Articular a cultura livre desde o sul global

O ENCONTRO

A cultura livre é jeito /maneira de produzir cultura que promove o compartilhamento e a continuidade de obras culturais como bens comuns da humanidade. Como ideia, existe desde que a cultura existe, mas, como proposta prática mais organizada, nasce inspirada no movimento do software livre e nas 4 liberdades por ele fundamentadas, ainda nos anos 1980 e 1990, e se espalha pelo mundo a partir da luta anticopyright do início dos 2000 e das licenças livres, das quais as mais conhecidas e bem sucedidas hoje são o Creative Commons (CC).

Com a transformação da internet nos últimos anos, como, em 2018, a ideia da cultura livre permanece? quais são as atuais discussões que envolvem a temática no sul global? Quais iniciativas, pessoas, projetos, coletivos, instituições que hoje defendem e atuam na cultura livre? Quais os desafios de sustentabilidade postos em iniciativas de cultura livre num mundo onde a internet está cada vez mais centralizada? Passados mais de 15 anos da criação das licenças CC, um marco na história recente da cultura livre, como está a discussão sobre as leis de direitos autorais hoje? Quais os bens culturais (publicações, filmes, músicas, artes visuais, tecnologias, sítios) produzidos em diálogo com a cultura livre?

Com essas provocações em mente, queremos realizar um encontro 100 % online para unirmos nós, xs autorxs, produtorxs e ativistas da cultura livre, com outras pessoas que buscam conhecer o movimento e se aproximar, informando-nos do “estado da arte” no sul global. Será nos dias 21, 22 e 23 de novembro de 2018, na internet, em diversos nós e páginas da internet que explicamos melhor mais abaixo.

A chamada para o encontro é aberta para todas aquelas pessoas que se identifiquem como pertencentes ao sul global. Sul aqui não é utilizado como estritamente geográfico, por isso não há impeditivo de país de origem. Para fins desse encontro entendemos sul como uma identificação cultural e geopolítica de vozes, territórios e corpos que historicamente foram calados, explorados, oprimidos, colonizados e/ou subjugados.

OBJETIVOS

_ Fomentar a discussão e a prática da cultura livre a partir da perspectiva do sul global; do planeta/terra;

_ Mapear e fortalecer as iniciativas de cultura livre do sul global, nesta edição em especial da Ibero América;

_ Dar a conhecer e divulgar as bases da cultura livre para públicos que ainda não a conhecem;

_ Criar canais, ferramentas e redes que facilitem o encontro de pessoas que trabalham com a cultura livre no sul global;

_ Discutir a sustentabilidade de projetos de cultura livre e articulações possíveis para fortalecimento de uma rede de apoio entre iniciativas.

PARTICIPANTES

Ativistas de cultura livre, artistas, professores, estudantes, pessoas dedicadas à gestão, mediação e articulação cultural.

COLETIVOS QUE ORGANIZAM O ENCONTRO

Mesa 1: Políticas públicas e reformas legais

O movimento da cultura livre nasceu em resposta ao avanço das leis de propriedade intelectual em todo o mundo. Desde então, ele questiona fortemente o papel do Estado em colocar barreiras e reprimir a livre circulação do conhecimento. Mas o movimento da cultura livre também propõe marcos normativos e políticas públicas para proteger os bens comuns, com o objetivo de socializar a produção e o acesso à cultura. Nesta mesa falaremos sobre as lutas atuais na região: reformas do direito autoral, leis de software livre e de repositórios institucionais abertos, políticas de digitalização do patrimônio e de produção cultural livre, e muitas outras propostas que vão desde a solução de problemas específicos até a mudança radical do sistema.

Coordena Ártica.

Mesa 2: Digitalização e acesso ao patrimônio cultural

Esta mesa de trabalho procura dar visibilidade às possibilidades de acesso às diversas manifestações culturais, nos mais variados formatos, através de plataformas livres e que consigam lograr o alcance do público-alvo interessado em cultura, bem como ser uma ferramenta de livre acesso para o público em geral. Na ocasião pretende-se também incluir a relação desses produtos com as licenças livres disponíveis e como reverberá os conteúdos e maneiras de salvaguardar o banco de dados para acessos futuros.

Coordena Rede das Produtoras Culturais Colaborativas.

Mesa 3: Laboratórios, hackerspaces e outros espaços de comunidades locais

Nas últimas décadas foram criados vários tipos de espaços comunitários, como laboratórios cidadãos e hackerspaces, por todo o planeta e também no sul global. Com diferentes formatos e objetivos, seus participantes em geral compartilham os valores da produção colaborativa e do uso de tecnologias livres. Inseridos em diferentes contextos, mais carentes ou mais abundantes, esses espaços têm sido polos irradiadores dos valores do conhecimento livre e da cultura livre. Mas como tem sido essa experiência? Quais suas potencialidades, limites e desafios? Essas são algumas das questões que esta mesa pretende abordar.

Coordenam Nodo Común e Em Rede.

Mesa 4: Redes internacionais. Como nos inserimos em um movimento global?

Para fazer e propagar a cultura livre, precisamos colaborar e tecer redes. Se somos um movimento que é contra o status quo capitalista patriarcal, de que forma podemos nos unir e tentar pequenos “hackeamentos” nesse sistema? Quem são nossos parceiros institucionais ao redor do mundo e, principalmente, no sul global? quais as principais redes que lutam no dia a dia pela cultura livre e o conhecimento aberto? Como fazemos para juntarmos forças e cuidarmos de nossos trabalhos, esforços e redes? Nesta mesa discutiremos como a cultura livre se insere num movimento global, quais os desafios para tecer e sustentar redes locais e globais e quem podemos contar como parceiros, institucionais e pessoais, no para nossa atuação no sul global.

Coordena Baixa Cultura.

Mesa 5: Produção cultural livre

Cada vez mais projetos culturais decidem apostar no paradigma da cultura livre e começam, por exemplo, a usar licenças livres e casas culturais de trabalho comum, entre outras metodologias colaborativas. um desenvolvimento conceitual muito elaborado, enquanto outros projetos têm uma sensibilidade ligada à cultura livre, mas desconhecem muitos detalhes importantes. A idéia desta mesa é mostrar diversas experiências de diferentes disciplinas culturais, aproveitando para falar sobre seus problemas relativos ao licenciamento livre, à propriedade intelectual, a constituição de catálogos ou pesquisas regionais de projetos culturais e coletivos culturais que trabalhem dentro do paradigma livre, entre outras questões. Um eixo transversal é como os diferentes projetos preveem a sustentabilidade.

Coordena Ediciones de la Terraza.

Mesa 6: Educação aberta e cultura livre

Talvez uma das áreas mais importantes em que a cultura livre é vital para o sul global seja a educação, onde a necessidade de materiais educacionais acessíveis, adaptáveis e reutilizáveis é um assunto urgente para uma educação verdadeiramente democrática e equitativa. O movimento de educação aberta e recursos educacionais abertos é, paradoxalmente, muito importante no norte, mas ainda não tem apoio e recursos suficientes nos países do sul. Nesta mesa, discutiremos as práticas educacionais abertas e as políticas que foram promovidas e que devemos promover para apoiá-las, na perspectiva do sul global.

Coordena Ártica.

METODOLOGIA

Modo 100% online: a participação será feita através da Internet, utilizando videoconferências ao vivo, publicações na web, documentos de texto, mapeamentos, curadorias e coberturas colaborativas, além de fóruns e chats.

Textos desencadeadores: para cada mesa, pediremos a uma pessoa que encaminhe um texto com provocações para pensar criticamente no marco da cultura livre. Essa pessoa também participará da moderação da mesa.

Chamada aberta: o encontro irá incorporar a possibilidade de participar com histórias de experiências, posts nos blogs dos participantes, bibliografia recomendada e mapeamento de experiências.

Videoconferências: durante cada um dos três dias do encontro, duas videoconferências serão realizadas por dia, de 1 hora a 1 hora e meia, com base nos textos de provocação. Em cada videoconferência, haverá pessoas convidadas a comentar e refletir, a partir de sua experiência ou perspectiva, o conteúdo dos materiais.

Espaços para debate: os textos serão publicados em espaços de debate online onde qualquer participante poderá fazer contribuições, perguntas e comentários. Esses espaços estarão abertos durante um período antes e depois das videoconferências, para dar tempo à participação. As ferramentas incluirão fóruns e chats, além de documentos com comentários e anotações.

Relatorias: cada mesa será documentada com um relatório que sintetizará os pontos discutidos, os acordos, desacordos, problemas pendentes e novos debates que permanecerão abertos.

Mapeamento: durante todo o encontro vamos mapear experiências e projetos atuais de cultura livre.

Curadorias da produção cultural livre: para acompanhar o debate na mesa de produção cultural, vamos fazer uma curar uma curadoria de produção editorial e artística recente, baseada em licenças livres.

Cobertura colaborativa: faremos uma chamada aberta para blogs para cobrir o encontro online de cultura livre do sul, através de posts relacionados às mesas do encontro.

PLATAFORMAS / ESPAÇOS

As mesas do encontro serão desenvolvidas nos sites dos coletivos que coordenam cada mesa. As videoconferências serão transmitidas ao vivo no YouTube. Nas redes sociais, vamos usar a hashtag #CulturaLS18.

IDIOMAS

Durante o encontro, nos comunicaremos indiscriminadamente em espanhol e português, promovendo o melhor entendimento possível entre os falantes das duas línguas.

DATA

As inscrições estão abertas até 31 de outubro de 2018.

O encontro dura 3 dias, de 21 a 23 de novembro de 2018, com instâncias anteriores e posteriores para considerar os tempos de participação online.

HORÁRIO

Dia 1: 21 de novembro

– 14 hs GMT | 11 hs AR/UY | 12 hs BR | 15 hs ES – Conferência de abertura

– 16 hs GMT | 13 hs AR/UY | 14 hs BR | 17 hs ES – Mesa 1: Políticas públicas e reformas legais

– 19 hs GMT | 16 hs AR/UY | 17 hs BR | 20 hs ES – Mesa 2: Digitalização e acesso ao patrimônio cultural

Dia 2: 22 de novembro

– 16 hs GMT | 13 hs AR/UY | 14 hs BR | 17 hs ES – Mesa 3: Laboratórios, hackerspaces e outros espaços de comunidades locais

– 19 hs GMT | 16 hs AR/UY | 17 hs BR | 20 hs ES – Mesa 4: Redes internacionais. Como nos inserimos em um movimento global?

