Cryptorave 2019 e a distopia ideológica da Califórnia

Crédito: Sérgio Amadeu

A Cryptorave 2019 ocorreu em São Paulo, dia 3 e 4 de maio, num local diferente dos últimos anos: a biblioteca Mário de Andrade, próximo ao Vale do Anhangabaú, bem no centro de São Paulo. Como nos últimos anos, teve uma programação intensa e robusta – pra ter uma noção, acesse aqui ela completa. O encerramento rolou também no dia 04 de maio, com o DJ Craca. E ainda teve o after party da CryptoRave 2019, na Trackers, festerê que seguiu madrugada adentro no centrão de SP com o projeto Dispersão e muito Pure Data.

Trẽs impressões gerais dessa edição:

1. Muita gente em (quase) todas as atividades;
O fato da Biblioteca estar situada no centro de SP, próximo de estações de 3 linhas de metrô e de outras tantas de ônibus ajudou. Também colaborou o fato do espaço ser grudado em diversos outros locais de muito público, o que misturou públicos – notoriamente no sábado, onde no mesmo hall ocorria uma feira de publicações independentes de poesia. Nas últimas duas edições não havia tanto movimento perto do local do evento, o que dessa vez ocorreu: é como se a Crypto, na Mário de Andrade, estivesse mais integrada à cidade, o que pode ter propiciado a circulação de pessoas diferentes nos diversos espaços de oficinas, debates e palestras. É claro que ajudou a ter grande público a popularidade que o tema da tecnopolítica e da vigilância tem ganhado nos últimos anos. E a credibilidade construída pela organização do evento, que esse ano bateu recorde de valor (não de pessoas colaborando) arrecadado (94 K) via financiamento coletivo.

Apesar das dificuldades para conseguir lugar, dada que o anterior (a Cinemateca Brasileira, palco da de 2018) cancelou pouco mais de 1 mês antes do evento, a escolha da Biblioteca nos pareceu acertada pelos motivos já falados. Os poucos problemas (de comunicação das alterações das salas, do calor em algumas delas) podem ser corrigidos com maior tempo de organização para a próxima edição.

2. Mais variedade de palestras filosóficas, contextuais, históricas;
Essa é uma impressão nossa e de algumas pessoas com quem conversamos: poderia ter tido mais discussões conceituais mais densas na programação. É uma impressão que pode parecer polêmica e parcial, dado que trabalhamos justamente nessa seara de informação e conhecimento sobre cultura livre e tecnopolítica, e é mesmo parcial. Mas percebemos uma curiosidade genuína de muitas pessoas em saber mais sobre conceitos, práticas e histórias ligadas à vigilância, criptografia, segurança digital, espionagem, tecnopolítica. Além das conversas com algumas pessoas durante e depois do evento, tomamos como base a nossa mesa de discussão sobre “A Ideologia Californiana”, que esteve lotada e com muita gente (nova) querendo saber mais sobre o termo, as histórias por trás desse debate e os conceitos que brotam dele (logo abaixo um relato mais detalhado da mesa). Diríamos que há um interesse em saber sobre as histórias das tecnologias, dos debates políticos envolvendo as redes sociais e os aplicativos de mensagens instantâneas e mesmo das ferramentas antivigilância. Histórias de iniciativas que estão se alinhando contra a vigilância global das empresas e dos governos, mesmo que em pequena escala; ideias um pouco mais gerais que organizem certas impressões dispersas e isoladas sobre o mundo do ciberativismo.

A nossa impressão é de que pode haver, nas palestras ditas mais “técnicas”, uma comunicação maior sobre o porquê aquela ferramenta, prática, código, iniciativa é importante, relacionando-a com o contexto pessoal (e cotidiano) da vida de cada um, o que pode furar bolhas de interesse e popularizar o enorme conhecimento que circula num evento como a Crypto. E de que, nas ditas mais “filosóficas”, pode ocorrer um aprofundamento maior de certas ideias, relacionando-as com as técnicas e ferramentas disponíveis e abordando questões relacionadas à subjetividade, arte e filosofia. Utopicamente desejamos uma mistura maior entre técnica e política a ponto de não precisar fazer essa distinção. Mas para deixar claro: isso é um desejo particular. O evento é construído pelas propostas de atividades das pessoas, quem dá o equilíbrio temático são elas (nós).

3. É um dos grande encontros nacionais da tecnopolítica no Brasil
Como costuma acontecer na maioria dos eventos como a CryptoRave, tanto quanto o conteúdo em si das palestras, os encontros entre as pessoas são importantes. É o dia da comunidade se ver, conversar, saber o que x outrx está fazendo, o que, em se tratando de uma área tão árida quanto a segurança digital e a política das tecnologias, é ainda mais importante. E nesse aspecto também reside a importância do evento: buscar ser um encontro em que é possível falar de tecnologia e política ao mesmo tempo, um a alimentar o outro. São raros os eventos de tecnologia em que se fala tanto de política como na Crypto, assim como ainda mais raro são eventos políticos/ativistas em que se discute tanto tecnologia. Esse é um dos pontos fortes, que já diferencia o evento de diversos outros do calendário brasileiro e sul-americano.

