Notícias do Front Baixacultural (21)

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Imprensa repercurte ato contra o AI-5 digital (Trezentos, 17/05)

Clipping do clipping: a repercussão do protesto contra o projeto de lei do senador Azeredo em alguns jornais on-line brasileiros, dentre eles a Folha Online (Ato contra “Lei Azeredo” reúne 300 pessoas na Assembleia de SP), o IDG Now Tarso Genro critica e prega texto alternativo para lei de crimes digitais ) e o BOL( Suplicy apoia novo texto para “Lei Azeredo”). Como pode-se notar, cada um dando ênfase a um personagem diferente da história.

Em tempo: Acho um tanto equivocado usar o termo”AI-5″ digital para se referir ao projeto de lei do Senador Azeredo. Todos temos alguma noção de que o projeto de lei seja arbitrário, ditatorial e ridículo, mas é forçar um pouco trazer  o famigerado “Ato Institucional nº5” para a comparação, pelo simples motivo de que não é recomendável tirar um elemento de um contexto e colocar em outro completamente diferente. Entendo a ideia de chamar atenção para a situação, mas dá para fazer isso sem precisar buscar elementos tão controversos do passado, não?

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França aprova projeto que desconecta quem faz download ilegal (G1 tecnologia/Reuters, 12/05)

Foi amplamente divulgado e discutido a aprovação de um projeto de lei que permite desativar as conexões de internet daqueles que forem pegos repetidamente fazendo download ilegal de filmes e música. Nós já tinhamos falado desse projeto quando ele tinha sido, inicialmente, rechaçado na França. Mas ele voltou e foi aprovado primeiro pela Assembléia Legislativa da França por 296 votos a 233, e no dia seguinte pelo Senado francês por 189 votos a favor, 14 contra e 109 abstenções, sem nenhuma alteração.

De acordo com o projeto de lei francês, que conta também com apoio da ministra da cultura Christine Albanel, os acusados de pirataria on-line receberão dois e-mails, seguidos de uma notificação oficial. Se os downloads ilegais continuarem a ser feitos pelos infratores dentro de um período de um ano após os avisos, o acesso à internet dessas pessoas será cortado por um período que vai de dois meses a um ano. Mas o mais grave de tudo é que os punidos deverão continuar a pagar pela manutenção do serviço, mesmo durante esse período de inatividade.

Quem será encarregado da burocracia de avisos e suspensões ao usuário é o orgão HADOPI (“Alta Autoridad Para la Difusión de Obras y la Protección de Derechos en Internet“) que vai ser criado exclusivamente pare este fim. Segundo nos conta o sempre atualizado Remixtures, a coisa ainda não está liquidada: o deputado do parlamento Europeu Guy Bono, ligado ao partido socialista, já prometeu solicitar à Comissão Europeia que instaure um procedimento por infracção contra o governo francês por desrespeito do direito comunitário. Quem também manifestou o seu descontentamento para com a lei para com o governo foi a Comissão Nacional da Informática e da Liberdade (CNIL). Na opinião desta entidade, a HADOPI implicar na prática a monitorização extensiva dos internautas sem que uma autoridade judicial seja chamada a intervir antes da aplicação de qualquer sanção contra os internautas identificados pelos seus endereços IPs.

A discussão continua, e o mundo acompanha atento porque um precedente deste tipo pode “incentivar” projetos parecidos em outros países, inclusive no Brasil. Para uma cobertura aprofundada do caso, recomendo o  Remixtures em português, o El País em espanhol, o Accueil – La Quadrature du Net em inglês e francês, e o Framablog só em francês – este, inclusive, pegou uma declaração do nosso velho conhecido Richard Stallman resumindo o caso e que vale a pena ser transcrita aqui:

“The French national assembly voted for a law to give the media companies the power to cut off people’s internet connections on mere accusation.The same law will also require people to install non-free software in order to make their networks “secure”.

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Família acusada de pirataria faz acordo de US$7 mil com gravadoras (G1 Tecnologia, 29/04)

Essa também não é nova, mas vale pela representatividade da coisa: a indústria fonográfica aceitou US$ 7 mil para encerrar um processo (que durou quatro anos) de pirataria musical aberto contra Patricia Santangelo, 46 anos, que foi acusada de baixar e distribuir música “ilegal” na web. O engraçado é que ela alega que nunca realizou qualquer tipo de download, pelo motivo de que não sabia como fazê-lo; quem provavelmente baixou e distribuiu mais de 1 mil músicas –  incluindo “MMMBop”, dos Hanson, e “Beat It”, de Michael Jackson – foram seus dois filhos, Michelle e Robert, que quando o processo começou tinham 20 e 16 anos, respectivamente.

Segundo os termos para encerrar o caso, que está no tribunal de White Plains, a família terá de pagar US$ 7 mil. Eles já deram quase metade da quantia no dia 20 de abril e farão mais seis pagamentos de US$ 583,33 até outubro. O advogado afirmou que a família aceitou o acordo para “controlar custos”, pois agora alguns filhos estão na faculdade.

