Paródias by “Weird Al” Yankovic

Cantor, comediante, produtor, escritor e acordeonista, Alfred Matthew Yankovic – ou “Weird [Esquisito] Al” Yankovic – é mais conhecido fantasiado  das mais engraçadas formas possíveis imitando alguma celebridade da música pop do que como na foto acima, com cara limpa e jeitão de loco. Tu provavelmente já viu ou ouviu algum clipe/música dele, mas talvez não sabia que ele lançou seu último disco, “ALpocalypse” no último 21 de junho, e continua parodiando a cultura pop a torto e direito.

Desde o final dos anos 70, ele se aproveita da melodia de outras músicas para fazer algo que todo mundo já fez uma vez na vida: usar a criatividade para criar paródias e dar risada. Após cursar arquitetura na Universidade Politécnica da Califórnia, estado onde nasceu, e ser DJ numa rádio da mesma universidade, Yankovic gravou o single “My Bologna“, sua versão gaiteira de “My Sharona” do grupo The Knack, agradando aos músicos e aos ouvintes da estação. A partir daí, não parou mais.

Em 1983, lançou seu primeiro CD, homônimo, com canções satirizando outras e também com melodias originais, criadas em seu acordeão – ou sanfona/gaita, escolha a palavra que tu quiser. Já nesse ano, ano de nascimento da MTV, Yankovic sabia da força do videoclipe e lançou logo dois:  I Love Rocky Road e Ricky. A notoriedade, no entanto, só veio no segundo album: ‘Weird Al  in 3-D’, de 1984, com a pérola Eat It, paródia de Beat It do Rei do Pop Michael Jackson. Outro destaque foi o surgimento de suas polka pot-pourri, nas quais junta trechos de outros sucessos numa mesma música – levada, claro, pelo seu acordeão/sanfona/gaita.

Al e sua indefectível sanfona/gaita, em chamas

Daí em diante, Weird Al ironizou videoclipcamente vários medalhões da cultura pop:  Madonna em ‘Like a Surgeon‘, Nirvana em Smells Like Nirvana, Extreme em You Don’t Love me Anymore, Red Hot Chilli Peppers em Bedrock Anthem, Bob Dylan no genial Bob feito só com palíndromos; e filmes, como Forrest Gump, Jurassic Park e Star Wars em The Saga Begins. Ainda sobrou tempo para produzir uma a versão de Pedro e o Lobo, do compositor russo Serguei Prokofiev.

Nesses 30 anos de carreira, Yankovic sempre procurou pedir permissão para parodiar ou fazer covers de outras músicas. Na verdade, ele nem precisaria, já que se tratam de casos que se encaixam no conceito de “fair use“, ou uso justo, existente no copyright estadunidense. Caso haja um processo, o que é julgado é a paródia (o trabalho ridicularizando o mesmo trabalho no qual é baseado, necessitanto do trabalho original) ou a sátira (o trabalho ridicularizando outros assuntos, dispensando o trabalho original). Porém, não é tão simples.

Como nas composições Al sempre faz uso de paródia, isto é, uma imitação cômica que necessita da obra original, teoricamente elas não precisariam de autorização. Essa é a explicação do blog Technically Legal. Mesmo assim, Yankovic recorre a burocracia necessária para evitar possíveis processos, como dito em seu site oficial:Well, as I always say, we live in a country where anybody can sue anybody else for any reason at any time, so it’s always a gray area.” [Bem, como eu sempre digo, vivemos em um país onde qualquer um pode processar alguém por qualquer motivo, a qualquer hora, então essa é sempre uma área cinzenta].

Capa do EP Internet Leaks, de 2009

Às vezes ele consegue autorização somente para as músicas, às vezes somente para o clipe, às vezes para nenhuma das duas coisas. O site 11 Points mostrou 11 casos conhecidos nos quais artistas caretas disseram ‘não’ para paródias. Teve a Yoko Ono, que não permitiu a gravação de Gee I’m a Nerdy (versão de Free as a Bird); a gravadora do chato James Blunt que negou na última hora You’re Pitiful (depois disponibilizada na internet); o rapper Coolio, que mudou de ideia depois de autorizar a paródia de Gangsta Paradise (vejam só, que era sampleada de Pastime Paradise); Eminem, que não deixou fazerem um clipe de Couch Potato; entre outros, como Paul McCartney, Prince, Michael Jackson e Jimmy Page. Lady Gaga quase entrou nessa lista. Ela só permitiu a mais recente paródia, Perform This Way, em abril, dois meses antes do lançamento de ALpocalypse.

