#GCultural2016 – Experiências e Projetos de cultura e ativismo digital

mesa-3      A segunda semana do Congresso de Gestão Cultural #GCultural2016 é a dos trabalhos da Mesa 3 – Experiências e Projeto de Cultura e Ativismo Digital. Como o nome sugere, talvez ela seja a que mais traga diversidade nas ponéncias, porque é justamente este o objetivo: compartilhar experiências, sem um foco específico em cultura livre, questões profissionais, ferramentas/softwares ou lugares como as de outras mesas, mas tudo isso um pouco, centrado na ideia da palavra experiência – relatar o que aconteceu na experiência pesquisada/vivida por cada um@ e aprendermos com os erros e acertos de cada uma delas.

     Quando Mariana e Jorge vieram falar conosco sobre este congresso, e esta mesa em específico, pensamos que ela poderia ser o lugar para discutir um pouco mais a questão do ativismo, tão presente no nosso trabalho do BaixaCultura desde 2008 e tão importante no contexto brasileiro no qual falamos, de impeachment de Dilma Roussef. [Caso alguém queira saber: sabemos que é/foi golpe mesmo (seja político e/ou judiciário, midiático), e nada conseguimos enquanto brasileiros fazer pra evitar – muito por culpa do próprio PT, em boa parcela responsável pela situação chegar a esse ponto em que “os fins justificam os meios”, e também porque a “democracia” não parece ser um valor relevante para boa parte d@s brasileir@s. Teremos de lidar de frente com as consequências atuais e futuras deste fato, talvez concentrando energia em buscar “saídas” no micro, na autonomia, no local – mas esse é um papo pra outro momento].

     Mas aconteceu que as temáticas dos trabalhos enviados para nossa mesa não foram tão explicitamente ativistas quando imaginávamos, e tudo bem: o ativismo pode não estar explicitamente presente naquilo que fazemos, mas está lá, em todas nossas ações, em todas as decisões que tomamos, em tudo aquilo que queremos (ou não) pensar. Ativismo é ação, ação é existência. E todas os trabalhos apresentados para esta mesa falam muito dos desafios de existir enquanto projetos/pessoas de cultura (digital).

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     Começamos (empezamos!): o primeiro artigo nos traz Daniel Daza Prado, de Buenos Aires, contando como descobriu o que era uma rede livre (red inalámbrica libre) e como, então, foi atrás de etnografar duas dessas comunidades em Buenos Aires. Crias diretas da cultura livres, estas redes já existem às centenas ao redor do planeta, com milhares de pessoas trabalhando de modo voluntário para levantar antenas caseiras, hackear routers e desenhar novas arquiteturas de rede à margem das grandes operadoras de internet.

     Na sequência, Marta Álvarez conta a experiência do bit:LAV, um espaço de criação de Valladolid (Espanha) inspirado nos laboratórios do procomún, como o referencial Medialab Prado em Madrid ou o recém criado Lab Santista, apresentado na 1º mesa deste #Gcultural. bit:LAV junta Marta e Alberto Marcos Cabero, a remezcla e as implicações políticas da cultura digital, em um espaço cultural dentro do Laboratório de Artes de Valladolid (LAVA).

     O terceiro trabalho da mesa vem do Brasil, mais precisamente São Paulo: Preto Café. Um café numa mesa de cultura e ativismo digital? não um café qualquer, mas o primeiro café pague-quanto-quiser da cidade de São Paulo, aberto em 2015 como um espaço de promoção da liberdade e da confiança – e inspirado pelos princípos de compartir da cultura e do software livre. Lucas Pretti busca compartilhar a experiência desde a busca pela inovação já no modelo jurídico-administrativo até a intenção colaborativa pragmática (que leva à defesa de um modelo de gestão “semi-aberto”) que leva o Preto Café a ser uma obra artística relacional.

     Nossa quarta ponéncia é desde Assunción: música Okápe é uma plataforma que busca agregar músicos da cena independente do Paraguai através de diversos formatos de difusão e promoção musical: festivais, shows, feiras, oficinas. Okápe é uma palavra do idioma Guarani que significa “fora” e dá nome ao projeto com a ideia de expansão e de dar um impulso para fora a cena musical alternativa paraguaia, como conta José Caballero no video da ponéncia mais abaixo.

