Como pesquisar na web anonimamente

A internet é tão intrínseca ao dia-a-dia moderno que esquecemos de observar a sua estrutura, o espaço que habitamos dentro dela. É como andar de carro: nós nunca prestamos atenção do que são feitas as paredes internas e o forro. O problema é quando o forro pode ser ruim para você. Pra ser claro o bastante, vou começar descrevendo o grande cenário e então ampliar um ponto específico, fazendo um verdadeiro zoom in em câmera lenta, pra que possamos entender a importância da coisa toda.

GRANDE CENÁRIO: O ACESSO À INTERNET

A forma como navegamos na internet está mudando. Desde o ano passado, os brasileiros acessam mais a rede pelo celular do que pelo computador. 49% das pessoas hoje em dia não usam mais computador. [1] No mundo, 99,6% dos smartphones têm como sistema operacional o Android ou iOS, sendo que 81,7% disso é só o Android. [2]

Ou seja: atualmente, o Android é o meio de acesso à internet mais popular que existe no Brasil.

A página oficial do Android é essa. [3] Pra quem não sabe, esse é um sistema operacional de código aberto, que pode ser modificado pelo usuário. É desenvolvido pelo Google. Ele está disponível de forma gratuita para que possa ser usado por qualquer pessoa ou empresa que queira colocar um sistema operacional no seu dispositivo móvel.

É como se metade do serviço já estivesse resolvido de largada. Basicamente o que todas as empresas desenvolvedoras de smartphone fazem hoje em dia é o seguinte: se debruçam sobre a concepção do aparelho – seu processador, memória, design da tela, câmera, alto falante, resistência à água, etc. Depois entram no site que referenciei, baixam o Android e instalam no aparelho, fazendo pequenas modificações pra parecer personalizado pela empresa. Assim o usuário tem a impressão que tem um celular da LG que não é igual, e ter a leve ilusão de que é um sistema melhor do que, o seu antigo aparelho da Samsung, ou qualquer empresa que seja.

Ok, agora entra a dúvida econômica: o que o Google ganha por disponibilizar um sistema operacional inteiro e completo pra que quase todo o mercado de telefones celulares do mundo se aproprie da coisa e não precise distribuir o seu próprio, se ele não cobra nada por isso?

AMPLIANDO (1): A EMPRESA GOOGLE E SEU MODELO DE NEGÓCIO

Resposta: informação.

O que ele ganha é pura e simples quantidade infinita e incalculável de informação provinda de bilhões de usuários que são obrigados a criar um cadastro, vinculando nome, email e senha, pra acessar o aparelho.

Percebam: tu comprastes um celular belíssimo, de até cinco mil reais, um verdadeiro milagre da tecnologia, capaz de tirar fotos que nenhum profissional já tenha visto em um aparelho tão compacto, capaz de reproduzir som como um rádio de parede faria nos anos 50, mas tu não pode usar ele, a menos que coloque o nome e o email na primeira tela do aparelho.

Você é obrigado a dividir suas informações se quiser usar o aparelho que você já comprou! É uma nova relação, totalmente inédita no capitalismo. Não basta você adquirir. Agora você é parte da coisa. Fica perceptível: o acesso ao sistema Android é um serviço não fornecido pelo aparelho celular que você comprou. O sistema Android é um serviço remunerado pelo usuário. Mas ele não é pago financeiramente. Ele é pago com informação: dados pessoais.

É genial a atitude de lançar um sistema operacional trabalhando como grande coletor de dados, e oferecer de graça para as fabricantes de telefone. O modelo de negócio do Google é baseado em monetizar dados de uso das pessoas. Esses dados se transformam em informação segmentadíssima para que as empresas possam direcionar seus anúncios. O Google vende o oposto de um outdoor: em vez de fazer um banner gigantesco visualizado por todos os tipos de públicos e torcer pra que as pessoas certas enxerguem o novo produto, o anúncio vai diretamente para aqueles que certamente têm algum tipo de vínculo com o produto novo. Quantos de nós já pesquisamos “Nike” no Google e passamos semanas visualizando anúncios de tênis da empresa, como se fosse mera coincidência? O usuário é considerado uma verdadeira ovelha no esquema, um consumidor passivo, e que não vai notar que está sendo caçado. E será que não deixamos de reparar nessas coisas, realmente?

Quem vai pagar para anunciar num outdoor ou num jornal quando uma empresa de tecnologia te promete enviar anúncios para as pessoas exatamente certas, por um preço menor e por menos trabalho? Por que por um preço menor e por menos trabalho: porque o Google coleta os dados de graça do usuário. Ele não precisa nem pedir, já estamos fornecendo instantaneamente a todo momento.

AMPLIANDO (2): OS DADOS COLETADOS PELO ANDROID

Diversos tipos de informação, como a sua localização ou quantos e quais aplicativos estão baixados, são acessáveis para o Google. Está nos termos de uso. O que se pode fazer sobre isso? A menos que se comece a utilizar outro sistema operacional, não baseado em algum login, nada. O mercado está bem centralizado entre ter uma conta Google ou uma conta do iCloud.

Recentemente, uma investigação da Associated Press demonstrou que o Google rastreia sua localização através do GPS do celular, mesmo que a opção “localização” esteja desativada. [4] Estão armazenados nos servidores da empresa na Califórnia, nos Estados Unidos, exatamente todos os lugares que tu frequentas levando o celular no bolso.

Seria melhor começar a deixar ele na gaveta. Mas como parar de usar o Android? Meio difícil, já que ele é a única opção popular no mercado além do iOS, oferecido pela Apple pra quem compra um iPhone.