Quanto aos medleys de várias músicas em estilo bandinha, aí é outro departamento. Conforme o pergunte ao Al, sempre houve um acordo com os detentores das músicas originais:

“In principle I don’t need permission, but if I paid everybody their full royalty rate for songs in the medley, I would wind up LOSING money on each album! So each and every songwriter needs to agree to only take their rightful share of the royalties (meaning, if a Green Day song takes up 11% of the medley, then Green Day will only get 11% of the songwriting royalties for that one song). We can’t make exceptions because it’s a “favored nations” deal, meaning that if one person gets the full amount, EVERYBODY gets the full amount. Obviously, a whole lot of artists have been good sports about this – but it’s a mountain of paperwork every time I do a medley.”

[“Em princípio, eu não preciso de permissão, mas se eu pago todos os royalties deles para músicas no medley, eu acabaria perdendo dinheiro em cada álbum! Assim, todos e cada compositor têm de concordar em receber apenas a sua parte justa dos royalties (ou seja, se uma música do Green Day ocupa 11% do medley, em seguida, o Green Day só vai ficar 11% dos royalties de composição por aquela canção). Não podemos abrir exceções, porque é um acordo de “nações favorecidas”, o que significa que se uma pessoa recebe o montante total, TODOS ficam com o valor total. Obviamente, um monte de artistas tem levado na esportiva – mas é uma montanha de papelada toda vez que eu faço um medley.]

Com suas letras engenhosas e seus clipes malucos, Al ganhou três Grammys latinos e sempre esteve entre os mais vendidos da lista da Billbboard, seja na 139ª posição do primeiro album ou nas 10ª e 9ª dos dois últimos, de 2006 e 2011. Pois justamente nesses últimos, a internet acabou virando alvo: ganharam músicas o  site de fofocas TMZ e o site de classificados Craigslist, que ainda teve a  participação de Ray Manzarek, ex-tecladista dos The Doors. Além da rede, o copyright e suas “infrações” também renderam um single.

A canção ‘Don’t Download This Song‘ [Não baixe essa canção], do disco Straight Outta Lynwood, soa como hino We are the World e é uma crítica cáustica ao pensamento da indústria do copyright: dos processos feitos sem discriminação contra uma criança de 7 anos de idade e uma falecida vovó, passando pelas extravagâncias de  artistas ricassos à culpa exercida pelas campanhas, que relacionam o compartilhamento de arquivos com o roubo de bebidas, o tráfico de crack e até atropelamentos. Na época, sarcasticamente foi feito um site disponibilizando “Don’t Download This Song” para baixar, e é ela que tu vê aqui abaixo, com  letra e clipe oficial. A discografia de Weird Al Yankovic está nesse link aqui e o último disco, aqui.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=zGM8PT1eAvY&w=425&h=349]

Once in a while [De vez em quando]
Maybe you will feel the urge. [Talvez você sinta a vontade]
To break into national copyright law [De quebrar a Lei dos Direitos Autorais]
By downloading mp3s [Baixando mp3s]
From file sharing sites [De sites de compartilhamento de arquivos]
Like morpheus or grokster or limewire or kazaa. [Como morpheus ou grokster ou limewire ou kazaa]
But deep in your Heart.  [Mas no fundo do seu coração]
You know the guilt would drive you mad [Você sabe que a culpa lhe deixará louco]
And the shame would leave a permanent scar [E a vergonha vai deixar uma cicatriz permanente]
Cause you start out stealing songs [Porque você começa roubando músicas]
Then you’re robbing liquor stores [E depois está roubando loja de bebidas]
And selling Crack [E vendendendo Crack]
And running over school kids with your car [E atropelando crianças com seu carro]

[Refrão]:

So Don’t Download This Song [Então Não Baixe Essa Música]
The record store is where you belong [A loja de discos é lugar a que você pertence]
Go and buy the CD like you know that you should [Vá e compre um CD como sabe que deveria]
Oh Don’t Download This Song [Oh Não Baixe Essa Música]

