Por uma cultura livre no futuro do trabalho

Cultura livre pelas ruas de Barcelona, projeto Enfrenta.org

Como equilibrar a balança entre o acesso à informação/conhecimento/bens culturais X remuneração dos autores? Pergunta sem resposta única e definitiva, que necessita ser vista em cada situação que se quer analisar, foi um dos temas debatido na mesa “Os serviços sofisticados: Cultura e Conhecimento”, do Outras Palavras.

[Leonardo Foletto, editor do BaixaCultura]

Semana passada, à convite do Outras Palavras, participei do ciclo de debate “O Futuro do Trabalho no Brasil” na mesa chamada “Os serviços sofisticados: Cultura e Conhecimento“. Ao lado de duas pessoas que admiro bastante: Tatiana Roque, professora do Instituto Matemática da UFRJ, ativista da Renda Básica e ativa pensadora feminista e das subjetividades na esquerda brasileira; e Célio Turino, historiador, escritor, agente cultural, esponsável pelo conceito e implantação dos Pontos de Cultura no Ministério da Cultura de GIlberto Gil nos anos 2000.

A ementa da mesa tinha três perguntas-provocações tão instigantes quanto (de respostas) complexas: como o Brasil pode aproveitar e estimular, numa requalificação de sua economia, traços socioculturais notáveis, como a criatividade, a irreverência, a versatilidade? Como construir uma Economia da Cultura, do Conhecimento, da Ciência e dos Afetos avançada, inclusiva e redistributiva? Como seus ritmos próprios, ligados à criação e à inventividade, podem abrir caminho para uma proposta essencial no século XXI: a redução geral das jornadas de trabalho?

Pensei em fazer uma fala que tratasse de cultura livre, claro, e de que fomentar o acesso ao conhecimento e a cultura num país como o Brasil é condição essencial para pensar em uma economia da cultura e do conhecimento inclusiva e redistribuitiva. Um pouco antes, porém, fui atravessado, por uma leitura recente que fala de utopia – e não distopia, palavra da moda e tão real pra esses tempos – e pensei que seria bom inserir alguns trechos dessa leitura para trazer um pouco de ideias que nos ajudem a repensar o futuro mesmo (ou principalmente) com as iminentes discussões sobre o fim do mundo, Antropoceno, Instrusão de Gaia, entre outros termos que falam da destruição do que chamamos de natureza de forma irreversível pela ação humana, ainda mais vísivel em 2020 no Brasil de Bolsonaro.

Por motivos diversos, acabei não usando na mesa o trecho resgatado da leitura em questão: “Utopia Brasil“, livro de Darcy Ribeiro, mais precisamente um texto desse livro chamado “IVY-MARAẼN, TERRA SEM MALES, 2997”, uma ficcão utópica do antropólogo (e também escritor de ficção) criador da Universidade de Brasília. Mesmo o debate indo para outros lugares, resolvi resgatar o que tinha pensado em falar a partir de “Ivy-Marãen” e editei para transformá-lo em outro texto, publicado aqui no meu blog pessoal. Talvez não dialogue muito com o restante da mesa e mesmo do que eu anotei e acabei falando, mas sigo achando importante lembrar do que nós, brasileiros e latino-americanos, somos capazes quando criamos entornos sociais que potencializem nosso modo de vida tradicional.

A conversa na mesa enveredou por caminhos mais pragmáticos na tentativa de responder as questões disparadoras da mesa – embora nem eu nem Tatiana e Célio nos atentamos em somente responder a elas, como vocês podem ver no vídeo ao findl do post, com a íntegra dos quase 2h de debate. Falamos sobre a desmercantilização dos chamados serviços sofisticados (cultura e conhecimento); a monetização crescente dos nossos desejos potencializado pelas cada vez mais vigilantes tecnologias digitais; a redução da jornada de trabalho (com a boa lembrança por Cèlio do livro “Direito à Preguiça“, de Paul Lafargue, publicado em 1880) e a referência à outras culturas que não tem o trabalho como eixo organizador da vida, como a de alguns povos ameríndios; a invisbilização daquele trabalho que é feito durante todos os outros (inclusive os sofisticados): o trabalho reprodutivo, que suscitou a boa ideia de Tatiana de submeter a produção à reprodução, na linha que dialoga com historiadoras como Silvia Federici; como o estado pode visibilizar a produção cultural, entre outros tópicos. Trago aqui o restante que anotei para minha fala na mesa, com alguns acréscimos de edição.

