Remezclas de Cortázar

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Entre gatos, cigarros e fotos, há 31 anos morria o gigante Cortázar, em Paris. Gigante literalmente: ele nunca parou de crescer por conta da acromegalia, doença semelhante ao gigantismo, mas que se manifesta na idade adulta. Aos 60 anos, Cortázar continuava crescendo, tinha pés e mãos disformes. Aos 70 anos, quando morreu, media 2,14m. Além disso, segundo o blog de uma das editoras que publica a sua obra no Brasil, envelhecia lentamente, sempre aparentando ser mais jovem. O amigo (também escritor) Carlos Fuentes contava que, certa vez, quando foi visitá-lo, quem abriu a porta foi um rapaz que aparentava ter 20 e poucos anos. Ele pediu ao garoto que chamasse seu pai, mas era o próprio Cortázar (já com 50 anos de idade!) quem o recebia.

Dias atrás, o jornalista Bernardo Gutierrez começou, em seu blog, uma campanha #FreeCortázar buscando que as obras do escritor sejam consideradas de domínio público, por serem consideradas “patrimônio da humanidade”. A campanha criou um abaixo-assinado para pedir a sua agente literária, que gestiona seus direitos autorais, que libere sua obra na internet. Assim diz o texto:

Todo el mundo debería tener derecho al libre acceso, copia y remezcla de la misma. Sin embargo, más de treinta años después de su muerte las obras continúan protegidas con copyright. En Argentina, país natal del autor, las obras pasarán a dominio público en 2054. En España, en 2064. Siendo Cortázar un autor extremadamente innovador, habiendo usado el pastiche o collage en ‘El libro de Manuel’, la aplicación rígida del copyright a la obra del escritor es una contradicción.

Não só em “El libro de Manuel” que Cortázar usa do pastiche e da colagem: de sua obra-prima Rayuela (“O Jogo da Amarelinha”) ao livro-almanaque “La vuela al día en ochenta mundos”, toda sua obra está permeada por estas técnicas de remezcla, como explica o crítico literário Roberto Ferro:

Desde la aparición de Rayuela, Cortázar ha recurrido en varias oportunidades a esa modalidad de composición de las páginas, como en sus libros almanaques La vuelta al día en ochenta mundos (1967) y Último round (1969), en los que el collage es el procedimiento dominante de disposición de los diversos componentes textuales. Asimismo, son frecuentes, desde ese período, los volúmenes en los que hay un diálogo intenso entre imágenes y textos verbales; dan cuenta de esa preferencia, entre otros: en Prosa del observatorio (1972) se incluyen imágenes fotográficas tomadas por el escritor; en Monsieur Lautrec (1980) los textos de Cortázar se disponen junto con dibujos y pinturas de Hermenegildo Sabat; en Alto el Perú (1984) alternan con fotografías de Manja Offerhaus. El collage también traspone e integra la reproducción de recortes periodísticos que se compaginan con el relato novelesco en Libro de Manuel (1973). Y todo esto se consuma en Los autonautas de la cosmopista escrito con Carol Dunlop, el último libro que publicó en vida.

Los procedimientos de composición en forma de collages en la obra de Julio Cortázar integran en yuxtaposiciones la heterogeneidad de los materiales y de los lenguajes y géneros que dislocan toda ilusión de unidad preestablecida, formulando, desde otra perspectiva, una crítica a la homogeneidad uniforme y poniendo de manifiesto en la espacialidad de las páginas un campo de tensiones de recortes y fragmentos entre los que se producen pasajes de doble circulación.

La heterogeneidad del collage -que cada configuración compone de acuerdo con los materiales que lo integran y el diseño que los reúne- en las textualidades cortazarianas se presenta a la lectura como una provocación para producir significación que no podría ser ni unívoca ni inalterable. Cada elemento citado rompe con la continuidad o la linealidad del discurso y lleva necesariamente a un doble circuito de lectura: la del fragmento percibido en relación con el texto del que procede y la del mismo fragmento incorporado a un nuevo conjunto, a una totalidad diferente. La operatividad del collage consiste asimismo en no cancelar nunca por completo la alteridad de estos elementos reunidos en una composición espacio-temporal. Así el arte del collage demuestra ser una de las estrategias más eficaces para cuestionar las ilusiones de representación realista.

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Sabemos que, embora faça sentido com sua forma de criar, é muito difícil que a obra de Julio esteja em domínio público na rede. Se não dá pra liberar tudo, a campanha pede, então, que se libere uma obra pequena, desconhecida de muitos fãs do escritor: Fantomas contra los vampiros de las multinacionales. É uma HQ publicada em que Cortázar, como roterista, torna um personagem já existente (e muito conhecido) na França, o vilão Fantomas, em um herói justiceiro que busca resolver um crime relacionado ao desaparecimento e a incineração de diversas obras culturais.