Oh you don’t want to mess [Oh você não quer se meter]
With the R I Double A [Com a R I Duplo A]
They’ll sue you if you burn that Cdr. [Eles vão lhe processar se você gravar esse CD-Rom]
It doesn’t matter if you’re a grandma [Não importa se você é uma vovó]
Or a seven year old girl [Ou uma garota de sete anos]
They’ll treat you like the evil Hard-bitten criminal scum you are [Eles vão lhe tratar como lixo criminoso e maldoso que você é]

[Refrão]

Don’t take away money [Não tire o dinheiro]
From artists just like me [De artistas como eu]
How else can I afford another solid gold Humvee [De que forma eu posso comprar um outro Humvee de ouro puro]
And diamond studded swimming pools [E piscinas cravadas de diamante]
These things don’t grow on trees [Essas coisas não nascem em árvore]
So all I ask is everybody Pleaseeeeee [Então tudo que eu peço é que todos Por Favor]

[Refrão]

Don’t Download This Song (Oh please don’t you do it or you) [Não Baixe Essa Música (Oh por favor não faça isso ou você)]
Might Wind up in Jail like Tommy Chong (Remember Tommy) [Pode acabar na cadeia como Tommy Chong (Lembre-se de Tommy)]
Go and buy the CD (Right Now) like you know that you should (Go out and Buy it) [Vá e compre o CD (Agora) como você sabe que deveria fazer (Saia e compre-o)]
Oh Don’t Download This Song. [Oh Não Baixe Essa Música]

Don’t Download This Song (No no no no no no) [Não baixe essa música (Não não não não não não)]
Or you’ll burn in hell before to long (And you deserve it) [Ou você vai queimar no inferno (e você merece)]
Go and buy the CD (Just buy it) like you know that you should (You should get it) [Vá e compre o CD (Apenas compre-o) como você sabe que deve (Você deveria tê-lo)]

Crédito das Imagens: 1,2, 4.

[Marcelo De Franceschi]

A Heroína do Domínio Público

O Centro de Estudos para o Domínio Público da Universidade de Duke, nos EUA, resolveu criar em 2006 uma simpática história em quadrinhos para tentar elucidar as tenebrosas fronteiras que separam o uso de material de domínio público daquele que tem uma “propriedade” intelectual, aqui especialmente focado na produção de documentários e nas leis dos Estados Unidos.

Para facilitar a didática, o desenhista Keith Aoki e os roteiristas/professores James Boyle e Jennifer Jenkins criaram a personagem Akiko – a Heroína do Domínio Público na imagem da capa que abre este texto –  uma documentarista que ousou captar a pulsação de um dia nas ruas de Nova York num documentário.

Mas nem tudo é tão fácil quanto parece, e Akiko vai se dar conta disso ao perceber que para tudo que sua câmera olha há uma restrição de nome “direito autoral”. Dentre várias perguntas e frases de ordem, ela questiona: “Quadros, música, escultura. Tudo isto está protegido pelos Direitos Autorais?“.

Diante da resposta positiva, ela prossegue com suas dúvidas, que se colocam cada vez mais imediatas para a produção do já citado documentário sobre Nova York. “Parece um Campo Minado. Tenho medo de descobrir o que está protegido por direitos de autor e o que não está da forma mais difícil: quando a distinção explodir na minha frente“.

Akiko fica então sabendo do triste óbvio: só não precisará se preocupar com direitos autorais se a obra que for usada estiver em domínio público, o que no caso americano significa 70 anos após a morte do autor, podendo chegar a até 95 anos após a publicação da obra em questão.

[Vale dizer que no Brasil, como comentamos no penúltimo post, este prazo também é de 70 anos, que inexplicavelmente deverá ser mantido mesmo com reforma da Lei de Direito Autoral. Para comparar, dê uma olhada nesta tabela que mostra os prazos do copyright em praticamente todo o planeta.]

É então que a HQ informa à documentarista que nem tudo está perdido: nos EUA, existe a questão do fair use, um dispositivo que deveria permitir a crítica, paródia, o comentário e o remix, usos efêmeros ou acidentais de obras protegidas por copyright – que, por sinal, não existe no Brasil e nem pretende existir com a reforma, ainda que alguns artigos tratem de usos semelhantes àqueles identificados no fair use americano.

