Mtv Decreta: É crime baixar videos (mas não exibí-los)

Não, este não é um novo programa do “Canal dos ovos de ouro” (seja lá o que isso signifique). É apenas o título de um texto sobre um pouco da política de conteúdo da Mtv Brasil, e consequentemente de sua ex-proprietária, a Viacom – um dos maiores conglomerados do audiovisual da Terra. Quase um mês atrás, a emissora notificou judicialmente o gigante Google cobrando royalties sobre os videos postados pelos telespectadores no Youtube, o dito “conteúdo ilegal”. A justificativa, de acordo com a notícia, é de que o Google estaria lucrando com a produção da Mtv com os anúncios na página ou nos videos, não se sabe exatamente em qual pois os jornalistas não lincam para o comunicado original. Também ninguém foi atrás do motivo dos dois não entrarem num acordo pela divisão dos lucros.

Trata-se de uma medida muito desinteligente, além de hipócrita, por parte da Mtv Brasil. Explico: dia desses quis rever a edição do programa Mtv Debate que foi ao ar em 17 de  março de 2009, cujo tema era “É crime baixar músicas e filmes?”, e que estava disponível nesse link aqui. No começo de março de 2010, cliquei e fui surpreendido pela mensagem de que o conteúdo não estava mais disponível para vizualização. Estranhei e procurei uma maneira de perguntar porque daquilo. Não achei e-mail para contato, então tentei por twitter e recebi como resposta a mensagem: “sempre que estreamos novas temporadadas, todo o conteúdo do ano anterior são retirados do ar automaticamente”.

Ou seja, não existe um arquivamento do conteúdo no portal. Se tu quiser rever algo do teu interesse e for do ano passado, não vai dar de jeito nenhum, os comentários e o debate já era. Só se alguém gravou, ou baixou, e colocou num site de compartilhamento de videos. Isso foi o que fez o nosso camarada Marcelo Branco, ex-coordenador da Associação Software Livre.org e que participou do programa do qual eu estava atrás. Branco pegou e colocou as partes no canal dele no Youtube para guardar de recordação e esperando mais opiniões, imagino eu. O que ele não esperava era  depois de uns três meses receber uma mensagem irônica – de remoção dos vídeos, na íntegra abaixo:

Prezado usuário,

Notificamos a remoção ou desativação do acesso ao material a seguir em decorrência de uma notificação de terceiros da parte de Viacom International Inc. informando que este material é infrator:

Debate – É crime baixar músicas e filmes? (parte IV): http://www.youtube.com/watch?v=SpKzou1COZc
Observação: A reincidência na violação de direitos autorais acarretará a exclusão da conta do usuário infrator e dos respectivos vídeos enviados. Para evitar que isso ocorra, remova todos os vídeos sobre os quais você não detém os direitos de reprodução e não envie outros vídeos que violem os direitos autorais de terceiros. Para saber mais sobre a política de direitos autorais do YouTube, leia nossas Informações sobre direitos autorais.

Se optar por enviar uma contranotificação, visite a Central de Ajuda para acessar as instruções.

Observe que na seção 512(f) da Lei de Direitos Autorais, qualquer pessoa que intencionalmente apresentar declaração falsa de que um material ou atividade foi removido ou desativado por engano ou identificação incorreta pode estar sujeita à responsabilidade.

Atenciosamente,
Equipe do YouTube, Inc.

ATENÇÃO

Recebemos reivindicações de direitos autorais sobre o material que você enviou, como segue:

  • de Viacom International Inc. sobre o vídeo Debate – É crime baixar músicas e filmes? (parte IV) – marcelobranco3204
    ID do vídeo: SpKzou1COZc

Observação: As contas consideradas infratoras reincidentes serão encerradas. Exclua os vídeos dos quais você não possui os direitos autorais e não envie vídeos infratores.

Se não estiver certo do que isso significa, é muito importante que visite nosso guia Informações sobre direitos autorais.

