Notícias do Front Baixacultural (11)
janeiro 19th, 2009 § 1 Comentário

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95% dos downloads de música são ilegais (Estadão, 16/01)
Dados da Federação Internacional da Indústria Fonográfica: mais de 40 bilhões de arquivos de música foram compartilhados ilegalmente no ano passado. No entanto, a mesma federação anuncia que o número de downloads legais também cresceu, e que a venda de músicas digitais corresponde hoje a 1/5 do faturamento total da indústria. Mas a maluquice das pessoas que efetivamente pagaram para baixar singles de Lil Wayne (o campeão de downloads legais de 2008 ) não é o bastante para salvar a indústria do naufrágio – segundo a mesma IFPI, a renda mundial da indústria de discos diminuiu mais 7% no ano passado. Comemoremos.
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A vontade dele é te matar (Pop Up!, 14/01)
A fatídica entrevista de João Carlos Muller, consultor jurídico da Associação Brasileira de Produtores de Discos, continua repercutindo. Desta vez é o jornalista Bruno Nogueira que chama a atenção para alguns pontos pouco destacados aqui no blog. E nós todos continuamos nos divertindo com a falta de noção das pessoas com algum poder e nenhum discernimento. Com a palavra, Bruno Nogueira:
Entre outras coisas, ele compara o cara que pega aquele disco raro do Zé Ramalho, que saiu de catalogo e não vende mais, para download em um blog com um assaltante de caixa forte de banco. E diz que para turma que baixa o disco que eles podem ficar tranquilo, porque agora eles estão atrás apenas do fornecedor. Igual guerra do tráfico.
Sua principal crítica ao Creative Commons tem como base o argumento que Gil, que é todo pró a idéia, até agora só licenciou uma música na vida. Mas entre as várias incongruências – que passam por defender o DRM, licença digital que nenhuma gravadora adota mais, claramente sem saber o que se trata – a cereja do bolo está também no próprio ex-ministro. Depois de um papo de que o autor merece o mundo, ele solta a pérola:
“O Gil recuperou na justiça a obra dele, numa burrice que o Guilherme fez, eu avisei a ele que ia perder aquela obra. Ferrou-se!”
Burrice do Guilherme, porque, segundo Muller, também não é só porque você tem uma idéia que você pode ser dono dela.
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Uma nova cara para o Remixtures (15/01)
O blog Remixtures, onipresente neste clipping e capitaneado pelo bravo colega d’além-mar Miguel Caetano – e não Miguel Jorge, como erroneamente foi informado semana passada, pelo quê pedimos desculpas públicas -, está de cara nova e com um novo e polêmico modelo de negócio: o Freemium. Trata-se de um sistema cuja lógica é a mesma das bandas que disponibilizam suas músicas gratuitamente na intenção de lotar – e lucrar com – os shows: num modelo freemium, o serviço básico é grátis, e o lucro vem dos produtos adicionais. Nas palavras de Caetano:
Em termos concretos, a proposta freemium do Remixtures passa por disponibilizar uma série de serviços personalizados e complementares a uma vasta gama de entidades potencialmente interessadas como jornais, revistas, publicações online, escolas de formação profissional, bandas e músicos independentes, editoras discográficas, promotoras de concertos, universidades, associações industriais e profissionais, etc. Inicialmente e salvo situações excepcionais, este modelo deverá abranger os seguintes serviços disponibilizados ao preço mínimo referido.
A descrição dos serviços e os respectivos preços tu confere no link do título. É uma forma interessante e pra lá de válido de trazer o modelo da música para o campo da produção textual, já que em vários pontos da discussão cultural em torno da internet a música parece vários passos adiante das demais formas de expressão. Boa sorte ao Remixtures na nova fase!
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E por falar em Remixtures, quando me preparava para fazer a segunda tradução para este blog, do artigo Copyright, Copyleft & the Creative Anti-Commons, tive a grata surpresa de descobrir que Miguel Caetano já fez.
[Reuben da Cunha Rocha.]
Crédito foto: World War II PhotosAmigo Punk
janeiro 4th, 2009 § 1 Comentário

Há em torno do punk o mesmo desconforto que ronda toda idéia fora de contexto – a de tornar-se pastiche involuntário de si mesmo e recusar-se a enxergar isto, que é precisamente tudo o que os demais enxergam. Caso se tratasse apenas de um gênero musical, não seria tão pertinente a acusação de imobilidade (“esses caras fazem a mesma coisa há 30 anos!”), ou não seria mais pertinente do que o é no caso do blues e do rap, por exemplo. O problema do punk está menos na música do que no apego a um tipo de discurso que só pretende ofender o mundo, mas não consegue mais fazê-lo, porque o mundo muda mais rápido que a capacidade de raciocínio de um punk tradicional.
Mas e daí? Ou, perguntando de outra forma, isso tudo não é evidente o bastante pra que se torne irrelevante, e pra que seja então possível apenas apreciar os bons discos, os refrões antológicos e o inegável papel histórico do gênero? Afinal, apesar dos argumentos contra a “cena”, não há o que se dizer contra a lucidez e pertinência do que diz um Jello Biafra, este sim um punk’s not dead, ou contra o papel do gênero enquanto matriz para outras expressões culturais, como toda a cena indie baseada no bom e velho “faça você mesmo”.

