Um detentor de direitos autorais reivindicou o conteúdo de um de seus vídeos

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O título acima é o mesmo do email que recebi dias atrás. Em linguagem tão simples quanto ridícula, o nosso querido Youtube anunciava que “Um detentor de direitos autorais afirmou que possui parte ou todo o conteúdo de áudio do seu vídeo“. Como continuação, dizia: “Infelizmente a reprodução de seu vídeo foi bloqueada devido a problemas com os direitos das músicas“.

O vídeo em questão é Pare Olhe Escute, um curta que eu e mais dois amigos fizemos sobre nossas andanças em cima dos trens aqui da região de Santa Maria. Ao contrário do que dizem, ainda dá para ver ele lá no Youtube, só que o som inteiro foi desativado. O motivo do comunicado amável do site é que, na nossa trilha, tinha a música “Gallows Pole”, do Led Zeppelin, como também tinha “Biding my time“, do Pink Floyd e outras. Mas a justificativa da suspensão do som do vídeo recai sobre a música do Led.

Há uma boa dose de ironia nisso tudo. Vejamos: “Gallows Pole” é uma das muitas versões de The Maid Freed from the Gallows, uma velha e tradicional canção folk  que teve origem na Europa, não se sabe se na Finlândia, Noruega e ou Alemanha. Trazida para o inglês, ela se  popularizou em 1939, quando foi feita a primeira gravação em disco, pelo cantor folk  Huddie Ledbetter, mais conhecido como Leadbelly.

A música foi rebatizada como “Gallis Pole” e é um pouco diferente da do Led, principalmente na batida nervosa que Leadbelly dá em seu violão – dá para baixá-la aqui. O Led fez a sua versão em 1970, no Led Zeppelin III. No álbum, a música é creditada como “Tradicional: arranjos por Jimmy Page e Robert Plant“.

[O pior é ver ainda o Youtube escrever no email coisas do tipo: “Não se preocupe, temos muitas músicas disponíveis para você. Visite nossa biblioteca do AudioSwap para aprender como é fácil substituir o áudio de seu vídeo por qualquer faixa de nossa biblioteca de músicas totalmente licenciadas.”]

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Suspeito que a banda não tenha nada que ver com a coisa toda, e quem esteja por trás da iniciativa seja a gradavora do Led por meio da nossa velha conhecida RIAA. Aliás, taí uma incoerência das grandes: usar o Led Zeppelin como balizador no combate à pirataria na rede, sendo que a banda é um paradigma clássico de artistas que se aproveitaram de trechos – ou músicas inteiras – de outros e não se deram ao trabalho de dar o crédito. Se há dúvidas à respeito, olhe essa página e esclareça: de “Babe I’m Gonna Leave You” à “Dazed and Confused“, passando por “Wholla Lotta Love“, “Hey, Hey, What Can I Do” e “Communication Breakdown“, todas elas tem grande semelhanças com outras que nã o levaram os créditos. Aqui você pode escutar as versões originais de onde a banda chupou para fazer as suas.

[Leonardo Foletto]

Notícias do Front Baixacultural (10)

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Banda bate o pé contra Associação Anti-Pirataria (Discofonia, 12/12)

A notícia não é exatamente nova, mas nunca é tarde pra baixar um disco: o Cérebro Eletrônico resolveu disponibilizar o EP Pareço Virtual no 4Shared e, embora isso tenha sido feito oficialmente e em concordância com o selo da banda, nada impediu que o disquinho fosse removido da rede por uma ação antipirataria. Disquinho no sentido carinhoso. O EP – que reapresenta algumas canções do cd Pareço Moderno (um dos grandes lançamentos do ano passado), algumas versões ao vivo e remixes – é um disco de respeito, e está de volta. Além das 08 canções, a pasta vem com o pdf do encarte e da licença Creative Commons que regula o uso do material.

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O cético e a ciberliberdade (Continuum, dez 2008/jan 2009)

Em sua última edição, a revista Continuum, do projeto Itaú Cultural e linkada à direita, faz uma excelente entrevista com o Sílvio Meira, professor de engenharia de software na Universidade Federal de Pernambuco, editor de um blog no Terra Magazine e autor de duas centenas de textos sobre tecnologia e seu impacto na sociedade, que o tornaram uma referência  nacional quando se fala de assuntos envolvendo as palavras “redes”, “software” ou “internet”. Dá uma olhada em um trecho da entrevista:

“Se olharmos para a história, veremos que sempre se viveu em redes. Os seres humanos são gregários por natureza. O que aconteceu é que a pessoa deixou de viver em seu grupo geograficamente conexo, que foi estendido por um mecanismo de dessincronização de sua capacidade de comunicação. Se pensarmos antropologicamente, os grupos humanos só podiam se comunicar com eles próprios. Como não tinham o domínio da escrita, que é a codificação da informação que permite que ela seja deixada para trás ou levada para a frente, para o futuro e para outras geografias, ficavam parados, fechados entre eles. O que vem acontecendo na história da humanidade é que, à medida que começamos a codificar o que pensamos, a criar a capacidade de transferir isso no espaço e no tempo, ampliamos as redes.”

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Dub Brasil (URBe, 06/01)

Mais música. Cannabis Records, o autodenominado primeiro selo de dub do Brasil, iniciou suas atividades jogando na rede duas excelentes coletâneas do gênero. Os dois volumes de Pac-o-mania podem ser baixados no myspace do selo, tudo com a tarja do Creative Commons. A Cannabis conta com 08 produtores de dub na ficha técnica, alguns deles veteranos com projeção na cena internacional. Além de conferir o trabalho dos caras nos dois discos, o público ainda leva o belo bônus que é o trabalho visual do artista Rodrigo Dário, responsável pelas capas.

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Álbum mais vendido em 2008 na Amazon teve licença Creative Commons (Remixtures, 6/01)

O onipresente (em nossos clippings) Remixtures, capitaneado pelo jornalista português Miguel Jorge, fez um post sobre um dado bastante interessante: o disco mais vendido na loja virtual Amazon foi o Ghosts I-IV, do Nine Inch Nails, lançado em março de 2008 sob licensa Creative Commons. Esse dado talvez tenha relação com outra questão importante: o disco foi comercializado em formato digital na sua totalidade ao preço de cinco dólares. Vale dizer também que Reznor, como Reuben explicou nesse post, é um cara no mínimo ligado nas novas tendências colocadas à todos pela web. A lista completa dos mais vendidos, e dos melhores segundo o ranking dos editores da loja virtual, podem ser conferidas aqui.

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Em busca de uma nova cultura para o digital (Ecodigital, 9/01)

José Murilo Júnior, do blog Ecodigital e do MinC, fez a tradução de um interessante artigo (Queimando Livros, legalmente) de James Boyle, publicado originalmente no Financial Times, em 8 de dezembro último. Advogado e professor de direito, Boyle é autor do livro The Public Domain, uma das obras indispensáveis para entender a questão do domínio público e de como ele está sendo impiedosamente atacado pela polícia do copyright (no link acima dá para ler o livro online, baixá-lo, ou mesmo comprá-lo).