Publicada em 1975 no México, a história tem um fundo político de crítica às ditaduras latino-americanas da época. Cortázar é o personagem-narrador que compra uma revista de Fantomas para ler no trem; nesta história é relatada o incêndio de diversas bibliotecas no mundo e a proibição, sob ameaça de morte, de se escrever novas obras. Ao chegar em casa, o escritor descobre que o que se fala na revista está, de fato, acontecendo. A partir daí, escritores da época – como Octávio Paz, Susan Sontag, além do próprio – participam da trama que contém elementos noir e da linguagem cinematográfica, como a predominância dos diálogos sobre a narração, a utilização de onomatopéias (plok, chuip chuip, etc.), entre outros apontados por Hernán Martignone na crítica à história publicada no blog Sobre Historieta.

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Em tempo: se a obra de Cortázar não é liberada legalmente, nos contentamos com a boa pirataria: aqui tem Fantomas em uma versão p&b pra baixar. Rayuela, na íntegra, na edição da Sudamericana. Historias de Cronopios y Famas. E aqui, na Biblioteca de Eduardo Sandéz, outros vários livros do argentino.

Quadrinhos pirata

Uma nova seleção de quadrinhos sobre pirataria & assuntos correlatos se faz necessária, já que a nossa última tem quase dois anos. Clique nas imagens para ver elas maiores, caso queira.

Créditos: 1, 2 (Patrick Corregan); 3; 4,5,6 (by Mark Parisi); 7 (CartoonStock); 8 (Laerte); 9,10 (Malvados).

Pausa para Laerte

Interrompemos a programação normal do blog para um comentário especial sobre um assunto “da moda”.

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Semana passada saiu uma interessante entrevista do Laerte para o Ig Moda, na qual ele fala sobre Crossdressing – prática que adotou desde o fim 2008, quando começou a fazer uma série de tirinhas chamada Eu, Travesti. É fácil pensar que ele virou gay (é bissexual assumido já faz algum tempo) ou que ele está ridículo (alguém de outra cultura pode dizer que me visto de maneira ridícula, e vice-versa), ou que ele está com a cara de uma tia, dar risada e acabou. Mas, além desses julgamentos prontos, se se prestar mais atenção, pode se ver uma boa reflexão que ele está produzindo. Um conflito intelectual proporcionado não só em algumas pessoas, mas nele também.

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Tendo já contribuído bastante para a arte sequencial do Brasil, Laerte poderia se acomodar e continuar compondo qualquer besteira, da mesma maneira que inúmeros músicos depois do auge fazem. Entretanto, não é o que ocorre. Sua produção é contínua dos anos 1970 até hoje. Ele acaba de lançar um livro novo, “Muchacha”, que pode ser lido na íntegra em seu blog, o Manual do Minotauro, onde publica quase todos os dias. E como consequência direta de sua incursão pelo guarda-roupa feminino, já foi criado um blog inteiro só com incontáveis tirinhas sobre seu personagem crossdresser – Hugo/Muriel, que Laerte já assumiu como sendo seu alter-ego. A partir dele e de si próprio, Laerte está mixando dois gêneros e materializando questionamentos que uma minoria gostaria de poder expressar, ou expressa e não tem repercussão. Parece buscar inspiração na complexidade que é ser mulher, se afundando na lingerie feito Arnaldo Baptista, para tentar entender este universo oposto ao seu, enquanto usa sua notoriedade, talvez sem querer, para dar visibilidade à liberdade.

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Em época de que nada mais parece ser estranho, dá para se perguntar: quais artistas conseguem ainda provocar estranhamento hoje nas pessoas? Quem tenta “aplicar um golpe na lógica, o de implodir o senso comum” como ele disse em outra entrevista, sem parecer forçado? Quem as faz repensar, nem que seja por 10 segundos, o seu próprio comportamento – ou reprodução de comportamento?

Alguns demonstram sentir um desconforto ao olhar e saber que ele se veste com roupas femininas, como se o modo de se vestir estivesse protegido por alguma lei, uma propriedade estética, e qualquer infração a essa lei fosse um crime. Taí: só por causar este desconforto nessas pessoas já dá pra dizer que é instigante a opção de Laerte.

http://www.youtube.com/watch?v=x1cX4-hOP-8

[Marcelo De Franceschi]

A fugaz e inofensiva saga do Capitão Copyright

Dando sequência a mais uma seção efêmera do BaixaCultura, falemos de um outro personagem quadrinístico. Dessa vez,  um herói que virou vilão e sumiu, tanto que tu provavelmente nem se lembra de que ele existiu.

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O famigerado Capitão Copyright foi criado em 2006 pela “Access Copyright” – também conhecido como Canadian Copyright Licensing Agency, uma reunião de editores, fotógrafos e escritores que defendem o status quo do copyright – para “educar” as crianças canadenses sobre os limites do copyright e as consequências de seu infrigimento.

No papel, a ideia era que o capitão fosse uma ferramenta útil para professores promoverem a doutrina do “Acess Copyright” – ou seja, de que “roubo” de obras com copyright é errado.

Como era de se imaginar, não deu certo. Já no mesmo ano, em 2006, o projeto parou de funcionar. A explicação oficial foi a seguinte: “we have come to the conclusion that the current climate around copyright issues will not allow a project like this one to be successful“. Algo como “Nós tivemos que finalizar o projeto por conta de que o atual clima que envolve os assuntos de copyright não permite que um projeto como este tenha sucesso“.