Se acredita que possui os direitos necessários ou autorização para enviar este conteúdo, você pode registrar uma contranotificação. Existem muitas consequências legais para o preenchimento de uma notificação falsa ou de má fé. Analise os materiais adequados relacionados às leis de direitos autorais antes de enviar uma contranotificação. Você pode encontrar mais informações em nossa Central de Ajuda.

Você também pode localizar uma cópia desta mensagem em sua página de avisos da conta, para sua referência.

A Mtv/Viacom praticamente deu sua opinião a respeito da questão debatida. É crime sim, um atentado aos “direitos autorais”, mesmo que tu tenha uma parte disso, participando da produção do conteúdo. A empresa não entendeu que não vai adiantar apagar video por video e continuam querendo processar o provedor mais popular. Se esquecem que ainda há outros sites para os quais os usuários estão migrando, como o Daylimotion, o Vimeo ou no Facebook. E foi neste em que Marcelo Branco também salvou o programa, possibilitando que eu finalmente possa reassisti-lo e copiá-lo. E se apagarem, colocaremos de novo, até que aprendam que brigar com a audiência não funciona. Fora a questão de que é uma criação nacional – cujos assuntos abordados são muito mais importantes que as produções “gringas” exibidas – e que deveria ser mais valorizada, a começar pelo criador.

Tá na hora de um programa novo: Reforma Mtv

Inclusive eu já baixei o programa. Copiei a primeira edição da temporada 2010 do Mtv Debate com o tema “Internet: liberar ou controlar?“, direto do endereço original. E assim farei sempre que o tema me apetecer. Além de indicar um programa relevante, que não é um dos mais  assistidos pela maior parte do público-alvo, ainda estou arquivando para que pessoas que não o assistiram possam vê-lo, caso ele não esteja mais no Portal Mtv. O que provavelmente acontecerá quando entrar a temporada 2011. No meu canal, dá pra assistir a partir do primeiro bloco aqui.

Outra falta de noção da Mtv/Viacom a respeito dos videos online é ponto de que ela mesma se serve desses videos, assim como muitas tvs têm feito, em seus programas geralmente ao vivo. Essa apropriação tinha de monte no Acesso e no Scrap Mtv – quando saía alguma novidade na internet no outro dia ou semana davam a informação e exibiam o conteúdo de baixa qualidade. Que tal o Youtube cobrar os “direitos autorais” sobre a utilização desses videos? Aí está o ridículo da situação. A Mtv Brasil parece ainda ter resquícios de sua antiga proprietária, a Viacom, cuja totalidade das ações da emissora o Grupo Abril adquiriu em dezembro de 2009. A briga entre Viacom e o Youtube vem se arrastando desde 2006, sendo que em 2007 a empresa exigiu do Google 1bilhão de dólares num processo semelhante ao da Mtv Brasil. Para a solução, falta só as mega-empresas usarem melhor a cabeça e entrarem num acordo. Ninguém vai aguentar essa de notifica, apaga, notifica, apaga – muito menos desistir do que se quer ver.

[Marcelo De Franceschi]

fotos, livros, quadros, música

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petropolis.

Vocês tem observado que nos últimos tempos cada vez mais se noticia revistas, institutos ou bibliotecas disponibilizando seus acervos/arquivos gratuitamente na web. Nós mesmos já falamos de algumas dessas iniciativas, e aqui voltamos a tratar do assunto porque o Instituto Moreira Salles é outra instituição que está disponibilizando um arquivo excelente para consulta via web, de grátis.

O acervo divide-se em quatro áreas: artes plásticas, biblioteca (literatura), fotografia e música. Nas artes plásticas, há uma coleção com mais de 1.700 obras. Entre os destaques, segundo a apresentação do acervo, estão o Highcliffe Album, importante conjunto de desenhos e aquarelas sobre o Brasil do século XIX, e a Coleção Unibanco, em sua maioria formada por pinturas modernas e contemporâneas.

