Insensato, um zine-dissertação


Lembro do Jamer Mello (@badalhoca) desde os saudosos tempos de Santa Maria, quando ele era um dos poucos interlocutores locais que, provavelmente, conheceria (bem) todas as bandas e artistas do rock indie 80’s e 90’s que tu lembraria de citar, tipos nomes semi-desconhecidos como Spiritualized. Fora isso, Jamer agitava a cidade com seus zines nos raros espaços underground da cidade – em especial, lembro do Badalhoca #1, uma gratíssima surpresa acessada primeiramente em algum porão local, provavelmente do DCE (quem é ou esteve por Santa Maria sabe da inigualável contribuição que a boate literalmente underground do DCE da UFSM teve para a produção cultural santa-mariense ).

Passou-se alguns anos, e o que era um prazer (fazer zine) passou a ser também trabalho: Jamer hoje dá palestras e oficinas sobre fanzine e mantém o melhor blog sobre o assunto no país, o Zinescópio, que disponibiliza digitalmente zines de sua imensa coleção pessoal (e de outros que queiram contribuir pro blog), além de notícias relacionados ao tema. Desde que surgiu, em janeiro de 2011, o Zinescópio tem se tornado referência obrigatória pra quem curte ou estuda os zines; chamou atenção de uma porção de blogs e sites legais e foi destaque de uma matéria de capa do Segundo Caderno de O Globo. E, dizem as más línguas, prepara reformas para 2012.

Mais além de ter virado trabalho, o zine também motivou uma pesquisa acadêmica de Jamer. Mr. Badalhoca, que se formou em química na UFSM, pesquisou no Mestrado em Educação da UFRGS métodos científicos para uso nas Ciências Humanas, investigação que o fez mexer no vespeiro das divisões entre arte e ciência. Mas o trabalho seria mais uma (boa) dissertação sobre o tema se não fosse a ousada abordagem de Jamer, que resolveu usar o cut-up de Burroughs (que fizemos uma homenagem recentemente, motivados pela leitura do trabalho) e a estética dos fanzines como afirmação dos conceitos de Gilles Deleuze de potências do falso e do simulacro.

Para a pesquisa, Jamer usou e abusou de referências do cinema – em espcial  Orson Welles (em F For Fake, belo filme que um dia ganhará um comentário a parte aqui no Baixa), Rogério Sganzerla e Jean-Luc Godard – porque a montagem cinematográfica, assim como o Cut-Up, “podem operar como mecanismo articulador fundamental que justapõe imagens e textos para priorizar os efeitos de choque visual, de fragmentação, de imagens sujas e borradas que são comuns aos fanzines e a uma certa produção cinematográfica“, como ele escreve no resumo do trabalho.

A ousadia não foi só no tema e na abordagem do estudo, mas também (e principalmente) na execução da pesquisa. Jamer literalmente produziu uma dissertação cut-up: não há apenas textos, parágrafos justificados e em espaçamento 1,5, mas colagens, trechos de citação escritas a mão ou datilografados, fotos, colagens fotos-textos, tal qual um zine. Fazer isso diante de uma estrutura rígida como a Academia já é, por si só, digno de nota. E se casa com um conteúdo interessante então, é digno de… publicação na Biblioteca do Baixa!

Brincadeiras a parte, aqui abaixo está o texto de apresentação que Jamer escreveu sobre a sua dissertação – de nome “Insensato: um experimento em arte, ciência e educação“, que você pode baixá-la na íntegra.

