Os livros da UNESP para download. Mas só pra isso. [Ou não, a gente dá um jeito]


Semanas atrás foi muito divulgado e prometido que a Universidade Estadual Paulista (UNESP) disponibilizaria, no dia 27 de abril, 50 livros para download totalmente de grátis. Cumpriram. Os títulos integram o selo Cultura Acadêmica (criado em 1987) e dão continuidade à Coleção Propg Digital, que oferece obras inéditas para baixar. A primeira fase do programa foi em 2010, quando lançaram 46 obras.

Vale mencionar como foi o lançamento dos livros em que havia uma “Degustação Literária”, oferecendo aos presentes a oportunidade de acessar, em 49 iPads, cada uma das obras lançadas. O objetivo era aproximar o público do real propósito do projeto, além de exibir a versão digital dos textos. A meta é publicar mil títulos em 10 anos, permitindo maior acesso à produção acadêmica da universidade. Ou seja, é uma ação exemplar para todas as universidades públicas (e privadas também). Mas nem tanto.

É possível baixar os livros, mas não imprimir e nem selecionar o conteúdo das páginas. E assim é com todos os livros da Coleção. Todos estão protegidos com senha. Tentamos subir um dos livros (do qual falamos abaixo) para o Scribd e não conseguimos. Mas calma. Demos um jeitinho de quebrar isso. A solução foi baixar esse programinha bem leve aqui ó, o “Portable PDF Password Remover 3.0”. Depois, abrir com o programa o livro baixado da Unesp e salvar de novo. Pronto, já pode imprimir e fazer o que quiser.

Para baixar os livros do site oficial, é preciso realizar um cadastro, com Nome, E-mail, Cidade e Estado como campos obrigatórios. Nas páginas das obras há até audio de entrevistas com os autores. Mas fazendo uma busca no Google com o nome dos livros, os arquivos aparecem diretamente. O cardápio é bem rico, tem de muitos sabores: agronomia, antropologia, arquitetura, comunicação, design, direito, economia, educação, geografia, filosofia, história, literatura, matemática, medicina, meteorologia, música, política, entre outras áreas mais específicas.

O livro que nos interessou, e que tiramos a senha de proteção, foi Criação, proteção e uso legal da informação em ambientes da World Wide Web. A obra resulta da dissertação de mestrado de Elizabeth Roxana Mass Araya, orientada por Silvana Aparecida Borsetti Gregório Vidotti e defendida em 2009. As 147 páginas são divididas em três capítulos, que fazem uma boa contextualização de como as leis dos direitos autorais não estão adaptadas aos meios de informação digitais – algo que, tu sabe, temos falado aqui quase que semanalmente.

No primeiro capítulo do documento, “Ambientes informacionais digitais“, é feita uma revisão histórica da internet como Tecnologia da Comunicação e Informação, do desenvolvimento da Arpanet, das redes BBS, até a Web, chegando na chamada Web 2.0 e na ainda-mais-promessa-do-que-realidade Web semântica. Da Web Colaborativa, como Elizabeth denomina a web 2.0, surgem os problemas com arte, autoria, e propriedade, devido principalmente a constante modificação na forma de criar e recriar conteúdos informacionais e à desatualização da legislação sobre propriedade intelectual, que é anterior à esse cenário.

Em “Autoria e Legislação de Conteúdo Intelectual“, o capítulo 2, há uma revisão não só histórica mas conceitual sobre direitos autorais. São relatadas noções de propriedade antes da escrita, passando pela invenção da imprensa e pelo primeiro privilégio de copyright, em 1557 – do qual, aliás, também já andamos comentando por aqui.

Após a oficialização da lei, 1710, os princípios ingleses são levados para os Estados Unidos, que acabam se tornando a base para muitas legislações sobre direitos autorais no planeta – inclusive a repressiva e limitada lei brasileira de 1998 que está em vias de ser reformulada hoje. O funcionamento da Lei dos Direitos Autorais (LDA) brasileira e do nitidamente falho Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (do que mesmo?), o ECAD,  é contado, juntamente a algumas normas internacionais.

O terceiro capítulo apresenta ações da sociedade na Web que entram em conflito com a antiquada lei. A Campus Party, com seus usuários baixando e subindo arquivos à todo instante, é citada, ao lado das frequentes retiradas de videos, colocados por usuários, do Youtube. Como alternativas de flexibilização dos direitos autorais na internet,  o conceito de copyleft e o projeto Creative Commons, além do subprojeto Science Commons, são mostrados.