Dá uma sacada no tom do artigo de Boyle:

(…) Imagine o pequeno sublinhado azul sob cada título levando à íntegra do livro. Para meu filho isto faria perfeito sentido. O título do livro no catálogo e quando você clica no link, certamente estaria pronto para começar a lê-lo. Isso é o que ele aprendeu em sua experiência de clicar links. Porque não aqui? Era um velho livro, afinal, há muito sem qualquer chance de ser reeditado. Imagine ser capaz de ler os livros, ouvir a música, assistir os filmes – ou pelo menos a produção comercialmente indisponível que a Biblioteca decidisse que valia à pena digitalizar. Evidentemente esse é o tipo de coisa que a lei, em sua pujança, proíbe. (…)

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Revista Cult disponibiliza acervo digital (12/01)

A cultura brasileira ganha mais uma biblioteca virtual a partir de hoje. Há alguns anos, quando completou 50 edições publicadas, a revista encartou dois cd-roms contendo o que então era um menor mas já precioso acervo. Agora, o passo é mais adequado a estes tempos líquidos – menos suporte físico, mais conteúdo. A Cult foi fundada em 1997 e a esta altura – tendo passado por mudanças de editora e de publico alvo – já possui uma memória considerável a ser preservada e relida, cheia de contribuições para a literatura, filosofia, política e ciências sociais.

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[Leonardo Foletto. Reuben da Cunha Rocha.]

Crédito foto: World War II Photos

Notícias do Front Baixacultural (9)

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Pensando música (Pop Up!, 11/12)

O jornalista Ronaldo Evangelista, do blog Vitrola, convidou uma galera para um bate-papo  sobre música, internet, gravadoras, distribuidoras, dentre outras coisas: Maurício Tagliari, dono da gravadora YB; André Bourgeois, produtor do músico Curumim; Juliano Polimeno, do Phonobase; e Pena Schmidt, que já foi dono tanto de gravadoras grandes como de pequenas. O resultado, em vídeo, tá nesse post do blog de Bruno Nogueira, divido em 3 partes. É para ser um piloto de um programa  – Think Thank – que vai continuar. Esperemos.

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Estamos sendo observados (Veja, 17/12)

A matéria é de uma edição já antiga, mas como li nesse final de semana, linko-a aqui: trata-se de um bom relato sobre a quantas andam as intenções megalomaníacas do Google. Quer um exemplo: o projeto O3b (sigla em inglês de “os outros 3 bilhões”), que, através da instalação de um cinturão de dezesseis satélites que ficarão fixados na órbita geoestacionária sobre a linha do Equador, vai oferecer internet de alta velocidade sem fio a 3 bilhões de pessoas que moram em países pobres ou em desenvolvimento, principalmente na África, e que não têm acesso à internet por completa ausência de infra-estrutura.

(Jogada de mestre, convenhamos: além de passar adiante a fama de “empresa generosa”, sabemos todos que mais gente com acesso à internet é incremento de acessos ao Google e suas empresas, o que, por sua vez, se traduz em mais cliques nos Ad Sense e, por fim, em dinheiro de publicidade. Legal né?)

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Song From the Heart of Marketing Plan (NY Times, 24/12)

Em artigo para o principal jornal americano, o jornalista Jon Pareles levanta uma interessante questão sobre o inóspito futuro da música: “What happens to the music itself when the way to build a career shifts from recording songs that ordinary listeners want to buy to making music that marketers can use?”. O artigo não é muito longo – duas páginas, em inglês –  e vale pela abordagem algo inédita sobre um tema que todos se atiram a traçar comentários.

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Editora indepedente estabelece parceria com tracker de Bit Torrent What.cd (Remixtures, 2/01)

Miguel Caetano fez um post sobre uma atitude provavelmente inédita até aqui: uma gravadora (pequeníssima, mas enfim uma gravadora) irá permitir que os membros do What.cd, um site privado de torrent, tenham em primeira mão acesso aos novos discos produzidos sob a sua chancela. A gravadora – ou editora, no português sempre mais correto de Portugal – é a Open Eye Records, sediada em Rochester, no estado de Nova Iorque, Estados Unidos, que é especializada em promover sonoridades próximas do Hardcore e do Punk.

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Vamos trazer o criador da web para polemizar” (Link, 5/01)

O Caderno Link desta semana traz uma entrevista com Marcelo Branco, responsável pela edição brasileira do Campus Party – se você não sabe o que vai ser o Campus Party, entre aqui e descubra. O cara fala da “politização” desta próxima edição, e da presença ilustre de Tim Berners-Lee, um dos criadores da web, que estará na abertura do evento e em uma palestra sobre web 3.0 (sim, mal sabemos do que se trata a 2.0 e já se fala em 3.0).

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[Leonardo Foletto]

Crédito foto: World War II Photos

Notícias do Front Baixacultural (5)

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Do lado de cá

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Paul McCartney diz que não se importa com downloads ilegais (Terra música, 25/11)

Paul disse, em uma matéria da NME que foi reproduzida pelo Terra e por diversos portais Brasil afora, que não se importa com download ilegal, mas acha “estranho” a situação:” Para mim é estranho o conceito do download. Sou da época de ir às lojas e comprar vinil, fitas e CDs. É tudo igual, com a única exceção de que as pessoas não pagam mais“. No final, ele ainda faz uma piadinha com o Radiohead, ao melhor estilo humor britânico…

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Filmes: raridades asiáticas serão disponibilizadas (Blog do GJol, 30/11)

A Asian News International (ANI) assinou um acordo com o ITN Source, que permitirá a digitalização da biblioteca de filmes asiáticos, que remonta a 1930. São mais de 1 milhão (!) de horas de filmagem, contando com programas jornalísticos, esportivos, de ciência, tecnologia, negócios, dentre outros assuntos. Por enquanto já estão 5 mil clipes para donwload (entre aqui e veja).

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Boyle disponibiliza na internet livro sobre Domínio Público e Propriedade Intelectual (Blog do GJol, 30/11)

James Boyle, co-fundador do Center for the Study of the Public Domain e chairman do Creative Commons, disponibilizou seu livro The Public Domain: Enclosing the Commons of the Mind neste site aqui. Dá para ler online e comentar, ou baixar em versão PDF. O livro é uma boa introdução sobre a questão do direito autoral, escrito em linguagem simples, para que, em palavras do autor, “todo cidadão possa ter uma compreensão das leis de propriedade intelectual para garantir um futuro com maior liberdade de expressão e plena circulação de idéias”.

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A volta do Som Barato (Baixa Cultura, 1/12)

O Som Barato, que nesta matéria informamos que foi retirado do ar pelo Google, voltou a ativa, agora no endereço sombarato.org. Chega lá!

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[Leonardo Foletto]

Notícias do Front Baixacultural (2)

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Expecionalmente (mesmo) hoje, uma quarta-feira.

Do lado de cá

_ A Indústria do P2P apoiou Obama. Mas será que Obama apoia a P2P? (Remixtures, quarta 5/11)

Obama recebeu apoio financeiro de diversas pessoas envolvidas diretamente com o P2P.  Apoio de não mais de $1000, mas que não deixa de ser apoio. Isso, somado ao fato de Obama ter sido o presidente que melhor entende a lógica da web nos últimos tempos, pode indicar que Obama irá apoiar a P2P? Infelizmente, nada indica para esse lado, pelo contrário: Joe Biden, o vice do novo presidente, é um inimigo declarado do P2P e amigo conhecido da RIAA, a patrulha dos direitos autorais dos EUA. Mas seria por demais interessante ter um “cabo eleitoral” do P2P alguém com o poder e o respeito de Obama, hein?

