Diálogos Abertos #3: Fake news

 

Dando sequência ao nosso papo tecnopolítico & cultural digital presencial e por streaming, vamos realizar a terceira edição do Diálogos Abertos sobre a onipresente e complexa questão das fake news. Já faz algum tempo que temos sido bombardeados de todos os lados com informações falsas sobre os mais variados assuntos, em especial a política e em redes como o WhatsApp e o Facebook. Esse bombardeio tem causado efeitos problemáticos para nossa vida em sociedade e, principalmente, para o sistema político tal qual conhecemos hoje, haja vista a decisiva participação de bots e agentes desinformadores nas campanhas do Brexit inglês e da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. É necessário combater essas informações falsas, sob o risco de esses efeitos se espalharem ainda mais, mas quais são as formas existentes de frear as fake news? É possível a construção de uma lei que seja razoável sobre o assunto? Como o jornalismo e as agências de checagem de fatos (“Fact checking”)podem contribuir para esse trabalho? e com que recursos farão o trabalho árduo, caro e cansativo que é o de checar a vericidade de informações?

Esse texto da Tatiana Dias publicado no Intercept Brasil levanta outras questões importantes: “as megaempresas do Vale do Silício podem investir o quanto quiserem em iniciativas de checagem de fatos – é uma boa maneira de aliviar a consciência –, mas nada muda o fato de que o coração de seus modelos de negócio é que cria um ambiente fértil para a desinformação.” Os esforços coletivos de construção de credibilidade são importantes, mas paliativos para um problema muito mais estrutural, que é o modelo de negócio da internet hoje, baseado na comercialização dos dados e na economia de atenção. O jornalismo tradicional não tem como (ou não quer) atacar esse problema com esmero porque, entre outros motivos, perdeu o poder (financeiro, estrutural, de inovação) de outrora para as grandes empresas do Vale do Silício. Então prefere se aliar a elas em iniciativas como a Comprova, um consórcio de 24 organizações jornalísticas (em sua maioria, mídias tradicionais) e, com isso, tentar resgatar sua credibilidade combalida pelos contínuos erros (ou desvios), em especial no Brasil pós-2013. Nesse caso específico, fica um acordo em que ambos saem ganhando: os principais responsáveis pela disseminação de informações falsas na rede mostram algum movimento para combater o que criaram, ainda que não atacando o principal motivo (seu próprio modelo de negócios); e o jornalismo tem uma chance para resgatar a credibilidade perdida e, num momento de escassez, angariar recursos com quem mais tem feito dinheiro hoje, justamente as gigantes do Vale do Silício.
Para o debate, teremos como convidadxs:
_ Naira Hofmeister, jornalista que já trabalhou para diversos veículos do Brasil e do exterior, premiada três vezes com o ARI de Jornalismo, o mais tradicional do Rio Grande do Sul. Especializada em grandes reportagens, vem desenvolvendo nos últimos anos matérias investigativas financiadas por leitores, como é o caso do Dossiê Cais Mauá e do Dossiê Palcos Públicos, de Porto Alegre, e é uma das jornalistas que está à frente da Filtro Fact-checking, iniciativa que vai checar informações de fatos, dados e declarações públicas com foco no Rio Grande do Sul, em campanha de financiamento coletivo no Catarse;
_ Nicholas Nether, advogado, mestre em Direito e Especialista em Direito Público pela Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP).

O debate terá a condução dos integrantes da CCD POA Janaína Spode, produtora cultural e ciberativista nas lutas pelos avanços políticos para reforçar os Direitos Humanos no mundo digital;  Fabricio Solagna, doutorando em sociologia pela UFRGS com pesquisa focada em governança da Internet e Marco Civil na Internet e que já realizou projetos de participação digital no governo do RS e na presidência da República; e Leonardo Foletto, doutor em comunicação pela UFRGS e editor desta página.

Diálogos Abertos #3 será realizado no cr1pto espaço criativo, local onde antes funcionava a lanchonete vegana Pasito, ao lado do Bar Opinião, no coração da Cidade Baixa, às 19h, em Porto Alegre. Teremos cafés, chás, mate e algumas comidinhas. Transmissão ao vivo via canal do Youtube do BaixaCultura, depois o vídeo será disponibilizado aqui. Tudo de grátis, só chegar.
Atualização 26/7:
As duas partes da conversa estão aqui abaixo, depois uma sequência de fotos do evento.