Cabe destacar também o subcapítulo “Acesso livre ao conhecimento científico”, responsável por um apanhado das publicações livres digitais e que ainda traz um relato dos (ex)esforços do Ministério da Cultura para a discussão sobre cultura livre. Aquele papo da Reforma da Lei dos Direitos Autorais sabe? Que era aberta e pública. Como deveria ser a coleção também.

[scribd id=73750339 key=key-12qb6yg2cr2x92oqw8uy mode=list]

Créditos: 1, 2.

[Marcelo De Franceschi]

Tudo libre

.

logolibroslibresgrande2

.

Mais uma indicação da um pouco esquecida seção Instrucciones: o blog libros libres musica libre é organizado pelo denominado coletivo Ruben Vizcaíno Valencia, assim chamado em homenagem ao maestro e professor mexicano de mesmo nome.

O blog se destaca por disponibilizar material sobre o qual não falamos muito aqui (mais por desconhecimento do que por outra coisa): música clássica – ou erudita, como queiram  – de compositores como Beethoven, Debussy, Bach, Tchaykovski, Mahler, Brahms, dentre outros quantos. E aqui entram material tão amplo e interessante como a coleção de 154 cds com a obra de Bach, executado por vários músicos de prestígio no cenário erudito, ou a íntegra da produção de música de câmara de Brahms, dentre outros quantos concertos e sinfonias disponibilizados, todos em mp3 com qualidade superior ao usual 128 kbps.

Como se não bastasse o amplo acervo de música clássica, há também um excelente arquivo de literatura, com a obra completa de escritores como Faulkner, Salinger, Roberto Bolaño, Paul Auster e Saramago, alguns textos  na língua original em que foram escritos, outros na tradução para o espanhol. E, espantosamente, ainda há links com todas as pinturas de Picasso e mais de 300 de Van Gogh e Andy Warhol.

Segundo o perfil do Blogger, o coletivo atua entre Montreal, no Canadá, Madrid e Barcelona: “Somos un colectivo, organizado en memoria del Maestro Ruben Vizcaíno Valencia, y nos declaramos partidarios de la generosidad, la solidaridad y la entrega anonimas.”

[Leonardo Foletto.]

O escritor coletivo

"Não somos animais fotográficos"
Wu Ming: "Não somos animais fotográficos"

A arte como bem comum e não privilégio do artista, o artista como integrante da lógica coletiva do conhecimento e não uma celebridade, estes princípios arcaicos orientam as ações de vanguarda do coletivo italiano Wu Ming.

Só não confunda vanguarda com vanguarda. Nada de experimentalismos de linguagem ou radicais ideais estéticos – não é esta a natureza do pioneirismo do Wu Ming [expressão chinesa que significa ‘sem nome’]. Não a velha luta para ‘expandir os limites da linguagem’, o ramerrão do século 20 inteiro, mas a luta pelo uso coletivo do saber – desde sua produção até o seu uso. Há 12 anos os integrantes do coletivo [conhecido, até 1999 e com outra formação, como Luther Blissett Project] militam sob a sigla do copyleft, e há 14, pela desglamourização do artista.

Partimos do reconhecimento da gênese social do saber. Ninguém tem idéias que não tenham sido direta ou indiretamente influenciadas por suas relações sociais, pela comunidade de que faz parte etc. e então se a gênese é social também o uso deve permancer tal qual.

As práticas do Wu Ming [expressão chinesa que também significa ‘cinco nomes’, a depender da entonação com que se fala] contra a lógica da cultura oficial – monetarista, individualista, apoiada no mito da celebridade e do gênio criador, este personagem não exatamente falso, mas que serve de fundo ideológico pro ideal de originalidade que sustenta a indústria do copyright – ocorrem em várias frentes. Não apenas os livros do grupo podem ser oficial e gratuitamente baixados e livremente copiados [alguns em português, e mais alguns, mas nem todos], como os 05 integrantes do coletivo trabalham de fato coletivamente, assinando como grupo a autoria de vários de seus livros. Entre eles está o romance Q – O caçador de hereges, que desafia o argumento de que a pirataria mata o artista de fome, disponível pra download há vários anos e em várias línguas e ainda assim um best seller.

Mesmo os trabalhos individuais trazem a marca do grupo. O belo romance (“objeto narrativo não-identificado”, como prefere o autor) New Thing, recém-lançado no Brasil pela editora Conrad, é assinado por Wu Ming 1, mas a voz continua coletiva: o livro imita a edição de documentário, e toda a narrativa se desenrola através dos depoimentos dos personagens, apenas editados por um invisível diretor. Além disso, esta que seria uma espécie de narrativa policial (misteriosos assassinatos envolvendo músicos de jazz ocorrem na New York dos anos 60) traz toda a discussão em torno da cultura livre, desde o método da colagem até a tecnologia P2P.

