Nova (velha) onda de ataques a blogs de download

E a indústria parece que não aprende. Depois de tirar da rede (por pouco tempo, claro) diversos blogs de download de música agora parece que a bola da vez são os de download de filmes. Nestes últimos meses, dois dos principais blogs para quem gosta de filme, digamos, mais alternativos aos “blockbusters” que o cinema nos empurra, foram tirados do ar sem muita explicação: Laranja Psicodélica e Cinema e Cultura.

Segundo a comunidade no Orkut do Laranja, “o espaço foi deletado pelo próprio sistema Blogger por motivos, até então, desconhecidos. Certamente pelo mesmo motivo que outros grandes blogs de downloads de filmes também o foram: censura“. A ação em questão ocorreu ali pelo dia 20 de setembro, cerca de 5 meses depois do Cinema Cultura ser deletado da mesma forma pelo Blogger – que foi o 1º sistema a realmente popularizar o blog, e que pertence ao Google desde 2003.

O que está por trás dessas eliminações sumárias de páginas e mais páginas de informações e links? Interesses da indústria do copyright, é claro. Há uma porção de gente cada vez mais afim de limar todos os links para download de conteúdo supostamente protegido por copyright da internet – em especial a toda-poderosa MPAA, nos Estados Unidos, e a APCM no Brasil, ambas parte de uma indústria da pesada que causa muita confusão boba. E que parte de uma utopia fiscalizatória que, em sua raiz, quer controlar toda a movimentação das pessoas na rede, uma ideia tão execrável quanto impossível.

Olha o exagero!

São casos parecidos ao que falamos por aqui, primeiro do Som Barato, depois do Um Que Tenha, Blog Del Topo e outros tantos,  blogs que disponibilizavam uma porção de conteúdo demais de bom – e que, vale lembrar, continuam fazendo isso, mostrando a total inutilidade dessas medidas. Nestes novos casos, há ainda uma preocupante tendência em tirar do ar primeiro, depois avisar – quando avisam.

Antes, no caso do Som Barato por exemplo, em 2008, o Google mandava primeiro uma notificação aos mantenedores dos blogs, em que justificavam a censura por conta do DMCA, uma lei dos Estados Unidos (!) que, dentre outras coisas, permite que detentores de direitos autorais solicitem aos provedores de serviços online que bloqueiem o acesso a conteúdos que violem direitos autorais ou os retirem de seus sistemas.

Copiar é pirataria?

Os recentes casos do Laranja Psicodélica e do Cinema Cultura são mais uma mostra do descompasso entre a realidade e as leis que regulam a sociedade. Descompasso que coloca zilhões de pessoas na ilegalidade por compartilhar conteúdo, além de criminalizar os próprios consumidores que financiam a Indústria Cultural, no maior tiro no pé que ela deu e continua a dar em sua história.

Antes de terminar esse post por aqui, uma ressalva necessária: se você é autor, de qualquer obra intelectual que seja, você precisa ser protegido de alguma forma. O que discutimos é que, ao ignorarem ou corroborarem tais ações de um defensor de interesses de monopólio, as autoridades que regulam estão nitidamente protegendo alguns poucos, que podem ter um controle sobre a cultura de uma forma que jamais se teve em outro momento histórico.

P.s: O Cinema Cultura e o Laranja Psicodélica já voltaram a rede, neste (Cinema) e neste (Laranja) endereços. Mas não espalhem, ok?

Créditos fotos: 1,2

Aleatorizando

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excesso de informaçao

Creio que nestes tempos de cultura livre aconteça com todo mundo que passa mais de duas horas em frente a um computador com acesso à internet: a web nos traz um infinito tão infinito de possibilidades que cada vez mais torna difícil a tarefa de selecionar o que vamos ler. Não raro, a curiosidade ganha da sabedoria e o resultado é a leitura dinâmica de tudo, o que determina um reduzidíssimo índice de compreensão daquilo que é lido e um esquecimento inevitável de grande parte do que até minutos atrás estava diante dos nossos olhos somente perpassando nossa compreensão e a enganando.

Digo isso não sei porquê, pois a intenção dessa postagem era indicar textos interessantes que ando lendo. Contraditoriamente ao evidenciado no primeiro parágrafo da postagem, minha ideia era apontar links para textos interessantes que tenho lido (dinamicamente ou não) ultimamente, mais coisas textos para te encher de coisas a serem (possivelmente) lidas.