Capitão Copyright

Este “clima” contrário ao copyright na época se manifestou em blogueiros, pensadores, artistas e outros tantos que começaram a perseguir o tal “herói”, publicando textos e mais textos que versavam sobre o grande equívoco de ensinar as crianças canadenses as malícias ultrapassadas das leis de copyright.

Michael Geist, colunista de tecnologia do jornal Ottawa Citizen, deu essa declaração em uma matéria produzida sobre o assunto no site Canada.com:

“Nossas crianças precisam desenvolver o gosto pela aprendizagem, a paixão pela criatividade. (…) Estes exercícios [do Capitão Copyright] não oferecem nada disso, são uma vergonha que não deveria ter espaço em nenhuma sala de aula do país.”

Depois dessa e uma série de outras críticas, o Capitão Copyright não teve como continuar. Todos os sites da iniciativa desapareceram, mas como uma vez na rede sempre na rede, dá pra dar uma olhadela nas páginas oficiais do projeto via Wayback Machine. Ou, então, fique com essa HQ aqui abaixo, fazendo piada com uma situação que já nasceu como piada pronta.

Captain Copyright HQs

 

A Heroína do Domínio Público

O Centro de Estudos para o Domínio Público da Universidade de Duke, nos EUA, resolveu criar em 2006 uma simpática história em quadrinhos para tentar elucidar as tenebrosas fronteiras que separam o uso de material de domínio público daquele que tem uma “propriedade” intelectual, aqui especialmente focado na produção de documentários e nas leis dos Estados Unidos.

Para facilitar a didática, o desenhista Keith Aoki e os roteiristas/professores James Boyle e Jennifer Jenkins criaram a personagem Akiko – a Heroína do Domínio Público na imagem da capa que abre este texto –  uma documentarista que ousou captar a pulsação de um dia nas ruas de Nova York num documentário.

Mas nem tudo é tão fácil quanto parece, e Akiko vai se dar conta disso ao perceber que para tudo que sua câmera olha há uma restrição de nome “direito autoral”. Dentre várias perguntas e frases de ordem, ela questiona: “Quadros, música, escultura. Tudo isto está protegido pelos Direitos Autorais?“.

Diante da resposta positiva, ela prossegue com suas dúvidas, que se colocam cada vez mais imediatas para a produção do já citado documentário sobre Nova York. “Parece um Campo Minado. Tenho medo de descobrir o que está protegido por direitos de autor e o que não está da forma mais difícil: quando a distinção explodir na minha frente“.

Akiko fica então sabendo do triste óbvio: só não precisará se preocupar com direitos autorais se a obra que for usada estiver em domínio público, o que no caso americano significa 70 anos após a morte do autor, podendo chegar a até 95 anos após a publicação da obra em questão.

[Vale dizer que no Brasil, como comentamos no penúltimo post, este prazo também é de 70 anos, que inexplicavelmente deverá ser mantido mesmo com reforma da Lei de Direito Autoral. Para comparar, dê uma olhada nesta tabela que mostra os prazos do copyright em praticamente todo o planeta.]

É então que a HQ informa à documentarista que nem tudo está perdido: nos EUA, existe a questão do fair use, um dispositivo que deveria permitir a crítica, paródia, o comentário e o remix, usos efêmeros ou acidentais de obras protegidas por copyright – que, por sinal, não existe no Brasil e nem pretende existir com a reforma, ainda que alguns artigos tratem de usos semelhantes àqueles identificados no fair use americano.

Gravar programas na TV para ver depois (ainda) é considerado fair use

Mas para cortar a esperança nascente de Akiko, ela fica sabendo que o fair use norte-americano está cada vez mais bagunçado, um verdadeiro “jardim das delícias” da propriedade intelectual, nas palavras da história. Como o fair use é subjetivo, imagina-se que não é algo fácil distinguir o que seria um uso acidental de um uso proposital, por exemplo. Aí entra outra questão: a sabida e cada vez mais crescente queda de $$ das gravadoras/estúdios e afins fizeram com que estas, a fim de tirar o último centavo possível antes de sua queda, começassem a apertar o cerco aos tribunais sobre o que seria esse tal uso, complicando de vez aquilo que já era complicado.

A partir daí, desfilam na HQ casos de abuso do esquecimento do fair use, todos absurdos. O primeiro narrado é exemplar: trata dos problemas que o documentarista Jon Elser teve durante a gravação de “Sing Faster“, filme que narra a produção das óperas do “Ciclo do Anel“, de Richard Wagner, sob a perspectiva de quem trabalhava nos bastidores. Em determinado momento do filme, a câmera captava diversos trabalhadores jogando damas num bar, enquanto a ópera era executada no teatro. Havia uma televisão neste bar, que no exato momento da cena estava passando um episódio de Simpsons. A cena era curta (4 segundos!) mas nem por isso a Fox, dona dos direitos autorais dos Simpsons, deixou de querer cobrar 10 mil dólares pelo uso dos segundos do desenho no documentário. Jon Elser não aceitou pagar, pois a “cena” era um caso clássico de fair use. Mas, para evitar incomodação com a gigante e podero$a Fox e um atraso de anos de julgamento para o lançamento do filme, teve que retirar a cena.