AMPLIANDO (3): COMO SE NÃO BASTASSE O ANDROID, AINDA TEMOS OS APLICATIVOS DO GOOGLE

Perceba: os dados que eu comentei são aqueles adquiridos apenas pelo Android. Devemos levar em consideração ainda os dados que são enviados para o Google através dos aplicativos da empresa que estão nativamente no aparelho, e possivelmente são usados pelo usuário.

Sim, porque ao usar o Chrome, o buscador Google, o Youtube, o Play Música, o Fotos, o Tradutor, e diversos outros aplicativos da empresa, esse acesso é vinculado ao seu email e sua conta Google, e enviado para os bancos de dados da empresa. É possível criar a identidade da pessoa através do uso do celular. O Google pode saber quando você ficou solteiro, se localizar o momento que você adquiriu e instalou o Tinder no seu celular, por exemplo.

Recentemente, o Google recebeu uma multa de 19 bilhões de dólares da União Europeia, pelo que foi considerada uma atitude monopolista de mercado [5]: o buscador do Google e o navegador Chrome vêm como ferramentas padrão do sistema, favorecendo os próprios produtos. A empresa se comprometeu a mudar essa configuração, como resposta à multa. Nas próximas atualizações do Android, então, apesar dos aplicativos certamente continuarem instalados, eles não vão ser mais os “programas padrão”.

O efeito dessa medida é relativo, porque nada impede do usuário de transformar tanto o navegador quanto o buscador em padrões novamente, já que esses são os mais famosos e mais naturalizados dentro da cabeça das pessoas.

E a menos que tu não se importe nem um pouco de ser explorado por uma empresa e não ache que o livro 1984 termine tão mal assim, é importante pensar em formas de diminuir o sequestro de seus dados pessoais.

Então entra a parte menos entristecida desse texto: se não há muitas opções sobre o que fazer para não ser rastreado, pelo menos podemos mitigar o problema, e atuar positivamente em direção a outros serviços, que não baseiam seu modelo de negócios em utilizar dados do usuário, e valorizar essas empresas.

AMPLIANDO: UMA SUGESTÃO DE APLICATIVO PARA DIMINUIR O SANGRAMENTO DE DADOS

De dentro do Android, infelizmente ainda não temos soluções de saída. Mas podemos buscar alternativas para os aplicativos da empresa que são usados com naturalidade pelo usuário.

Nesse artigo quero apresentar uma das possíveis opções para vários serviços do Google. Uma alternativa à solução do Google mais clássica de todas – e que fez a empresa ser a gigante bilionária que é hoje: o buscador.

Talvez um ou outro usuário da internet mais aventurado já tenha ouvido falar no DuckDuckGo, mas acredito que a maioria não. Por isso acho tão importante apresenta-lo: o buscador do pato já existe há dez anos e se tornou relativamente famoso pela sua política avessa ao Google.

O DuckDuckGo foi criado em 2008 e divulgado primeiramente para usuários do Reddit. Pouco menos de um ano depois de entrar no mercado, eles aderiram à política de não rastrear o usuário, e se tornaram conhecidos pelo ousado outdoor lançado em 2011, na estrada californiana que leva à sede do Google, em que anunciam: “O Google te rastreia. Nós não.”.

Entrando em duckduckgo.com, é muito fácil de assimilar os conceitos da empresa: logo é sugerido que seja instalada uma extensão no navegador que bloqueia os anúncios e rastreadores do Google espalhados pela internet. (Sim, eu nem cheguei a mencionar isso, mas o Google não só coleta informações através de pesquisas no navegador e o uso direto dos aplicativos deles, mas também com rastreadores em até 75% dos sites da internet.)

A empresa tem como principal bandeira a privacidade do usuário. No seu blog, chamado Spread Privacy (Espalhe Privacidade, em português), eles dão dicas de como navegar com segurança online. Ao entrar no seu site pela primeira vez, é sugerido que torne o DuckDuckGo o navegador padrão, e use a ferramenta de bloquear os rastreadores do Google.

“Mas nenhuma empresa seria benevolente à toa. O que eles ganham com isso? Se anúncios dão dinheiro através da coleta dos dados, como eles podem se sustentar?” Você pensa, cético, questionador. E tem razão. Nós sempre devemos desconfiar ao adotar sugestões, especialmente de empresas digitais, que hoje em dia trabalham todas com informação.

Talvez eu me prove errado em algum momento futuro, mas a verdade é que o modelo de negócios do DuckDuckGo não envolve a personalização dos anúncios e resultados de busca. A empresa ganha dinheiro através de cliques em anúncios também, mas não aqueles baseados nos seus interesses, e sim naquilo que foi pesquisado. A segunda fonte de receita da empresa é uma parceria com Amazon e Ebay: os resultados de busca para esses sites apresentam códigos personalizados do DuckDuckGo. Caso você compre em algum desses sites através da pesquisa feita no DDG, eles ganham uma comissão.

Como eu sei que o buscador é seguro? Porque ele não tem nenhum tipo de login. Perceba: a forma das empresas vincularem os dados coletados à alguma pessoa é através do email e senha que são cadastrados no início do uso. Isso serve pra todos os aplicativos. Justamente por isso eu evito instalar aplicativos que pedem login, e quando não tenho alternativo, uso um email “falso”, que serve só pra esse tipo de cadastro, especialmente em aplicações muito específicas, que se tornam inúteis fora daquela função que eu preciso naquele momento.

Outro fato que valida a integridade da ferramenta de busca é o fato de ter se tornado, recentemente, o buscador padrão do navegador Tor, o mais seguro da internet.