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_ TV Cultura licencia em Creative Commons programa Roda Viva com Jimmy Wales (Cultura Livre, semana passada)

O Roda Viva licensiou em Creative Commons o programa onde o entrevistado é Jimmy Wales, o criador da Wikipédia. É uma iniciativa pequena, mas que pode indicar um bom começo. Ainda mais sendo o Roda Viva um dos programas da TV brasileira que mais está sabendo se adaptar à rede, haja vista o recente uso do Twitter durante o programa.

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_ São Paulo vai publicar documentos da ditadura na internet (IDG Now, quarta 12/11)

Arquivo Público de São Paulo pretende colocar à disposição do público na internet os registros documentais do período da ditadura. Uma iniciativa a servir de exemplo para o restante do país.

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_ Youtube fecha acordo com MGM para exibir seriados e filmes online (IDG Now, segunda 10/11) e Youtube será cinema (Tiago Dória, quinta 6/11)

A primeira notícia trata da parceria com a MGM pretende exibir filmes e séries do estúdio. Já foram criados dois canais no Youtube: “Impact” será usado para transmitir, em streaming, filmes de ação (?), e “American Gladiator” vai exibir episódios completos da primeira temporada do seriado (alguém conhece isso??).]

Já a segunda fala que essa ação da primeira notícia, junto com outras quantas, é parte de uma estratégia do Youtube de passar a disponibilizar filmes completos. Isso porque, segundo consta, o Youtube tá com medo da concorrência do Hulu, que apesar de ser bem menos acessado, rende mais em publicidade que o Youtube. O ruim disso é que, provavelmente, estes filmes estarão bloqueados para usuários não-residentes nos EUA…

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MTV cria site de exibição de clipes (Baixa Cultura, quarta 12/11)

Inacreditável: a MTV tocará música. A filial americana finalmente resolveu digitalizar seu acervo de videoclipes (não todos, mas algo perto de 22 mil) e disponibilizar no endereço MTVmusic.com. Claro que há diversos clipes que só usuários americanos podem ver, mas, ainda assim, o acervo que nós pobres sulistas do mundo podemos ver é deveras interessante. Como diriam todos, antes tarde do que nunca – ou, como diria outros, o que não faz a concorrência…

[Leonardo Foletto]

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Cortando o barato (2)


Depois do Som Barato, agora temos novas vítimas entre nossos links à direita: El Blog del Topo e Um Que Tenha. O primeiro já foi apresentado aqui: trata-se de um excelente blog para se conhecer mais a fundo o rock de nossa latino-america; o segundo faz um serviço ainda melhor, mas por nossa música brasileira.

Os dois receberam a tal notificação do Blogger (via Google) de que foram denunciados por alguém que reclamava da infração aos direitos autorais de alguns de seus arquivos.

Veja o recadinho do Blogger na íntegra:

Blogger has been notified, according to the terms of the Digital Millennium Copyright Act (DMCA), that certain content in your blog infringes upon the copyrights of others. The URL(s) of the allegedly infringing post(s) may be found at the end of this message.

The notice that we received, with any personally identifying information removed, will be posted online by a service called Chilling Effects at http://www.chillingeffects.org. We do this in accordance with the Digital Millennium Copyright Act (DMCA). Please note that it may take Chilling Effects up to several weeks to post the notice online at the link provided.

The DMCA is a United States copyright law that provides guidelines for online service provider liability in case of copyright infringement. We are in the process of removing from our servers the links that allegedly infringe upon the copyrights of others. If we did not do so, we would be subject to a claim of copyright infringement, regardless of its merits. See http://www.educause.edu/Browse/645?PARENT_ID=254 for more information about the DMCA, and see http://www.google.com/dmca.html for the process that Blogger requires in order to make a DMCA complaint.

Blogger can reinstate these posts upon receipt of a counter notification pursuant to sections 512(g)(2) and 3) of the DMCA. For more information about the requirements of a counter notification and a link to a sample counter notification, see http://www.google.com/dmca.html#counter.

Please note that repeated violations to our Terms of Service may result in further remedial action taken against your Blogger account. If you have legal questions about this notification, you should retain your own legal counsel. If you have any other questions about this notification, please let us know.

Sincerely,

The Blogger Team

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É a mesmíssima coisa que aconteceu com o Som Barato, e que pode acontecer com a comunidade da Discografias no Orkut. Chega a ser engraçado: como que um blog de um brasileiro e de um costarriquenho pode ter suas atividades suspensas através de uma lei americana?

Acontece o seguinte: alguns dos artistas que tem seu “direito autoral” infringido – ou suas gravadoras, o que é mais provável – entra em contato com o servidor (que, em ambos os casos, é nos Estados Unidos) e pede alguma providência. Baseiam-se na famigerada DMCA, já citada por aqui. Então, depoios de alguns trâmites, o servidor – Blogger/Google – manda o recadinho para o dono do blog e pronto, está tudo acabado.

Acabado? Não, não, nada disso. Como já foi dito, tira-se da web um endereço, cria-se outro. Simples assim. Foi o que fez o Blog Del Topo: se mandou do Blogger e continuará a postar em outro endereço, esse aqui ó: lacuevadeltopo.com.

Quem perde com isso é, justamente, o artista de onde partiu a denúncia. Vejamos no caso do blog Del Topo: a denúncia partiu da gravadora de Luis Alberto Spinetta, que se sentiu violado com um post do blog que tratava da biografia do músico argentino, onde se encontrava vários discos das diversas bandas de “El Flaco” para download [quem quiser entrar nessa página hoje, clique aqui e veja no que vai dar].

Eu baixei alguns desses discos; gostei tanto que passei adiante para brasileiros que nunca tinham ouvido falar de Spinetta, que também gostaram e provavelmente tenham passado adiante também. Ponha mais 10 pessoas fazendo o mesmo que eu fiz, e, voilá, podemos ser mais de 100 pessoas que gostaram da música e que certamente pagaríamos para ir em um show de Spinetta no Brasil. Agora imagine se eu e mais essas 10 pessoas não estivéssemos baixados os discos de Spinetta no Blog Del Topo. Uma interessante cadeia de, dentre outras coisas, CONSUMIDORES, da música de Spinetta não existiria. E quem perderia com isso é Luis Alberto Spinetta, e somente ele, que deixaria de ter sua vasta obra musical conhecida por mais pessoas.

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Já o Um que Tenha, mesmo com o recadinho, resiste bravamente. Continua postando, embora já tenho deixado claro, em texto publicado na última sexta-feira, o que pode acontecer em breve:

“Assim como ocorreu com o Som Barato, o Um Que Tenha acaba de receber uma notificação de que publicou material que viola os direitos autorais, material este que foi retirado do ar, em junho passado, a pedido de Guilherme Viotti, da gravadora Biscoito Fino

[Aí está a delatora dos blogs brasileiros. Percebe-se a ânsia por $$ no site da gravadora, onde, dentre nenhuma outra coisa, só há anúncios de VENDAS de cds e dvds].