[Leonardo.Foletto]


Insensato surgiu de uma pequena necessidade. De problematizar a ciência, o fazer científico, e mais especificamente uma problematização entre a arte e a ciência.
Mas apenas surgiu dessa necessidade.
Teve início como texto dissertativo, como ensaio filosófico, com um tom irônico acerca da pesquisa científica, e logo deixou de ser necessário.
Se esvaiu, se decompôs, e se tornou uma necessidade outra.
Uma demanda. E uma demanda do corpo, que exige criação, processo.
Uma carga de memória.
Outro processo. De produção, de escrita, de montagem, de colagem, de plasticidade. Um processo fragmentado, frágil, inconsistente e inconstante, resultando num texto visual, e um tanto indeterminado, pensado também como um espaço, como uma incursão.
Um campo de forças.
Um espaço de situações em constante mudança. Situações óticas e imprecisas. A construção de um estado que vem a ser um envio, e também um deslize.
O suporte é volátil. O suporte é efêmero.
Na esteira de Didi-Huberman, um espaço onde ver é perder-se, e onde o objeto da perda é um lugar inquietante. Lugar onde o que vemos aponta tanto para o prazer quanto para a estranheza. Inquietante estranheza.
A concepção deste trabalho não se trata de crítica, ou inconformidade à razão, à ciência ou à verdade, mas de uma mudança de sentido. Uma força latente de tensão ou de posição. Não uma possibilidade, mas um feixe de possibilidades.
Matar ou correr. Produzir ou se proteger.
Um traço, um risco.
Um desequilíbrio que se legitima na criação de um possível e de um não-possível. Nuances do ser e do não-ser, desmoronamento do percebido e do não-percebido.
Intempestivo e contingente.
Frívolo e volúvel.
Superfície, desvio e desarticulação.
Envoltura, pele, fronteira: uma interioridade que transborda em contato com o exterior.
Um desajuste.
Uma disjunção.
O terror da inconsistência.
Trata-se de contentamento. Ou não-contentamento.
Não se contentar com a disposição de um único olhar.
Eu é um outro. Outro olhar. Outros olhares.
E claro, enfrentar o risco de me perder de vista, à deriva.
A obra de outro em mim. A minha obra em outro.
Cut-up, potências do falso.
Sem juízo.
Sem razão.
Sem medida.
Insensato.

Caiu na rede virou apócrifo

Caiu na rede é peixe, é pixel, é texto “lançado ao alto-mar das futuras combinações” como completaria o poeta Roberto Piva. Tantas recombinações que algumas vezes, intencionalmente ou não, alteram a atribuição ao primeiro mentor e redator do conjunto de ideias expressado.

Caiu na Rede, o livro da capa aí acima, se lançou nesse alto-mar das combinações infinitas com uma divertida tarefa:  compilar e discutir 67 textos apócrifos, aqueles de autenticidade diluída, repaginada ou mesmo roubada que certamente tu já deve ter tido contato via e-mail ou republicado em blogs e fóruns.

Na maioria das vezes, são crônicas singelas, indignadas, bem humoradas ou reflexivas, que não raro trazem uma “mensagem” que convida o leitor a passar adiante. Não demora muito e os atribuídos autores negam a responsabilidade da escritura – ou outros vêm reinvindicá-la. Um exemplo mais recente é o texto “A Vergonha” dado como de Luís Fernando Veríssimo, que refugou a benção.

A organizadora do livro, a jornalista Cora Rónai, tenta ir além da mera compilação de textos. Divide-os em oito tópicos, e em cada um deles produz um texto dando conta de entender como se dá o fetiche da transmutação de autores em cada agrupamento de casos. Duas justificativas para o fenômeno da troca de autor são ditos logo em “Os Veríssimos falsos”, o texto de apresentação do livro:

) a busca de um maior impacto pela adoração ao autor, pois deseja-se que a mensagem sejá espalhada através da credibilidade;
) é meio que o contrário do 1º), ou seja, um decaso com o autor, tanto o Anônimo quanto o Desconhecido, pois o que vale é a mensagem.

É claro que essa subjetividade de escolhas do leitor, potencializada agora aos milhões com a internet, não é coisa nova. Já em 1968, Roland Barthes, no ensaio “A Morte do Autor“, diz que um texto é feito de múltiplos textos e escritos, vindos não só de uma cultura, mas de diversas outras misturadas, relacionadas – e que essa multiplicidade se reúne não no autor, mas no leitor.