AMPLIANDO: COMO INSTALAR E UTILIZAR O DUCKDUCKGO

Acho que quanto à instalação, não precisamos esticar muito. Baixando o aplicativo no celular, ele te sugere que se transforme no buscador padrão, e você ainda pode acessá-lo diretamente colocando na sua tela inicial e clicando em cima.

No navegador, ao entrar no site duckduckgo.com, ele te sugere instalar a extensão que transforma o DuckDuckGo em buscador padrão e também bloqueia os rastreadores do Google. Caso não queira fazer isso, também é possível torná-lo apenas buscador padrão, mexendo nas configurações do navegador. Nesse caso, siga o passo a passo de Rodrigo Ghedin no jornal Gazeta do Povo. [6]

Usar o DuckDuckGo é diferente do Google especialmente nos resultados. O usuário estranha no início a falta de personalização, mas eu considero os resultados impessoais melhores e mais interessantes.. No caso do usuário estar buscando uma comodidade do dia-a-dia, como, por exemplo, “chaveiro”, é possível que os resultados não sejam úteis, caso tu não descreva a cidade em que está. O DuckDuckGo não possui nenhuma forma de saber a sua localização, e nesse sentido ele não pode ajudar. Então, em vez de escrever só “chaveiro”, é melhor escrever “chaveiro (nome da cidade)”.

No mais, os resultados diferentes são muito bons para abrir a mente do usuário. Normalmente, a primeira página de resultados do Google é sempre igual, e direciona para os mesmos sites: o Youtube, alguns sites de notícias mais famosos, etc. Para encontrar conteúdo baixável, por exemplo, é muito melhor usar o DDG. No Google, devido à restrições de direito autoral, os resultados são quase sempre uma busca infrutífera.

DESVIANDO: CONSIDERAÇÕES SOBRE PRIVACIDADE

O objetivo aqui não é apresentar o DuckDuckGo como uma ferramenta final capaz de te salvar da exploração de dados feita na internet atualmente. Acho que isso fica claro especialmente pela limitação do uso: a empresa atua somente como ferramenta de busca (e bloqueador de rastreadores, caso seja baixada a extensão). Esse é um dos serviços fundamentais que usamos na internet, mas muitos outros continuam a nos rapinar, em níveis muito mais básicos de acesso, como o que foi mencionado sobre o Android.

Edward Snowden já falou muito mais e melhor sobre isso do que eu. Nenhuma ferramenta sozinha garante privacidade na internet. [7] Estamos cercados pelo sequestro de informação, especialmente porque se tornou parte do modelo de negócios de várias empresas.

A apresentação do DuckDuckGo que faço tem como objetivo específico convencer o leitor a mudar de buscador. Mas tenho esperança no objetivo geral demonstrar algo maior que isso: mudar o pensamento relacionado ao consumo de ferramentas e aplicativos. Depois do escândalo Cambridge Analytica, foi amplamente difundida a frase “se o serviço é grátis, o produto é você”, que já circulava entre as iniciativas mais preocupadas com privacidade da rede. Apesar disso, a ponte para o usuário atravessar, o caminho para abrir mão dos serviços coletores de dados, ainda é espinhoso e pouco claro.

Basicamente, quando se utiliza algum serviço online, deve se observar a presença do cadastro e aceitação dos termos de uso: imagine que absolutamente tudo que é feito dentro da aplicação estará relacionado ao seu email, nome de usuário e senha.

O quanto daquilo que se faz dentro do aplicativo você quer que seja conhecido? Por exemplo: muita gente não se dá conta que acesso ao Google Chrome logado na conta Google, mas o faz, e todo seu histórico é salvo e relacionado à sua forma de utilizar a internet. E tudo isso conta na hora de desenhar o seu perfil e vendê-lo aos anunciantes.

Quanto à isso, podemos agir de forma positiva, procurando serviços que não se baseiam em coleta de dados para tornarem-se viáveis. E depois disso, podemos esperar pela ação capitalista: se as empresas de tecnologia e informação não conseguirem mais segmentar os usuários, anunciantes buscarão outros meios, e o modelo estará diminuído – até possivelmente encerrado.

CONCLUSÃO: O QUE INTERESSA À UMA EMPRESA

O DuckDuckGo defende que é possível uma organização se sustentar sem roubar os dados do usuário. Acho que você e eu poderíamos defender também.

Victor Wolffenbüttel

REFERÊNCIAS

[1] https://tecnoblog.net/252838/celular-principal-meio-acesso-a-internet-brasil-tic-domicilios-2017/

[2] https://www.theverge.com/2017/2/16/14634656/android-ios-market-share-blackberry-2016

[3] https://developer.android.com/

[4] https://tecnoblog.net/255495/google-privacidade-historico-localizacao/

[5] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/07/uniao-europeia-multa-google-em-r-19-bi-por-pratica-anticompetitiva-com-android.shtml

[6] https://www.gazetadopovo.com.br/manualdousuario/trocar-google-duckduckgo/

[7] https://theintercept.com/2015/11/12/edward-snowden-explains-how-to-reclaim-your-privacy/

Diálogos Abertos #4: internet livre e segura

 

A quarta edição do Diálogos Abertos, nosso “programa” de debates mensal que realizamos em parceria com a Casa da Cultura Digital Porto Alegre, discutiu, neste último sábado, a busca por uma internet livre e segura para tod@s. É possível?

Nos reunimos na sede da Amigos da Terra Brasil, núcleo brasileiro de uma organização internacional dedicada à proteção do meio ambiente e à promoção do desenvolvimento com sustentabilidade e justiça social, co-organizadora desta edição ao lado de integrantes da Marcha Mundial das Mulheres, que luta pelos direitos reprodutivos das mulheres.