     Na sequência, Bruno César Alves Marcelino, do Centro Latino-Americano de Estudos em Cultura – CLAEC de Foz do Iguaçú, cidade brasileira da tríplice fronteira (Paraguai e Argentina), traz um mapeamento cultural de duas cidades de outra região fronteiriça brasileira, Jaguarão e Arroio Grande, no sul do Rio Grande do Sul, próximo ao Uruguai. Duas cidades que, apesar de seu diminuto tamanho, apresentam 17 grupos, entidades ou aparelhos culturais, em sua maioria escolas de samba, num processo de gestão ainda precário.

     Lucy Alvaréz Galvez nos conta, no sexto trabalho da mesa, sua experiência de 13 anos de trabalho enquanto produtora cultural na televisão colombiana. É um relato que dá voz a uma geração de produtores que trabalharam antes e depois do surgimento da internet e que passaram pelas transformações das tecnologias de comunicação nos últimos anos e suas brutais modificações no ambiente de trabalho em que a tecnologia é presença forte, como a televisão. Como se adaptar e se apropriar dos diversos aparelhos digitais que aparecem e são extintos num ambiente como o de um canal de televisão regional? É uma questão que permeia a apresentação de Lucy, no vídeo e em texto.

     Por fim, temos Janaína Capeletti, de Porto Alegre (Brasil), que traz um artigo sobre as especificidades da arte digital feita no Brasil e sua relação com o ativismo e a cultura hacker. Ela entrevistou quatro profissionais que transitam entre a academia e a produção artística brasileira para saber como se dá essa relação na arte contemporânea brasileira. Constatatou, por hora, que o ativismo se dá na própria subversão aos processos da arte convencional, à vezes usando de princípios da ética hacker de forma não intencional.

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     Para estimular o debate, propomos algumas questões para discussão na mesa e em cada trabalho:
_ Qual a ação ativista que vocês percebem nos trabalhos de vocês?
_ O que vocês tem tirado de maior aprendizado (em especial para a gestão cultural) a partir do trabalho apresentado aqui?
_ Quais os principais desafios para sobrevivermos enquanto rede na seara da gestão cultural na ibero-américa?

     O debate começa no grupo de telegram e segue por lá, nos comentários aqui ao lado (ou aqui embaixo, se quiser via Facebook), no Twitter ou em outras redes via #gcultural2016. Na quinta-feira (jueves), às 19h GMT (16h no horário de Brasília e na Argentina e no Uruguai), teremos uma videoconferência para dialogarmos e apresentarmos algumas questões para o debate. Adelante!

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Libertades con senderos que se bifurcan en red. Fragmentos de una etnografía de los grupos que crean Redes Libres, Abiertas y Comunitarias
Daniel Daza Prado (Buenos Aires, Argentina)

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     Esta ponencia plantea compartir algunos fragmentos de una etnografía de las comunidades de Redes Inalámbricas de Internet Libre. El texto pretende describir, problematizar y analizar las experiencias de vida cotidiana, la tecnología y el activismo digital de estos grupos. Las redes inalámbricas libres están formadas por personas que conectan sus computadoras para compartir datos y servicios utilizando tecnología WiFi. Surgidas en el marco de la denominada “cultura libre” ya existen cientos de estas redes alrededor del mundo, trabajando voluntariamente para levantar antenas caseras, hackear routers y diseñar otras arquitecturas de conexión con el fin de promover procesos de participación libres, igualitarios y políticos en internet.

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Arte y activismo digital en la periferia: bit:LAV
Marta Álvarez (Valladolid, Espanha)

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     En los últimos años han proliferado en España los laboratorios del procomún, espacios en los que se ha ido articulando de forma específica toda una investigación colectiva en torno a este concepto y sus diferentes aplicaciones en el campo de la cultura y el conocimiento en relación con las posibilidades de la Red. Tomando como ejemplo espacios como Medialab Prado (Madrid) y como referencia centros dedicados al arte digital tales como Etopia (Zaragoza), Hangar (Barcelona) o Laboral (Gijón); nos propusimos tratar de desarrollar un espacio de creación e investigación en torno a la cultura digital y especialmente el arte en la ciudad de Valladolid que nos permitiera elevar de forma colectiva una visión crítica desde el arte con respecto al uso de las nuevas tecnologías.

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Estética relacional e economia de código aberto: a experiência híbrida do Preto Café com o conceito pague-quanto-quiser
Lucas Pretti (São Paulo, Brasil)

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   Este relato conta a história de criação do Preto Café, o primeiro café pague-quanto-quiser da cidade de São Paulo, aberto em 2015 como um espaço de promoção da liberdade e da confiança. Procuro compartilhar a experiência desde a busca por disrupção no modelo jurídico-administrativo e a intenção colaborativa mas pragmática (que leva à defesa de um modelo de gestão “semi-aberto”) até o status de obra artística relacional, que o empreendimento de fato alcança.

