Eles querem cultura

legenda

Mais uma do ECAD, o órgão fiscalizador que sempre rende pautas engraçadas. Sua última ação foi derrubar o servidor do site Legendas.tv, com o argumento de que a legendagem amadora incentiva o download ilegal e a pirataria.

O evento motivou duas reações. A primeira delas é óbvia: o Legendas.tv está de volta, como se nada tivesse acontecido, e avisa que o acervo completo do site estará no ar ainda esta semana, “mais fortes do que nunca”. Isso aconteceu precisamente todas as vezes que um site de compartilhamento de arquivos foi fechado, não é?

A segunda reação é o Movimento Queremos Cultura, criado pela equipe do InSUBs em solidariedade ao site. Trata-se de um protesto simbólico, como esclarece pelo texto de apresentação:

Motivados pelas acusações de que as legendas “amadoras” impedem as vendas de DVDs originais das séries e filmes, a equipe InSUBs lança a campanha “QUEREMOS CULTURA! QUEM USA LEGENDA TAMBÉM CONSOME!”. Através dessa campanha, queremos mostrar que, apesar de fazermos e usarmos as legendas, também compramos os DVDs e CDs originais, além de pagarmos por TV por assinatura.

Boa parte das pessoas só assiste às séries e aos filmes pela TV por assinatura. Mas e a outra parte? Aqueles que dependem da TV aberta? Esperar um, dois, três ou sabe-se lá quantos anos para poder ver sua série ou filme predileto na TV é praticamente inviável no mundo da famosa “era digital”. É aí que entram a internet e as legendas “amadoras”. As pessoas assistem e conhecem novas séries e filmes, e uma parte enorme delas compra os boxes e DVDs originais quando realmente apreciam a série ou filme em questão. É uma nova maneira de distribuir conteúdo, de pensar a relação entre o mundo do entretenimento e seus consumidores

Pessoalmente, acredito que além de simbólico o protesto é ingênuo. Porque, sim, legendas disponibilizadas na web cooperam com o download ilegal e com a pirataria. A questão não é negar este fato, que sequer contradiz o outro fato apontado pelo InSUBs, de que é possível a uma pessoa trabalhar para que mais cultura seja compartilhada na rede e ainda assim cultivar uma vasta coleção de DVDs originais em casa. A questão é outra, mais antiga e motivação deste blog: a adequação da realidade jurídica [e seus mecanismos de controle e fiscalização] a uma realidade que, de longe, já a extrapolou.

Em todo caso, a proposta do movimento é válida e vale torcer para que renda bons frutos. Você, amigo pirata, pode colaborar enviando fotos da sua coleção de obras originais para o email contato@insubs.com.

Esta é a minha:

sem-titulo

[Reuben da Cunha Rocha.]

Notícias do Front Baixacultural (13)

clipping1

(Excepcionalmente começando com uma nota pequeña de auto-promoção)

.

BaixaCultura, MinC e Overmundo

José Murilo, responsável pelas notícias sobre cultura digital do site do Ministério da Cultura, republicou dois textos nossos na página do MinC: este e este. A parceria promete render mais frutos, segundo interesse da ambas as partes. Além disso, Reuben criou uma conta no Overmundo com a finalidade de republicar as entrevistas e matérias mais extensas aqui do blog. O link permanente está aí do lado, na coluna ‘Parcerias’.

.

Dossiê sobre cibercultura da Revista FAMECOS (Cultura Digital, 08/01)

Uma nota que está meio passada pela data, mas não por seu conteúdo: vale a pena conferir o  número 37 da Revista FAMECOS (PUC do Rio Grande do Sul), que traz um dossiê com os textos mais importantes apresentados durante o II Simpósio Nacional da ABCiber (Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura), realizado em São Paulo, em dezembro de 2008. Tem bastante coisa que pode satisfazer os mais variados tipos de interesse relacionados à cibercultura, indo desde o jornalismo online e a cibernotícia até temas mais específicos como interfaces multisensoriais e inteligência coletiva, passando ainda por temas populares na rede como podcasts e fotologs, dentre outros assuntos.

.

O dilema do pirata (Trabalho Sujo, 02/02)

Alexandre Matias entrevista o jornalista Matt Mason, autor de The Pirate’s Dilemma, livro que possui o sugestivo e enigmático (para mim, ao menos) subtítulo: How Youth Culture reinvented capitalism [Como a cultura jovem reinventou o capitalismo]. A seguir, alguns trechos da entrevista que elucidam mais do teor do livro:

Sobre direito autoral:

Não acho que ele vá acabar, o direito autoral é muito importante. Mas o que está mudando é o conceito de uso justo, o que dá pra se fazer sem pedir permissão. Acho que o direito autoral também está ficando mais sofisticado. E nós realmente precisamos de leis fortes sobre direitos autorais, mas não precisam ser tão rígidas quanto as leis de hoje”

Sobre pirataria e capitalismo:

“O que estamos assistindo, com a pirataria e a forma com que as pessoas usam a internet, é um sintoma de algo maior que está acontecendo com o capitalismo. Mais uma vez, a forma como pensamos os negócios está mudando. Se você olhar as visões clássicas da economia, as empresas sempre tiveram um motivo para acrescentar valor à sociedade. Mas o capitalismo mais recente está mais preocupado em agregar valor às suas diretorias do que para todos – claro que estou simplificando demais esta situação. Acho que estamos voltando ao modelo clássico, os negócios precisam agregar algo às pessoas, dar a elas boas experiências.”

.

Livro: Más allá del Google (Blog do GJol, 2/02)

Excelente dica do blog do GJol, Grupo de Pesquisa em Jornalismo Online da pós-graduação da UFBA: “Más allá de Google” é o novo livro de Jorge Juán Fernández García, colaborador do Infonomia.com, uma interesse revista online espanhola. Segundo Adriana Rodrigues do GJol, “o livro versa sobre  sobre leis direcionadas em como utilizamos ou nos afetam a informação e as tecnologias digitais”, e como de praxe está disponível para download em PDF.

.

Como e onde arranjar convites para trackers privados de BitTorrenet (Remixtures, 4/02)

Ótimas dicas do nosso parceiro português para entrar no assombroso mundo dos trackers privados, os menos perseguidos pela RIAA e similares, e aqueles onde mais se encontra monstruosidades de raridades para baixar.

.

Jornalismo online 0.5 (Marcelo Träsel, 05/02)

Jornalismo online no início dos anos 80? Lento, e mais caro que o impresso. Duvida? Veja o vídeo.