Tal como ocorreu com o Som Barato, é o prenúncio de que, de uma hora para outra, o blog será retirado do ar. Portanto, antes que isso aconteça, faço questão de agradecer aos colaboradores do blog – foi uma viagem fascinante, tenham certeza – e a todos que nos visitam, criticam, sugerem e, enfim, amam ou odeiam o Um Que Tenha, mas estão sempre presentes. Continuamos enquanto for possível, mas, como nuvens negras se aproximam, adiantamos um caloroso abraço a todos e a gente se vê por aí. (…)”

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A ânsia por monetizar até a sombra é o que está destruindo as outroras grandes gravadoras. O negócio não funciona mais da mesma maneira: o disco/cd/dvd não é mais o fim, mas o meio. As medidas restritivas via DMCA/Google vão, no máximo, tirar um site/blog do ar, – como fizeram com o Blog Del Topo – mas, em seu lugar, outro será criado. Não há como evitar isso; a internet é por essência descentralizada, e a rapidez com que ela pode se propagar é muito maior que a lentidão ditatorial de leis como a DMCA. Como todo mundo que acompanha estes assuntos sabe, a questão não é impedir, mas aprender a conviver com isso.

[Leonardo Foletto.]

Créditos fotos:
1)http://bbluesman.com/2005/11/29/free-culture-chap-5-piracy
2) elblogdeltopo.blogspot.com
3)umquetenha.blogspot.com

Uma voz do presente

“Escuta Wado, bicho! Esse cara é completamente contemporâneo! Escuta!”, foi o primeiro elogio que ouvi sobre a obra do cantor e compositor catarinense, mas a conexão ruim é a verdadeira inimiga da cultura livre e depois de ouvir o elogio levou ainda algum tempo até que eu conseguisse baixar seu primeiro disco, O Manifesto da Arte Periférica (2001), encontrado solitário numa comunidade de orkut.

Tempo o bastante pra que eu me tocasse do melhor: não apenas o primeiro disco, toda a obra de Wado até aqui tá disponível pra download, desdo Manifesto, passando por Cinema Auditivo (2002) e A Farsa do Samba Nublado (2004) até Terceiro Mundo Festivo, lançado este ano e em processo de divulgação, com shows até agora realizados do Pará a SP, passando por Pernambuco, Ceará, Distrito Federal, Bahia e Alagoas, onde o cantor reside há quase dois anos.

Na verdade, pra onde voltou há quase dois anos. Nascido em Santa Catarina, com oito anos de idade Wado se mudou pra Maceió, e lá viveu o bastante pra chegar a gravar os dois primeiros discos. Depois disso, dois anos e meio no Rio + um ano em São Paulo.

A volta pro nordeste coincidiu com outra mudança, essa na discografia do cantor: o ingresso no independente. Com um primeiro disco lançado pelo selo Dubas [do compositor Ronaldo Bastos] e os dois seguintes pela Outros Discos, Wado primeiro jogou Terceiro Mundo Festivo na rede pra somente em seguida lançar o produto material, sem selo mesmo.

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Perguntado, ele associa tanto o uso da internet quanto a entrada no independente à necessidade de renovação criativa. “Eu tava me reconstruindo, tentando não me repetir. Me pareceu uma boa estratégia”, ele me diz no msn e eu respondo que acredito ter funcionado. Mas voltando um pouco. Como é que os primeiros discos [que têm selo] foram parar na rede? As gravadoras liberaram, e tal? “O que rolou foi que os contratos acabaram. Os contratos estão mais curtos hoje em dia, geralmente com dois anos o disco volta pra mim. Daí chegou uma hora que era tudo meu novamente e eu postei tudo no site”, e se tu [como eu] não fazia idéia dessa mudança nos contratos com gravadora, o compositor explica: “os contratos começam como padrão, mas quando tu não tá mais no primeiro disco dá pra negociar uns detalhes”.

Baixo então disco após disco e sem procurar encontro aquilo de que me haviam alertado, a contemporaneidade da voz, da palavra e do som do artista, profundamente pessoais [pra mim o nome disso é sotaque, nos discos de Wado até os timbres dos instrumentos o têm.] ao mesmo tempo que sempre sensíveis ao outro, ao fora, ao que não é umbigo. É isso para mim a ‘arte periférica’ de Wado: um olhar e um modo de se relacionar com as coisas mais do que um tema. Uma sensibilidade que fala só do que lhe emociona, e que refinada se emociona com coisas que mal vemos. Um carteiro de favela empenhado na ingrata tarefa de vencer as ruas fora de catálogo bebe com coração tranquilo sua cerveja no final do dia. Pé que dá fruta é o que mais leva pedra, e uma raiz é uma flor que despreza a fama. Meu corpo escuta o groove com os poros e pensa, o groove introduz leveza na subversão sonora.

E escuto então isso tudo e penso no dilema do artista contemporâneo, ou melhor, no dilema contemporâneo do artista, construir trajetória, batalhar grana, tocar em Paris e produzir o próprio show, gravar o próprio trabalho e procurar trabalho. É aí que dou uma boa olhada no meu próprio entusiasmo e penso, que beleza, nada é tão simples quanto parece, nada se reduz ao tamanho gigantesco de nossos entusiasmos, e sou obrigado a segurar minha própria onda quando escuto de Wado que voltar pro centro é uma possibilidade, que “voltar é pra ter mais visibilidade”. Que nem tudo são flores no 3º mundo apesar da festa e que mesmo a decisão de descer pro sudeste novamente não depende só do seu talento ou do que sua voz tem a dizer de nós. Que é preciso ainda se “preparar pra poder trabalhar com outras coisas por lá, eu não consigo viver só de música”.

Até a permanência no independente e a distribuição livre do seu trabalho na internet, esses dois enormes entusiamos do declarado fã que sou, não têm futuro certo. Da internet os frutos, segundo o compositor, têm sido mais shows vendidos, melhor distribuição e até, imagine você, mais vendas de disco [“depois de ouvirem as pessoas querem a coisa fisicamente também”]. Eu acho massa. Mas ele mesmo não tem certeza se seguirá na trilha recentemente aberta e tá tranquilamente aberto a negociar contrato com gravadora. “Acumula muita função pra mim, ter de ser artista, gravadora, produtor. Essas porras todas”, né?

É assim que nem tudo é festa no 3º mundo festivo e que apesar da festa, dos quatro excelentes discos [baixa logo, maluco!], do enorme talento, da singularidade de sua proposta e da disposição em seguir fazendo o melhor nas condições dadas, sejam elas quais forem, o futuro do artista periférico é que nem morar de aluguel: provisório e em permanente mudança.

E Wado nem reclama. “A vida tá boa”, ele diz, e eu penso no quanto isso fala sobre sua música, que se fosse pra dizer do que se trata ao invés de escrever este texto eu diria isso, é trilha sonora pra vida boa, pra dançar a lição do samba: dançar a vida boa quando a vida não tá fácil, que a vida mesmo nunca é.

[Reuben da Cunha Rocha.]

O quanto rende um parabéns


Ia fazer um post sobre a questão do Copyright e a música “Parabéns a você“, mas achei aqui um texto bastante interessante e completo, de modo que irei reproduzir abaixo alguns trechos dele, acrescentando alguns comentários e detalhes.

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Música “Parabéns a você” rende 2 milhões de dólares ao ano

Um dos exemplos mais frequentemente citados para demonstrar o que está errado nos direitos de autor é a música “Parabéns a Você” (”Happy Birthday to You“), talvez a canção mais popular em todo o mundo.

[Nota do Editor: De acordo com o Guiness Book de 1998, ela é a melodia mais conhecida em língua inglesa, e não se duvide se for também aqui no Brasil.]