Este trecho da matéria chega a ser bizarro. A ânsia de lucrar das gravadoras chega ao ponto de processar uma simples família e fazê-la pagar uma dívida em 6 parcelas (!), justamente no momento em que ela junta dinheiro para pagar as caríssimas universidades americanas para seus membros mais jovens.

“Estamos satisfeitos em ter chegado a um acordo com os Santangelos”, disse Cara Duckworth, porta-voz da RIAA. De acordo com ela, o processo obteve sucesso em mostrar as consequências para aqueles que quebram as regras, além de levar os fãs de música para os serviços on-line legalizados, “que compensam de maneira justa os músicos e gravadoras”.

Se o outro trecho é bizarro, esse é nojento, principalmente pela barbaridade dita na última frase.

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Pirataria [digital] chega à literatura [de uma vez por todas] (dia a dia, bit a bit, 13/05)

O sempre bem informado Sílvio Meira pega o recente lançamento do Kindle – aquela telinha pra visualizar ebooks/jornais on-line que que provavelmente você ouviu falar na última semana – para tratar da pirataria de livros na rede, e do começo do fim do que conhecemos como a indústria do livro.  Diferente da indústria musical, falida e fadada ao desaparecimento já há alguns anos, o suporte físico clássico dos livros, o papel, vem resistindo bravamente às novas tecnologias. Porque, afinal de contas, livro é livro, um troço difícil de se preterir em relação à uma fria tela de cristal líquido.

Mas Meira acredita ser bem possível que o kindle, o e-paper colorido, flexível, de alta resolução e brilho, e os serviços de compartilhamento de “livros”  e documentos tipo slideshare.net, wattpad.com e scribd.com – isso sem falar nos milhões de livros compartilhados via torrent – sejam o começo do fim do que conhecemos como a indústria do livro. Será?

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[Leonardo Foletto.]

Notícias do Front Baixacultural (19)

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Como verás nos textos abaixo, o caso The Pirate Bay foi o assunto da semana na área de cobertura do BaixaCultura:

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Criadores do Pirate Bay teriam pena maior se estivessem no Brasil, diz advogado (IDG Now, 17/04)

A decisão do caso Pirate Bay ainda repercute, e não poderia deixar de ser. O IDG Now ouviu especialistas dos dois lados da questão aqui no Brasil e fez duas matérias, cada qual com uma opinião sobre o assunto. Para o advogado Renato Opice Blum, da Blum advogados, que já apareceu neste blog na cobertura da Campus Party, considerou  “a pena baixa, pela quantidade de obras (que tiveram seus direitos autorais infringidos)”. Diz ele que a lei brasileira prevê pena mínima de dois anos de detenção para os condenados por “infração por contribuição”.

Representante máximo do que nós do BC não apoiamos, ele ainda afirma, na cara de pau lustrada a óleos e mais óleos pagos pelas gravadoras e assemelhados, que ” decisões como essa são importantes para que a sociedade aprenda a lidar “com uma nova realidade de costumes tecnológicos”. “Vai haver maior acesso (às músicas), mas, por outro lado, existem proteções que devem ser respeitadas. Isso pode sugerir até uma diminuição de preços (no futuro), mas não quer dizer que todo mundo tem o direito de copiar o que quer. As leis precisam ser respeitadas.”

Já a outra matéria do IDG Now diz que…

Decisão é ineficaz, diz especialista em direito digital (IDG Now, 17/04)

O nosso conhecido Ronaldo Lemos aparece como fonte da matéria escrita pelo editor assistente do IDG Now Pedro Marques para afirmar que “A decisão não vai mudar nada. Nos últimos 15 anos, os sites estão sendo condenados e, mesmo após fecharem, existem inúmeros outros que acabam surgindo e prestando o mesmo serviço”. Para ele, “o que coibiria mesmo a pirataria seria um serviço competitivo e inovador”. Como alternativa, Lemos sugere a criação de um serviço de download ilimitado, onde as pessoas pagariam uma taxa fixa e poderiam baixar quantas músicas quisessem. “Isso é o que o consumidor quer: um catálogo abundante e a possibilidade de baixar (músicas) sem limite. Essa idéia é muito positiva e, se a indústria tivesse tomado esse caminho, a história seria bem diferente, hoje.”

Para finalizar, o professor de direito da FGV comenta mais um pouco sobre a decisão: “Acho ruim, porque o que acontece é que está havendo uma expansão dos direitos autorais e isso começa a passar por cima de direitos individuais, como a privacidade. Não é que não deva existir direito autoral, mas o ideal é que haja um equilíbrio.”

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Paulo Coelho declara apoio ao The Pirate Bay (O Globo Digital, 15/04)

O arauto da literatura brasileira de auto-ajuda no exterior,  nosso picareta-mor que enganou até os velhinhos da Academia Brasileira de Letras, o incomparável mago Paulo Coelho declarou apoio na semana passada ao The Pirate Bay. Diz ele: “Eu apoio o site abertamente. Até mesmo me voluntariei a viajar à Suécia para discutir o caso dos conteúdos abertos, mas nunca recebi uma resposta” .Paulo Coelho mantem um blog com o sugestivo nome “Pirate Coelho” e é um apoiador da causa dos piratas: “Desde o início dos tempos os seres humanos têm a necessidade de compartilhar – desde comida até a arte. A troca é parte da condição humana. Uma pessoa que não troca não é apenas egoísta, mas amarga e solitária”.