Ultimamente tenho levado mais tempo lendo do que escrevendo, o que as vezes parece bastante saudável e noutras nem tanto. Saudável pelos motivos óbvios, não-saudável pelos motivos salientados no início dessa postagem,  um tipo de situação que dá para chamar também, se quisermos um nome pomposo e inventado, de síndrome da banalização excessiva da leitura. É tanta informação que a memória, que Jorge Luis Borges dizia ser inventiva, vai acabar por perder essa capacidade, tornando-se meramente reprodutiva, presa ao mar de leituras aleatórias/dispersas.

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excesso de informação1

De qualquer modo, desde que terminei minha dissertação de mestrado no Posjor da UFSC, há cerca de dois meses atrás, tenho levado bastante a sério um conselho sobre postagem em blogs que está presente no fim do terceiro capítulo: “Cover what you do best and link to the rest”. A frase, de autoria do jornalista/pesquisador/blogueiro Jeff Jarvis, foi citada por mim seguido da frase

No processo atual de transformação que o jornalismo está passando por conta do advento das redes telemáticas, Jarvis (2007, on-line) diz que se faz necessário cada vez mais direcionar os leitores para a melhor cobertura de um fato, e não para a 87º versão da mesma cobertura republicada ad infinitum através da internet.

na página 87. Apesar de falar de jornalismo, e, especificamente, de jornalismo digital, e mais específico ainda de blogs jornalísticos, acho que ela vale para muita coisa além disso. O contexto atual de multiplicação incontrolável de informação interessante e de boa qualidade requer uma pensata antes de cada vez que tu for publicar algo na rede: isso vale a pena? alguém já não publicou estas mesmas informações num texto melhor do que o que acabo de fazer?

Pense se tu pode fazer melhor do que aquilo que já está na rede. Se não puder, então referencie as informações através de links, e dedique o teu tempo para aquilo que tu faça melhor, tipo correr na rua, namorar em casa ou dormir na cama.

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ansiedade de informação 3

A propósito: os textos que eu iria indicar eram estes aqui abaixo. Tente lê-los de forma não dispersiva, porque, afinal de contas, se em poucos minutos tu nem vai lembrar do que leu, então pra que vai ler?

_ Tiago Doria fez um interessante post sobre o que nomeia-se de Era do Desmanche, que seria caracterizada pela repartição do conteúdo em milhões de pedaços ao invés do consumo de um pacote completo de conteúdo, que inclue  junto coisas que tu não quer consumir. Segundo Tiago, isso se manifestaria na lógica de distribuição de uma música em vez de um disco inteiro, o que cada vez mais parece ser uma tendência na Indústria Musical, e, no jornalismo, na distribuição de uma matéria que tu tenha escolhido previamente para receber (via RSS) e não de um pacote inteiro de notícias que inclui diversas que não lhe interessam.

_ Outro texto que parece ser interessante (ainda não li por completo) é este artigo sobre a História Social do MP3, publicado no Pitchfork. É um artigo longo, de cinco páginas, em inglês, recomendado especialmente para quem tenha grande interesse sobre o tema.

_ Para ficar no assunto que casualmente perpassou esta postagem, uma saudável recomendação para os que sofrem de um distúrbio chamado de “ANSIEDADE DE INFORMAÇÃO”: o livro de mesmo nome, de autoria de Richard Saul Wurman, provavelmente um dos primeiros arquitetos da informação que se especializou em tornar a informação compreensível.  Apesar de ser publicado pela primeira vez ainda em 1991, ele cai como um bom remédio para os que se veem diariamente perdendo horas lendo RSSs inúteis ou seguindo indicações via twitter só pelo prazer obsessivo da curiosidade.

[Leonardo Foletto.]

Créditos: 1,2 e 3.

Cortando o barato (3)

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cortando o barato

Há exatos 10 meses e dois dias, publicava-se aqui no BC o post Cortando o Barato, que tratava do “fechamento” do blog Som Barato por conta de uma notificação de violação de direitos autorais do conteúdo do blog. Exatos 15 dias depois saía o Cortando o Barato (2), que tratava da mesma coisa, só que com outros blogs – o El Blog del Topo e Um Que Tenha.

