Seminário Música & Movimento: A ida e a vinda

São Paulo, sexta-feira, 06 da matina. Atravessei a noite adiantando uns trabalhos (ou tirando o atraso, nunca sei direito) e às seis me sinto como a cidade que não quer sair de debaixo do cobertor de neblina. Banho gelado & café expresso, arrumo a mochila, imprimo alguns textos e desbravo a névoa rumo ao aeroporto.

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O voo atrasa e tenho tempo de ler tudo o que deveria ter lido e não li. A aeromoça tem longos braços finos, muito bonitos sob as luvas brancas. Penso que estamos nos desviando do foco quando pensamos na cultura digital como a matriz das mudanças na legislação autoral, e que na verdade a internet apenas torna visível uma demanda muito mais profunda, que lhe é anterior e lhe sobreviverá. Decolo.

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Não me lembro de BH. Estive em Minas há uns bons 10 anos e o único registro que guardo é uma sopa fenomenal que experimentei em Ouro Preto. Vai entender. Apesar disso, carrego comigo um grande carinho pela cidade. Porque gosto de Pato Fu e porque todas as mineiras que conheci ao longo da vida possuem pernas grossas. Porque BH tem Ricardo Aleixo, Bruno Brum, Makely Ka, Ludmila Ribeiro, Leo Gonçalves — a turma da arruaça! Por causa da impressão que a cidade me dá de possuir uma produção cultural, mais do que intensa, inquieta.

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Atravesso uma distância de quase 1h entre o aeroporto de Confins e o hotel, e todo aquele verde de todos aqueles campos e a sensação de ar puro que para um maranhense em Sampa significa “respirar como antigamente” me dão uma espécie muito gentil de felicidade.

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Chego ao hotel. O recepcionista me pergunta de que banda eu sou. “Da outra banda da terra”, penso em responder. “Não, eu vim pro seminário”, respondo. A reserva está no nome de “Reuben da Silva Costa” e isso causa algum problema. Normal. Acontece o tempo todo. No site do seminário, por exemplo, eu sou “Reubem da Cunha Costa”. E o email que recebi com a confirmação do horário do voo começava com um insuperável “Prezado Eduardo”.

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Tomo um banho. Anoto alguma coisa, olho pela janela. Desço. Encontro Ana Paula, simpática como todas as meninas da produção do evento. Ela me dá um guia turístico de presente e conversamos um pouco. Tenho 2h até o início da primeira mesa e resolvo caminhar pela cidade.

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Acredito que a alma de uma cidade esteja sempre em certas coisas, e o centro é uma delas. É no centro das cidades que é possível concretamente testemunhar a briga entre a sobrevivência das pessoas e a permanência da História, entre a existência mais banal e os registros monumentais da existência coletiva. O centro é sempre decadente, e ao mesmo tempo conserva sempre uma verdade que não se encontra nos bairros ricos ou nos shoppings. Me sinto muito à vontade.

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Passo por acaso pelo Parque Municipal, onde à noite rolam os shows (volto a eles adiante) e onde agora alguém passa o som, acho que Patrícia Ahmaral. Um maluco me cutuca, chama minha atenção e aponta para o parque. Percebe que eu não entendo bulhufas e finalmente diz: “mais tarde eu vou tocar ali. Aparece lá!”. “– Claro!”, respondo, depois me lembro que é Conexão Vivo.

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Acredito que a grande lição do evento (e a grande lição da música para os demais mercados culturais no Brasil) seja a capacidade de promover a confluência de questões referentes à criação musical e ao mesmo tempo ao contexto de produção. De modo que além dos shows (quantos festivais do mesmo porte vão além dos shows?), rolaram oficinas voltadas para criadores (como “Fisiologia da voz e interação corpo voz“, por exemplo) e outras de interesse mais, digamos, geral, como Divulgação de música. Isso sem falar dos seminários.

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Eles acontecem no auditório do Museu Inimá de Paula. Na primeira mesa da sexta-feira, A nova lei de direitos autorais brasileira e seus impactos no setor musical, Marcos Souza (coordenador geral de Direito Autoral do MinC), Fernando Brant (compositor e presidente da UBC), Glória Braga (superintendente executiva do ECAD) e o cineasta (e presidente da Associação Curta Minas) Guilherme Fiúza na mediação. Guilherme iniciou os trabalhos observando que “o audiovisual brasileiro não conseguiu acompanhar as mudanças sofridas pelo mercado”, e que tinha muito a aprender com a música, o que nos remete ao parágrafo anterior e ao post passado.

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A apresentação da proposta de reforma da atual lei autoral brasileira (aquela que em apenas 10 anos se tornou fantasticamente obsoleta) pelo representante do MinC congregou um bom público, e a mesa que deveria terminar às 16h se extendeu até as 17h:30. A reforma merece um post separado, que virá, mas por agora anoto o seguinte: me pareceu bastante evidente que as propostas de reforma se resumem à correção de coisas obsoletas (como a irrestrita criminalização das xerox, por exemplo, que transforma todo e qualquer estudante universitário em criminoso) e a um ajuste da lei às práticas culturais surgidas nos últimos anos. Quer dizer, são alterações não só legítimas, como óbvias. Para minha surpresa, praticamente metade do auditório discorda.