Na matéria do O Globo ainda consta que o mago “publicou um texto em que propõe uma forma diferente de se ver os piratas. Segundo ele, ‘o conceito do pirata como um ladrão selvagem e sem sentimentos, que se mantém até hoje, foi criado pelo governo britânico como forma de propaganda'”. E por que criaram o conceito? O nosso imortal da ABL explica:

Porque os piratas foram os primeiros a se rebelar contra as condições desumanas nos navios mercantes e da Marinha Britânica, em que capitães tiranos transformavam a vida da tripulação em um verdadeiro inferno.”Eles até mesmo abrigavam escravos africanos fugidos e viviam com eles como iguais. Os piratas demonstraram de forma clara, e subversiva, que os navios não precisavam ser comandados de forma brutal e opressiva como ocorria na marinha mercante e no serviço militar britânico”.

Paulo Coelho – apesar de sua literatura, ou por causa dela – também disponibiliza todos os seus livros em PDF de grátis no seu Site Oficial. Está lá, inclusive, sua última obra, o “thriller”  “O Vencedor Está Só“.

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Is it time to stop using the word ‘piracy’? (The Guardian, 16/04)

A confusão deve ter acontecido com muita gente: “Piratas na somália prosperam em nação sem lei“. Opa, peraí: de que piratas estamos falando mesmo? A partir dessa idéia, o artigo do The Guardian discute o uso do termo pirataria para designar coisas tão distintas quanto roubo de cargas nos mares sem lei da Somália quanto “roubo” de filmes e música através de downloads.

O nosso velho conhecido Richard Stallman sugere o uso de outras palavras para designar a situação quando na web: “unauthorised copying”, “prohibited copying” – e até mesmo um irônico “sharing information with your neighbour”. Já John Gruber, do Daring Fireball blog, sugere uma já usada para este mesmo fim: “bootlegging“. E aí, alguma sugestão para o português?

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Should Online Scofflaws be denied web acess? (NY Times, 12/04)

Eric Pfanner, correspondente em Paris do NY Times, escreve um interessante artigo em torno da pergunta:  até que ponto o acesso à internet é um direito humano fundamental?A partir daí, ele faz um balanço das últimas decisões a favor e contrárias à pirataria na rede em lugares como França, União Européia, Nova Zelândia e Estados Unidos, claro. Apesar da postura algo conservadora do texto, é um dos mais lúcidos e informativos relatos do “estado da arte” da proibição de acesso a internet e de como vem sendo tratada a questão da pirataria em diversos locais do planeta.

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[Leonardo Foletto.]

Pausa por uma boa causa

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Abro um parêntese entre um e outro trecho do Stewart Home que venho traduzindo por aqui pra comentar, com algum atraso, o processo de reforma da Lei Rouanet. A parada é longa, as implicações são muitas, no site do Ministério da Cultura há um blog dedicado à discussão toda e eu não tenho honestamente repertório pra me aprofundar além do que pretendo.

Aprendi com Makely Ka, em entrevista para este blog, que passa longe de ser realista ou saudável pensar em processos culturais (contra-industriais, independentes, decorrentes das novas tecnologias, ligados ao conceito de cultura livre ou whatever) num país quilométrico como o nosso ignorando as potencialidades de diálogo com as instâncias públicas. Posso gravar meu disquinho ou escrever meu romance genial tranquilamente sem trilhar essa discussão, mas não posso pensar seriamente a cultura enquanto espaço coletivo sem considerar sua dimensão pública. E, caso a sua memória histórica seja curta ou seu nojinho de política lhe impeça de enxergar, a verdade é que a tentativa de diálogo estabelecida desta maneira, a partir do MinC, está longe de ser um detalhe.

Pensar políticas públicas para a cultura impõe que se pense a cadeia produtiva para além do produto cultural. Já bati nessa tecla por aqui, e a própria conversa com Makely tocava na questão. Significa, paradoxalmente, que quanto mais consciente for o criador acerca dos mecanismos em que se insere como produtor, menos ingênuo será acerca do lugar que ocupa na cadeia produtiva e — tampai os ouvidos, ó Musas! — acerca do valor material do seu produto.

Talvez não haja no Brasil um setor de produção mais atrasado em relação a esse papo que a literatura: generalizando, quem se interessa por mercado literário são os livreiros, os escritores querem escrever e, sei lá, serem “descobertos”, contar historinhas no Jô, essas coisas. Não por acaso, há pouquíssimas horas ouvi de uma professora (numa banca de doutorado) a seguinte distinção: “o jornalista vende seu texto, o escritor tem compromisso apenas com a criação”. Ou algo do tipo.