CULTURA LIVRE E A REMUNERAÇÃO DE ARTISTAS

Agradeço o convite de Antonio por participar do debate e por poder dialogar com duas pessoas que admiro e acompanho o trabalho há anos, que fizeram, ou estão fazendo, políticas públicas que são fundamentais para o Brasil, caso do Cultura Viva e dos pontos de cultura que Célio Turino foi um dos criadores; e da Renda Básica, que Tatiana é uma das principais articuladoras da Rede Brasileira de Renda Básica.

Bueno, queria começar por uma questão que Antônio e outras pessoas já colocaram quando falo de cultura livre: como remunerar os artistas na cultura livre? como licenciar de forma livre e pagar aos artistas por suas criações? Teria que começar com a explicação do que é cultura livre e do que são licenças livres, e de como elas buscam equilibrar a balança entre o acesso à informação/conhecimento/bens culturais X à remuneração dos autores – nesse caso, remuneração que acaba ficando mais com os intermediários, quem é quem mais abocanha no valor de venda de uma dada obra.

Eu terminei agora um livro sobre cultura livre e a resistência anti propriedade através dos tempos – dos gregos à tecnologia digital, passando pela invenção do copyright, do direito autoral e das vanguardas do século XX – que vai sair pela editora Autonomia Literária em co-edição com a Fundação Rosa Luxemburgo. Creio que final de novembro ou início de dezembro já estará pronto e vocês poderão, se quiserem, ter acesso com muito mais detalhes do que falo quando trato de cultura livre.

No livro, trabalho com uma definição de Cultura livre como uma cultura que posta em circulação a partir de certos bens culturais em um dado mercado, são de livre acesso, difusão, adaptação e valor. Parto da definição do software livre, claro, que inspirou a adoção do termo no final dos anos 1990 e sua propagação nos primeiros anos da internet, e adapto aos bens culturais, em diálogo com pessoas que discutiram e trabalham com esse termo, de Lawrence Lessig à Anna Nimus, de César Rendueles a Dimitry Klainer. Nesse sentido, a primeira questão que se fala é que, assim como o software livre, cultura livre nao é necessariamente grátis.

A liberdade aqui implica autonomia na escolha e, depois, circulação livre, sem barreiras – ou com barreiras que podem ser escolhidas, como o caso por exemplo da licença copyfarleft, que permite o reuso, inclusive comercial, desde que seja compartilhado pela mesma licença, como a ideia do copyleft original, e que seja um uso por coletivos, organizações cooperadas e outras próximas especificadas na licença. É uma forma de não garantir a privatização e apropriação completa de um bem cultural e também incentivar o uso e reuso por iniciativas que tem mais a ver com nossos valores e compromissos éticos.

Assim a primeira pergunta pode se desdobrar em outra: como remunerar trabalhadoras e trabalhadores da cultura de forma a também não restringir e privatizar de modo excessivo os bens culturais e a produção de conhecimento?

Aqui minha resposta – talvez fácil, não sei – é que não há uma resposta pronta, lacradora. Há respostas diversas, para cada contexto. Há muitas entradas nessa discussão. A primeira é que um bem digital – um arquivo PDF de um livro, um disco em MP3, um filme – não é um bem rival, ou seja; eu posso ter em minha casa e você também pode ter em sua casa e tá tudo bem, ambos temos e ninguém fica sem. Falo isso porque toda a discussão da invenção da propriedade intelectual, nos séculos XVIII e XIX e que ainda permanece nas leis e no nosso imaginário, por exemplo, está em equiparar um bem rival (um objeto, terras, veículos instrumentos de trabalho) de um bem não rival, coisas que são claramente de naturezas distintas.