A canção surgiu a partir da melodia da música “Good Morning to All” escrita pelas irmãs e professoras norte-americanas Patty e Mildred J. Hill em 1893.

[Nota do Editor: As irmãs eram professoras primárias em Louisville, no Estado sulista de Kentucky, e criaram a música com a intenção de que ela fosse uma melodia fácil de ser cantada por seus pequenos alunos. No mesmo ano de 1893, no aniversário de outra das irmãs Hill, Lysette, Patty Hill sugeriu que, ao invés de “Good Morning to All”, elas poderiam cantar “Happy Birthday to You”, e assim se fez. O local onde a música foi cantada pela primeira vez – uma casa da época vitoriana bem ao gosto dos filmes de terror norte-americanos – hoje é um local preservado e aberto a visitação: littleloomhouse.org. Neste site há um texto explicativo sobre o surgimento da música, e foi de lá que tirei as informações deste parágrafo]

Acontece que a música só foi oficialmente registada já com a letra e o título actual em 1935 pela Summy-Birchard Company, actualmente uma subsidiária da Warner/Chappell Music, por sua vez pertencente à Warner Music Group, a segunda maior editora discográfica do mundo. O que talvez muitos não saibam é que devido aos sucessivos alargamentos do termo dos direitos de autor, a música continua a ser propriedade exclusiva da Summy-Birchard Company.

[Nota do Editor: O registro da Summy-Birchard Company deu os créditos da música para Preston Ware Orem e Ms. R.R. Forman. Preston foi um importante compositor ligado aos índios americanos, e o “Happy Birthday to You” foi registrada três anos antes de sua morte]

Assim, para todos os efeitos legais, cada vez que nós cantamos “Parabéns a Você” aos nossos entes queridos nós estamos a cometer uma ilegalidade se não tivermos pago de antemão uma licença à Warner.

[Nota do Editor: Uma ressalva: toda vez que a música for usada COMERCIALMENTE, e não em situações como reunião de famílias. Na lei americana, consta que a cada vez que ela for usada desta forma, seja em telegramas, comerciais de TV, filmes, séries, etc, deve-se pagar $25]

Num artigo intitulado “Copyright and the World’s Most Popular Song” (via William Patry) o professor Robert Brauneis da Escola de Direito George Washington faz uma análise minuciosa das origens de “Parabéns a Você” e contesta a validade do argumento de que a música ainda se encontra protegida por direitos de autor. Para além de não existirem provas credíveis que demonstrem quem foram os autores originais da letra, a notificação do registo de direito de autor datada de 1935 contém informação incorrecta. Além disso, os detentores de direitos não se deram sequer ao trabalho de requerer a necessária renovação do copyright após a cessação da obra original em 1963.

O que é impressionante é como é que uma música composta há mais de um século continua a ser uma máquina de fazer dinheiro passado todo este tempo:

No final dos anos 40 e início da década de 50, a música gerava receitas entre os 15 e os 20 mil dólares ao ano. Em 1960, o montante situava-se perto dos 50 mil dólares e em 1970 esse valor já era de 75 mil dólares. Mas o aumento das receitas realmente dramático ocorreu por volta da década de 80. No início dos anos 90, a música representava cerca de um milhão de dólares ao ano e em 1996 a revista Forbes divulgou que essa quantia tinha subido para perto de dois milhões de dólares ao ano.

[Nota do Editor: Estima-se que a canção hoje tenha valor de U$$ 5 milhões de dólares]

O professor Brauneis criou um site que contém cerca de duas centenas de documentos inéditos exclusivamente relacionados com a história de “Parabéns a Você”.

[Nota do Editor: O site é realmente impressionante; tem MUITA coisa sobre o caso, desde diversos registros de copyright das versões da música, fotos e genealogias da família HIll, até MP3 de “Good Morning to All”, das irmãs Hill, e outras versões que se seguiram à esta, com diferentes letras e até com variações de melodia que nem mais fica parecendo a mesma música]

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Uma curiosidade: sabe como a música foi chegar ao Brasil?

Consta-se que a rádio Tupi do Rio de Janeiro organizou em 1942 um concurso para escolher uma letra que casasse com a melodia de “Happy Birthday To You“. A vencedora foi a paulista Bertha Celeste Homem de Mello, filha de fazendeiros, então farmacêutica, (depois virou Doutora em letras e poeta), casada e mãe de duas filhas. Reza a lenda que Bertha escreveu em cinco minutos a letra: “Parabéns a você / Nesta data querida / Muita felicidade / Muitos anos de vida.” – assim mesmo, sem o “prá” nem “Felicidades” como a gente costuma cantar.

Outra curiosidade: ainda se questiona se foram as irmãs Hill que realmente compuseram a melodia, ou se elas apenas “reproduziram” uma melodia popularmente conhecida na época.  Questiona-se mais ainda se foram elas mesmas que modificaram o “Good Morning to All” por “Happy Birthday to You” no aniversário de sua irmã Lysette em 1893, como escrevi neste post. Outras versões, como a publicada em matéria da revista Superinteressante,  consideram que essa sensível modificação da letra foi feita em 1924, quando uma editora americana publicou o livro chamado “Celebration Songs” – como na época não havia uma música própria para ser tocada em aniversários, a editora pegou a melodia das irmãs Smith Hill e acrescentou o “Happy Birthday to You“.

Fica difícil de saber qual versão é a mais próxima da verdade; então, que cada um fique com a sua.

[Leonardo Foletto.]

[Atualização: Por questões estéticas e pessoais, o título foi modificado: Sai o “Como rende um Parabéns” para entrar “O quanto rende um parabéns”.]

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Poesia de ouvido

Vêm de longa data e são de longo alcance as relações entre poesia e música, desde lendários bardos anteriores à palavra escrita, passando pelo velho Paul Valèry [que dizia ser a poesia a oscilação entre som e sentido] até o registro permitido pelas tecnologias de gravação, que interessou gente improvável como Antonin Artaud e Guillaume Apollinaire e em décadas seguintes tornou possível a exploração do potencial popular da poesia operada por sujeitos como Dylan Thomas, Jim Morrison e Allen Ginsberg, e há algumas décadas tem interessado uma boa fatia da melhor poesia contemporânea brasileira, a exemplo de Marcelo Sahea, Ricardo Aleixo, Augusto de Campos e Ademir Assunção.

É nesse contexto, bem maior que este resumo, que se insere o programa Ondas Literárias, iniciativa radiofônica da poeta Andréa Catropa que teve 24 edições produzidas e veiculadas pela Cultura FM de Amparo (interior de SP) no semestre passado.

Mas e daí, Valdenir?

 

Daí que agora o Ondas Literárias vai ao ar pela Rádio Cultura Brasil, em kHz e também online [este charmoso formato, a rádio online, a vitória do gênero sobre a duração das frequências, mas divago], com transmissão ao vivo aqui. O programa de estréia rola neste sábado, dia 25, às 10h30, sendo o poeta de estréia meu conterrâneo, parceiro e amado amigo Celso Borges.