Dito isto, gostaria de encaminhá-lo ao que o poeta, escritor e jornalista Ademir Assunção escreveu sobre o assunto. Há algum tempo, na época do Gil ministro, Ademir integrou um grupo de escritores dispostos a pensar políticas públicas para a literatura. O Movimento Literatura Urgente foi motivo de escândalo para criadores que acham “política uma merda”, causou uma série de desentendimentos e, creio eu, desgaste para quem levou o papo a sério. Mas, sobretudo, deixou um punhado de propostas interessantes que Ademir retoma no post que reproduzo abaixo:

É COM VOCÊS, ESCRITORES

Não sei se todos estão acompanhando. Uma nova lei, que substitui a Rouanet (mas não acaba com ela, ao contrário do que os barões da cultura dizem) vai ser enviada ao Congresso Nacional. Para votação. A pressão contrária vai ser brutal. Por quê? Há muita grana envolvida na parada. E os barões da cultura e as grandes empresas não querem perder a mamata de fazer marketing privado com dinheiro público.

A nova lei propõe a incrementação do Fundo Nacional de Cultura. Na minha opinião, é um mecanismo que vai favorecer os independentes. E os barões da cultura não querem isso. O texto da nova lei está disponível para consulta pública no site do Ministério da Cultura. Todo mundo pode opinar (de preferência, com propriedade, sabendo o que está falando).

No nosso caso, dos ESCRITORES, ainda há uma distorção. Continuam nos colocando no guarda-chuva do “Livro e Leitura”. Eu cansei de falar contra isso nas reuniões que participei. Uma bosta isso. Livro é livro, é o produto. Literatura é o que vem antes: a arte literária. Livro é o produto industrial das editoras. Literatura pode se manifestar em outras formas: revistas, sites, cds, cds-rom, jornadas literárias, encontros de escritores com leitores, enfim, uma infinidade de outras coisas que não se resumem ao livro.

A nova lei cria o Fundo Setorial das Artes que inclui, repare bem, teatro, circo, dança, artes visuais e música. Reparou? Literatura não está incluída aí, como arte. Eu estou cansado de bater na mesma tecla. Estou também sem tempo (preciso batalhar minha própria sobrevivência). Mas sugiro que todos os escritores que ainda têm alguma consciência façam uma coisa simples: entrem no site no Minc, sigam ao link da consulta pública da nova lei e exijam que a literatura seja considerada como uma arte. Que ela saia do guarda-chuva “livro e leitura” e passe para o Fundo Setorial das Artes. Só assim, a criação literária poderá receber recursos públicos, justos, através de editais públicos, e não sob a (má) vontade de um gerente de marketing de uma grande empresa (que nunca está interessado num projeto literário).

O grifo é do próprio Ademir, e me remete a um último comentário: se lhe parece estranho que meu papo sobre cadeia produtiva, produto cultural, valor de mercadoria etc. esteja em boa sintonia com a exigência feita por Ademir de que literatura seja inserida no debate como arte, bem, não deveria soar estranho. Demarcar uma fronteira entre as duas perspectivas é que engorda os tais barões da cultura. E a foto da Luana Piovani foi só pra deixar o post mais pertinente.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Libertando livros

Marilyn lê Ulisses
Marilyn lê Ulisses

(Minha  temporada na Campus Party teve como companhia inseparável um pequeno caderninho, onde anotava tudo que via e presumia render uma boa pauta para o BC. Dentre as esculhambadas notas, boa parte delas revelou-se pouco pautável, e é por isso que ainda não estão aqui no blog; outras ficaram para apuração, e uma delas está aqui abaixo.)

Se encontrar um livro em algum lugar desse Brasilsão onde tu não espere encontrar um livro, pegue-o. Abra-o. Verifique se no interior dele há uma etiquetinha dizendo “Este livro não é um presente“. Não desanime com o texto e leia-o sem medo. Lá pelas tantas páginas lidas, tu pode querer voltar a etiqueta para saber do que aquilo se trata, afinal. Abaixo da frase lida, há um código: digite-o no site www.livrolivre.art.br. Deixe seu comentário sobre o livro e saiba que você acabou de fazer parte do projeto Livro Livre.

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O Livro Livre é uma iniciativa do Jornal de Debates que visa difundir o hábito da leitura e formar novos leitores. O conceito é inspirado no bookcrossing, prática difundida nos Estados Unidos e Europa que já conta com mais de 600 mil participantes em cerca de 130 países. No Brasil, mais de 03 mil livros estão atualmente em circulação no espaço público. Se, além de ler, você quiser disseminar leitura, saiba aqui como fazer parte do projeto.

[Leonardo Foletto.]

Histórias de um cronópio

"Não duvide de um cronopiano, não é saudável!"
Pipol: “Não duvide de um cronopiano, não é saudável!”

Cronópios são seres “tão estranhos que eu não conseguia vê-los claramente, uma espécie de micróbio flutuando no ar, uns glóbulos verdes que pouco a pouco iam tomando características humanas”, como descreve seu criador, o escritor argentino Julio Cortázar. Em Histórias de Cronópios e Famas um provável leitor encontra mais que esta pista inicial — cronópios são criaturinhas ingênuas que se alimentam de poesia, o oposto das famas, essas prisioneiras da realidade. “Todos queremos tanto ser cronópios e repudiar aos famas. Com os cronópios, Cortázar nos proporcionou uma vida menos pesada, melhor, quase suportável”, propõe Cassiano Viana neste belo texto. Mesmo depois disto, cronópios continuam sendo mais. Cronópios, provavelmente o maior portal de literatura da web brasileira, no ar há 05 anos sob edição de Edson Cruz e Pipol.

