas parecidas utilizadas hoje, num mundo hiperconectado de redes sociais.

Algum tempo depois que participei da banca, escrevi um post no Facebook falando isso tudo acima e dando os parabéns ao novo jornalista formado na UFSM. Senti um interesse enorme de amigos e conhecidos pelo trabalho – afinal Luther Blisset vive!  – e convidei Dairan para escrever um relato sobre a feitura de seu TCC. É esse texto que vocês vão ler logo abaixo, seguido da sua monografia, “O guerrilheiro Luther Blisset: Táticas antimidiáticas contra o biopoder“, que está disponível desde hoje na nossa biblioteca.

lutherblissetproject

O primeiro contato que tive com o nome Luther Blissett ocorreu através de uma música. A banda só poderia ser underground, é claro, para citar um tema obscuro confinado em uma Itália da década de 1990. Mas, quando comecei a ler sobre Blissett, entendi que aquele fenômeno ainda fazia muito sentido nos dias de hoje – e daí até adquirir o Guerrilha Psíquica foi um pulo. O problema é que esse livro (assinado pelo próprio L. B. e lançado no Brasil pela Conrad na ótima Coleção Baderna) acabou sendo a minha “bíblia blissetiana” durante um bom tempo, já que há poucos trabalhos sobre L. B. no Brasil – e Guerrilha não se trata exatamente de um estudo científico, mas de relatos das ações e dos propósitos de Blissett.

Durante o estado da arte dessa monografia, pude constatar que o meu objeto de pesquisa é muito mais citado do que estudado, servindo como exemplo para trabalhos que versam sobre direitos autorais, ativismo, cultura wiki, etc. O seu aspecto que mais chamou minha atenção – a disseminação de notícias falsas que enganaram diversos jornais italianos – não era debatido. Quando o tema estava posto em algum trabalho, continha basicamente citações do Guerrilha Psíquica contando as narrativas fantásticas criadas pelo Blissett – de prostitutas soropositivas que furavam a camisinha de seus clientes até rituais de missa negra que incluíam estupro; prato cheio para o sensacionalismo dos tabloides locais. Nada de novo para quem já tinha lido a única publicação em português de L. B.

Foi delineando esse aspecto do fenômeno Luther Blissett que resolvi, então, analisar quais eram as táticas antimidiáticas utilizadas para impregnar as notícias falsas dentro dos jornais da época. O artigo de Marco Deseriis sobre L. B. (um dos poucos estudos que tratam exclusivamente dele) foi de suma importância para a pesquisa. A partir do autor, pude compreender Blissett como uma resistência biopolítica frente ao biopoder midiático – a criação de narrativas falsas sobre ritos satânicos como forma de desvelar a cruzada moral realizada pela mídia que acusava, por exemplo, diversos satanistas da época de pedófilos (a exemplo do caso Marco Dimitri, que fora inocentado posteriormente). Blissett também representa a figura do comum, remetendo aos estudos de Michael Hardt e Antonio Negri. Uma produção comum de caráter imensurável (dado que o contexto que situo Blissett é o do trabalho imaterial, onde a produção reside nas relações sociais e, portanto, torna-se difícil de ser quantificada) e excessivo (pois Blissett é formado justamente por esses trabalhadores imateriais, que utilizam da criatividade para se voltar contra o biopoder, na força-cérebro que o espetáculo não consegue capturar).

Uma vez que defini Blissett como resistência, o segundo movimento teórico do trabalho foi assimilar o fenômeno como uma mídia tática, em oposição à mídia alternativa. Esses conceitos ainda são discutidos dentro do meio acadêmico, sem uma definição exata – o que, de certa forma, é proposital. A dissertação de Henrique Mazetti foi um achado, justamente por discorrer sobre essas duas formas de correntes críticas a partir de quatro dimensões: espaço-temporal (remetendo a Certeau), política, midiática e discursiva. O que concluí analisando as táticas de Blissett é que elas somente ocorrem a partir da própria mídia, pois não possuem um lugar de fala próprio (como é o caso da mídia alternativa). Ao prezar pelas experimentações, a tática ridiculariza seu inimigo e a si mesma; ela não precisa se embasar por argumentos racionais e se autolegitimar. Daí uma série de brincadeiras feitas por L. B. onde a risada é a sua principal arma, e rir da mídia parece ser seu intuito. Isso, é claro, não despolitiza as ações de Blissett. Entendo que elas são tanto culturais como políticas, e que as duas esferas são indissociáveis – portanto, sua caracterização como uma resistência híbrida, que toma para si tanto aspectos de vanguardas artísticas (a utilização de um nome múltiplo a partir do Neoísmo e da mail art) como o referencial neomarxista de Negri, para constituir uma resistência biopolítica a partir da criatividade e da cooperação imaterial.

Este trabalho, obviamente, não se pretende uma bíblia blissettiana, mas busca colocar em pauta dentro da academia um tema que (surpreendentemente) pouco aparece nos estudos sobre cibercultura. Mesmo que se constitua por um objeto de duas décadas atrás, a figura de Blissett pode ser entendida como um embrião do aconteceu em Seattle, no ano de 1999, ou mesmo nos protestos do Brasil, mais recentemente. E, se ainda quisermos regionalizar mais a existência de L. B., recentemente uma notícia postada por Zero Hora retrata a farsa da construtora Luther Blissett que resolveu construir um parque em meio à Redenção, em Porto Alegre. Em algum lugar, de algum modo, Blissett parece ainda existir – inclusive escrevendo monografias sobre si mesmo.