[Detalhe: o criador dos Simpsons, Matt Groening, ficou sabendo do caso e não se importou com o uso de sua criação em outra. Quem se incomodou – e que sempre costuma se incomodar em casos desse tipo – foi quem explora comercialmente os direitos de reprodução da criação.

Outro caso desproporcional dos direitos de autor é relatado no prefácio à edição, escrito por Dave Guggenheim, produtor/diretor de, entre outros, “Uma Verdade Inconveniente“:

“O pior exemplo que eu posso dar aconteceu quando eu estava a fazer um filme chamado The First Tear, um documentário que acompanha cinco professores durante o primeiro e traiçoeiro ano a trabalharem numa escola pública. No clímax do filme, um professor, que está a levar os alunos pela primeira vez numa visita de estudo, ouve a canção “Stairway to Heaven”, do Led Zeppelin. É simultaneamente divertido e trágico observar o momento em que ele anuncia aos jovens “Esta é a melhor canção que alguma vez foi escrita”, ao mesmo tempo que aumenta o volume. O professor exulta de alegria, revelando-se pela primeira vez diante de seus alunos. (…)

Tudo no filme prepara este momento e quando o público vê a cena ri e chora, porque ao mesmo tempo é comovedor e trágico. Mas a maior parte do público não chega a ver esta cena no filme. No DVD, que ainda se encontra à venda, a cena foi omitida porque não consegui autorização para utilizar “Stairway to Heaven”. Graças a lacunas arcaicas, pude usar a canção num festival de cinema e na televisão pública americana, mas a partir do momento em que entraram em cena o uso com fins comerciais fui proibido de usá-la. Não porque não pudesse pagar para licenciar a canção, mas porque nunca consegui localizar os detentores dos direitos autorais ou seus representantes (que são vários, o que é outra triste história).

É diante desse “abuso comercial” por parte dos detentores de direitos autorais que Akiko transforma-se na Heroína do Domínio Público, fazendo algumas perguntinhas que vocês já devem ter vistos por aqui: “Nossa cultura esta a ser atacada por um incontrolável ‘monstro de direitos’. Como é que chegamos a este ponto? Para que serve este sistema? Serão os direitos de autor na verdade prejudiciais aos artistas?”


Há outros quantos exemplos de abusos do não uso do fair use na HQ, assim como mais explicações sobre creative commons, ambientalismo cultural e de outros casos que ilustram o crescimento da cruzada contra qualquer tipo de uso de material protegido por copyright – mesmo aqueles que, teoricamente, se encaixariam muito bem no fair use. A edição original em inglês da HQ, de 2006, está disponível para download grátis, assim como a em português (de Portugal, vale dizer), que ganhou a tradução em 2009 de uma aluna portuguesa da Duke, Ana Santos, e é a edição do qual tiramos as imagens da HQ para este post.

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Créditos de todas as imagens: 1.

Scott McCloud e a “pirataria” musical

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Um livro posto em uma mesa com duas canetas de um lado e  uma água mineral de outro. Uma estante com livros (ou revistas em quadrinhos) ao fundo. Uma máquina fotográfica digital, uma pequena pilha de livros (ou revistas em quadrinhos) e, no foco dessa mini-tentativa de descrever a foto acima, um quarentão sorridente fazendo pose para uma fotografia no que se deduz facilmente ser uma sessão de autógrafo. O quarentão em questão, de nome Scott McCloud, nascido a 10 de junho de 1960 em Boston, Estados Unidos, está possivelmente autografando o livro Making Comics (no Brasil, Desenhando os Quadrinhos, de 2006), o terceiro da trilogia de livros teóricos sobre quadrinhos em quadrinhos iniciada em 1993 com o já clássico Desvendando os Quadrinhos e continuada com o também importante Reinventando os Quadrinhos, de 2000.

Ganhador de vários dos principais prêmios da arte quadrinística mundial, o sujeito da foto acima é também autor de uma vasta produção de webcomics publicadas desde 1998 em sua excelente página na web – é muito provavelmente um dos primeiros a ter feito isso na rede. Neste acervo é que  achei, na série “I can’t Stop Thinking“, uma história especialmente dedicada a “pirataria” musical, feito por McCloud ainda em 2001, quando o assunto começava a ser pauta frequente no planeta graças ao saudoso Napster.

Como em todas as sessões da série “I can’t Stop Thinking“, esta tem como personagem o mesmo dos livros clássicos de McCloud – seu alter-ego quadrinístico, um rapazito muito parecido com Harry Potter em sua fase pré-adolescente. O quadrinho é uma (boa) pensata sobre o assunto pirataria musical, tendo como mote (e exemplo) o Napster, nossas velhas conhecidas fitinhas cassetes, dentre outras coisas. Disfrute de alguns trechos (em inglês) dos quadrinhos aqui abaixo – a íntegra da história dá para acessar aqui.

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Em tempo: McCloud foi chamado ano passado pelo Google para fazer a cartilha de apresentação do novo navegador da empresa, o Chrome. Boa parte das pessoas que não habitam o (cada vez menos) nicho dos quadrinhos só teve conhecimento de sua existência a partir desta ocasião, o que provavelmente seja muito bom.

[Leonardo Foletto.]

Créditos: 1, 2.