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Pipol e Edson Cruz

Se não o maior, no mínimo o mais completo. No sentido de dar à literatura tratamento de web, inseri-la completamente no contexto da cultura digital. Numa palavra: multimídia. Além de um monstruoso volume de artigos, ensaios e literatura inédita, o site hospeda projetos pioneiros e nada convencionais. Como a revista Mnemozine, que já apresentou dossiês robustos sobre poetas do porte de Pedro Xisto [um verdadeiro resgate do autor], Augusto de Campos, Paulo Leminski e Alice Ruiz. Ou a coleção de pocket e-books, que em seu breve catálogo contém nomes como o do cineasta Sylvio Back e do lendário Wilson Bueno. Ou o Cronopinhos, a bela iniciativa de literatura infantil que além de textos inclui arquivos de áudio e livros visuais. Ou ainda a TV Cronópios, talvez a maior contribuição do portal para a memória literária brasileira, que já registrou entrevistas com Roberto Piva, Glauco Mattoso, José Saramago, entre muitos e muitos outros.

Com toda essa disposição para explorar as possibilidades da internet, o editor e responsável pela programação visual de todos esses projetos [que, se tu clicou nos links acima, reparou que é no mínimo luxuosa] respondeu de bom grado a algumas questões propostas por email por este insipiente repórter. As perguntas giram em torno das inovações que o portal inseriu na maneira de ler [e quem sabe fazer] literatura na web. As respostas, como o leitor verá, apontam para muitas outras novidades. Com a palavra, Pipol.

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Qual a periodicidade/receptividade dos ebooks? Existe uma linha editorial pros títulos?

Os livros digitais no formato proposto pelo Cronópios, apesar da boa receptividade, são um projeto a ser revisto. O processo de editoração e montagem dos livros é bastante trabalhoso, o que dificulta os lançamentos com maior frequência. Quando lançamos o projeto, tivemos a adesão rápida e entusiasmada de vários autores. Recebemos vários originais para seleção e escolhemos alguns pelo critério: criatividade + textos curtos + . Eu digo que precisamos rever o projeto porque é possível agilizar tudo com um pouco mais de tecnologia e uma nova abordagem. Talvez terceirizando a editoração dos livros (design, revisão, etc). Estamos estudando isso. O projeto é bom, merece continuar.

Uma coisa que de cara chama a atenção no projeto é que ele é adequados pro formato virtual (livros de tamanho pequeno e de curta metragem, visualmente atraentes e nada cansativos). Às vezes tenho a impressão de que o download de livros não tem a mesma força que o de músicas ou filmes justamente porque são poucas as iniciativas preocupadas com a adequação do formato. O que você pensa em relação a isso? Que outras experiências apontaria como interessantes?

Concordo com você. Realmente os livros para download nada mais são do que um PDF ou outro formato similar. Nada atraente mesmo. Mas é que não existe ainda um aparelho bacana como um iPod, próprio para leitura. Os e-books tipo Kindle e o Sony Reader ainda são chatos e em preto e branco (imagina só!). Quando surgir “o” aparelhinho certo tudo mudará. Notícias recentes dão conta de que nos EUA já está pegando o hábito de se ler em aparelhos eletrônico de leitura (o Kindle da Amazon já pode ser considerado um sucesso). O comportamento humano é muito maleável, como tudo pode mudar de uma hora para outra. É incrível, até a semana passada parecia que o livro digital nunca iria passar de uma experiência…

Como é a questão dos direitos autorais dos ebooks?

Nós estamos empolgados com o Creative Commons, gostamos da idéia e apoiamos tudo que facilite a vida criativa.

O mesmo sobre a TV: qual a periodicidade dos programas? Como funciona a estrutura técnica de vocês?

A TV Cronópios é o meu projeto preferido entre todos do Cronópios. Poucos se dão conta, ou pelo menos ninguém ainda falou sobre isso comigo, é o caráter de “manifesto audiovisual” que esse projeto tem em sua estrutura de produção. A aparente simplicidade na verdade é uma sofisticação, uma combinação de ética e criatividade. É uma “TV poética”. Já trabalhei em televisão e sei bem que os profissionais desse meio podem transformar tudo em coisa sem importância ou ruim.

Para fazer trabalho tão sutil, trabalhamos pesado. A equipe é reduzidíssima, somos só três: A Egle Spinelli fazendo câmera, direção e edição; o Edson Cruz fazendo entrevistas; e eu, fazendo câmera, direção e edição. Em alguns projetos, como os nossos programas, contamos com outros colaboradores, como fotógrafos, iluminadores, equipe de som… Geralmente fazemos os programas em parceria com uma instituição ou empresa. Por exemplo, estamos trabalhando na criação de um programa em conjunto com a Livraria Martins Fontes. Fizemos em dezembro a gravação de um evento sobre editoração e mercado editorial, realizado pelos alunos da ECA-USP [Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo]. Entramos no projeto como apoiadores e estamos editando agora o material para ser transformar numa ferramenta de consulta e apoio educacional.