[Dairan Paul]

Imagens: http://www.inenart.eu/
 

Efêmero Revisitado em Santa Maria

Depois do lançamento no Rio, desembarcamos com “Efêmero Revisitado” em Santa Maria, no coração do Rio Grande.

Muitos talvez já saibam, mas o lançamento vai ser hoje, sexta 6 de janeiro, às 18h, no Sesc Santa Maria (Avenida Itaimbé, 66); primeiro uma conversa sobre o livro e o tema teatro e cultura digital, com a participação de Lucas Pretti – que é ator, jornalista, parceiro de Casa da Cultura Digital e integrante do Teatro para Alguém, um dos grupos estudados para o livro – e depois o lançamento propriamente dito, com um coquetel e o livro a disposição, de graça (mas atenção; temos um limite de livros a disponibilizar).

Segue abaixo um texto que remixamos para o folder de divulgação. Amigos e interessados de Santa Maria, apareçam!
Atores + bits, eis um teatro digital?

O teatro foi a última das artes a perceber que somos todos feitos de 0 e 1. A música já era mp3, o cinema avi, os livros pdf e as fotos e quadros jpg quando, enfim, os atores sobre um palco diante de um público se viram representados por avatares feitos de dígitos. Estão ali atores, palco e público, cada um num espaço e num tempo, na mais complexa das manifestações artísticas já produzidas por humanos. As 11 artes misturadas.

O espectador normalmente não pensa nesses termos quando repete o gesto já habitual de apertar play em um vídeo transmitido ao vivo na internet. São apenas pessoas em algum lugar com uma câmera em punho enviando a gravação na hora para a rede. Digitalizar a presença – e portanto questioná-la, relativizá-la, expandi-la – foi o que emancipou a cena dos seus limites físicos. Limites. Amarras. Finitude. Controle. Até o século 20 o teatro era (só) assim.

Na segunda metade da primeira década deste nosso novo milênio, dois grupos de São Paulo romperam formalmente esta barreira da matéria. O trio do Teatro para Alguém arriscou ao produzir e encapsular peças curtas na internet (ao vivo e em arquivo). O quarteto da Phila7 conectou três palcos em três países no mesmo espetáculo. Misturaram cultura livre a encenações proprietárias, filosofia open source a dramaturgias fechadas, remix a interpretações autorais. Começou-se, então, a falar em teatro digital no Brasil.

Produzido a partir de uma bolsa de pesquisa da Funarte (Fundação Nacional das Artes) chamada Reflexão Crítica e Produção Cultural para Internet 2010, “Efêmero Revisitado: Conversas sobre teatro e cultura digital“ conta um pouco dessa história recente da arte brasileira a partir da fala dos seus personagens.

O livro é o primeiro projeto do Selo BaixaCultura, braço impresso do baixacultura.org, página criada em 2008 que trata de temas como cultura livre, (contra) cultura digital, direitos autorais, remix, pirataria, entre outros tantos temas relacionados.

Em Santa Maria, “Efêmero” será apresentado em uma conversa/palestra com a presença de Lucas Pretti, integrante do Teatro para Alguém, que vai mostrar alguns vídeos do seu grupo, pioneiro no trabalho com peças teatrais pensadas para a internet e indicado ao prêmio Shell de 2009, na categoria Especial.

Após a conversa/ palestra/debate, vai acontecer um coquetel de lançamento do livro, no hall do andar térreo do SESC, onde o livro estará disponível, de grátis. Vale lembrar também que o livro está também para download.


 

Especial Santa Maria (2): Grupo de pesquisa sobre Direito Informacional da UFSM

O direito autoral e o direito informacional, dois dos ramos mais discutidos e profundamente alterados com o advento da internet, são, infelizmente, pouco debatidos nas mais de 10 faculdades que existem em Santa Maria.

Não por acaso, o primeiro núcleo de pesquisa formal a ser instituído na cidade surgiu na maior das instituições de ensino da cidade, a Universidade Federal de Santa Maria, a primeira universidade federal construída no interior do Brasil, em 1960, e ainda hoje polo educacional dos mais importantes do país.

Trata-se do NUDI, instituído no final de 2010 e coordenado pela professora Rosane Leal da Silva, que, passados um ano de existência, ainda dá seus primeiros passos para estudar com afinco as transformações do direito com o advento do digital.

Ele pode tomar como exemplo de grupo/núcleo de pesquisa relevante três que frequentemente citamos por aqui: o GPOPAI (Grupo de Pesquisa de Políticas Públicas para o Acesso à Informação), coordenado pelo professor Pablo Ortellado, na USP;  o GEDAI (Grupo de Estudos em Direitos Autorais e Informação), da UFSC, que promoveu este ano a V edição do Congresso de Direito de Autor e Interesse Público; e o CTS (Centro de Tecnologia e Sociedade) da Fundação Getúlio Vargas, coordenado por Ronaldo Lemos e Carlos Affonso Pereira , berço do Creative Commons o Brasil.