.

Mais de um milhão de móveis de “livros móveis” estão disponíveis (Blog do GJol, 7/02)

Outra do Blog do GJol, porque é boa: o Google Books está disponível também para dispositivos móveis, com um acervo que gira em torno do um milhão e meio de e-books.

.

[Leonardo Foletto e Reuben da Cunha Rocha.]

Crédito foto: World War II Photos

Libertando livros

Marilyn lê Ulisses
Marilyn lê Ulisses

(Minha  temporada na Campus Party teve como companhia inseparável um pequeno caderninho, onde anotava tudo que via e presumia render uma boa pauta para o BC. Dentre as esculhambadas notas, boa parte delas revelou-se pouco pautável, e é por isso que ainda não estão aqui no blog; outras ficaram para apuração, e uma delas está aqui abaixo.)

Se encontrar um livro em algum lugar desse Brasilsão onde tu não espere encontrar um livro, pegue-o. Abra-o. Verifique se no interior dele há uma etiquetinha dizendo “Este livro não é um presente“. Não desanime com o texto e leia-o sem medo. Lá pelas tantas páginas lidas, tu pode querer voltar a etiqueta para saber do que aquilo se trata, afinal. Abaixo da frase lida, há um código: digite-o no site www.livrolivre.art.br. Deixe seu comentário sobre o livro e saiba que você acabou de fazer parte do projeto Livro Livre.

.

livrolivre-passos-big

.

O Livro Livre é uma iniciativa do Jornal de Debates que visa difundir o hábito da leitura e formar novos leitores. O conceito é inspirado no bookcrossing, prática difundida nos Estados Unidos e Europa que já conta com mais de 600 mil participantes em cerca de 130 países. No Brasil, mais de 03 mil livros estão atualmente em circulação no espaço público. Se, além de ler, você quiser disseminar leitura, saiba aqui como fazer parte do projeto.

[Leonardo Foletto.]

Notícias do Front Baixacultural (11)

noticias

.

95% dos downloads de música são ilegais (Estadão, 16/01)

Dados da Federação Internacional da Indústria Fonográfica: mais de 40 bilhões de arquivos de música foram compartilhados ilegalmente no ano passado. No entanto, a mesma federação anuncia que o número de downloads legais também cresceu, e que a venda de músicas digitais corresponde hoje a 1/5 do faturamento total da indústria. Mas a maluquice das pessoas que efetivamente pagaram para baixar singles de Lil Wayne (o campeão de downloads legais de 2008 ) não é o bastante para salvar a indústria do naufrágio – segundo a mesma IFPI, a renda mundial da indústria de discos diminuiu mais 7% no ano passado. Comemoremos.

.

A vontade dele é te matar (Pop Up!, 14/01)

A fatídica entrevista de João Carlos Muller, consultor jurídico da Associação Brasileira de Produtores de Discos, continua repercutindo. Desta vez é o jornalista Bruno Nogueira que chama a atenção para alguns pontos pouco destacados aqui no blog. E nós todos continuamos nos divertindo com a falta de noção das pessoas com algum poder e nenhum discernimento. Com a palavra, Bruno Nogueira:

Entre outras coisas, ele compara o cara que pega aquele disco raro do Zé Ramalho, que saiu de catalogo e não vende mais, para download em um blog com um assaltante de caixa forte de banco. E diz que para turma que baixa o disco que eles podem ficar tranquilo, porque agora eles estão atrás apenas do fornecedor. Igual guerra do tráfico.

Sua principal crítica ao Creative Commons tem como base o argumento que Gil, que é todo pró a idéia, até agora só licenciou uma música na vida. Mas entre as várias incongruências – que passam por defender o DRM, licença digital que nenhuma gravadora adota mais, claramente sem saber o que se trata – a cereja do bolo está também no próprio ex-ministro. Depois de um papo de que o autor merece o mundo, ele solta a pérola:

“O Gil recuperou na justiça a obra dele, numa burrice que o Guilherme fez, eu avisei a ele que ia perder aquela obra. Ferrou-se!”

Burrice do Guilherme, porque, segundo Muller, também não é só porque você tem uma idéia que você pode ser dono dela.

.

Uma nova cara para o Remixtures (15/01)

O blog Remixtures, onipresente neste clipping e capitaneado pelo bravo colega d’além-mar Miguel Caetano – e não Miguel Jorge, como erroneamente foi informado semana passada, pelo quê pedimos desculpas públicas -, está de cara nova e com um novo e polêmico modelo de negócio: o Freemium. Trata-se de um sistema cuja lógica é a mesma das bandas que disponibilizam suas músicas gratuitamente na intenção de lotar – e lucrar com – os shows: num modelo freemium, o serviço básico é grátis, e o lucro vem dos produtos adicionais. Nas palavras de Caetano:

Em termos concretos, a proposta freemium do Remixtures passa por disponibilizar uma série de serviços personalizados e complementares a uma vasta gama de entidades potencialmente interessadas como jornais, revistas, publicações online, escolas de formação profissional, bandas e músicos independentes, editoras discográficas, promotoras de concertos, universidades, associações industriais e profissionais, etc. Inicialmente e salvo situações excepcionais, este modelo deverá abranger os seguintes serviços disponibilizados ao preço mínimo referido.

A descrição dos serviços e os respectivos preços tu confere no link do título. É uma forma interessante e pra lá de válido de trazer o modelo da música para o campo da produção textual, já que em vários pontos da discussão cultural em torno da internet a música parece vários passos adiante das demais formas de expressão. Boa sorte ao Remixtures na nova fase!

.

E por falar em Remixtures, quando me preparava para fazer a segunda tradução para este blog, do artigo Copyright, Copyleft & the Creative Anti-Commons, tive a grata surpresa de descobrir que Miguel Caetano já fez.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Crédito foto: World War II Photos

Um detentor de direitos autorais reivindicou o conteúdo de um de seus vídeos

downloadcomunismo.

O título acima é o mesmo do email que recebi dias atrás. Em linguagem tão simples quanto ridícula, o nosso querido Youtube anunciava que “Um detentor de direitos autorais afirmou que possui parte ou todo o conteúdo de áudio do seu vídeo“. Como continuação, dizia: “Infelizmente a reprodução de seu vídeo foi bloqueada devido a problemas com os direitos das músicas“.