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No meio do papo, um sujeito simpático e barbudo senta na cadeira vazia ao meu lado. Reconheço-o: é Makely Ka, grande compositor e poeta, de quem partiu o convite para que eu integrasse a mesa seguinte. Me apresento e conversamos um pouco, ele me mostra o terceiro número da Revista de Autofagia e fico devidamente emocionado. Por vários motivos, motivos para outro post.

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As posições no debate são muitíssimo bem definidas. Há os que propõem mudanças na legislação autoral (e que, no caso dos artistas, já trabalham concretamente com mecanismos alternativos), os que repudiam completamente qualquer tipo de mudança e os que ficam simplesmente assustados diante daquilo que não entendem. As posições atravessam os dois debates, e o resultado é sempre o mesmo: ânimos exaltados e uma infinita indisposição para se deixar convencer — a maioria dos antagonistas presentes já discutiu tudo aquilo antes, já chegaram no debate armados até os dentes. E eu no meio, achando tudo muito divertido e saudável.

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Ao meu lado na segunda mesa, Um balanço sobre a licença Creative Commons, estavam Sérgio Branco (professor da FGV e representante do Creative Commons) e o advogado Hidelbrando Pontes. Como o Fernando Brant da primeira mesa (mas muito mais articulado), Hidelbrando é um senhor muito simpático, mas bastante raivoso ao atacar o Creative Commons. Não lhe tiro a razão.

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Embora discorde dos argumentos dos senhores (que estão — sobretudo Fernando Brant — preocupados com o dinheiro que vão perder fora da indústria tradicional, ou conservam a visão romântica de que no mercado musical “aparece quem tem talento”, como se o mercado fosse regido por leis estéticas, e não econômicas, e como se a realidade não mostrasse que boa parte dos milionários da música não é exatamente gente boa de som), preciso dizer que não tiro a razão das pessoas que desconfiam do Creative Commons. Trata-se de um organismo privado com pretensões jurídicas, de uma licença autoral com pretensões de modelo de gestão de negócios, e essas imbricações não estão claras nem foram muito bem esclarecidas por Sérgio Branco — um sujeito tão tímido quanto simpático, de fala extremamente didática, mas que no fim das contas foi bombardeado com perguntas do tipo “quem financia o CC?”, ou “afinal, quem financia o CC?”, ou ainda “responda logo, QUEM FINANCIA O CC?”, e não foi tão incisivo em suas respostas quanto as pessoas foram em suas perguntas.

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No entanto, repito aqui o que disse em minha fala de abertura: as licenças Creative Commons têm recebido um número cada vez maior de adesões, e isto fala, mais do que sobre o sucesso do projeto, sobre uma demanda social por qualquer coisa que não seja o maldito copyright. E não apenas por parte dos artistas. Se existe, por um lado, um puta desequilíbrio nas relações entre artistas e intermediários, também é problemática a relação entre indústria e público — não conheço nenhum ouvinte de música que queira salvar a pele das gravadoras, para dar um exemplo simples. Isto não pode ser ignorado, e as críticas ao CC não podem ignorar o avanço que a presença da licença no Brasil representa. Quaisquer que sejam os problemas do CC, eles não podem nos cegar aos problemas ainda maiores do copyright. Dito isto, compartilho algumas frases emblemáticas que anotei durante aquela tarde.

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“O Creative Commons é a anarquia!” (Glória Braga, fugindo do assunto da sua mesa e mostrando que não faz ideia do que está falando.)

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“A rede é anárquica, e os internautas são megalômanos que acreditam que irão reproduzir as relações sociais na rede” (Hidelbrando Pontes, ignorando que ele mesmo é, provavelmente, um internauta, e que não há mais nenhum tipo de relação social que não seja mediada pela tecnologia.)

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“Já pensou a loucura que vai virar?” (Não lembro o nome do rapaz que disse isso, mas ele estava na platéia e era estudante de direito. O contexto é o seguinte: ele estava preocupado com a figura da “obra derivada” que algumas licenças CC permitem. Quer dizer que eu libero a minha obra pras pessoas remixarem, por exemplo. É curioso que o cara tenha se apresentado como pesquisador no papo rápido que batemos depois do debate, e que não tenha passado pela sua pesquisa que, a rigor, toda obra é derivada, e antes que uma licença viesse regular este fato já havia o fato, o processo cultural e sua legitimidade).

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Para além dos posicionamentos, é preciso dizer que nenhum dos presentes tinha a intenção de esgotar o debate, e que todos concordavam num ponto: é fundamental que ele seja tratado assim, de maneira aberta, pela sociedade. Cito como exemplo o Hidelbrando, que ao longo da discussão não disse absolutamente nada com que eu pudesse concordar, mas que estava visivelmente feliz de podermos todos pensar estas questões publicamente.