[E, como bibliografia referencial, este simpático livrinho produzido pelo CTS, “Direitos Autorais em Reforma“, que faz um belo resumão do assunto – se é que seus integrantes já não leram ou decoraram o livro]

A matéria é a segunda (e, por enquanto, última desse nosso especial Santa Maria) produzida pelo Marcelo De Franceschi. 

Os desafios que o Direito enfrenta pelo desenvolvimento e pela apropriação das tecnologias da informação e comunicação (TICs) começam a ser investigados por alguns grupos de pesquisas nas universidades brasileiras. Um dos mais recentes deles é o Núcleo de Direito Informacional (NUDI), vinculado ao Curso de Direito da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

O NUDI é coordenado pela Profª Drª Rosane Leal da Silva, há 13 anos professora da Universidade. “Meu interesse começou a partir de 2004, quando orientei monografias que tratavam da perda do controle da imagem e de dados do trabalhador, ou seja, do direito de imagem e do direito trabalhista”.

No segundo semestre de 2010, a professora encaminhou um projeto ao CNPq, que, aprovado, formalizou a criação do núcleo no fim de 2010. Em um ano de atividade, foram seis projetos pesquisados: “Crianças e adolescentes em redes sociais“, que estuda a exposição infanto-juvenil em comunidades virtuais de relacionamento e como a lei pode proteger o público jovem; “E-Gov” que reflete sobre a gestão pública na sociedade informacional; e “Discursos de Ódio” que trata das questões polêmicas decorrentes do embate entre liberdade de expressão e dignidade humana.

Depois destes três, foram organizados as pesquisas sobre “Consumidor”, para discutir a vulnerabilidade do consumidor em face da publicidade online; “Ativismo Digital” sobre as oportunidade que as novas tecnologias propiciam para o ativismo em rede; e “Neoconstitucionalismo e Ciberdemocracia”, para investigar as reconfigurações pelas quais tem passado os movimentos que formam as constituições.

A professora Rosane coordena os quatro primeiros. De acordo com ela, ainda não se vê por parte do governo ações voltadas para a prevenção e educação da pessoa para a tremenda liberdade proporcionada pelas novas tecnologias e pela internet. “Ainda estão pautadas pelo modelo tradicional. A internet vem e quebra isso. Como harmonizar isso? O direito vem muito atrasado. Em linhas gerais, a gente percebe que a jurisdição não consegue dar conta”, disse.

Profª Rosane palestrando sobre o Direito na sociedade informacional

Além de Rosane, outros dois professores coordenam projetos. O Prof. Dr. Rafael Santos de Oliveira que começou na UFSM no primeiro semestre de 2011 com as disciplinas de Direito Internacional e de Ambiental, e a Profª Drª Valéria Ribas do Nascimento, desde agosto responsável pelas disciplinas de Direito Constitucional e de Comunitário e Integração. “Em função de ter contato com o Direito Internacional, estou achando o máximo”, diz Valéria. “Não tinha muito diálogo entre as áreas e isso é muito importante.”

Também fazem parte do núcleo 21 alunos divididos entre os projetos. Para entrar no núcleo, há uma rigorosa seleção, com entrevista, histórico, currículo e prova. O que não impede a procura: só para a seleção do projeto da professora Valéria, 27 alunos se inscreveram. A estudante Letícia Rodegheri entrou no grupo em outubro. Ela conta que o vontade de entrar veio porque não tinha tido contato com a área acadêmica do Direito. “O mais legal é que tem vários projetos num grupo só, e com isso a gente acaba tendo contato com vários assuntos”.

A sala do NUDI é a 105 do prédio da antiga reitoria da UFSM, no centro de Santa Maria. Alguns participantes dizem que é a melhor sala do prédio. Eles mostram três computadores, alguns livros, muitas estantes novas com dez banners de apresentações pendurados, ar-condicionado e uma grande mesa limpa no centro para confirmar a opinião. O núcleo ainda possui um blog, que tentam atualizar duas vezes por semana com análises (jurídicas ou não), artigos produzidos, atividades promovidas pelo grupo e participações em eventos.

Há ainda a intenção de expandir os estudos. Os professores já  propuseram um novo curso de mestrado com uma das linhas na área transdisciplinar de Direito Informacional. “Quem sabe em breve tenhamos novos professores e pretendemos conseguir uma sala maior e fazer convênios com universidades do exterior”, diz o professor Rafael. Talvez criem um projeto sobre Direitos Autorais? A profª Rosane responde: “Por enquanto, nós não temos nenhum projeto com direitos do autor embora, claro, isso seja do nosso interesse”.

[Marcelo De Franceschi]

Créditos: 1 (Santa Maria), 2 (professora Rosane em sala de Aula, marcelo De Franceschi).

Especial Santa Maria (1): A rede livre do bairro Nova Santa Marta

As duas semanas e meia que nos separam do final do ano serão de atividade um pouco mais devagar por aqui. Uma pequenas pausa se faz necessária, para digerir este intenso 2011 e preparar as mudanças nesta página para 2012.

Deixamos alguns posts prontos para publicar nesse período, a começar por um pequeno “especial” sobre Santa Maria, a cidade que nos é (foi) morada. São duas matérias sobre iniciativas interessantes relacionadas a cultura digital da cidade, produzidos pelo nosso ex-correspondente na cidade, Marcelo De Franceschi, agora morador da intrépida Montenegro, cidade (quase) na região metropolitana de Porto Alegre.