Dia 3: 23 de novembro

– 16 hs GMT | 13 hs AR/UY | 14 hs BR | 17 hs ES – Mesa 5: Produção cultural livre

– 19 hs GMT | 16 hs AR/UY | 17 hs BR | 20 hs ES – Mesa 6: Educação aberta e cultura livre + final do encontro

INSCREVA-SE

O encontro é aberto e gratuito. Inscreva-se até 31 de outubro de 2018.

COMPLETE O FORMULÁRIO DE INSCRIÇÃO

Lançamento da campanha de financiamento & continuidade

O cansaço já havia decidido por mim faz alguns meses: 15 de setembro de 2018 seria a data de morte do BaixaCultura. É o dia também de aniversário de 10 anos, idade simbólica para um projeto que nasceu quando as redes sociais eram menores e a internet era outra, mais livre, menos distópica. Estava escolhendo alguns dos textos mais representativos nessa década para organizar um livro de despedida, uma espécie de coletânea do que passou pelos nossos radares, dos debates esperançosos sobre a necessária reforma nas leis de direito autoral nos idos de 2009 às máquinas de vigilância disfarçadas de redes sociais como este Facebook, passando por muitos (mesmo) outros temas que passaram por nossas páginas.

Comentei com algumas pessoas desse desejo e ouvi algumas respostas que diziam: “mas agora que tem 10 anos vai acabar?”. De fato, existem poucos projetos vivos que documentam e produz cultura livre (e contra) cultura digital. Na era em que tudo é registrado, onde parece tão fácil documentar, muito tem se perdido. Um paradoxo, ainda mais visível e paradoxal no mundo onde me movo, dos projetos, pessoas e instituições de cultura livre, remix, artivismo, hackers, contracultura, software livre, etc.

Comecei a pensar: e se o BaixaCultura continuar? Diferente, mais ativo e frequente, como resistência mesmo, num mundo (e especialmente neste Brasil de 2018) cada vez mais difícil de resistir. Como poderia encarar o desafio da sustentabilidade fazendo, vá lá, um jornalismo tão artesanal, por muitas vezes lento, um laboratório de produção de conteúdo, experimentação e formação em cultura livre, independente de publicidade e com a parceria de muitxs?
Uma tentativa de responder as perguntas acima está na campanha de financiamento recorrente que começamos nesta semana. Apoiar o BaixaCultura no APOIA.se é acreditar na cultura livre, no conhecimento aberto, e dar um crédito todo mês para que nós continuemos fazendo (e qualificando) nosso trabalho nessas áreas. São várias opções de apoio, começando por R$5, e você escolhe de acordo com as suas possibilidades de colaboração. Nossas metas estão detalhadas de forma transparente, para que todxs saibam o quanto precisamos mensalmente para fazer o BaixaCultura. E tem recompensas também, de zines a newsletter, de surpresas (impressas!) a encontros presenciais, oficinas e cursos.
Chega mais, veja o vídeo, leia o texto, se quiser/puder/achar importante apoie, se não ajude a espalhar. Recorrente é maratona e não 100m rasos, então a questão ainda segue. https://apoia.se/baixacultura
Leonardo Foletto, editor

Iniciativas feministas na cultura livre & ciberativismo #8M

Compilamos aqui neste post uma pequena série de projetos & textos feministas e/ou com uma perspectiva feminina sobre cultura livre, direitos digitais, cultura hacker, tecnologia e ciberativismo que publicamos em nossas redes sociais neste último dia 8 de março, dia da mulher.

PROJETOS

_ Cyborgfeministas “es un recurso para quienes quieran entender y explorar el punto donde se cruzan el género y las tecnologías”. É uma iniciativa de TEDIC, uma organização que defende os direitos digitais e promove o uso de tecnologias livres.


_ Economía Femini(s)ta (EF) “es una organización que nació en mayo de 2015 con el objetivo de visibilizar la desigualdad de género a través de la difusión de datos, estadísticas, contenidos académicos y producción original orientadas a todo público”;

_ GenderIT.org é um projeto internacional que pretende ser um think tank DE e PARA direitos da mulher, direitos sexuais e ativistas de direitos da internet, acadêmicos, jornalistas e defensores de uma variedade de disciplinas e contextos. A organização oferece um espaço de reflexão, influência e advocacia na política e cultura da internet, para ajudar a atender às necessidades das mulheres e não infringir seus direitos:

_ “Somos feministas interessadas em cultura hacker e os conhecimentos que unem política, gênero e suas tecnologias. Pautamos a interseccionalidade nas nossas ações, não toleramos machismo, homofobia, transfobia, misoginia, lesbofobia, xenofobia e racismo. Nosso objetivo é semear conhecimento, autonomia com corresponsabilidade e caminhos de mudanças sociais. Somos uma coletiva hackerfeminista”. Conheça a MariaLab.

_ Vedetas é uma servidora feminista produzida a partir de algumas integrantes do MariaLab. Ela existe para ajudar grupos feministas nas suas atividades online e aumentar a segurança e autonomia de mulheres na internet. Também há bastante material sobre cultura hacker, segurança da informação e feminismo.

 

_ Guia Prática de Estratégias e Táticas para a Segurança Digital Feminista foi construída pela Universidade Livre Feminista, o CFEMEA (Centro Feminista de Estudos e Assessoria), Marialab e Blogueiras Negras e SOS Corpo (Instituto Feminista para a Democracia). A proposta é provocar o debate sobre mudança de comportamento no espaço virtual e no uso de ferramentas e dispositivos que acessam a internet visando a proteger mulheres das violências sofridas na rede.

_ Mulheres na Tecnologia (MNT) é uma organização sem fins lucrativos cuja missão é contribuir para o protagonismo feminino na construção de um mundo sustentável na era digital. Habilitam organizações para a jornada de promoção da equidade de gênero, conectam comunidades de mulheres em TI e organizam eventos, encontros e apoiam iniciativas de protagonismo feminino na tecnologia.

_ A PyLadies  é um grupo de mentoria com foco em ajudar mais mulheres a se tornar participantes ativas e líderes na comunidade open source Python. Sua missão é promover, educar e promover uma comunidade Python diversificada através de divulgação, educação, conferências, eventos e encontros sociais. No Brasil organiza diversas atividades e tem núcleos em cidades como São Paulo, Porto Alegre, Campinas e Fortaleza, entre outras cidades.

_ A Django Girls é uma organização sem fins lucrativos e uma comunidade que capacita e ajuda as mulheres a organizar oficinas de programação gratuitas, de um dia, fornecendo ferramentas, recursos e suporte. “Somos uma organização de voluntariado com centenas de pessoas contribuindo para levar mulheres mais incríveis ao mundo da tecnologia. Estamos tornando a tecnologia mais acessível criando recursos projetados com empatia.” Durante cada um dos eventos, entre 30 e 60 mulheres criam sua primeira aplicação web usando HTML, CSS, Python e Django.

_GenderHacker é um “un estado de eterna transición y negación del binarismo extremo por el que el cuerpo indeciso debe transitar de una de las dos identidades permitidas a la otra y nunca quedarse en medio”. Site com diversos projetos, obras e trabalhos da artista e ativista trans Diego Marchante.

_ Fembot Collective é um coletivo fundado em 2009 na Universidade de Oregon, nos EUA, que edita a publicação aberta ADA sobre gênero, novas mídias e tecnologias. Produziram também a “Zen and the art of making tech work for you”, uma publicação de 2015 que trabalha com segurança da informação, privacidade e técnicas anti-vigilância para mulheres.

_ I am the Code é um movimento fundamental para mobilizar governos, empresas e investidores para apoiar mulheres jovens em STEAMD (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes, Matemática e Design), aprendendo a codificar, aprender criativos e problemas de cracking.

TEXTOS & ENTREVISTAS & RELATÓRIOS

_ Relatório produzido pela organização Derecho Digitales sobre gênero, internet e feminismo na América Latina. Detalha vários projetos na área, alguns que já listados aqui, outros não. Vale acessar o texto completo, de 30 páginas.

 

_ A Revista Pillku, focada em cultura livre e procomún, trouxe como tema de sua edição de dez 2017 o ciberfeminismo. A edição fala desde “la resistencia, las identidades disidentes, la interseccionalidad, disputamos el acceso universal a internet, con deseos de inundar la red con contenidos feministas y descolonizar los medios digitales”.

_ Menstruapps é uma reportagem especial criado pela Coding Rights que documenta os aplicativos que monitoram a menstruação (e ganham dinheiro com isso). Reportagem, design e infográfico feito por mulheres, a partir de uma organização também com ênfase no ciberfeminismo.

_ “Ciberfeminismo“, livro sobre o empoderamento feminino através da tecnologia, produzido pela editora Monstro dos Mares e organizado por Cláudia Mayer com textos de várias autoras.

_ “Que se calem as musas: por que o feminismo deve se opôr ao copyright” é um texto da ciberativista argentina Evelin Heidel (Scann) que foi traduzido para o ptbr por Sheila Uberti e publicado no site da Casa da Cultura Digital Porto Alegre.

__ A Radios Libres é um projeto latino-americano que pretende ser um “espaço de formação e debate em torno das tecnologias livres e da cultura livre”. Nessa semana, entrevistaram a Loreto (Maka) Bravo de la Red de Radios Comunitarias y Software Libre y Palabra Radio, que explicou como o feminismo e as tecnologias livres são ferramentas que permitem lutar contra o patriarcado;

_ “Ciencia, Cyborgs y Mujeres: La Reinvención de la Naturaleza” é um livro de ensaios da antropóloga Donna Haraway. “O trabalho de Donna Haraway é uma verdadeira encruzilhada. Reúne diferentes disciplinas acadêmicas (Biologia, Antropologia, História), várias tecnologias (Fotografia, Manipulação Genética, Agricultura) e várias formas de construção de experiência (Turismo, Partidos Políticos). Seus ensaios são simultaneamente história da ciência, análise cultural, pesquisa feminista e posição política. Eles são escritos com a intenção de que aqueles que os abordem a partir de uma dessas perspectivas se encontrem caminhando pelos outros, já que nenhum deles é suficiente para capturar as nuances de textos polifônicos.”