Notícias do Front Baixacultural (14)

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Música erudita gratuita ganha espaço na rede (Folha Online, 6/01)

Tempos atrás fizemos um post contando de um ótimo blog com um tremendo acervo de discos de música erudita. No início deste ano, a Folha Online, por meio do colaborador Irineu Franco Perpétuo, fez uma matéria contendo algumas dicas de mais blogs e sites com música erudita para baixar. Destaque para o italiano Branle de Champaigne, especialista em música renascentista, medieval e barroca;  o argentino Il Canto Sospeso, centrado na música erudita contemporânea (séculos XX e XXI); e o brasileiro Brazilian Concert Music, só com compositores brasileiros.

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Download de “Watchmen” de Alan Moore completo (Comunidade Revista Bizz no Orkut, 1/03)

Em semana de estréia do filme Watchmen, o nobre colega Marcello foi à comunidade da Revista Bizz para disponibilizar para download a edição completa da revista de Alan Moore e Dave Gibbons. O link para baixar é esse aqui, mas entra lá no tópico da comunidade para ver o  quanto Marcello foi espinafrado por sua atitude de apoio a “pirataria”.

Em tempo:  Neste link está o trailer do filme; o site oficial, muito bonito como costumam ser a maioria das páginas dos filmes de hollywood; e o verbete na Wikipédia sobre o filme, bastante completo.

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Daniel diz que pirataria pode ajudar a difundir seu filme (Babel, 5/03)

O bombardeio midiático em cima do novo filme do cantor Daniel fez com que boa parte de nós, pobres consumidores de cultura, ficassemos sabendo que “O Menino da Porteira” estreou semana passada nos cinemas brasileiros. Pois não é que Daniel, ao descobrir só agora que 90% das cidades brasileiras não têm cinema, resolveu ir contra seus patrões e declarar, implícita e explicitamente, que a pirataria pode ser muito boa para a divulgação de seu filme:

“Antes de o filme ser lançado, é complicado. Mas, depois, a gente vai ter que ter noção que, se o filme tiver respaldo, vai ter certa procura da pirataria. Você viu o que aconteceu no Tropa de Elite? Foi pirateado, mas teve sucesso de público também. Então…”.

Daniel entende que seu público principal não é aquele que costuma ir às salas de cinema no Brasil, grande parte delas localizada em shoppings. Para esse seu público preferencial ver seu filme, a pirataria pode sim ajudar. Então, a entrevistadora pergunta: “se souber que, numa cidade pequena, sem cinema, alguém viu o filme num DVD pirata, ficará chateado?

“Acho que é uma coisa quase normal. Lógico que a gente gostaria que fosse tudo da forma correta, mas não é assim.Tem amigos meus, como Bruno e Marrone, que começaram a fazer sucesso depois da pirataria. O complicado é que a pirataria tira emprego, não gera benefício pra ninguém. Mas às vezes a pessoa só vê assim.”

Mas a desobediência de Daniel esbarraria logo depois na fala de Rodrigo Saturnino Braga, diretor-geral da Sony Pictures no Brasil, co-produtora e distribuidora do filme,

“Os DVDs piratas também não chegam nas cidades que não têm cinema. Eles são vendidos aqui debaixo do meu escritório, na Berrini”, diz o executivo da Sony.

Em tempo (2):  a matéria linkada aqui é do Babel, recente e já ótimo blog da jornalista de Carta Capital, Ana Paula Sousa.

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Portrait of an Artist as an Avatar (NY Times, 5/03)

A editoria de tecnologia do NY Times não é a toa referência para boa parte dos jornais (e portais) mundiais: traz informações atuais, bem apuradas e, principalmente, ótimos textos, tudo como manda o tão esquecido Manual do Bom Jornalismo. Esse perfil aqui, produzido por Sarah Corbett, é mais um desses exemplos: conta a história do “artista” Filthy Fluno, um avatar pixelado e black power do Second Life (!) que ajudou seu criador –  Jeffrey Lipsky, artista plástico – a consolidar sua carreira no “mundo real”, com exposições em lugares tão distintos quanto Nova York e Portugal. No meio disso tudo,  muitas questões sobre as fronteiras cada vez mais apagadas entre o mundo digital e o real.

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Lars Ulrich dos Metallica pirateia-se a si próprio (Remixtures, 6/03)

Miguel Caetano do Remixtures nos conta que Ulrich, baterista do Metallica e principal responsável pela guerra declarada pela banda ao saudoso Napster, numa recente entrevista a Eddie Trunk do programa “That Metal Show” da cadeia de televisão VH1 Classic, confessou que baixou de maneira “ilegal” o  próprio disco novo de sua banda, Death Magnetic:

“Eu sentei-me e descarreguei o Death Magnetic da Internet apenas no intuito de experimentar. Foi algo do tipo “Wow, é assim que isto funciona.” Eu pensei para os meus botões que se havia alguém com direito a descarregar de borla o Death Magnetic era eu.”

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[Leonardo Foletto.]

Crédito foto: World War II Photos

Happy New Ear

É o que o BC deseja, parafraseando o mestre John Cage.

