Caiu na rede virou apócrifo

Caiu na rede é peixe, é pixel, é texto “lançado ao alto-mar das futuras combinações” como completaria o poeta Roberto Piva. Tantas recombinações que algumas vezes, intencionalmente ou não, alteram a atribuição ao primeiro mentor e redator do conjunto de ideias expressado.

Caiu na Rede, o livro da capa aí acima, se lançou nesse alto-mar das combinações infinitas com uma divertida tarefa:  compilar e discutir 67 textos apócrifos, aqueles de autenticidade diluída, repaginada ou mesmo roubada que certamente tu já deve ter tido contato via e-mail ou republicado em blogs e fóruns.

Na maioria das vezes, são crônicas singelas, indignadas, bem humoradas ou reflexivas, que não raro trazem uma “mensagem” que convida o leitor a passar adiante. Não demora muito e os atribuídos autores negam a responsabilidade da escritura – ou outros vêm reinvindicá-la. Um exemplo mais recente é o texto “A Vergonha” dado como de Luís Fernando Veríssimo, que refugou a benção.

A organizadora do livro, a jornalista Cora Rónai, tenta ir além da mera compilação de textos. Divide-os em oito tópicos, e em cada um deles produz um texto dando conta de entender como se dá o fetiche da transmutação de autores em cada agrupamento de casos. Duas justificativas para o fenômeno da troca de autor são ditos logo em “Os Veríssimos falsos”, o texto de apresentação do livro:

) a busca de um maior impacto pela adoração ao autor, pois deseja-se que a mensagem sejá espalhada através da credibilidade;
) é meio que o contrário do 1º), ou seja, um decaso com o autor, tanto o Anônimo quanto o Desconhecido, pois o que vale é a mensagem.

É claro que essa subjetividade de escolhas do leitor, potencializada agora aos milhões com a internet, não é coisa nova. Já em 1968, Roland Barthes, no ensaio “A Morte do Autor“, diz que um texto é feito de múltiplos textos e escritos, vindos não só de uma cultura, mas de diversas outras misturadas, relacionadas – e que essa multiplicidade se reúne não no autor, mas no leitor.

“O leitor é o espaço exato em que se inscrevem, sem que  nenhuma se perca, todas as citações de que uma escrita é feita; a unidade  de um texto não está na sua origem, mas no seu destino“. Seriam alguns desses textos do livro dispensáveis da autoria fixa, como leis e textos publicitários? O corintiano Washington Olivetto apresenta nessa entrevista uma teoria discutível: “O autor dá muito certo quando certas coisas teoricamente ‘desaparecem’: aí todo mundo quer saber quem fez, e você fica conhecido”.

Uma constatação do livro é de que não há solução pros leitores nem pros autores: “O meio-de-campo da internet está tão embolado, e os apócrifos se espalham com tal velocidade, que qualquer tentativa de descobrir ou estabelecer autorias é, praticamente, uma batalha perdida“, diz Rónai nas primeiras das 158 páginas, muitas delas disponíveis no Google Books. Mas há tentativas de esclarecer, e ela mesmo indica o blog Autor Desconhecido, que depois migrou para um site, e a comunidade do orkut “Afinal, quem é o autor?”.

Na época de lançamento do livro (2005), foi criado também um blog para divulgar o conteúdo, que continha alguns dos textos publicados. De lá pra cá pouca coisa mudou e todos eles continuam sendo republicados, como se pode ver aí embaixo, com os textos linkados e separados pelos temas, incluindo poesia, tal qual o livro.

Até hoje surge gente trocando Jabores com Borges, Medeiros com Lispectors, Veríssimos com Drummonds de Andrade. E não há previsão que essa confusão cesse, por que como bem diz Godard, “com os celulares e tudo o mais, hoje todo o mundo é autor”. Ou seria que, sendo todo mundo autor, o autor está morto?

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Caiu na rede (índice com textos do livro)

Língua
O direito ao palavrão
Minha iNgUInorância é problema meu
Tipo Assim

Cotidiano
The summer is tragic!
Mamãe executiva
Na hora de cantar
Um dia de merda
Alguns motivos pelos quais os homens gostam tanto de mulheres!
Mulheres empresárias
Um dia de modess
Pedido de amigo
Orgasmo trifásico
Quem não tem namorado
A verdade sobre Romeu e Julieta
Casamento Moderno
Promessas matrimoniais
Desabafo de um marido
Marte e Vênus.

Celebridades
Ninguém mais
namora as deusas
Baba, Kelly Key
Duas vidas
No trabalho, e chocada

Diga não às drogras.

Moralizantes
Faz parte
Precisa-se de matéria-prima para construir um país
Ode aos gaúchos
Brasil e o mundo podem prejudicar a sua saúde
Por que no Brasil não há terrorismo.

