Streaming e a “pirataria” digital atuam em parceria?

Faz alguns anos que, aqui no BaixaCultura, temos uma seção em que publicamos trabalhos acadêmicos (TCCs, dissertações e teses) sobre os temas que tratamos (cultura livre, direito autoral, compartilhamento, “pirataria”, guerrilha da comunicação, contracultura digital, tecnopolítica), acompanhados de textos mais soltos que apresentam os trabalhos. Alguns dos trabalhos trataram, por exemplo, da relação do jornalismo com o compartilhamento a partir do The Pirate Bay; das táticas antimidiáticas contra o biopoder de Luther Blisset; da batalha entre propriedade intelectual e a cultura livre; um zine-dissertação que fala de produção de conhecimento.

O de hoje é a tese de Andressa Soilo, pesquisadora e agora doutora em Antropologia Social pela UFRGS. Abaixo está o texto que ela fez especialmente pra apresentar sua tese; ao final, seu trabalho está disponível na íntegra.

[Leonardo Foletto, editor]

 

O tema de minha tese surgiu de meu interesse pela prática da pirataria, e da então atraente e promissora tecnologia streaming. Em 2015, quando ingressei no doutorado em Antropologia Social na UFRGS, quando ainda sondava a temática de minha futura tese, o streaming vivia o apogeu de sua popularidade enquanto meio de distribuição e consumo de entretenimento, e irrompia como promessa, esperança, solução para aqueles desconfortáveis com a prática dita “pirata” – acesso não-autorizado de conteúdo.

As expectativas e os novos ares que tal tecnologia mobilizava à época estavam associados, sobretudo, a um possível declínio, e até morte da pirataria em razão das (cativantes) plataformas de streaming existentes. Essa atmosfera mobilizou não apenas um estranho frenesi pelo possível óbito de uma prática que resistia há duas décadas a nível global, mas também meu interesse em analisar as relações entre as plataformas de transmissão instantânea e a pirataria. Afinal, seria o colapso de um meio de acesso a conteúdo altamente popular? Seria o fim da pirataria? Quem recorreria a tal prática após a sólida notoriedade de serviços como Spotify e Netflix? Estaria a pirataria tão distante de tal tecnologia?

As perguntas eram diversas. Não havia quem, em meu círculo social, que não comentasse de alguma série ou documentário que assistiram na Netflix, ou que não mencionasse as playlists que faziam ou que lhes eram recomendadas pelo Spotify. O que a pirataria tinha a ver com essa localização de diversos adoradores do entretenimento na legalidade? Muito.

No período de julho de 2015 a maio de 2019 analisei, através etnografia no campo digital, as relações entre pirataria e o mercado legalizado de streaming de filmes, músicas e produções correlatas. Minha pesquisa teve como interlocutores, dados, campo e meio de transporte ao campo, o espaço digital oportunizado pela internet. Os agentes, as interações observadas, os dados produzidos foram possíveis através de redes de transmissão de dados, backbones, provedores de acesso, url’s (Uniform Resource Locator), sites, programas, algoritmos, hardwares, entre tantos outros agentes sociotécnicos capazes de produzir e estabelecer mediações entre pessoas e o contexto digital.

Analisei, especialmente, manifestações de serviços de streaming que tem como principal finalidade a venda de acesso/assinatura, como Spotify, Deezer, Netflix, Tidal, Hulu e Amazon Prime Video; as agências de 314 interlocutores localizados em 31 países praticantes da “pirataria” na mídia social Reddit, mais especificamente no subreddit Piracy; e a agência do programador da plataforma de streaming Leonflix, plataforma considerada pirata.

Após inúmeras horas de interação e análise no campo digital e depois da coleta de centenas de relatos e discursos de interlocutores, foi a mim possível visualizar respostas às perguntas que inicialmente me instigaram a produzir minha tese.

A pirataria não se apresenta “fora” da distribuição e consumo legalizados do entretenimento. Ela é uma coautora de tal formato de acesso, influenciando, inspirando e dialogando com o circuito da indústria formal. Minha pesquisa permite argumentar que a “pirataria” e os serviços de streaming atuam dialogicamente de modo a integrarem uma maleável e mutável cadeia relacional de negociações atravessada por moralidades, sentidos de justiça, criatividades, interações com a lei e desejos.

Constantemente ajustada por segmentos considerados ilegais, o mercado do entretenimento em streaming é produzido tanto por CEOS’s, produtores e artistas, quanto por programadores e usuários “piratas” que estabelecem, muitas vezes através de vias extralegais, os padrões do “dever ser” da indústria.

[Andressa Soilo]

A tese, chamada Habitando a distribuição do entretenimento: o regime de propriedade intelectual, a tecnologia streaming e a “pirataria” digital em coautoria“, está disponível para consulta e download.

Como usar torrent e baixar conteúdo compartilhado grátis

 

Em setembro de 2019, o CGI liberou novos dados sobre o uso da internet no Brasil. Já chegamos a 70% da população com acesso à internet, e 97% desse grupo faz isso via celular. O número disparou desde os últimos levantamentos, considerando que o acesso via celular e rede móvel propaga-se com muito mais facilidade que a distribuição via estrutura de telefonia fixa e máquinas de mesa. Em alguns lugares do país, é muito provável que se tenha internet via smartphone e 3G mas não saneamento básico. A maioria das pessoas utiliza a rede pra solicitar carros, comida, ou consumir música e vídeo por streaming, conforme dados da mesma pesquisa, que pela primeira vez reportou também como é utilizada a internet.

Mas a rede nem sempre teve essa configuração de acesso e uso.

Depois do surgimento da banda larga, quando os usuários ainda eram equipados por computadores e notebooks, a rede viveu um período de explosão de compartilhamento gratuito entre usuários, e que muitas vezes configurava pirataria de músicas, filmes, séries, livros, software e jogos de videogame.

Durante anos, a indústria sangrou, sofrendo com a pirataria, lutando judicialmente em busca da derrubada de sites, retirada de links piratas dos buscadores, e até denunciando usuários, que infelizmente eram feitos de exemplo para o resto da rede e podiam acabar presos ou recebendo multas estratosféricas por consumir conteúdo protegido pelo tão injusto direito autoral.

Demorou, mas apoiados pelo aumento da capacidade de servidores e da velocidade de conexão, os estúdios cinematográficos e gravadoras aprenderam que o usuário pirata estava disposto a pagar se tivesse acesso a essa possibilidade e apresentaram os serviços de streaming, usados hoje nos mais diferentes produtos (inclusive piratas, como o conhecido Popcorn Time), provavelmente por resolverem a questão com a solução mais fácil de todas: clicar e consumir instantaneamente.

Com a popularização desses serviços de streaming, no entanto, os membros do seleto oligopólio do entretenimento começam agora a bater cabeça. Artistas passam a assinar contratos exclusivos com serviços de streaming (como Beyoncé no Tidal), os grandes estúdios de filme passam a criar seus próprios streamings e barrar seus filmes dos outros (como é o caso da Disney, prestes a lançar o Disney+), e o usuário é obrigado a escolher entre Amazon Prime, HBO, Globoplay, Netflix ou Disney+, pra ficar apenas no audiovisual recente.

Nesse cenário, por motivos diferentes dos quais originalmente fizeram o compartilhamento livre tão popular, uma velha tecnologia reaparece com importância: o torrent, capaz de nos entregar, pelas mãos de outros amigos usuários, o conteúdo que a indústria quer que sejamos obrigados a escolher dentro de seus muros pagos.

Como o boom de acesso à internet veio depois dessa nova era, equipada por redes e aparelhos móveis, uma geração inteira de usuários não aprendeu a usar o torrent, e nunca teve interesse pelo compartilhamento gratuito e acesso indiscriminado de conteúdo protegido por direito autoral, uma discussão que já deu muito pano pra manga, e está passando por um novo período no Brasil, com uma consulta pública aberta recentemente, afim de reformular a Lei do Direito Autoral do país, uma das mais restritivas do mundo.

Pois então, está na hora de aprender a usar o torrent.

O que é exatamente Torrent

“Torrent” acabou virando verbo e sinônimo, o nome da tecnologia, do arquivo, do programa, do site e do processo de baixar arquivos. Tudo é torrent na cabeça de quem usa a tecnologia, e talvez por isso ela pareça tão misteriosa para quem nunca aprendeu como funciona.

Em termos técnicos, torrent é um protocolo de comunicação para compartilhamento peer-to-peer (P2P), utilizado para transmitir arquivos eletrônicos (definição via tradução livre da Wikipédia em inglês). Mas o que importa desse conceito é saber que torrent é o meio pelo qual usuários compartilham arquivos uns com os outros, através de suas máquinas.

O grande diferencial desse meio é o fato dele ser descentralizado, e não depender da conexão com um servidor que hospede toda a informação que se deseja acessar. Através do P2P, a máquina que quer receber o arquivo se conecta com diversas outras que já possuem o arquivo, e recebe pequenas partes dele vindas de cada um até ter o arquivo inteiro.

Digamos assim: em vez de pedir pra um amigo trazer o fardo de cerveja para o churrasco, solicito uma lata pra doze amigos, dividindo o fardo entre todos. O churrasco recebe a mesma quantidade de cerveja, mas o risco do amigo não trazer a dúzia e deixar todo mundo na mão é pulverizado nos doze participantes, que além de dividirem os custos do fardo, dividem a responsabilidade de fornecimento, numa parcela reduzida.

Como funciona o P2P (peer-to-peer)

Comparativo: rede P2P vs rede com servidor centralizado

É diferente de como utilizamos a internet normalmente. Em vez de entrarmos no navegador ou aplicativo, digitarmos um endereço e solicitarmos uma conexão com o servidor do site que buscamos, o qual entrega essa conexão baseado na velocidade do servidor único, acontece mais ou menos o seguinte:

  1. Entramos em um site que hospeda torrents (aqui estou usando o termo genericamente);
  2. Procuramos por um link magnético daquele arquivo que queremos baixar;
  3. Esse link magnético contém um arquivo .torrent com um código (chamado hash) que é aberto em um programa (chamado cliente);
  4. O cliente abre o link magnético e solicita que se escolha onde se deseja salvar o arquivo e quais partes dele queremos baixar;
  5. O cliente, que está servido dos rastreadores (chamados trackers), usa o hash para buscar todos os usuários que possuem uma cópia do mesmo hash em seu computador e estão com seu próprio cliente de torrent aberto, podendo copiá-lo;
  6. O cliente de torrent faz a cópia do arquivo para a sua máquina no local onde escolheu salvar.

Essa cópia de arquivo é feita simultaneamente em diversas máquinas, até centenas, caso seja algo que muitas pessoas estão compartilhando (digamos, o último episódio lançado de Game of Thrones).

Percebe-se que diversas partes desse fluxo que relatei acima não são realizadas pelo usuário, apenas fazem parte da tecnologia. O que o usuário precisa fazer mesmo é baixar um cliente de torrent, entrar num site de torrent, escolher o arquivo pra baixar, e selecionar onde salvar ele na máquina. Só isso basta pra começar a utilizar torrent, e são essas etapas que vou descrever abaixo.