Na fotografia estão 5 mil fotos das 450 mil que o instituto tem em seu arquivo, incluído algumas do século XIX e do início do século XX, – como  a que abre esse post, do Palácio Imperial, em Petrópolis, datada de 1860. Na biblioteca, outro acervo considerável, composto por livros, correspondências e outros objetos de personalidades da cultura brasileira. A biblioteca também guarda publicações do próprio IMS, como os Cadernos de Literatura Brasileira e os Cadernos de Fotografia Brasileira.

Mas é na música que a coisa fica melhor, com um  gigantesco acervo de música brasileira: mais de 100 mil gravações, incluindo perólas como “Pelo Telefone“, escrita por Donga e considerada o primeiro samba gravado, em 1917. Dá também para buscar as clássicas marchinhas que fizeram sucesso em carnavais passados e por canções de Noel Rosa, Lamartine Babo, Dorival Caymmi e Adoniran Barbosa, dentre inúmeros outros.

Todas as músicas estão catalogadas direitinho, com nome do autor, gênero musical, gravadora, data de lançamento, etc, e podem ser ouvidas em Windows Media Player e  QuickTime. Basta digitar o nome do autor ou da música, no mesmo esquema de funcionamento do  Google.

O acervo de música do IMS fazem parte de biblioteca de colecionadores  individuais, dos quais o mais conhecido é o  jornalista José Ramos Tinhorão.

Crédito foto: Klumb, Revert Henrique.

Histórias de um cronópio

"Não duvide de um cronopiano, não é saudável!"
Pipol: “Não duvide de um cronopiano, não é saudável!”

Cronópios são seres “tão estranhos que eu não conseguia vê-los claramente, uma espécie de micróbio flutuando no ar, uns glóbulos verdes que pouco a pouco iam tomando características humanas”, como descreve seu criador, o escritor argentino Julio Cortázar. Em Histórias de Cronópios e Famas um provável leitor encontra mais que esta pista inicial — cronópios são criaturinhas ingênuas que se alimentam de poesia, o oposto das famas, essas prisioneiras da realidade. “Todos queremos tanto ser cronópios e repudiar aos famas. Com os cronópios, Cortázar nos proporcionou uma vida menos pesada, melhor, quase suportável”, propõe Cassiano Viana neste belo texto. Mesmo depois disto, cronópios continuam sendo mais. Cronópios, provavelmente o maior portal de literatura da web brasileira, no ar há 05 anos sob edição de Edson Cruz e Pipol.

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Pipol e Edson Cruz

Se não o maior, no mínimo o mais completo. No sentido de dar à literatura tratamento de web, inseri-la completamente no contexto da cultura digital. Numa palavra: multimídia. Além de um monstruoso volume de artigos, ensaios e literatura inédita, o site hospeda projetos pioneiros e nada convencionais. Como a revista Mnemozine, que já apresentou dossiês robustos sobre poetas do porte de Pedro Xisto [um verdadeiro resgate do autor], Augusto de Campos, Paulo Leminski e Alice Ruiz. Ou a coleção de pocket e-books, que em seu breve catálogo contém nomes como o do cineasta Sylvio Back e do lendário Wilson Bueno. Ou o Cronopinhos, a bela iniciativa de literatura infantil que além de textos inclui arquivos de áudio e livros visuais. Ou ainda a TV Cronópios, talvez a maior contribuição do portal para a memória literária brasileira, que já registrou entrevistas com Roberto Piva, Glauco Mattoso, José Saramago, entre muitos e muitos outros.

Com toda essa disposição para explorar as possibilidades da internet, o editor e responsável pela programação visual de todos esses projetos [que, se tu clicou nos links acima, reparou que é no mínimo luxuosa] respondeu de bom grado a algumas questões propostas por email por este insipiente repórter. As perguntas giram em torno das inovações que o portal inseriu na maneira de ler [e quem sabe fazer] literatura na web. As respostas, como o leitor verá, apontam para muitas outras novidades. Com a palavra, Pipol.