Participaram da conversa integrantes do BaixaCultura, CCD POA, Amigos da Terra, Marcha Mundial das Mulheres e outras organizações e projetos, como a EITCHA, Escola Itinerante de Tecnologia Cidadã Hacker. Falamos sobre a garantia de direitos como a privacidade, a liberdade de expressão, o acesso à informação, a participação social e o direito à manifestação, nos contextos do Marco Civil da Internet e da Lei Geral da Proteção de Dados, e sobre formas de defesa – ou que pelo menos dificultem – a vigilância na rede por governos e grandes empresas.

Os slides guia da apresentação de algumas ferramentas, criada por Fabrício Solagna, está aqui. Também tem uma apresentação de Leonardo Foletto, editor do BaixaCultura, usada em sala de aula (PUCRS) sobre privacidade e antivigilância.

Algumas das ferramentas mostradas no Diálogos estão listadas aqui abaixo:

_ TOR, navegador anônimo da web;
_ Checa se o servidor do email é seguro, StarTTLS;
_ Algumas excelentes extensões para tornar seu navegador Firefox mais seguro;
_ Safer Nudes, guia para mandar seus nudes de maneira segura, produzido pela Coding Rights;
_ Fuzzyfyme, extensão para firefox e Chrome que ajuda a impedir anúncios direcionados no Facebook;
_ Safer Manas, dicas de segurança digital em GIFS;
_ MailVelope, plugin para criptografar seu email (Gmail, Yahoo, Hotmail e vários outros);
_ Você na Mira, extensão (Firefox e Chrome) que ajuda a saber qual “caixinha” você é direcionado nos anúncios políticos do Facebook;
_ Alternativas aos serviços do Google;
_ Clue, aplicativo menstrual com uma boa política de dados pessoais;

E o vídeo do evento, na íntegra (3h de duração):

 

O TOR e a resistência a distopia da vigilância

 

Isabela Bagueros, que logo assume como Diretora executiva do TOR (sua foto já está no blog do projeto), fez uma fala potente na abertura da #CryptoRave2018 lotada, ao ar livre, no deck da Cinemateca Brasileira. Afirmou que as empresas de tecnologia tomaram a internet e fazem do nosso comportamento uma commodity, abusando de práticas no mínimo controversas, como bloquear acessos a serviços para forçar a criação de novas contas, compartilhar (e não vazar, como alega o Facebook) dados dos usuários com terceiros sem avisar, fazer os termos de serviço escrito naquelas letrinhas miúdas que raramente se lê… Ela defende que o modelo de negócio da internet baseado na comercialização dos nossos dados de uso tem que mudar. “Não podemos mais aceitar a comercialização abusiva dos nossos dados. A privacidade tem que ser padrão, não exceção”, disse, no que nós concordamos, embora saibamos também que essa é uma batalha MUITO difícil e que estamos no centro dela neste momento.

O TOR, é claro, é um elemento central nessa batalha por privacidade na rede. Isabela fez uma apresentação geral da ferramenta (o vídeo abaixo desenha como ele funciona), que tem 63 mil servidores (voluntários) espalhados pelo mundo e uma estimativa de 2 milhões de usuários, e falou do ecossistema por trás do software: uma ONG, que tem cerca de 30 pessoas trabalhando remuneradas, o conselho administrativo, os voluntários e os contribuidores – o Tor é um software livre, portanto é possível contribuir para seu aprimorar seu código ou mesmo detectar falhas de segurança. Afirmou que a forma de financiamento do TOR é baseada em doações, sendo menos da metade de governos (EUA, Suécia, Alemanha), e a outra parte vem de fundações (Mozilla, por exemplo), empresas privadas e pessoas de todos os lugares do mundo.

Os serviços Onion – sites que só podem ser acessados pelo TOR e compõe boa parte do que as pessoas chamam de “Deep Web” – também foram tema da keynote, Aliás, sobre isso Isabela deu uma declaração que, se houvesse jornalistas da mídia tradicional na Cryptorave, seria muito problematizada: “Não existe deep web ou dark web, isso é invenção da mídia. Na verdade a chamada deep web são os serviços onion, que permitem distribuição de conteúdos de forma anônima, o que é importante na nossa sociedade”.

Um dos focos do TOR hoje, e que vai ser uma das pautas tocadas por Isabela na Diretoria Executiva da organização, é a diversidade. “Precisamos ter servidores rodando em vários lugares, de diversos tipos, pessoas diversas, sistemas operacionais diversos. Isso fortalece a rede”, afirmou ela. Quanto mais pessoas e computadores diversos usarem TOR, menos a possibilidade de você ser o único da sua rua-bairro-cidade a usar o Tor para navegar anonimamente na rede – e talvez ser discriminado e perseguido por isso. Aliás, se o Tor é censurado em algum país, entre neste site e você tem todas as informações para continuar navegando anonimamente.

Outro foco é OONI, um aplicativo que que ajuda a detectar censura e vigilância na internet de vários lugares do mundo. Você executa o app e tem acessos a uma série de dados sobre os sites que são bloqueados e em que lugares, além de detectar a velocidade da rede que você acessa, entre outras funções ainda em desenvolvimento. Já dá pra baixar na Play Store e na F-Droid (a loja de aplicativos livres).

Assista a íntegra da palestra de Isabela no canal da TV Drone no Youtube:

_ O Coletivo Encripta, um dos co-organizadores da CryptoRave, fez um excelente tutorial em português chamado “Conhecendo e Desmistificando o Tor“.
_ Confira as matérias na MotherBoard, da Vice, que tratam do TOR ou de algum assunto que ele é relacionado.