O vídeo em questão é Pare Olhe Escute, um curta que eu e mais dois amigos fizemos sobre nossas andanças em cima dos trens aqui da região de Santa Maria. Ao contrário do que dizem, ainda dá para ver ele lá no Youtube, só que o som inteiro foi desativado. O motivo do comunicado amável do site é que, na nossa trilha, tinha a música “Gallows Pole”, do Led Zeppelin, como também tinha “Biding my time“, do Pink Floyd e outras. Mas a justificativa da suspensão do som do vídeo recai sobre a música do Led.

Há uma boa dose de ironia nisso tudo. Vejamos: “Gallows Pole” é uma das muitas versões de The Maid Freed from the Gallows, uma velha e tradicional canção folk  que teve origem na Europa, não se sabe se na Finlândia, Noruega e ou Alemanha. Trazida para o inglês, ela se  popularizou em 1939, quando foi feita a primeira gravação em disco, pelo cantor folk  Huddie Ledbetter, mais conhecido como Leadbelly.

A música foi rebatizada como “Gallis Pole” e é um pouco diferente da do Led, principalmente na batida nervosa que Leadbelly dá em seu violão – dá para baixá-la aqui. O Led fez a sua versão em 1970, no Led Zeppelin III. No álbum, a música é creditada como “Tradicional: arranjos por Jimmy Page e Robert Plant“.

[O pior é ver ainda o Youtube escrever no email coisas do tipo: “Não se preocupe, temos muitas músicas disponíveis para você. Visite nossa biblioteca do AudioSwap para aprender como é fácil substituir o áudio de seu vídeo por qualquer faixa de nossa biblioteca de músicas totalmente licenciadas.”]

led-zeppelin

.

Suspeito que a banda não tenha nada que ver com a coisa toda, e quem esteja por trás da iniciativa seja a gradavora do Led por meio da nossa velha conhecida RIAA. Aliás, taí uma incoerência das grandes: usar o Led Zeppelin como balizador no combate à pirataria na rede, sendo que a banda é um paradigma clássico de artistas que se aproveitaram de trechos – ou músicas inteiras – de outros e não se deram ao trabalho de dar o crédito. Se há dúvidas à respeito, olhe essa página e esclareça: de “Babe I’m Gonna Leave You” à “Dazed and Confused“, passando por “Wholla Lotta Love“, “Hey, Hey, What Can I Do” e “Communication Breakdown“, todas elas tem grande semelhanças com outras que nã o levaram os créditos. Aqui você pode escutar as versões originais de onde a banda chupou para fazer as suas.

[Leonardo Foletto]

Amigo Punk

sexpistols

Há em torno do punk o mesmo desconforto que ronda toda idéia fora de contexto – a de tornar-se pastiche involuntário de si mesmo e recusar-se a enxergar isto, que é precisamente tudo o que os demais enxergam. Caso se tratasse apenas de um gênero musical, não seria tão pertinente a acusação de imobilidade (“esses caras fazem a mesma coisa há 30 anos!”), ou não seria mais pertinente do que o é no caso do blues e do rap, por exemplo. O problema do punk está menos na música do que no apego a um tipo de discurso que só pretende ofender o mundo, mas não consegue mais fazê-lo, porque o mundo muda mais rápido que a capacidade de raciocínio de um punk tradicional.

Mas e daí? Ou, perguntando de outra forma, isso tudo não é evidente o bastante pra que se torne irrelevante, e pra que seja então possível apenas apreciar os bons discos, os refrões antológicos e o inegável papel histórico do gênero? Afinal, apesar dos argumentos contra a “cena”, não há o que se dizer contra a lucidez e pertinência do que diz um Jello Biafra, este sim um punk’s not dead, ou contra o papel do gênero enquanto matriz para outras expressões culturais, como toda a cena indie baseada no bom e velho “faça você mesmo”.

jellobiafra1

Baixe você mesmo, neste caso. Bandas de A a Z com atualizações diárias, na Punk’o’teca. Coisas clássicas e conhecidas fora da cena, como Dead Kennedys [a ex-banda do mencionado Jello Biafra], Pennywise, Rancid ou Fugazi, coisas não ortodoxas, como The Offspring e Rage Against The Machine, muitas bandas obscuras e o que é melhor, vários registros de bandas brasileiras, que sempre encontraram dificuldades históricas para gravar.

*

Parte dessa dificuldade, aliás, está bem documentada no filme do ex-VJ da MTV Gastão Moreira. Centrado nas bandas de São Paulo, Botinada – A origem do punk no Brasil resgata a confusão que foi a formação de uma cultura punk no Brasil em fins de ditadura. A confusão dos punks (divididos entre os que acreditavam no discurso, os que queriam transformar violência em música e os que queriam dar porrada mesmo) e a confusão gerada pela dificuldade de assimilação do movimento pela sociedade. Embora seja sempre enjoada a ortodoxia de alguns entrevistados, vale a pena se defrontar com a complexidade de um movimento que em todo caso é a face furiosa da periferia industrial brasileira, e as contribuições lúcidas de Clemente (vocalista dos Inocentes), Kid Vinil e do jornalista Antonio Bivar não deixam dúvidas de que vale o download.

botinada

[Reuben da Cunha Rocha.]

V de Vertigem

Um fake salvou minha vida. Minha vida, ou pelo menos minha vida do jeito como a levo, depende da maneira como insisto em acreditar na humanidade. A humanidade, essa peça estranha no balé do planeta, penso que apenas sua capacidade de criar beleza seja capaz de redimir sua capacidade de destruí-la. Mas eu dizia que um fake salvou minha vida.

Minha vida, ou pelo menos minha vida do jeito como a levo, depende duma espécie de serenidade, de talvez sanidade proveniente em grande medida do prazer e das porradas que, voluntariamente ou não, diariamente eu levo. Às vezes, isso custa caro.

Eu não quero falar do preço que a vida nos cobra, a grande vida, a vida extraída de cada poro e seu alto risco. Não é isso, não agora. O que eu dizia é que manter a linha nem sempre é fácil e que as coisas que ajudam a mantê-la podem ser caras, mesquinhamente caras, estou falando de Grana, estou falando que há coisas muito simples que me deixam tranqüilo, não me lembro se o trema já caiu, um milhão de coisas muito simples como a beleza de um diálogo, um naco de nuvem, ou quadrinhos. E quadrinhos, ao contrário das duas outras opções, custam Grana.

Agora, voltemos ao fake.