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Qual a periodicidade/receptividade dos ebooks? Existe uma linha editorial pros títulos?

Os livros digitais no formato proposto pelo Cronópios, apesar da boa receptividade, são um projeto a ser revisto. O processo de editoração e montagem dos livros é bastante trabalhoso, o que dificulta os lançamentos com maior frequência. Quando lançamos o projeto, tivemos a adesão rápida e entusiasmada de vários autores. Recebemos vários originais para seleção e escolhemos alguns pelo critério: criatividade + textos curtos + . Eu digo que precisamos rever o projeto porque é possível agilizar tudo com um pouco mais de tecnologia e uma nova abordagem. Talvez terceirizando a editoração dos livros (design, revisão, etc). Estamos estudando isso. O projeto é bom, merece continuar.

Uma coisa que de cara chama a atenção no projeto é que ele é adequados pro formato virtual (livros de tamanho pequeno e de curta metragem, visualmente atraentes e nada cansativos). Às vezes tenho a impressão de que o download de livros não tem a mesma força que o de músicas ou filmes justamente porque são poucas as iniciativas preocupadas com a adequação do formato. O que você pensa em relação a isso? Que outras experiências apontaria como interessantes?

Concordo com você. Realmente os livros para download nada mais são do que um PDF ou outro formato similar. Nada atraente mesmo. Mas é que não existe ainda um aparelho bacana como um iPod, próprio para leitura. Os e-books tipo Kindle e o Sony Reader ainda são chatos e em preto e branco (imagina só!). Quando surgir “o” aparelhinho certo tudo mudará. Notícias recentes dão conta de que nos EUA já está pegando o hábito de se ler em aparelhos eletrônico de leitura (o Kindle da Amazon já pode ser considerado um sucesso). O comportamento humano é muito maleável, como tudo pode mudar de uma hora para outra. É incrível, até a semana passada parecia que o livro digital nunca iria passar de uma experiência…

Como é a questão dos direitos autorais dos ebooks?

Nós estamos empolgados com o Creative Commons, gostamos da idéia e apoiamos tudo que facilite a vida criativa.

O mesmo sobre a TV: qual a periodicidade dos programas? Como funciona a estrutura técnica de vocês?

A TV Cronópios é o meu projeto preferido entre todos do Cronópios. Poucos se dão conta, ou pelo menos ninguém ainda falou sobre isso comigo, é o caráter de “manifesto audiovisual” que esse projeto tem em sua estrutura de produção. A aparente simplicidade na verdade é uma sofisticação, uma combinação de ética e criatividade. É uma “TV poética”. Já trabalhei em televisão e sei bem que os profissionais desse meio podem transformar tudo em coisa sem importância ou ruim.

Para fazer trabalho tão sutil, trabalhamos pesado. A equipe é reduzidíssima, somos só três: A Egle Spinelli fazendo câmera, direção e edição; o Edson Cruz fazendo entrevistas; e eu, fazendo câmera, direção e edição. Em alguns projetos, como os nossos programas, contamos com outros colaboradores, como fotógrafos, iluminadores, equipe de som… Geralmente fazemos os programas em parceria com uma instituição ou empresa. Por exemplo, estamos trabalhando na criação de um programa em conjunto com a Livraria Martins Fontes. Fizemos em dezembro a gravação de um evento sobre editoração e mercado editorial, realizado pelos alunos da ECA-USP [Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo]. Entramos no projeto como apoiadores e estamos editando agora o material para ser transformar numa ferramenta de consulta e apoio educacional.

A estrutura técnica é a mais simples possível. Usamos câmeras miniDV e softwares comuns de edição de vídeo. A hospedagem dos vídeos é feita em servidor do Cronópios. Não usamos o YouTube para hospedar os vídeos. Isso acaba custando muito mais para nós, pois sempre temos que gastar mais com banda e transferência de dados… Não somos bobos por isso, trata-se de um investimento na nossa marca, no nosso conceito de comunicação.