O primeiro texto trata da criação de uma rede livre numa das regiões mais carentes da cidade, o bairro Nova Santa Marta [visto em primeiro plano na foto que abre esse post]. Um local que, como tantos outros no Brasil, nasceu da ocupação de uma fazenda improdutiva – no caso, a Fazenda Santa Marta, em 1991 – e que só foi ter água encanada e luz elétrica no início dos anos 2000.

Enjoy!

Os moradores do Bairro Nova Santa Marta na região oeste de Santa Maria (RS) podem acessar uma intranet própria, com blogs, dicionário, enciclopédia, fotos, vídeos, rádio online e material diático. Desde o fim de setembro, foi lançada a rede livre que armazena e disponibiliza esse conteúdo próprio via wireless numa das áreas mais carentes da cidade. Aberta à comunidade e a visitantes, ela foi construída por integrantes do Centro Marista de Inclusão Digital (Cmid) vinculado à Escola Marista Santa Marta.

A intenção de montar o sistema surgiu no 3º Encontro Latino Americano de Redes Livres, realizado paralelamente ao 12º Fórum Internacional Software Livre (Fisl), em Porto Alegre nos dias 1 e 2 de julho. O evento reuniu participantes da Alemanha, Argentina, Chile, Colômbia, Uruguai e Venezuela, além dos estados do Paraná, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Uma das palestrantes era co-autora do livro Redes sem fio no Mundo em Desenvolvimento, que explica como montar uma rede de computadores com o melhor uso dos recursos disponíveis em comunidades locais.

Exemplo do funcionamento de uma rede mesh

Do evento, a Associação de Software Livre (ASL) e o Centro Social Marista (Cesmar) partiram para a construção da rede livre lá mesmo em Porto Alegre, no bairro Mario Quintana onde fica a sede do Centro de Recondicionamento de Computadores (CRC). Surgiu a Rede Livre Mario Quintana. Os equipamentos, como servidores e antenas transmissoras do sinal wi-fi, foram produzidos por jovens nas aulas de metareciclagem a partir do reaproveitamento de material de computadores conseguidos em parceria com o Ministério Público e o Governo Federal.

Copiado de Porto Alegre, o projeto foi transposto para Santa Maria. Uma rede livre possui seis características e consiste tecnicamente em uma rede mesh. Cada rede tem suas particularidades técnicas e de gestão, de acordo com os objetivos de cada grupo. Em alguns casos, somente prestam serviços locais e trocam dados entre os nós conectados, enquanto que em outros casos, somam a esta tarefa a extensão do acesso a Internet para colocar ao alcance dos cidadãos de maneira livre e gratuita. Trata-se da primeira situação nos bairros de Porto Alegre e Santa Maria. São redes que possibilitam contéudos abertos, livres e próprios.

Nós somos um fornecedor de conteúdo, não de internet, até porque legalmente nós não podemos ser um provedor de internet” explica Everton Bocca, engenheiro eletricista e um dos seis professores do Cmid na Nova Santa Marta. Ele ministra aulas de software livre para alunos do 5º ao 9º ano da Escola Marista. As turmas são compostas em média por 20 crianças. Depois do curso, elas podem optar entre fazer o curso de Robótica Livre ou o de Metareciclagem, podendo fazer outra opção que não escolheram. Há também turmas para pessoas da comunidade. “Formamos em média 80 alunos por ano. Muitos dos adultos do bairro se qualificam aqui para o mercado de trabalho”, diz Everton.

Alguns computadores recondicionados pelo Cmid

O material para as aulas vem de duas vias: ou de doações de empresas e pessoas físicas, ou do Projeto Alquimia, uma parceria com o Ministério Público que destina cargas de material eletrônico e de máquinas caça-níqueis apreendidas. Após o processo de recondicionamento, os computadores são enviados para creches, escolas, instituições públicas ou utilizados para montar telecentros. Aquilo que não pode ser aproveitado, vai para a Meta-Arte, onde restos como fios de cobre, placas queimadas e coolers de processadores viram esculturas, quadros e o que a imaginação permitir. O Cmid ainda possui um Telecentro que funciona como um movimentado espaço de socialização.

Everton Bocca ressalta que a rede livre é acessível gratuitamente para quem possui um computador com wi-fi nos 187 hectares da area do bairro cobertos por 12 antenas. Todavia, é fato que devido a população ser de baixa renda, muito poucos têm condições de utilizar o serviço. O que não impede a curiosidade nem é um empecilho para não existir. “Quem fica sabendo da ideia”, relata Everton, “pergunta sobre, quer saber como funciona e acessa aqui no telecentro. Para ampliar o acesso, pretendemos um dia doar computadores para os alunos daqui, um por família ao menos”.

[Marcelo De Franceschi]

Crédito das Imagens: abertura1, 2, 3.

Insensato, um zine-dissertação


Lembro do Jamer Mello (@badalhoca) desde os saudosos tempos de Santa Maria, quando ele era um dos poucos interlocutores locais que, provavelmente, conheceria (bem) todas as bandas e artistas do rock indie 80’s e 90’s que tu lembraria de citar, tipos nomes semi-desconhecidos como Spiritualized. Fora isso, Jamer agitava a cidade com seus zines nos raros espaços underground da cidade – em especial, lembro do Badalhoca #1, uma gratíssima surpresa acessada primeiramente em algum porão local, provavelmente do DCE (quem é ou esteve por Santa Maria sabe da inigualável contribuição que a boate literalmente underground do DCE da UFSM teve para a produção cultural santa-mariense ).