“O leitor é o espaço exato em que se inscrevem, sem que  nenhuma se perca, todas as citações de que uma escrita é feita; a unidade  de um texto não está na sua origem, mas no seu destino“. Seriam alguns desses textos do livro dispensáveis da autoria fixa, como leis e textos publicitários? O corintiano Washington Olivetto apresenta nessa entrevista uma teoria discutível: “O autor dá muito certo quando certas coisas teoricamente ‘desaparecem’: aí todo mundo quer saber quem fez, e você fica conhecido”.

Uma constatação do livro é de que não há solução pros leitores nem pros autores: “O meio-de-campo da internet está tão embolado, e os apócrifos se espalham com tal velocidade, que qualquer tentativa de descobrir ou estabelecer autorias é, praticamente, uma batalha perdida“, diz Rónai nas primeiras das 158 páginas, muitas delas disponíveis no Google Books. Mas há tentativas de esclarecer, e ela mesmo indica o blog Autor Desconhecido, que depois migrou para um site, e a comunidade do orkut “Afinal, quem é o autor?”.

Na época de lançamento do livro (2005), foi criado também um blog para divulgar o conteúdo, que continha alguns dos textos publicados. De lá pra cá pouca coisa mudou e todos eles continuam sendo republicados, como se pode ver aí embaixo, com os textos linkados e separados pelos temas, incluindo poesia, tal qual o livro.

Até hoje surge gente trocando Jabores com Borges, Medeiros com Lispectors, Veríssimos com Drummonds de Andrade. E não há previsão que essa confusão cesse, por que como bem diz Godard, “com os celulares e tudo o mais, hoje todo o mundo é autor”. Ou seria que, sendo todo mundo autor, o autor está morto?

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Caiu na rede (índice com textos do livro)

Língua
O direito ao palavrão
Minha iNgUInorância é problema meu
Tipo Assim

Cotidiano
The summer is tragic!
Mamãe executiva
Na hora de cantar
Um dia de merda
Alguns motivos pelos quais os homens gostam tanto de mulheres!
Mulheres empresárias
Um dia de modess
Pedido de amigo
Orgasmo trifásico
Quem não tem namorado
A verdade sobre Romeu e Julieta
Casamento Moderno
Promessas matrimoniais
Desabafo de um marido
Marte e Vênus.

Celebridades
Ninguém mais
namora as deusas
Baba, Kelly Key
Duas vidas
No trabalho, e chocada

Diga não às drogras.

Moralizantes
Faz parte
Precisa-se de matéria-prima para construir um país
Ode aos gaúchos
Brasil e o mundo podem prejudicar a sua saúde
Por que no Brasil não há terrorismo.

Amor
A impontualidade do amor
Sobre o amor
Às vezes
Precisando de amor
As razões que o amor desconhece
Até a rapa
A dor que dói mais
Pot-pourri de assuntos.

A Vida, o Universo e tudo mais
Mulher, sua origem e seu fim
Bunda dura
Nada como a simplicidade
O velório
Dez coisas que levei anos para aprender
Oração dos Estressados
Quase
Marionete
Entrevista com Deus
Vida
Felicidade realista
Envelhecer
Solidão
O que faz bem à saúde
Como conseguimos sobreviver?.

Poesia
Não te amo mais
Trilogia sobre a arte de dar
A Morte Devagar
No caminho, com Maiakóvski
A pessoa errada
Há momentos
A orgulhosa
Instantes

Dos apócrifos
Precisa-se de matéria-prima para construir um país
Em trilha de paca, tatu caminha dentro
Eu não escrevi “Bunda dura”.
Quem copia o rabo amplia
Vaidade
Clonagem de textos
Presque
Apócrifos

[Marcelo De Franceschi]

M/F Remix encerra o ciclo copy, right? 2.0

No terceiro e último dia do Ciclo Copy, Right? 2.0, o BaixaCultura e o Macondo Cineclube, ligado ao Clube de Cinema Fora do Eixo, tem o prazer de apresentar “M/F Remix”, ficção lançada (ou melhor, em tour de lançamento) neste ano dirigida por Jy-ah Min e produzida por Jean-Pierre Gorin.