Gracias a Sheila Uberti, Janaína Spode e outras várias mulheres que contribuírem para a lista, ainda em processo. Sabe de mais projetos? Nos escreva: info@baixacultura.org

 

 

Cultura digital, metareciclagem e zapatistas em charla

Na quarta-feira, 30 de agosto de 2017, a BaixaCharla #2 teve como convidada Elenara Vitoria Cariboni Iabel, “cidadã comum, cyberpunk de chinelos, cyberativista, produtora cultural, metarecicleira, comunicóloga social, fundadora da Themis – Genero, Justiça e Direitos Humanos, colaboradora da rede MetaReciclagem, dos festivais de Submidialogias, da Ciranda Internacional da Informação Independente e do ponto de cultura Afro-Sul Odomodê. Como ela mesmo fala, “não gosto de sistema operacional windows, de violência, de racismo, de homofobia e de machismo; sou mãe do Cauã, da Inaê, do Ariel e conhecida pela quantidade de pessoas amigas que amo.”

Lelex (como é conhecida por muita gente) falou um pouco de seus projetos e também de seu recente trabalho junto aos zapatistas, berço altermundista instalado em Chiapas, sul do México. “Participei dos dois compArte por la humanidad, em julho de 2016 e de 2017 e do conCiencias em dezembro de 2016 e da Assembléia do Congresso Nacional Indígena, realizado em maio de 2017, onde foi anunciado o nome de Marichuy como representante do consejo Indigena de gobierno para as eleições presidenciais do México”. A conversa perpassou também pela sua trajetória em projetos culturais na internet desde 1995, os pontos de cultura, a metareciclagem, a cultura digital na era Gilberto Gil no MinC, entre outros temas. Confira abaixo:

A BAIXACHARLA é uma conversa mensal ao vivo, transmitido via streaming desde julho de 2017, com pessoas da cultura livre, remix, cultura hacker e subversões em geral, realizada pelo BaixaCultura em parceria com o FotoLivre.org.

Cultura livre e acesso aberto ao conhecimento em Portugal

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(post reproduzido do Fotolivre.org)

A convite do grupo Post-ip, do INET-MD Departamento de Comunicação e Arte/Universidade de Aveiro (Portugal), junto do Fotolivre.org, estivemos no DeCA para uma conversa que abordou os 10 mitos mais famosos sobre Cultura Livre e acesso aberto ao conhecimento.

Durante pouco mais de 2 horas debatemos os desafios e as alternativas para distribuição de produtos e abertura de processos relacionados à difusão cultural, acesso ao conhecimento e à produção artística.

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Os slides usados para a apresentação podem ser encontrados [aqui em .odp] e [aqui em .pdf]. Para fazer o download dos arquivos, clique com o botão direito do mouse e clique em “salvar link/arquivo como”.

Os vídeos apresentados foram: Tudo é remix parte 4 e Tudo é Remix Kill Bill.

Agradecemos novamente o convite, foi fixe 😀

#GCultural2016 – Experiências e Projetos de cultura e ativismo digital

mesa-3      A segunda semana do Congresso de Gestão Cultural #GCultural2016 é a dos trabalhos da Mesa 3 – Experiências e Projeto de Cultura e Ativismo Digital. Como o nome sugere, talvez ela seja a que mais traga diversidade nas ponéncias, porque é justamente este o objetivo: compartilhar experiências, sem um foco específico em cultura livre, questões profissionais, ferramentas/softwares ou lugares como as de outras mesas, mas tudo isso um pouco, centrado na ideia da palavra experiência – relatar o que aconteceu na experiência pesquisada/vivida por cada um@ e aprendermos com os erros e acertos de cada uma delas.

     Quando Mariana e Jorge vieram falar conosco sobre este congresso, e esta mesa em específico, pensamos que ela poderia ser o lugar para discutir um pouco mais a questão do ativismo, tão presente no nosso trabalho do BaixaCultura desde 2008 e tão importante no contexto brasileiro no qual falamos, de impeachment de Dilma Roussef. [Caso alguém queira saber: sabemos que é/foi golpe mesmo (seja político e/ou judiciário, midiático), e nada conseguimos enquanto brasileiros fazer pra evitar – muito por culpa do próprio PT, em boa parcela responsável pela situação chegar a esse ponto em que “os fins justificam os meios”, e também porque a “democracia” não parece ser um valor relevante para boa parte d@s brasileir@s. Teremos de lidar de frente com as consequências atuais e futuras deste fato, talvez concentrando energia em buscar “saídas” no micro, na autonomia, no local – mas esse é um papo pra outro momento].

     Mas aconteceu que as temáticas dos trabalhos enviados para nossa mesa não foram tão explicitamente ativistas quando imaginávamos, e tudo bem: o ativismo pode não estar explicitamente presente naquilo que fazemos, mas está lá, em todas nossas ações, em todas as decisões que tomamos, em tudo aquilo que queremos (ou não) pensar. Ativismo é ação, ação é existência. E todas os trabalhos apresentados para esta mesa falam muito dos desafios de existir enquanto projetos/pessoas de cultura (digital).

*

     Começamos (empezamos!): o primeiro artigo nos traz Daniel Daza Prado, de Buenos Aires, contando como descobriu o que era uma rede livre (red inalámbrica libre) e como, então, foi atrás de etnografar duas dessas comunidades em Buenos Aires. Crias diretas da cultura livres, estas redes já existem às centenas ao redor do planeta, com milhares de pessoas trabalhando de modo voluntário para levantar antenas caseiras, hackear routers e desenhar novas arquiteturas de rede à margem das grandes operadoras de internet.

     Na sequência, Marta Álvarez conta a experiência do bit:LAV, um espaço de criação de Valladolid (Espanha) inspirado nos laboratórios do procomún, como o referencial Medialab Prado em Madrid ou o recém criado Lab Santista, apresentado na 1º mesa deste #Gcultural. bit:LAV junta Marta e Alberto Marcos Cabero, a remezcla e as implicações políticas da cultura digital, em um espaço cultural dentro do Laboratório de Artes de Valladolid (LAVA).

     O terceiro trabalho da mesa vem do Brasil, mais precisamente São Paulo: Preto Café. Um café numa mesa de cultura e ativismo digital? não um café qualquer, mas o primeiro café pague-quanto-quiser da cidade de São Paulo, aberto em 2015 como um espaço de promoção da liberdade e da confiança – e inspirado pelos princípos de compartir da cultura e do software livre. Lucas Pretti busca compartilhar a experiência desde a busca pela inovação já no modelo jurídico-administrativo até a intenção colaborativa pragmática (que leva à defesa de um modelo de gestão “semi-aberto”) que leva o Preto Café a ser uma obra artística relacional.

     Nossa quarta ponéncia é desde Assunción: música Okápe é uma plataforma que busca agregar músicos da cena independente do Paraguai através de diversos formatos de difusão e promoção musical: festivais, shows, feiras, oficinas. Okápe é uma palavra do idioma Guarani que significa “fora” e dá nome ao projeto com a ideia de expansão e de dar um impulso para fora a cena musical alternativa paraguaia, como conta José Caballero no video da ponéncia mais abaixo.

     Na sequência, Bruno César Alves Marcelino, do Centro Latino-Americano de Estudos em Cultura – CLAEC de Foz do Iguaçú, cidade brasileira da tríplice fronteira (Paraguai e Argentina), traz um mapeamento cultural de duas cidades de outra região fronteiriça brasileira, Jaguarão e Arroio Grande, no sul do Rio Grande do Sul, próximo ao Uruguai. Duas cidades que, apesar de seu diminuto tamanho, apresentam 17 grupos, entidades ou aparelhos culturais, em sua maioria escolas de samba, num processo de gestão ainda precário.

     Lucy Alvaréz Galvez nos conta, no sexto trabalho da mesa, sua experiência de 13 anos de trabalho enquanto produtora cultural na televisão colombiana. É um relato que dá voz a uma geração de produtores que trabalharam antes e depois do surgimento da internet e que passaram pelas transformações das tecnologias de comunicação nos últimos anos e suas brutais modificações no ambiente de trabalho em que a tecnologia é presença forte, como a televisão. Como se adaptar e se apropriar dos diversos aparelhos digitais que aparecem e são extintos num ambiente como o de um canal de televisão regional? É uma questão que permeia a apresentação de Lucy, no vídeo e em texto.

     Por fim, temos Janaína Capeletti, de Porto Alegre (Brasil), que traz um artigo sobre as especificidades da arte digital feita no Brasil e sua relação com o ativismo e a cultura hacker. Ela entrevistou quatro profissionais que transitam entre a academia e a produção artística brasileira para saber como se dá essa relação na arte contemporânea brasileira. Constatatou, por hora, que o ativismo se dá na própria subversão aos processos da arte convencional, à vezes usando de princípios da ética hacker de forma não intencional.

**

     Para estimular o debate, propomos algumas questões para discussão na mesa e em cada trabalho:
_ Qual a ação ativista que vocês percebem nos trabalhos de vocês?
_ O que vocês tem tirado de maior aprendizado (em especial para a gestão cultural) a partir do trabalho apresentado aqui?
_ Quais os principais desafios para sobrevivermos enquanto rede na seara da gestão cultural na ibero-américa?

     O debate começa no grupo de telegram e segue por lá, nos comentários aqui ao lado (ou aqui embaixo, se quiser via Facebook), no Twitter ou em outras redes via #gcultural2016. Na quinta-feira (jueves), às 19h GMT (16h no horário de Brasília e na Argentina e no Uruguai), teremos uma videoconferência para dialogarmos e apresentarmos algumas questões para o debate. Adelante!

***

Libertades con senderos que se bifurcan en red. Fragmentos de una etnografía de los grupos que crean Redes Libres, Abiertas y Comunitarias
Daniel Daza Prado (Buenos Aires, Argentina)

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     Esta ponencia plantea compartir algunos fragmentos de una etnografía de las comunidades de Redes Inalámbricas de Internet Libre. El texto pretende describir, problematizar y analizar las experiencias de vida cotidiana, la tecnología y el activismo digital de estos grupos. Las redes inalámbricas libres están formadas por personas que conectan sus computadoras para compartir datos y servicios utilizando tecnología WiFi. Surgidas en el marco de la denominada “cultura libre” ya existen cientos de estas redes alrededor del mundo, trabajando voluntariamente para levantar antenas caseras, hackear routers y diseñar otras arquitecturas de conexión con el fin de promover procesos de participación libres, igualitarios y políticos en internet.