O fato de a exibição ser gratuita dificulta o trabalho?

Claro que sim. Temos que arrumar dinheiro de um jeito ou de outro. Muito do que gostaríamos de fazer simplesmente não pode ser feito. Tudo tem que ser barato para não ficarmos na frustração.

Vocês pretendem investir mais no lado multimídia da mídia com que trabalham?

Sim, sim. O Cronópios ganhará cada vez mais recursos e ferramentas multimídia. Estamos pensando numa forma de utilizar voz sintetizada por software para ler os textos publicados no site, ajudando na acessibilidade para deficientes visuais ou mesmo simplesmente para ouvir o texto enquanto se faz qualquer outra coisa. Vamos reformular também o nosso serviço de Podcasts. A TV Cronópios terá outros programas, inclusive com transmissão ao vivo.

Algum projeto novo pro Cronópios?

Estamos de volta às pranchetas de projeto. O Cronópios está sendo totalmente reformulado.  E as idéias são bem ambiciosas, algumas inovadoras. Estamos estudando como incorporar novas tecnologias, inventando outros usos para melhorar o que já existe, criando novos sites e oferendo novos serviços, etc etc etc.

Uma das idéias, já dá para adiantar, é transformar o Café Literário em um local de encontros virtuais, aproveitando e adaptando a tecnologia do Chat. Chamaremos a nova ferramenta de Café Cronópios. Os cronopianos poderão manter conversas (particulares ou públicas) com outros frequentadores do Café. Uma tela mostrará o usuário que estiver online no espaço virtual do Café Cronópios.

Vamos inaugurar também um novo site, agora dedicado à ficção científica brasileira. Já temos o editor que vai cuidar desse projeto. Em breve anunciaremos o nome. O material reunido para dar início ao site é de primeira. Todos os principais autores do gênero no Brasil estarão reunidos. Com isso, uma nova comunidade vai se “teletransportar” para junto dos cronopianos, aumentando o intercâmbio, gerando motivação e criação.

Estamos trabalhando também na criação de um site para oferecer cursos e oficinas online. Esse projeto tem a parceria da Livraria Martins Fontes. Estamos nos reunindo semanalmente para isso. Já temos o esboço de como funcionará e estamos nos aprofundando nas necessidades técnicas e na busca de recursos financeiros.

E ainda estamos criando uma agência de notícias do meio literário e artes em geral. Será um site independente com uma equipe independente formada por dois jornalistas que irá diariamente editar e publicar informações e notícias. O site terá também uma área com interface Web 2.0, que irá permitir a qualquer pessoa enviar informações e divulgar trabalhos de todo o país.

Tudo isso é possível sim, não é exagero de minha parte, embora, admito, possa parecer. Mas não duvide de um cronopiano, não é saudável. He he he.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Crédito das fotos: aqui e aqui.

Conheça a nossa TV

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Nós do BaixaCultura estamos trabalhando numa série de novidades para 2009, que vão desde coisas simples, como agregar mais colaboradores a este singelo front da cultura livre, até coisas mais trabalhosas, como dominar o mundo. A primeira delas que gostaríamos de apresentar é o nosso VodPod, disponível logo ali na barra lateral, previsivelmente apelidado de Baixa TV.

[Basicamente, um VodPod é um site de armazenamento de vídeos. Como o YouTube. Só que permite a coleta de vídeos de uma infinidade de lugares e formatos diferentes. Inclusive do YouTube.]

A principal finalidade deste recurso é o armazenamento de material autoral – entrevistas e matérias em formato audiovisual que pretendemos produzir ao longo do tempo e com o crescimento de nossa estrutura. Até lá, a Baixa TV funcionará como memória ativa.