Quando o conheci (em 2003), CB já estava envolvido com o segundo disco-livro, Música (o anterior se chama XXI e é o registro literário-auditivo de suas então duas décadas de atividade poética), que conta com participações como as de Vitor Ramil, Chico César, Cordel do Fogo Encantado, Zeca Baleiro e TA Calibre I sonorizando os poemas e traz também os primeiros registros do Poesia Dub, projeto de Celso com o DJ Otávio Rodrigues (e depois com o acréscimo do baixista Gerson da Conceição) que tem se apresentado há alguns anos em eventos como TIM Festival, Baile do Baleiro e Outros Bárbaros, e do qual dá pra ouvir alguma coisa aqui enquanto o disco não sai.

Ou então tu espera até sábado, escuta a entrevista com Celso, as faixas do Música, e fica ligado na sequência dos programas. Repara lá no site da rádio a turma que promete aparecer, como Alice Ruiz (divulgadora de longa data das poéticas orientais no Brasil), Rodrigo Garcia Lopes (poeta e tradutor de gente como Walt Whitman e Arthur Rimbaud) e Marcelo Montenegro (pra mim o mais discreto entre os maiores). A idéia, segundo a própria Andréa Catropa, é manter os podcasts do programa disponíveis no blog também, mas isso ficou de ser negociado com a rádio e ela (a Andréa, não a rádio) prometeu avisar quando tivesse uma resposta.

Aproveito e compartilho pra encerrar alguns bons momentos da poesia no palco, como este aqui, do poeta curitibano Marcelo Sandmann:

Ou este texto aqui do Ademir Assunção [que também participa do Ondas Literárias], que tive a oportunidade de verouvir em primeira mão no já distante 2004 (ou seria 2005?), quando levei um primeiro lero com o bardo cuja obra e postura tanto admiro:

[Reuben da Cunha Rocha.]

Cortando o barato (1)

No afã de realizar seu download semanal de discos do melhor de música brasileira, uma tremenda surpresa espera quem costumava entrar no sombarato.blogspot.com: uma grande tela branca, sem qualquer postagem, apenas com o título “Música”.  Desde o dia 9 de setembro, o Som Barato foi retirado do ar pelo Google, que alegou ter recebido diversas denúncias de abusos de violação de direitos autorais e, por isso, teve de ser obrigado a deletar todo o conteúdo do site. Lá se foi embora um acervo de cerca de 2000 discos do melhor da música brasileira – alguns tão raros que não são mais encontrados em circulação – por mais uma medida restritiva à liberdade de circulação de informação na rede.

A vilã

É mais um triste capítulo na odisséia que as finadas gravadoras e seus inúmeros bem pagos defensores travam contra quem se atreve a disponibilizar música de qualidade na rede. Odisséia que, desde fins do ano passado, ganhou um líder bem visível no Brasil: a Associação Antipirataria de Cinema e Música (APCM). Criada com o objetivo de “proteger os direitos autorais de seus titulares, proporcionando um mercado mais ético, e oferecer meios para realização de ações que visem combater a pirataria“, a APCM já tirou do ar 118.750 links de filmes e músicas, 22.113 blogs e 20.332 arquivos P2P (“peer-to-peer”), segundo informações de matéria desta terça-feira da Folha de São Paulo, assinada pelo editor de informática Diógenes Muniz. O Google não divulga de onde vieram as tais denúncias de abuso de violação de direito autoral, mas alguém tem dúvida que a APCM tem alguma coisa a ver com isso?

Bom, se há dúvida, a leitura da matéria da folha ajuda a esclarecer. Ela trata dos esforços da APCM para tirar do ar a comunidade Discografias, do Orkut, a maior comunidade dedicada à disponibilização de arquivos MP3 do Orkut, com mais de 700 mil pessoas cadastradas e outras tantas que, mesmo não cadastradas, entram lá para baixar música. O Coordenador anti-pirataria da associação, Edner Bastos, dá o tom de sua batalha contra o Google: “Estamos com várias discussões com o Google, em alguns pontos eles nos ajudam”, “Temos um trabalho para tirar [a comunidade “Discografias”] do ar, mas ela é muito complexa. É preciso pegar tópico por tópico para provar que todo aquele conteúdo é ilegal.

Na comunidade, a ação da APCM já é percebida na forma de tópicos apagados sem muita explicação. O tópico contendo o Índice Geral, que apresenta a lista de todo o material em ordem alfabética, hoje funciona de forma itinerante para evitar a indesejada mensagem “content supressed” lançada pelo Google. Um abaixo assinado online para manutenção da comunidade foi criado em outro tópico, mas apagado; um segundo ainda está no ar, mas não se sabe por quanto tempo.

A APCM não mede esforços em sua cruzada contra a dita pirataria. Uma passada no site da associação nos dá a nítida noção de que somos criminosos bárbaros, daqueles que cometem crimes várias vezes ao dia. Tem tudo explicadinho, tim por tim: o que é pirataria, quais são as atividades ilícitas que se encaixam em pirataria, e, suprema ironia, há até mesmo um espaço para baixar um Manual de Bolso Antipirataria e uma Cartilha Antipirataria destinada às locadoras. Traz tudo tão explicado que até pode assustar.

A lei

Ao que parece, foi com base na Digital Millenium Copyright Act (DMCA) que o google tirou do ar o Som Barato, mais especificamente neste dispositivo aqui.  Esta lei, aprovada em 1998 nos Estados Unidos, praticamente se sobrepõe a qualquer lei nacional sobre o tema, até porque a lei 9610/98, que aqui no Brasil trata do assunto, não tem qualquer dispositivo específico sobre intervenção de provedores e servidores em conteúdo de rede. Pelo menos até a questão da polêmica e problemática Lei Azeredo (aqui, na íntegra), que ainda está em tramitação no Congresso,  mas que, se aprovada vai  trazer uma série de proibições ridículas, para dizer o mínimo. Mas isso é assunto para outro post…

Pois bem. A DMCA, dentre outras coisas, permite que detentores de direitos autorais solicitem aos provedores de serviços online que bloqueiem o acesso a conteúdos que violem direitos autorais ou os retirem de seus sistemas. Talvez para mostrar que quer agir “dentro da lei”, o Google tem até um passo-a-passo sobre como denunciar conteúdos supostamente ilegais no Blogger, incluindo até modelos de formulários de solicitação. Depois de realizada, a denúncia vai direto para a pessoa que forneceu o conteúdo da suposta infração, e, em uma outra via, para a Chilling Effects, uma associação que protege o direito autoral na rede, formada por uma parceria de diversas faculdades de direito americanas com a EFF (Eletronical Frontier Fundation).

Uma atualização nesta lei foi aprovada pelo presidente Bush no início desta semana. A principal medida é, para variar, polêmica e “estranha”: cria um czar da propriedade intelectual, submetido diretamente ao Presidente, que  “will report directly to the president on how to better protect copyrights both domestically and internationally”. Como informa notícia da Reuters, o Departamento de Justiça norte-americano já chiou; o tal do czar vai estar acima de sua autoridade, o que teoricamente não poderia acontecer jamais. Quem quiser, pode conferir a íntegra da lei aqui; Já aviso que o arquivo é grande e envolve uma série de minúcias jurídicas que demandam tempo para análise, ainda mais sendo o texto em inglês.

Para finalizar o tema legal, um detalhe importantíssimo: esta nova lei foi apoiada por entidades como a Recording Industry Association of America, Motion Picture Association of America e U.S. Chamber of Commerce. Esta última, inclusive, manifestou seu apreço à medida na mesma matéria da Reuters, em palavras de seu presidente, Tom Donohue: “By becoming law, the PRO-IP Act sends the message to IP criminals everywhere that the U.S. will go the extra mile to protect American innovation“.