Agora sei que seu nome é Thiago, que trabalha com publicidade e parece com aqueles retratos de Jesus. Mas antes disso, fui apresentado ao fake Von DEWS!, foi esse cara quem salvou minha vida. Entenda que não foi preciso muito e que esse papo não tem nada a ver com a leve semelhança de Von DEWS! com Jesus. Tem a ver com o Vertigem, o blog de scans de HQs que hoje comemora 02 anos e cerca de 600 posts de existência. Entenda que às vezes salvar a vida de alguém pode ser só uma expressão, um pequeno exagero nascido de uma alegria, nesse caso a alegria de contrariar os preços conhecidamente abusivos dos quadrinhos no Brasil.

vertigemhq

Quarto membro de uma equipe inicial da qual é o único sobrevivente, Von DEWS! hoje coordena uma equipe fixa com cerca de 10 colaboradores [além dos colaboradores eventuais e das parcerias com outros blogs e sites], a maioria deles leitores que resolveram ajudar, gente que nunca se viu na vida e trabalha conjuntamente para me impedir de gastar um dinheiro que não tenho com coisas que amo. Coisas que admiro, como esta série do Warren Ellis, coisas das quais já falei aqui, como The Walking Dead, coisas que me divertem muito, como o doido do Steve Niles, coisas geniais, como a obra do genial Grant Morrison. Tudo gratuito – traduzido, diagramado e escaneado com cuidado e persistência.

Fell (Warren Ellis+Ben Templesmith)
Fell (Warren Ellis+Ben Templesmith)

Com método, mesmo. Não é, Von DEWS? “Atualmente cada revista tem um tradutor e um letrista fixos, e raramente uma pessoa só faz as duas coisas. Eu faço as capas e os títulos, e reviso todo o trabalho dos tradutores mais de uma vez. Leio e reviso a tradução que chega em Word, e faço o mesmo trabalho quando volta das mãos do letrista”.

O trabalho é de editora, eu penso, e aproveito para perguntar sobre mercado. “É uma incógnita, as editoras escondem os números de vendas, de tiragem. Nos EUA, as editoras exibem com orgulho os números das vendas. Aqui, elas escondem. Tenta perguntar pra Panini quantas edições de X-Men foram vendidas esse mês…Nem pagando eles te falam. É dificil mensurar qualquer coisa”. E ele pergunta mesmo, seu interesse pelo mercado editorial é mais sério que a minha pergunta: apesar de figura conhecidíssima nas comunidades de download e de preparação de scans, Von DEWS! não troca os quadrinhos de papel pelos arquivos de computador, e acredita que seu trabalho deva ser de parceria com as editoras.

Os Invisiveis (Grant Morrison)
Os Invisíveis (Grant Morrison)

E com outros grupos de scans. Segundo o editor do Vertigem, sempre que pinta uma dúvida de tradução ou diagramação, sempre que aparece a oportunidade de colaborar com resenhas e artigos, enfim, sempre que há a possibilidade de diálogo, há diálogo. “Quase todo mundo tem o msn de todo mundo”, por exemplo. Mas vamos voltar ao papo sobre mercado.

“Apesar do crescimento da internet, os scans circulam entre uma parcela mínima de leitores. Eu vejo isso no orkut, a quantidade de leitores que nem sabe o que é scan, não sabe que existe uma edição original americana [nota deste repórter: caramba!]. O papel dos scans é mais de divulgação que de qualquer outra coisa. Eu acho que, por exemplo, se ninguém tivesse traduzido The Walking Dead há alguns anos, a [editora] HQM nunca teria investido nos encadernados. Por mim, a gente fazia parceria e a divulgação seria conjunta! Só esse semestre eu gastei mais de 800 reais em quadrinhos! Eu tenho 40 giga de quadrinhos no PC, mas tenho o equivalente a 900 giga em papel! E não os troco por nada!”, ele afirma, com as exclamações que lhe são peculiares.

Parece haver de certa forma uma correspondência entre essa disposição em colaborar com o mercado regular de quadrinhos e, se não a disposição contrária, pelo menos a raridade da fiscalização legal. Porque embora nós dois acreditássemos que a ação do Vertigem e de qualquer outro blog de scans seria ilegal apenas se resultasse em lucro, a legislação de direito autoral é, segundo o Edson, bem menos tolerante. Mas a intolerância tem se mostrado felizmente alheia ao trabalho de divulgação de scans, ao contrário do que ocorre com blogs de download de arquivos de áudio e vídeo.  “Até hoje, em quadrinhos, só o Eudes [do Rapadura Açucarada] teve problemas com isso. A questão é que ele vinha escaneando quase tudo que saía em banca, e na época o blog tinha muita visibilidade. Com a proliferação dos espaços essa visibilidade exclusiva diminuiu, ele precisou parar durante um tempo mas depois voltou com força total”.

Von DEWS! concorda quando digo que a situação é essa: os blogs existem, ninguém sabe direito o que pode ou não pode fazer legalmente, mas também é como se a lei não estivesse preocupada com isso. Parece uma espécie de benefício, fruto do eterno anti-lugar que os quadrinhos ocupam na estante cultural das sociedades, da imagem que preservam de entretenimento inofensivo e fonte de roteiros quadrados pra indústria cinematográfica, e não uma linguagem como qualquer outra, capaz do que é capaz qualquer linguagem quando usada por uma voz sincera e afiada. De ocupar o tempo de pessoas que a amam e não vão ganhar nada em troca, não vão ganhar nada que tenha valor de troca, pessoas que não vão trocar isso por nada.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Jamaica, modo de usar

jamaica

A extensão da complexidade cultural da Jamaica não cabe na fronteira geográfica que a ilha faz com o mar do Caribe – nem a maluquice política que não escapa à regra da América colonizada, nem o sincretismo da religiosidade que é sua embora não de sua maioria [como o voodoo ou o rastafari, essa intrincada interpretação do Antigo Testamento bíblico, essa rica narrativa em que triunfa a liberdade cultural do colonizado e ao mesmo tempo alcança apenas cerca de 10% da população do país] nem a música afinal, não menos sincrética, não menos maluca, não menos produto e produtora do lugar em que não cabe.

A história do reggae é tão acidentada quanto todo o resto, cheia de desvios como o gênero é cheio de subgêneros, antecessores e herdeiros, alguns deles indissociáveis em sua origem da precariedade econômica e técnica que não vence o espírito, como o dub, outros indissociáveis do peso musical que a Jamaica conquistou em todos os mundos, inclusive o primeiro. É o caso da obra do lendário guitarrista Ernest Ranglin, cujo nome está na origem do ska, e que hoje é possível encontrar no meio de bandas de jazz enriquecendo o fusion mais ou menos desse jeito:

Há um belo documentário [vendido bem barato em bancas de revistas e disponível pra download aqui] sobre a saída do reggae de Kingston para Londres, via Catch a Fire, em que produtores e músicos ingleses são unânimes no desconforto que sentiram diante daquele contratempo inédito: ninguém sabia tocar aquele som, e o processo de adequação do reggae ao mercado branco também foi o do aprendizado daquele bumbo mulato maluco por parte do velho mundo.