 

Diálogos Abertos #1: O Caso facebook

Junto com o Hackerspace Matehackers e a Casa da Cultura Digital Porto Alegre, começamos na última quinta-feira, 26 de abril,  uma série de debates sobre temas ligados à cultura digital, tecnopolítica, direitos digitais, cultura livre, ética hacker e outros do nosso cotidiano digital. Nosso intuito foi, e continuará sendo com os próximos, dissecar esses temas num momento em que a internet que conhecemos está acabando, e que novas “internets” estão sendo construídas, num campo em ferrenha disputa que acontece hoje.

O primeiro assunto dos Diálogos Abertos não poderia deixar de ser o recente caso envolvendo o Facebook, que supostamente vazou (compartilhou, melhor dizendo) dados de cerca de 87 milhões de pessoas para a empresa de marketing político Cambridge Analytica por meio de testes de personalidade. A situação levou o criador da rede social, Mark Zuckerberg, a defender sua empresa no Congresso dos Estados Unidos e despertou um sonoro “eu já sabia” nos meios do ciberativismo de proteção de dados e antivigilante, além de queda do valor das ações da empresa na Bolsa de Valores e alterações na política de proteção de dados da rede social, que vão afetar os mais de 1 bilhão de pessoas com perfis no Facebook.

A conversa realizada no miolo do Vila Flores, condomínio cultural criativo que abriga o Matehackers, girou em torno desse e outros temas correlatos, e teve a condução de Janaína Spode, integrante da CCD POA, produtora cultural e ciberativista nas lutas pelos avanços políticos para reforçar os Direitos Humanos no mundo digital;  Fabricio Solagna, doutorando em sociologia pela UFRGS com pesquisa focada em governança da Internet e Marco Civil na Internet e que já realizou projetos de participação digital no governo do RS e na presidência da República; e Leonardo Feltrin Foletto, doutor em comunicação pela UFRGS, integrante do Matehackers, da CCD POA e editor desta página.

Diálogos Abertos marcou também o lançamento da Newsletter quinzenal CCD POA + BaixaCultura (inscrição e todas as infos aqui), e da campanha de financiamento contínuo do BaixaCultura no Apoia.se. Teve a presença de cerca de 20 pessoas e outras tantas online, na transmissão que fizemos no YouTube e que está disponível aqui abaixo. As fotos são de Sheila Uberti. A 2º edição será realizada em maio.

Uma newsletter quinzenal

Nos reunimos com a CCD POA para organizar, embasar e ir mais fundo nas informações que todos os dias postamos nas nossas redes sociais e plataformas como este site. Daí nasceu a nossa Newsletter em conjunto, para informar e debater temas como tecnopolítica, direitos digitais, privacidade, cultura livre, remix e (contra) cultura digital – e também informar as atividades que realizamos por aí e organizar uma agenda de eventos nessas áreas. Mais uma newsletter, vocẽ pode pensar: e é, sim, mais uma newsletter, e ao mesmo tempo não é: nosso objetivo é trazer um conteúdo diverso, aprofundado, olhando para o que acontece no presente e sobre as transformações que a internet está passando e nos fazendo passar enquanto sociedades. Mas também queremos olhar para trás, para lembrar de textos, fatos e histórias que nos ajudam a entender esse frenético cotidiano de hoje, por isso em todos os envios vamos resgatar algum texto ou acontecimento passado que, no mar de informações compartilhadas todos os dias, acaba por se perder.

Se inscreva a nos acompanhe! O 1º envio é nessa quinta, 19/4, e os próximos serão sempre às quintas, a cada 2 semanas, salvo em ocasiões especiais.



Pós-fotografia, obsolescência programada e cultura digital em charla

Na quinta-feira 13 de julho de 2017 estreiou a “BaixaCharla”, nossa conversa mensal ao vivo, via streaming, com pessoas da cultura livre, remix, cultura hacker e subversões em geral, realizada em parceria com o FotoLivre.org. A charla pilota foi com o fotógrafo/artista visual Leo Caobelli, na Planta Baja, novo espaço cultural de Porto Alegre, sede da CalmaLab, empresa que Leo dirige. Falamos sobre remix, pós-fotografia, privacidade, obsloscência programada, até da Casa da Cultura Digital em SP, onde nos conhecemos em 2010, ele como integrante da Garapa, eu (Leonardo) ainda como parte da finada Fli Multimídia, empresa que fazia a comunicação/produção do Fórum da Cultura Digital 2010.

O mote da fala foi o último projeto de Leo, “Algum pequeno oásis de fatalidade perdido num deserto de erros“, que resgata imagens perdidas em HDs vendidos por kg como sucatas Brasil (e Uruguai e Nigéria) afora. O projeto é a pesquisa de mestrado em artes visuais no Instituto de Artes da UFRGS e tem circulado pelo RS com oficinas e exposições, onde aparatos (jogos!) foram montados para as pessoas brincarem com imagens do já grande acervo em HDs resgatados de Leo. Abaixo confira a charla na íntegra, seguido de fotos (por Sheila Uberti, do FotoLivre) e imagens do trabalho de Leo.