Nos anos 2000, a campanha antipirataria da indústria da intermediação – estudios de cinema, gravadoras musicais, principalmente – buscava a todo momento fazer essa equiparação: quando você baixa um arquivo, você está tirando um emprego de uma cadeia produtiva. Não é isso. Sabemos que essas campanhas não funcionaram: continuamos baixando música, filme, a cada blog fechado por disponibilizar links pra download, outros surgiram, como também assim ocorreu com o The Pirate Bay, até hoje atuante e com diversos espelhos, em que pese seus criadores terem sido processados por ação da indústria da intermediação sediada nos EUA e, cumpridos suas penas, fazerem hoje outras coisas da vida (ou não).

Aqui tem dois pontos importantes: o primeiro (1) é que o fato de baixar um filme não significa necessariamente que eu nao vá no cinema, nem baixarum disco que eu não vá comprar um CD ou vá a um show. Houve pesquisas nos anos 2000 e 2010 que diziam que o que se chamava de pirataria não afetava tanto quanto o propagandiado pela produção cultural.

O 2) é que em lugares em que o acesso à informação e a de bens culturais é mais escasso e de pouca qualidade, como o Brasil, ir contra às pessoas que baixam conteúdo, que compartilham suas cópias, que fazem xerox de textos, é um tiro no pé; você está criminalizando o elo mais fraco da cadeia, o usuário que não tem condições de pagar por cultura, e não o peixe grande que, esse sim, pode lucrar muito com pirataria – e provavelmente está ligado a outros negócios. Não sou punitivista, mas posso dizer: se tem alguém que poderia responder por crime são esses grandes, e não os usuários que baixam arquivos porque essa é a única opção de acesso que tem a certas obras.

Semanas atrás houve um debate nesse sentido no Twitter, daqueles que vão e vem e que quase só lá repercutem, feito a partir de postagens de uma editora de esquerda que começou a criticar publicamente quem baixava alguns de seus livros em PDF. Foi um tiro no pé, não? Vi muito mais esses arquivos circulando do que antes, inclusive como comentário aos posts da editora no Twitter. Eu mesmo só fiquei sabendo dos links depois da postagem da editora – aproveitei inclusive um link para baixar todos os livros, aliás.

É necessário dizer: é claro que devemos pensar na remuneração dos autores e da cadeia de produção de um livro. Mas esse pensamento não pode ser maior do que o acesso ao conhecimento e a cultura, não? Pelo menos é o que acho: dá pra conciliar ambos, tornar comum nossa produção, usar mecanismos que permitam a apropriação com fins que não exclusivamente o de retirar dinheiro dos autores, o que o copyleft e algumas licenças do creative commons, além da já citada copyfarleft, fazem há quase duas décadas.

No livro, ao final, eu trago outras perspectivas que não a ocidental para mostar como essa visão proprietária das ideias que temos hoje é também uma construção. No Extremo Oriente, por exemplo, a partir da influência do Confucionismo por mais de dois milênios, existe e permanece uma tradição diferente, que considera a cópia como algo básico, parte processo de aprendizado, o que remete até uma outra concepção de verdade e de processo criativo, mais marcado pela continuidade e por mudanças silenciosas do que pela ruptura que uma ideia genial trazida por um artista prmove, como consagrada na visão ocidental a partir do Romantismo do século XIX. Não se valoriza tanto a matriz da ideia, sua origem ou seu autor, mas como ela vai – ou precisa – ser continuada. Se a ideia permanece na cópia, então é como se a obra continuasse, sem ruptura, sem uma “nova obra”.

Em muitos povos originários, a perspectiva de propriedade intelectual também é diferente, muito mais comunitária e coletiva, mas um coletivo que não incorpora apenas os membros humanos de uma comunidade, mas outros seres animais, objetos, sem a separação habitual que fazemos entre sujeito e objeto. Nesse sentido, como é que se vai definir que uma obra é exclusivamente de alguém, que ninguém poderá usar sem pagamento de royalties a um determinado sujeito, se ela é fruto de um processo coletivo que também incorpora outros seres e se não há tão claro a seperação entre quem é sujeito e quem é objeto?