 

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Esse ano propusemos uma atividade para o evento também. A mesa (roda de conversa) se chamou “A Ideologia Californiana e o capitalismo de vigilãncia: 24 anos depois, a distopia é real?” e ocorreu no sábado, 4/5, às 16h10, no espaço Ian Murdock, 1º andar da Biblioteca (Hemeroteca). Apresentamos assim a atividade:

“Hoje considerado um clássico da tecnopolítica, “A Ideologia Californiana” é o guia para esta mesa discutir o cenário atual do capitalismo de vigilância e das megacorporações que cada vez mais dominam a internet. Para isso, participam da mesa:
_ Aracele Torres, doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP), atuando na área de História da Ciência e da Tecnologia e desenvolvendo trabalhos sobre história da tecnologia digital, software livre, ciber-libertarianismo, ideologias e utopias relacionadas às tecnologias da informação;
_ Camila Montagner, jornalista e pesquisadora, doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp;
_ Tiago Soares, doutorando em História Econômica pela USP, mestre em Divulgação Científica e Cultural pela Unicamp;”

A mediação foi do editor do BaixaCultura, Leonardo Foletto, que apresentou a edição, o contexto atual de sua publicação e leu alguns trechos da introdução. Perguntou também sobre quem conhecia o texto, que foi escrito em 1995 e circula pela internet já faz uns bons anos. Para surpresa geral, poucos disseram que conheciam.

Primeira a falar, Aracele abordou a história da ideologia conhecida como Californiana (ou da Califórnia), um misto de romantismo na crença da libertação do ser humano a partir das tecnologias somado ao neoliberalismo dos livres mercados que se auto-regulam. Sua tese estudou a questão da neutralidade da rede nos EUA e no Brasil e recuperou um tanto da história da Ideologia Californiana que dá base a atuação das grandes empresas da internet hoje.

Camila abordou, entre outros aspectos, algumas ideias de “Futuros Imaginários”, livro de barrbook, co-autor de “A Ideologia”, que retoma alguns eventos da história das tecnologias do século XX para discutir o futuro em seus aspectos sociais, econômicos e políticos. “Devemos deixar o futuro para depois, em modo de espera das suas promessas, ou presentear o futuro com a imaginação da realidade que deve ser vivida já?” pergunta o livro, disponível em PDF para download (e bastante raro em sua versão física) questão que também ecoa no debate sobre o que fazer hoje para dar um fim ao monopólio criado pelas empresas que seguem à risca a Ideologia Californiana.

Tiago, por fim, fez uma fala sobre a globalização, cultura online e as transformações infraestruturais das redes de comunicação e processamento de informação a partir da perspectiva da economia política. Comentou que, de modo irônico, a crítica ao Capitalismo de Vigilância é de certo modo uma nostalgia das promessas criticadas em “A Ideologia Californiana”: “o ponto é menos sobre a crítica do neoliberalismo do que sobre sua captura”. O Capitalismo de Vigilância (conceito desenvolvido por Shoshana Zubofff; aqui uma boa explicação, via Projeto Draft) é uma outra fase, irmã ou filha, das ideias presentes na ideologia originada na Califórnia, algo que foi perguntado no debate ao final da mesa.

Outra questão levantada na parte final continua ecoando por estas páginas: quais alternativas ao capitalismo de vigilância? existe futuro alternativo à vigilância onipresente? Se a ideologia californiana “venceu” e predomina hoje na base das principais empresas de tecnologia mundiais, qual a resposta a ela? Existe alguma? Talvez o Cooperativismo de Plataforma? Se a ideia do software e da cultura livre, que em algum momento se mostrou como alternativa víável para a manutenção de uma internet livre, não tem se mostrado mais factível, então qual seriam as alternativas? Aliás, será mesmo que perdemos a batalha pela internet livre e ainda estamos na Ressaca da Internet e não conseguimos nos recuperar nem mesmo para imaginar um futuro que não seja distópico?

Questões que ficam para um próximo texto, conversa, curso.

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Alguns breves comentários sobre duas iniciativas acompanhadas na CryptoRave 2019. “Segurança de pé descalços” é um projeto e uma estratégia que visa estruturar ações práticas de modo a manter ou expandir a ideia de segurança holística – total, integrada. Vale acompanhar.

Quer tornar seu roteador doméstico mais seguro? Aqui um passo a passo de Douglas Esteves, que esteve no evento com uma palestra sobre o assunto.

O estranho processo de Horacio Potel – ou quando a filosofia não é para todos

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Horacio Potel é professor de filosofia da Universidade de Lañus, em Buenos Aires. Em 1999, decidiu criar três diferentes páginas pessoais para disponibilizar ensaios traduzidos para o espanhol dos filósofos alemães Nietzche e Heidegger e do argelino Jaques Derrida.  Além dos textos, as páginas continham fóruns de discussão, biografia, imagens e outros tipos de materiais comuns à sites como estes. A ideia de Horácio era disserminar o material para todos aquele que tivessem interesse, num tipo de função exercidas por professores já há muitos séculos: ajudar seus estudantes a terem acesso ao conhecimento.