Passou-se alguns anos, e o que era um prazer (fazer zine) passou a ser também trabalho: Jamer hoje dá palestras e oficinas sobre fanzine e mantém o melhor blog sobre o assunto no país, o Zinescópio, que disponibiliza digitalmente zines de sua imensa coleção pessoal (e de outros que queiram contribuir pro blog), além de notícias relacionados ao tema. Desde que surgiu, em janeiro de 2011, o Zinescópio tem se tornado referência obrigatória pra quem curte ou estuda os zines; chamou atenção de uma porção de blogs e sites legais e foi destaque de uma matéria de capa do Segundo Caderno de O Globo. E, dizem as más línguas, prepara reformas para 2012.

Mais além de ter virado trabalho, o zine também motivou uma pesquisa acadêmica de Jamer. Mr. Badalhoca, que se formou em química na UFSM, pesquisou no Mestrado em Educação da UFRGS métodos científicos para uso nas Ciências Humanas, investigação que o fez mexer no vespeiro das divisões entre arte e ciência. Mas o trabalho seria mais uma (boa) dissertação sobre o tema se não fosse a ousada abordagem de Jamer, que resolveu usar o cut-up de Burroughs (que fizemos uma homenagem recentemente, motivados pela leitura do trabalho) e a estética dos fanzines como afirmação dos conceitos de Gilles Deleuze de potências do falso e do simulacro.

Para a pesquisa, Jamer usou e abusou de referências do cinema – em espcial  Orson Welles (em F For Fake, belo filme que um dia ganhará um comentário a parte aqui no Baixa), Rogério Sganzerla e Jean-Luc Godard – porque a montagem cinematográfica, assim como o Cut-Up, “podem operar como mecanismo articulador fundamental que justapõe imagens e textos para priorizar os efeitos de choque visual, de fragmentação, de imagens sujas e borradas que são comuns aos fanzines e a uma certa produção cinematográfica“, como ele escreve no resumo do trabalho.

A ousadia não foi só no tema e na abordagem do estudo, mas também (e principalmente) na execução da pesquisa. Jamer literalmente produziu uma dissertação cut-up: não há apenas textos, parágrafos justificados e em espaçamento 1,5, mas colagens, trechos de citação escritas a mão ou datilografados, fotos, colagens fotos-textos, tal qual um zine. Fazer isso diante de uma estrutura rígida como a Academia já é, por si só, digno de nota. E se casa com um conteúdo interessante então, é digno de… publicação na Biblioteca do Baixa!

Brincadeiras a parte, aqui abaixo está o texto de apresentação que Jamer escreveu sobre a sua dissertação – de nome “Insensato: um experimento em arte, ciência e educação“, que você pode baixá-la na íntegra.

[Leonardo.Foletto]


Insensato surgiu de uma pequena necessidade. De problematizar a ciência, o fazer científico, e mais especificamente uma problematização entre a arte e a ciência.
Mas apenas surgiu dessa necessidade.
Teve início como texto dissertativo, como ensaio filosófico, com um tom irônico acerca da pesquisa científica, e logo deixou de ser necessário.
Se esvaiu, se decompôs, e se tornou uma necessidade outra.
Uma demanda. E uma demanda do corpo, que exige criação, processo.
Uma carga de memória.
Outro processo. De produção, de escrita, de montagem, de colagem, de plasticidade. Um processo fragmentado, frágil, inconsistente e inconstante, resultando num texto visual, e um tanto indeterminado, pensado também como um espaço, como uma incursão.
Um campo de forças.
Um espaço de situações em constante mudança. Situações óticas e imprecisas. A construção de um estado que vem a ser um envio, e também um deslize.
O suporte é volátil. O suporte é efêmero.
Na esteira de Didi-Huberman, um espaço onde ver é perder-se, e onde o objeto da perda é um lugar inquietante. Lugar onde o que vemos aponta tanto para o prazer quanto para a estranheza. Inquietante estranheza.
A concepção deste trabalho não se trata de crítica, ou inconformidade à razão, à ciência ou à verdade, mas de uma mudança de sentido. Uma força latente de tensão ou de posição. Não uma possibilidade, mas um feixe de possibilidades.
Matar ou correr. Produzir ou se proteger.
Um traço, um risco.
Um desequilíbrio que se legitima na criação de um possível e de um não-possível. Nuances do ser e do não-ser, desmoronamento do percebido e do não-percebido.
Intempestivo e contingente.
Frívolo e volúvel.
Superfície, desvio e desarticulação.
Envoltura, pele, fronteira: uma interioridade que transborda em contato com o exterior.
Um desajuste.
Uma disjunção.
O terror da inconsistência.
Trata-se de contentamento. Ou não-contentamento.
Não se contentar com a disposição de um único olhar.
Eu é um outro. Outro olhar. Outros olhares.
E claro, enfrentar o risco de me perder de vista, à deriva.
A obra de outro em mim. A minha obra em outro.
Cut-up, potências do falso.
Sem juízo.
Sem razão.
Sem medida.
Insensato.