Enfim, trago aqui essas perspectivas pra gente pensar que não somos os únicos, que o ocidente nao é O mundo, mas que existem outras formas de ver as coisas, o mundo, as artes, a cultura, e que talvez temos que prestar atenção a esses outros jeitos para tentar encontrar formas de imaginar futuros e, então, buscar caminhos práticos para torná-lo nossa realidade – e, inclusive equilibrar a balança entre remuneração dos autores X acesso à cultura.

Caiu na rede virou apócrifo

Caiu na rede é peixe, é pixel, é texto “lançado ao alto-mar das futuras combinações” como completaria o poeta Roberto Piva. Tantas recombinações que algumas vezes, intencionalmente ou não, alteram a atribuição ao primeiro mentor e redator do conjunto de ideias expressado.

Caiu na Rede, o livro da capa aí acima, se lançou nesse alto-mar das combinações infinitas com uma divertida tarefa:  compilar e discutir 67 textos apócrifos, aqueles de autenticidade diluída, repaginada ou mesmo roubada que certamente tu já deve ter tido contato via e-mail ou republicado em blogs e fóruns.

Na maioria das vezes, são crônicas singelas, indignadas, bem humoradas ou reflexivas, que não raro trazem uma “mensagem” que convida o leitor a passar adiante. Não demora muito e os atribuídos autores negam a responsabilidade da escritura – ou outros vêm reinvindicá-la. Um exemplo mais recente é o texto “A Vergonha” dado como de Luís Fernando Veríssimo, que refugou a benção.

A organizadora do livro, a jornalista Cora Rónai, tenta ir além da mera compilação de textos. Divide-os em oito tópicos, e em cada um deles produz um texto dando conta de entender como se dá o fetiche da transmutação de autores em cada agrupamento de casos. Duas justificativas para o fenômeno da troca de autor são ditos logo em “Os Veríssimos falsos”, o texto de apresentação do livro:

) a busca de um maior impacto pela adoração ao autor, pois deseja-se que a mensagem sejá espalhada através da credibilidade;
) é meio que o contrário do 1º), ou seja, um decaso com o autor, tanto o Anônimo quanto o Desconhecido, pois o que vale é a mensagem.

É claro que essa subjetividade de escolhas do leitor, potencializada agora aos milhões com a internet, não é coisa nova. Já em 1968, Roland Barthes, no ensaio “A Morte do Autor“, diz que um texto é feito de múltiplos textos e escritos, vindos não só de uma cultura, mas de diversas outras misturadas, relacionadas – e que essa multiplicidade se reúne não no autor, mas no leitor.

“O leitor é o espaço exato em que se inscrevem, sem que  nenhuma se perca, todas as citações de que uma escrita é feita; a unidade  de um texto não está na sua origem, mas no seu destino“. Seriam alguns desses textos do livro dispensáveis da autoria fixa, como leis e textos publicitários? O corintiano Washington Olivetto apresenta nessa entrevista uma teoria discutível: “O autor dá muito certo quando certas coisas teoricamente ‘desaparecem’: aí todo mundo quer saber quem fez, e você fica conhecido”.

Uma constatação do livro é de que não há solução pros leitores nem pros autores: “O meio-de-campo da internet está tão embolado, e os apócrifos se espalham com tal velocidade, que qualquer tentativa de descobrir ou estabelecer autorias é, praticamente, uma batalha perdida“, diz Rónai nas primeiras das 158 páginas, muitas delas disponíveis no Google Books. Mas há tentativas de esclarecer, e ela mesmo indica o blog Autor Desconhecido, que depois migrou para um site, e a comunidade do orkut “Afinal, quem é o autor?”.

Na época de lançamento do livro (2005), foi criado também um blog para divulgar o conteúdo, que continha alguns dos textos publicados. De lá pra cá pouca coisa mudou e todos eles continuam sendo republicados, como se pode ver aí embaixo, com os textos linkados e separados pelos temas, incluindo poesia, tal qual o livro.