E o Som Barato?


Logicamente que o lado mais fraco nessa disputa é o que sofre primeiro. Criado em janeiro de 2007, o Som Barato surgiu de uma iniciativa de Bruno Rodrigues, 24 anos, analista de sistemas, morador do Recife.  Apreciador de boa música brasileira e com um bom acervo de discos em seu HD, ele resolveu fazer no blog  aquilo que parece natural para quem gosta de música: compartilhar o seu gosto com outras pessoas. Como o Bruno mesmo conta, em entrevista dada à Ricardo Tacioti no Overmundo, em pouco tempo a coisa começou a tomar proporções maiores: “Depois de um mês de existência percebi que o blog começou a ganhar acessos, então resolvi adicionar dois amigos como colaboradores pra me ajudar nas postagens e pesquisas de álbuns difíceis já que isso consumia um pouco de tempo“.

Muitas bandas novas começaram a procurar o blog para disponibilizar seus discos; outras, passaram a agradecer o serviço divulgação prestado pelo blog. Como relatado na entrevista acima linkada, aconteceu até de produtores mandarem e-mails pedindo contato e orçamento de alguns artistas para shows – “como se nós tivéssemos alguma relação com artistas“, diz Bruno.

Ele, seus dois amigos e mais outro colaborador formavam a equipe que atualizava o Som Barato quando ele foi extinto.  Cada disco disponibilizado tinha, em média, cerca de 600 downloads; somando os quase 2000 mil discos do acervo do blog, o número total do blog fica perto de 30 mil downloads. O número de acessos, em mais de 6 milhões.

Depois do dia 9 de setembro, a saída encontrada pelo pessoal para protestar contra a retirada do antigo endereço foi a criação de um novo blog: o Sem Barato. Os antigos links para downloads de discos foram substituídos por links para notícias, manifestos e comentários sobre as questões envolvendo os direitos autorais e a exclusão do som barato.  Ele funciona como uma espécie de clipping sobre o tema – inclusive, há diversos textos interessantes que serviram como base para este post.

Provavelmente, o Som Barato não vai voltar a funcionar da mesma maneira de antes. Mas, como se sabe, caiu na rede, não tem mais fim. É como aquela velha lenda grega da Hidra de Lerna: mata-se uma cabeça, outra  (pelo menos) cresce no lugar. Metáfora que, aliás, serve para outra situação…

[Leonardo Foletto, com contribuições jurídicas de Edson e pitacos de Reuben]

Créditos fotos
1) http://arrastao.org/cinema/mais-um-passo;
2) http://remixtures.com/2008/05/mtv-insulta-a-sua-audiencia-com-anuncio-antipirataria
3) http://sembarato.blogspot.com
4) http://www.coxandforkum.com/archives/000293.html

Instrucciones (2)

O próximo link da enorme lista aqui à direita, ainda no tópico Baixe Música, é o do Blog Del Topo. Trata-se de um bom site para começar – e continuar, provavelmente – a conhecer o rock sulamericano, especialmente o rock argentino. Foi ali que conheci o Sui Generis e o Almendra, duas bandas bastante conhecidas lá pela Argentina, mas que por aqui restringem-se a pouquíssimos guetos de apreciadores. O Almendra é a primeira banda de Luis Alberto Spinetta, figura das mais importantes do rock argentino; já o Sui Generis é a primeira de Charly García, outra figuraça da linha fundadora do rock naquele país.

Depois vem o Deacon Blues & Soul. Pelo nome, obviamente trata-se de um blog especializado em blues e soul, com links para diversos álbuns das áureas épocas dos dois ritmos. Vale uma passadita, se te gusta.

Por fim, o Brazilian Nuggets. Blog já conhecido por aqui, tem um baita acervo de discos raros da psicodelia brasileira das décadas de 1960 e 1970. E o raro aqui não é força de expressão; boa parte dos discos ali trazidos para download não pode ser mais encontrada no mercado, a não ser nas mãos de sebistas e colecionadores, geralmente a preços nada módicos.

***

Bueno, para não ficar muito chato esse post, aqui abaixo vai o vídeo de “Color Humano“, do Almendra, que tem talvez um dos melhores riffs já criados na história do rock (e não só do argentino, veja bem). É daquele tipo de música boa de bater cabeça, de preferência no ritmo do riff inicial, e de cantar extremamente alto, acompanhado de mais umas quatro pessoas no mínimo. Claro que no solo do meio da música o air guitar é indispensável.

[Leonardo Foletto.]

Põe na conta do Reznor

A primeira coisa que fiz ao ficar sabendo do disco novo do Nine Inch Nails foi me irritar com o texto que me deu a boa nova.

É evidente que a segunda coisa foi baixar o disco lá na página oficial do NIN. E, bem, não gostaria de esconder a terceira de você, que foi descobrir que acabo de chamar de “disco novo do Nine Inch Nails” uma parada que foi lançada há quase um semestre.

Tenho repetido (normalmente pra mim mesmo, mas nem sempre) que apesar da relevante atuação de Ronaldo Lemos nas discussões relacionadas aos direitos autorais no Brasil eu acabo sempre escolhendo desconfiar de certo tom apaziguador-homem-de-negócios-esclarecido com que ele costuma apresentar o que pensa.

Lê lá o texto pra tu ter uma idéia.

A tentativa de inserir a iniciativa do Nine Inch Nails na tal lógica da “economia da dádiva”, a mesma lógica segundo a qual operam empresas que “remuneram seus funcionários acima de suas expectativas” como estratégia para que esses mesmos funcionários trabalhem mais ao se sentirem “presenteados”, a tentativa de inserção do NIN nessa lógica, eu dizia no início dessa frase enorme, só alimenta a desconfiança que nutro por esses papinhos reformistas.

É muito provável que a tal lógica se aplique ao In Rainbows, por exemplo, e preciso dizer que embora o disco me cause enorme felicidade (como todos os outros do Radiohead) eu mesmo nunca comprei a idéia de que o esquema “pague o quanto quiser” fosse revolucionário e doidão, e quanto a isso pra não esticar conversa digo apenas que 1) o download do In Rainbows não está mais disponível oficialmente e 2) a Rolling Stone do Maluf achou sensacional, consequentemente eu não posso achar também.

Quero crer que o caso do Nine Inch Nails seja mais rico e complicado que isso.

De início, ao invés de “pague o quanto quiser” há um belo “este é por nossa conta” (this one is on us) estampado no site da banda. Além disso, o estímulo à apropriação [mais que ao download, ao remix mesmo] é não apenas explícito, mas oficial. Fora aquele simpático parágrafo à direita, me estimulando a postar o disco aqui no blog, compartilhar com os amigos e dá-lo de presente a pessoas desconhecidas.

Tu acha pouco? The Slip está disponível em outros formatos além do MP3 (FLAC, M4A, talvez outro mais, não lembro), há instruções cuidadosamente didáticas sobre as vantagens e prejuízos de cada um dos formatos [o que de cara relativiza os argumentos sobre a falta de qualidade dos arquivos de áudio disponíveis na internet, e além do mais põe lenha nessa discussão aqui] e, “for those of you interested in physical products, fear not”, o disco foi lançado posteriormente em cd e vinil.