O que o leitor (agora espectador) encontrará a princípio será uma seleção de programas de TV, documentários e trailers de alguma forma relevantes para as discussões aqui propostas. Alguns destes arquivos já foram inclusive apresentados no blog, através dos posts. E por que reciclar informação já disponível aqui mesmo? É simples: nós acreditamos que organizá-la de modo a facilitar o acesso permitirá que a informação siga circulando. Livre circulação como princípio de liberdade de informação.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Publicações disponibilizam acervo digitalizado

A liberação dos arquivos de revistas/jornais está mesmo se alastrando. Falamos aqui do arquivo fotográfico da Life, e hoje voltamos ao assunto graças ao anúncio da disponibilização de todo o arquivo da revista Veja, desde 11/09/1968, data da primeira edição. O esquema para visualizar as edições é simples e intuitivo, apesar de ainda um pouco lento. Dá para ver desde a primeira edição até a da semana passada.

Procurando um pouquinho, nota-se que há outras iniciativas semelhantes interessantes. Um dos principais jornais da Espanha, o La Vanguardia, editado em Barcelona, está com sua hemeretoca aberta desde outubro, o que significa que podemos ver todas as edições do jornal desde a sua fundação, em 1881. Outro dos grandes jornais da Espanha, o El País, também disponibiliza seu arquivo – desde 1976 – gratuitamente.

Na Inglaterra, o jornal The Times disponibiliza online 200 anos de seu acervo: de 1785 a 1985 (a não ser entre dezembro de 1978 e novembro de 1979, período em que o jornal não circulou). O acesso aos 20 milhões de artigos e cerca de 35 milhões de imagens é gratuito, mas exige que o leitor se cadastre. Nos EUA, a revista Popular Science, publicada entre 1870 e dezembro de 2006, colocou todas as suas edições para consulta aqui, via Google Books. Além das matérias, aqui se destacam as hilárias propagandas de produtos  hoje (bem) ultrapassados, como essa vitrola aqui abaixo:

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Voltando ao Brasil. O tradicional Roda Viva tem seu arquivo aberto através do projeto “Memória Roda Viva“. Não tem programa no país que tenha recebido mais entrevistados ilustres que este. Para ficar só em alguns nomes,  já passaram por lá Adolfo Bioy Casares, Pedro Almodóvar, Anthony Giddens, Darcy Ribeiro, Fidel Castro, Noam Chonsky, Edgar Morin, Pierre Lévy, Manuel Castells, dentre inúmeros outros.

Há passos mais lentos, é o que também faz o jornalista Sandro Fortunato, criador do Memória Viva. O site não é especialista em memória da mídia, mas é possível encontrar conteúdo de publicações históricas, como da revista O Cruzeiro.

Segundo esta notícia, Fortunato estava com tudo pronto para trabalhar na disponibilização do acervo do Pasquim. Como se trata de uma notícia de 2006, é possível supor [entramos em contato para sanar a dúvida, mas não obtivemos resposta] que o jornalista tenha desistido ou que tenha sido impedido quando, no mesmo ano, foi publicado o primeiro volume da Antologia O Pasquim. Que, aliás, não é exatamente um livro barato, além de tratar-se de um arquivo de memória editado na fonte, e não pelo leitor, como é o caso das iniciativas online e uma de suas vantagens.

cruzeiro

O jornalismo brasileiro costuma cultivar uma postura romântica em relação ao seu próprio passado. Não é raro, embora nem sempre seja fato, ouvir que esta ou aquela revista era melhor nos primeiros anos, ou que certas épocas abrigaram experiências jornalísticas jamais repetidas [como o Pasquim dos anos de chumbo], ou que o jornalista não é mais o que costumava ser, e tal. Sem aprofundar o mérito da reclamação, trata-se de um contexto excelente para esse tipo de iniciativa – seja para que novos profissionais aprendam com melhores épocas, seja para que se perceba o quanto de folclore há na nostalgia.

[Leonardo Foletto e Reuben da Cunha Rocha]