Até hoje surge gente trocando Jabores com Borges, Medeiros com Lispectors, Veríssimos com Drummonds de Andrade. E não há previsão que essa confusão cesse, por que como bem diz Godard, “com os celulares e tudo o mais, hoje todo o mundo é autor”. Ou seria que, sendo todo mundo autor, o autor está morto?

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Caiu na rede (índice com textos do livro)

Língua
O direito ao palavrão
Minha iNgUInorância é problema meu
Tipo Assim

Cotidiano
The summer is tragic!
Mamãe executiva
Na hora de cantar
Um dia de merda
Alguns motivos pelos quais os homens gostam tanto de mulheres!
Mulheres empresárias
Um dia de modess
Pedido de amigo
Orgasmo trifásico
Quem não tem namorado
A verdade sobre Romeu e Julieta
Casamento Moderno
Promessas matrimoniais
Desabafo de um marido
Marte e Vênus.

Celebridades
Ninguém mais
namora as deusas
Baba, Kelly Key
Duas vidas
No trabalho, e chocada

Diga não às drogras.

Moralizantes
Faz parte
Precisa-se de matéria-prima para construir um país
Ode aos gaúchos
Brasil e o mundo podem prejudicar a sua saúde
Por que no Brasil não há terrorismo.

Amor
A impontualidade do amor
Sobre o amor
Às vezes
Precisando de amor
As razões que o amor desconhece
Até a rapa
A dor que dói mais
Pot-pourri de assuntos.

A Vida, o Universo e tudo mais
Mulher, sua origem e seu fim
Bunda dura
Nada como a simplicidade
O velório
Dez coisas que levei anos para aprender
Oração dos Estressados
Quase
Marionete
Entrevista com Deus
Vida
Felicidade realista
Envelhecer
Solidão
O que faz bem à saúde
Como conseguimos sobreviver?.

Poesia
Não te amo mais
Trilogia sobre a arte de dar
A Morte Devagar
No caminho, com Maiakóvski
A pessoa errada
Há momentos
A orgulhosa
Instantes

Dos apócrifos
Precisa-se de matéria-prima para construir um país
Em trilha de paca, tatu caminha dentro
Eu não escrevi “Bunda dura”.
Quem copia o rabo amplia
Vaidade
Clonagem de textos
Presque
Apócrifos

[Marcelo De Franceschi]

Pequeno ensaio para o final e início de semana (2)

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Depois de três semanas, damos sequência à pequena tentativa ensaística que relaciona o texto “Fases do desenvolvimento tecnológico e suas implicações nas formas de ser, conhecer, comunicar e produzir em sociedade”, de Alex Primo, com outras coisas e contextos. Nessa segunda parte, vamos tratar da segunda das três fases que dão título ao artigo, a do conforto, que se segue à da Indiferença e precede a da Ubiquidade, tema da parte três do ensaio. Vale dizer que estas categorias são baseadas nas pesquisas de André Lemos e podem ser mais bem compreendidas com a leitura de seu livro Cibercultura: tecnologia e vida social na cultura contemporânea (editado em 2002 pela Editora Sulina).

Como vimos na primeira parte, a fase da Indiferença vai até mais ou menos o período da invenção da Imprensa por Gutemberg, no século XV, o nebuloso período que a história (provavelmente errada, certamente incompleta) que aprendemos no Ensino Médio caracteriza como o fim da Idade Média. A “indiferença” em questão se refere à técnica, pois costumava-se entendê-la como um trabalho menor, subjugado ao interesse “religioso” e da tradição, esses sim os portadores do conhecimento – a sociedade não ligava o seu destino ao desenvolvimento tecnológico, e por conta disso quase que o “menos prezava”. Essa visão de mundo vai refletir na percepção de autoria que marca este período, caracterizada pela ideia de narrativas orais, passadas no boca a boca por diversas décadas e até séculos, que não apresentavam um “único” autor como o magnânimo responsável pelo texto, mas sim uma série infinita de pequenos e talentosos “autores”  anônimos que davam sua contribuição para o bom desenrolar da narrativa.