Como usar: Passo 1 – Baixar um cliente de torrent

O cliente de torrent é o programa que tem que estar instalado no seu computador para abrir os links magnéticos de torrent. Como descrevi antes, é ele que consegue pesquisar o hash na rede e descobrir outros usuários que tem o arquivo que será copiado pra sua máquina.

Existem diversos clientes de torrent internet afora, sendo o mais famoso o uTorrent, o qual eu não recomendaria porque nos últimos anos teve alguns problemas de ramsonware em anúncios com Flash que rodavam dentro do programa, e por minerar criptomoedas no computador de usuários [ref Tecnoblog].

Utilizo o qBitTorrent, que é muito satisfatório, possui todas as funcionalidades necessárias, e não tem anúncios. Nessa lista temos ainda outras opções de clientes, o que pode ser útil para ajudar a escolher.

Como usar: Passo 2 – Entrar num site de torrents

Sites de torrents são como uma mato fechado que volta a se fechar muito rapidamente depois de aberta uma trilha. É preciso entrar a facão toda vez que se deseja utilizar, mas depois de certo tempo começamos a conhecer a rotina e fica fácil. O usuário de torrent acaba se acostumando com o fato de que sites são derrubados e reativados todos os dias, e aprende como pesquisar de forma a sempre achar o melhor arquivo.

Recomendo pesquisar sempre pelo site torrentz2.eu. Esse nome engraçado é porque é uma reanimação do finado site torrentz, que foi fechado por questões ainda desconhecidas.

O torrentz2.eu é um buscador de torrents. Pesquise por ali o arquivo desejado, e receba numa lista todos os sites que hospedam aquele arquivo. Eu recomendo sempre escolher aquele site que oferece o arquivo com mais seeds, que pode ser facilmente entendido olhando no número indicado ao lado direito do nome do arquivo.

A homepage do torrentz2. Podemos ver que ele contabiliza quantos arquivos .torrent estão sendo buscados por ele
Uma página de buscas do torrentz2. Nessa lista estão todos os arquivos torrent que tem algo a ver com o que você pesquisou. Após clicar, você é redirecionado para uma página que contém os sites que hospedam aquele arquivo. Aí é só escolher uma página e aguardar ser redirecionado.

 

Depois de selecionar um arquivo, ele abre esta página, onde aparecem todos os sites que hospedam o arquivo. Clique em um dos sites para ser redirecionado ao arquivo.

Confesso que depois que o torrentz renasceu com esse novo nome, me tornei meio dependente dele.  Durante alguns meses do ano passado, ele ficou desativado (também por razões desconhecidas até hoje), e passei algum apuro pra encontrar arquivos. Vida longa ao torrentz2.eu, portanto. Para evitar isso, aqui tem uma lista de sites variados de torrent.

É isso: você entrou no site, achou o arquivo desejado, clicou no link magnético, e escolheu o lugar pra salvar o arquivo. Agora deve-se aguardar o arquivo ser copiado pra máquina, conforme a velocidade de download que o cliente informa em tempo real.

Como usar: Passo 3 – Navegar em um site de torrents

Sites de torrent estão um tanto defasados, eu diria. É claro que como os mantenedores estão preocupados em manter o pescoço sobre a água, tentando manter no ar um site que serve de abrigo para muita pirataria, não sobra muito tempo pra pensar em user experience e layouts intuitivos. Provavelmente a vida de um mantenedor desses sites deve ser infernal – e tudo costuma ser feito por motivação pessoal e esforço próprio.

Aqui abro um parênteses: a perseguição contra os sites de torrent deve ser sempre combatida pelo usuário. Fundadores do Pirate Bay já foram até mesmo presos com acusações muito duvidosas de infringir o direito autoral, sendo que o site de torrent não é responsável por pirataria de forma alguma. Perceba que nenhum arquivo pirateado é mantido dentro dos servidores do Pirate Bay, por exemplo. Os arquivos estão nas máquinas dos usuários. O trabalho deles é fornecer a chave que conecta um usuário interessado em copiar de outro interessado em repassar o arquivo copiável. Depois de uma das derrubadas do Pirate Bay, que viriam a se tornar frequentes, surgiu o doc”Steal This Film”, onde fica clara a luta da indústria contra o torrent. Exibimos certa vez ambos os filmes no ciclo copy, right?, lá em 2009, em Santa Maria-RS.

Além do mais, o torrent não é pirata por natureza. Se o conteúdo for compartilhado com licença Creative Commons ou for de domínio público, ele também pode ser dividido por torrent. Nem todo torrent é arquivo pirata, e nem todo arquivo pirata é torrent. Aqui um adendo: com receio de ser rastreado, muita gente tem o costume de usar VPN ao baixar um arquivo de torrent. O VPN (em inglês, Virtual Private Network) cria uma conexão segura e criptografada, como um túnel, entre o seu computador e um servidor operado pelo serviço VPN

Uma explicação sobre o compartilhamento aberto está nesse outro documentário, “Good Copy Bad Copy”, que também exibimos no ciclo copy, right? em 2009.

Pois bem, voltando aos sites de torrent: é recomendável baixar uma extensão bloqueadora de anúncios no navegador para evitar de clicar em um lugar errado dentro do site. Também é sempre bom passar o mouse por cima dos links e observar no navegador pra qual lugar eles direcionam antes de clicar.

O link correto pro arquivo magnético normalmente tem o desenho de um imã ou escrito “Download Magnet”, e quando se passa o mouse por cima do link vai aparece o endereço no canto inferior esquerdo do navegador como “magnet:[código aleatório]”
Como usar: Passo 4 – Achar o link magnético, abrir o arquivo no cliente de torrent e escolher onde salvar

Quando clicar no link, o navegador vai pedir para abrir no seu cliente de torrent. Aí é só aceitar e aguardar o seu cliente achar o arquivo na rede. Depois selecionar a pasta onde deseja baixar e clicar ok.

Depois de clicar no link, seu navegador pede pra abrir o tipo de arquivo com o programa de torrent do seu computador
Várias informações no cliente de torrent, mas destaco: qual arquivo virá dentro do torrent (só tem um, que é o episódio da série) e onde ele vai ser salvo.

É isso: você entrou no site, achou o arquivo desejado, clicou no link magnético, e escolheu o lugar pra salvar o arquivo. Agora deve-se aguardar o arquivo ser copiado pra máquina, conforme a velocidade de download que o cliente informa em tempo real.

Essa velocidade de download depende da quantidade de usuários online que estão te deixando copiar o arquivo naquele momento. E aí entra o conceito importante da utilização do torrent: seeds.

Como usar torrent corretamente (entendendo seeders e leechers)

Nesse ponto, consegui explicar como começar a copiar arquivos por torrent. O que foi explicado basta para o processo funcionar, mas para ele dar certo de verdade, é importante entender o próximo conceito.

Seeders e leechers (semeadores e sanguessugas) são como são referidos os usuários (peers) de torrent. Ao entrar no site de torrents e procurar o arquivo desejado, nota-se a quantidade de um e de outro que aquele arquivo possui.

SEEDERS são os usuários que possuem o arquivo completo e mantém o cliente de torrent aberto para que outros usuários possam copiá-lo.

LEECHERS, os sanguessugas, são os usuários que não tem o arquivo completo e não conseguem copiá-lo, e ao mesmo tempo também são aqueles usuários que não compartilham seus arquivos normalmente, seja porque diminuem a velocidade de upload ou porque não deixam o cliente de torrent aberto.

Ser um semeador ou sanguessuga depende de quanto tempo seu cliente de torrent fica aberto, e quantos arquivos você deixa outros usuários copiarem do seu computador. Ser um seeder faz com que você tenha prioridade nas filas de download, e ao baixar um arquivo ao mesmo tempo que diversas pessoas estão fazendo isso, você recebe o arquivo antes.

Ao deixar seu torrent aberto, você permite que outros usuários copiem arquivos do seu computador, e quando você precisar copiar, vai ter prioridade na fila.

Mas perceba que ter prioridade para baixar é apenas um bônus de ser um seeder. A verdade é que o torrent simplesmente não funcionaria se os usuários não deixassem o cliente de torrent aberto para outros poderem copiar.

Muitas vezes só encontramos aquele filme italiano dos anos 70 online porque algum usuário da Dinamarca deixou ele em seu cliente de torrent e manteve o programa aberto tempo o suficiente para que você possa copiar. E se você deixar aberto no seu computador também, já são dois usuários para que o terceiro possa copiar ainda mais rápido, e assim sucessivamente.

É por isso que baixamos arquivos quentes, como o episódio mais recente da série mais famosa, em até dois minutos. Muitas pessoas estão semeando esse arquivo ao mesmo tempo. Filmes e séries mais raros podem demorar mais, mas mesmo assim o torrent pode ser o único jeito de ter acesso aquela conteúdo que nos interessa. Eu mesmo só consegui terminar de assistir a série Friday Night Lights, uma série americana de 2004 que passava na televisão aberta, pela benevolência de algum usuário que até hoje mantém aquele arquivo semeado em seu computador.

Ou seja, para o sistema funcionar bem, é importante deixar o cliente de torrent aberto no computador. É claro que para não degradar a qualidade da sua navegação, é possível limitar a velocidade de upload, para digamos 100 kB/s. Dessa forma, você deixa a pessoa copiar o arquivo da sua máquina com no máximo essa velocidade, e a sua navegação não é prejudicada.

Retomar a independência online é importante

Usar serviços de streaming, como Netflix ou Spotify, se tornou um conforto incontornável. São milhares de músicas e filmes disponíveis para o usuário a um clique de distância. E muitas vezes não é preciso nem procurar: ele te sugere o que ver ou ouvir. E é no momento em que abdicamos de escolher ativamente o que queremos que perdemos a independência.

Mas apesar de oferecer milhares de filmes, é muito difícil sair da centena que o Netflix apresenta na primeira página. Alguns artigos na internet já surgiram distribuindo códigos para pesquisar mais profundamente nos anais do acervo, mas fazendo isso, perdemos toda a lógica de conforto que o serviço propõe (apesar de já ser melhor do que ficar olhando as mesmas séries banais recomendadas).

Mudando de mídia, imagine como era antigamente: ao adquirir um vinil, investíamos nosso dinheiro no valor que aquele álbum nos traria, e ele era nosso. O esforço se transformava em valor quando ouvíamos o disco, e podíamos escolher entre todos aqueles que estavam na nossa coleção, comprados por nós.

Agora, ao nos depararmos com a página inicial do Spotify, temos centenas de playlists indicando o que é mais ouvido, o que parece mais com nós, o que foi feito recentemente. Nosso gosto interessa levemente pra ele, o máximo suficiente para que paguemos pela sua atenção. Não é mais pela música que estamos pagando, e sim pelo serviço de nos dizer o que ouvir.

Mas como sabemos que o interesse de nos dizer o que ver ou ouvir é voltado pra nós?

Através do torrent, temos a liberdade de consumirmos o que quisermos, ao tempo que quisermos (sem a frustração do Netflix tirar a série que estávamos olhando) e podemos compartilhar o que quisermos, como retribuição.

Victor Wolffenbüttel

Porto Alegre em Conexões Globais

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O Conexões Globais do ano passado foi notícia por aqui, além de ter sido um baita evento para Porto Alegre. Este ano tem de novo e já começa amanhã, a partir das 13h, na Casa de Cultura Mário Quintana, com diversos diálogos, shows, oficinas e ideias livres – veja aqui a programação e escolha o que mais lhe agrada. Se não tiver em Porto Alegre, fique tranquilo que rola streaming no site.