A estrutura técnica é a mais simples possível. Usamos câmeras miniDV e softwares comuns de edição de vídeo. A hospedagem dos vídeos é feita em servidor do Cronópios. Não usamos o YouTube para hospedar os vídeos. Isso acaba custando muito mais para nós, pois sempre temos que gastar mais com banda e transferência de dados… Não somos bobos por isso, trata-se de um investimento na nossa marca, no nosso conceito de comunicação.

O fato de a exibição ser gratuita dificulta o trabalho?

Claro que sim. Temos que arrumar dinheiro de um jeito ou de outro. Muito do que gostaríamos de fazer simplesmente não pode ser feito. Tudo tem que ser barato para não ficarmos na frustração.

Vocês pretendem investir mais no lado multimídia da mídia com que trabalham?

Sim, sim. O Cronópios ganhará cada vez mais recursos e ferramentas multimídia. Estamos pensando numa forma de utilizar voz sintetizada por software para ler os textos publicados no site, ajudando na acessibilidade para deficientes visuais ou mesmo simplesmente para ouvir o texto enquanto se faz qualquer outra coisa. Vamos reformular também o nosso serviço de Podcasts. A TV Cronópios terá outros programas, inclusive com transmissão ao vivo.

Algum projeto novo pro Cronópios?

Estamos de volta às pranchetas de projeto. O Cronópios está sendo totalmente reformulado.  E as idéias são bem ambiciosas, algumas inovadoras. Estamos estudando como incorporar novas tecnologias, inventando outros usos para melhorar o que já existe, criando novos sites e oferendo novos serviços, etc etc etc.

Uma das idéias, já dá para adiantar, é transformar o Café Literário em um local de encontros virtuais, aproveitando e adaptando a tecnologia do Chat. Chamaremos a nova ferramenta de Café Cronópios. Os cronopianos poderão manter conversas (particulares ou públicas) com outros frequentadores do Café. Uma tela mostrará o usuário que estiver online no espaço virtual do Café Cronópios.

Vamos inaugurar também um novo site, agora dedicado à ficção científica brasileira. Já temos o editor que vai cuidar desse projeto. Em breve anunciaremos o nome. O material reunido para dar início ao site é de primeira. Todos os principais autores do gênero no Brasil estarão reunidos. Com isso, uma nova comunidade vai se “teletransportar” para junto dos cronopianos, aumentando o intercâmbio, gerando motivação e criação.

Estamos trabalhando também na criação de um site para oferecer cursos e oficinas online. Esse projeto tem a parceria da Livraria Martins Fontes. Estamos nos reunindo semanalmente para isso. Já temos o esboço de como funcionará e estamos nos aprofundando nas necessidades técnicas e na busca de recursos financeiros.

E ainda estamos criando uma agência de notícias do meio literário e artes em geral. Será um site independente com uma equipe independente formada por dois jornalistas que irá diariamente editar e publicar informações e notícias. O site terá também uma área com interface Web 2.0, que irá permitir a qualquer pessoa enviar informações e divulgar trabalhos de todo o país.

Tudo isso é possível sim, não é exagero de minha parte, embora, admito, possa parecer. Mas não duvide de um cronopiano, não é saudável. He he he.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Crédito das fotos: aqui e aqui.

Literatura Google Earth

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De vez em quando me deparo com algumas coisas na web que não consigo entender bem. Na maioria destas ocasiões, a minha perplexidade é um típico alarme de que algo novo está diante de mim: algo que até já tinha ouvido falar, mas não acreditei que fosse possível ver da maneira que me é mostrado, ou então algo que até mesmo já tinha visto, mas não havia tido o tempo necessário de compreender o grande lance por trás da idéia da coisa.  O meu exemplo preferido para estes casos incríveis de perplexidade, que nem é tão novo mas enfim, é o Google Earth. Pra mim, é a ferramenta mais magnífica que o Google já criou, muito embora ele nem tenha criado, mas potencializado em escala global algo que já existia secretamente nas melhores agências secretas estatais.

Ver todo planeta por meio do Google Earth é uma experiência  tão inacreditável que, tenho alguma certeza disso, ninguém ainda sabe mensurar o quanto isso vai ser um paradigma para a nossa existência. Pode até parecer entusiasmo exagerado, típico daqueles senhores que viram depois de velho a criação da internet, mas não consigo deixar de pensar em outra coisa quando vejo as possibilidades de inovação que o Google Earth potencializa.

Quer um exemplo? Aqui está, então. Nem é lá muito revolucionário, mas é como a ponta de um iceberg, para ficar numa metáfora que todo mundo entende  – se eles já conseguem fazer isso brincando, o que não farão daqui há alguns anos?

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O  site é We Tell Stories. Resumidamente, pode-se dizer que ele é uma série de seis histórias escritas por seis autores diferentes, cada uma usando mais ou menos alguma ferramenta da web. A que quero falar aqui é a primeira, contada em tags no Google Earth, por onde acompanhamos o movimento dos personagens nos locais por onde eles passam. Há a possibilidade de ver material adicional à história, como fotos dos locais por onde vamos seguindo os personagens. O conteúdo extra vai aparecendo na medida em que a história se desenvolve, ajudando a contextualizar tudo.