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Por falar nisso, justiça seja feita. Fernando Brant é outro sujeito com quem não dá pra concordar, com o demérito adicional de que o figura é uma grande caricatura de si mesmo e está longe de ser um bom expositor de qualquer coisa. No entanto, é preciso pontuar que ele tem uma filha linda com quem tive o privilégio de levar um longo papo à noite, durante o qual ela fez um comentário bastante esclarecedor. Fernando faz parte de uma geração que foi sistematicamente roubada pela indústria (e que também ganhou grana, claro), e em cuja pauta estava bem presente o estabelecimento de uma legislação/fiscalização. “Quando se fala em mudança na lei autoral, a leitura que ele faz é de que estão mexendo em algo que a geração dele lutou para conquistar”, me diz a menina de nariz altivo, sotaque musical e lindas unhas vermelhas. É evidente que isso não é motivo para não atacá-lo em suas posições no mínimo desinformadas, mas considero uma espécie de lealdade entre antagonistas reconhecer a legitimidade do seu ponto de vista.

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Findo o debate (os trabalhos deveriam terminar às 18h, se prolongaram até as 19h e só terminaram porque o museu precisava fechar), continua a conversa. Comento com Sérgio Branco que no fim das contas, antes da lei, antes da tecnologia, esbarramos todos num problema muito mais profundo e duradouro: a mentalidade das pessoas. Na porta do museu, sou abordado pelo Hidelbrando, que diz que sou um “garoto muito inteligente”, e que não devo cair no papo do Creative Commons. Digo-lhe que minha posição é mais radical que a do CC, que para mim não passa de um punhado de empresários interessados em re-aprender a ganhar dinheiro no contexto digital. Não sei até que ponto isso o deixou satisfeito. Bato o mesmo papo com a Ana Paula, enquanto ela me ajuda a colocar a complicada pulseira que me dará acesso aos shows.

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Muitos dos presentes desceram juntos até o Parque Municipal. Entre eles, o próprio Makely (de quem me perdi e que fui reencontrar apenas no final do evento) e o mestre Israel do Vale, que atacaria de DJ nas próximas horas. Conheço uma turma da assessoria, a Simone com suas elegantes meias vermelhas e a vontade de voltar ao Maranhão, o Fabrício, seu amigo Vladimir (figura!), suas respectivas esposas e a Isabel, filha do Fernando.

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Pegamos o finalzinho do show da Soatá (DF), que foi o bastante pra me fazer anotar o nome da banda para futuro download. Mas confesso que perdi os dois shows seguintes (Enéas Xavier+Flávio Venturini e Patrícia Ahmaral+Vander Lee), durante os quais preferi conversar com o grupo de mineiros que me adotou. Uma turma que me deixou a melhor impressão possível da cidade: bem-informada e receptiva, daquelas com quem se bate um bom papo e se sai amigo de infância.

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Os shows de Pedro Moraes e Curumin eu vi.

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Não conhecia Pedro Moraes. Descubro que ele está com o segundo disco no forno, a sair pelo sêlo do Israel e do Kuru (Maurílio Kuru Lima, idealizador do evento, com quem não tive oportunidade de conversar mas de quem ganhei um receptivo abraço de boas-vindas). Um puta show bacana, viu? O Moska participou e eu gosto do Moska, mas nem liguei, liguei mesmo foi pra presença de palco e pra voz de Pedro, que ainda preciso baixar. Curumin fechou a noite deixando todo mundo pra cima, com muito samba, Clementina de Jesus, Bob Marley, malandragem, e criminosos samplers.

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Por volta da 1h da matina Curumin dizia tchau, minhas companhias mineiras diziam tchau (todo mundo tinha que trampar no dia seguinte), e eu perguntava pro Israel qual era a sequência. O mestre Isra, além de um grande exemplo de jornalismo bem-feito e ético (Israel do Vale é um homem com um ideal, sabe como é isso?), é um sujeito exímio na arte de não-dormir e de estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Além disso, morou uns seis anos (seis anos?) em BH. Melhor guia, impossível.

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Então estávamos lá, eu, Israel, Makely e a Gabi, uma atriz mineira que conheci na última hora, prolongando o papo e deixando o Parque Municipal depois de todo mundo. Como não deu pro Makely atravessar a noite conosco, tive que ameaçá-lo prometendo voltar a BH na primeira oportunidade que tiver. Se tudo der certo, no lançamento da Autofagia.

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Deixamos ele em casa e seguimos para o Bolão, até onde entendi um dos dois lugares 24h da cidade. Comida e bebida de primeira, um engraçadíssimo aviso “Não servimos pessoas sem camisa” na parede, e nenhum sinal de que alguém ali iria embora antes do sol nascer. Uma conversa boa como o dia inteiro, da qual só aceitamos sair por esgotamento físico. Às 5h30 os dois me deixam na porta do hotel. Odeio despedida, e o lado cruel de ter amigos por todo o Brasil é a condição de viver permanentemente com saudade. O voo é às 8h e acho que não vale a pena dormir. Quando sento na poltrona do avião, percebo que são mais de 24h no ar. Ainda assim foi um dia curto.

[Reuben da Cunha Rocha.]