[Borges falava que temos tendência em achar os contos anônimos, característicos dessa época, como menos trabalhados e menos autorais, o que ele desmistifica dizendo que não, muito pelo contrário: “um conto autoral tem um autor, um conto anônimo tem 100 pessoas que trouxeram uma síntese do que comunicava melhor”, o que é papo para um outro momento.]

Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda, uma clássica história (lenda?) anônima popularizada pelo clérigo britanico Geoffrey de Monmouth, no século XII.

Durante muitos séculos, não se percebeu a necessidade da criação de leis que regulassem o que seriam “direitos do autor” porque a própria noção de autoria única não era muito bem entendida. A partir de uma série de fatos e novidades – que não comentarei aqui por que Michel Foucault levanta e problematiza de modo muito melhor em diversos textos, em especial no clássico “O que é um autor?“, de 1969, assim como Roland Barthes no também clássico “A morte do autor“, – que culminam com a proliferação das imprensas de Gutemberg no século XV, cria-se, ou consolida-se, a ideia do autor como alguém em que se pudesse colocar a “culpa” por possíveis transgressões no discurso, bem como se atribuir a “paternidade” do nascimento de um texto e possíveis marcas identitárias presentes no mesmo.

Com a ideia de autor surge então a questão de direitos para este autor, sejam os morais, que dizem respeito ao reconhecimento para quem criou a obra em questão e da integridade da mesma, quanto os patrimoniais, que falam a quem “pertence” o texto em questão. É nesse momento que, dentro do direito patrimonial, surge o copyright a partir da proliferação dos equipamentos que pudessem fazer a cópia de textos. Como falamos no fim do ensaio anterior, é criado na Inglaterra de 1556 a Stationer’s Company [“Companhia dos Editores”], um grupo de profissionais que, mediante acordo com a monarquia inglesa, passa a deter a exclusividade do direito de copiar. É sabido que para a monarquia inglesa – e para todo tipo de governo, especialmente da época – não era nada interessante ter diversas pessoas com estas máquinas de impressão espalhando livremente textos apócrifos para a coitada da população que sabia ler, número não muito grande à época.

Depois de algumas reviravoltas na história inglesa (leia o texto que traduzimos do Wu Ming sobre o assunto que você entenderá melhor), no século XVII os editores são enfraquecidos e, para retomar o seu poder, criam uma campanha com o seguinte argumento: o copyright pertence ao autor, que, no entanto, não possui máquinas de impressão. Estas pertencem aos editores, o que faz os autores necessitarem do editor. Como regular esse imbróglio? Simples: o autor, interessado em que a obra seja publicada, cede os direitos ao editor por um determinado período. Como Wu Ming no texto supracitado nos conta,

“A justificativa ideológica não se baseia mais em censura, mas na necessidade do mercado. Todos os mitos que daí derivam acerca dos direitos do autor se baseiam no lobby dos editores: autores são forçados a cederem seus direitos…mas isso é pro seu próprio bem”. (…) De agora em diante, autores se mobilizarão em defesa de um status quo que consiste neles próprios esperarem ao pé da mesa pelas migalhas e por um tapinha na cabeça. Pá, pá! Au!

Esse acordo dos editores britânicos com os autores e a monarquia antecede e influencia todas as leis seguintes de copyright (desde a Convenção de Berna em 1971 até o Digital Millenium Copyright Act) até chegar ao estágio atual que temos acompanhado, com a revolução proporcionada pela web e o amplo questionamento da validade de uma legislação criada num contexto absurdamente diferente do de hoje, onde quase todos nós temos acesso aquela tecnologia que antes os editores monopolizavam.