A recém-lançada edição brasileira
A recém-lançada edição brasileira

A identidade do autor não é um segredo, e nem a de seus pares. Wu Ming 1 nasceu Roberto Bui – Wu Ming 2 é Giovanni Cattabriga, Wu Ming 3 é Luca de Meo, Wu Ming 4 é Federico Guglielmi e Wu Ming 5, Riccardo Pedrini. O coletivo contra-explica: “quem, ainda hoje, continua dizendo frases do tipo: ‘os 5 escritores que se escondem por trás do pseudônimo coletivo ‘Wu Ming” ou ‘que sentido faz não assinarem seus verdadeiros nomes, se na realidade todos sabem como eles se chamam?’ está convidado a efetuar as seguintes substituições: ’97’ no lugar de ‘5’; ‘músicos’ no lugar de ‘escritores’; ‘London Symphony Orchestra’ no lugar de ‘Wu Ming'”. Tá bom assim?

No site do Wu Ming [na China, uma assinatura bastante comum entre os dissidentes que lutam por democracia e liberdade de expressão], como era de se esperar, há (além dos livros) diversos textos disponíveis pra download. A grata surpresa está aqui, vários desses textos disponíveis em português. Além das várias colaborações e entrevistas concedidas à imprensa brasileira [alguns integrantes do coletivo já estiveram por aqui, envolvidos em atividades que vão desde lançamentos de livros até palestras sobre cultura livre], vale a pena conferir o histórico de curiosas atividades do grupo e os diversos textos sobre copyleft, de onde foram extraídas as citações-links desta matéria.

Nós começamos a lidar com esses assuntos bem antes do Creative Commons existir. A maioria de nós esteve envolvida com pós-punk anti-copyright e a cultura do faça-você-mesmo desde o início dos anos 90. O Luther Blissett Project foi fortemente influenciado por ‘mail art’ e pelo underground pós-punk/noise/eletrônico, gente como Negativland etc. Esse tipo de cultura já tinha desenvolvido uma crítica radical ao copyright como o conhecemos. Como resultado, o Luther Blissett nasceu com esse tipo de atitude. Todos os nossos trabalhos (livros, música e todo tipo de coisa) eram sem copyright. Em 1996 começamos a usar uma licença copyleft.

A literatura do Wu Ming é vigorosa e renovada, e sempre aponta para novas possibilidades narrativas – estou lhe dizendo, New Thing é uma das coisas mais bonitas que já li. Há uma boa dose de gratificação em ver um grupo de artistas tão excelente dedicar-se a outras coisas além de sua própria arte e como-viver-dela. Coisas, arrisque-se dizer contra os ideólogos do ‘a-vida-passa-só-a-obra-permanece’, maiores. Condições mais democráticas e não-exclusivistas de fazer e curtir cultura, por exemplo. Um contexto outro, em que os grandes livros fiquem ainda melhores.

“A propriedade intelectual (copyrights, marcas registradas, patentes etc) se tornou um monstro em todos os campos do conhecimento. Algumas corporações detêm até o DNA de certos seres humanos. Plantas que sempre existiram e sempre serviram de alimento para a humanidade estão sendo patenteadas por bastardos gananciosos e se tornando propriedade privada, e então eles podem revendê-la exatamente para as mesmas pessoas que costumavam plantá-las, cultivá-las e comê-las. Falando estritamente de arte e literatura, os termos de prazos do copyright estão sendo ampliados de uma maneira sem precedentes. Há cem anos, o copyright durava 12 anos, agora ele dura 70 anos após a morte do autor, e alguns filhos da puta estão fazendo lobby nos parlamentos para estendê-lo por mais vinte anos! O copyright se tornou uma coisa parasitária. Você se lembra de “About a Boy”, do Nick Hornby? O personagem principal é um cara rico e mimado que não tem nenhum interesse real na vida, ele é cheio da grana e vive uma vida ociosa no West End de Londres. Por que? Porque o pai dele escreveu uma famosa música de Natal, ele herdou o copyright e ganha a vida com as execuções públicas, todos os natais. Parece divertido, mas existe toda uma classe de parasitas vivendo desse jeito, eles não têm mérito, não têm habilidades, não têm talento, não têm inteligência, mas eles são absurdamente ricos! É patético e nojento e nós queremos ser parte de uma ofensiva que irá chutar esses caras para fora de suas mansões e os forçar a arrumar um emprego de verdade, pelo amor de Deus!”