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Arte y activismo digital en la periferia: bit:LAV
Marta Álvarez (Valladolid, Espanha)

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     En los últimos años han proliferado en España los laboratorios del procomún, espacios en los que se ha ido articulando de forma específica toda una investigación colectiva en torno a este concepto y sus diferentes aplicaciones en el campo de la cultura y el conocimiento en relación con las posibilidades de la Red. Tomando como ejemplo espacios como Medialab Prado (Madrid) y como referencia centros dedicados al arte digital tales como Etopia (Zaragoza), Hangar (Barcelona) o Laboral (Gijón); nos propusimos tratar de desarrollar un espacio de creación e investigación en torno a la cultura digital y especialmente el arte en la ciudad de Valladolid que nos permitiera elevar de forma colectiva una visión crítica desde el arte con respecto al uso de las nuevas tecnologías.

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Estética relacional e economia de código aberto: a experiência híbrida do Preto Café com o conceito pague-quanto-quiser
Lucas Pretti (São Paulo, Brasil)

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   Este relato conta a história de criação do Preto Café, o primeiro café pague-quanto-quiser da cidade de São Paulo, aberto em 2015 como um espaço de promoção da liberdade e da confiança. Procuro compartilhar a experiência desde a busca por disrupção no modelo jurídico-administrativo e a intenção colaborativa mas pragmática (que leva à defesa de um modelo de gestão “semi-aberto”) até o status de obra artística relacional, que o empreendimento de fato alcança.

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Música Okápe
Caballero Gómez (Assunción, Paraguay)


     MÚSICA OKÁPE es un proyecto del Centro Cultural de España Juan de Salazar que tiene como objetivo favorecer la proyección nacional e internacional de la música independiente de Paraguay. Es una plataforma que pretende ser una red entre músicos paraguayos/as y la región donde participaron más de 70 proyectos, solistas, bandas y dj de diferentes tendencias y estilos. Fomentando la escena independiente con ciclos de conciertos, talleres, festivales, encuentros colaborativos, cibermedios, videos y programas de radio.


As Organizações da Sociedade Civil na Promoção das Políticas Culturais: Jaguarão/RS e Arroio Grande/RS, Brasil
Bruno César Álvares Marcelino (Foz do Iguaçú, Brasil)

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     Este trabalho é uma apresentação dos resultados obtidos junto ao projeto de pesquisa Cartografia da Cultura Fronteiriça, financiado via Fundo de Apoio à Cultura do Estado do Rio Grande do Sul – Brasil, o projeto teve como objetivo mapear e identificar as entidades e grupos culturais sediados nos municípios de Jaguarão e Arroio Grande/RS cidades que integram a fronteira sul do estado, a metodologia se deu em três partes, na primeira ocorreu o levantamento e coleta de dados, a segunda foi a realização da pesquisa de campo e visita aos grupos e associações mapeadas inicialmente e a terceira e última consistiu no tratamento dos dados e das informações coletadas. Identificamos um total de dezessete grupos e entidades culturais, no qual por meio dos resultados dos questionários e das visitas à campo, pode-se compreender de forma aprofundada como se dá a promoção das políticas culturais entre os grupos identificados.

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Experiencia en Canal 13
Lucy Tatiana Galvis Peñuela (Bogotá, Colômbia)


     Es un relato de la experiencia como artista plástica y productora de televisión con especialización en Gerencia y Gestión Cultural y en Televisión en el uso de nuevas tecnologías para el desarrollo de proyectos en Cultura-Comunicación y Educación en Colombia.

Descargar/baixar ponéncia completa.


Arte Digital e Ciberativismo: Intersecções com a Ética Hacker no Cenário Brasileiro
Janaína Capeletti (Porto Alegre, Brasil)

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Coletivo Projetação

     Este artigo é o resumo de uma pesquisa que analisa as especificidades da arte digital feita no Brasil, nos dias de hoje, e sua relação com o ativismo. Através de entrevistas com quatro profissionais que transitam entre a academia e a produção artística foi possível constatar que na arte brasileira, o ativismo se dá na própria subversão aos processos da arte convencional e na incorporação da cultura hacker no fazer artístico mesmo que, muitas vezes, de forma não intencional pelos atores.

Descargar/baixar ponéncia completa.

 

Congresso #GCultural2016 – programação

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As mesas temáticas ocorrem nas páginas web das organizações coordenadoras de cada mesa. As videoconferências canal de Ártica no Youtube.

12/9
19h GMT (16h no horário oficial de Brasília): | Início do Congresso: videoconferência inaugural com os coordenadores das mesas temáticas

13/9 a 15/9
Mesa 1: Gestão cultural para a produção de cultura livre. Coordenação: Ártica.

15/9
19h GMT (16h no horário oficial de Brasília).Videoconferência da Mesa 1.

16/9 a 19/9
Mesa 2: Comunicação em rede e ferramentas TIC para a gestão cultura. Coordenação: Comunicación Abierta.

19/9
19:00 hs GMT (16h no horário oficial de Brasília) || Videoconferência da Mesa 2.

20/9 a 22/9
Mesa 3: Experiências e projetos de cultura e ativismo digital Coordenação: Baixa Cultura.

22/9
19:00 hs GMT (16h no horário oficial de Brasília) || Videoconferência da Mesa 3.

23/9 a 26/9
Mesa 4: A Gestão cultural nas bases. Coordenação: Gestión Cultural UY.

26/9
19:00 hs GMT (16h no horário oficial de Brasília) || Videoconferência da Mesa 4.

27/9 a 29/9
Mesa 5: Profissionalização em gestão cultural. Coordenação: Aforo.

29/9
19:00 hs GMT (16h no horário oficial de Brasília) || Videoconferência da Mesa 5.

30/9 a 3/10
Mesa 6: Espaços culturais e comunidade em rede. Coordenação: Comandante Tom.

3/10
19:00 hs GMT (16h no horário oficial de Brasília) || Videoconferência da Mesa 6.

6/10
19:00 hs GMT (16h no horário oficial de Brasília) || Videoconferência de encerramento da equipe coordenadora do evento.

10/10
19:00 hs GMT (16h no horário oficial de Brasília) || Atividade de encerramento com a comunidade: maratona para compartilhar o melhor do congresso nas redes sociais com a hashtag #GCultural2016

10 mitos sobre a cultura livre no FISL

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No 17º Fórum Internacional do Software Livre em Porto Alegre, em julho de 2016, o editor do BaixaCultura e este que vos fala, Leonardo Foletto, fiz uma palestra acerca dos 10 mitos sobre a cultura livre e o acesso aberto ao conhecimento. A fala foi produzida a partir dos anos de trabalho com a cultura livre aqui e remixada com um Guia produzido pelos amigos do Radialistas, ONG com forte trabalho em rádio e software livre na América Latina, a quem agradecemos pelo apoio na tradução. A charla ocorreu num dos palcos principais do evento, num formato mais em tom de palestra, mas que teve algumas questões levantadas ao final. O vídeo da transmissão, na íntegra (cerca de uma hora), pode ser conferido aqui.

Abaixo, a matéria produzida pela cobertura colaborativa do FISL faz um resumo do que rolou.

Palestrante desfaz mitos sobre a cultura livre

Texto: Márcia Schuler

Mitos, um a um, desfeitos. Inspirada pela filosofia de compartilhar conhecimento da qual nasceu o software livre, a cultura livre ainda enfrenta resistência de alguns setores – inclusive produtores culturais. Jornalista e idealizador do Baixa Cultura, Leonardo Foletto se propôs a desmanchar a teia de preconceitos que se tece em torno do tema na palestra 10 mitos sobre a cultura livre e o acesso aberto ao conhecimento, realizada na manhã desta sexta-feira (15) na 17ª edição do FISL. Vamos aos mitos:

1. As obras culturais são criações completamente originais.

As criações não surgem do nada. Elas nascem a partir de algo que já existia, ainda que não se saiba o quê.

“Não existe um gênio brilhante que se tranca em um quarto e tem uma ideia totalmente original. Isso é um conceito romântico do século 19. A genialidade está mais ligada à quantidade de referências que tu tens do que à inspiração divina”, diz.

Ou seja, toda criação é coletiva. Uma ideia pode até ser genial, mas veio de algum lugar.

2. A cultura e o conhecimento sempre foram mercadorias suscetíveis de serem vendidas.

Se “sempre” se referir aos últimos séculos, isso é verdade. Mas existia vida antes disso. Em culturas indígenas, isso ainda é verdade. Não se detém direitos sobre o conhecimento e ele é transmitido livremente. No século 15, com o surgimento da prensa de Gutemberg, a ideia do conhecimento oral materializado em suportes, na ocasião, livros, começa a surgir, e junto com ela uma visão da mercantilização na área cultural.

“Isso é totalmente diferente hoje em dia. Se naquela época produzir um livro era um trabalho gigantesco, hoje com uma máquina (o computador) tu tens produção, edição, circulação e consumo. Isso é uma mudança muito grande na sociedade, inclusive maior do que a Era de Gutemberg”, avalia Foletto.

O cenário atual, portanto, é totalmente diferente daquele que trata cultura como mercadoria. A cultura e o conhecimento são bens da humanidade.

3. Os direitos autorais foram criados para proteger os artistas de quem copiava seus livros.

Surgido a partir do Estatuto da Rainha Ana, em 1710, o direito autoral foi criado para conceder a alguns o direito de imprimir livros, concessão dada por 14 anos, passível de renovação. Ele não foi criado para proteger a obra das pessoas que a copiam, mas do mercado que queria explorar o autor, sendo, também uma forma de controlar e restringir a distribuição. “Foi um monopólio concedido aos editores que detinham os meios de produção”, sintetiza Foletto.

Foram criadas para proteger os artistas dos editores, não dos copiadores e controlar e restringir a distribuição de obras. Havia obras que falavam mal da rainha, e precisava de controle. E assim foi criado o direito autoral, copyright.