O que isso tudo quer dizer? Nem Trent Reznor tem certeza [mas repare na certeza, lá no fim da entrevista, de que as gravadoras “foram projetadas para sugar os músicos”]. Como para o Radiohead (embora com aparente mais coragem) e tantos outros, o que parece interessar é testar a mão, no sentido de descobrir o que fazer com a música que, afinal, ninguém deixará de criar porque as grandes gravadoras agonizam.

A mudança geral (“geral”, né) na mentalidade dos artistas em relação ao papel das gravadoras repercute com significativa diferença na situação de 1) pessoas que [como Reznor] em algum ponto de suas bem-sucedidas carreiras deixaram de ver sentido no modelo-padrão da indústria e 2) aquelas que, sem acesso ou sem interesse no Esquemão, já iniciaram suas carreiras de maneira independente. Embora seja provável que não haja distinções significativas nos modos de produção/criação dessas duas categorias, o uso da internet na distribuição e no consumo musical traz implicações bem distintas para, digamos, um baita compositor que mora em Alagoas, um dinossauro da música brasileiraum dos criadores mais significativos do rock industrial, esse gênero tão simpático à subversão.

[Digressão. Lobão costumava dizer que não havia grandes diferenças entre o que ganhava no independente e na época da gravadora, mas isso foi na fase relevante que precedeu a pavonada.]

Estas são todas questões devidamente abertas, casos não encerrados de uma história cultural em trânsito sobre a qual talvez a única certeza seja a de que ela não se fará sem tomada de posição. No fundo, The Slip é um entre muitos testemunhos do que há de mais legal nessa coisa toda, o fato de que, aconteça o que acontecer, ninguém vai deixar de criar por não saber ao certo o quanto irá ganhar com i$$o.

E, bem, eu não mencionei até aqui por imaginar que neste ponto do texto você já esteja ouvindo a nova empreitada de Trent Reznor comigo, mas The Slip é um puta disco. Tem bons níveis de eletrônica e ruído (embora por mim pudesse ter até MAIS), riffs simples, daqueles que Tom Morello costumava dizer serem os únicos capazes de fazer as pessoas pularem de verdade, uns bons temas instrumentais que de alguma forma ligam o álbum ao anterior, que aliás dá pra ouvir oficialmente também e é muito bom. Dá uma sacada no clima da coisa:

Dá pra ver mais trechos do ensaio aqui. E aqui, o canal oficial da banda no youtube.

Vê lá, cuida.

*

Em tempo. O Nine Inch Nails está em turnê pela América Latina com direito a show cancelado no Brasil e tudo, eu sequer mencionei isso no texto acima e pra compensar meu relaxo informativo compartilho essa bela imagem de palco do NIN:

Hmm. E que tal essa:

Hein?

[Reuben da Cunha Rocha.]

Instrucciones (1)

Este blog tem uma porrada de links à direita, no que se chama de blogroll. Eles estão divididos por área/segmento cultural, e na grande maioria deles há diversas coisas para baixar. Para facilitar a busca, vou espassar algumas seções de intrucciones entre os posts ditos normais.

Vamos começar com o Álbum Virtual, primeiro link da seção Baixe Música. É o site criado pela Trama para disponibilizar para donwload gratuito discos novos dos artistas da gravadora. Os álbuns ficam disponíveis em um tempo determinado, que é de alguns meses. Dá para baixar todas as faixas, o encarte, e segundo a apresentação do site, vídeos e versões exclusivas. Quem estreou o projeto foi Tom Zé e seu “Danç-éh-Sá Ao vivo”; hoje, quem tá por lá para ser baixado é o novo do CSS, “Donkey”, “Chapter 9”, do Ed Motta, e “Artista igual Pedreiro“, péssimo nome para o álbum de estréia da boa banda mato-grossense Macaco Bong.

O Segundo link é para a comunidade do Orkut Álbuns Raros. Com um nome explicativo desses, fica difícil acrescentar alguma coisa para descrever o link. Mas vamos reforçar que o nome albuns raros não é a toa; lá tem muita coisa rara mesmo.

Quer dois exemplos? Neste tópico tem alguns discos da banda do grande cartunista Robert Crumb, a R. Crumb And His Cheap Suit Serenaders. E neste aqui, discos da Emir Kusturica and the No Smoking Orchestra, maravilhosa banda que faz as trilhas dos filmes do cineasta nascido em Sarajevo, na Bósnia.

*

Eu ia continuar apresentando mais links, mas no afã de testar cada um deles, me deparei com alguns vídeos dessa banda do Emir Kusturica. E achei este aqui abaixo, uma verdadeira pérola bem ao estilo dos filmes do Kusturica – bom, pelo menos ao estilo do único filme que vi dele, o A vida é um milagre, que é uma coleção de cenas maravilhosamente non-sense.

[Leonardo Foletto.]

O Silêncio da Cidade

A legitimidade das entidades representativas no âmbito da cultura é uma entre tantas coisas que o contexto da cultura digital põe em discussão, não necessariamente pela qualidade (ou falta dela) do trabalho que executam, mas pela coerência mesmo de sua permanência, e as condições dessa permanência num contexto cultural que no mínimo dificulta as ações a que se propõem.

No Brasil, o ECAD talvez seja um dos grandes guardiões da indistinção entre direito autoral e direito de lucro que confunde empresário e artista, ou o artista-bufão e o músico, ou, pra sair do meu próprio e tacanho raciocínio binário, da indistinção que alicerça certa rotina cultural herdada do século 20.

Baseada num princípio de regulação da execução pública das obras de seus filiados, a ação do ECAD talvez faça todo o sentido no contexto das rádios comerciais, por exemplo, que por definição fazem grana com a música alheia e têm mesmo é que pagar alguém por isso, de preferência os autores!

No entanto, no que extrapola esse contexto e adentra a esfera mais dinâmica, concreta e cotidiana da circulação de música pela simples fruição, ocorre de borrar-se a linha que separa regulação de controle, com tudo de autoritarismo e arbitrariedade que a palavra contém.

Me diz tu se isso aqui não é abusivo.

Mesmo um entusiasmado entusiasta (!) do aperreio de instituições comerciais dos mais variados tipos como eu consegue perceber que esses pobres coitados não estão exatamente lucrando com a execução dos produtos culturais que veiculam. No caso das lojas, ainda lucram com os aparelhos de execução, mas no caso dos bares e restaurantes a coisa é puramente policialesca, um filme cyberpunk de mau gosto.

[E não deixe de reparar na lógica de Juiz Dredd que se repete e repete ao longo da argumentação dos homens-de-preto: ‘a lei está conosco, não há que se mexer na lei, há que se ajustar o mundo, sentimos muito, sentimos muito’.]

O que talvez devesse ser um mecanismo de mediação entre os interesses de artistas, produtores, distribuidores e público, iniciativa da própria sociedade no sentido de impedir o abuso e a exploração indevida da cultura que produz, termina por se mostrar tão burocrático e autoritário quanto, sei lá, um juiz maluco do futuro, só que menos divertido.

É, amiguinho, o controle de informação é o declarado interesse do ECAD. E de controles de quaisquer tipos dificilmente nascerá algo simpático à criatividade.

Só que, apesar da tendência geral das sociedades de manterem instituições defuntas pela pura prática do saudosismo ou mera necessidade de manter empregos, as pessoas continuam pensando.

Mas isso já são cenas de capítulos futuros. Esperaê, vai.

[Reuben da Cunha Rocha.]