 

 

Os 20 anos da ideologia californiana

california

Em 1995, a internet comercial estreava no Brasil, Mark Zuckerberg ia a escola primária em White Plains (interior do Estado de Nova York, nos EUA) aos 11 anos, Larry Page e Sergey Brin se conheciam na pós-graduação em computação em Stanford (na California) e começavam a trabalhar na ideia do Page Rank que originaria o Google três anos depois, e Richard Barbrook e Andy Cameron, então membros do Hypermedia Research Centre of the University of Westminster, em Londres, publicavam um ensaio chamado “A Ideologia Californiana” na Mute Magazine, texto que logo circularia pela lista de emails Nettime e seria uma das primeiras críticas ao neoliberalismo agressivo do Vale do Silício.

No ensaio, Barbook e Cameron definiam a tal ideologia como uma improvável mescla das atitudes boêmias e anti-autoritárias da contracultura da costa oeste dos EUA com o utopismo tecnológico e o liberalismo econômico. Dessa mistura hippie com yuppie nasceria o espírito das empresas .com do Vale do Silício, que passaram a alimentar a ideia de que todos podem ser “hip and rich” –  para isso basta acreditar em seu trabalho e ter fé que as novas tecnologias de informação vão emancipar o ser humano ampliando a liberdade de cada um e reduzir o poder do estado burocrático.

Na época, a ideologia californiana era bem representada por empresas como a Apple e a revista Wired, e entusiasmava a todos que estavam por perto desse cenário – nerds de computadores, slackers, capitalistas inovadores, ativistas sociais, acadêmicos “da moda”, burocratas futuristas e políticos oportunistas, como escrevem os autores no ensaio. Também: como resistir a um coquetel que unia as premonições tecnológicas de McLuhan de uma aldeia global tecnológica com as potencialidades de emancipação individual a partir da digitalização do conhecimento?

A explosão da bolha especulativa das empresas de internet no final dos 1990 poderia ter servido como um alerta sobre onde esse pensamento poderia levar o planeta, mas a sedução da ideologia californiana persistiu e se espalhou com a ajuda do Google, Facebook, Apple e vários outros dos gigantes do Silício que hoje fazem parte da nossa vida cotidiana. A ideia de um mundo pós-industrial baseada na economia do conhecimento, em que a digitalização das informações impulsionaria o crescimento e a criação de riqueza ao diminuir as estruturas de poder mais antigas em prol de indivíduos conectados em comunidades digitais, prosperou. E hoje, queiramos ou não, predomina na nossa sociedade digital.

lovink cameron
Será então que, 20 anos depois, é possível dizer que a ideologia californiana “venceu”? Para discutir essa e outras questões é que Barbrook acaba de lançar, junto do Institute of Network Cultures, sediado na Holanda, o livro “The Internet Revolution: From Dot-com Capitalism to Cybernetica Communism“. Na introdução especialmente escrita para este 20º aniversário do ensaio, o autor inglês faz um balanço de como os “capitalistas hippies” mudaram o Vale do Silício (e o mundo) e de como sua ideologia, num mundo cada vez mais social e digital, ainda é um assunto relevante a se discutir. Como McLuhan tinha insistido, a provocação teórica cria compreensão política, explica o editor do livro e também teórico da mídia Geert Lovink

A visão do novo livro e do texto de 1995 não é favorável a ideologia californiana. Em dado momento do ensaio original, os autores relatam que o pensamento oriundo dessa ideologia é o de que as estruturas sociais, políticas e legais serão substituídas por interações autônomas entre pessoas e os softwares – e que o “grande governo” não deve atrapalhar os “empreendedores engenhosos” do mundo digital. O texto tem uma posição crítica a esta postura, dizendo que ela rejeita noções de comunidade e de progresso social e dá importância somente para uma posição guiada por um “fatalismo tecnológico e econômico”.

Barbrook e Cameron dizem que a construção exclusivamente privada e corporativo do ciberespaço poderia promover a fragmentação da sociedade estadunidense e a criação de mais desigualdade social e racial. Um trecho: “Os moradores de áreas pobres da cidade podem ser excluídos dos novos serviços online por falta de dinheiro. Em contraste, yuppies e seus filhos podem brincar de ser ciberpunks em um mundo virtual sem ter de encontrar qualquer de seus vizinhos empobrecidos”.

Anos depois, o documentarista Adam Curtis criticaria a ideologia californiana, que ainda é predominante no imaginário das empresas de tecnologia (não só do Vale do Silício), na parte 1 e 2 do documentário “Tudo Vigiado por Máquinas de Adorável Graça“. Ele traz para o debate a escritora russo-estadunidense Ayn Rand e sua filosofia objetivista, que influenciou a ideologia californiana (e muitos empresários do Vale do Silício) com a ideia de que os seres humanos se encontrariam sozinhos no universo e que deveriam se liberar de todas as formas de controle político e religioso, vivendo apenas guiados por seus desejos egoístas. O casamento entre a teoria de Ayn e a crença no poder das máquinas produziria a ilusão de uma sociedade que prescindia, entre outras coisas, de políticos e que se autogovernava e se autorregulava com a ajuda dos computadores. Alguém aí lembrou do anarcocapitalismo, que a própria Rand criticava?

**

dilma_e_zuckerberg

A ideologia californiana (a ideia) está presente hoje como base filosófica para, por exemplo, ações de vigilância em massa como as da NSA. A internet é a ferramenta de controle dos sonhos, tudo é registrado e deixa rastro (que alguns apagam, mas a maioria não), um cenário perfeito para que orgãos de vigilância, em nome da segurança, e com a ajuda dos computadores, possam vasculhar a vida de todos. Está presente quando Zuckerberg fala de uma internet onde o padrão é ser sociável – de preferência sendo sociável numa ferramenta privada de um empresário do Vale do Silício, já que, afinal, toda tecnologia é neutra regula a si próprio melhor do que ninguém (aham). Está presente também quando os diretores dessas empresas, como o próprio Zuck, ganham status de chefe de estado em encontro de países e passam a prover “serviços” para a sociedade – como é o recente caso do Internet.org e seu objetivo de oferecer uma internet paralela e privada “gratuita” para lugares remotos.