Baixe você mesmo, neste caso. Bandas de A a Z com atualizações diárias, na Punk’o'teca. Coisas clássicas e conhecidas fora da cena, como Dead Kennedys [a ex-banda do mencionado Jello Biafra], Pennywise, Rancid ou Fugazi, coisas não ortodoxas, como The Offspring e Rage Against The Machine, muitas bandas obscuras e o que é melhor, vários registros de bandas brasileiras, que sempre encontraram dificuldades históricas para gravar.
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Parte dessa dificuldade, aliás, está bem documentada no filme do ex-VJ da MTV Gastão Moreira. Centrado nas bandas de São Paulo, Botinada – A origem do punk no Brasil resgata a confusão que foi a formação de uma cultura punk no Brasil em fins de ditadura. A confusão dos punks (divididos entre os que acreditavam no discurso, os que queriam transformar violência em música e os que queriam dar porrada mesmo) e a confusão gerada pela dificuldade de assimilação do movimento pela sociedade. Embora seja sempre enjoada a ortodoxia de alguns entrevistados, vale a pena se defrontar com a complexidade de um movimento que em todo caso é a face furiosa da periferia industrial brasileira, e as contribuições lúcidas de Clemente (vocalista dos Inocentes), Kid Vinil e do jornalista Antonio Bivar não deixam dúvidas de que vale o download.

[Reuben da Cunha Rocha.]
Instrucciones (3)
novembro 2nd, 2008 § Deixe um comentário
Roubo de Leonardo o título pra seguir falando sobre os links à direita. Aquilo que de cara soa como clichê: logo em seguida ao lançamento de In Rainbows, certo DJ e produtor californiano aparece com a idéia que qualquer um de nós esperaria dum DJ — remixar as faixas do disco.
Aquilo que poderia ser um pouco mais. Amplive imaginou lançar o disco [arquivo zipado, 08 faixas, duas a menos que o original, em 320kbp] pela W.A.S.T.E, a loja virtual do Radiohead, e somente pra quem houvesse baixado a versão da banda [eu gosto mesmo de viver num tempo em que dá pra chamar o original de versão da banda.].
Aquilo que não deu certo. Antes do lançamento oficial de Rainydayz [mas não antes da circulação de faixas avulsas na rede], Amplive recebeu uma notificação da Warner/Chappell informando sobre, tu sabe, a ilegalidade do projeto, o quão desinteressante seria para a empresa a vinculação oficial do Radiohead ao trabalho do DJ [através da disponibilização do disco na loja da própria banda] e a impossibilidade de continuá-lo sem nefastas consequências.
[Nada se disse sobre a posição da banda sobre o caso. Ou vai ver foi a banda quem não disse nada.]
Pra encurtar a história, quando já tinha mesmo desistido de lançar o disco, Amplive conseguiu autorização pra disponibilizar Rainydayz para download gratuito aqui.
Acredito que faço parte de uma maioria de pessoas que ouviram o disco sem a menor pista de quem sejam Too $hort, MC Zumbi, Chali2na, Codany Holiday ou Del The Funky Homosapien, familiarizadas que estamos com a música do Radiohead e razoavelmente ignorantes que somos sobre o que se passa no rap. Vergonhoso, no caso daqueles que como eu se interessam por essa fértil cultura de reciclagem que é o remix.
Também acredito, provavelmente com os mesmos colegas de maioria, tratar-se de um disco pouco ousado para a proposta, sobretudo no que se refere às batidas – a monotonia ritmica do rap fica em geral bastante evidente e prejudica canções originalmente desafiadoras até para o Radiohead [como 15 Steps, agora 15 Stepz].
Mas talvez isto que eu e a maioria encaramos como perda seja só a inserção do pós-rock (ou indie, nem sei mais, nem ligo) numa outra lógica musical, e represente aquilo que a apropriação da tecnologia por culturas economicamente subalternas [como o rap ainda é, apesar dos rappers de MTV] significa de melhor: que eu e tu vamos ter que engolir sim o outro, e que esse mesmo outro não pensará duas vezes antes de transformar o que bem quiser em seu.
O que aliás me remete ao que escapa à lógica econômica da Warner: essa disposição de apropriar-se é a mais comprometida das homenagens.
[Reuben da Cunha Rocha.]

