Revista nova na praça: Select

Sabe aquela sensação de conhecer um grupo de pessoas que tem pensamentos, gostos e vontades tão parecidas com as tuas que sem querer sai um “Essa é minha turma!”?

Pois é mais ou menos isso a sensação que tivemos ao ter acesso a mais nova publicação brasileira, a SelecT. Uma revista bimestral  – ao que parece está indo para as bancas de todo o país por estas semanas – sobre arte, design, cultura contemporânea e tecnologia (como diz a explicação oficial) que prega em sua capa “Abaixo a originalidade!”, com duas Lady Gaga cover na capa, não é todo dia que surge, não é mesmo?

[Conseguimos lembrar apenas da saudosa Revista Play, que, ainda que tratasse de tecnologia, internet e cultura, tinha um foco bem distinto dessa.]

Avisamos aqui que não foi possível esconder o rastro de empolgação desse post depois de uma boa folheada na edição nº1 (a nº0 está disponível pra download no site da revista, que está em vias de ser reformulado). Quem tem acompanhado o espectro de assuntos que foram abordados nestes quase três anos de BaixaCultura vai se sentir em casa por lá: tem cultura livre, remix, direito autoral, plágio criativo, cultura digital, pirataria, cópia, download, entre outras das nossas tags mais salientes aqui à direita.

Vejamos alguns dos destaques desta edição: “O Sonho não acabou”, ensaio da editora-chefe da revista, a professora e midiartista Giselle Beiguelman, sobre a “encruzilhada entre a sociedade do conhecimento e a da Imbecilidade” que a internet nos põe; “Pirataria em números”, com todos aqueles dados sobre pirataria no mundo que volte e meia recomendamos ou falamos por aqui; “Copiar é preciso, inventar não é preciso“, entrevista com o figura Kenneth Goldsmith, criador e editor do grande UbuWeb, lindo arquivo de cultura contemporânea e experimental, e professor de um curioso (e desde já desejado por nós) curso de escrita não criativa.

Mais um parágrafo de merchand gratuito com os destaques da Select (que é da Editora 3, a mesma que publica a IstoÉ): “Quero ser Nelson Leirner” perfil de um artista que, desde o saudoso Grupo Rex na década de 1960, é um plagiador de primeira grandeza na arte brasileira; ” A arte de fabricar dinheiro”, matéria sobre novas moedas alternativas ao capital tradicional;  “Na Onda do Remix”, texto sobre “remixthebook“, livro em que o artista Mark America remixa de Ginsberg a Nam June Paik, a ser lançado em setembro nos EUA;  “Além da Imaginação”, matéria sobre o lado bizarro dos usos e abusos dos direitos de autor hoje e na história, da tatuagem de Mike Tyson a foto de Manuel Bandeira; “Remixália”, papo com  os produtores Kassin, João Marcelo Bôscoli e o “colecionador de sons” Panetone sobre remix e compartilhamento na música; além, é claro, da matéria de capa, “Abaixo as Clonebridades”, e até mesmo o editorial de moda, focado em roupas compradas em camelôs de SP, acessíveis a nós, pobre mortais razoavelmente assalariados, excluídos dos editoriais tradicionais de moda de diversas revistas onde qualquer coisa custa 3 dígitos pra 4, 5, 6…

São dois os poréns mais salientes com relação à revista: o preço, R$14,90, que até passa pelo fato da revista ser bimestral, e o fato de que nenhuma matéria está disponível em nenhum lugar que não a revista impressa, por isso os poucos links nesse post. Há alguns petiscos no Facebook, mas nada além disso, petiscos. Esperamos que isso se resolva com a estreia do novo site da revista; caso contrário, teremos o maior prazer em piratear as edições e disponibilizá-las aqui no Baixa ou em qualquer outro lugar da rede (compromisso) – algo que os editores e toda a turma envolvida na produção da Select vai adorar, é claro.

[Já que falamos em petiscar, toma a edição nº 0 pra dar uma folheada digital]

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P.S: Não podemos deixar de explicar o porquê dessa sanha chapa-branquista, nem que seja aqui nesse ps, pequeninho: Rodrigo Savazoni, um dos colaboradores desta edição da Select e conhecido de longa data desta página, fez uma honrosa citação ao BaixaCultura em seu texto, onde fazia um “select” de sites com o título de “Direito de não ser original”. Diz ele sobre o Baixa: “O melhor blog brasileiro sobre artimanhas da cultura livre. Não deixe de ler sobre detournement”. Ficou tão bonita (e, óbvio, superestimado a milhão) a frase que pensamos até em trocar nosso lema para “Artimanhas da cultura livre e digital“. Que tal?

Ficção Interativa, muito prazer

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ScreenHunter_06 Sep. 03 18.11

Você entra numa página para investigar uma das figuras mais interessantes do que pode se chamar de ficção interativa (existe isso?).

Clica numa das que estão relacionadas como obras.