A primeira coisa a dizer sobre “M/F” é que ele não tem nada a ver com os outros dois filmes do ciclo. Primeiro pelo (óbvio) fato de que ele é uma ficção, e não um documentário; não há aqui entrevistas nem discussões sobre a cultura livre, o remix e os direitos autorais, mas sim uma narrativa sobre o cotidiano tipicamente 2010 de um casal de estudantes universitários da Califórnia.

Mas e porquê ele está no ciclo, perguntariam aqueles que buscam critérios objetivos (ou quase) para algumas escolhas. Bueno, “M/F” está porque, na nossa visão, ele é um exemplar prático de todas aquelas discussões que estão nos outros dois filmes do ciclo. É como se fosse uma ilustração de como o remix pode ser aplicado no cinema.

Junto com a narrativa “convencional” (veja o filme e você entenderá as aspas) do casal da California há trechos selecionados do clássico Masculino Feminino (1966, cartaz acima), um Jean-Luc Godard do auge da Nouvelle Vague, a primeira – e mais palatável – fase  do diretor francês.

Ambas as narrativas, a do filme de 1966 e a de M/F Remix, dialogam constantemente. O casal da California de hoje discute a relação complexa que os une, a de serem colegas de quarto, em tempos de Facebook, Iphone e Youtube conectando tudo, enquanto que Paul e Madeleine, o duo francês, discute a vida, o amor e o sexo nos cafés da França charmosa e pop dos anos 1960.

Ambientes diferentes, tempos diferentes, mas que, colocados lado a lado e com a ajuda de outros elementos inseridos no filme pelo diretor Jy-ah Min, constroem um outro tipo de discurso, que dá luz sobre o entendimento e a vivência nos dois períodos – que, afinal de contas, não são tão diferentes quanto se imagina.

“M/F Remix” foi lançado em junho de 2010 e teve sua primeira exibição internacional no Festival Fid de Marselha, seguindo carreira (ainda em atividade) em outros festivais mundo afora. Esta sessão no Macondo Cineclube será a 2º exibição pública do M/F Remix no Brasil; a primeira foi no Fórum da Cultura Digital 2010, evento que aconteceu em novembro deste ano, em São Paulo, no qual Jean-Pierre Gorin – que, vale lembrar, foi parceiro de Jean-Luc Godard nos anos 60 e 70, quando criaram juntos o experimental grupo Dziga Vertov – palestrou e exibiu o filme.

Veja o trailer:

 

 

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Falemos agora um poquito más sobre a terça-feira passada, 21/12, quando foi exibido “RIP: A Remix Manifesto”, no ciclo. A primeira lembrança da exibição passada é a do calor  – talvez ressaltada pelo clima que faz agora enquanto este texto está sendo escrito, ou talvez não. O Macondo Lugar, com um probleminha no ar condicionado, estava bastante abafado numa Santa Maria habitualmente calorenta. Suávamos enquanto víamos o filme, mas ficamos felizes em constatar que esse abafume não foi suficiente para que as pessoas presentes arredassem o pé antes da exibição acabar.

A discussão pós-filme rendeu bons papos, salientados pelos fatos recentes à época (e também à hoje também) da escolha do nome da nova Ministra da Cultura do Brasil, Ana de Hollanda (foto abaixo), e da bizarra ação da “Operação Hollywood” em Santa Maria.

A primeira entrou quando o assunto foi os direitos autorais e o temor de uma “recaída” da reforma encabeçada pelo MinC, haja vista a impressão (inicial, é verdade) de que a futura ministra é uma amiga do atraso e da manutenção das inadequadas leis atuais de direito autoral brasileira. Impressão essa que se deu basicamente por coisas como a estranha e saliente presença do símbolo do “copyright” no site oficial de Ana (que também é cantora), a sua perigosa amizade com Fernando Brant e Ronaldo Bastos, figuras que pregam o conservadorismo pró-status quo do direito autoral, e declarações como a de que “é preciso rever tudo”, dizendo coisas como:

Temos de trabalhar dentro da legislação. O Brasil é signatário de convenções internacionais e não pode ser uma coisa radical, de uma hora para outra. Essa flexibilização, de uma certa forma, já existe. Você pode autorizar ceder sua música, e isso a lei já permite.”