O nome desse primeiro livro – ou jogo virtual, ou as duas coisas ou ainda uma outra coisa que não sabemos ainda o que vai ser –  é “21 Steps“, escrita pelo britânico Charles Cumming. A história é inspirado num clássico thriller de Jon Buchan, The 39 Steps, que trata do aventureiro Richard Hannay, que retorna da África do Sul para Londres e está entendiado com sua  pacata vida na capital britânica. Até que, como todo bom trhiller, um assassinato acontece e tudo se modifica.

Podemos acompanhar a movimentação de Richard por Londres. Paramos para tomar um café com ele; vemos o que ele está pensando enquanto toma seu café. Lemos através das tags, como num livro, o que está acontencendo naquele local. Quando Richard resolve atravessar a rua e checar alguma coisa na British Library, seguimos ele. Lemos a descrição do ambiente enquanto vemos, de cima, o pátio da British Library. Notamos que ele resolveu subir as escadas correndo e acompanhamos seu movimento como um rastro azul; um marcador vermelho pára e mostra que ele resolve parar no segundo andar e verificar um computador. Na própria tag onde está a história vemos que a tela do computador está com uma estranha mensagem: “DO NOT BE LATE“. E assim Richard resolve investigar, e assim a história continua por mais uma dezena de capítulos.

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(em versão Google Maps)
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O projeto do We Tell Stories é idealizado pela Penguin Books, aquela mesma dos pockets baratos em inglês que encontramos em algumas livrarias brasileiras. Foi lançado em março do ano passado e teve alguma repercussão em blogs estrangeiros e nacionais, mas não muita. A idéia da coisa, pelo que entendi, é divulgar os livros clássicos por meio dessas versões digitais. Tudo pensado para cativar o novo público leitor que nasceu junto com a internet – e com isso ganhar dinheiro.

Outros livros que foram recontados para a web foram clássicos do porte de “Fairy Tales“, de Hans Cristian Anderson e “Hard Times“, de Charles Dickens. Nenhum de forma tão inovadora quanto “The 39 Steps”, é verdade. Mas parece uma idéia interessante só o fato de uma editora tradicional se propor a criar formas alternativas de cativar novos leitores.

É inevitável imaginar como seriam iniciativas parecidas com essa aqui no Brasil. Acompanharmos os movimentos de Bentinho e Capitú no Rio de Janeiro do final do século XIX  em “Dom Casmurro” , por exemplo; a saga de Baleia e cia no sertão nordestino de “Vidas Secas”, incluindo até mesmo cenas do clássico filme homônimo de Nélson Pereira dos Santos; seguir o caminho das viagens de “O Louco do Cati”, do gaúcho Dyonélio Machado, o on the road brasileiro; aliás, que tal acompanhar Kerouac e Dean Moriarty em suas perambulações pelos EUA e México no On the Road original?

[Leonardo Foletto]

Pedra de Toque no ar

A maneira como entraram em contato com a linguagem e a forma como se relacionam com ela são a tônica do programa Pedra de Toque – A poesia contemporânea brasileira, produzido e apresentado pelo jornalista e também poeta Ademir Assunção, e disponível no site do Itaú Cultural. O programa possui 15 edições até aqui, cada uma com 30 minutos de duração, resultantes de entrevistas realizadas com poetas de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Entre os entrevistados, figuras conhecidas como Arnaldo Antunes e Alice Ruiz, e algumas pérolas escondidas da nossa literatura, como Sebastião Nunes, o autodenominado “ex-poeta” que vive recluso em Minas Gerais, ou o carioca Geraldo Carneiro, de quem nunca ouvira falar e sei que só eu perco com isso.

Se as coisas ocorrerem segundo o entusiasmo do entrevistador, mais 100 edições devem ser produzidas em 2009, e diante disto é preciso destacar que o registro dos depoimentos e o esforço de mapeamento da produção contemporânea de poesia não serão os únicos motivos de celebração. Há vários anos Ademir se mantém distante do front do jornalismo cultural, e o mínimo sinal de retorno parece um bom motivo pra comemorar. Logo que o conheci, Ademir me enviou por email meia dúzia de textos que havia publicado em jornal durante os anos 80. Ainda hoje os guardo, e mesmo isso e a notícia de que ele reuniu boa parte daqueles textos num volume à espera de editor não me deixam menos enfático quanto ao quão bacana é o seu retorno.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Valêncio Xavier

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Reconheço o acaso modelando esta história, mas não posso deixar de pensar na péssima piada que a coincidência armou ao inserir nas duas pontas da minha estada em Florianópolis mortes que me concernem. Nos dias em que eu desembarcava na ilha do sul era Manoel Carlos Karam quem pedia a conta, agora que abandono aquele lar temporário é a vez de Valêncio Xavier.