Bem, agora, 10 meses e dois dias depois, volto a falar aqui do mesmo assunto, inclusive com (um) dos mesmos protagonistas de outrora: o Um que Tenha, que semana passada publicou um post no qual falava que havia recebido nova notificação do Google dando conta da suposta violação de direito autoral presente em 1.264 posts, ou seja, tudo o que foi ali publicado entre abril de 2006 e abril de 2007.  Nossa parceira piauiense Aracele já postou sobre este assunto em seu blog e no Trezentos, mas replico aqui para reforçar: trata-se de mais um ataque dos anti-piratas, que ainda não aprenderam (ou não querem entender) algumas coisas que Edson muito bem já explicou por aqui.

Nas palavras de Fulano, do Um que Tenha,

Já vimos esse filme, ele se repete todo segundo semestre do ano, há pelo menos três anos. Na cabecinha miúda deles, agora é a vez de retirar do ar o Um Que Tenha, como fizeram no ano passado com o Som Barato, e antes disso com outros excelentes blogs musicais. Coitados, não aprenderam nada.

Dessa vez, a notificação do Google veio DEPOIS da empresa ter apagado todos as postagens onde havia suposta violação de direitos autorais. O que é de uma sacanagem tremenda, porque não dá a chance do próprio blogueiro de retirar o material que havia publicado, numa clara ação de abuso de autoridade por parte do Google – que não se faz de rogado e ele próprio ensina qualquer um a denunciar violação de copyright em material sob sua responsabilidade.

DMCA, um exagero de lei
DMCA, um exagero de lei

Mas não há de ser nada. Como se sabe, caiu na rede, não tem mais fim; a rapidez de propagação de qualquer conteúdo na internet impede que haja controle de copyright deste mesmo conteúdo – e é também por isso que falamos que o copyright, tal como foi desenvolvido, não tem mais como existir. Quem também reconhece isso é o próprio Bruce Lehman – criador do DMCA, lei criada em 1998 nos EUA e sob a qual se baseiam hoje as denúncias de violação de copyright – que já anda dizendo que a política de propriedade intelectual dos Estados Unidos são um fracasso. Nas palavras de Lehman num evento recente em Montreal, Canadá: “o gato fugiu do saco… Nossas tentativas de controle pelo copyright não foram um sucesso. Estamos vivendo agora, se não estivermos entrando, em uma era do pós-copyright.

Vindo do homem que criou a principal lei de defesa do copyright e responsável por essa política no governo Clinton (1993-2001), a declaração parece soar como uma pá de cal na gritaria em torno da pirataria – ou, ainda, parece demonstrar uma incoerência tremenda quando colocada ao lado de notícias como a que abre esta postagem.

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A propósito: os blogs e sítios que receberam a famosa mensagem de violação de direitos autorais de que falamos aqui continuam existindo. O Som Barato funciona neste endereço, com a única diferença de que agora o usuário precisa se cadastrar para baixar os arquivos; O Blog del Topo funciona igualzito a antes, só que com outro layout e em novo endereço; por fim, a Discografias mudou de nome (Discografias: O retorno!), mas ainda conta com 300 mil pessoas em sua comunidade  que ali continuam tendo por  objetivo o mesmo de sempre: compartilhar álbuns sem nenhum fim lucrativo.

Mais informações e opiniões sobre o assunto aqui.

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Atualização 22/08

O Um que Tenha saiu do ar; se você entrar no endereço do blog vai dar de cara com uma mensagem de notificação do Blogger de que “este blog não existe”.  Se procurá-lo via Google, o primeiro resultado ainda será o Um que Tenha, mas o conteúdo do blog só está em cache.

O sempre atento Caderno Link, do Estadão, publicou em seu blog, na quinta-feira, uma entrevista com Fulano, responsável pelo blog. Dentre outras coisas (vale a pena conferir a entrevista), Fulano diz: “Se efetivamente o UQT for retirado do ar pelo Blogger, pode ter uma certeza: ele volta. De que modo ainda não sei, mas o Fulano é jovem demais pra se aposentar”.

[Leonardo Foletto.]

Créditos fotos: 1, 2.

Live At Campus Party

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Cá estamos na Campus Party, depois de 20h de ônibus, 3h na fila e mais algumas poucas no Terminal Tietê, auto proclamado o segundo maior terminal rodoviário das Américas. Minha vinda ao evento estava condicionada a um free pass que surgiu na última hora, sendo isso o principal fator para a viagem ter sido feita de ônibus. Mas não que eu reclame: estou aqui, e é isso que importa.