Apesar do medo, ficou das conversas a expectativa e a torcida de que essas primeiras impressões sejam só isso mesmo, primeiras (e erradas) impressões. Se não forem… bueno, então prepare-se para a batalha.

Esse debate sobre o MinC, que à primeira vista pode parecer deslocado do contexto do filme, foi suscitado por conta de um dos trechos da parte final de RIP, que fala do Brasil quase como uma utopia da recombinação, uma Eldorado do remix onde o creative commons e outras iniciativas pró-flexibilização dos direitos autorais tem lugar cativo e privilegiado. A justificativa dada para isso é interessante (embora já conhecida por nós): a origem do brasileiro é remix total, um amálgama de diversas raças (Alô antropólogos, existe isso de raça mesmo?) e gentes das mais diferentes origens que por aqui se acharam e se criaram.

Dessa natureza remixada do brasileiro estaria sua maior propensão para compreender a recombinação e tudo o que nela se encaixa, da flexibilização do direito autoral (via creative commons e reforma da lei proposta pelo MinC) à imersão da cultura digital na cultura popular (via Pontos e Pontões de Cultura), passando ainda pela criação de ritmos novos francamente pró-remix, como o funk carioca e o tecnobrega paraense.

Sem entrar em mais delongas, dá pra dizer que essa discussão é bastante interessante e continuará permeando os nossos textos (como já aconteceu recentemente, nessa citação das falas de Eduardo Viveiros de Castro), porque é o típico caso de (aparente) conversa de boteco que pode explicar O Mundo – e que, portanto, merece nossa atenção.

Para finalizar este já longo post, temos de dizer: Rip está disponível para download no esquema “pague quanto quiser”, modelo popularizado com o Radiohead e seu In Rainbows (que, veja só, foi lançado no longínquo 10 de outubro de 2007). O arquivo está em diversos formatos, mas sem legendas. Se tu é como a maioria um pouco mais acomodado e quer tudo prontinho, o blog Laranja Psicodélica disponibiliza o filme já com legendas (em português) no mesmo arquivo, em DVD Rip, cinco partes no Megaupload. Quer mais uma opção? tem todo o filme no Youtube, em 9 partes, também já legendado.

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Retomando o serviço da 3° sessão do ciclo:
“M/F Remix” – Ciclo Copy, right? 2.0
Direção: Jy-ah Min  (2010, 137min)
28/12, Terça-Feira, 20h
Macondo Lugar
, 643, Centro, Santa Maria-RS

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Atualização 17/01:

O M/F Remix está disponível para download em torrent. Clique aqui para baixar o arquivo torrent, e aqui para pegar a legenda em português.

Ciclo Copy, right? 2.0

baixa_cineclube

O BaixaCultura e o Macondo Cineclube, braço cineclubístico do Macondo Coletivo integrante do Clube de Cinema Fora do Eixo, orgulhosamente apresentam o ciclo “copy, right? 2.0“, a ocorrer em três terças-feiras deste mês de dezembro no Macondo Lugar, em Santa Maria-RS.

A 2º edição do ciclo – a primeira foi na mesma Santa Maria, no Cineclube Lanterninha Auŕelio, da Cooperativa dos Estudantes de Santa Maria (Cesma), em dezembro do ano passado – terá a exibição, seguido de posterior debate, de três filmes que de alguma forma se relacionam com cultura livre, direito autoral,  remix, pirataria digital e outros tantos temas que temos falado nestes pouco mais de 2 anos de BaixaCultura.

O ciclo começa na próxima terça-feira, 14 de dezembro, 19h30, com o documentário “Copyright Criminals” (do cartaz acima), produção de Benjamin Franzen, fotógrafo e videomaker radicado em Atlanta, e Kembrew Mcleod, professor de comunicação da Universidade de Iowa.