De repente, aparece uma frase num fundo verde, seguida de outra. Height ranges the stones. Shapes hold. Outras vão surgindo sem aviso prévio, em intervalo de tempo de alguns segundos (o necessário para a leitura): Mists trail the basins. stamp the cool —Layer commands the shape. E assim vão se colocando outras frases, abaixo umas das outras

Shape frames the flow.
Forests hum.
The crags roam the stone.
(…)
Shape commands the ripplings.
Mists dwell.
Layers hold.
Shapes command the coves.
direct the sinuous arched cool dim —

Sucessivamente, num incômodo automatismo que, ao fim de quase quinze minutos, parece terminar. Aí está o poema Taroko Gorge, e este quem escreve é Nick Montfort, a tal figura das mais interessantes do que se pode chamar de ficção interativa.

Muito prazer.

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nick monfort

Nick Montfort (foto acima) tem jeitão de professor de tecnologia, daqueles que passa mirabolantes equações no quadro-negro para sua alunada resolver. Mas é outra coisa: Associate Professor de mídia digital do famoso MIT, (ou Massachusetts Institute of Technology), alojado no Program in Writing and Humanistic Studies, que só por sua página futurista já assusta.

De sua formação em ciência da computação até hoje passaram-se 14 anos. Tempo no qual ele resolveu ir para um lado algo distinto da maioria de seus colegas: a escrita interativa. Para isso, tratou de buscar as (in) formações necessárias: fez pós-graduação no próprio MIT com a tese “A Conversational Computer Character to Help Children Write Stories” de um lado, e Mestrado em Escrita Criativa na Univeridade de Boston de outro. Uniu tudo em sua tese, “Generating Narrative Variation in Interactive Fiction“, defendida em 2007 no Departamento de Computação & Ciência da Informação da Unversidade da Pensilvânia, no nordeste dos Estados Unidos.

Como professor do MIT desde setembro de 2007, agora também trata de ensinar um pouco daquilo que aprendeu. Dentre as matérias que leciona está a de “Interactive and Non-Linear Narrative: Theory and Practice“, que pelo seu programa parece deveras interessante.

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Como um estudioso e praticante da ficção interativa, Montfort desenvolveu uma boa quantidade de projetos interessantes. Um dos mais vistosos, digamos assim, é o chamado “Implementation“, desenvolvido em parceria com Scott Rettberg, também um entendido do assunto.  O projeto consiste, basicamente, de um romance sobre psychological warfare, American imperialism, sex, terror, identity, and the idea of place, nas palavras dos dois criadores. A diferença fica a cargo da forma:  Implementations é um romance picotado e colado  nos mais diferentes lugares do planeta, como

No trem de Cambridge para Londres, na Inglaterra
No trem de Cambridge para Londres, na Inglaterra

Ou num

Muro grafitado de Edinburgo, na Escócia
Muro grafitado de Edinburgo, na Escócia

ou ainda num

Poste de uma rua em Nova York
Poste de uma rua em Nova York

Em entrevista ao Estadão, Monfort explica que o projeto consistiu de textos, impressos em etiquetas adesivas em superfícies expostas ao público do mundo inteiro:

Ele foi ”publicado” como uma arte em adesivo, mas decidimos colocar nas nossas etiquetas arte verbal, fragmentos de um romance. Queríamos que as pessoas se sentissem intrigadas e provocadas pela experiência da leitura, mesmo que vissem apenas um adesivo. Mas esperávamos que algumas pessoas encontrassem outras, na rua ou na internet, na qual agora temos mais de 1.600 fotos graças a muitos participantes anônimos.

É uma inusitada mistura de arte conceitual/digital/interativa com intervenção cênica, ficção seriada, marketing de guerrilha e outros rótulos explicativos que você quiser relacionar a seu bel prazer.

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Outro dos projetos interessantes (curiosos também seria uma palavra boa) do escritor-professor do MIT é o “2002: a Palindrome Story” – Palíndromo, como se sabe, é aquela frase/palavra/sequência de unidades que conserva o mesmo significado lida tanto da direita para a esquerda como da esquerda para a direita. O projeto de Monfort, realizado desta vez fez em parceria com o também escritor William Gillespie, consistiu de uma narrativa inteira palindromizada (se é que existe essa palavra), com exatos 2002 caracteres. Lendo do começo para o fim, na sequência que aprendemos a ler desde ninõs,  ou do fim para o começo, na sequência contrária, a narrativa é absolutamente igual – uma história um tanto hermética de Bob, um herói amalucado e fascinado por databases (?).

Absurdo de entender? Impossível de fazer? Não com uma ajudinha do programa de computador Deep Speed, que dá uma senhora mão na hora de verificar cada um dos palíndromos e que, por sinal, foi utilizado pelos autores. Dê uma olhada abaixo para ver como 2002 se apresenta. Dá para ler o texto na íntegra em formato de página web, ou ainda em versão impressa e ilustrada – neste caso, tem de pagar.

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Se lembra do Taroko Gorge, o poema que abriu esta postagem?

Eu esqueci de mencionar uma coisa à respeito: ele não dura quase quinze minutos, mas sim o tempo em que a sua janela estiver aberta. Durante toda a produção desse post a janela permanceu aberta, o que quer dizer que durante duas horas ele continuou gerando frases e mais frases, abaixo uma das outras, num fundo verde, ininterruptamente.

Como isso?

Através de um gerador de poesia em javascript, escrito originalmente como um programa em linguagem Python 1k.

[Leonardo Foletto.]

Créditos: 1, 2-3-4.