4. A cultura livre não protege os criadores.

Não há nenhum risco de licenciar obras de forma livre. O Copyleft, originado no software livre, tem justamente a ideia de proteger a obra, mas deixando-a aberta, denfendendo o direito da humanidade ao conhecimento.

5. A cultura livre promove a cópia e isso é promover a pirataria.

Se você tem uma maçã e eu tenho outra; e nós trocamos as maçãs, então cada um terá sua maçã. Mas se você tem uma ideia e eu tenho outra, e nós as trocamos; então cada um terá duas ideias. Essa frase do irlandês George Bernard Shaw sintetiza bem a ideia: não há supressão. Quando se copia algo na internet, não se tira nada de alguém, portanto, democratizar o conhecimento não é pirataria. Se compartilha. “Quando compartilhas um arquivo, ninguém perde a obra, ela se espalha”, exemplifica Foletto.

6. A internet e a cultura livre matam de fome os artistas.

Existe uma mudança de paradigma. O sistema que sustentou a indústria no século 20 está se transformando. Se os Beatles precisaram vender discos para ficar famosos e correr o mundo, uma banda que surge no cenário atual sabe que não será assim. “Tu tens outras formas de sustentar a produção artística. Não há uma fórmula específica. Antes, tua única opção era produzir a partir de uma grande gravadora. Hoje temos milhares de fórmulas e podemos pensar tantas outras”, exemplifica Folleto. Na indústria tradicional, quem menos ganha é o artista, enquanto a cultura livre promove modelos em que as pessoas têm acesso à cultura e os autores vivem de suas criações.

7. Cultura livre é tudo grátis.

O “livre” que acompanha a palavra “cultura” não se refere à gratuidade, mas à liberdade de expressão e de acesso.

8. Cultura livre não tem validade legal.

Existem diversas licenças que garantem que os termos definidos por você sejam respeitados, como a Licença Arte Livre e alguns casos da Creative Commons.

9. Ninguém usa esse tipo de licença.

A Creative Commons atingiu um bilhão de obras licenciadas em 2015, muitas delas em licença livre. Entre os exemplos de licença livre trazidos por Foletto estiveram o conteúdo do site da Casa Branca, do Banco Mundial, do periódico espanhol El Diário, e as músicas do multi-instrumentista Hermeto Paschoal.“Estamos falando de ter autonomia, controle sobre a nossa vida e a nossa produção cultural”, reforça o palestrante.

10. A cultura livre é algo para especialistas, altruístas, comunistas, não para mim.

“O conhecimento é um bem comum, se isso é ser comunista, não sei”, diz Foletto. Ele assinala reafirma que, na história da humanidade houve muito tempo de cultura livre.“Talvez a pista para olhar para o futuro da cultura livre seja olhar para o passado, antes desse sistema que aprisionou a cultura”, completa.

PPT da fala aqui.

Construindo o 1º congresso online de gestão cultural

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O Congresso de Cultura Livre em Quito no Equador (2013) nos colocou em contato com muita gente na América Latina que trabalha na construção do conhecimento livre, seja em hardware, software, cultura, produção ou gestão cultural. São coletivos, centros culturais, pessoas e projetos que defendem a ideia de que a informação tem que circular, para que contagie e inspire outros. E que, assim como nós, estão convencidos de que o conhecimento não cresce por acumulação, mas por multiplicação: se eu tenho uma ideia e compartilho esta ideia, a ideia se multiplica e todos saem ganhando.

É com isso em mente que, nos últimos tempos, estivemos construindo com alguns destes coletivos uma nova proposta: a de realizar este ano um congresso online de gestão cultural. Em parceria com Artica Centro Cultural 2.0, Gestión Cultural (Uruguay), Comunicación Abierta (Bolívia), Aforo Gestión Cultural (México), Comandante Tom (Espanha), lançamos o 1º CONGRESSO ONLINE DE GESTÃO CULTURAL.

MAS COMO ASSIM UM CONGRESSO ONLINE?

A partir da experiência destes coletivos, e em especial do Ártica, que organiza cursos online abertos desde 2012, o congresso vai ser 100% online. Para entender melhor, dividimos a ideia em duas partes:

_ A parte “tradicional” de um congresso: o #GCultural16 vai funcionar como um evento acadêmico “normal”, em que as pessoas enviam um resumo a uma mesa temática, e o trabalho, caso selecionado, é apresentado para um grupo de pessoas que pode comentar, perguntar, opinar. Há espaço para conversas paralelas e também para conhecer gente nova.

_ O novo (e não tão novo): o #GCultural16 será 100% online. Em vez de alugar salas, usaremos fóruns, chats e videoconferências. Os artigos estarão disponíveis desde sua aprovação em páginas web. As mesas de trabalho não vão funcionar em sedes físicas, mas nas redes digitais, e serão distribuídas. Iremos visitar os endereços web dos coletivos que estarão co-organizando as atividades (listados acima) e faremos as discussões nas redes online.

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A primeira fase do congresso é a convocatória para apresentação de resumos, que foi lançada nesta semana e vai até 1 de junho. Dia 18 de julho divulgaremos as selecionadas; 31 de agosto é o prazo para receber os trabalhos completos; e de 12 de setembro a 10 de outubro acontece o #GCultural16, na web.

Convidamos a todos que enviem seus resumos de até 500 palavras (em português ou castelhano) para as mesas abaixo. Selecionaremos um conjunto de trabalhos para serem apresentados durante o evento, em setembro.  Também teremos outras atividades paralelas durante o evento que contaremos por aqui.

* Experiencias y proyectos de cultura y activismo digital
Relatos de experiencias de procesos / proyectos colectivos o individuales de ciberactivismo, hacktivismo, activismo digital artístico – “artivismo”; hackerspaces, makespaces, fablabs y otros tipos de centros de tecnología comunitaria; producción de cultura digital, arte y tecnologia; mapeos / cartografías digitales; performances y exposiciones artisticas; labs de experimentación digital. Coordenação: @baixacultura

* Gestión cultural para la producción de cultura libre
Experiencias y reflexiones sobre cómo se produce cultura libre en cualquier disciplina cultural. Proyectos que utilizan y promueven el dominio público, las licencias Creative Commons, licencias de software libre y otras formas de licenciamiento libre. Modalidades de trabajo de código abierto que invitan a copiar, replicar y remezclar. Coordenação: @articaonline

* La gestión cultural en las bases
Experiencias recorridas de colectivos y emprendedores culturales que trabajan desde espacios o proyectos íntimamente vinculados con el territorio y las comunidades. El foco temático de esta mesa nos lleva a considerar, además, la articulación de éstos con otros actores como colectivos, organizaciones, programas del Estado, empresas, etc. Dichas experiencias pueden provenir tanto del sector privado como público. Coordenação: @gestioncuy

* Comunicación en red y herramientas TIC para la gestión cultural
Experiencias y reflexiones sobre el uso de las TIC en el sector cultural. Comunicación, Infoactivismo, Código Abierto, Redes, Políticas, Herramientas. Coordenação: @danicotillas

*Espacios culturales y comunidad en red
La cesión de espacios por parte instituciones públicas y privadas, hace que se esté viviendo un momento de cambio en el que la cultura parece cobrar un protagonismo singular en las ciudades. Por ejemplo, el Ayuntamiento de Madrid  ha lanzado un marco común de cesión de espacios que estarán disponibles para el tejido asociativo de la ciudad. Estas experiencias, incentivan el intercambio, la colaboración y la innovación ciudadana y cultural. En esas circunstancias la capa digital juega un papel imprescindible en la construcción de una red de intercambio que conecte las diferentes propuestas locales creando una red global. Desde un punto de vista teórico, pero sobre todo práctico, el objetivo de las ponencias será indagar en las posibles vías de implementación de la construcción de esta red. Coordenação: @ComandanteTom_

* Profesionalización en gestión cultural
Experiencias y reflexiones sobre los procesos de formación en gestión cultural. Trayectorias profesionales, desarrollo de emprendimientos independientes. Diseño de proyectos y herramientas de planificación. Coordenação: @AforoMX

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Mais informações sobre neste sítio de Ártica. E qualquer dúvida, nos escrevam que prontamente responderemos.

Guerrilha da comunicação

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Seria a melhor subversão a alteração dos códigos em vez da destruição destes? Partindo dessa ideia, de algumas leituras e da documentação ao longo dos anos de ações “guerrilheiras” de comunicação aqui no Baixa, é que nasceu a oficina de Guerrilha da Comunicação. 

A ideia da oficina é a de apresentar teoria e prática de táticas de comunicação de guerrilha, dos nomes fake à produção de notícias falsas, passando pelo subvertising (propagandas anti­consumo com símbolos do capitalismo), cut­-up, happenings, eventos falsos e outras práticas agrupadas na ideia de artivismo.

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Realizamos uma primeira versão da oficina no Festival #Hashtag, em Ribeirão Preto – SP, em julho deste ano. Tratamos de apresentar ideias, exemplos e causos utilizados por coletivos que já falamos bastante por aqui, como osAdbusters, Wu Ming, Luther Blisset, Provos, BaixoCentro, e táticas como as de distanciamento, sobreidentificação, happenings, snipers (os franco-atiradores semióticos), nomes coletivos, fakes, entre outras. A partir de um fato da época na cidade, fizemos um happening chamado “Partida De Futebol Mais Rápida do Mundo”, registrado em imagens aqui e neste vídeo, editado pelos participantes da oficina.

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Fizemos (assim como na primeira, em parceira com o Fotolivre.org) uma segunda versão da oficina em novembro, junto ao Centro de Mídias Populares, com a equipe do núcleo de produção multimídia e para internet do Brasil de Fato. De menor tempo de duração, desta vez fizemos um apanhado das táticas apresentadas anteriormente e trouxemos mais exemplos, de situações mais cotidianas e fáceis (como os memes) à casos históricos do hackativismo, como o caso Dow Ethics, do Yes Men, e o Eletronic Disturbance Theater, ação do Critical Art Ensemble em apoio aos zapatistas.