Lançado nos Estados Unidos no início deste ano no canal público PBS, ”Copyright Criminals” é um documentário que destrincha uma técnica cada vez mais conhecida nestes tempos: o sampling. O filme trata de falar dos mais diversos aspectos da técnica, partindo dessa época de nascimento do hip hop, nos bairros negros da Nova York da década de 1970, chegando até a indústria milionária do rap deste anos 2000. Recentemente, o BaixaCultura fez um comentário sobre o filme, num post onde também disponibilzou as legendas para o português.

Rip: A Remix Manifesto

O segundo filme a ser exibido será “Rip! Remix Manifesto“, no dia 21 de dezembro, também às 19h30h. Datada de 2009, a produção é narrada em primeira pessoa pelo diretor, o canadense Brett Gaylor. Primeiramente ele se foca na música eletrônica, tendo como objeto principal o DJ americano Girl Talk. [Também conhecido como Greg Gillis, ele esteve no Planeta Terra recentemente e liberou seu novo album “All Day” para download no site da gravadora, a Illegal Art.]

Além do exemplo do Girl Talk, outros casos citados no documentário envolvem os direitos autorais do onipresente “Happy Birthday” (da qual já comentamos por aqui), da “armadilha Disney” e do Funk Carioca, tão discriminado por aqui quanto valorizado lá fora. Esses exemplos são analisados conforme quatro características que Lawrence Lessig, um dos entrevistados do documentário, já tinha dito em 2002:

1) A cultura sempre se constrói baseada no passado;

2) O passado sempre tenta controlar o futuro;

3) O futuro está se tornando menos livre;

4) Para construir sociedades livres é preciso limitar o controle sobre o passado.

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M/F Remix

O ciclo se encerra na terça feira 28 de dezembro, às 19h30, com “M/F Remix” (imagem de um dos protagonistas do filme acima) produzido por Jean-Pierre Gorin e dirigido por Jy-ah Min. A sinopse do filme é a seguinte:

San Diego, Califórnia, 2004. Dois colegas de quarto em tempos de guerra. No meio da reeleição de Bush. O Youtube ainda não existia e as pessoas começam a se conectar através do Facebook. O Iphone já está na iminência e mais e mais pessoas acordam para a realidade do “Ipod logo existo”. Do que estão a fim os “netos de Marx e da Coca-Cola”? Não um remake do filme Masculino Feminino de Godard, mas um remix.

Jean-Pierre Gorin é cineasta e professor de cinema da University of California San Diego e foi parceiro de Jean-Luc Godard nos anos 60 e 70, quando criaram juntos o revolucionário e altamente experimental grupo Dziga Vertov, de vídeos como esse aqui abaixo:

Esta sessão no Macondo Cineclube será a 2º exibição pública do M/F Remix no Brasil; a primeira foi no Fórum da Cultura Digital 2010, evento que aconteceu em novembro deste ano, em São Paulo, no qual Gorin palestrou e exibiu seu filme. Vale ressaltar que a cópia a ser exibida no Cineclube veio do próprio Gorin, por isso é que nela você vai ver uns numerozinhos na parte de cima da tela durante o filme (é o timecode da câmera).

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Como os filmes a serem exibidos e o próprio nome do ciclo sugerem, a ideia que percorre esta segunda mostra de filmes é a da cópia livre, do livre compartilhamento de informação e de ideias e do remix. Os três filmes do ciclo podem ser encontrados livremente pra download na rede, e nós mesmos disponibilizaremos os links para quem quiser baixá-los, com legenda e tudo, no post seguinte a exibição de cada filme.

Nada mais justo, afinal, como há tempos defendemos por aqui, a criação intelectual se defende ao compartilhar, o que vem bem a calhar com a já clássica chamada do Critical Art Ensemble, presente no livro Distúrbio Eletrônico:  está na hora de aberta e ousadamente usarmos a metodologia da recombinação para melhor enfrentarmos a tecnologia [e a criação] do nosso tempo.

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Para retomar:

Macondo Cineclube e BaixaCultura Apresenta:

Ciclo Copy, right? 2.0.
Filmes sobre Copyright, Remix, Cultura Livre e Digital.