Oficina portuguesa de imprensa, década de 1930, século XX

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Esta explicação sobre o nascimento da noção do autor e do copyright ilustra bem as características da fase do conforto. A principal alteração neste momento histórico vem do fato de que a ciência vai substituir a religião no monopólio da verdade, e, nas palavras de Lemos encontradas na página 56 de seu livro já citado por aqui, “a tecnologia faz do homem um Deus na administração racional do mundo”. Pensadores como Descartes passam a exaltar o racionalismo, a divisão mente-matéria que vai “libertar” o conhecimento da tutela religiosa/espiritual e desenvolvê-lo como nunca a partir de então. Primo nos diz, na página 56 do texto que citamos na abertura do texto, que a partir de Descartes

a modernidade  passa a abordar o conhecimento como um processo que deve ser desenvolvido a partir da dúvida eterna. Se até então a tradição não deveria ser desafiada, a parti de agora a verdade deve ser buscada desde a análise sistemática e metódica dos fenômenos. A partir do século XVII, aparece a figura do pesquisador profissional e organiza-se a idéia de pesquisa. Já os letrados europeus passam a se envolver com projetos de reformas econômicas, sociais e políticas. (…) Ciência e progresso vinculam-se.

Dessa vinculação entre ciência e progresso surge uma metáfora que vai balizar a educação desse período e permanecer influenciando até hoje: a ideia de “escada”, de evolução linear, da qual a sociedade necessita passar por certas etapas mais simples para chegar até outras mais complexas. É uma visão que determina uma sucessão de eventos como necessárias para o progresso, algo que podemos visualizar ainda hoje na forma como somos educados, em etapas chamadas “séries” que levam continuamente a pessoa para o “progresso”, aqui representado pelo conhecimento científico e universitário, que vai “dominar” a natureza para do seu estudo/análise retirar a sabedoria, o conhecimento e – por que não? – o dinheiro. Como se vê, uma perspectiva que é contrária à da fase anterior, que respeitava e temia os “monstros obscuros” da natureza e da tradição, acreditando mais neste poder invisível do que no do racionalismo humano.

O período do conforto permanece até meados/finais do século XX, onde a revolução da nanotecnologia – que, ao diminuir significativamente os componentes eletrônicos, vai abrir um leque inimaginável de possibilidades tecnológicas – traz novas perspectivas para o desenvolvimento. Especialmente no caso da comunicação, já que a nanotecnologia vai preceder, permear e indicar os passos futuros do desenvolvimento das redes, que por sua vez vão ultrapassar barreiras geográficas e temporais para modificar o até então fluxo único de informação, de um-muitos para muitos-muitos, o que vai contribuir para a criação do que teóricos como o espanhol Manuel Castells chama de “sociedade em rede” (por sinal, título de uma série de três volumes grossos do pesquisador espanhol, importantíssima para se compreender o mundo hoje). Daí surge uma revolução que muitos comparam à da invenção da Imprensa de Gutemberg, e que vai potencializar a ideia de ubiquidade, o estar em toda a parte e em todos os lugares  – que vai ser o foco do próximo ensaio.

[Leonardo Foletto.]

Créditos fotos: 1,23, 4.

Pequeno ensaio para o final de semana (1)

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Volte-e-meia, fizemos por aqui postagens um pouco mais teóricas que as convencionais, que pendem para o lado mais jornalístico. A busca teórica advém de um desejo natural de buscar o entendimento do contexto onde se situam os fatos que por vezes noticiamos e/ou comentamos (não que consigamos entender, mas é por este caminho a nossa busca). Com a superabundância de informação de nossos tempos, é cada vez mais fácil surfar na atualização contínua e se afogar na informação pura e simples, que provoca o desconhecimento do contexto de onde elas surgiram – é notório que a busca incessante por atualidade toma demasiado tempo para que um dia, de apenas 24 horas, seja usado para qualquer outra coisa que não se atualizar.

O resultado disso é cada vez mais notório: pessoas absolutamente bem informadas, mas sem capacidade de situar o emaranhado de informações que processam no mundo presente, na cidade em que vivem e em suas próprias vidas. Viram quase que zumbis do tempo presente, sem capacidade crítica de contextualizar aquilo que julgam saber.