Mas divago, e o que é mesmo preciso que se diga é que a história cheia de atalhos, desvios e becos sem saída da música jamaicana é muito bem contada pelo You And Me On A Jamboree, até hoje o blog de download mais completo sobre o assunto que meus olhos míopes já encontraram. Pra começo de conversa, tu não encontra nenhuma banda de Brasilia com nome de planta no meio – isso mesmo, improvável leitor: a parada é tão old school que as categorias com mais discos linkados são Ska, Rocksteady [ritmo intermediário entre o ska e o reggae que não durou muito na ilha do Caribe embora seja muito bom] e Early Reggae.

É aí que a página ganha cara de enciclopédia: além da lista de links por artista/banda, os discos estão organizados por categoria. Como cada categoria musical daquelas representa um ponto na história da música jamaicana, baixar cada disco ali chega a ser didático, além de um prazer.

You And Me On A Jamboree também é uma festa e um podcast muito do invocado. Do blog, o único porém fica por conta da desorganização alfabética dos links. É muita coisa [tomara que cresça!], e uma lista organizada com um pouco mais de empenho facilitaria muito a minha vida. Quer dizer, a nossa.

E pra encerrar o post mais groovy do dia, fica aí com o genial trombonista Rico Rodriguez, de quem tu encontra nada menos que cinco bolachas no Jamboree. Tô falando, é coisa fina, pedra pesadíssima:

[Reuben da Cunha Rocha.]

Notícias do Front Baixacultural (5)

paul_mccartney-gal-embarrassing

.

Do lado de cá

.

Paul McCartney diz que não se importa com downloads ilegais (Terra música, 25/11)

Paul disse, em uma matéria da NME que foi reproduzida pelo Terra e por diversos portais Brasil afora, que não se importa com download ilegal, mas acha “estranho” a situação:” Para mim é estranho o conceito do download. Sou da época de ir às lojas e comprar vinil, fitas e CDs. É tudo igual, com a única exceção de que as pessoas não pagam mais“. No final, ele ainda faz uma piadinha com o Radiohead, ao melhor estilo humor britânico…

.

Filmes: raridades asiáticas serão disponibilizadas (Blog do GJol, 30/11)

A Asian News International (ANI) assinou um acordo com o ITN Source, que permitirá a digitalização da biblioteca de filmes asiáticos, que remonta a 1930. São mais de 1 milhão (!) de horas de filmagem, contando com programas jornalísticos, esportivos, de ciência, tecnologia, negócios, dentre outros assuntos. Por enquanto já estão 5 mil clipes para donwload (entre aqui e veja).

.

Boyle disponibiliza na internet livro sobre Domínio Público e Propriedade Intelectual (Blog do GJol, 30/11)

James Boyle, co-fundador do Center for the Study of the Public Domain e chairman do Creative Commons, disponibilizou seu livro The Public Domain: Enclosing the Commons of the Mind neste site aqui. Dá para ler online e comentar, ou baixar em versão PDF. O livro é uma boa introdução sobre a questão do direito autoral, escrito em linguagem simples, para que, em palavras do autor, “todo cidadão possa ter uma compreensão das leis de propriedade intelectual para garantir um futuro com maior liberdade de expressão e plena circulação de idéias”.

.

A volta do Som Barato (Baixa Cultura, 1/12)

O Som Barato, que nesta matéria informamos que foi retirado do ar pelo Google, voltou a ativa, agora no endereço sombarato.org. Chega lá!

.

[Leonardo Foletto]

Instrucciones (4) – Baixe HQ

mooretank

A cultura de download de HQs merece que se escreva mais a respeito, a começar pelo fato de tratar-se de um modo de democratização cujo triunfo mais corriqueiro é o de baratear este que no Brasil tem se tornado um dos formatos mais caro$ de informação. Ocorre em torno dos scans de quadrinhos [edições de papel escaneadas que podem ser confortavelmente lidas com este programa aqui.] a curiosa formação de coletivos que, mais do que apenas piratear os famigerados gibis de banca [pelo que pessoalmente agradeço, aliás], se dedicam à tradução e à disponibilização de material inédito no Brasil.

É o caso de The Walking Dead, criação de Robert Kirkman e Tony Moore [desenhista substituído por Charlie Adlard a partir da edição nº 7] responsável por repetidas negligências de minha parte na entrega de trabalhos de todo tipo. Sinto muito, mas entre entregar no prazo um artigo sobre qualquer coisa e acompanhar apreensivamente o FIM DO MUNDO, well, o segundo será sempre mais divertido.

horror-03

The Walking Dead começa assim: um policial duma cidadezinha americana acorda no hospital após ser baleado num tiroteio e basicamente se vê cercado por zumbis, zumbis, zumbis. No hospital, zumbis. Nas ruas, zumbis. No supermercado, zumbis. Até que encontra um sujeito que lhe avisa que todo mundo se mandou pra capital. Ele vai atrás da família, claro, mas lembre-se dos zumbis. Nos EUA acabou de sair a edição 54 [com cada vez menos humanos e cada vez mais…zumbis], e dá pra encontrar cada uma das edições aqui.

A vantagem da comunidade aí é que o lançamento é praticamente simultâneo, o que também nos leva a uma desvantagem, se for o caso de tu ter dificuldades de ler em inglês: a tradução dos coletivos de scans [voluntária e geralmente anônima, para evitar problemas legais] nem sempre acompanha o ritmo da publicação [no caso de TWD, mensal]. Em todo caso, se tu tem problemas com o inglês e não conhece ainda o belo trabalho de Kirkman [não vou cair no clichê de afirmar que The Walking Dead é mais que uma HQ de zumbi], não vai se importar em ler apenas as 38 primeiras edições traduzidas aqui no Vertigem. [Repare na barra lateral esquerda a quantidade de outros títulos disponíveis pra baixar. Repare também, no final da mesma barra, o convite feito pelo Vertigem a possíveis colaboradores, tradução e/ou diagramação].