[Reuben da Cunha Rocha.]

De e-livros e livros

É visível, a livre distribuição e consumo de literatura na rede ainda não alcançou a mesma dinâmica que o tráfego de arquivos de som e vídeo, e o que talvez à primeira vista possa não passar de um reflexo da frágil educação brazuca possui pra mim uma causa mais imediata e ao mesmo tempo de mais fácil remédio: o formato.

[Abro em meu computador a pasta de ibúks e reparo na profusão de peixes fora d’água, livros que são apenas isso, livros, mídias da idade da imprensa perdidas no espaço da tela, e não tenho paciência pro incômodo de lidar com aquelas páginas e volto a este texto.]

Há por um lado e evidentemente iniciativas como o Dossiê Deleuze, das quais não se poderia mesmo cobrar coisalém dos scans das obras [repara que estão lá inclusive os livros caprichados da editora 34, gloriosamente grátis], e é o caso na verdade de tirar o chapéu para a disposição de se catalogar e disponibilizar um acervo pirata tão variado e cuidadoso. 

Mas para mim o dossiê consegue funcionar apenas como espaço de referência, nunca de leitura integral, e a iniciativa assim me diz algo sobre o problema do formato, e me diz que o problema reside em etapas anteriores ao consumo das obras, reside na produção e na distribuição, os pontos do processo onde se encontram autores e editores. A escassa leitura de livros na rede fala portanto da indisposição dos autores de escreverem para esse espaço [e, ah, abandonarem as prateleiras e a longo prazo as traças], ou do desinteresse das editoras em explorarem esse tipo de produto.

Entre os escritores as excessões, e entre as excessões gostaria de destacar o poeta Marcelo Sahea, que estreou em 2001 com o e-livro ‘ejs [15 mil downloads em 1 ano, esgotado]. À estréia se seguiu carne viva, e-livro que depois virou livro e, esgotado, voltou ao formato original [download aqui], e de onde o poema visual que abre este texto foi tirado. Na sequência veio leve (2006), em livro, que Marcelo pretende jogar na rede assim que esgotar.

[Mas baixa lá o carne viva antes de continuarmos. É que talvez o livro ganhe uma reedição e saia do ar, e só volte quando novamente esgotado. “A idéia é deixá-lo acessível. Se não tem no mercado, tu baixa. Se tem, compra e me ajuda”, palavra do autor.]

O livro de Sahea tu lê assim que baixa, e até o fim. O formato das páginas é ideal [elas abrem inteiras na tela] e a metragem do livro, adequadíssima. Só a tua preguiça pode te impedir de lê-lo inteiro, de uma vez. Também a imaginação veloz e altamente visual do poeta transformam a obra num produto perfeito, a começar de que sei que Marcelo não se ofenderá com a palavra produto. Visual é mesmo uma boa palavra para o livro, objeto pensado para a visibilidade, prazer dos olhos.

Como também o são, no caso das editoras, os discos-para-ler da Mojo Books. O ponto de partida da editora [100% virtual] é a pergunta: se um disco fosse um livro, que história contaria? E independente da resposta a pergunta aponta para duas características de que todo o seu catálogo se beneficiará: a popularidade da canção e, ele novamente, o formato, nesse caso de cd.

Funciona assim: tu te cadastra pra baixar os livros [os singles, ou comix] e pra enviar material também. Nesse caso, escolhe um disco [ou música, para escrever um single] e segue as orientações [as obras não devem fazer qualquer referência direta aos discos e devem obedecer a um limite específico de caracteres, por exemplo].

Embora o trabalho da editora seja uma excelente lição sobre livros virtuais, é preciso dizer que frequentemente a qualidade dos produtos deixa a desejar. O ponto de partida sendo a música, ocorre o curioso efeito de por vezes os trabalhos enviados serem realizados por fãs das bandas, não por escritores. Por ouvintes afetuosos, mas sem grandes preocupações ou envolvimentos com a linguagem. Ainda assim, há experiências a serem conferidas, como a do graaaaande Gastão Moreira [VJ do tempo em que a MTV tinha música no M, depois piloto do Musikaos na TV Cultura] e da escritora Andréa del Fuego [de quem li Engano Seu e gostei].

E banda boa tem um monte também!

[Reuben da Cunha Rocha.]