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Todos os quadrinhos acima, organizados numa sequência relativamente cronológica, foram tirados do Comics.com, excelente banco de dados de quadrinhos feito nos Estados Unidos. Os autores das tiras, respectivamente, são Bill Schorr, Jerry Bittle, Larry Wright, Kevin Fagan, Jerry Bittle de novo, Bill Schorr de novo e Chip Samsom.

[Leonardo Foletto]

Notícias do Front Baixacultural (8)

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(Excepcionalmente com uma semana de atraso, devido às folgas que se fazem cada vez mais necessárias em finais de ano).

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O deputado pirata (Super Interessante, 12/2006)

Sim, essa é bem antiga, mas é algo que fazia tempo que procurava: a entrevista publicada pela Super com Rick Falkvinge, o sueco fundador do Partido Pirata, qjue tem como principal bandeira de campanha a liberação dos donwloads na rede. Em 2006, eles conseguiram34 918 votos, 0 que seria suficiente para assumir uma cadeira no parlamento sueco se não fosse a cláusula de barreira adotada no país, que impede a presença de partidos nanicos no Parlamento. Neste ano, eles voltaram: inscreveram 20 candidatos para a eleição do Parlamento Europeu, que vai acontecer em junho de 2009.

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Los Enemigos del copyright ( El País, 17/12)

Boa matéria do jornal espanhol falando sobre Joost Smiers e seu novo livro,  Um Mundo sin Copyright, que paradoxalmente não é disponibilizado em Copyleft ou CC (culpa da editora, dizem). Smiers, que é professor da Research Group Arts & Economics da Utrecht School of the Arts, na Holanda, defende que o copyright é anti-democrático, porque só beneficia as grandes corporações: “Estoy a favor del mercado, pero estos grandes conglomerados de la industria cultural lo que hacen es manipularlo con su maquinaria de marketing. Nos convierten en consumidores pasivos. Creo que nadie tiene derecho a decirnos qué película tenemos que ver o qué libro debemos leer. Y eso es lo que hacen con su publicidad“.

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A Cauda Longa afinal é bastante curta (Remixtures, 26/12)

Todo mundo ouviu falar (e adorou saber) da tal Teoria da Cauda Longa, apresentada pelo editor da revista Wired Chris Anderson, que dizia: “O futuro do negócio dos conteúdos online está em vender menos cópias de um maior número de diferentes items“. Mas como diz o Remixtures, “esta visão optimista da produção e distribuição de conteúdos tem vindo a ser arrasada com uma série de dados empíricos”. Nesse post, o blog português mostra duas dessas pesquisas que põe em dúvida a veracidade da tal Cauda Longa.

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The Comics Are Felling the Pain of Print (NY Times, 26/12)

O NY Times traz matéria com um viés interessante: como alguns cartunistas começaram a aparecer mais (e lucrar mais) com a disponibilização gratuita de seus cartoons na rede. Vale a leitura, principalmente para quem se interessa sobre o mundo novo que a rede está abrindo aos cartoons & HQs.

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Internet toma lugar dos jornais como 2º fonte de notícias dos EUA, diz Pew (IDG Now, 26/12)

Um estudo recente da Pew Research Center for the People & the Press diz que a internet já é a segunda fonte de informaçãoes dos norte-americanos – 40%, contra 35% dos jornais, perdendo só para a TV, com 70%. Claro que no Brasil ainda não se tem um número tão alto, mas quem se arrisca a dizer em quanto tempo números próximos a estes vão valer também por aqui?

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[Leonardo Foletto.]

Crédito foto: World War II Photos

O blog mais bem pago de São Paulo

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A bizarra condição dos blogs que efetivamente ganham Grana pra fazer o mesmo trabalhinho imundo das mídias tradicionais – a velha e boa matéria paga – é o alvo da mais recente empreitada do carioca André Dahmer. Conheça Surf Hype, o maior blogueiro de São Paulo, que após dar as caras como personagem de quadrinhos ganhou carne, osso, e esse blog aí.

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A essa altura tu já deve saber que André Dahmer é uma das vozes mais singulares, criativas e prolíficas das artes gráficas brasileiras. Pintor e ilustrador, Dahmer também é o criador de uma vasta galeria de personagens de quadrinhos, dos quais os Malvados foram os primeiros a se popularizarem. Aqui, neste que [ainda hoje e mesmo agora que o autor tem seu trabalho publicado pela grande imprensa e impresso em livro] continua sendo o espaço prioritário de disponibilização de seu trabalho, ainda bem.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Banco de webcomics

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Já que estamos falando de quadrinhos nesta semana, aqui vai a dica do Subcultura.es, um grande banco de dados de tiras, cartoons e outros tipos de quadrinhos em espanhol. Criado recentemente, ele funciona num esquema parecido ao do Youtube, onde tu pode “subir” as tiras para o site e, depois, comentá-las, linká-las e outras cositas más.

O acervo é ainda pequeno e focado mais no mundo hispânico, mas o site tem uma estrutura simples e prática que promete torná-lo mais movimentado. E a idéia do slogan deles é boa: Tienés un webcomic? No tienes dónde publicarlo? Subcultura viene al rescate!