Nós recomendamos fortemente pelo menos três cousas (que na verdade são 7):

_ o debate “Conhecimento livre na rede“, na quinta-feira 23/5, às 18h, com webconferência de Peter Sunde (Flatrr e do Pirate Bay), os habituees de eventos de cultura digital (mas sempre de falas importantes) Ronaldo Lemos e Sergio Amadeu, Gustavo Anitelli, produtor do Teatro Mágico e um dos integrantes do Música para Baixar – MPB, e Jéferson Assumção, secretário adjunto de cultura do RS, escritor, jornalista e grande entusiasta da cultura digital no governo.

_  os shows de Jorge Mautner, o “filho do holocausto“, com Bem Gil, filho de Gilberto, na quinta-feira 23/5 às 19h30,  Frank Jorge sexta 24/5 às 19h30, Pedro Munhoz, um trovador a serviço da música livre, na sexta 24/5 às 17h30, e Tonho Crocco, ex-vocalista do saudoso Ultramen, sábado 25/5 às 17h30.

_ “Comunicação e Poder na Era da Internet“, com os jornalistas Cynara Menezes e Franklin Martins, a secretária de comunicação e inclusão digital do RS Vera Spolidoro, e Natália Viana, da Agência Pública. Como webconferecista o pesquisador português Gustavo Cardoso, parceiro de Manuel Castells e coordenador do Mestrado em Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação do Instituto Universitário de Lisboa.

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O BaixaCultura também estará presente no evento em parceria com a Casa da Cultura Digital Porto Alegre para organizar o Cineclube CCD Conexões Globais. Nesta 3º edição do Cineclube, o espaço utilizado vai ser o mezanino do 2º andar da CCMQ, onde será organizado um lounge com a presença de games para os participantes do evento (não só) se divertirem nos intervalos (ou não) das palestras dos três dias do evento.

O formato desta 3º edição do Cineclube se altera em relação as outras vezes: em vez de uma única exibição seguido de uma conversa sobre os temas do filme, serão 3 sessões diárias de exibição de filmes, nos horários das 13h, 16h e 18h, durante os três dias do evento – quinta 23, sexta 24 e sábado 25 de maio.

Serão mostrados filmes (curtas e longas) relacionados a cultura digital e a cultura livre, filmes que discutem software livre, remix, sampling, direitos autorais, produção cultural, games, entre outros temas – boa parte deles já exibimos nas outras edições do ciclo copy, right?

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Pra reforçar/provocar a ideia de que game também é cultura (digital), no sábado 25 de maio, às13h, será realizada uma seção especial sobre games com a exibição de “Indie Game” e a participação de convidados para o debate posterior ao filme.

Vale dizer que os indie games são jogos criados por uma única pessoa ou por equipes pequenas (muitas vezes grupos de amigos), em geral sem o apoio financeiro de empresas. Por não contarem com recursos para a criação de jogos enormes e cheios de recursos, os desenvolvedores indie costumam focar na criatividade e na inovação. Alguns indie games que já alcançaram popularidade são Minecraft, Rock Band, ArmA, Eve Online, RuneScape, Braid e Angry Birds.

O documentário, dirigido em 2012 por Lisanne Pajot e James Swirsky, acompanha o processo de criação de três populares jogos indie: Braid, FEZ e Super Meat Boy. O filme participou da seleção oficial de Sundance em 2012 e foi escolhido o melhor documentário pela crítica.

Veja os horários aqui abaixo e aqui a sinopse de cada filme. Boa parte deles está na nossa BaixaTV, e os que não estão estarão depois do Cineclube.

Quinta – 23 de maio
13h – RIP: A Remix Manifesto (2009, 86 min)
16h – The Pirate Bay: Away from the Keyboard (2013, 82 min)
18h – Sessão Produção Cultural no Brasil  (2012, 15 min)

Sexta – 24 de maio

13h – Copyright Criminals (2009/56 min)
16h – Remixofagia – Alegorias de uma Revolução (2011, 16 min)
18h – Patente Absurdo (2011, 28 minutos) + Arduíno – o documentário (2011, 28 min),


Sábado – 25 de maio
13h – Indie Game (2012, 94 min)
16h – Tudo é remix (2010-2012, aprox. 56 min)
18h – Brega S/A (2009, 56 in.)

Cineclube CCD em Porto Alegre

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Minha aportada por terras gaúchas, desde fevereiro de 2013, traz um primeiro evento aqui para falarmos no Baixa: trata-se do Cineclube Casa da Cultura Digital Porto Alegre.

O cineclube pretende exibir vídeos produzidos com base nos conceitos da cultura digital. São obras que discutem a questão dos direitos autorais, o copyleft, cultura livre, remix, redes sociais, cultura hacker, ciberativismo, software livre, liberdade na rede, compartilhamento, entre outros assuntos que entram no escopo da ideia de cultura digital. O BaixaCultura entra como parceiro da empreitada.

É uma espécie de continuidade do ciclo copy, right?, que foi realizado três vezes nos últimos anos, duas em Santa Maria-RS (primeira, segunda), em dois centros culturais locais, e uma em São Paulo, no Centro Cultural da Espanha. Agora: exibição de filmes (geralmente com menos de 1h30) seguido de comentários de algum convidado e/ou informado sobre o assunto do filme em questão.

A diferença dessa vez é ter uma periodicidade fixa (1x por mês), ser realizado num espaço maior (o teatro Bruno Kiefer, localizado no 6º andar da Casa de Cultura Mário Quintana, este prédio lindão logo abaixo onde a CCD POA está sediada) e ter sempre uma surpresa antes do filme.

A dessa estreia, dia 28 de março às 18h30, é a participação do  grupo Escuta, formado por mais de 30 compositores baseados em Porto Alegre que apostam nas composições autorais e num som baseado no violão e voz. Sediaram um primeiro festival ESCUTA, em dezembro de 2012 no Teatro de Arena, também em porto Alegre, e desde então vem crescendo em popularidade e qualidade em suas composições.

Kledir Ramil, ex-integrante dos grandes Almôndegas – a provável melhor banda de folk rock do país nos 1970 – escreveu recentemente, em sua coluna na Zero Hora, que a essência do grupo “é a mesma dos saraus: novos autores, mostrando suas canções, só de voz e violão. Tudo começou em apartamentos e evoluiu para espaços aberto ao público, não apenas para convidados.

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Na estreia do Cineclube, o filme escolhido é “Tudo é Remix”, documentário em quatro partes (de aproximadamente 10 min. cada uma) dirigido e produzido por Kirby Ferguson, lançado entre 2010 e 2012 na rede. O filme traz para o debate a ideia de que copiar e recombinar é um elemento essencial de criatividade; para isso, discute desde os casos de plágio do Led Zeppelin até as citações constantes ao cinema dos filmes de Quentin Tarantino, passando ainda pela crítica ao sistema de propriedade atual, onde “as idéias são consideradas como propriedade, lotes únicos e originais, com limites distintos”.

Em entrevista ao Baixa, o diretor Kirby Ferguson diz que fez o filme para ”mostrar como copiar é um elemento de criatividade, e de uma forma ou de outra, todos somos cópias”. “Tudo é Remix”, foi financiado por financiamento coletivo (crowdfunding) através do site norte-americano “Kickstarter” e está disponível para exibição na nossa BaixaTV. A exibição no cineclube vai ser em cópia digital com legendas em português.

A segunda data do Cineclube está marcada para o dia 23 de abril, no mesmo local e horário, com a exibição do filme “Arduíno – o documentário”, documentário de 2011 sobre a placa de hardware livre homônima que está revolucionando a produção caseira de objetos e artefatos digitais.

[Leonardo Foletto]

SERVIÇO

Estreia do Cineclube Casa da Cultura Digital Porto Alegre
28 de março – 18h30
(Abertura: Escuta! – O som do compositor, exibição de “Tudo é Remix”, seguido de debate)
Teatro Bruno Kiefer – 6º andar, Casa de Cultura Mário Quintana (Rua dos Andradas, 736 – Centro)

Pirate Bay e o novo mundo compartilhado

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Na tarde de 8 de fevereiro de 2013, escrevemos assim na nossa página no Facebook: “Acabou de ser lançado (14h de hoje), simultaneamente na rede e no Festival de Berlim, e está disponível para download e em streaming no Youtube”. O filme era  “The Pirate Bay – Away From the Keyboard“,  documentário, que já nasceu importante, sobre a história do The Pirate Bay, maior site de compartilhamento de arquivos por torrent do planeta e símbolo da luta pela liberdade de distribuição de conteúdo na internet.

Produzido de forma independente e dirigido pelo sueco Simon Klose, o documentário arrecadou US$ 50 mil no Kickstarter (primeira e ainda a principal plataforma de crowdfunding mundial) para ser produzido. “Após cinco anos de trabalho duro é um grande prazer finalmente fazer o upload do torrent sobre esse grande site nele mesmo. De certa forma, acredito que o TPB AFK finalmente chegou a sua casa”, diz Klose na página do doc. “Este não é apenas um filme sobre os fundadores do TPB, mas também um filme sobre todos vocês que usam o site. Por favor, convertam-no em todos os formatos possíveis e compartilhem o máximo que puderem!”, pede.

O chamado do diretor tem surtido efeito: o filme tem sido visto e compartilhado por diferentes grupos de pessoas, interessados ou não na cutura livre. Está, obviamente, em torrent disponibilizado no The Pirate Bay, onde é possível baixar em 480p, 720p ou 1080p, e em streaming no YouTube, na versão original (com a maioria do áudio em sueco, terra dos fundadores do site) e com legendas nas mais diferentes línguas – inclusive em português, trabalho a cargo do pessoal do Partido Pirata do Brasil.

Não precisamos (mas vamos) dizer o quanto é um filme importante de ser visto. Nos seus pouco mais de 88 minutos, apresenta (e explica) a grande diferença entre “o mundo velho como um vovô com Alzheimer“, baseado em produtos físicos e propriedades fechadas, e o “novo mundo” baseado no compartilhamento e em propriedades abertas. Como faz isso? entre outras coisas, acompanhando o dia a dia dos fundadores do projeto, Peter Sunde, Fredrik Neij e Gottfried Svarthol, e os processos que o TPB tem levado nas costas.

Uma cena tem sido muito comentada: a que Peter Sunde, nosso velho conhecido, explica a um juiz porque “não dizemos IRL (in real life) e sim AFW (away from keyboard): “acreditamos que o que acontece na internet é real”. Outras chegam a ser divertidas, como quando os fundadores tem que explicar às autoridades dos EUA e da Suécia que não tem empregados contratados (“somos amigos que falam por chat”) ou dizer que o TPB não tem arquivos físicos, nem controlam seu conteúdo, apenas mediam os usuários que compartem arquivos via torrent.

tpb-afk

O jornalista espanhol Bernardo Gutierrez diz que o TPB é a inovação que a indústria deveria ter criado. Uma plataforma aberta de encontro e intercâmbio, massiva  a ponto de gerar dinheiro através da publicidade e repartir o bolo com os autores. Diz Gutierrez: “El Imperio del Plástico y del Celuloide Comercial- cuya decadente capital sigue siendo la #PostMetrópolis de Los Ángeles- debería haber creado una plataforma como Flattr, micro mecenazgo para compensar a autores con lógica de red. Pero, oh wait, el innovador Flattr es una iniciativa de Peter  Sunde, ese temible líder de la piratería mundial que fundó The Pirate Bay”.