Ao final, dividimos em grupo os cerca de 30 participantes dos mais variados países da américa latina (contamos gente de Cuba, Venezuela, Argentina, Uruguai, Colômbia, Bolívia e Chile) para propor ações guerrilheiras em suas realidades. A agilidade dos memes foi uma das táticas escolhidas e consta que alguns deles já estão circulando pelas redes… Confira abaixo fotos das oficinas e, por fim, o pdf (mais de 40 páginas!) com a apresentação utilizada na oficina.

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Apresentação Guerrilha SP

Referências teóricas da oficina:
BLISSET, Luther. Guerrilha Psíquica. Sao Paulo, Conrad, 2001.
BLISSET, Luther. BRÜNZELS, Sonja. Como acabar con el mal: manual de guerrila de la comunicación. Vírus Editorial; Barcelona, 2000.

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Imagens: Nike Boy (Adbusters), Subertising, Florian Riviere. 

Ciberativismo e cultura livre

Recentemente, compilei (eu, Leonardo) muitos dos assuntos (e textos) daqui do BaixaCultura para uma disciplina de “Ciberativismo e cultura livre” na Unisinos, na especialização em Cultura Digital e Redes Sociais. Aproveito o embalo pra também disponibilizar todo o material aqui. São as apresentações utilizadas como guia para as discussões na aula, com muitas referências e vídeos, a bibliografia referenciada e alguns links complementares.

Como diria não sei quem, dar aulas é uma das melhores formas de aprender (e estudar).

Ciberativismo e cultura livre
0. Afinal, o que passa?
1. de onde vem tudo isso?

Ciberativismo e cultura livre
2. Quem são eles?

Cultura livre e copyleft
Direito autoral, copyright, copyleft, cultura livre, remix, software livre.

 Ciberativismo e Cultura livre – Segurança na rede
3. No futuro todos teremos 15 minutos de privacidade

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BIBLIOGRAFIA

ASSANGE, Julian (et al.) Cyperphunks: liberdade e o futuro da internet. Trad. Cristina Yamagami. São paulo; Boitempo, 2013.

BENKLER, Yochai. The penguin and the Leviathan: the triumph of cooperation over self-interest. New York; Crown Business, 2011.

BELISÁRIO, A; TARIN, B (Org.). Copyfight: Pirataria & Cultura Livre. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2012. Disponível em: http://baixacultura.org/biblioteca/3-livros/copyfight/

COLEMAN, Gabriela. Coding freedom: the ethics and aesthetics of hacking. Woodstock: Princeton University Press, 2013. Disponível em: http://gabriellacoleman.org/Coleman-Coding-Freedom.pdf

CURTIS, Adam. All Watched Over By Machines Of Loving Grace. BBC; 2011. Parte II: https://vimeo.com/125842843

FCFORUM. Cultura libre digital. Nociones básicas para defender lo que es de todxs. Barcelona; Icaria Editorial, 2012. Disponível em: http://www.icariaeditorial.com/pdf_libros/cultura%20libre.pdf

GARCÍA GAGO, Santiago (org.) 10 Mitos sobre la cultura libre y el acceso abierto al conocimiento. Guatemala; Radialistas.net, 2014. Disponível em: http://radioslibres.net/media/uploads/documentos/guia_4-cultura_libre_hivos.pdf

LESSIG, Lawrence. Cultura livre: Como a grande mídia usa a tecnologia e a lei para bloquear a cultura e controlar a criatividade. São Paulo, Editora Trama Universitário, 2005. Disponível em: http://baixacultura.org/biblioteca/3-livros/3-2-cultura-livre-lawrence-lessig/

HIMANEN, Pekka. La ética del hacker y el espírito de la era de la información. Traducción de Ferran Meler Ortí. Barcelona: Destino, 2002.Disponível em: http://eprints.rclis.org/12851/1/pekka.pdf

MALINI, Fábio. ANTOUN, Henrique. A internet e a rua: ciberativismo e mobilização nas redes sociais. Porto Alegre; Sulina, 2013. Disponível em: http://bookzz.org/g/F%C3%83%C6%92%C3%82%C2%A1bio%20Malini

VVAA. Copyleft: manual de uso. Madrid; Traficante de Sueños, 2006. Disónível em: http://baixacultura.org/biblioteca/3-livros/copyleft-manual-de-uso/

COHN, Sérgio. SAVAZONI, Rodrigo (org.). Cultura Digital.br. Rio de Janeiro; Azougue, 2009. Disponível em: http://baixacultura.org/biblioteca/3-livros/3-1-culturadigital-br/

SILVEIRA, Sergio Amadeu da. Ciberativismo, cultura hacker e o individualismo colaborativo. In: Revista da Universidade de São Paulo. Dossiê Cibercultura. (p.14 – 27) Jun./jul./ago. 2010.Disponível em: http://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/13811/15629

TASCÓN, Mario; QUINTANA, Yolanda. Ciberactivismo: las nuevas revoluciones de las multitudes conectadas. Madrid; Catarata, 2012.

SITES

O que é software livre? http://br-linux.org/faq-softwarelivre/

Tem boi na linha: guia prático de combate a vigilância na internet: https://temboinalinha.org/

http://actantes.org.br – coletivo antivigilância e pela liberdade na rede

 [Leonardo Foletto]

Radialistas pela cultura livre

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Os Radialistas Apasionados – coletivo de rádio latino-americano, um dos organizadores do Festival da Cultura Livre (2013) que participamos, em Quito – lançou semana passada uma radionovela sobre a cultura livre. Trata-se de “¡Utopía va por la libre!” e conta a história de uma banda (Utopia) que se vê no dilema de apostar no “sistema” das gravadoras ou seguir pelo caminho livre através das licenças Creative Commons.

São 5 capítulos com episódios de 6 a 12 minutos, todos muito bem produzidos em espanhol de fácil entendimento, inclusive para aqueles que não são hispano-hablantes. É um trabalho muito interessante para explicar a cultura livre para um público mais amplo, fora da “bolha” da cultura digital e da contracultura. Segue aqui abaixo o texto de abertura da radionovela e os links para escutar na Radioteca, uma rede social de radialistas da América Latina que disponibiliza o áudio em streaming, para baixar e também com o roteiro completo para ler (e baixar em PDF, se quiseres fazer uma versão na tua própria aldeia). Tudo livre, sob uma licença CC BY SA.

Cada vez son más las músicas, artistas y escritores que “van por la libre”, al margen del sistema, ajenos a discográficas o editoras, huyendo de los intermediarios porque no los necesitan. Apuestan por el conocimiento abierto y la cultura libre.

Creen que el conocimiento se genera colectivamente y lo que crean lo devuelven a la colectividad de forma abierta y libre. Esta nueva generación se sirve de Internet para difundir su trabajo. Ganan dinero en los conciertos, con charlas y así pueden seguir creando. Exploran otros camino, no ven la cultura como una mercancía y son apoyados por nuevas discográficas que quieren ayudar más que hacerse ricas.

Es un nuevo mundo,… ¡el mundo libre!

Para quienes habitan en esa utopía hemos grabado esta radionovela. Con ella queremos animar a las nuevas agrupaciones musicales, a los escritores y artistas a “ir por la libre”, como “Utopía”. Una banda de rock que se enfrenta a la disyuntiva de rendirse ante “sistema” o apostar por las licencias Creative Commons.

Música, sueños, amor, utopías y mucho copyleft. Escucha ¡Utopía va por la libre!

CAPÍTULO 1 – SUEÑOS SIN DINERO

CAPÍTULO 2 – NACISTE PARA CANTAR

CAPÍTULO 3 – BASTA DE ROMANTICISMOS

CAPÍTULO 4 – USTEDES SON LOS ELEGIDOS

CAPÍTULO 5 – SIEMPRE LIBRES

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O trabalho dos Radialistas em prol da cultura livre vai muito além dessa radionovela. No portal RadioLivres estão cursos livres, uma biblioteca com referências de software livre a produção radiofônica – inclusive, um completo manual urgente para radialistas livres de quase mais de 300 páginas. Além de uma videoteca com diversos filmes (docs, curtas) relacionados ao tema, parecida (mas mais ampla) do que a que mantemos na BaixaTV.

Outros dois trabalhos que vale destacar aqui são os spots de cultura livre, produzidos em agosto do ano passado, chamados “El mito…mata. ¡Mata el mito!” São 6 pequenos (até 1 min.) spots para desmistificar os direitos de autor e a cultura livre. Bem bom pra mostrar praquele seu amigo cabeça dura que acha que cultura livre é “tudo grátis” ou a “mata de fome” os artistas. Confere aqui abaixo que vale a pena:

1. MÚSICA Y DERECHOS DE AUTOR

2: LIBROS Y DERECHOS DE AUTOR

3: COPYLEFT VS COPYRIGHT

4: ORIGINALIDAD Y CULTURA LIBRE

5: CULTURA LIBRE NO ES UN “TODO GRATIS”

6: ACCESO AL CONOCIMIENTO EN LAS UNIVERSIDADES

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Por fim, e não menos importante, outro material fundamental produzido pelos Radialistas em formato de guia: 10 mitos sobre la cultura libre y el acceso abierto al conocimiento. Editado por Santiago García Gago, espanhol radicado na América Latina e nos Radialistas faz alguns anos, é um texto essencial para informar corretamente sobre a cultura livre, com argumentos básicos pra não propagar mentiras como verdades absolutas. Confira os 10 mitos aqui abaixo, em tradução para o português, e descarregue o guia, em PDF, que destrincha cada um deles.

1º mito: As obras culturais são criações completamente originais.
FALSO: toda criação é coletiva.

2º mito: A cultura e o conhecimento sempre foram mercadorias suscetíveis de serem vendidas.
FALSO: a cultura e o conhecimento são bens comuns.

3̣º mito: Os direitos autorais foram criados para proteger os artistas dos que copiavam seus livros.
FALSO: foram criadas principalmente para proteger os artistas dos editores.

4º mito: A cultura livre não protege quem cria e se pode roubar suas produções
FALSO: não há nenhum risco em licenciar as tuas obras de forma livre.

5º mito: A cultura livre promove a cópia e isso é promover a pirataria
FALSO: democratizar o conhecimento não é pirataria. Pirata é quem se apropria de algo que não é seu e o conhecimento é um bem comum.