Quando aqui falamos do “fim da privacidade”, citamos o diálogo fictício do livro “O Círculo”, de Dave Eggers, que também ilustra a aplicação prática – e extrema – da ideologia californiana hoje. Um mundo onde tudo deve ser compartilhado, em que a sonegar qualquer informação a outros pode ser encarado como “roubar o meu semelhante”, em que a vida privada é um roubo, é um mundo onde sistemas informáticos estão a organizar e governar a sociedade a partir de critérios supostamente objetivos. Alguém lembrou da pesquisa sobre manipulações de emoções realizada no Facebook?

*

barbrook cameron
Barbrook e Cameron em 1995

O ensaio foi apontado à época por pessoas ligadas ao Vale do Silício como o trabalho de ‘esquerdistas’ , o que realmente é: Barbrook, em especial, é leitor de Marx, Hegel e escreveu um livro chamado Cybercomunism: How the americans are supersending capitalism in cyberspace. Lovink, na apresentação de “The Internet Revolution: From Dot-com Capitalism to Cybernetica Communism“, diz que A Ideologia Californiana é um dos primeiros textos de uma corrente de pensamento chamada de net-criticism, que pode ser posicionada na encruzilhada entre as artes visuais, movimentos sociais, cultura pop, e pesquisas acadêmicas, com intenção interdisciplinar de tanto interferir quanto contribuir para o desenvolvimento das novas mídias, como Lovink explica em “Dynamics of Critical Internet Culture 1994-2001“.

É uma corrente que se situa como uma terceira via, entre, de um lado, uma posição ligada a uma certa esquerda que critica a internet por ela ter seu desenvolvimento baseado numa expansão do domínio dos EUA em relação ao seu poder cultural e econômico. E, de outro lado, justamente o da ideologia californiana, que tem a internet como viabilização de um novo modelo de negócios e como realização de uma profecia indicativa da aldeia global congregada, como defende, entre outros, John Perry Barlow na conhecida “Declaração de Independência do Ciberespaço“.

A construção desta terceira via teria como função, segundo Lovink, “observar a maneira com que os desenvolvedores e as primeiras comunidades de usuários tentaram conquistar e então modelar o rápido crescimento e mutação do ambiente da internet, apoiando alguns dos valores libertários (anti-censura), mas criticando outros (populismo do mercado neoliberal)”. Ganhou força em meados dos 1990, no desenvolvimento da net-art, do hackativismo e dos festivais de mídia tática, inclusive no Brasil, e tinha (tem) como postura criar uma infraestrutura de rede independente de grandes empresas, além de proteger certas liberdades da internet e a privacidade.

O net-criciticism (talvez não com esse nome) ainda está presente hoje, por exemplo, na postura de Assange, dos criptopunks, de uma certa linha da cultura hacker européia e latino-americana e da filosofia original do software livre, por exemplo, que defendem “transparência para os fortes, privacidade para os fracos” e que se diferem de uma cultura hacker dos EUA que está a impulsionar a gentrificação do ethos hacker, como apontado no texto “The hacker hack”, de Brett Scott, publicado na revista Aeon (e traduzido aqui pro ptbr). No fundo, o debate contemporâneo Uber X taxistas não deixa de ser um embate das duas posturas criticadas por “A Ideologia Californiana”, mas esse é um assunto que pode ficar para outra postagem.

P.s: Marcelo Träsel traduziu o texto original de “A Ideologia Californiana” para o português faz alguns bons anos e ainda está disponível aqui.

Imagens: 1 (Mute Magazine), 2 (G1), 3 (wikipedia).

O fim da privacidade e a ética da transparência

mcluhan

Ano passado, o jornalista Renato Cruz, do Estadão, escreveu uma coluna chamada “A ética da transparência” que passou despercebida por aqui. Eis que em 2015 ela reapareceu pra nós, sabe-se lá como, e cá estamos para comentar falando dele.

O texto começa com Marshall McLuhan, teórico-profético da comunicação, que já falava do fim da privacidade em sua obra, em especial a dos anos 1970 e 1980. “Todas as paredes vão cair”, ele teria dito a Derrick de Kerckhove, seu assistente durante a década de 1970. Kerchkove veio ao Brasil para participar do evento IT Forum/Black Hat Brasil, em São Paulo, em novembro de 2014, e foi entrevistado por Renato.

McLuhan apostou que os computadores – nos anos 1970 rudimentares e “gigantes”, bem diferentes dos de hoje –  estariam ligados em rede como a fase final das extensões do homem, chamada por ele de “simulação tecnológica da consciência”, “pela qual o processo criativo do conhecimento se estenderá coletiva e carnalmente a toda a sociedade humana”, disse ele em seu clássico “Understanding Media” (Os Meios de Comunicação Como Extensões do Homem, aqui em pdf pra baixar).

O canadense defendia a ideia de que os indivíduos são modificados por suas técnicas de comunicação; as telecomunicações, por exemplo, acabam sendo não apenas extensões do sistema nervoso central como técnicas que nele rebatem e produzem uma nova sociedade. Nesse sentido, a tecnologia contemporânea – na época de McLuhan sobretudo a tecnologia eletrônica da televisão e a eletricidade – seria a responsável pela criação de um novo mundo, da mesma maneira que outras tecnologias durante a história, como a escrita e a imprensa de Gutemberg, foram responsáveis pela transformação do pensamento humano.