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Música Okápe
Caballero Gómez (Assunción, Paraguay)


     MÚSICA OKÁPE es un proyecto del Centro Cultural de España Juan de Salazar que tiene como objetivo favorecer la proyección nacional e internacional de la música independiente de Paraguay. Es una plataforma que pretende ser una red entre músicos paraguayos/as y la región donde participaron más de 70 proyectos, solistas, bandas y dj de diferentes tendencias y estilos. Fomentando la escena independiente con ciclos de conciertos, talleres, festivales, encuentros colaborativos, cibermedios, videos y programas de radio.


As Organizações da Sociedade Civil na Promoção das Políticas Culturais: Jaguarão/RS e Arroio Grande/RS, Brasil
Bruno César Álvares Marcelino (Foz do Iguaçú, Brasil)

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     Este trabalho é uma apresentação dos resultados obtidos junto ao projeto de pesquisa Cartografia da Cultura Fronteiriça, financiado via Fundo de Apoio à Cultura do Estado do Rio Grande do Sul – Brasil, o projeto teve como objetivo mapear e identificar as entidades e grupos culturais sediados nos municípios de Jaguarão e Arroio Grande/RS cidades que integram a fronteira sul do estado, a metodologia se deu em três partes, na primeira ocorreu o levantamento e coleta de dados, a segunda foi a realização da pesquisa de campo e visita aos grupos e associações mapeadas inicialmente e a terceira e última consistiu no tratamento dos dados e das informações coletadas. Identificamos um total de dezessete grupos e entidades culturais, no qual por meio dos resultados dos questionários e das visitas à campo, pode-se compreender de forma aprofundada como se dá a promoção das políticas culturais entre os grupos identificados.

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Experiencia en Canal 13
Lucy Tatiana Galvis Peñuela (Bogotá, Colômbia)


     Es un relato de la experiencia como artista plástica y productora de televisión con especialización en Gerencia y Gestión Cultural y en Televisión en el uso de nuevas tecnologías para el desarrollo de proyectos en Cultura-Comunicación y Educación en Colombia.

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Arte Digital e Ciberativismo: Intersecções com a Ética Hacker no Cenário Brasileiro
Janaína Capeletti (Porto Alegre, Brasil)

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     Este artigo é o resumo de uma pesquisa que analisa as especificidades da arte digital feita no Brasil, nos dias de hoje, e sua relação com o ativismo. Através de entrevistas com quatro profissionais que transitam entre a academia e a produção artística foi possível constatar que na arte brasileira, o ativismo se dá na própria subversão aos processos da arte convencional e na incorporação da cultura hacker no fazer artístico mesmo que, muitas vezes, de forma não intencional pelos atores.

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Percorrendo um LAB.Irinto

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1. Laboratório é um espaço de experimentação de qualquer coisa, inclusive de sociedades. Inovação social é o processo de criação de metodologias, tecnologias, projetos e ações que têm como objetivo transformar a realidade a fim de alcançar maior inclusão social, por meio da redução da desigualdade e da defesa dos bens comuns. Cultura livre é uma perspectiva da cultura baseada nos princípios de liberdade do software livre que, principal de tudo, é a favor do compartilhar e não do restringir. Guarde bem a definição dessas três ideias e retome mentalmente quando precisar ao ler este relato.

2. Muita coisa aconteceu nestes dias, tantas ideias piscaram, desapareceram, foram anotadas e se perderam no inconsciente pra quem sabe voltarem mais adiante. Segue abaixo um relato recortado e resumido disso tudo.

3. Estamos falando de um Encontro de Inovação Cidadã e Cultura Livre, um “processo de debates, trocas de experiências e articulação internacional entre criadores da Baixada Santista, do Brasil e do mundo”, como diz o site do evento, que tem ocorrido desde abril de 2016 e teve na semana passada o seu encerramento, com dois dias de trocas de experiência, cocriação e um seminário internacional que subsidiou a criação do LABxS (Lab Santista), um laboratório de cultura livre e inovação cidadã. Quem organizou o evento foi o Instituto Procomum, por enquanto uma associação, também recém iniciada a partir do projeto Tecnologias e Alternativas, com a intenção de investigar as condições de desenvolver novas institucionalidades e uma interface para viabilizar ações de uma plataforma de pessoas que a ele queiram se associar.  O financiamento do evento veio da Fundação Ford, da Prefeitura de Santos, por meio da Secretaria de Desenvolvimento e Inovação, e da Secretaria Geral Ibero-Americana (SEGIB).