6º mito: A internet e a cultura livre matam de fome os artistas
FALSO: A cultura livre promove modelos em que as pessoas tem acesso a cultura e os autores vivem de suas criações.

7º mito: Cultura livre é “tudo grátis”
FALSO: o modelo que a cultura livre propõe não é necessariamente o da gratuidade, mas sim o do livre acesso.

8º mito: A cultura livre não tem validade legal
Falso: As licenças livres, como as Creative Commons, tem validade legal na maioria dos países e você pode processar as pessoas que não respeitam os termos que estão em suas licenças

9º mito: Ninguém usa este tipo de licenças
FALSO: Fazem uso das CCs, por exemplo, da Casa Branca ao Banco Mundial, passando por periódicos, blogs e fotógrafos.

10º mito: Não posso fazer nada. A cultura livre não vai comigo.
FALSO: toda a sociedade pode apoiar este movimento e fazer mais acessíveis e livres a cultura e o conhecimento.

P.s: Alguém afim de ajudar a traduzir todo o guia sobre os mitos da cultura livre? Escreva pra baixacultura@gmail.com (ou baixacultura@riseup.net) que a gente tá querendo ajuda pra essa tarefa.

Reparar em vez de descartar

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Perguntas rápidas: você sabe trocar a resistência do chuveiro? consertar o abajur do lado da cama, quando ele abruptamente parou de funcionar? não se desespera quando seu computador não liga na 2º tentativa? Se sim, saiba que você tem tudo para ser um reparador, uma exceção nesse mundo que joga grandes quantidades de material fora, mesmo as coisas com quase nada de errado e que poderia obter um novo sopro de vida depois de um simples reparo.

Não é novidade nenhuma: vivemos numa cultura em que comprar um novo é muito mais fácil do que consertar o “velho”. Cito dois casos extremos: 1) as pernas (alumínio) de sua cadeira de praia estragaram, você quer levar a algum lugar que conserte. É muito provável, como já aconteceu por aqui, que você ganhe como resposta de qualquer lugar que procurar: “mas não vale a pena, compre outra que sai mais em conta”.  Mas e se eu quero que ela volte a funcionar, independente de “sair em conta” ou não?

Outro caso, na extremidade oposta: estragou uma peça no seu Iphone (o que, você usa Iphone?? :P). Se você for numa loja “autorizada”, qualquer peça que estraga costuma custar uma boa grana, só não o suficiente para você trocar seu telefone porque todos produtos Apple são exageradamente caros. As opções baratas se restringem ao mercado “negro”, em que os chineses são mestres. Talvez por isso mesmo é que o site IFixit, que traz uma grande variedade de manuais de reparo abertos e gratuitos, tem centenas de manuais dos produtos Apple. É como uma rebelião dos consumidores: “ah é, Apple, você vai incomodar tanto assim pra abrir ou reparar por conta própria um produto seu? Então nós vamos mostrar que sim, podemos fazer isso de modo colaborativo, sem vocês”.

No domingo 12/4, participamos de um evento que visa forlatecer essa cultura dos reparadores: o Café Reparo, projeto relacionado ao Ônibus Hacker e contemplado pelo edital Redes e Ruas (PMSP) da secretaria de cultura de SP. Ele prevê seis encontros voltados à cultura hacker que propõem laboratórios de pequenos reparos, discussões e proposições nos segundos domingos de cada mês no Centro Cultural São Paulo entre março e agosto de 2015. Estivemos do 2º encontro, buscando relacionar a ideia da cultura livre e do copyleft com a questão do reparo em vez do descarte. Ou você não acha que a cultura livre, ao expor o código-fonte da produção, não potencializa a autonomia também no reparo/manutenção dos objetos produzidos?

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Café Reparo na Holanda

O projeto foi abertamente inspirado por um movimento global chamado Repair Café, um conceito de café em que as pessoas de uma vizinhança se reúnem para consertar objetos quebrados em vez de jogá-los fora e comprar novos. O primeiro foi criado em Amsterdã, na Holanda, por Martine Postma. A ideia do café é simples: num determinado dia da semana, voluntários se reúnem para consertar itens que vão de brinquedos quebrados e roupas descosturadas a secadores de cabelo que não funcionam mais. Todos os reparos são feitos gratuitamente, como em uma troca de aprendizado entre os moradores de determinada região. Hoje são mais de 300 cafés desse jeito espalhados por 10 países – um deles no Brasil, em Santos, que acontece através da ANDES (Agência Nacional de Desenvolvimento Eco-Social).

O Repair Café não fala em competir com as assistências técnicas e as pessoas que fazem disso seu modo de ganhar a vida. Muito pelo contrário: a intenção é chamar a atenção para a possibilidade de cada um poder fazer o reparo de suas próprias coisas. De que você não tem que jogar fora tudo que “não funciona”: existem alternativas de conserto. Mas é claro que nem sempre vai se conseguir resolver o problema do objeto em questão, e quando isso acontece é que entram os (cada vez menos) técnicos disponíveis.

No Café Reparo de SP, a estrutura montada no evento conta com dois monitores – um mais de hardware, outro mais de software – mais três integrantes/produtores do projeto, que ficam durante o dia, das 10 às 18h, para ajudar você mesmo a reparar o seu objeto. Que fique bem claro: eles não vão fazer o serviço sozinho, você vai fazer junto com eles. Do It Together. No domingo em que participamos, um abajur, uma torradeira e uma cafeteira foram reparados; um videocassete teve seu problema detectado, o que em muitos casos é a maior parte do problema. Veja aqui abaixo algumas fotos desse dia, por Milena Migrans.

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Há diversos motivos para justificar a cada vez mais necessidade de repararmos aquilo que usamos. Muitos deles foram bem descritos neste manifesto abaixo, desenvolvido pelo site Ifixit a partir de um texto publicado por Mister Jalopy em seu site – que, por sua vez, foi publicado inicialmente na Make Magazine nº4. Traduzimos apenas o início, a tradução completa faremos em conjunto com o pessoal do Café Reparo SP – se alguém quiser ajudar a por isso numa arte, bota o dedo aqui (nos comentários desse post).

1. Reparar é melhor que reciclar
Fazer nossas coisas durarem mais tempo é mais eficiente e barato do que buscar/extrair matérias-primas de baixo custo

2. Reparar poupa seu dinheiro
Consertar coisas muitas vezes é grátis e geralmente mais barato do que a substituição delas. Quando você mesmo conserta você economiza dinheiro.

3. Reparar ensina engenharia
A melhor maneira de saber como algo funciona é desmontá-lo.

4. Reparar salva o planeta
A Terra tem recursos limitados. Eventualmente, vai acabar. A melhor maneira de ser eficiente é reutilizar o que já temos.

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A ideia dos cafés reparos é, no fundo, mais uma das iniciativas globais que visam fortalecer a autonomia das pessoas. Que visa abrir as “caixas-pretas” que estão por trás de qualquer objeto técnico e mostrar como eles funcionam. Como este texto da revista Wired aponta, talvez mais do que um movimento de “fazedores”, se faz necessário um movimento de “reparadores”, que deem novos (ou mantenham os velhos) usos a centena de milhares de objetos que são desperdiçados por aí. Quantas empresas no século XX tem promovido objetos feitos para quebrar em menos tempo do que de fato a capacidade deles poderia aguentar? o ato de reparar é também um ato de resistência contra a obsolescência programada, essa maldição tecnológico do século XXI.

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Se ficou interessado em saber mais do que rolou na conversa que fizemos no sábado, o pessoal do dispositivo – um projeto artístico-tecnológico-arquitetônico que vale muito a pena conhecer – fez uma gravação experimental da conversa, disponibilizada aqui abaixo. Como de praxe, versamos caoticamente sobre diversos temas relacionados a cultura livre, do nascimento do direito autoral aos movimentos de vanguarda do século XX, anticopyright por excelência, passando até por temas atuais e correlatos (?) como o Uber e o AirBnb. Fizemos uma apresentação, chamada cultura livre e copyleft, uma espécie de guia dos temas a serem falados, baseados em outras oficinas que demos de cultura livre e copyleft por aí.

 Créditos fotos: Milena Migrans (Café Reparo SP), Hypeness (Café Reparo da Holanda)

Pirataria de março: sul da terra

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Criamos mais uma seção sem compromisso de continuidade. Chama-se “Pirataria do Mês” e vai disponibilizar alguns discos, filmes e livros para baixar, coisas que estamos escutando/lendo/vendo durante o mês. É um recorte bem aleatório, mas que prioriza raridades e material não tão fácil assim de se achar na rede. Nasceu dessa vontade de compartilhar cultura e, principalmente, de disponibilizar coisas que gostamos e que não está tão fácil assim de encontrar. Curadoria de conteúdo, editar a web, alguém irá dizer. Pode ser.

Vamos fazer uma seleção de links já disponíveis na rede e deixar por um mês, até a pirataria do mês seguinte entrar no ar. Alguns são links pra download, catados nesta vastidão da internet, outros são links pro Youtube, que você pode baixar facilmente a partir do Offliberty ou outra ferramenta a sua escolha. Se alguém se sentir incomodado em ter seu material disponível na rede, favor discar para baixacultura@gmail.com que a gente conversa. Não estamos hospedando nada e também não temos nenhuma intenção (óbvio!) de ganhar dinheiro com isso. Nosso objetivo aqui é semear conhecimento, não discórdia.

A primeira edição, deste março, será de música do Rio Grande do Sul, Uruguai, Argentina, Chile e Cuba Chamaremos carinhosamente de “Seleção do sul da terra“, em homenagem a um baita programa de rádio intitulado “Cantos do Sul da Terra“, que vai ao ar na FM Cultura, de Porto Alegre, de segunda à sexta das 13h às 14h, apresentado e produzido por Demétrio Xavier, músico, intérprete e profundo conhecedor desta tradição musical.

Vale dizer que esta ideia do “sul da terra” está longe da música “tradicionalista”, aquela visão conservadora propagada e vendida em CTGs (Centro de Tradições Gaúchas) mundo afora. Longe porque, ao contrário desta, aqui se busca juntar a música dita “tradicional” com experimentações e transgressões dessa mesma tradição. Porque se acredita que uma tradição cultural (e musical), pra se manter viva e fazer sentido no mundo contemporâneo, não pode ficar presa em regras ditadas por pessoas ou entidades. Deve, sim, estar arejada a recriações e desafios. Respeita-se muito mais uma tradição ao tirar ela pra dançar do que deixar ela parada, sentada num museu, intocada e imexível.