No próximo post da série quadrinhos-fundamentais-que-tu-não-acha-no-mercado-brasileiro, prometo falar sobre o Transmetropolitan, de onde saiu a epígrafe que abre o BaixaCultura. E, para as próximas semanas, coerentemente com a primeira frase deste texto, prometo uma matéria aprofundando a questão dos scans. Até lá!

[Reuben da Cunha Rocha.]

O erro da criminalização da pirataria (2)

Artigo 184 e seus parágrafos. Dá até nome de banda
Artigo 184 e seus parágrafos. Dá até nome de banda

No post passado eu falei sobre a incoerência do texto inicial do artigo 184 do Código Penal brasileiro, que criminaliza toda e qualquer violação aos diversos direitos autorais contidos na Lei nº 9.610/98. Agora vou esclarecer algumas coisas sobre os parágrafos (simbolizados por um “§” em textos de lei) do artigo 184, que tratam essencialmente da pirataria envolvendo o lucro (com exceção do §4º).

Primeiramente, é preciso que você saiba que as leis são feitas com base em coisas que alguns bambas dizem ser permanentes e até imutáveis, mas na minha vista chegam a ser bem manipuláveis. São estas coisas os princípios. Um exemplo de princípio que rege tudo quanto é legislação é o princípio do direito à vida. Há também o princípio da liberdade, dignidade da pessoa humana, e outros termos que costumam ser pauta de rodinhas de discussão.

Em segundo lugar, é importante entender que o Direito Penal, na sua nobre função de arquitetar condições fáticas em que devemos ser presos, estabelece bens jurídicos que não podem ser violados, sob pena de prisão ou multa. Estes bens jurídicos são a vida, a liberdade, a propriedade privada e por aí vai. Assim, se você me mata, um promotor de justiça vai pedir sua prisão por ter ofendido um bem jurídico, que é a vida.

propriedade_privada

Aplicando essa ladainha toda ao caso da reprodução não autorizada, podemos observar que a idéia contida na criminalização da pirataria é a punição pela violação a um bem jurídico chamado de “propriedade intelectual”. Bom, em um texto futuro eu vou demonstrar que esse lance de propriedade intelectual non ecziste, mas sim obra intelectual. Por agora, trabalhemos sobre o que a lei e a doutrina engessada nos dizem.

O argumento que as autoridades   e a imprensa recheada de jabá – utilizam para justificar o prejuízo aos direitos autorais proporcionado pela pirataria é de que quando adquirimos uma cópia pirata estamos deixando de comprar uma cópia original da mesma obra, de forma que o dano é calculado no valor da cópia original. Por isso aqueles números bilionários nas manchetes de prejuízo com pirataria.

Mas isso tudo é abusivo. Ninguém neste mundo pode provar judicial ou juridicamente que alguém definitivamente teria comprado a cópia original de um produto caso não houvesse a alternativa pirata. Quando compramos um cd pirata não há subtração ou comprovação de qualquer dano a lucro sobre cópia original. Não existe prejuízo comprovado algum.

Agora, mesmo que aceitemos essa enrolada toda dos prejuízos bilionários e o escambau, Túlio Vianna (o site dele tá ali em Parceria) observa que a criminalização continua sem qualquer razão de ser. Considerando que o dano causado é apenas um prejuízo financeiro (o não recebimento de uma espécie de remuneração), então o que há é nada mais que uma dívida entre o pirata e o titular de direitos autorais. E prender qualquer indivíduo por dívida é proibido no Brasil e numa porrada de lugar por aí, afinal, se trata de um princípio (lembra deles?) exposto em tratado internacional e na nossa Constituição Federal (a lei mais poderosa do país), em seu art. 5º, inciso LXVII. Encarcerar alguém por vender DVD pirata é tão mal visto pela gama teórica de princípios dos Estados Democráticos de Direito quanto levar em cana aquele seu tio que simplesmente não pagou o condomínio esse mês.

Qual a coerência do artigo 184 e seus parágrafos do Código Penal com os princípios maiores e reguladores das leis do país? Nenhuma.

Aí, tem sempre um sabichão que vira e fala assim: “mas a criminalização da pirataria serve pra pegar contrabandista, peixe grande“. Antes de qualquer coisa devo informar que contrabando e afins nada têm a ver com “propriedade intelectual” para a lei. São condutas tratadas em outros dispositivos. Uma jaqueta daidas é uma falsificação, com produção totalmente própria, da original adidas e não uma reprodução não autorizada. Além dos modos ilegais de veiculação, explorou-se apenas a popularidade da marca, e marca é propriedade industrial, não entra em terreno de Direito Autoral. Então venho eu e pergunto: com toda essa repressão legal, me diz quem eles estão prendendo com base no artigo 184 do Código Penal? A resposta tá bem aqui.

A própria experiência demonstra que essa criminalização da pirataria só existe pra dar pancada em peixe pequeno. Pra bater em cidadãos que não demonstram qualquer potencial ofensivo para a sociedade. Fundamentos jurídicos pra isso não existem, apenas o lobby deprimente de corporações que querem manter o estrito controle sobre a veiculação cultural. Os contratos abusivos que essas empresas impunham aos verdadeiros autores nunca foram questionados pela lei. A flexibilização que se vê hoje se dá em virtude do desespero frente às formas alternativas de produção, nunca por conta da fiscalização legislativa. Não vivemos uma democracia, e isso vai muito além de gastar um belo domingo votando sempre nos mesmos partidos, sempre nos mesmos caras. Aceitamos sempre o que o poder econômico nos impõe, mesmo ele sendo incompetente o bastante pra patrocinar leis tão mal redigidas. Vivemos uma baita duma plutocracia.

[Edson Andrade de Alencar.]

Crédito das imagens:

1)Papo na Despensa

2)Ladrões de Bicicleta

3)Plagiat

4)fossils-facts-and-finds.com

O erro da criminalização da pirataria (1)

O seu Windows costuma dar esse tipo de bom dia?
O seu Windows costuma dar esse tipo de bom dia?

Um dos meus objetivos aqui no BaixaCultura é esclarecer algumas questões nebulosas sobre Direito Autoral e pirataria no Brasil. É, de fato, importante saber o que rola sobre esse assunto, uma vez que o que tentam nos empurrar goela abaixo nem sempre funciona tão lindamente quanto fazem parecer. Além disso, uma sociedade consciente das normas que recaem sobre si é uma sociedade mais precavida contra abusos e mais propensa às tão almejadas mudanças. Vamos lá.

As regras de Direito Autoral destinam aos piratas punições no âmbito civil (em que você geralmente paga uma dívida) e no âmbito penal (em que você geralmente curte uma cadeia). Este primeiro post de uma espécie de coluna jurídica que pretendo levar adiante versa sobre este último aspecto: a criminalização da pirataria.