Por dentro de um shopping popular

Como vários centros urbanos pelo Brasil, Santa Maria, no coração do Rio Grande do Sul, tem o seu comércio informal: centenas de pessoas vendendo produtos de maneira improvisada, muitas vezes sem nota fiscal e sem um lugar apropriado pra isso. De alguns anos pra cá, uma forma de organizar os camelôs e concentrá-los num mesmo ambiente ganhou força em várias cidades brasileiras, e foi nessa onda que Santa Maria, há pouco mais de um ano, ganhou o seu “centro de compras popular”.

Passado este primeiro período de adaptação, a mudança dos camelôs das ruas centrais de Santa Maria para o Shopping Independência, mesmo com um aparente alto movimento, ainda não está estável. As opiniões dos comerciantes se dividem quanto à situação. As pequenas dimensões das bancas de 2mx2mx2,70m, a ausência de um sistema de ar e ventilação, e a falta de visibilidade para os produtos são os pontos negativos mais comentados. Entre os positivos, são citadas a limpeza, a organização e a segurança.

A desmontagem do camelódromo ocorreu em 25 junho de 2010, conforme o edital, sendo uma ação efetuada pela atual gestão da prefeitura com o objetivo de “revitalizar” a avenida Rio Branco, uma das vias mais movimentadas da cidade. O custo do projeto é orçado em R$ 1, 63 milhões. Para abrigar os trabalhadores, foi reformado o prédio do antigo Cine Independência [leia um pouco da memória do cinema santamariense, aqui] no centro, há poucos metros do local de origem.

Foi feito um acordo da prefeitura com uma administradora, prevendo que esta cuide da segurança, da sinalização e da administração do condomínio (água, luz, telefone, internet e taxa de uso de elevadores). Em troca, a empresa tem o direito de alugar o último piso para prestadoras de serviços. A parceria tem duração de dez anos, prorrogáveis por igual período.

O tema do comércio informal, que já tratamos de raspão aqui no Baixa, foi o escolhido por nosso correspondente em Santa Maria Marcelo De Franceschi para iniciar um novo tipo de “gênero” de posts por aqui: o ensaio fotográfico. Marcelo fez várias visitas ao Shopping Popular de Santa Maria na semana passada para fotografar e produzir os textos que você vê logo abaixo.

Antes de fazer as fotos, Marcelo requisitou autorização à empresa CPC Administradora Ltda, responsável pelo recinto. O gerente, Érico Abreu Rodrigues, apenas pediu para não haver imagens de CDs e DVDs, cuja queixa crime independe de denúncia; nem de óculos e relógios, que dependem de uma representação. O Ministério Público Federal e Estadual já recebeu denúncias, e recomendou à prefeitura a fiscalização de mercadorias. De nossa parte, também pedimos licença em cada box e conversamos com os vendedores.

Branco por fora, a esterilidade do edifício é apenas superficial. Ao andar pelos corredores, entra-se num caleidoscópio de produtos, pessoas e histórias. No total, são 208 bancas distribuídas em 106 no primeiro andar e 102 no segundo, com valores de aluguéis variando entre R$ 105 e R$ 490. Há ainda o terceiro andar, com praça de alimentação, cujo valor cobrado para montar um empreendimento é de R$ 1500. O local abre todos os dias: de segunda a sábado das 9h às 21h, sem fechar ao meio dia e, nos domingos e feriados, das 11h às 19h. Camelôs, ambulantes e artesãos se dividem em cada box, decorando o seu pequeno espaço a sua maneira e como conseguem.

Paulo César Marques Medeiros (foto acima, clique para ampliar), pai de quatro filhos, trabalhou durante dez anos como ambulante, até que se fixou na formação do camelódromo de Santa Maria, em 1991. Sua principal reinvidicação é a de seus direitos políticos: “Cada um dos que estavam na Rio Branco tinha o seu próprio alvará de funcionamento. Agora que nós pagamos aluguel, a CPC ficou encarregada da manutenção do prédio”. Ele explica que a empresa fez uma parceria público-privada com a prefeitura de receber  o aluguel em troca de reformar e cuidar do edifício por dez anos.

Ela diz ter sido a primeira camelô da cidade. Segundo Luíza Halm de Fraga, de 54 anos, ainda no fim dos anos 70, viu alguns brinquedos em promoção em supermercado da época e decidiu vendê-los na Rua do Acampamento. Hoje, a TV é sua inspiração: “O que passa na TV eu vendo”, gaba-se. Mãe de duas filhas, foi uma das poucas que queria a mudança para o Shopping. “Parecia uma favela lá na Rio Branco”. Segundo ela, a maioria dos compradores do segundo andar, mesmo que em menor número, gosta do atendimento, pois ali trabalham mais proprietários dos boxes, cujo atendimento é melhor.

“Eu vendo meus enxovais para a 3ª geração de uma família. Foi para avó, depois para filha, agora para a neta”, descreve Lenir Ziegler Leal, de 60 anos e 40 de casada. Com 17 anos como camelô, o que mais vende não são os bazares que a rodeiam, mas a prolífica produção têxtil. Numa manhã faz uma toca, que vende por 10 R$; e em quatro dias faz um enxoval completo de bebê, vendido de 200 a 300 R$. Localizada no segundo andar, sua banca não possui identificação; ela foi a última a ser sorteada para se mudar para o Shopping, e diz que em breve vai providenciar a plaquinha de identificação da banca.

