As táticas da bela baderna (2): os dilemas de decisão

cindysheehan

Brasil, maio de 2016. Passado três semanas de um dos pontos mais lamentáveis da história recente brasileira, a votação do Impeachment de Dilma Roussef na Câmara dos Deputados, damos prosseguimento ao nosso intuito de difundir as táticas do Bela Baderna/Beautiful Trouble, um livro/site que traz, de forma simples e didática, táticas, princípios e teorias para mudar algo.

Depois de “Mude seu espectro de aliados”, a tática da vez é a do dilema de decisão, aquela situação em que qualquer coisa que o alvo em questão faça vai ajudar você. É uma tática útil e inteligente, que em certas situações causa um barulho que pode ocasionar mudanças reais no mundo/comunidade/pessoa que você queira mudar.

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COLOQUE SEU OPONENTE EM UM DILEMA DE DECISÃO*

Resumo
Desenhe sua ação de modo que seu oponente seja obrigado a tomar uma decisão, e todas as opções disponíveis sejam sempre favoráveis a você

Se você planejar bem sua ação, pode forçar seu oponente a uma situação em que ele precisa responder, mas não tem boas opções – na qual ele está ferrado se o fizer, e também está ferrado se não o fizer. Na verdade, muitas ações com objetivos concretos (como bloqueios, sit-instree-sits, etc.) PRECISAM de um “dilema de decisão” para serem bem sucedidas.

Pense no bloqueio de um prédio. Um bloqueio taticamente efetivo deixa apenas duas opções para seu oponente: 1) negociar com você /  atender duas demandas, ou 2) reagir por meio de força (violência contra você ou prisão). Isso é um dilema de decisão. Não deixe seu oponente sair de fininho pela porta dos fundos, e não se coloque em uma situação em que ele possa esperar impunemente que você saia. Você deve determinar um claro dilema de decisão. Sem isso, você permite que seu oponente e/ou a polícia ditem o sucesso de sua ação, ao invés de comandá-la por conta própria. Tenha certeza de cobrir todas as saídas possíveis – literal ou figurativamente.

Ativistas criativos podem adaptar essa inspiração tática para colocar seus oponentes em dilemas similares no nível simbólico. Veja o caso de Cindy Shehan (foto que abre o post). No verão de 2005, depois da morte de seu filho, especialista do exército Casey Sheehan, na Guerra do Iraque, ela acampou em frente ao rancho do Presidente Bush, no Texas, onde ele tinha acabado de chegar para três semanas de férias. Usando as palavras de Bush contra ele mesmo, ela prometeu não sair de lá até que ele se encontrasse com ela para explicar por qual “causa nobre” seu filho havia morrido.

Quando a mídia começou a cobrir o impasse, Bush estava encurralado em um dilema de decisão: ele estaria ferrado caso a encontrasse, e também caso não a encontrasse. Encontrar-se com Cindy seria um fiasco perante a imprensa. Não fazê-lo significaria dar-lhe razão. De todo modo ele perderia. No fim, ele não se encontrou com Cindy Sheehan, e o “Acampamento Casey (camp casey)” se transformou em um momento crucial para que a opinião pública norte-americana ficasse contra a guerra. [NB: o Indymedia ainda guarda documentação sobre a ação; Cindy ainda é uma ativista importante nos EUA e mantém um blog ativo].

teaparty

Outro exemplo é a ação do Whose Tea Party? Parlamentares republicanos se reuniram no barco do Tea Party em Boston para uma ação midiática: jogar fora um baú com o rótulo “código tributário” na água. Mas eles foram repentinamente confrontados por um bote com ativistas – o “Bote Salva-Vidas da Família Trabalhadora” – que na água, logo abaixo deles, suplicavam para não serem “afogados” pelo imposto único proposto. Com as câmeras filmando, os parlamentares tinham duas opções: jogar fora o código tributário e afundar o bote dos ativistas (o que fizeram) ou recuar em sua intenção declarada de acabar com o código tributário. Ao jogar o baú e virar o bote, eles reforçaram a mensagem dos ativistas de que a reforma tributária proposta pelos republicanos iria “afundar a família trabalhadora”. Recuar também teria enfraquecido o argumento dos republicanos, ao conceder simbolicamente que o imposto seria prejudicial para estas famílias. Assim como no Acampamento Casey, este dilema de decisão não foi um acidente fortuito, e sim um elemento-chave no planejamento de ação.

Frequentemente, para que este princípio funcione, você precisa estar preparado para esperar seu oponente. Cindy Sheehan se comprometeu a acampar em frente ao rancho de Bush durante todo o período de férias do presidente. Ela não ia sair dali. Era a vez dele de fazer alguma coisa, mas ele não tinha o que fazer. Na mesma linha, o Bote Salva-Vidas da Família Trabalhadora balançou na água, pedindo que os republicanos poupassem as famílias trabalhadoras, enquanto a mídia documentava o evento. Diferentemente do que acontece em várias ações, não havia seguranças para tirá-los do local. Eles puderam simplesmente esperar, e quanto mais os republicanos hesitavam, mais eles reforçavam a mensagem dos ativistas.

POSSÍVEIS PROBLEMAS: Isso vale tanto para se proteger de ursos quanto para o ativismo: encurralar alguém pode provocar reações violentas. Se sua intenção for eliminar a opção de fugir em um cenário em que as opções são lutar ou fugir, você precisa tomar todas as precauções necessárias para minimizar os riscos para você e seus aliados, caso o oponente resolva vir pra cima.

*Com a contribuição de Joshua Kahn Russel e Andrew Boyd – também editor do Beautiful Trouble, Andrew é autor, humorista e veterano de campanhas criativas em prol de mudanças sociais. É autor dos livros Daily AfflictionsLife’s Little Deconstruction BookThe Activist Cookbook. Site: andrewboyd.com. [Versão do post em inglês]

Créditos foto: Cindy (Indymedia), Whose Tea Party (BeautifulTrouble),