Este ano a Campus Party é sediada no Centro de Exposições Imigrantes, ao lado da Rodovia dos Imigrantes, acho que na Zona Sul de São Paulo. Dá pra chegar aqui fácil: só pegar o metrô linha azul e descer na última estação, Jabaquara. Foi o que fiz, e lá esperei algum tempo para pegar o prometido ônibus que levaria as hordas de nerds para o Imigrantes, uns 15 minutos a pé da estação. Não foi difícil achar outros que fizeram o mesmo trajeto: mochilão nas costas, bolsa grande nas mãos, calça jeans folgada, tênis-lancha e o olhar indefectível de inocência nerd compartilhada funcionavam como identificação certa dos que também iam para a Campus Party.

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A fila que nos aguardava para entrar no local era surpreendentemente grande, se pensarmos que os portões ainda não estavam abertos.  Chegávamos de ônibus, passando por toda a extensão dela, como um perigoso jogo de quebra de expectativas para quem não dormia direito nem tomava banho havia mais de 24 horas. Menos mal (?) que havia gente na fila desde a noite do dia anterior, literalmente pré-acampando no recinto, e mais outros tantos com caixas e prédios de computadores, e outras tantas figuras raras de se ver para um interiorano como eu – japonês rastafari, japonês moicano, japonês loiro supostamente não falso e outros tipos de japoneses – que ao menos garantiam um atrativo para a espera na fila. Fora que nessas filas somos obrigados a comentar todas as coisas inusitadas que vemos para quem está atrás ou na nossa frente da fila, o que garante uma amizade momentânea prazerosa, que às vezes até parte para outras coisas que não vêm ao caso agora.

(Não pense em bobagem; estamos falando de um recinto com mais de 4500 pessoas que são tão aficcionadas por computador, e tudo que dele emana, quanto por sexo ou futebol, quando não pelas três coisas juntas.)

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Mas enfim que entrou todo o pessoal da fila. E enfim passamos mais umas boas duas horas numa outra fila dentro do Imigrantes, desta vez para acampar. Nada que as amizades de fila não façam passar rápido e sem dor, embora as costas começassem a latejar com o vai-e-para-pega mochila-larga mochila.

O espaço das barracas, caso não dê pra visualizar bem na foto, é realmente gigantesco, afinal são 4000 barracas . Filas e filas e filas e filas e filas de barraquinhas azuis, tipo Iglú, numeradas, iguaizinhas e bonitinhas. Demorei cerca de dez minutos para achar a minha, 732.  A vizinhança próxima revelou-se alguns minutos depois: jovenzinhos cariocas e seus rrr carregado, fascinados por games e do tipo que nunca acamparam na vida; um piauiense que trouxe um colchão inflável desde Teresina, 03 dias de viagem de ônibus; um estudante de jornalismo de Cricíuma-SC, sulista como eu, primeira amizade-de-fila; e mais alguns outros que no momento ainda não sei quem são.

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À noite resolvi andar por São Paulo. Encontrei um amigo ao lado da Igreja de Santa Cecília, sentamos num bar. Duas coisas inusitadas no local: uma jukebox, imitação modernosa daquelas clássicas de filme americano que se passa nas décadas de 40,50 e 60, recheada de sucessos sertanejos à R$1,00 a música; e o oferecimento do garçom para a compra de um cigarro no bar ao lado, típica malandragem que eu ainda não entendo direito com funciona.

Caminhamos por alguns dos pontos mais ou menos centrais da cidade, tipo embaixo do Minhocão, a pior obra de engenharia já feita no Brasil como dizem por aqui; a Avenida São João e a famosa esquina com a Ipiranga, o local onde Caetano Veloso diz sentir alguma coisa em seu coração; a Praça da República, decadente e algo ameaçadora à noite.

Fui embora a ponto de pegar o metrô aberto e chegar no Imigrantes para ver o Teatro Mágico. Não sei qual foi o critério que tiveram para escolher a banda para fazer o show de abertura da Campus Party, assim como não sei porque vão fazê-los tocar hoje à noite de novo, depois das 24h. Só posso dizer que ver o pessoal daqui aplaudindo a banda, e até batendo palma junto quando eles pediam, foi um troço tão bizarro que eu só tive tempo de tirar uma foto e ir dormir.

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[Leonardo Foletto, enviado especial e gratuito a São Paulo]

Créditos fotos: A primeira é de João Pedro Alves, o estudante de jornalismo de Cricíuma-SC. O restante é minha.
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