Boa parte do material disponibilizado pelo professor é bastante difícil de ser encontrado na Argentina. Em Buenos Aires, por exemplo, apenas duas livrarias tinham alguns dos escritos de Derrida que poderiam ser lidos gratuitamente na página de Horácio. Outros quantos textos, que deixaram de ser editados em livro na Argentina, poderiam ser encontrados em jaquesderrida.com.ar porque foram garimpados em livrarias durante décadas por Horácio, segundo o próprio afirmou em matéria da P2P Foundation.

Como não encontrava os textos de Derrida em seu país, o professor chegou a entrar em contato com duas companhias do México que editavam a obra de filósofo, Porrúa e Cal y Arena. Uma edição com a obra do filósofo argelino – 80 páginas, letras míudas – custaria em torno de U$42 dólares, aproximadamente 162 pesos argentinos. Se para um professor como Horácio – que alega ter recebido em seu último contra-cheque $1350 pesos – o valor já é quase mais que 10% de seu salário, imagina para seus alunos.

Por conta destes e de outros fatores, Horácio manteve suas páginas durante 10 anos, até abril de 2009, quando começaram os embates com a justiça argentina. Neste tempo, ambas tiveram mais de 4 milhões de acessos, e até então estavam sempre entre os três primeiros resultados quando se fazia uma busca pelos nomes dos autores no Google da Argentina.

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Li a nota do jornal argentino Página 12 um pouco mais de uma semana atrás, quase ao mesmo tempo em que também foi publicada no  Trezentos e difundida por diversas blogs e listas de e-mails Brasil (e mundo) afora. Uma operação envolvendo a editora Les Editions de Minuit, Câmara Argentina do Livro e a Embaixada Francesa na Argentina conseguiu processar o professor por tornar disponíveis gratuitamente textos dos filósofos Heidegger e Derrida nas páginas heideggeriana.com.ar e jaquesderrida.com.ar, respectivamente – textos estes que ainda se encontram protegidos pela lei de direitos autorais, já que tanto Heidegger como Derrida morreram há menos de setenta anos, prazo necessário para que a obra passe a ser de domínio público. Horácio pode pagar uma multa de 40 mil pesos, além de já ter recebido o singelo aviso de que sua correspondência e sua casa poderão ser violadas ao longo do processo.

Segundo nos conta o repórter Facundo García, autor da matéria do jornal argentino, a história toda começou quando a Les Editions de Minuit – editora que tem os direitos autorais de sete obras de Jaques Derrida –  entrou com uma queixa contra Horácio, com o apoio da Embaixada Francesa na Argentina e da Câmara Argentina do Livro.  A queixa enquadrava a disponibilização dos textos gratuitamente dos filósofos na lei argentina 11.723, que trata de propriedade intelectual – espantosamente criada em 1933 e só modificada em 1998, ainda que somente para incluir o software no mesmo rol de produção científica/artística/cultural/didática supostamente protegidos pela lei.

O professor Horácio logicamente que estranhou muito a situação. Em um de seus comunicados sobre o assunto, publicado  aqui, Horácio disse que:

“Al parecer, mantener bibliotecas públicas de filosofía en Argentina es ilegal porque viola la ley 11.723. Si las cosas se guiaran por la razón, se debería revisar esa ley de 1933, que está provocando que se criminalice a las bibliotecas públicas y a sus bibliotecarios. Eso, claro, si se sigue pensando que éstas son instituciones útiles y necesarias, como me enseñaron en la escuela primaria, donde me decían que entre las principales funciones del Estado está la difusión de la cultura, en la convicción ilustrada de que sólo el conocimiento nos hace libres”.

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Logo quando as duas páginas foram retiradas do ar, no início de abril deste ano, surgiram diversas manifestações de apoio a  Horácio, inclusive do Partido Pirata da Argentina. No Brasil, o blog Catatau emcampou a ideia e tratou de publicar uma boa parte do material que estava em heideggeriana.com.ar, assim como diversos apoiadores disponibilizaram outro tanto do material para download no easy-share – além do fato de que uma considerável parte dos arquivos da página estão disponíveis no Wayback Machine, um imenso arquivo que conta com mais de 1,6 bilhão de páginas criadas desde 1996.  Idelber Avelar, do recém-finado blog O Biscoito Fino e a Massa, enviou uma carta à Horácio, além de ter feito um post onde o defende de forma bastante contundente e afirmar coisas como “elas não eram simplesmente duas páginas dedicadas a Heidegger e Derrida. Eram, de longe, os melhores recursos existentes sobre os dois pensadores em toda a internet, em qualquer língua.”

A decisão da Justiça Argentina cabe recurso, mas como diz a matéria do jornal Página 12, “los fantasmas de una condena injusta siguen rondando“.

[Leonardo Foletto.]

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P.S: A terceira página com textos de filósofos mantida por Horácio continua em atividade: trata-se da www.nietzscheana.com.ar, dedicado à Nietzsche. Ficou livre da decisão da justiça por conta de que o alemão morreu  ainda em 1900.

Créditos: 1,2.