Ademais da polêmica, “TPB – Away from the Keyboard” é um filme para ver com teus pais, avós, amigxs, namoradxs. Pode ser usado como uma boa desculpa para explicar, mais uma vez, que o mundo mudou e que a internet e as tecnologias de comunicação estão chacoalhando as formas de produzir e acessar bens culturais  (aproveite para falar do Torrent também, talvez a principal metáfora para entender o que é o mundo em compartilhamento de hoje). Nesse contexto novo, o Pirate Bay é um farol anarquista a ser seguido, curtido e compartilhado – sempre com uma piscada de desconfiança que o excesso de informações a que temos acesso hoje nos dá o dever de ter.

Assista o filme abaixo, com legendas em pt-br (ou english, se preferir).

Um giro pela cultura livre

[Com licença, plural.]

As últimas semanas foram de algumas oficinas e debates sobre cultura livre, pirataria, copyleft, e outros termos assemelhados por São Paulo. De início, duas falas/aulas numa escola (particular) de ensino médio localizado na zona sul de São Paulo chamada Escola Viva, durante a “Semana de Empreendedorismo e Tecnologia“. Nesta mesma semana, rolou ainda um debate no Centro Cultural São Paulo, em uma invasão do Ônibus Hacker e conexão via rede com o pessoal do LibreBus, de Córdoba.

Na semana passada, também em parceria com o Ônibus Hacker, rolou duas oficinas de cultura livre no Memorial da América Latina, durante o Encontro Estadual do Acessa SP, programa de inclusão digital do governo do estado de São Paulo com mais de 700 pontos espalhados pelo estado. E, por fim, um debate/conversa de bar transmitido na Pós-TV – a princípio sobre “cidades digitais”, mas que acabou descambando até pra regulação da mídia e pro jornalismo.

E daí, alguém poderá dizer? Daí que conversas desse tipo, em contextos diferentes, algumas fora do nicho identificado com a cultura digital, trazem muitas dúvidas. A primeira, que permeou todos esses debates: como fazer a discussão da cultura livre/digital e do copyright encontrar os movimentos sociais? Ou, de outro modo, como ampliar a atuação de movimentos como o do software livre, ou mesmo de posições como a “caduquez” das leis de direito autoral frente a realidade de hoje, para além dos “hard-user” da internet?

[Alguns dados pra contextualizar: 62% das residências brasileiras não estão conectadas à internet. Para quem ganha até 1 salário mínimo a exclusão é de 94%. Para mais dados sobre o assunto, vale acessar o site da campanha “Para expressar a liberdade.]

“Oficina” de cultura livre no Encontro Estadual do Acessa SP, no Memorial da América Latina.

Não estou aqui querendo me colocar como um hard-user a “catequizar” alguém, longe disso. A ideia das oficinas foi apenas a de debater questões que estão na pauta do dia na internet hoje – liberdade na rede, compartilhamento, direitos autorais, pirataria, entre outros. E, nisso, não deixa de ser surpreendente que, nas falas aí acima, poucas pessoas conhecessem o crowdfunding, menos ainda o Creative Commons e raríssimos o copyleft – termos que, as vezes, parece “dado”.

Ninguém “deve” saber nada nessa vida, é certo, mas ficou a sensação de que, talvez, estamos falhando em fazer com que ideias com um potencial gigantesco de transformação cheguem a uma realidade que poderia ser mudada para melhor. Fica outra pergunta: como mudar essa situação? Pela educação, talvez. Não aquela chata e convencional que estamos infelizmente acostumados, mas uma mais próxima a de que falamos aqui, focada no processo e não na avaliação final, na contextualização da complexidade do mundo e não na sua simplificação extrema (e eterna).

Circular pelos mais diferentes ambientes, longe do espectro de pessoas “da cultura digital”, pode ser um caminho. O Ônibus Hacker faz isso em suas invasões hacker – e talvez por conta disso seja sempre bem recebido por todos. Mas nem sempre dá pra se ter um ônibus com gente a fim de fazer isso. E não vivemos a época das receitas prontas; pegue qualquer ingrediente e remixe a sua.

Abaixo, coloquei a apresentação que fiz para guiar a fala na Escola Viva e no encontro do Acessa SP. Traz conceitos bem básicos, e foi apresentada junto com dois vídeos (o “Tudo é Remix” parte 4 entre eles).

[Leonardo Foletto]

 
Créditos fotos: Ônibus hacker, Prodesp.

Dale cultura digital argentina!

Nós, brasileiros, em geral não costumamos olhar com a devida atenção o que acontece nos vizinhos latino-americanos. Seja pela barreira da língua, por bairrismo, pelo gigantismo do nosso país ou por preguiça mesmo, a impressão é que sabemos muito menos do que acontece na Argentina e no Uruguai, por exemplo, do que eles sabem daqui.

Dito isso, vamos ao fato: uma algo recente (setembro de 2011) publicação argentina sobre cultura digital está disponível para download grátis.

Trata-se da revista de rock “Dale!”, que fez uma edição especial sobre cultura digital com título de capa “Generación Download” e a sugestiva chamada: “Levam a livre reprodução em seu DNA e não pensam em renunciar a sua filosofia de compartilhar músicas, códigos e conhecimentos“. Yeah!

A pauta da revista é ótima e recomendamos baixá-la em PDF e ler com calma. Ela traz diversas referências (especialmente nomes) da cultura digital do país vizinho que podem nos inspirar – ou pelo menos nos mostrar que sim, os argentinos estão muito vivos quando se fala em cultura livre, downloads, pirataria, etc.

Então aí vamos nós, guiado pela Dale!, ajudar você num primeiro esforço para entender um pouco mais dessa Argentina livre e digital.

Rock.com.ar, um dos principais sites de rock dos vizinhos

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Baixe música argentina

O primeiro texto da revista, “Cultura Download“, é meio que o introdutório do tema da revista. Saca dois trechos:

“Vivimos entre dos mundos enfrentados: el que agoniza, dominado por las empresas multinacionales, y el que llega, en el cual  predominan las voluntades indiciduales”.
“La piratería es imparable. El pensamiento tendría que ser cómo sumarse comercialmente a esa corriente, en vez de tratar de penarla o restringirla”.

Depois, na mesma matéria, há uma lista de alguns artistas (argentinos, por supuesto) que oferecem música gratuita. É uma boa pedida:

Lache – www.tomelache.com.ar
Los Sucesores de la Bestia – www.sucesoresdelabestia.com.ar
Pez – www.pezdebuenosaires.com.ar
Adrián Barilari – www.barilariadrian.com.ar
La Peña Pop – www.facebook.com/lapeniapop
Goy Ogalde – www.soundcloud.com/goykaramelo
Acorazado Potemkin – www.acorazadopotemkin.com.ar
Falsos Conejos – www.falsosconejos.com.ar
GradoCero  www.gradocero.com.ar
Xámpari – www.xampari.com.ar
Auto  www.autoinmovil.com
Sebastián Escofet – www.sebastianescofet.asterisco.org
Sancamaleón – www.sancamaleon.com.ar
Compañero Asma – www.compasma.bandcamp.com
Septi3mbre – www.septi3mbre.com
107 faunos – www.107faunos.com.ar
Hyperknox – www.hyperknox.com.ar
Pels – www.pels.com.ar
Reggae Rockers – www.reggaerockers.com.ar
Superfluo – www.superfluoweb.com.ar

Site do selo Mamushka Dogs, que distribui e promove discos de graça

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Mamushka Dogs, um selo virtual

Mamushka Dogs Records é um selo/gravadora que edita e promove os discos de seu casting online e gratuitamente. Luciano Banchero e Leandro Pereiro, criadores do selo, explicam em entrevista na revista. Alguns trechos:

“No tienen contrato con los artistas, “lo cual es bueno por un lado, pero no tan bueno por el otro”, dice Luciano. “Le da a la
banda libertad, pero parte de esa libertad es que se te piante en cualquier momento”.

“Las tareas del sello son claras: “siempre hacemos lo mismo, como por reflejo; mandamos gacetillas de todo, nos contactamos con los medios, organizamos cierta cantidad de shows durante el año”.

¿Ganan plata? 
Luciano: Parte de esa relación no contractual tiene que ver con que no cobramos ningún tipo de servicio. Esto está hecho en cierta forma por el entusiasmo que nos genera decir “nos gusta ésto, estaría bueno que lo conociera más gente”. Nosotros podemos hacerlo. 

Leandro: Yo soy un tipo que consume muchísima música y no pongo un peso por eso. Entonces, cómo voy a pretender sacar plata!

¿Cuál es el objetivo principal, entonces?
Leandro: Hacer algo que esté bueno. Nos parece que tiene que existir y no vemos que lo hagan los demás. No puedo entender que no haya miles de sellos como nosotros. Tampoco es tanto laburo. Hay que ponerle un poco de onda, cuidar la estética… no es tanto. Me cuesta entenderlo.

Cypher, criador do Taringa!, herói da cultura livre argentina

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Um herói da cultura livre local – Cypher, do Taringa!

Cypher é “um dos grandes mitos da internet criolla”, como abre o texto da revista. Muito por conta de ter sido o criador do Taringa! – “uma espécie de Orkut direcionado ao compartilhamento de arquivos”, como os chamamos o site em post de maio do ano passado, mas poderíamos chamar hoje de “O Pirate Bay Argentino”, também por sua representatividade na luta contra a policia do copyright. É, segundo a Dale!, um dos sites mais importantes da história da comunicação alternativa argentina. Em 2011, era visitado por 8 milhões de pessoas diariamente e hoje tem até uma versão em português.

Em uma charla via chat (e realizada em vários dias), a revista captou um pouco do pensamento de Fernando, figura interessantíssima que tu deveria conhecer um pouco mais. Trechos:

¿Por qué es importante que la información sea de libre acceso?

En la actualidad tenemos la infraestructura que otorga a la población un enorme poder de proceso descentralizado de información que es aún mayor que la capacidad del establishment. Ésto deposita mucho poder en la población y está volviéndose más notable en los “acontecimientos en pleno desarrollo”. Pero así también el medio permite a dicho establishment cierto control y manipulación. Sólo siendo libre (o pública y abierta), la información puede protegerse de la manipulación y distorsión unilateral.

La información es una herramienta que, junto al medio, debe ser libre, ya que es el sustrato para una “democracia real”, directa y efectiva (lo mejor que hay en vista).

¿Qué información actualmente bajo protección de derechos debiera ser liberada acá en Argentina?

Éste es un tema de larguísima data y algo extenso. Creo que lo urgente es exceptuar del copyright todo material que se considere de estudio o necesario para el desarrollo y bienestar de la sociedad (¿suena fácil?). Hay que comprender que la gente no desea hacerse de la autoría de una obra, sino más bien utilizarla y compartirla a su  antojo, simplemente porque se puede.

