Recife, Olinda & arredores

Caranguejo em homenagem à Chico Science, na Rua da Aurora

Passamos duas semanas de julho em Recife, Olinda e arredores e tivemos uma programação baixacultural de atividades.

A começar por uma fala/oficina/charla chamda “Visões de Cultura Livre no Brasil“, no espaço recém re-inaugurado CEÇA, no bairro Boa Vista em Recife. O (ou a) CEÇA é uma casa colaborativa que busca agregar diversas iniciativas relacionadas à cultura livre e a economia colaborativa na cidade, e promete ser um ponto de encontro importante para esses temas no centro do Recife.

A proposta da atividade lá foi fazer um panorama do que se identifica como cultura livre no Brasil hoje a partir de um recorrido por postagens deste BaixaCultura. A ideia de cultura livre – ou melhor, de um agrupamento de práticas culturais organizadas em torno desse nome – nasce inspirada pelo movimento do software livre e pela ideia de copyleft, que mudou as regras do que se produz, distribui e se pensa sobre software na década de 1980. No final dos anos 1990, a cultura livre se pauta como um movimento de resistência aos grandes monopólios dos direitos autorais no mundo, cuja consequência mais clara foi a privatização do conhecimento a partir da ideia de propriedade intelectual. Ideias e licenças, como o Creative Commons, surgem neste momento e se tornam chaves na perspectiva de trazer mais autonomia aos autores sobre suas próprias obras, enfrentando o status quo do copyright e buscando uma atualização das leis em face às mudanças trazidas pela tecnologia digital e a internet.

A partir dos anos 2000, a ideia de cultura livre se torna ainda mais heterogênea, um guarda-chuva a articular uma série de práticas e modos de fazer que se transformam ao longo dos anos. O software livre e as licenças livres continuam como tags centrais do movimento, mas temas como a produção de conhecimento aberto, a democratização da mídia, os recursos educacionais abertos, a transparência via dados abertos e inspirado pela ética hacker, as práticas artísticas em torno da recriação e do remix, as defesas da neutralidade da rede e da segurança da informação na internet, as políticas públicas culturais de Estado (em especial, a partir dos Pontos de Cultura no Brasil) e a economia colaborativa, entre outros, se tornam assuntos emergentes dentro do movimento. A partir da década dos 2010, a ideia do comum (procomún, em espanhol; commons, em inglês) ganha força na cultura livre como propulsora de modelos organizativos, econômicos e sociais mais justos, num diálogo constante com a economia solidária e o cooperativismo, também a partir das assembléias e Okupas espanholas pós 15M de 2011, até chegarmos aos laboratórios de inovação cidadã que se propagam na Ibero-américa neste 2017.

A fala percorreu um pouco desse histórico da cultura livre trazendo casos, situações e coletivos para o debate, dialogando também com novas perspectivas de transformação social em tempos de retrocessos no Brasil e no planeta. A chuva atrapalhou o lindo cenário da varanda da Casa, mas o debate seguiu noite adentro nas futuras intalações da oficina de marcenaria da CEÇA até 22h e tanto. Aqui um pad com os posts mostrados no dia e algumas fotos da turma que ficou até o final, já passado das 22h (fotos do pessoal do Ceça). Gracias a Arthur Braga, um dos quatro responsáveis pela casa, designer, produtor cultural e nosso articulador local da função.

Também visitamos a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), orgão de pesquisa ligado ao Ministério da Educação, e especificamente a Villa Digital, espaço multiuso de pesquisa localizada em um casarão do século XIX e vinculada ao Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira Rodrigo Melo Franco de Andrade (Cehibra). A Villa Digital é um espaço físico muito interessante e versátil, embora ainda pouco ocupado pelos moradores da cidade. Como projeto, são responsáveis pelo processo de digitalização de uma parte do rico material da Fundaj – que, entre outras coisas, é responsável pelo Museu do Homem do Nordeste, um museu antropológico que organiza exposições contando a história do povo a partir de artefatos do dia a dia do nordestino, do sertão ao litoral, do catolicismo de Padre Cícero aos orixás do candomblé. Quando estivemos no espaço, estava lá sua exposição permanente do acervo e algumas temporárias, como as do grande xilogravurista J. Borges e uma chamada “Nordeste Mix”, literalmente uma curadoria remix entre tradição e novidade a partir do material do espaço. Desta última exposição vem o “Manifesto Regionalista”, texto provocador sobre a função dos museus hoje. Agradecimentos a Cristiano Borba, da Villa Digital, pelo convite à visita e pelo tour na Fundaj e no museu.

Na sexta-feira 28/7, fizemos um lançamento (o 3º!) do zine La Remezcla, desta vez em Olinda, no espaço Casa Azul, junto de uma roda de conversa sobre cultura livre. Articulado por Carlos Lunna, do coletivo Tear Audiovisual e da Produtora Colaborativa.PE, o evento foi uma ação da Rede de Produtoras Colaborativas, que une diversos coletivos Brasil afora, e do qual o Baixa faz parte na região sul. O sebo-livraria Casa Azul, local do evento, rende um capítulo a parte: criado faz poucos meses por Samarone Lima, jornalista e escritor, é situado na região do Carmo, Cidade Alta de Olinda. Tem uma seleção preciosa de livros de ficção e teoria, poucas e boas prateleiras que ocupam as duas salas da frente de um casarão típico daquela região da cidade, com uma estreita face virada para a rua que não sugere os diversos cômodos e o amplo pátio que se extendem ao longo da casa. Tem promovido alguns cursos, sediado algumas peças de teatro, tudo aos poucos, devagar como a vida em Olinda durante um inverno chuvoso sem (tantos) turistas. Samarone, inclusive, é poeta e cronista dos bons, e em sua página, Estuario, é possível ter uma amostra disso – das crônicas mais recentes, leia, em especial, “Anotações de um dono de sebo em Olinda“, relato de coisas simples que acontecem no seu dia a dia na Casa Azul.

A cobertura fotográfica do evento está nesta página do ITeia, site de acervo da produção multimidia cultural brasileira. A conversa teve a presença ilustre de Isabelita a vagar por cima dos zines e pelos colos das pessoas. E além de cultura livre e (re)criação, versou também sobre jornalismo alternativo – muito por conta da presença de integrantes do coletivo de comunicação Marco Zero – e futebol & política, esta puxada pelo pessoal do movimento Democracia Santa Cruz Futebol Clube. As fotos abaixo (as 2 últimas são de Samarone Lima, as outras nossas) ilustram um pouco de Olinda, da Casa Azul, do evento, nesta ordem.

Casa de Alceu Valença, Olinda