Na loja 87, fica o Universo dos Adesivos, de Antônio de Almeida Pimentel. Antes de se fixar ali, foi andarilho  por quase 30 anos. Vendia brinco, pulseira, ripa, artesanato, produtos de carpintaria, dentre outras coisas que aprendeu a fazer na estrada. Há seis meses, tem seu carro chefe na venda de cartelas dos adesivos da família, febre nacional de alguns anos pra cá, colocadas atrás dos carros para “identificar” a família que anda no veículo. Sobre o shopping, um amigo que não quis se identificar comentou que “vem bastante gente que não vinha antes, como famílias passeando”.

O box da Jú fica no segundo andar, mas isso não lhe incomoda. Júlia Bonini Witzel, 58 anos, tem duas filhas e três netinhas e diz que suas vendas melhoraram 500% com a mudança de local. Sua estimativa de venda por dia está entre 15 e 18 bolsas. Há casos de mulheres que fazem fila, esperando ela chegar de São Paulo com os mais novos lançamentos da moda, que agora, segundo ela, é cor de rosa e cor de berinjela. Jú trabalhou 11 anos junto aos camelôs na Rio Branco e era uma das que não queriam se mudar para o shopping.

A banca mais cheirosa da cidade. Essa é a de Eliane Souza, de 45 anos, com suas paredes abarrotadas de incensos indianos de todas as cores e cheiros possíveis, e cujas vendas caíram com o shopping: “Mesmo aqui embaixo, ainda é pouco comparado ao que era na rua, com os objetos a vista de quem passava”, desabafa. Ela complementa a venda com peças de lã encomendadas. De suas agulhas rosas saem blusões, mantas, polainas, e tocas que disputam o espaço  padrão com os espetos, murais, molduras e outros objetos de madeira feitos pelo marido.


O jovem Francisco Conrado Neto de 19 anos faz cursinho para prestar vestibular em Administração. Nas horas vagas, trabalha para o pai, José Conrado, ajudando no sustento da mãe e de mais três irmãos. O boneco vestido do uniforme do  Corinthians pendurado em um canto do box faz revelar que não são gaúchos: vieram de Feira de Santana, Bahia, há 20 anos. “Hoje trabalhamos mais com armações, mas meu pai tinha lentes desde aquela época, e nunca ninguém teve problema”, conta.

Laurize Gonzalez trabalha há oito anos para a padaria Chave de Ouro, hoje localizada no terceiro andar. Ela conta que servia almoço no camelódromo da Rio Branco. “O ambiente melhorou 100%, mas as vendas caíram 60, 70% “, avalia. Quando vendia na rua, da janela do carro o pessoal que passava pedia e comprava os alimentos. Segundo ela, o elevador do shopping vive pifando, o que a obriga a subir no braço o carrinho que empurra entre os andares, vendendo aos camelôs.

Chás e ervas são a especialidade de Aldori da Silva Militz, de 43 anos, há 15 anos.  Sua antiga localização era em frente a Catedral de Nossa Senhora da Conceição, na avenida Rio Branco, perto da atual morada. Lá, porém, suas vendas eram muito melhores, talvez pelo fato de ficar na calçada, próxima ao corre corre das pessoas: “Com o passar do tempo do Shopping, o movimento aumentou, mas ainda assim a venda nem se compara ao que era”. Dentre as que mais saem estão Alcachofra, Marcela, Arnica, Cavalinha, e Nó-de-Cachorro, além de xarope e mel. Mesmo com o pouco movimento, ele tem conseguido pagar o aluguel da banca, que para ele tem um bom tamanho.

Tímida mas muito simpática, Cleuza Machado, de 60 anos, não gosta de aparecer em público. Todavia, seus principais produtos são cosméticos, como perfumes e cremes. Seu pai já era camelô antes da formação do camelódromo, quando possuíam uma tendinha na antiga Rua 24 horas [rua que, copiada da de mesmo nome em Curitiba, funcionou por pouco tempo em SM]. Logo depois se mudar para a banca número 82, deu o nome ao box de Cíntia e Cleuza Presentes, tendo de deixar de vender brinquedos e bazares, por causa das caixas grandes. Após um tempo, devido ao aluguel cobrado, precisou dispensar a vendora que dá outro nome a banca – Cíntia, sua sobrinha.

Debaixo da escada que leva ao segundo piso, o artesão Sérgio Lima de Oliveira oferta cuias gravadas na hora, e também entalhadas, pintadas e modeladas em forma de bichos, como tatu, galinhas, pinguins, gatos e até casas de passarinhos. “Aqui é complicado porque dá impressão que tu tá preso, parece uma caverna”, relata. Ao invés de uma cortina de ferro, sua banca é protegida apenas por um grosso vidro, deixando a produção sempre à mostra,  mas ele diz confiar na equipe de segurança do Shoppping. Antigamente Sérgio trabalhava na Praça Saldanha Marinho. Hoje em dia, o que dificulta as vendas é o local um tanto escondido.

Da banca Diferenza, Jayne Nogues Gonçalves trabalha com todos os tipos de bijuteria. Sua antiga banca, também na praça Saldanha Marinho mas em outro local, era uma das mais conhecidas da região – tinha uns painéis violetas montados e desmontados todos os dias. Fazer isso por 15 anos chegou até a lhe render uma L.E.R. no ombro. Naquela época, segundo ela, a venda era maior pela exposição dos adereços, mas o espaço organizado e prático de hoje ajuda bastante. Só está pendente a falta de organização da administração, que tem empurrado para a prefeitura a questão do ar-condicionado, que por sua vez repassa para a administradora.