¿Cómo evaluás el nivel del debate sobre copyright y otras formas de derecho de autor en Argentina?

Sin contar a los que argumentan con analogías (odio eso), el nivel de debate es en general de muy buena calidad. El problema es que los beneficiados por el copyright no quieren oír, porque no necesitan debatir. La piratería no mata a nadie y el copyright tampoco. La misma culpa que puede sentir una señora que mira Dexter por Cuevana es la que deben sentir los “copyright holders” cuando reciben su cheque de regalías. 

Por ejemplo, un concepto muy utilizado en el debate es que las compañías deben adaptarse y lo cierto es que lo han hecho. Y justamente, regalar las cosas no es una opción porque ya no tendría sentido su propia existencia, la cual claramente puede coexistir con la piratería hogareña. Lo que hacen es totalmente razonable, tienen que sostener el modelo hasta el final y embarrar la cancha con cánones basados en la “presunción de culpabilidad”, demandas e intentos de invasión de privacidad. El debate debería centrarse en limitar el alcance de los derechos de propiedad inte lectual, no el de las libertades de los individuos.

Berro coleciona discos fora de catálogo e blogs censurados pelo copyright

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Freddy Berro, colecionador de links

Freddy criou “La Confradía“, um blog para compartir música argentina fora de catálogo que tem sofrido com a pressão da polícia do copyright – e, infelizmente, foi sacado do ar. Mas outros dois projetos de Berro estão on-line e valem a visita.

O primeiro é a “Fonoteca Nacional Argentina“, blog criado om o objetivo de criar essa Fonoteca, que tem o corajoso projeto de preservar o patrimônio sonoro nacional. Tu pode ajudá-lo a formalizar o projeto manifestando seu apoio/assinatura aqui.

O segundo é o sensacional projeto “La Expreso Imaginario“, que está digitalizando todo o acervo da revista “Expreso Imaginario”, 78 exemplares de uma das mais importantes revistas de música da argentina (que durou de 1976  a 1983).

A Dale! entrevisou Berro. A seguir, alguns trechos:

¿Cómo nació la idea de armar un blog en donde se rescatan joyas del rock nacional?

Hace poco más de cinco años le pregunté a mi hija qué iba a hacer. Con mis discos cuando yo no esté más. Me respondió: “Lo que es posterior a Soda Stereo, me lo quedo. Lo otro, lo vendo”. Se me pusieron los pelos de punta. Llegué a la conclusión que me dijo eso porque no conocía lo anterior, sino sólo lo que ella había vivido. Entonces, pensé: “voy a compartir gratis la música que tengo, para que todo aquel que no pudo acceder a eso, la pueda bajar”.

Siempre con la idea de no joder a nadie, mucho menos a los músicos. La consigna fue subir LP’s descatalogados, no editados en CD y recitales que no estén a la venta legítimamente, para hilar la historia del género a través de archivos musicales y recomendar o difundir canciones. Además, casi no había blogs de discos de rock nacional, sino extranjero.

En un principio, empezó siendo un juego. Pero a los dos meses tenía más de 400.000 descargas y mensajes que llegaban de todos lados”.

 ¿Qué política debería implementar el Estado para ayudar a revalorizar la música?

Soy amigo del periodista Miguel Grinberg y le dije: “En la Biblioteca Nacional, si buscás un libro, lo pedís y lo tenés a tu disposición. Lo mismo debería pasar con la música”. No puede ser que los registros fonográficos dependan de empresas o de personas que tienen los derechos para editarlos cuando se les da la gana. No existe nadie que se dedique a resguardarlos.

Asíque se nos ocurrió hacer una Fonoteca Nacional. Hay muchas intenciones similares: habría que unificar proyectos. Sería bueno entrar a la fonoteca, escuchar un álbum, ver el arte de tapa digitalizado… aunque el placer de tener un disco se disfruta como nada.

 Créditos: 1, 4, 5 (Dale), 2 (rock.com.ar) e 3 (Mamushka).

Nova (velha) onda de ataques a blogs de download

E a indústria parece que não aprende. Depois de tirar da rede (por pouco tempo, claro) diversos blogs de download de música agora parece que a bola da vez são os de download de filmes. Nestes últimos meses, dois dos principais blogs para quem gosta de filme, digamos, mais alternativos aos “blockbusters” que o cinema nos empurra, foram tirados do ar sem muita explicação: Laranja Psicodélica e Cinema e Cultura.

Segundo a comunidade no Orkut do Laranja, “o espaço foi deletado pelo próprio sistema Blogger por motivos, até então, desconhecidos. Certamente pelo mesmo motivo que outros grandes blogs de downloads de filmes também o foram: censura“. A ação em questão ocorreu ali pelo dia 20 de setembro, cerca de 5 meses depois do Cinema Cultura ser deletado da mesma forma pelo Blogger – que foi o 1º sistema a realmente popularizar o blog, e que pertence ao Google desde 2003.

O que está por trás dessas eliminações sumárias de páginas e mais páginas de informações e links? Interesses da indústria do copyright, é claro. Há uma porção de gente cada vez mais afim de limar todos os links para download de conteúdo supostamente protegido por copyright da internet – em especial a toda-poderosa MPAA, nos Estados Unidos, e a APCM no Brasil, ambas parte de uma indústria da pesada que causa muita confusão boba. E que parte de uma utopia fiscalizatória que, em sua raiz, quer controlar toda a movimentação das pessoas na rede, uma ideia tão execrável quanto impossível.

Olha o exagero!

São casos parecidos ao que falamos por aqui, primeiro do Som Barato, depois do Um Que Tenha, Blog Del Topo e outros tantos,  blogs que disponibilizavam uma porção de conteúdo demais de bom – e que, vale lembrar, continuam fazendo isso, mostrando a total inutilidade dessas medidas. Nestes novos casos, há ainda uma preocupante tendência em tirar do ar primeiro, depois avisar – quando avisam.

Antes, no caso do Som Barato por exemplo, em 2008, o Google mandava primeiro uma notificação aos mantenedores dos blogs, em que justificavam a censura por conta do DMCA, uma lei dos Estados Unidos (!) que, dentre outras coisas, permite que detentores de direitos autorais solicitem aos provedores de serviços online que bloqueiem o acesso a conteúdos que violem direitos autorais ou os retirem de seus sistemas.

Copiar é pirataria?

Os recentes casos do Laranja Psicodélica e do Cinema Cultura são mais uma mostra do descompasso entre a realidade e as leis que regulam a sociedade. Descompasso que coloca zilhões de pessoas na ilegalidade por compartilhar conteúdo, além de criminalizar os próprios consumidores que financiam a Indústria Cultural, no maior tiro no pé que ela deu e continua a dar em sua história.

Antes de terminar esse post por aqui, uma ressalva necessária: se você é autor, de qualquer obra intelectual que seja, você precisa ser protegido de alguma forma. O que discutimos é que, ao ignorarem ou corroborarem tais ações de um defensor de interesses de monopólio, as autoridades que regulam estão nitidamente protegendo alguns poucos, que podem ter um controle sobre a cultura de uma forma que jamais se teve em outro momento histórico.

P.s: O Cinema Cultura e o Laranja Psicodélica já voltaram a rede, neste (Cinema) e neste (Laranja) endereços. Mas não espalhem, ok?

Créditos fotos: 1,2

Paródias by “Weird Al” Yankovic

Cantor, comediante, produtor, escritor e acordeonista, Alfred Matthew Yankovic – ou “Weird [Esquisito] Al” Yankovic – é mais conhecido fantasiado  das mais engraçadas formas possíveis imitando alguma celebridade da música pop do que como na foto acima, com cara limpa e jeitão de loco. Tu provavelmente já viu ou ouviu algum clipe/música dele, mas talvez não sabia que ele lançou seu último disco, “ALpocalypse” no último 21 de junho, e continua parodiando a cultura pop a torto e direito.

Desde o final dos anos 70, ele se aproveita da melodia de outras músicas para fazer algo que todo mundo já fez uma vez na vida: usar a criatividade para criar paródias e dar risada. Após cursar arquitetura na Universidade Politécnica da Califórnia, estado onde nasceu, e ser DJ numa rádio da mesma universidade, Yankovic gravou o single “My Bologna“, sua versão gaiteira de “My Sharona” do grupo The Knack, agradando aos músicos e aos ouvintes da estação. A partir daí, não parou mais.

Em 1983, lançou seu primeiro CD, homônimo, com canções satirizando outras e também com melodias originais, criadas em seu acordeão – ou sanfona/gaita, escolha a palavra que tu quiser. Já nesse ano, ano de nascimento da MTV, Yankovic sabia da força do videoclipe e lançou logo dois:  I Love Rocky Road e Ricky. A notoriedade, no entanto, só veio no segundo album: ‘Weird Al  in 3-D’, de 1984, com a pérola Eat It, paródia de Beat It do Rei do Pop Michael Jackson. Outro destaque foi o surgimento de suas polka pot-pourri, nas quais junta trechos de outros sucessos numa mesma música – levada, claro, pelo seu acordeão/sanfona/gaita.

Al e sua indefectível sanfona/gaita, em chamas

Daí em diante, Weird Al ironizou videoclipcamente vários medalhões da cultura pop:  Madonna em ‘Like a Surgeon‘, Nirvana em Smells Like Nirvana, Extreme em You Don’t Love me Anymore, Red Hot Chilli Peppers em Bedrock Anthem, Bob Dylan no genial Bob feito só com palíndromos; e filmes, como Forrest Gump, Jurassic Park e Star Wars em The Saga Begins. Ainda sobrou tempo para produzir uma a versão de Pedro e o Lobo, do compositor russo Serguei Prokofiev.

Nesses 30 anos de carreira, Yankovic sempre procurou pedir permissão para parodiar ou fazer covers de outras músicas. Na verdade, ele nem precisaria, já que se tratam de casos que se encaixam no conceito de “fair use“, ou uso justo, existente no copyright estadunidense. Caso haja um processo, o que é julgado é a paródia (o trabalho ridicularizando o mesmo trabalho no qual é baseado, necessitanto do trabalho original) ou a sátira (o trabalho ridicularizando outros assuntos, dispensando o trabalho original). Porém, não é tão simples.

Como nas composições Al sempre faz uso de paródia, isto é, uma imitação cômica que necessita da obra original, teoricamente elas não precisariam de autorização. Essa é a explicação do blog Technically Legal. Mesmo assim, Yankovic recorre a burocracia necessária para evitar possíveis processos, como dito em seu site oficial:Well, as I always say, we live in a country where anybody can sue anybody else for any reason at any time, so it’s always a gray area.” [Bem, como eu sempre digo, vivemos em um país onde qualquer um pode processar alguém por qualquer motivo, a qualquer hora, então essa é sempre uma área cinzenta].

Capa do EP Internet Leaks, de 2009

Às vezes ele consegue autorização somente para as músicas, às vezes somente para o clipe, às vezes para nenhuma das duas coisas. O site 11 Points mostrou 11 casos conhecidos nos quais artistas caretas disseram ‘não’ para paródias. Teve a Yoko Ono, que não permitiu a gravação de Gee I’m a Nerdy (versão de Free as a Bird); a gravadora do chato James Blunt que negou na última hora You’re Pitiful (depois disponibilizada na internet); o rapper Coolio, que mudou de ideia depois de autorizar a paródia de Gangsta Paradise (vejam só, que era sampleada de Pastime Paradise); Eminem, que não deixou fazerem um clipe de Couch Potato; entre outros, como Paul McCartney, Prince, Michael Jackson e Jimmy Page. Lady Gaga quase entrou nessa lista. Ela só permitiu a mais recente paródia, Perform This Way, em abril, dois meses antes do lançamento de ALpocalypse.

