Berners-Lee, Gil, Noblat e as interrupções

janeiro 21st, 2009 § 3 Comentários

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Como eu vinha dizendo no post anterior, a terça-feira foi movimentada por aqui. Teve Tim Berners-Lee, Gilberto Gil, Ricardo Noblat, Teatro Mágico (de novo), e mais tantas e tantas palestras e oficinas acontecendo ao mesmo tempo em cada um dos espaços do evento. Vale dizer que, como tudo acontece no mesmo pavilhão, sem divisão espacial e muito menos acústica, frequentemente há interrupções de alguma atividade de uma área em outra, quando essa intervenção não vem do próprio palco principal, localizado no meio do pavilhão. As interrupções são dos mais variados tipos: nerds dos Games que aumentam demais o volume em suas “partidas” de Guitar Hero no telão; malucos gritando coisas sem sentido nos diversos megafones espalhados pela área; parabéns-a-você puxados do nada e cantados em uníssono segundos depois; comunicados oficiais da organização do evento no palco principal; dentre outras atividades.

Mas vamos às atividades. A conferência de Tim Berners-Lee aconteceu às 13h, no intervalo de almoço da maioria. Foi no palco central, como convém à personalidade em questão, que capitaneou a criação da linguagem web e do protocolo http – ou, resumindo, “inventou” a internet – quando trabalhava no CERN, na Suiça, o mesmo laboratório que hoje termina o  LHC, o maior acelerador de partículas no mundo. Berners-Lee é inglês com cara e jeito de inglês, portanto dotado de um humor menos nerd que o de seus companheiros americanos Bill Gates e Steve Allen, também importantes e reverenciados na área. Mas isso não significa que sua palestra tenha sido boa: explicar a web 3.0, tema da palestra, em um palco enorme, com um datashow atrás e uma tradutora do lado não é bem apropriado para conseguir o entendimento do expectador comum como eu, que até gostaria mas ainda não consegue entender os complicados diagramas de setas e balões que apareceram no telão. Mas talvez a maioria tenha entendido, e é isso que vale. De qualquer forma, se você quer saber mais detalhes do que ele falou, entre aqui que tá tudo explicado, mais do que foi na palestra.

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Chamou a atenção dos fotógrafos e curiosos a presença do excelentíssimo ex-ministro Gilberto Gil nas primeiras filas da palestra, acompanhado de sua mulher, Flora. Gil que, aliás, ao fim da palestra, cruzou na minha frente na praça de alimentação, enquanto comia um interessante X-Salada a R$6,00. Chegou a esbarrar na cadeira ao meu lado, com suas tranças que ao vivo parecem bem maiores e exóticas do que vistas de outras formas.

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A programação da área destinada aos blogs esteve interessante durante toda a tarde. Primeiramente, Alex Primo apresentou sua tipologia de blogs em sua pesquisa sobre conteúdos e interações de blogs em português. Apesar de estar na bancada quase ao lado do palestrante, não consegui ouvir muita coisa – culpa das já faladas interrupções e do sistema acústico caótico. Primo faz um excelente trabalho acadêmico com os blogs, fora o fato de conseguir articular como poucos as pesquisas da academia com o interesse do público comum. As minhas poucas divergências com relação ao seu trabalho são mais com posturas tomadas frente ao jornalismo, por às vezes, no meu entendimento, se esquecer que o jornalismo é uma prática consolidada por séculos, que tem uma tradição teórica e histórica que não pode ser menosprezada pelo advento de novas tecnologias. Mas como ele é Doutor e eu sou um reles mestrando – portanto nada, na hierarquia acadêmica – esqueçam essa parte e pulem para o parágrafo depois da foto.

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O primeiro blogueiro-jornalista profissional do país, Ricardo Noblat, foi o convidado do espaço de blogs. Ele é daquele tipo em extinção hoje em dia: o jornalista de décadas de redação, falante e irônico, malandro em qualquer tipo de conversa. Tentei me encaixar no ritmo do evento todo e fiz uma cobertura da palestra, em tempo praticamente real, no Twitter. Logo percebi que não era o único, mas de qualquer forma fui até o fim – dá pra ver lá no meu twitter a minha cobertura, sob a tag #cparty.