O Miro, ou Claudiomiro Dias, vende acessórios automotivos há 20 dos seus 38 anos. Ele está satisfeito pela higiene do lugar, apesar do espaço pequeno e do ar abafado: “a gente sente que o ar é pesado aqui”. Iluminado pelo “Multilazer Flash”, um raio verde que chama a atenção de quem passa, ele conta que auto-falante é o equipamento mais vendido, mas também saem muitos aparelhos, tweeters, cornetas. Tudo com nota há cerca de cinco anos. “Teve gente que veio para cá e se legalizou. Isso não falam na imprensa”, diz.

Aos 70 anos, Sonia Shirlei Chagas, possui a banca batizada com o nome da filha de sua única filha: a neta “Inara”. Com a experiência de 40 anos como vendedora, diz que melhorou a segurança e a conservação com a mercadoria. O que mais vende agora são os brinquedos cartelados e carrinhos eletrônicos. Agora, porque a mercadoria é trocada a cada estação ou data. No verão, possui mais infláveis, e no inverno roupas de lã. Próximo ao Dia das Crianças, é claro, possui brinquedos; e no Dia dos Namorados, até flores.

Tendo 15 de seus 50 anos como relojoeiro, Vanderlei Oliveira Lemos, ou só Lemos, trabalhava com um amigo numa banca da Rio Branco. De acordo com ele, devia haver mais organização da administradora do shopping popular. “Eu pago isso como se fosse um condomínio. Para mim, devia haver uma reunião com todo mundo para discutir e decidir o que deveria ser feito” afirma. Dessa forma, decisões como fabricação de crachás para os vendedores, regimento do Shopping e até a taxa de impressão do boleto de pagamento do aluguel, seriam melhor definidas.

Maria de Fátima Andrade da Silva, de 50 anos, herdou do falecido marido a venda de vinis usados. Já o ajudava na Rio Branco desde 2001. O grande pôster na parede oposta a dos vinis a denuncia: é fã do Roberto Carlos, a ponto de dar o nome do cantor ao filho de 20 anos. Como se não bastasse, diz que de 1988 até hoje não perdeu um show do cantor em Porto Alegre e até possui uma tatuagem com o rosto do Rei no pulso direito. Os vinis de RC estão entre os mais procurados. Mesmo vendendo outros produtos, ela prefere não aderir ao comercio de CDs ‘piratas’: “Não, eu prefiro o original, que às vezes vende, às vezes não, mas tem o seu valor”, confessa.

Falida, financeiramente. Assim se considera Elaine Pinheiro Machado, camelô há 28 anos. Ela decidiu não investir na identificação do box; ficaria invisível aos visitantes, pois, assim como boa parte de seus produtos, seriam tapados por um pilar de sustentação do prédio. Para manter a família de três filhos, Elaine voltou a ser sacoleira e viaja de vez em quando para vender em outras cidades: “Em três dias em Quaraí [na fronteira oeste do RS, divisa com o Uruguai] eu ganho o equivalente do mês inteiro aqui”.

No terceiro andar, trabalhadores apontam as rachaduras e também as goteiras que surgem em dias de chuva forte. As rachaduras aumentaram com o tempo desde a chegada, há sete meses, de Marcus Botelho de Lima, dono de uma lan-house que já reclamou de supostas irregularidades na praça. “Só vai melhorar quando cair o terceiro andar em cima das bancas”, ele prevê. O teto também tem seus problemas. O pingamento vindo das rachaduras das telhas se agravam quando temporais ocorrem. “Além disso, muita gente já escorregou e caiu nos azulejos com o piso molhado”, dizem os donos de uma lancheria.

Baixa nos jornais

Textos do Baixa andaram circulando por outras paragens nestas últimas semanas.

Os dois artigos foram publicados em jornais da querida Santa Maria, que promoveu sua “polêmica” 38ª Feira do Livro, de 30 de abril à 15 de maio. Em meio a ela, foi impresso o Jornal Rascunho, produzido pela Cooperativa dos Estudantes de Santa Maria (CESMA) – cuja sede aconteceu o primeiro ciclo copy, right?. No jornal, de circulação gratuita na cidade, está o texto da imagem que abre esse post (dá pra clicar nele para aumentar), um artigo que apresenta o blog e nossa visão sobre copyright e cultura livre e digital.

O outro texto apareceu na edição de sábado/domingo do Diário de Santa Maria, o jornal do grupo RBS na cidade. Assim como o texto “De quem é a música”,  em 2009, “Páginas digitalizadas” ocupa a seção “Ideias” do Caderno Mix, e é uma versão totalmente remixada do longo post “Juremir Machado e os (finados) direitos autorais“. A ideia foi apresentar um contraponto à visão que é predominante no jornal, que em março publicou, no mesmo caderno, uma criminalizadora reportagem versando sobre as locadoras da cidade e suas adaptações ao fato das pessoas baixarem filmes ou preferirem comprar no camelô a alugar. O timing de publicação do texto, no final de semana do encerramento da Feira do Livro, ajudou a provocar (alguma) discussão.