Quanto aos medleys de várias músicas em estilo bandinha, aí é outro departamento. Conforme o pergunte ao Al, sempre houve um acordo com os detentores das músicas originais:

“In principle I don’t need permission, but if I paid everybody their full royalty rate for songs in the medley, I would wind up LOSING money on each album! So each and every songwriter needs to agree to only take their rightful share of the royalties (meaning, if a Green Day song takes up 11% of the medley, then Green Day will only get 11% of the songwriting royalties for that one song). We can’t make exceptions because it’s a “favored nations” deal, meaning that if one person gets the full amount, EVERYBODY gets the full amount. Obviously, a whole lot of artists have been good sports about this – but it’s a mountain of paperwork every time I do a medley.”

[“Em princípio, eu não preciso de permissão, mas se eu pago todos os royalties deles para músicas no medley, eu acabaria perdendo dinheiro em cada álbum! Assim, todos e cada compositor têm de concordar em receber apenas a sua parte justa dos royalties (ou seja, se uma música do Green Day ocupa 11% do medley, em seguida, o Green Day só vai ficar 11% dos royalties de composição por aquela canção). Não podemos abrir exceções, porque é um acordo de “nações favorecidas”, o que significa que se uma pessoa recebe o montante total, TODOS ficam com o valor total. Obviamente, um monte de artistas tem levado na esportiva – mas é uma montanha de papelada toda vez que eu faço um medley.]

Com suas letras engenhosas e seus clipes malucos, Al ganhou três Grammys latinos e sempre esteve entre os mais vendidos da lista da Billbboard, seja na 139ª posição do primeiro album ou nas 10ª e 9ª dos dois últimos, de 2006 e 2011. Pois justamente nesses últimos, a internet acabou virando alvo: ganharam músicas o  site de fofocas TMZ e o site de classificados Craigslist, que ainda teve a  participação de Ray Manzarek, ex-tecladista dos The Doors. Além da rede, o copyright e suas “infrações” também renderam um single.

A canção ‘Don’t Download This Song‘ [Não baixe essa canção], do disco Straight Outta Lynwood, soa como hino We are the World e é uma crítica cáustica ao pensamento da indústria do copyright: dos processos feitos sem discriminação contra uma criança de 7 anos de idade e uma falecida vovó, passando pelas extravagâncias de  artistas ricassos à culpa exercida pelas campanhas, que relacionam o compartilhamento de arquivos com o roubo de bebidas, o tráfico de crack e até atropelamentos. Na época, sarcasticamente foi feito um site disponibilizando “Don’t Download This Song” para baixar, e é ela que tu vê aqui abaixo, com  letra e clipe oficial. A discografia de Weird Al Yankovic está nesse link aqui e o último disco, aqui.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=zGM8PT1eAvY&w=425&h=349]

Once in a while [De vez em quando]
Maybe you will feel the urge. [Talvez você sinta a vontade]
To break into national copyright law [De quebrar a Lei dos Direitos Autorais]
By downloading mp3s [Baixando mp3s]
From file sharing sites [De sites de compartilhamento de arquivos]
Like morpheus or grokster or limewire or kazaa. [Como morpheus ou grokster ou limewire ou kazaa]
But deep in your Heart.  [Mas no fundo do seu coração]
You know the guilt would drive you mad [Você sabe que a culpa lhe deixará louco]
And the shame would leave a permanent scar [E a vergonha vai deixar uma cicatriz permanente]
Cause you start out stealing songs [Porque você começa roubando músicas]
Then you’re robbing liquor stores [E depois está roubando loja de bebidas]
And selling Crack [E vendendendo Crack]
And running over school kids with your car [E atropelando crianças com seu carro]

[Refrão]:

So Don’t Download This Song [Então Não Baixe Essa Música]
The record store is where you belong [A loja de discos é lugar a que você pertence]
Go and buy the CD like you know that you should [Vá e compre um CD como sabe que deveria]
Oh Don’t Download This Song [Oh Não Baixe Essa Música]

Oh you don’t want to mess [Oh você não quer se meter]
With the R I Double A [Com a R I Duplo A]
They’ll sue you if you burn that Cdr. [Eles vão lhe processar se você gravar esse CD-Rom]
It doesn’t matter if you’re a grandma [Não importa se você é uma vovó]
Or a seven year old girl [Ou uma garota de sete anos]
They’ll treat you like the evil Hard-bitten criminal scum you are [Eles vão lhe tratar como lixo criminoso e maldoso que você é]

[Refrão]

Don’t take away money [Não tire o dinheiro]
From artists just like me [De artistas como eu]
How else can I afford another solid gold Humvee [De que forma eu posso comprar um outro Humvee de ouro puro]
And diamond studded swimming pools [E piscinas cravadas de diamante]
These things don’t grow on trees [Essas coisas não nascem em árvore]
So all I ask is everybody Pleaseeeeee [Então tudo que eu peço é que todos Por Favor]

[Refrão]

Don’t Download This Song (Oh please don’t you do it or you) [Não Baixe Essa Música (Oh por favor não faça isso ou você)]
Might Wind up in Jail like Tommy Chong (Remember Tommy) [Pode acabar na cadeia como Tommy Chong (Lembre-se de Tommy)]
Go and buy the CD (Right Now) like you know that you should (Go out and Buy it) [Vá e compre o CD (Agora) como você sabe que deveria fazer (Saia e compre-o)]
Oh Don’t Download This Song. [Oh Não Baixe Essa Música]

Don’t Download This Song (No no no no no no) [Não baixe essa música (Não não não não não não)]
Or you’ll burn in hell before to long (And you deserve it) [Ou você vai queimar no inferno (e você merece)]
Go and buy the CD (Just buy it) like you know that you should (You should get it) [Vá e compre o CD (Apenas compre-o) como você sabe que deve (Você deveria tê-lo)]

Crédito das Imagens: 1,2, 4.

[Marcelo De Franceschi]

(Além) Do Regime de Propriedade Intelectual

Quase sempre é bom conversar com quem tem mais estrada do que a gente. Criar rugas de tanto forçar o raciocínio para acompanhar quem fala e conta por onde esteve, tentando entender e depois talvez questionar, ouvir, ficar em silêncio por um tempo e formar uma visão melhor, ou mais dúvidas. Alargar os horizontes do pensamento.

No recém lançado livro “Do Regime de Propriedade Intelectual: Estudos Antropológicos” dá pra encontrar várias dessas pessoas. Uma compilação de 13 textos com as mais recentes pesquisas sobre esse campo que não deveria ter cercas, quiçá apenas demarcações. A organização é de Ondina Fachel Leal e Rebeca Hennemann Vergara de Souza, professoras integrantes do Grupo de Trabalho Antropologia da Propriedade Intelectual (ANTROPI), da UFRGS.

Os artigos vão além das áreas sempre abordadas quando se fala de propriedade intelectual. Mais do que cultura e software livre, direito autoral e música, também foram desbravados pelos pesquisadores temas que ainda nem nos atrevemos a falar: o patenteamento de medicamentos e suas conseqüências para a saúde pública – não só mundial, mas brasileira inclusive; e a regulação de produtos agrícolas por meio de certificações.  É de se ressaltar igualmente uma etnografia num camelódromo e uma análise de um movimento ambientalista de resistência da Costa Rica.

Lançado pela Tomo Editorial, o volume foi logo disponibilizado pra baixar, com o exagero de ter a marca gigante do Creative Commons em cada página. A iniciativa é condizente com o trato apresentado desde o começo do livro, como diz o professor da Universidade de Brasília, Pedro de Rezende: o usufruto e o gozo de criações do espírito, de obras cuja utilidade esteja ligada ao intelecto, presumem compartilhamento, pela ação do entendimento. E que tais criações presumem prévios compartilhamentos, pois não surgem do vácuo”.

Um conteúdo derivado de livros e novas pesquisas não deveria nunca ficar limitado apenas ao papel de novos livros, mas deveria ter – e está tendo – sua circulação facilitada através do compartilhamento gratuito, o que fatalmente potencializa novos entendimentos, pesquisas e o saudável e necessário diálogo do conhecimento. Ainda que isso seja uma obviedade, convém reforçar a ideia, porque as vezes se esquece que uma pesquisa sem diálogo é um monólogo estéril e pueril, não é mesmo?

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[Marcelo De Franceschi]

Os encartes da Apanhador Só

Os cinco pneus da bicicleta da banda gaúcha Apanhador Só têm rodado muito mais pelo Brasil desde o lançamento do primeiro cd. O quarteto liberou as 13 músicas em seu site oficial no dia 11 de abril – dez dias antes de fazerem um show de graça no Teatro Renascença, em Porto Alegre. Atualmente eles estão em São Paulo, mas um dos lugares por onde passaram foi Santa Maria, no bar Macondo Lugar em 26 de junho.

Até então não tínhamos nos surpreendido com a atitude deles de disponibilizar gratuitamente a produção – que já rendeu mais de 7 mil downloads feitos. O que nos chamou atenção – além da apresentação tranquila das belas faixas do disco, boa parte delas acompanhadas pelo coro que era entoado no recheado espaço – foi o acabamento dado ao suporte físico das 13 músicas. Mais precisamente o encarte do cd.

Ao custo de 15 reais, 15 cartões (ou cards), no lugar de um esperado encarte de abrir, vêm junto ao disco dentro da caixa de papelão envelopada por uma capa mais fina. Em cada quadrado, as letras das canções estão ali – escritas à mão pelos integrantes – mas do outro lado há ilustrações que auxiliam na assimilação das composições. Agrupados, formam um bonito mural, sem uma interpretação definida, mas cuja graça reside nessa subjetividade, nessa indefinição. Afinal seria um tanto sem graça ter um único significado, principalmente por se tratar de música e poesia.

Tal iniciativa de se fazer um acabamento gráfico maior sobre o disco é um bom exemplo para as gravadoras e para a industria cultural como um todo. Com a inevitável disseminação digital do conteúdo, é preciso criar maneiras de justificar a existência do produto material. Poucas pessoas, no máximo os fãs doentes, querem comprar um produto, no caso um cd, e receber uma caixinha de plástico com fotinhos e/ou as letras. Para vender e despertar a curiosidade de muitas pessoas, é preciso usar a criatividade e pensar em novas, e baratas, formas de valorizar uma criação artística. E isso pode ser realizado investindo no aspecto visual. Transpondo o exemplo para outros suportes pode se citar livros com capas mais trabalhadas, como essas edições dos livros de Júlio Verne; filmes que venham com um livreto sobre a produção, como a coleção de dvds da cinemateca Veja. Nos discos, podem ser criados adesivos, imãs, pôsteres, papercrafts, jogos de carta, de tabuleiro, enfim, n alternativas atrativas. O blog Encarte, infelizmente desatualizado, mostra outros ótimos exemplos. Isso ainda traz de volta a reclamada interação da música com a arte do disco, que antigamente era de vinil e de maior tamanho. O caso da Apanhador Só mostra o quanto o cenário independente tem se movimentado e buscado outras maneiras de lucrar com seu trabalho, dando uma lição em muita gente que fica chorando prejuízos.