Baixar mp3 não autorizado é crime ou não, conforme a lei? Para inúmeros usuários do formato não é, mas para uma penca de gravadoras falimentares é e precisa ser punido com cadeia. Muitas vezes temos o costume de interpretar a lei a favor do que nós queremos ou conforme nós agimos. Possuimos um considerável temor em relação à punição, portanto tememos a intransigência da lei. Porém, algo mais sensato seria entendê-la, sem achismos, ou sem a generosíssima ajuda de filminhos antipirataria veiculados no cinema, por exemplo, e procurar expor seus erros e incoerências em relação à realidade e anseios coletivos (leis, até onde sei, são feitas para a coletividade). Uma vez que a sociedade se manifesta e demonstra como uma lei é anacrônica, ineficaz ou ridícula é que há mudanças (acredito eu, realmente legítimas) na legislação. O ex-crime de adultério é um exemplo disso. Em 2005 a lei 11.106 revogou a norma inútil que há décadas (e sem eficácia alguma) criminalizava a prática extraconjugal.

Crime é aquilo que somente a lei estabelece como tal. E esta lei, no caso tupiniquim, claro, é o Código Penal brasileiro. Já vi gente afirmando que aqui no nosso país não há criminalização da reprodução não autorizada gratuita de obra intelectual (mais precisamente aquele seu cd copiado do exemplar de um amigo ou a discografia que você baixou pro seu hd). Fala-se que só é crime lucrar com a pirataria. Não é bem assim.

ilp

O Código Penal nos diz que é crime violar direitos autorais e logo depois exacerba a pena destinada a casos de pirataria envolvendo lucro. Mas a pena para a pirataria gratuita continua lá, no início do famigerado artigo 184.

O grande problema (ou barato) nisso tudo é que os referidos direitos autorais estão protegidos e destacados na Lei de Direitos Autorais (9.610/98), generosamente chamada de LDA, e constituem uma vasta gama de prerrogativas morais e econômicas do autor e/ou daquele que faça suas vezes (aqui entra a usurpadora indústria cultural, mas isso é um papo pra outro dia). A lei penal não criminaliza apenas o ato da reprodução não autorizada de obra intelectual, mas também toda e qualquer conduta contrária aos direitos previstos na LDA. Então, como esta lei, em seu artigo 24, inciso II, diz que é direito do autor ter seu nome vinculado a sua obra, é crime, por exemplo, copiar posts inteiros de blogs na internet sem citar a fonte. Se um dia me prenderem por baixar mp3, que prendam também o Antônio Tabet do Kibe Loco. Motivos não faltariam. Levem em cana também todo mundo que já assistiu a vídeos não autorizados no Youtube ou Google Video, etc (armazenamento temporário também constitui reprodução – vê lá o artigo 5º, inciso VI, da LDA). Ah! Encarcerem também os responsáveis por todas as lojas envolvidas no rolo que o Reuben citou nesse post aqui, por infringirem direitos sobre execução pública.

Como se vê, o conteúdo de apenas um artigo da lei criminal é tão ridiculamente abrangente que seria capaz de encarcerar o país inteiro. Não há qualquer menção a exceções, a não ser para cópias feitas para uso do próprio copista – é aquele caso de você fazer uma cópia em mp3 daquele disco que você comprou. Mas não se preocupe, um dia eles conseguem incriminar essa conduta também.

O mais tragicômico nisso tudo é que os homens da lei – esses que dizem ser nossos representantes – recrudescem cada vez mais o aspecto repressivo de normas cada vez mais vazias e ineficazes, no afã de corresponder a um lobby desesperado de entes privados que se vêem no direito de atropelar todo e qualquer benefício e intento coletivos, sem muito sucesso, ainda bem. Não tá na hora de acontecer com o art. 184 do Código Penal o mesmo que aconteceu com o crime de adultério, hein? Hein?

No segundo post para este texto eu volto comentando a estupidez da criminalização da pirataria envolvendo lucro.

[Edson Andrade de Alencar.]

Crédito das imagens:

1)Como Remover a Mensagem “Esta Cópia do Windows não é Original'”

2)eMule in Jail

3)Index Librorum Prohibitorum

4)To Begin Transmission

Instrucciones (3)

Roubo de Leonardo o título pra seguir falando sobre os links à direita. Aquilo que de cara soa como clichê: logo em seguida ao lançamento de In Rainbows, certo DJ e produtor californiano aparece com a idéia que qualquer um de nós esperaria dum DJ — remixar as faixas do disco.

Aquilo que poderia ser um pouco mais. Amplive imaginou lançar o disco [arquivo zipado, 08 faixas, duas a menos que o original, em 320kbp] pela W.A.S.T.E, a loja virtual do Radiohead, e somente pra quem houvesse baixado a versão da banda [eu gosto mesmo de viver num tempo em que dá pra chamar o original de versão da banda.].

Aquilo que não deu certo. Antes do lançamento oficial de Rainydayz [mas não antes da circulação de faixas avulsas na rede], Amplive recebeu uma notificação da Warner/Chappell informando sobre, tu sabe, a ilegalidade do projeto, o quão desinteressante seria para a empresa a vinculação oficial do Radiohead ao trabalho do DJ [através da disponibilização do disco na loja da própria banda] e a impossibilidade de continuá-lo sem nefastas consequências.

[Nada se disse sobre a posição da banda sobre o caso. Ou vai ver foi a banda quem não disse nada.]

Pra encurtar a história, quando já tinha mesmo desistido de lançar o disco, Amplive conseguiu autorização pra disponibilizar Rainydayz para download gratuito aqui.

Acredito que faço parte de uma maioria de pessoas que ouviram o disco sem a menor pista de quem sejam Too $hort, MC Zumbi, Chali2na, Codany Holiday ou Del The Funky Homosapien, familiarizadas que estamos com a música do Radiohead e razoavelmente ignorantes que somos sobre o que se passa no rap. Vergonhoso, no caso daqueles que como eu se interessam por essa fértil cultura de reciclagem que é o remix.

Também acredito, provavelmente com os mesmos colegas de maioria, tratar-se de um disco pouco ousado para a proposta, sobretudo no que se refere às batidas — a monotonia ritmica do rap fica em geral bastante evidente e prejudica canções originalmente desafiadoras até para o Radiohead [como 15 Steps, agora 15 Stepz].