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4. Antes do seminário teve dois dias (manhãs e tardes) de reuniões, conversas e compartilhamento de experiências entre os mais de 40 convidados de diferentes países. Houve divisões em GTs (Modelo de Negócio e Sustentabilidade, Programação e Conteúdo, Articulação e Rede, Gestão Institucional e Metodologias e Laboratórios e o Território de Atuação) e “conversas infinitas” que tinham entre os objetivos questionar a ideia do lab, subsidiar a concepção do LABxS e avançar na articulação internacional em torno da agenda de bens comuns. “Um jogo de colaboração e partilha, baseado nos conhecimentos que carregamos” escreveu Rodrigo Savazoni, articulador do evento e do LABxS junto a uma equipe grande (veja aqui) que não por acaso traz muitos participantes da experiência da Casa da Cultura Digital em São Paulo, um laboratório de vivências embrião/propulsor do Lab Santista (e de tantas outras coisas, como até este site/coletivo que vos escreve; este vídeo creio que talvez seja o melhor registro feito da CCD)

Entre os convidados, pessoas muito atuantes em labs ou em suas comunidades/redes/cultura digital do Brasil e do mundo, um foco especial em iniciativas da ibero-américa (Dardo Ceballos, do SANTALAB, ligado ao governo do estado de Santa Fé, Argentina; Paola Ricarte Quijano, OpenLabs, México; Raul Olivan, Zaragoza Activa, Espanha; Camilo Cantor, Colaboratório, Colômbia; Marcos García, MediaLab Prado, Espanha) e África (Muhammad Radwan, IceCairo, Egito e Nanjira Sambuli, Ihub, Nairóbi, Quênia). Não por acaso: estes LatinLabers, como Savazoni e outros (se) nomeiam, são partes também da Global Innovation Gathering, rede que tem forte presença africana e asiática e propõe a construção de uma rede de tecnologias desde o sul.

Tatiana Bazzicheli (Disruption Lab, de Berlin) é uma exceção do norte nessa rede. Curadora do Transmediale, um dos principais festivais de arte, cultura e inovação da Europa, pesquisadora e ativista, a italiana tem um trabalho importante na aproximação da arte com o hacktivismo e o mundo da inovação, como o livro “Networked Disruption: Rethinking Oppositions in Art, Hacktivism and the Business of Social Networking” (baixe aqui). E, no Disruption Lab, realiza eventos como o Deep Cables, uma série de conferências e rodas de conversa onde hackers, engenheiros, jornalistas investigativos, escritores, entre outros, buscaram entender como a Internet funciona e o papel preponderante que os cabos submarinos tem nessa infraestrutura física nem tão falada da rede. Temos que confessar: um laboratório de hacktivismo e arte com eventos tão interessantes como os que o Disruption organiza é o motivo de Tatiana ter ganho um parágrafo inteiro aqui.

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5. O que é um lab? Raul Olivan, do La Colaboradorar e do Zaragoza Activa (um lab y rede social criado junto a prefeitura da cidade espanhola) resume no texto “Um lab é para a cidade o que poesia é para linguagem“: resolver o problema das pessoas. “Gerir o caos. Podemos tecer arquipélagos para começar, mas o objetivo deve ser o continente. É o não-modelo que se impõe, não por necessidade ou ausência de certezas, senão por desejo e como uma estratégia consciente. É o conjunto de valores, afetos, cuidados da rede que tece e compromete um LAB: TRANSWARE (imagem acima). A pulsão é transformar a sociedade (o ethos) com uma soma de ética hacker, sonho de riqueza generalizada e materialismo da 4º revolução industrial. Necessitamos dos hackers inside que abram a lata desde dentro do sistema, como faz o Hacklab da Câmara dos Deputados. Um LAB não pode ser uma abstração: ideologia não fertiliza a terra. A transparência é, provavelmente, mais importante que a horizontalidade”.