Os desenhos dos cartões [alguns estão espalhados no post] foram feitos pelo ilustrador Fabiano Gummo e o projeto gráfico foi de Rafael Rocha, diretor de arte da revista Noize. Rafael que decidimos entrevistar por e-mail para saber como foi a concepção do encarte diferenciado – e fomos gentilmente atendidos. Na conversa abaixo ele conta sobre o planejamento e de sua visão sobre o ato de se investir mais no meio material como forma de fazer valer a venda da música. Ele é baixista de uma banda recente, a Wannabe Jalva, que possui três músicas gravadas e também liberadas pra baixar.

De onde partiu a ideia de fazer o encarte com cartões, de ti, do ilustrador ou da banda?

Rafael Rocha: A Ideia partiu de mim mesmo, a partir de várias reuniões com o Alexandre (vocalista da banda), algumas junto com o Gummo (ilustrador), e de vários processos de estudo e brain solitário em cima do projeto. Essa idéia surgiu da viagem que eu tinha ao escutar o som da Apanhador, que tem muitas linguagens, e diferentes estilos unidos através do som característico que a banda faz. Então, a ideia dos cartões foi algo que representasse cada música como uma arte separada, e a união de todas, compusesse uma obra final. Justamente como é o disco.

Tinha a intenção de agregar um valor a mais para a musica, para que realmente valesse o suporte físico?
Com certeza, a idéia, desde o começo, era fazer algo rebuscado e que também agregasse valor ao disco em si. E também considerei desde o começo, que a Apanhador, pelo seu primeiro EP “Embrulho para levar”, já tinha projetos gráficos muito bacanas e rebuscados, então, dar continuidade a isto era algo natural.

Como foi a composição dos desenhos, eles tem algum esquema para fazer sentido?
A composição dos desenhos, inicialmente, era para fazer uma história, ou algum sentido concreto e de fácil assimilação. Porém, deixei totalmente nas mãos do Gummo para ele criar e pirar em como ele quisesse chegar a este resultado. O resultado foi algo muito interessante, bem na linha de como é o seu trabalho, com um traço bem característico, com algumas referências que se repetem ao longo das cards e criam uma ligação muito bacana. E o mais interessante é a forma que eles devem ser apreciados, um a um, a partir da composição inicial das letras das músicas e do desenho da bicicleta.

Quais as influências do trabalho? Conhece algum outro cd que tenha o encarte diferenciado?
As influências vem de todo o lugar. Meu trabalho de Direção de Arte e Design tem uma relação bem orgânica, de unir elementos feitos à mão com a utilização do computador e a fotografia, acho a união destas estéticas muito interessante.
Eu sempre, desde piá, tinha um sonho de trabalhar pro resto da vida com encarte de discos. Minha vida se move a música. Na NOIZE, na Wannabe Jalva (revista em que trabalho e minha banda)… Infelizmente, os discos fisícos são cada vez mais raros. Porém, vivemos um momento de transição e acredito em futuro muito positivo para o mercado musical, relacionado as artes gráficas.
De outros projetos que eu gosto posso citar alguns discos do Of Montreal, White Stripes, Pearl Jam, os discos em vinil do Caetano, entre outros. Nos útlimos 3 anos apenas comprei discos pelo projeto gráfico. Sou completamente maluco por isso.

Aceitaria novos trabalhos semelhantes? Acha que esse design de discos e encarte, essa imbricação entre arte e música, é uma área, um serviço, que será mais procurada tanto pelas bandas independentes quanto pelas gravadoras?
Aceitaria de FATO! Acho que agora a fuga, para se querer vender discos de fato, é investir no projeto gráfico, entregar algo a mais. Mas, vejo o futuro virando para a produção de vinil ao invés de CDs, e com artes cada vez mais impactantes e rebuscadas. As gravadoras tem que absorver o “low cost” no meio virtual e investir mais nos discos físicos como um material que o fã que tem esse desejo tangível queria MESMO ter. Eu gostaria muito que isso acontecesse. Para isso, precisamos de uma união de pensamentos entre gravadoras/selos, designers e principalmente do público, que tem que consumir este material.

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[Marcelo De Franceschi]

envelopada

Uma amostra do trabalho dos Uploaders

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Mui provavelmente, depois de ter baixado gigabytes de discos e filmes, já deve ter lhe ocorrido a seguinte pergunta: “mas quem será que colocou esse monte de arquivo pra mim?” Afinal, alguém comprou (ou copiou de alguém) o produto e botou lá, depois de um bom trabalho, pra gente consumir de graça. E é sobre eles, e um pouco sobre como eles põem os arquivos pra todo mundo baixar, que vamos falar um pouco aqui. Uma singela homenagem a esses nobres compartilhadores.

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Há quase um ano, a revista Trip publicou uma matéria buscando conhecer o perfil e entender o porquê dessas pessoas comuns se prestarem a fazer todo o trabalho de graça. Para apurar as informações, a repórter precisou ser sabatinada pelos desconfiados “criminosos” frequentadores do fórum do The Pirate Bay, até que conseguiu conversar com eles. Alguns inclusive aceitaram fazer umas espécies de retratos falados, no site FlashFace, que ilustram a matéria [e que também utilizamos para abri este post]. Então deu pra descobrir  quais os motivos que os movem e quais os custos da filantropia digital. Os esforços para fazer isso são claros. Tempo, dedicação e organização são imprescindíveis pra criar algo de qualidade, tudo na faixa.  E as razões também não poderiam ser mais simples. Eles ganham um pouco de conhecimento e de diversão, e em troca querem reconhecimento e agradecimento, na forma de um comentário ou até amizade, vinda de quem só baixa. Uma situação bem semelhante quando nós do Baixacultura escrevemos ou traduzimos algo, vide principalmente aquiaqui. Dentre seis depoimentos que aparecem na reportagem de Ana Magalhães Silva, um é bem emblemático sobre alguns dos motivos dos uploaders:

“Acho absurdo você ter que pagar R$ 100 num DVD de um filme… se os valores fossem mais acessíveis talvez não houvesse pirataria. Sempre que eles fecham um site de download, aparecem outros dez. Faço upload há dois anos e o que me motiva a lançar mais é o agradecimento dos usuários.”

O trecho é do jovem usuário chamado Júnior, autor de um video que reproduzimos abaixo. Nele, é mostrado como subir um cd de músicas e como é criado o respectivo arquivo .torrent.  Criar uma conta em um servidor de hospedagem de arquivos é fácil, mas criar um torrent não é muito popular. Torrents podem ser mais rápidos de baixar e os arquivos baixados podem  ser muito mais pesados que aqueles comportados por sites.  Entretanto,  o processo é um pouco mais complicado do que simplesmente enviar o conteúdo. O seguinte tutorial foi criado para ajudar os membros do fórum Bj-share, um dos maiores sites de torrent do Brasil, que possui regras muito bem definidas sobre os deveres de quem o utiliza e os tipos de arquivos que devem ser colocados, além de informações para iniciantes.

Antes mesmo desse processo de semeação dos arquivos, existe ainda  um outro processo bem mais demorado: a digitalização. Ripar um cd é um ato simples, mas e um livro ou um filme? São processos muito mais exaustivos e dispendiosos. Livros e revistas podem ter suas páginas diretamente escaneadas e postas num arquivo pdf, ou então ter as palavras reconhecidas e gerar um documento mais flexível. Esta forma é mostrada no site E-books Gospel, de onde vem um belo exemplo. “Ninguém pode ser dono absoluto do conhecimento” é o mandamento da página, que possui 151 livros em português e que inclusive disponibiliza o link pra baixar o programa escaneador dos livros. Juntamente com o livro baixado, vem um “leia-me” em forma de imagem explicando que o conteúdo livre visa “apenas a edificação espiritual e o fornecimento de bons livros aos menos previlegiados e acesso a cultura e conhecimento”. E que assim seja. Abaixo, a video-aula mostra a minuciosa ação de escanear página por página e depois corrigir possíveis erros.

Outro arquivo mais difícil de ser criado é um filme de 700 megabytes, ou mais. Ripar um dvd pode demorar horas. E depois tem o processo de conversão e por fim a criação do torrent. Existem muitas maneiras de se fazer a ripagem, mas uma nos pareceu bem simples. O português Ricardo Santos possui um blog onde desde 2006 publica resenhas e dicas sobre programas gratuitos. Numa dessas ele mostra num vídeo guia como criar um arquivo de um dvd e depois gravá-lo em outro. Todos os programas utilizados estão disponíveis notexto original.

E uma prática tão demorada quanto chupar um filme é a produção de uma legenda para uma série ou longa-metragem. E se se quer fazer algo que preste não é recomendável ser feito à duas mãos. Geralmente uma equipe inteira é necessária para traduzir, sincronizar e revisar corretamente as legendas ansiosamente esperadas por muitos aficionados nas produções norte-americanas. A Equipe Darkside por exemplo possui 20 pessoas para decifrar todas as dificuldades dos episódios de séries que normalmente nem estrearam no Brasil. Mais de 50 séries já passaram pela equipe, que ainda disponibiliza lições bem completas de treinamento para quem quiser se aprofundar. Para ter acesso as informações é preciso fazer um cadastro, mas no canal do grupo no YouTube eles já deixaram duas divertidas vídeo aulas. Uma é sobre a formatação e outra sobre a adequação das legendas. O grupo também aceita novos integrantes e, para quem está começando, especifica os padrões técnicos para a produção de legendas entendíveis.

Claro que há também softwares e games mas queremos destacar aqui que toda essa trabalheira é realizada por quase profissionais. Digo quase pois a diferença é que eles não ganham um tostão por isso. São como voluntários de uma ONG que beneficia milhares de pessoas que só querem ter acesso à cultura e à informação. Então, agora que você já sabe um pouco como funciona, que tal dizer um “muito obrigado” ou começar a fazer a sua parte e devolver o que baixou?

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P.s: Demos uma de uploaders e atualizamos o link do filme “Ai que vida”, que tinha expirado, deste nosso post.

[Marcelo De Franceschi.]

Compacto.Rec e a rede musical dos coletivos

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compacto rec

Como bem disse o Leonardo na última postagem, houve uma crescente organização dos coletivos culturais nos últimos anos. No fim do mesmo ano de surgimento do Macondo Lugar, em 2005, inicia-se a organização do Circuito Fora do Eixo (CFE) uma rede de trabalhos concebida por produtores culturais das cidades de Cuiabá (MT), Rio Branco (AC), Uberlândia (MG) e Londrina (PR). Os agitadores culturais queriam uma circulação maior da produção musical independente de suas cidades, não deixando-a restrita ao seu público. Assim, decidiram formar um coletivo maior, possibilitando trocas culturais e informacionais entre eles.

E é isso que está acontecendo com o projeto Compacto.Rec. “A idéia é produzir uma compilação mensal com músicas, letras, release e fotos através da rede de veículos integrados.” diz o release do mais recente lançamento, o álbum “Strange” da banda Boddah Diciro, do Tocantins. O álbum, além de ser distribuído no site do Compacto.Rec, é divulgado internamente entre os 45 coletivos de todo o Brasil que fazem parte do CFE.