Começamos com dois discos de personagens fundamentais da música sul-americana, figuras centrais da milonga: Alfredo Zitarrosa (Uruguai) e Atahualpa Yupanqui (Argentina). Não é fácil conseguir álbum destes na rede, por isso a escolha de um de cada; foi o que conseguimos (por hora). Desta mesma lavra de fundamentais cantautores latino-americanos disponibilizamos também um disco de Daniel Viglietti, grande nome da canção uruguaia; um de Silvio Rodríguez, dos músicos cubanos mais conhecidos no planeta; dois de Victor Jara, multi-artista importantíssimo da cultura chilena; o primeiro de Leon Gieco, cantautor argentino que aproximou o folclore da crítica social e do rock como poucos no continente; e dois de Mercedes Sosa, figura feminina das mais importantes da história cultural recente latino-americana.

Numa outra linha, temos alguns discos de músicos do RS. Duas coletâneas históricas: “Um século de Música no RS” são 3 discos com clássicos (em gravações originais) dos 1940 aos 1980 da música do RS, de Lupicínio Rodrigues a Hermes Aquino, passando por Barbosa Lessa, Túlio Piva, Paulo Ruschell e mais de uma dezenas de músicos conhecidos no estado. Organizado por Arthur de Faria para a CEEE (Companhia Estadual de Energia Elétrica), é um das cerejas do bolo dessa seleção. A outra coletânea é “Música Popular do Sul“, vol. 1 e 2, lançado em 1975 pelo selo Marcus Pereira, um grande desbravador da música de todos os rincões do Brasil (que em breve destacamos mais aqui). Tem gravações históricas, como Elis Regina registrando, pela primeira vez em disco, “Boi Barroso“; Noel Guarany em “Potro sem Dono“, além de várias cantos recolhidos da tradição negra do RS.

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Os Tapes

Seguimos com “Cantos de Pampa e de Rio”, melhor disco do grupo “Os Angueras“, criado em 1962 em São Borja, na fronteira norte com a Argentina, e liderado por Aparício Silva Rillo, conhecido folclorista gaúcho. “Os Tápes” vem do outro lado do estado, da diminuta cidade de mesmo nome situada às margens da Lagoa dos Patos, com dois discos. É um grupo que mistura a música gaúcha dita mais “tradicional” com o folclore latino, em especial no primeiro e melhor disco, “Canto da Gente” (1975), com a forte presença das flautas e da percussão de influência dos povos originários (ou “indígenas”).

Partimos pro que se convencionou chamar de “música popular gaúcha” (MPG), a mescla de fato da música tradicional do RS com o rock, pop e esta tradição latina. Tem a discografia completa de inéditas dos Almôndegas, referência na mistura do regional gaúcho com o rock e o pop e um dos grandes nomes da música do RS de sempre; “Saracura“, único disco da banda (de 1982) que teve em Nico Nicolaievswky – o maestro Pletskaya de “Tangos e Tragédias“, falecido em 2013 – sua maior figura; e três de Vitor Ramil, referência quando se fala em música popular gaúcha: “A paixão de V segundo ele próprio“, o 2º (e esgotado) disco, de 1984; “Ramilonga” (1997) e “Delibáb” (2010), dois discos em que Vitor reinventa a milonga à seu modo. De brinde vem o PDF de “A Estética de Frio“, o livro que dá os caminhos da aproximação da cultura gaúcha à cultura da região do Prata, dos vizinhos Uruguai e Argentina, e que hoje é uma das principais referências estéticas dessa proximidade: “Não estamos fora do centro, mas no centro de outra história”, diz Vitor, em relação ao centro brasileiro (o 1º) e o platino-sul americano (o 2º).

No meio de todas essas tradições e recriações, ainda estão Bebeto Alves & José Carlos Machado em “Milongueando uns troços” (1993), dos melhores discos de Bebeto Alves. Junto de Vitor Ramil, Bebeto é um dos que mais experimentam e atualizam a música tradicional desta região da terra, em especial a milonga. “Pampa Esquema Novo” traz Richard Serraria em seu trabalho sobre a música e a cultura negra presente no pampa, sobretudo no RS e no Uruguai. Vale conferir também o trabalho recente (ainda não gravado) do Alabê Oni, grupo de Serraria, Kako Xavier, Pingo Borel e Mimmo Ferreira que resgatam os tambores e a impressionante musicalidade negra (às vezes não tão comentada) do RS e do Uruguai.

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Tambo do Bando

Ingênuos Malditos“, do Tambo do Bando, é um disco histórico de um grupo que, a começar pelo nome, ousou desafiar a tradição conservadora gaúcha dos 1980/90 e fazer letras mais urbanas, de denúncias sociais, num cenário até então dominado por letras de louvação às coisas da terra, do gaúcho, cavalo, chimarrão, etc. , além de musicalmente aproximar a a gaita e o violão da guitarra elétrica, dos teclados e do rock. É também de dois dos integrantes do Tambo o próximo álbum da seleção, “Assim na Terra” (2012); Vinícius Brum, voz e violão do grupo, musica alguns trechos do livro de mesmo nome de Luis Sério Metz, conhecido como Jacaré e principal letrista do Tambo, falecido em 1996. Abrimos uma frase pra falar do livro, “Assim na Terra”, que foi relançado em 2013 pela Cosac & Naify e é, com sua linguagem magmática e sua jornada do sul ao mesmo tempo universal e experimental, provavelmente uma das maiores obras de ficção já escrita no Brasil de sempre – infelizmente, pouco reconhecida ainda. “O Pago Revisitado” traz Santiago Neto revisitando também algumas poesias de Jacaré, entre outros temas da música gaúcha (como “Rio da minha infância“), num clima blues/rock/folk, com pitadas de jazz (principalmente em “Há mais sul em meu rosto“, a melhor do disco).

Para finalizar, há Renato Borghetti e Yamandu Costa, ambos instrumentistas consagrados, que já rodaram o mundo com sua musicalidade sulista em mistura com outras várias. O primeiro com sua gaita ponto, que dá nome ao disco aqui buscado, de 1984, um dos mais vendidos da história da música instrumental nacional; e o segundo com seu violão milongueiro em fusão com samba, chorinho, jazz, música erudita e o que mais o talento de Yamandu conseguir misturar.

Pra facilitar o trabalho, segue aqui a lista completa dos discos. Disfrute!

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Lista dos links por ordem de citação no texto (clique no nome do disco pra baixar, a não ser quando especificado o site; no Youtube, lembre de usar o Offliberty pra baixar);

Alfredo Zitarrosa – Coleccion Histórica (2009)
Atahualpa Yupanqui – Vidala del Silencio (1969)
Daniel Viglietti – Canciones para el hombre nuevo (1968)
Silvio Rodriguez – Cuando Digo Futuro (1977) – Youtube
Victor Jara – Victor Jara (1967) – Internet ArchiveTorrent
Víctor Jara + Quilapayún Canciones folklóricas de América (1968) – Internet ArchiveYoutube –  Torrent
Leon Gieco – Leon Gieco (1973) – Youtube
Mercedes Sosa – Homenaje A Violeta Parra (1971) – Youtube –   Torrent
Mercedes Sosa – Sera Posible el Sur (1984)

Coletânea Um Século de Música no RS (vol.1, 2 e 3)
Música Popular do Sul – vol. 1vol 2
Os Angüeras – Cantos de Pampa e de Rio (1977)
Os Tápes – Canto da Gente (1975) – Youtube
Os Tápes – Não tá morto quem peleia (1980)
Almôndegas – Almôndegas (1975) – Youtube
Almôndegas – Aqui (1975) – Youtube
Almôndegas – Alhos com Bugalhos (1977) – Youtube
Almôndegas – Circo de Marionetes (1978) – Youtube
Saracura –  Saracura (1982) – Youtube
Vitor Ramil – A paixão de V segundo ele próprio (1984) – Youtube
Vitor Ramil – Ramilonga ou A Estética do Frio (1997)  – Youtube
Vitor Ramil – Delibáb (2010) – Youtube
Bebeto Alves & José Carlos Machado – Milongueando uns Troços (1993) – Youtube
Richard Serraria – Pampa Esquema Novo (2011)
Tambo do Bando – Ingênuos Malditos (1990) – Youtube
Vinícius Brum – Assim na Terra (2012)
Santiago Neto & Seus Dois Tordilhos – O Pago Revisitado (1997)

Renato Borghetti – Gaita-Ponto (1984)
Yamandú Costa – Yamandú Costa (2001)
Yamandú Costa – El Negro Del Blanco (2004)

Fotos: 1 (Joaquín Torres-García, “o sul é o nosso norte” ), Os Tapes, Tambo do Bando.
P.s: A seleção de abril, que já estamos preparando, vai trazer muitos discos de uma tradição musical negra e made in USA.

 

+ realidades do que canal de tv

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“existem + realidades q canais de tv, ouvi certa vez d1 pajé, e c/ isso na mente atravessei espaços, costurei os lances toques receitas notas relatórios projetos de lei sinais de fumaça testes caseiros truques e pixações deste relato, frutos coloridos da imaginação ao ar livre, experiências no espaço sideral interior ou no peito aberto das ruas, e as pernas sempre ventiladas da perambulação vagabunda por aí”.

As aventuras de cavalo dada em + realidades q canais de tv”, livro do amigo Reuben, que lá no longínquo setembro de 2008 esteve a frente da ideia que pôs em pé este blog, está disponível online no ISSUU. Também dá pra comprar a versão impressa no site da Pitomba, selo que lançou o trabalho, por R$20.

Reuben, vulgo Cavalo Dada, tem uma obra poética bem diversa de estilos, temáticas e performances. Zines, lambe-lambes, poemas, pixos transmídia, música, vocalizações, cantos fazem parte do material do maranhense de São Luís.

Sobre o que trata a obra? Vai lá conferir e depois diz aí o que achou. Umas imagens (fotos da Sheila Uberti) de aperitivo antes do livro embedado mais abaixo. Ele vai ficar também na nossa biblioteca.

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