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6. O último dia do evento foi dedicado ao Seminário Internacional de Inovação Cidadã, realizado no amplo (750 lugares) teatro do Sesc Santos. Foram três mesas com convidados internacionais e um brasileiro mediando ou comentando ou relacionando o global com o local (glocal). A primeira mesa trouxe para o debate a questão do que é inovação cidadã a partir de quatro experiências, três internacionais e uma brasileira (Cíntia Mendonça, da Nuvem, que mediou). Marcos García apresentou o MediaLab Prado, referência mundial (e de muitos dos participantes) de laboratório de inovação cidadã e cultura digital. É um espaço alocado dentro de uma institucionalidade (Prefeitura de Madrid), mas que mesmo assim consegue promover inovação social para a comunidade e driblar algumas das dificuldades que uma instituição costuma ter para fomentar novidades. O amplo espaço do MediaLab Prado, localizado num antigo prédio de uma serraria belga no bairro de Las Letras, região central de Madrid, abriga e fomenta dehortas urbanas monitoradas por sensores a base da arduínos a makerspace colaborativo, de encontros de visualização de dados a produção de conhecimento colaborativo, passando por inúmeros seminários, cursos, exposições [este vídeo traduz em 1 minuto o que es o MediaLab Prado; vale assistir]. Qualquer pessoa pode propor uma ideia e tentar desenvolver ela (sempre em grupo) por lá, ainda que são as ferramentas que constroem (e fortalecem) comunidades as que ganham maior acolhida.

Paola Ricaurte Quijano trouxe uma outra configuração de laboratório, o OpenLabs, ligado a Universidade Tecnológica de Monterrey. Diferente em sua articulação, mas inspirado no modelo do MediaLab Prado e, sobretudo, na ideia de ser um espaço de transformação e de reconhecimento da inteligência distribuída, o OpenLabs é uma plataforma que quer abordar a complexidade do social a partir de princípios como abertura, experimentação, inclusão, participação e colaboração. Parece algo complexo ou carregado de um discurso pouco prático, mas saiba que tanto o OpenLabs como todos os outros labs presentes no evento são totalmente baseados na prática, no fazer do dia a dia com a comunidade onde estão inseridos. Dê uma olhada na convocatória deste ano do OpenLabs, “Ciudades que Aprenden“, e veja como funciona a sua metodologia.

A terceira experiência trazida foi o IceCairo, de Cairo, apresentado por Muhammad Radwan. O lab egípcio é parte de uma rede (que tem outros pontos na Etiópia e na Alemanha) que tem um enfoque na chamada “green tech innovation”, fomentando negócios sustentáveis. Mantém um espaço físico que funciona como co-working (característica comum de muitos labs, aliás) e, entre muitos projetos legais, destacamos o Hub in Box, um mergulho realizado em conjunto com outros Africa Labs e Impact Hubs de vários lugares do mundo na busca de identificar desafios e criar soluções sustentáveis para suas comunidades. Antes que você pergunte “mas qual a inovação que eles estão produzindo ao se reunir e discutir seus projetos?”, fazemos um alerta óbvio: assim como no LAB.Irinto, o processo é tão (ou mais) importante que o produto “inovador” criado. Encontros são essenciais, compartilhar é fundamental; o crescimento é coletivo. [Todas as três mesas do dia foram transmitidas e podem ser assistidas aqui].

7. As experiências brasileiras presentes no LAB.Irinto foram apresentadas no dia anterior ao seminário internacional. Lembramos de algumas de cabeça: a Produtora Colaborativa.PE e a rede das produtoras colaborativas (sobre a qual já falamos aqui) e o Laboratório Hacker da Câmara dos Deputados (que também já falamos aqui). A Nuvem, um hacklab rural rural voltado ara experimentação, pesquisa e criação vinculada à tecnologia (arquitetura, comunicação, geração sustentável de energia) e sustentabilidade (corpo, ecologias, alimentação, cultivos) no interior do Rio de Janeiro. O Bela Lab, localizado junto ao Galpão Bela Maré, no Rio de Janeiro, fruto do projeto Gambiarra Favela Tech, residência artística-tecnológica realizada ano passado em parceria com o Observatório de Favelas e Olabi. Laboratório de Cidades Sensitivas (LabCEUs), projeto que promoveu ocupações de inovação social e tecnológica em laboratórios multimídias em cidades do interior brasileiro, realizado pela UFPE, por meio do InCiti – Pesquisa e Inovação para as Cidades, em parceria com o Ministério da Cultura. O Ponto de Cultura Caiçaras, em Cananéia, litoral sul de São Paulo, que promove o resgate do fandango caiçara, entre outras ações com a comunidade local. Karenin Branco, do makerspace Crie Aqui, de Santos. Casa Rizoma, ocupação cultural localizada em Santos.