De 2007 até este ano o projeto já tinha lançado três cds sem peridiocidade definida, quando em abril começou a ser trabalhado o disco da banda Madame Saatan, do Pará. Do grupo veio a idéia que originou o projeto, que a princípio seria quinzenal e teria inscrições. Hoje o grupo que pretende ter sua música espalhada tem que ter uma relação de proximidade com um coletivo e o coletivo indica para votação no Circuito.

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rinoceronte.

O disco de setembro foi da banda mineira Porcas Borboletas, com seu cd “A Passeio”. O próximo, em novembro, será o EP do power trio Rinoceronte (o da bonita arte acima) daqui de Santa Maria, que numa definição insuficiente pode ser dito como uma banda que faz um hard rock pesado, calcado em bandas setentistas do estilo, de Free à Black Sabbath.

O que o pessoal está arquitetando é perfeitamente explicado no artigo “Industria Cultural, Industria Fonográfica, Tecnologia e Cibercultura” da mestranda Lucina Reitenbach Viana. No artigo, ela faz um pequeno histórico da industria fonográfica no Brasil e propõe a inserção de uma nova fase do desenvolvimento dessa “indústria”: a fase intitulada “em rede”, iniciada nos meados dos anos 1990.

“Partindo do uso das tecnologias digitais, temos o rompimento da unificação de gostos e costumes outrora impostos pela indústria fonográfica, permitindo novas formas de trabalho acerca da música que conseqüentemente geram outras formas de organização, armazenagem, distribuição e consumo, diminuindo o abismo existente entre artista e público.”

O artigo é o de número 10 dos 11 artigos do e-book “Comunicação Multimídia: Objeto de reflexão no cenário do século 21”, organizado pela Professora Maria José Baldessar da Universidade Federal de Santa Catarina.

O Circuito Fora do Eixo está ligado nisso e é uma iniciativa pioneira no Brasil. O projeto do Compacto.Rec permite uma concentração da imensa e crescente diversidade musical do nosso tempo, aliada a uma distribuição plural. A apresentação do Portal Fora do Eixo representa mui bien o cenário alternativo que se forma:

“A rede cresceu e as relações de mercado se tornaram ainda mais favoráveis às pequenas iniciativas do setor da música, já que os novos desafios da indústria fonográfica em função da facilidade de acesso à qualquer informação criou solo ainda mais fértil para os pequenos empreendimentos, especialmente àqueles com características mais cooperativas.”

[Marcelo De Franceschi].

Créditos Imagens: 1,2.

O fenômeno Ai que vida! e a “pirataria” digital

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aiquevidadvd

O cartaz que abre este post é de “Ai que Vida!”, longa-metragem produzido no Maranhão e no Piauí, 24º filme do jornalista e cineasta maranhense Cícero Filho. É muito provavelmente o primeiro dos 24 que tu deve ter ouvido falar – se é que ouviu. Trata-se de um pequeno fenômeno do cinema (independente) nacional: produzido em 2007, ainda hoje encontra-se em cartaz em alguns cinemas da região Nordeste, especialmente nos estados do Piauí e Maranhão. Em sua semana de estréia, no já longínquo setembro de 2007, fez mais espectadores no Cinema Riverside, em Teresina, do que fez, no mesmo cinema,  o badalado Harry Potter e Ordem da Fênix, 5º filme do bruxo criado pela hoje bilionária escocesa J.K. Rowling, em um mês.

Cícero e sua equipe de 25 pessoas começaram as gravações com R$ 800,00 no bolso e uma câmera digital mini-dv, emprestada por uma faculdade de comunicação de Teresina, além de três atores profissionais no elenco. Escolheram como cenário a pequena Amarante, distante 170 KM de Teresina, a capital piauiense, pois segundo o co-roteirista, diretor de arte e Diógenes Machado, :”A cidade é o berço da cultura de nosso estado. A terra do cavalo piancó, do inegualavel poeta Da Costa e Silva, das mais belas construções arquitetônicas do Piauí.

Com ajuda da prefeitura, que hospedou a equipe de Cícero de graça, e dos moradores da cidade, que fizeram desde figuração até empréstimos de carros e casas para a gravação do filme, vinte e cinco dias depois estava finalizado o processo de gravação do filme. O orçamento extrapolou o inicial e  chegou aos R$30 mil. Problema? Que nada, é costume, como de novo nos conta o co-roteirista Diógenes: “Como sempre, pouca gente acretitava no nosso trabalho, só quando terminamos de gravar foi que os empresários resolveram ajudar. Começou a aparecer mil reais dali, cinco mil de um lado, quatro mil do outro e felizmente conseguimos angariar fundos para começar a edição“.

Quatro meses na ilha de edição depois, Ai que Vida! estava pronto para estrear. Mas onde? A primeira rede de cinemas de Teresina que foi procurada pela equipe não topou exibir o filme, nem mesmo numa segunda-feira e com direito a 80% da bilheteria das sessões. “O diretor dos cinemas nos disse que não adiantaria 80% da bilheteria no contrato já que não ia dar ninguem mesmo“, conta Diógenes. Foram duas semanas de negociação, que de nada adiantaram. A equipe tentou outro cinema, o Riverside, localizado num shopping de mesmo nome, que aceitou; ficariam uma semana em cartaz, para ver no que dava. O resultado foi um sucesso estrondoso, com todas as sessões da semana lotadas e mais renda do que um mês de exibição do último Harry Potter. Como prêmio ganharam mais uma semana de exibição, também lotada, e a partir daí o filme se espraiou pelo Cine Praia Grande, em São Luís, capital do vizinho estado do Maranhão, e por festivais de cinema como o de Brasília e da Paraíba.

Dá uma olhada no trailer do filme antes de continuar lendo a postagem:

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Através de um patrocínio do Governo do Estado do Piauí, foram produzidas 300 cópias de DVD, que logo foram distribuídas nas locadoras da capital Teresina. Mas a demanda foi maior que os 300 DVDs, tamanha a identificação dos espectadores com a história simples e popularíssima, carregada de citações à cultura local e ao modo de vida das pessoas da região.  Então, a própria população tratou de trocar/vender/copiar adoidado os dvds nos camelôs, num fenômeno parecido com o do Tropa de Elite, que já era conhecido de boa parte do público brasileiro quando estreou oficialmente nos cinemas em 12 de outubro – e foi a maior bilheteria no período de uma semana no Brasil em todo o ano de 2007, com cerca de 180 mil espectadores.

A cópia/troca dos DVDs do “Ai que Vida!” não foi nenhum pouco condenada por Cícero, segundo o próprio afirmou em entrevista ao site Cabeça de Cuia:

“Ai que vida” se alastrou, tudo culpa da pirataria. Fico feliz, ao ver que o filme está sendo aceito de forma positiva pela população. Difundir o cinema para a população menos favorecida é um foco primordial do meu trabalho. Meu maior lucro é ver as pessoas comentando que gostaram muito do filme, que se retrataram com o enredo e as personagens!”.

Camelôs, a "origem de todo o mal"
Camelôs, a “origem de todo o mal”

Assim como Tropa de Elite, Wolverine, SICKO e outros tantos,  “Ai Que Vida!” é prova de que uma coisa não necessariamente anula a outra. Ou em palavras mais adequadas: que a dita “pirataria” não necessariamente anula a renda obtida no cinema, como querem nos fazer crer os incomodativos comerciais exibidos antes daquele DVD que alugamos na locadora da esquina. Ao contrário, em alguns casos pode aumentar tanto o burburinho em torno da produção que ela vai circular ainda mais, o que fatalmente resultará em mais prestígio ao seu autor, o que, por sua vez, poderá render mais contatos e condições de produção de uma nova (e melhor) obra cinematográfica.

Como já falamos por aquia pirataria gera mais grana do que querem nos fazer crer. Nisso, o jurista Lawrence Liang, um hábil indiano que investiga questões relacionadas com pirataria, economia informal, direitos de autor e cultura livre no Alternative Law Forum de Bangalore, tem algo a nos dizer, via entrevista no Remixtures:

Todo o circuito da pirataria cria economias locais bastante dinâmicas. Gera emprego, permite a transferência de tecnologia, possibilita o surgimento de inovações locais. Se olharmos o fenómeno de um ponto de vista de uma economia global da informação, onde somos uma multinacional que controla os direitos de um filme ou de uma música, sim, é mau para a economia. Mas se estivermos interessados no desenvolvimento das economias locais, bem como da inovação local, diria que é algo positivo para a economia.

Pode notar: quem joga a culpa pela “morte da indústria cinematográfica” no vazamento de uma cópia dita “pirata” frequentemente são aqueles cineastas/produtores decadentes que estão vendo seu lucro fácil de décadas se esvaírem em milhares de mãos espalhadas pelos mais obscuros quartos ao redor do planeta. Aqueles que se escondem em castelos encantados por lucros de décadas gerado por multinacionais que se acostumaram a controlar os direitos de toda e qualquer produto cultural que o dinheiro lhes permite comprar.

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O casal romântico Valdir e Charleni à frente de todo o elenco do filme
O casal romântico Valdir e Charleni à frente de todo o elenco do filme

O cenário que se avizinha mui provavelmente permite espaço para todos que souberem aproveitar bem as potencialidades de cada mídia. Como disse Gilberto Gil no final desta postagem, não adianta buscar uma resposta pronta a pergunta-que-não-quer-calar “como vou ganhar dinheiro?. Ao que parece, as respostas estão por aí, escondidas em cada tipo de produção, em cada tipo de mídia, em cada tipo de orçamento, em cada tipo de objetivo desejado. O hábito secular de ir ao cinema não irá acabar duma hora pra outra, substituído pela solitária prática de ver um filme numa tela de 14 polegadas em um sistema de som abelhudo de caixinhas de sons toscas; vai, sim, é dividir espaço com esse novo hábito e outros tantos que surgem (e mais e mais vão surgir) de acordo com as possibilidades e criatividades de cada um.

Para fechar, vale citar o que Giba Assis Brasil, veterano cineasta gaúcho, disse em matéria na revista Aplauso de setembro, que infelizmente só circula no estado do Rio Grande do Sul:

“A industria está perdida. No caso do DVD, estão errando o alvo e deixando grandes corporações criminosas ganharem dinheiro as suas custas. Seria mais inteligente se mudassem a sua política de preços. Ou que arranjassem alternativas para vender cópias pela Internet a preço baixo. Em vez disso, preferem chamar garotos que baixam filmes de ladrões e criar uma ficção segundo a qual o compartilhamento está associado ao tráfico de drogas. Ninguém vai acreditar nisso. Eles vão perder de novo.”

Se relacionamos a fala de Giba com esse post do Remixtures começamos a entender que algumas coisas são mais complicadas do que parecem…

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[Marcelo De Franceschi. Leonardo Foletto.]

Créditos fotos: 1, 2, 3.
 
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P.s: Antes que nos esqueçamos: se você ficou louco pra assistir ao filme “Ai que vida!”, baixe aqui o arquivo, que está em boa qualidade. E se você gostou também da trilha sonora, não deixa de assistir ao clipe da música tema aqui.