Pedra de Toque no ar

A maneira como entraram em contato com a linguagem e a forma como se relacionam com ela são a tônica do programa Pedra de Toque – A poesia contemporânea brasileira, produzido e apresentado pelo jornalista e também poeta Ademir Assunção, e disponível no site do Itaú Cultural. O programa possui 15 edições até aqui, cada uma com 30 minutos de duração, resultantes de entrevistas realizadas com poetas de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Entre os entrevistados, figuras conhecidas como Arnaldo Antunes e Alice Ruiz, e algumas pérolas escondidas da nossa literatura, como Sebastião Nunes, o autodenominado “ex-poeta” que vive recluso em Minas Gerais, ou o carioca Geraldo Carneiro, de quem nunca ouvira falar e sei que só eu perco com isso.

Se as coisas ocorrerem segundo o entusiasmo do entrevistador, mais 100 edições devem ser produzidas em 2009, e diante disto é preciso destacar que o registro dos depoimentos e o esforço de mapeamento da produção contemporânea de poesia não serão os únicos motivos de celebração. Há vários anos Ademir se mantém distante do front do jornalismo cultural, e o mínimo sinal de retorno parece um bom motivo pra comemorar. Logo que o conheci, Ademir me enviou por email meia dúzia de textos que havia publicado em jornal durante os anos 80. Ainda hoje os guardo, e mesmo isso e a notícia de que ele reuniu boa parte daqueles textos num volume à espera de editor não me deixam menos enfático quanto ao quão bacana é o seu retorno.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Poesia de ouvido

Vêm de longa data e são de longo alcance as relações entre poesia e música, desde lendários bardos anteriores à palavra escrita, passando pelo velho Paul Valèry [que dizia ser a poesia a oscilação entre som e sentido] até o registro permitido pelas tecnologias de gravação, que interessou gente improvável como Antonin Artaud e Guillaume Apollinaire e em décadas seguintes tornou possível a exploração do potencial popular da poesia operada por sujeitos como Dylan Thomas, Jim Morrison e Allen Ginsberg, e há algumas décadas tem interessado uma boa fatia da melhor poesia contemporânea brasileira, a exemplo de Marcelo Sahea, Ricardo Aleixo, Augusto de Campos e Ademir Assunção.

É nesse contexto, bem maior que este resumo, que se insere o programa Ondas Literárias, iniciativa radiofônica da poeta Andréa Catropa que teve 24 edições produzidas e veiculadas pela Cultura FM de Amparo (interior de SP) no semestre passado.

Mas e daí, Valdenir?

 

Daí que agora o Ondas Literárias vai ao ar pela Rádio Cultura Brasil, em kHz e também online [este charmoso formato, a rádio online, a vitória do gênero sobre a duração das frequências, mas divago], com transmissão ao vivo aqui. O programa de estréia rola neste sábado, dia 25, às 10h30, sendo o poeta de estréia meu conterrâneo, parceiro e amado amigo Celso Borges.

Quando o conheci (em 2003), CB já estava envolvido com o segundo disco-livro, Música (o anterior se chama XXI e é o registro literário-auditivo de suas então duas décadas de atividade poética), que conta com participações como as de Vitor Ramil, Chico César, Cordel do Fogo Encantado, Zeca Baleiro e TA Calibre I sonorizando os poemas e traz também os primeiros registros do Poesia Dub, projeto de Celso com o DJ Otávio Rodrigues (e depois com o acréscimo do baixista Gerson da Conceição) que tem se apresentado há alguns anos em eventos como TIM Festival, Baile do Baleiro e Outros Bárbaros, e do qual dá pra ouvir alguma coisa aqui enquanto o disco não sai.

Ou então tu espera até sábado, escuta a entrevista com Celso, as faixas do Música, e fica ligado na sequência dos programas. Repara lá no site da rádio a turma que promete aparecer, como Alice Ruiz (divulgadora de longa data das poéticas orientais no Brasil), Rodrigo Garcia Lopes (poeta e tradutor de gente como Walt Whitman e Arthur Rimbaud) e Marcelo Montenegro (pra mim o mais discreto entre os maiores). A idéia, segundo a própria Andréa Catropa, é manter os podcasts do programa disponíveis no blog também, mas isso ficou de ser negociado com a rádio e ela (a Andréa, não a rádio) prometeu avisar quando tivesse uma resposta.

Aproveito e compartilho pra encerrar alguns bons momentos da poesia no palco, como este aqui, do poeta curitibano Marcelo Sandmann:

Ou este texto aqui do Ademir Assunção [que também participa do Ondas Literárias], que tive a oportunidade de verouvir em primeira mão no já distante 2004 (ou seria 2005?), quando levei um primeiro lero com o bardo cuja obra e postura tanto admiro:

[Reuben da Cunha Rocha.]