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8. Um dos projetos brasileiros na noite do dia 23 de junho, no Museu Pelé, foi o Transformatéria, uma pesquisa sobre possíveis pontos de contato entre, de um lado, a cultura maker e o universo da fabricação digital, e de outro a longa herança da produção artesanal e dos ofícios manuais. Criado por Felipe Fonseca (que toca o Ubalab e o Tropixel, entre outras cousas, e que já quase perfilado por aqui) e sua esposa, Carolina Striemer, ele se relaciona com uma rede que deu seus primeiros passos no evento: Trasformatório. A ideia desta rede é articular projetos que tem em comum o costume de transformar coisas em outras coisas – com ferramentas, métodos, equipamentos, ou mesmo com as próprias mãos. Algo que não é makerspace nem fablab, “um espaço ou momento de encontro de corpos e mentes com a intenção de mexer, mudar, manipular coisas”. A conversa foi registrada em áudio, foto e GIF e está disponível nessa wiki do Ubalab. Aos interessados, há um grupo de emails.

Participamos do Transformatório também com o interesse manifestado a partir do apoio na realização do Café Reparo em Porto Alegre. Já havia (com licença plural, quem fala agora é Leonardo) participado de um encontro dos 6 realizados em São Paulo, inclusive relatado aqui, mas dessa vez ajudei a organizar um aqui na cidade onde vivo atualmente. Foi tão interessante que teremos outros. Um detalhe pessoal: diferente da maioria, cheguei ao reparo a partir da teoria e não da prática “fuçadora”: abrir as “caixas-pretas” e entender as redes que ali percorrem, nos termos da Teoria Ator-Rede capitaneada por Bruno Latour, Michel Callon, John Law e que tem sido a base da minha tese de doutorado, me fez ver o quão importante (e divertido!) é a gente entender minimamente os objetos que nos rodeiam. E pra isso nada melhor que fuçar, reparar, consertar, desmontar, montar e errar de novo.

9. Como sobrevive um Lab? Não há uma regra, porque não há um único modelo (sustentável). Experimentar um lab é uma meta experiência que pode valer pelo caminho percorrido mais do chegar a algum destino. Como na ciência, não se sabe se vai ter alguma utilidade, mas é importante fazer. Mas há conselhos: começar devagar, com um espaço pequeno. Ter autonomia e não abrir mão dela ao buscar a sustentabilidade. Criar laços e uma comunidade forte para sobreviver a intempéries como a troca de governos ou o esgotamento do tesão em continuar. Documentar em ferramentas livres, que permitem a replicação. Nenhum lab sobrevive muito tempo como ilha.

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10. Uma questão final pra sair do LAB.Irinto, que pode estar pairando em vocês, assim como por aqui também esteve: por quê Santos e Baixada Santista? Com a palavra, Savazoni: “Nessa apresentação eu postulo o ponto de partida, antes de começar o LAB.IRINTO e aqui eu enumero um pouco as razões de ser Santos: é uma região de 2 milhões de habitantes, um arquipélago, e Santos está em uma ilha, junto com São Vicente, uma das primeiras cidades do Brasil. Foi importante no Brasil Colônia, na industrialização, com o ciclo do Café, porta de entrada do mundo para o Brasil e ao mesmo tempo se deteriorou por conta das transformações todas, se tornando uma cidade de serviços, com uma população envelhecida – mais de 30% dos habitantes com mais de 55 anos podendo chegar à metade da população em dez anos. Tem também o fato de que pelas previsões, boa parte da cidade estará em baixo d’água devido ao aquecimento global. Inclusive onde eu moro.

É próxima de São Paulo, no sentido que facilita essa troca global, e eu pude comprovar isso produzindo o evento agora. Agora depois do LAB.IRINTO, eu somaria a essas razões todas o fato de ter encontrado uma rede subterrânea muito interessante, pessoas que querem fazer há muito tempo, outras que estão chegando agora, mas que começam a desenhar uma outra geografia, clandestina, fronteiriça, para a região. O LAB pode ser um impulsionador desse processo e isso me interessa sobretudo.

[Mais infos em ciudadania.org/entramosaolabirintocomrodrigosavazoni; Revista Fórum]

Fotos: Encontro Internacional de Cultura Livre e Inovação Cidadã (1, 4), Julinho Bittencourt (2), Raul Olivan (3), Transformatório (5), Rodrigo Savazoni (6)