Este novo mundo criado pela tecnologia elétrica e eletrônica, ainda não digital, seria não mais uma vila isolada, mas uma aldeia global, a “grande família humana em uma só tribo“, como ele escreveu. Precisamente aqui é que muitos pesquisadores da comunicação tratam do lado visionário de McLuhan. Se a ideia de “aldeia global” e de uma integração total dos sentidos já era válida para um mundo que se conectava mundialmente à televisão na década de 1960, ela se torna ainda mais válida com o desenvolvimento dos microprocessadores (que vão resultar nos computadores pessoais) e a chegada da internet.

É então que o pensamento de McLuhan encontra as possibilidades vastas da internet que ele não viu se desenvolver. A partir deste encontro, a “grande família unida em uma só tribo” se cruza com a questão da conectividade generalizada e do acesso coletivo a todo tipo de informação que a rede proporciona. Num ambiente transformado pela tecnologia, com informação em abundância e com diversas aldeias globais conectadas e acessíveis a poucos cliques, como ficaria a privacidade?

*

circle

Não fica: desaparece. É o fim da privacidade, dizia Mcluhan. “Eu discordava dele e dizia que ainda éramos capazes de manter silêncio sobre as coisas”, afirmou Kerckhove à Cruz. “McLuhan dizia que não, que era como um tsunami: “você pode nadar, mas não vai servir para nada“. A ideia do big data – combinações infinitas de bancos de dados digitalizados diversos, estruturados para produzir novos significados – e as redes digitais acabaram por terminar o trabalho iniciado pela eletricidade. Todos estamos conectados e querendo compartilhar cada momento em redes sociais. Ou compartilhando sem saber, ao usar serviços de empresas que, a qualquer momento, podem entregar tuas informações pra NSA, como o caso Snowden mostrou e o Wikileaks continua mostrando.

Mark Zuckerberg recentemente falou:”estamos construindo uma internet onde o padrão é ser sociável“. É uma realidade que, assustadoramente, se aproxima da ficção. Em especial, de um lançamento recente da ficção, chamado “O Círculo“, livro escrito por Dave Eggers que já tem versão brasileira, espanhola e em outros países. É a história de Mae Holland, uma jovem que começa a trabalhar numa empresa gigante chamada “O Círculo”, situada no vale do silício dos EUA. A empresa incorporou todas as empresas de tecnologia conhecidas e conecta e-mail, mídias sociais, operações bancárias e sistemas de compras de cada usuário em um sistema operacional universal, que cria uma identidade on-line única com a promessa de “uma nova era de civilidade e transparência”.

A empresa é dirigida por um grupo de pessoas de elevado desempenho – não por acaso inspirados em Sheryl Sandberg, diretora do Facebook e eleita a 9ºmulher mais poderosa do mundo pela revista Forbes, numa lista encabeçada por Angela Merkel e com Dilma Roussef em 4º lugar. E tem como fundadores misteriosos futurologistas que defendem a ideia de que o compartilhamento total e global do conhecimento é uma realidade necessária.

Mae, a princípio, se dá bem na empresa, mas quando começa a questionar e lutar por sua privacidade começa a enfrentar problemas. E então chega-se a um ponto culminante do livro. Eamon Bailey, um dos fundadores, opõe-se à concepção ultrapassada de Mae sobre a vida privada. Surge, então, esse diálogo orwelliano*:

_ Percebo [tinha declarado Mae] que temos a obrigação, enquanto seres humanos, de partilhar o que vemos e sabemos, e que todo o conhecimento deve estar democraticamente acessível.
_ Ser livre é o estado natural da informação.
_ Concordo.
_ Todos temos o direito de saber tudo o que é possível. Somos todos, coletivamente, donos do conhecimento acumulado do mundo.
_ Muito bem, declarou Mae. Então que acontece se eu privar alguém de uma coisa que eu saiba? estou a roubar o meu semelhante, certo?
_Isso mesmo, confirmou Bailey, com ar grave.
_ A vida privada é um roubo.

**

Nesse cenário (distópico, real?), como os indivíduos podem proteger sua privacidade de governos e grandes empresas? “Não podem”, diz Kerckhove. Ele não acredita em criptografia e defende, sim, uma “ética da transparência”. “No lugar de tentar proteger sua privacidade com criptografia e senhas, que acabam quebradas mais cedo ou mais tarde, as pessoas deveriam passar a exigir dos governos e das empresas a mesma transparência a que suas vidas estão expostas“.

Seria uma mudança em massa, como diz o canadense. “Precisamos sentir orgulho de pagar os impostos, e não orgulho de não pagá-los. Nosso governo será limpo, porque precisará mostrar para todo mundo as suas ações. Se queremos evitar a tirania, temos de votar em governos que aceitem transparência simétrica e igualitária”. Ele não vê o fim da privacidade como ameaça. “É a solução para um problema que irá piorar antes de melhorar.”

É um caminho que diz “é melhor você se acostumar com o fato de que está sendo observado, porque não há nada a fazer”. Talvez Assange e os criptopunks discordassem do tom conformista, assim como o pessoal das criptopartys, dos Actantes no Brasil e a cultura hacker global. Preferem, todos, “transparência para os fortes, privacidade para os fracos” como lema de uma guerra cotidiana que, além de buscar esta ética da transparência de que fala o discípulo de McLuhan, ainda tenta manter a privacidade viva.
 
Imagens: McLuhan, Circle.
* Diálogo copiado da edição de janeiro de 2014 da edição portuguesa da Courrier Internacional, que não tem edição online.