O que os dois possuem em comum, além de serem ambos objetos desta triste lógica e de morarem ambos em meu coração, é o fato de serem dois dos escritores mais jovens da literatura brasileira. Não em idade, os 60 anos de Karam e os 75 de Valêncio não permitem que se lhes chame de precoces. Mas cada um de seus livros possui estranheza, vigor, adolescência, bom humor e inventividade o bastante para que tenham permanecido sempre distantes do centro das atenções de nosso circo literário [VX, ao final da vida, começou a ter sua obra editada pela Companhia das Letras, mas MCK nem a isso chegou] e próximos do olhar carinhoso de gerações mais recentes de leitores.

Eu daqui observo no centro da estante os exemplares de Rremembranças da menina de rua morta nua, O mez da grippe e Minha mãe morrendo e O menino mentido, penso na releitura enquanto a única homenagem que importa e imagino se no além VX poderá voltar a fumar os cigarros que a doença lhe roubou.

Leia aqui um conto do livro Crimes à Moda Antiga.

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Clique aqui e aqui para ler dois trabalhos sobre a obra do autor.

Aqui, para mais detalhes sobre a vida, a obra e o afinal descanso de um criador incansável.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Faulkner hipertextual

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Começou do óbvio: queria ler O Som e a Fúria (ou The Sound and the Fury), 3º romance de William Faulkner, um dos grandes da Literatura Americana do século XX. A iniciativa veio por dois motivos principais: de tanto ouvir Faulkner ser citado por muito dos escritores que mais li na vida até hoje, especialmente Juan Carlos Onetti e Julio Cortázar; e por ler este trecho da entrevista de Cormac McCarthy à Rolling Stone Latino América, em fevereiro de 2008, capa com o Radiohead:

“Faulkner solía decir que comenzó El Sonido y La Furia con una única imagen de una chica en un árbol mirando a através de una ventana el funeral de su abuela, y otra chica mirando los húmedos armários donde se habían estado jugando. Sólo era esa imagen, que problablemente provenía de su infância. Uno piensa en esa imagen. Sale El Sonido y La Furia inevitablemente de esa imagen? Bueno, yo creio que no”.

Daí a procurar o livro foi um pequeno passo, que logo se tornou em uma tremenda busca, dada a dificuldade de achar o livro nas bibliotecas (da UFSC e da UFSM e em algumas públicas), livrarias (Saraiva, Cultura, Cesma, e outras menores) e mesmo em livrarias virtuais. Na internet, resolvi então procurar pela versão original, em inglês, e como quarta opção da busca, apareceu esta baita edição em hipertexto do livro, que reproduzo a capa aqui abaixo.

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Edição em hipertexto não é nem parecido com aqueles PDF’s que baixamos. E esta é extremamente bem cuidada: tem uma introdução geral – explicando o porquê do livro ser especialmente  interessante para uma leitura hipertextual -,  um guia de leitura para cada um das quatro partes principais da obra e, o supra-sumo desta edição, uma série de links (localizados à direita do texto principal) que tornam a leitura hipertextual completamente diferente de um outro tipo de leitura. Trata-se de quatro tópicos contendo ensaios críticos, intertextos (com outras obras, sejam de Faulkner ou de outros escritores), gráficos com estatísticas sobre os mais variados dados acerca do livro e links para outras páginas sobre Faulkner.

(O detalhe é que todo esse cabedal de informações pode ser acessado ENQUANTO tu lê o livro, o texto principal no centro da página e o complemento numa janelinha à direita, como a imagem abaixo indica)

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Não há dúvida que se trata de outro tipo de experiência de leitura; podemos ler, em uma mesma tela, ao mesmo tempo, o livro e a sua obra crítica, o livro e um gráfico da cronologia dos acontecimentos do livro, o livro e referências pessoais da vida de Faulkner enquanto escrevia o livro. É possível, inclusive, alterar a estrutura da obra, onde a sequência original (não-cronológica) dos capítulos pode passar a ser cronológica.

As possibilidades de leitura que esta versão hipertextual dá são tantas que muitos vão achar que elas alteram e até estragam a apreciação da obra – na medida em que os hipertextos “guiam” nossa imaginação por diversos caminhos, ela não trabalha tanto quanto se estivéssemos lendo a versão original impressa do livro, onde os vazios são preenchidos, para bem ou para mal, única e exclusivamente por nossa capacidade de imaginar e fazer referências.

Acontece que não é pelo motivo de que ainda não estamos acostumados a ler literatura desta forma que devemos deixar de tentar entender como que essa nova leitura vai se dar. Existe muita gente por aí buscando entender isso, e outros tantos fazendo literatura assim – e mais outros tantos fazendo um misto de jornalismo e literatura sobre isso, como meu caro amigo Augusto Paim neste blog aqui.

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Mas eu confesso: ainda não me acostumei. Tanto que finalmente comprei uma edição  – bonitaça e um tanto cara, essa aí acima da Cosaic & Naify – de O Som e a Fúria, em português, e é nela que leio e a cada página me embasbaco com o impressionante talento de Faulkner em construir a história dos Compson e de Yoknapatawpha County através de tantas vozes diferentes, usando tão absurdamente bem o fluxo de consciência, e me pondo tantas dúvidas que, desde já, tentam se disfarçar de admiração para que só assim consigam se esconder atrás da absurda racionalidade que busca respostas para tudo, inclusive e principalmente pra aquilo que não deveria querer saber.

[Leonardo Foletto]