14/12 – Copyright Criminals (2009/56 min)
21/12 – RIP: A Remix Manifesto (2008/86 min)
28/12 – M/F Remix (2010/137 min)

19h30, Entrada livre.

Macondo Lugar (Serafin Valandro, 643)
Centro, Santa Maria, RS.

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Notícias do front baixacultural (23)

Excepcionalmente hoje vamos ressuscitar reativar essa seção, já que a semana foi mais movimentada do que as avenidas gaúchas no 20 de setembro.

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Lançado o The #copyright Daily (Twitter, 30/08)

Criaram uma interface nova para apresentar o conteúdo que vai de tweet-em-tweet: o jornal. No sistema paper.li, desenvolvido em março deste ano, são agregados tweets e links que são do mesmo assunto, ou seja, que contém a mesma #hashtag – #copyright, no caso deste paper.li.

É possível também agregar tweets de determinados usuários ou listas. O conteúdo dos links então é organizado na página, com textos, pdfs, vídeos, etc. As edições são lançadas diariamente e para recebê-las é preciso fazer a assinatura, por e-mail, clicando em “Alert me”.

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Jean-Luc Godard doa mil euros a francês condenado a pagar multa por pirataria (O Globo, 15/09)

O fotógrafo James Climent, condenado a pagar uma multa de 20 mil euros por baixar 13 mil arquivos, recebeu uma ajuda de custo de mil euros do seu compatriota Jean-Luc Godard. Antes de fazer isso, o diretor deu numa entrevista ao site inRocks em que declarou seu ceticismo para com os direitos do autor. “Direitos do autor? Um autor só tem deveres” disse um dos pais da já cinquentona Nouvelle Vague. Vale destacar que Godard é um notório amante das colagens, algo que usou na série de oito filmes História do Cinema e no recente Notre Musique.

Mas voltando ao assunto: Climent agradeceu ao cineasta em seu blog num post intitulado “God(ard) bless us”. Na página, ele também presta contas sobre outras doações que vem arrecadando através do PayPal, do Flattr e de uma ONG.

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Polícia Civil fecha “xerox” na Praia Vermelha (ADUFRJ, 15/09)

Professores e universitários foram considerados criminosos quando a polícia CIVIL apreendeu material didático da Escola de Serviço Social da Universidade FEDERAL do Rio de Janeiro, dia 13 de setembro. Uma boca de xerox foi fechada.  Imagens e fotos feitas no local mostram como foi a operação dos sete policiais, três viaturas e uma delegada.

O dono da boca e as cópias ilícitas e foras-da-lei foram encaminhados para a Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM) vinculada ao muito útil Centro de Apoio ao Combate à Pirataria. Para fazer uma coisa dessas, a polícia do Rio certamente já deve ter resolvido o problema da segurança pública. Contra a ação, professores da UFRJ se reuniram com o Reitor e com o Conselho da Universidade e fizeram uma moção de repúdio e um abaixo-assinado. A professora Ivana Bentes acompanhou e emite detalhes do caso em seu twitter e o professor Alexandre Nodari fez uma análise em seu blog.

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Militantes pró-pirataria atacam sites das indústrias de filme e música (Estadão, 20/09)

O grupo Anônimo (esse é o nome) deu uma rasteira nas páginas da Motion Picture Association of America (MPAA) e da Recording Industry Association of America (RIAA). Organizados através do fórum 4chan, os piratas decidiram sobrecarregar os servidores dos sites, tirando-os do ar. O ataque “anti” anti-pirataria ocorreu devido a uma declaração da empresa de software Aiplex.com, que disse ter atacado ano passado o site de torrent The Pirate Bay.

O blog da empresa de segurança Panda Security mostrou em detalhes como foi a primeira ofensiva dos piratas. No mesmo post, a empresa conta que a segunda ofensiva, contra a British Phonographic Industry (BPI), falhou. É de se lembrar que a BPI requeriu ao Google a remoção de links de servidores de arquivos em junho deste ano, tentando tolir os downloads  divulgados em blogs e fóruns.

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Crédito foto:
1) World War II Photos
 

[Marcelo De Franceschi]