Gravar programas na TV para ver depois (ainda) é considerado fair use

Mas para cortar a esperança nascente de Akiko, ela fica sabendo que o fair use norte-americano está cada vez mais bagunçado, um verdadeiro “jardim das delícias” da propriedade intelectual, nas palavras da história. Como o fair use é subjetivo, imagina-se que não é algo fácil distinguir o que seria um uso acidental de um uso proposital, por exemplo. Aí entra outra questão: a sabida e cada vez mais crescente queda de $$ das gravadoras/estúdios e afins fizeram com que estas, a fim de tirar o último centavo possível antes de sua queda, começassem a apertar o cerco aos tribunais sobre o que seria esse tal uso, complicando de vez aquilo que já era complicado.

A partir daí, desfilam na HQ casos de abuso do esquecimento do fair use, todos absurdos. O primeiro narrado é exemplar: trata dos problemas que o documentarista Jon Elser teve durante a gravação de “Sing Faster“, filme que narra a produção das óperas do “Ciclo do Anel“, de Richard Wagner, sob a perspectiva de quem trabalhava nos bastidores. Em determinado momento do filme, a câmera captava diversos trabalhadores jogando damas num bar, enquanto a ópera era executada no teatro. Havia uma televisão neste bar, que no exato momento da cena estava passando um episódio de Simpsons. A cena era curta (4 segundos!) mas nem por isso a Fox, dona dos direitos autorais dos Simpsons, deixou de querer cobrar 10 mil dólares pelo uso dos segundos do desenho no documentário. Jon Elser não aceitou pagar, pois a “cena” era um caso clássico de fair use. Mas, para evitar incomodação com a gigante e podero$a Fox e um atraso de anos de julgamento para o lançamento do filme, teve que retirar a cena.

[Detalhe: o criador dos Simpsons, Matt Groening, ficou sabendo do caso e não se importou com o uso de sua criação em outra. Quem se incomodou – e que sempre costuma se incomodar em casos desse tipo – foi quem explora comercialmente os direitos de reprodução da criação.

Outro caso desproporcional dos direitos de autor é relatado no prefácio à edição, escrito por Dave Guggenheim, produtor/diretor de, entre outros, “Uma Verdade Inconveniente“:

“O pior exemplo que eu posso dar aconteceu quando eu estava a fazer um filme chamado The First Tear, um documentário que acompanha cinco professores durante o primeiro e traiçoeiro ano a trabalharem numa escola pública. No clímax do filme, um professor, que está a levar os alunos pela primeira vez numa visita de estudo, ouve a canção “Stairway to Heaven”, do Led Zeppelin. É simultaneamente divertido e trágico observar o momento em que ele anuncia aos jovens “Esta é a melhor canção que alguma vez foi escrita”, ao mesmo tempo que aumenta o volume. O professor exulta de alegria, revelando-se pela primeira vez diante de seus alunos. (…)

Tudo no filme prepara este momento e quando o público vê a cena ri e chora, porque ao mesmo tempo é comovedor e trágico. Mas a maior parte do público não chega a ver esta cena no filme. No DVD, que ainda se encontra à venda, a cena foi omitida porque não consegui autorização para utilizar “Stairway to Heaven”. Graças a lacunas arcaicas, pude usar a canção num festival de cinema e na televisão pública americana, mas a partir do momento em que entraram em cena o uso com fins comerciais fui proibido de usá-la. Não porque não pudesse pagar para licenciar a canção, mas porque nunca consegui localizar os detentores dos direitos autorais ou seus representantes (que são vários, o que é outra triste história).

É diante desse “abuso comercial” por parte dos detentores de direitos autorais que Akiko transforma-se na Heroína do Domínio Público, fazendo algumas perguntinhas que vocês já devem ter vistos por aqui: “Nossa cultura esta a ser atacada por um incontrolável ‘monstro de direitos’. Como é que chegamos a este ponto? Para que serve este sistema? Serão os direitos de autor na verdade prejudiciais aos artistas?”


Há outros quantos exemplos de abusos do não uso do fair use na HQ, assim como mais explicações sobre creative commons, ambientalismo cultural e de outros casos que ilustram o crescimento da cruzada contra qualquer tipo de uso de material protegido por copyright – mesmo aqueles que, teoricamente, se encaixariam muito bem no fair use. A edição original em inglês da HQ, de 2006, está disponível para download grátis, assim como a em português (de Portugal, vale dizer), que ganhou a tradução em 2009 de uma aluna portuguesa da Duke, Ana Santos, e é a edição do qual tiramos as imagens da HQ para este post.

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Créditos de todas as imagens: 1.