Uma das coisas interessantes que já tem por lá são as tiras ” La intranscendencia de Crespito“, publicado por Gagovi,  que abre este post.  Outras boas que encontrei são as do já clássico explosm.net, devidamente traduzidas para o Espanhol. Olha uma delas aqui abaixo:

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explosm

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Via GJol

[Leonardo Foletto]

V de Vertigem

Um fake salvou minha vida. Minha vida, ou pelo menos minha vida do jeito como a levo, depende da maneira como insisto em acreditar na humanidade. A humanidade, essa peça estranha no balé do planeta, penso que apenas sua capacidade de criar beleza seja capaz de redimir sua capacidade de destruí-la. Mas eu dizia que um fake salvou minha vida.

Minha vida, ou pelo menos minha vida do jeito como a levo, depende duma espécie de serenidade, de talvez sanidade proveniente em grande medida do prazer e das porradas que, voluntariamente ou não, diariamente eu levo. Às vezes, isso custa caro.

Eu não quero falar do preço que a vida nos cobra, a grande vida, a vida extraída de cada poro e seu alto risco. Não é isso, não agora. O que eu dizia é que manter a linha nem sempre é fácil e que as coisas que ajudam a mantê-la podem ser caras, mesquinhamente caras, estou falando de Grana, estou falando que há coisas muito simples que me deixam tranqüilo, não me lembro se o trema já caiu, um milhão de coisas muito simples como a beleza de um diálogo, um naco de nuvem, ou quadrinhos. E quadrinhos, ao contrário das duas outras opções, custam Grana.

Agora, voltemos ao fake.

Agora sei que seu nome é Thiago, que trabalha com publicidade e parece com aqueles retratos de Jesus. Mas antes disso, fui apresentado ao fake Von DEWS!, foi esse cara quem salvou minha vida. Entenda que não foi preciso muito e que esse papo não tem nada a ver com a leve semelhança de Von DEWS! com Jesus. Tem a ver com o Vertigem, o blog de scans de HQs que hoje comemora 02 anos e cerca de 600 posts de existência. Entenda que às vezes salvar a vida de alguém pode ser só uma expressão, um pequeno exagero nascido de uma alegria, nesse caso a alegria de contrariar os preços conhecidamente abusivos dos quadrinhos no Brasil.

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Quarto membro de uma equipe inicial da qual é o único sobrevivente, Von DEWS! hoje coordena uma equipe fixa com cerca de 10 colaboradores [além dos colaboradores eventuais e das parcerias com outros blogs e sites], a maioria deles leitores que resolveram ajudar, gente que nunca se viu na vida e trabalha conjuntamente para me impedir de gastar um dinheiro que não tenho com coisas que amo. Coisas que admiro, como esta série do Warren Ellis, coisas das quais já falei aqui, como The Walking Dead, coisas que me divertem muito, como o doido do Steve Niles, coisas geniais, como a obra do genial Grant Morrison. Tudo gratuito – traduzido, diagramado e escaneado com cuidado e persistência.

Fell (Warren Ellis+Ben Templesmith)
Fell (Warren Ellis+Ben Templesmith)

Com método, mesmo. Não é, Von DEWS? “Atualmente cada revista tem um tradutor e um letrista fixos, e raramente uma pessoa só faz as duas coisas. Eu faço as capas e os títulos, e reviso todo o trabalho dos tradutores mais de uma vez. Leio e reviso a tradução que chega em Word, e faço o mesmo trabalho quando volta das mãos do letrista”.

O trabalho é de editora, eu penso, e aproveito para perguntar sobre mercado. “É uma incógnita, as editoras escondem os números de vendas, de tiragem. Nos EUA, as editoras exibem com orgulho os números das vendas. Aqui, elas escondem. Tenta perguntar pra Panini quantas edições de X-Men foram vendidas esse mês…Nem pagando eles te falam. É dificil mensurar qualquer coisa”. E ele pergunta mesmo, seu interesse pelo mercado editorial é mais sério que a minha pergunta: apesar de figura conhecidíssima nas comunidades de download e de preparação de scans, Von DEWS! não troca os quadrinhos de papel pelos arquivos de computador, e acredita que seu trabalho deva ser de parceria com as editoras.

Os Invisiveis (Grant Morrison)
Os Invisíveis (Grant Morrison)

E com outros grupos de scans. Segundo o editor do Vertigem, sempre que pinta uma dúvida de tradução ou diagramação, sempre que aparece a oportunidade de colaborar com resenhas e artigos, enfim, sempre que há a possibilidade de diálogo, há diálogo. “Quase todo mundo tem o msn de todo mundo”, por exemplo. Mas vamos voltar ao papo sobre mercado.

“Apesar do crescimento da internet, os scans circulam entre uma parcela mínima de leitores. Eu vejo isso no orkut, a quantidade de leitores que nem sabe o que é scan, não sabe que existe uma edição original americana [nota deste repórter: caramba!]. O papel dos scans é mais de divulgação que de qualquer outra coisa. Eu acho que, por exemplo, se ninguém tivesse traduzido The Walking Dead há alguns anos, a [editora] HQM nunca teria investido nos encadernados. Por mim, a gente fazia parceria e a divulgação seria conjunta! Só esse semestre eu gastei mais de 800 reais em quadrinhos! Eu tenho 40 giga de quadrinhos no PC, mas tenho o equivalente a 900 giga em papel! E não os troco por nada!”, ele afirma, com as exclamações que lhe são peculiares.