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Ao mesmo tempo da palestra do Noblat, Gil fazia uma “palestra cantada” em outro espaço, o da Inclusão Digital. Bem ao seu gosto, Gil falou, cantou e viajou bastante. Levado a comentar a questão do Projeto Azeredo e a censura sobre a internet, ele se saiu assim:

“Esse pessoal inflexível, rígido, tão sempre achando que qualquer coisa nova pode ser uma ameaça à esse… esse mundo, essa idealização da ordem absoluta. As ordens são aquilos que nós fazemos; as ordenações, em quaisquer níveis que se tem, são sempre o que nós dispomos. Nós, os homens, com a nossa vida (…) As ordens são transformações, processos permanentes de transformação. Esses, por outro lado, que advogam por uma ordem rígida – a ordem é isso que se estabeleceu aqui, qualquer coisa, enfim, que tente deslocar um centímetro desse… monolito,  um pedacinho dessa pedra, deve ser evitado. Eu acho que hoje, o medo e o pânico com relação à internet, que evidentemente veio derrarmar uma série de novos elementos do caos, da caotificação necessária, da problematização permanente das coisas, que é o que mantém a capacidade de investigar, de inquirir, de perguntar, de descobrir (…) Agora tão com medo da internet. Tão achando que a internet é o lugar do caos, do caos absoluto…”

Não vou continuar mais porque não consigo escutar mais do vídeo que fiz do Gil falando. Mas seguiu essa linha caótica até o fim, quando ele encerrou a palestra cantando “Banda Larga Cordel“, música de seu último disco e com uma letra pertinente à temática da Campus Party. O vídeo abaixo  – perdoem a má qualidade do áudio – mostra o finalzinho da palestra e o início da música, já que acabou a bateria da câmera no meio da apresentação. Durante três momentos, Gil parou de tocar e olhou pra cima, no que eu entendi ser uma tentativa de encontrar o restante das palavras para prosseguir a música.

[Leonardo Foletto, enviado especial e rabugento a São Paulo]

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Correção: No post de ontem, Live At Campus Party, falei que haviam 4000 barracas, quando na verdade são pouco mais de 2000. Quatro mil é o número de inscritos com computador, segundo informações oficiais do evento.

Créditos fotos:  A primeira, a segunda e a terceira são do Flickr oficial da Campus Party. A quarta é do João Pedro, o mesmo do post anterior.

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Causos da Campus Party (1)

janeiro 21st, 2009 § 5 Comentários

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Terça-feira foi um dia bastante movimentado por aqui. Melhor: ainda está sendo, porque enquanto escrevo o Teatro Mágico, de novo, ocupa o palco principal na abertura da chamada Creative Party, que segue até as 2h da manhã. O mais estranho episódio da noite aconteceu agora pouco, e é ainda sob os efeitos do acontecimento que me obrigo a dedicar um post  sobre isso.

Bueno, foi assim: todos os campuseiros estavam com suas respectivas atividades no pavilhão principal, onde se concentra boa parte das pessoas aqui presentes. Minha posição na bancada era na parte do Campus Blog, onde me inscrevi, que fica mais ou menos no centro do pavilhão. Minha visão é da lateral do palco principal; enquanto escrevo, olho para a frente e vejo os sete palhaços (literalmente, não ironicamente)  do Teatro Mágico e o público, que agora está batendo palmas no ritmo da música, como ainda vão fazer mais umas setes vezes hoje.

Por volta das 21h30 de hoje, portanto há nem pouco mais de três horas, uma correria se deu na minha frente. As arquibancadas em frente ao palco foram escaladas com um só pulo de tênis-lancha; as laterais foram cercadas por câmeras fotográficas sedentas de flashes esvoaçantes; os camisas pretas-brancas-azuis-verdes cercaram o pequeno espaço em frente ao palco, formando um semi-círculo de algumas camadas de pessoas, de modo que tornou-se impossível visualizar o centro do foco de todas as câmeras.

Uma música com um perceptível toque árabe soou, seguida de uma luz tão amarela quanto possível. Punheteiros gritos masculinos espalharam-se como um viagra para os que ainda estavam sentados em suas bancadas, que resolveram levantar, chegar mais perto e finalmente visualizar o motivo de tudo: uma moça solitária, de véu na cabeça, bustiê, pés descalços, barriga de fora, fazendo a Dança do Ventre.

Ouviram-se mais gritos no decorrer dos minutos seguintes, e mais pessoas compareceram ao semi-círculo.  Viu-se, depois, que também houve toques e esbarrões na moça, tanto que  o diretor da Campus Party, Marcelo Branco, teve de ir ao palco para pedir mais espaço para a moça. Atendeu a um pedido dela, talvez apavorada com tanto desejo acumulado voltado para si.

[Leonardo Foletto, enviado especial e apavorado a São Paulo]

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