Amor
A impontualidade do amor
Sobre o amor
Às vezes
Precisando de amor
As razões que o amor desconhece
Até a rapa
A dor que dói mais
Pot-pourri de assuntos.

A Vida, o Universo e tudo mais
Mulher, sua origem e seu fim
Bunda dura
Nada como a simplicidade
O velório
Dez coisas que levei anos para aprender
Oração dos Estressados
Quase
Marionete
Entrevista com Deus
Vida
Felicidade realista
Envelhecer
Solidão
O que faz bem à saúde
Como conseguimos sobreviver?.

Poesia
Não te amo mais
Trilogia sobre a arte de dar
A Morte Devagar
No caminho, com Maiakóvski
A pessoa errada
Há momentos
A orgulhosa
Instantes

Dos apócrifos
Precisa-se de matéria-prima para construir um país
Em trilha de paca, tatu caminha dentro
Eu não escrevi “Bunda dura”.
Quem copia o rabo amplia
Vaidade
Clonagem de textos
Presque
Apócrifos

[Marcelo De Franceschi]

Futuro(s) apocalíptico(s): Prometeus e 2014

É exercício natural de toda e qualquer pessoa tentar prever o futuro. Uns acertam, outros erram, alguns juntam coincidências e conseguem “ver o futuro” com certa habilidade, se tornando inesquecíveis (Nostradamus, por exemplo) ou esquecíveis (lembra da Mãe Dinah?). Em geral, as pessoas se esquecem (ou nunca conseguem) prever aquilo que é mais importante – por que ninguém conseguiu prever lááá atrás algo sequer parecido com a internet?, disse Luis Fernando Veríssimo (ou algum dos tantos que se passam por ele na rede) certa vez.

O fato é que esse “nariz de cera” (termo jornalístico para definir uma introdução de matéria floreada e que nada de importante diz) todo do parágrafo acima é para dizer que a Baixa TV ganha dois vídeos “premonitórios”. A começar por “Prometeus -The Media Revolution“, curta produzido em 2007 pela “Casaleggio Associati“, empresa de consultoria e estratégia de rede com sede na Itália, que faz uma projeção de como seria a indústria da mídia e os seus efeitos sobre a sociedade em um futuro próximo.

A brincadeira premonitória do curta vai “construindo” um mundo ao longo dos próximos anos (2020, 2027, 2050…) onde:

_ Google adquiriu a Microsoft e o Amazon a Yahoo: ambos “controlam” o mundo;

_ O Flickr torna-se o maior repositório de fotos online da história e o Youtube, de vídeos;

_ Jornais e revistas são financiados pelo Estado e o mais importante torna-se o jornal “participativo” OhMyNews;

_ Download “ilegais” são punidos com prisão e o papel eletrônico (e-readers) substitui o papel normal como produto de massa;

_ Televisões e rádios desaparecem de onde estão hoje e migram para a internet;

_ Anúncios são escolhidos pelos autores e criadores de conteúdo;

_ Lawrence Lessig, o pai do Creative Commons, torna-se Secretário de Justiça dos EUA e declara ilegais os direitos autorais;

_ Dispositivos que copiam os cinco sentidos estão disponíveis nos mundos virtuais, e toda a realidade pode ser replicada no Second Life;

Dentre outras previsões, estapafúrdias ou não.

A produção tem bons insights: Lawrence Lessig acabar com os direitos autorais tem um pouco a ver com o texto do professor e ativista holandês Joost Smiers (em companhia de Marieke Van Schijndelpublicado no NY Times e traduzido pelo Cultura & Mercado, “Imagine um mundo sem Copyright“. E, claro, algumas falhas: OhMyNews, símbolo do chamado “jornalismo colaborativo”, está em franca decadência finaceira por culpa de um modelo de negócio sustentável, o “santo graal” do jornalismo na internet.

De resto, a brincadeira dá a sensação de que poderia render mais do que os 5min16s. Assim se diferenciaria mais do docficção “Epic 2014“, que veio antes (2004), também apocalíptico em suas previsões de fim da imprensa como conhecemos hoje (“As fortunas do Quarto Poder estão se acabando”, diz a voz suave em off, a trilha éterea dando um clima de futuro de filme asséptico de Hollywood).

“2014” tem a vantagem de fazer um balanço dos “inventos” da rede dos últimos anos (internet, Google, Amazon, blog, gmail, etc), o que dá um caráter mais educativo ao filmezinho – a produção é como se fosse uma “aula” passada um fictício Museu of Media History, em 2014.

Dirigida pelos jornalistas Robin Sloan e Matt Thompson, o curta traz, como Prometeus, bons insights em seus 8min55s. Mas dá a mesma impressão de um futuro imaginado por escritores de ficção científica das décadas de 1960 e 1970. Ou seja: de que o homem é muito mais criativo para criar o futuro do que para prevê-lo.

Por via das dúvidas, tirem suas próprias conclusões aqui abaixo e no BaixaTV:

Fotos: 1.