Mas talvez isto que eu e a maioria encaramos como perda seja só a inserção do pós-rock (ou indie, nem sei mais, nem ligo) numa outra lógica musical, e represente aquilo que a apropriação da tecnologia por culturas economicamente subalternas [como o rap ainda é, apesar dos rappers de MTV] significa de melhor: que eu e tu vamos ter que engolir sim o outro, e que esse mesmo outro não pensará duas vezes antes de transformar o que bem quiser em seu.

O que aliás me remete ao que escapa à lógica econômica da Warner: essa disposição de apropriar-se é a mais comprometida das homenagens.

[Reuben da Cunha Rocha.]

De e-livros e livros

É visível, a livre distribuição e consumo de literatura na rede ainda não alcançou a mesma dinâmica que o tráfego de arquivos de som e vídeo, e o que talvez à primeira vista possa não passar de um reflexo da frágil educação brazuca possui pra mim uma causa mais imediata e ao mesmo tempo de mais fácil remédio: o formato.

[Abro em meu computador a pasta de ibúks e reparo na profusão de peixes fora d’água, livros que são apenas isso, livros, mídias da idade da imprensa perdidas no espaço da tela, e não tenho paciência pro incômodo de lidar com aquelas páginas e volto a este texto.]

Há por um lado e evidentemente iniciativas como o Dossiê Deleuze, das quais não se poderia mesmo cobrar coisalém dos scans das obras [repara que estão lá inclusive os livros caprichados da editora 34, gloriosamente grátis], e é o caso na verdade de tirar o chapéu para a disposição de se catalogar e disponibilizar um acervo pirata tão variado e cuidadoso. 

Mas para mim o dossiê consegue funcionar apenas como espaço de referência, nunca de leitura integral, e a iniciativa assim me diz algo sobre o problema do formato, e me diz que o problema reside em etapas anteriores ao consumo das obras, reside na produção e na distribuição, os pontos do processo onde se encontram autores e editores. A escassa leitura de livros na rede fala portanto da indisposição dos autores de escreverem para esse espaço [e, ah, abandonarem as prateleiras e a longo prazo as traças], ou do desinteresse das editoras em explorarem esse tipo de produto.

Entre os escritores as excessões, e entre as excessões gostaria de destacar o poeta Marcelo Sahea, que estreou em 2001 com o e-livro ‘ejs [15 mil downloads em 1 ano, esgotado]. À estréia se seguiu carne viva, e-livro que depois virou livro e, esgotado, voltou ao formato original [download aqui], e de onde o poema visual que abre este texto foi tirado. Na sequência veio leve (2006), em livro, que Marcelo pretende jogar na rede assim que esgotar.

[Mas baixa lá o carne viva antes de continuarmos. É que talvez o livro ganhe uma reedição e saia do ar, e só volte quando novamente esgotado. “A idéia é deixá-lo acessível. Se não tem no mercado, tu baixa. Se tem, compra e me ajuda”, palavra do autor.]

O livro de Sahea tu lê assim que baixa, e até o fim. O formato das páginas é ideal [elas abrem inteiras na tela] e a metragem do livro, adequadíssima. Só a tua preguiça pode te impedir de lê-lo inteiro, de uma vez. Também a imaginação veloz e altamente visual do poeta transformam a obra num produto perfeito, a começar de que sei que Marcelo não se ofenderá com a palavra produto. Visual é mesmo uma boa palavra para o livro, objeto pensado para a visibilidade, prazer dos olhos.

Como também o são, no caso das editoras, os discos-para-ler da Mojo Books. O ponto de partida da editora [100% virtual] é a pergunta: se um disco fosse um livro, que história contaria? E independente da resposta a pergunta aponta para duas características de que todo o seu catálogo se beneficiará: a popularidade da canção e, ele novamente, o formato, nesse caso de cd.

Funciona assim: tu te cadastra pra baixar os livros [os singles, ou comix] e pra enviar material também. Nesse caso, escolhe um disco [ou música, para escrever um single] e segue as orientações [as obras não devem fazer qualquer referência direta aos discos e devem obedecer a um limite específico de caracteres, por exemplo].

Embora o trabalho da editora seja uma excelente lição sobre livros virtuais, é preciso dizer que frequentemente a qualidade dos produtos deixa a desejar. O ponto de partida sendo a música, ocorre o curioso efeito de por vezes os trabalhos enviados serem realizados por fãs das bandas, não por escritores. Por ouvintes afetuosos, mas sem grandes preocupações ou envolvimentos com a linguagem. Ainda assim, há experiências a serem conferidas, como a do graaaaande Gastão Moreira [VJ do tempo em que a MTV tinha música no M, depois piloto do Musikaos na TV Cultura] e da escritora Andréa del Fuego [de quem li Engano Seu e gostei].

E banda boa tem um monte também!

[Reuben da Cunha Rocha.]

Instrucciones (2)

O próximo link da enorme lista aqui à direita, ainda no tópico Baixe Música, é o do Blog Del Topo. Trata-se de um bom site para começar – e continuar, provavelmente – a conhecer o rock sulamericano, especialmente o rock argentino. Foi ali que conheci o Sui Generis e o Almendra, duas bandas bastante conhecidas lá pela Argentina, mas que por aqui restringem-se a pouquíssimos guetos de apreciadores. O Almendra é a primeira banda de Luis Alberto Spinetta, figura das mais importantes do rock argentino; já o Sui Generis é a primeira de Charly García, outra figuraça da linha fundadora do rock naquele país.

Depois vem o Deacon Blues & Soul. Pelo nome, obviamente trata-se de um blog especializado em blues e soul, com links para diversos álbuns das áureas épocas dos dois ritmos. Vale uma passadita, se te gusta.

Por fim, o Brazilian Nuggets. Blog já conhecido por aqui, tem um baita acervo de discos raros da psicodelia brasileira das décadas de 1960 e 1970. E o raro aqui não é força de expressão; boa parte dos discos ali trazidos para download não pode ser mais encontrada no mercado, a não ser nas mãos de sebistas e colecionadores, geralmente a preços nada módicos.

***

Bueno, para não ficar muito chato esse post, aqui abaixo vai o vídeo de “Color Humano“, do Almendra, que tem talvez um dos melhores riffs já criados na história do rock (e não só do argentino, veja bem). É daquele tipo de música boa de bater cabeça, de preferência no ritmo do riff inicial, e de cantar extremamente alto, acompanhado de mais umas quatro pessoas no mínimo. Claro que no solo do meio da música o air guitar é indispensável.

[Leonardo Foletto.]