Parece haver de certa forma uma correspondência entre essa disposição em colaborar com o mercado regular de quadrinhos e, se não a disposição contrária, pelo menos a raridade da fiscalização legal. Porque embora nós dois acreditássemos que a ação do Vertigem e de qualquer outro blog de scans seria ilegal apenas se resultasse em lucro, a legislação de direito autoral é, segundo o Edson, bem menos tolerante. Mas a intolerância tem se mostrado felizmente alheia ao trabalho de divulgação de scans, ao contrário do que ocorre com blogs de download de arquivos de áudio e vídeo.  “Até hoje, em quadrinhos, só o Eudes [do Rapadura Açucarada] teve problemas com isso. A questão é que ele vinha escaneando quase tudo que saía em banca, e na época o blog tinha muita visibilidade. Com a proliferação dos espaços essa visibilidade exclusiva diminuiu, ele precisou parar durante um tempo mas depois voltou com força total”.

Von DEWS! concorda quando digo que a situação é essa: os blogs existem, ninguém sabe direito o que pode ou não pode fazer legalmente, mas também é como se a lei não estivesse preocupada com isso. Parece uma espécie de benefício, fruto do eterno anti-lugar que os quadrinhos ocupam na estante cultural das sociedades, da imagem que preservam de entretenimento inofensivo e fonte de roteiros quadrados pra indústria cinematográfica, e não uma linguagem como qualquer outra, capaz do que é capaz qualquer linguagem quando usada por uma voz sincera e afiada. De ocupar o tempo de pessoas que a amam e não vão ganhar nada em troca, não vão ganhar nada que tenha valor de troca, pessoas que não vão trocar isso por nada.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Jornalismo gonzo por Warren Ellis

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O jornalismo não escapou ao movimento geral da profissionalização do mundo, e seu caso específico é o de um campo que num passado não tão distante abrigou fartamente figuras com porte de artista, verdadeiros escritores que agora mortos cedem suas cadeiras nas redações para funcionários sem vigor nem violência [isso sem contar as exceções]. Porte nesse caso diz respeito à grandeza duma produção textual desovada em jornais e revistas ao invés de livros muitas vezes por puro deboche ou consciência histórica [pra quê falar para 100 se se pode falar para 1000, consigo ouvir Paulo Leminski perguntando, enquanto pensa sobre a grandeza da cultura de massa], como é o exemplo, no Brasil, de um Torquato Neto, corajoso colunista de jornal, poeta morto inédito em livro.

É só questão de tempo até que meu texto esbarre no nome de Hunter S. Thompson, exemplo extremo de coragem textual associada a inacreditáveis níveis de irresponsabilidade e chapação. Thompson está no grupo de autores que me é mais caro, aquele que inspira amizade mais que admiração, e quem sabe não seja isso que Warren Ellis tenha em mente ao homenageá-lo como inegável modelo para seu personagem mais adorável, Spider Jerusalem, o jornalista da série Transmetropolitan.

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A premissa da série é a mesma de qualquer ficção cyberpunk: usar o futuro, onde alta tecnologia e baixíssima qualidade de vida coexistem, pra falar do presente. Nesse caso, um futuro como qualquer outro, cheio de violência urbana, fanatismo religioso, corrupção, pobreza, e o agravante de que o único resquício de dignidade, correção e ética é um paranóico jornalista que pra piorar é viciado em…bem, tudo. Drogas, armas, violência, pornografia e a metrópole: apenas lá ele consegue escrever, escrever segundo o credo anunciado já na primeira edição: “the typewriter’s a gun. Show’em some steel”. É essa máquina de escrever que aponta pro mundo, em busca de um valor que não é preciso chegar no futuro pra considerar deslocado – a verdade dos fatos, e tal. Mas sem heroísmo ou inocência, o personagem de Ellis é tão matador quanto caricatural em sua quixotesca busca e seu destino não é muito melhor que o dos corruptos que tanto aporrinha. 

spider

É assustador que alguém com tantos acertos como Warren Ellis não hesite em afirmar ser Transmetropolitan seu melhor trabalho, mas é tão assustador quanto faz sentido. Considero mesmo uma aula de jornalismo acompanhar, por exemplo, a cobertura das eleições presidenciais americanas feita por Jerusalem, em que ele põe em prática a máxima do próprio Thompson, segundo a qual a objetividade jornalística serve apenas para mascarar os dilemas e conflitos humanos, a verdadeira matéria de que são feitos os textos, ou pelo menos os que importam.

O Dr. Gonzo original, trabalhando
O Dr. Gonzo original, trabalhando

Não é difícil encontrar as 60 edições da série [que durou cerca de cinco anos] pra download [talvez seja difícil encontrar todas as edições em português]. Aqui é um bom lugar, e há três comunidades Transmetropolitan no orkut, busca lá que tu acha. Também recomendo uma lida nessa entrevista aqui do Warren Ellis, em que o escritor fala sobre meia dúzia de coisas interessantes e atesta sua fé na ficção extrema como um meio de falar sobre seu próprio tempo, no fim das contas ele mesmo um tempo pra lá de extremo.

[Reuben da Cunha Rocha.]