Apontamentos acadêmicos de um novo jornalista

Junto com um novo visual, o Baixacultura ganha mais um jornalista formado. Um dos nossos editores, o Marcelo, terminou seu maior post já feito: sua monografia. O trabalho de conclusão de curso, de Jornalismo da UFSM, relaciona a circulação da informação jornalística com o Creative Commons, através de um mapeamento de dois posts do blog jornalístico Meio Desligado. Diz que foi difícil, exigente, alienante – mas isso sempre é, para todo mundo.

Para fazer o TCC, foi preciso esclarecer os conceitos de direitos autorais e retomar brevemente o surgimento destes. Assim, pode-se falar das seis licenças Creative Commons, e sua base copyleftiana. Depois disso, foi descrita a circulação da informação no ciberespaço e como os blogs jornalísticos dispõem suas produções para os leitores. Então foi feito o mapeamento, por meio de buscas na web e análise de relatórios do Google Analytics do blog.

Deve-se reconhecer a compreensão e confiança vindas do jornalista mineiro Marcelo Santiago, responsável pelo Meio Desligado. Ele liberou – sem nunca ter visto Marcelo presencialmente – o acesso livre a todos os dados de visitas do blog, respondendo às entrevistas e divulgando a pesquisa publicamente em seu espaço. Dizem que isso não é lá muito comum, mas ele foi atencioso e educado desde o primeiro contato. Esperamos que o caso de Santiago sirva de exemplo para pesquisas futuras.

A defesa foi no último dia 13 de dezembro e a monografia foi aprovada com nota máxima. É de se ficar muito satisfeito, mas cabe aqui uma crítica a forma como se dá o sistema de avaliação de trabalhos acadêmicos: por nota. Não fica bem avaliar o desempenho e esforço intelectual humano através de uma simples estatística.

Seria interessante que a conversa que os professores componentes da banca tem com o orientador fosse transcrita e formasse um parecer a ser entregue para o aluno. As considerações ditas talvez não precisassem ser entregues, mas seria mais apropriado ter um parecer de avaliação do trabalho. Do jeito que está, com notas de aprovação de 7 a 10, é tudo muito obscuro – não se sabe exatamente o que foi levado em conta, nem se o resultado vale o quanto pesa. Difícil mudar todo esse pomposo sistema, mas fica aqui a sugestão.

O maior campus do mundo, como diria @O_Bairrista

O segundo apontamento a ser feito, mas mais restrito ao âmbito da Universidade Federal de Santa Maria (a foto acima cobre uma parte do campus da UFSM) é sobre a disponibilização dos TCCs. Por se tratar de uma universidade federal, sustentada por impostos de todo o país, todo o trabalho produzido nela deveria ser público. Atualmente na UFSM não há algo do tipo. Caberia talvez a, quem sabe, algum professor do Curso de Arquivologia fazer um projeto desses. Seria gratificante inclusive para os acadêmicos, já que não há muito sentido em gastar seis meses da vida escrevendo algo que vai ser provavelmente lido por apenas três professores.

O grupo de pesquisa no qual o TCC de Marcelo foi feito – o Jordi – publica todas as monografias produzidas sobre jornalismo digital, mas seria interessante que todos os cursos criassem um repositório digital de suas produções acadêmicas. Para citar um bom exemplo, a UFRGS tem o Lume, no qual divulga artigos, monografias, dissertações e teses, em creative commons. Isso não só dá visibilidade aos bons e variados trabalhos, mas também contribui para trabalhos futuros – além de tornar mais acessível o pensamento da por vezes distante academia.

Afinal, é na transparência que o conhecimento científico se funda, não é? Quem diz que alguma coisa é de um jeito, é porque leu em algum lugar antes que era assim. Ninguem aqui é ingênuo de achar que foi o primeiro a perceber que a Terra é redonda, certo? Esse pensamento pode ser potencializado no meio digital, em que é possível mostrar diretamente onde estão as obras, usando-se os links nas referências bibliográficas. O que vai acontecer no dia em que todos os trabalhos acadêmicos puderem ser baixados? Haverá mais citações? A qualidade vai melhorar? O número de “plágios preguiçosos” vai diminuir? Aí que tá.

Marcelo tentou fazer isso deixando link para boa parte das citações de livros, que podem ser baixados e depois lidos/conferidos na rede. E o que seria um trabalho acadêmico senão uma coleção de trechos de outras obras remixadas com reinterpretações em que são agregados novos trechos. Dá pra dizer que se as obras não estivessem na internet, a monografia não ia sair. Mas saiu e ta aí embaixo.

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[Marcelo De Franceschi]