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Dito isso, eis que vale a pena aqui resgatar, ainda que da maneira sucinta, um texto presente no livro Além das Redes de Colaboração: internet, diversidade cultural e tecnologias do poder, já citado por aqui, organizado por Sérgio Amadeu e Nelson de Lucca Pretto e resultado de dois seminários realizados em 2007, nos dois Rio Grande brasileiros (o do sul e o do norte). O texto – escrito por Alex Primo, pesquisador da área de cibercultura bastante conhecido no Brasil e que dispensa apresentações – é um dos bons exemplos de como a academia pode ser extremamente didática e clara em suas elocubrações sem a necessidade de ser simplista. O título do artigo em questão é grande e até sugere uma prolixidade que, felizmente, é dissipada na leitura: Fases do desenvolvimento tecnológico e suas implicações nas formas de ser, conhecer, comunicar e produzir em sociedade.

As fases do desenvolvimento tecnológico de que Primo fala foram trabalhadas em profundidade por André Lemos, outro teórico dos mais destacados na área aqui no Brasil, em seu livro Cibercultura: tecnologia e vida social na cultura contemporânea (editado em 2002 pela Editora Sulina, infelizmente não disponível na íntegra online), obra referencial de Lemos, professor sediado na FACOM da UFBA. São três as ditas fases: a fase da indiferença, que tem como principal traço a “mistura entre arte, religião, ciência e mito” e que vai da pré-história até a Idade Média; a fase do conforto, que corresponde à modernidade e tem como principal novidade o fato de que a ciência vai substituir a religião no monopólio da verdade, e, nas palavras de Lemos encontradas na página 56 de seu livro, “a tecnologia faz do homem um Deus na administração racional do mundo”; e, por fim, a fase da ubiquidade, que corresponde ao tempo de hoje e também a dita pós-modernidade, período que corresponde aos condicionamentos advindos do uso das tecnologias digitais na sociedade, nas palavras de Primo (na página 60 do livro já citado).

Esta distinção é buscada pelo pesquisador para fazer um levantamento de como as tecnologias se transformaram com o tempo, e, por sua vez, de como elas mesmas transformaram o seu tempo – um tipo de distinção que, mais do que reduzir a evolução dos tempos a categorias estanques, busca dar uma noção que facilita a contextualização das mudanças que vivenciamos hoje em todas as áreas e particularmente na cultura, que é nosso foco por aqui.

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Uma conversa que ilustra bem a "indiferença" medieval

Indiferença

A primeira fase é caracterizada por uma “indiferença”, ou até um “preconceito”, com relação a técnica. A misturança que ocorre entre a arte, a religião, o mito e a ciência torna o poder governante algo mágico, oriundo de um poder divino que não distingue a técnica como algo relevante. Entendia-se a técnica como um trabalho menor, subjugado ao interesse “religioso” e da tradição, esses sim os portadores do conhecimento. As sociedades não ligavam o seu destino ao desenvolvimento tecnológico; sem a ciência, a técnica não era independente e os seus produtos eram influenciados pelos homens que as construíram. Ainda havia o fato de que as tecnologias produzidas por povos diferentes não podiam ser disseminadas tão largamente, pois 1) carregavam toda a carga cultural e características da civilização a qual pertenciam – como é salientado neste texto do blog de uma disciplina dada por André Lemos na Facom; e 2) ficavam restritas a um espaço físico determinado, pois, não havendo qualquer meio de transmissão massivo, sua transmissão dependia de coincidências geográficas ou do deslocamento de pessoas para um outro ambiente.

A ideia de autoria nesse período é baseada nessa visão de mundo. Nessa época – que vai aproximadamente até o fim da Idade Média, tendo talvez como marco final a invenção e a consolidação da imprensa, por Gutemberg – os textos raramente são identificados como sendo de um único autor; são narrativas passadas de pessoa para pessoa e reveladas por alguns poucos autorizados, que geralmente têm as condições morais e físicas para isso.  O “escritor” seria o escriba de uma palavra que vinha de outro lugar, uma palavra que pertencia a uma tradição e não tinha valor a não ser o de desenvolver, comentar, glosar aquilo que estava ali (nas palavras de Roger Chartier encontradas na página 31 do incrível A aventura do livro: do leitor ao navegador, editado no brasil em 1998 pela Unesp, citado por Primo no texto e da capa abaixo).

A noção de autoria nesta época também está intimamente ligada aos meios de transmissão dos artefatos culturais. As formas de reprodução eram ainda custosas, quando existiam – até a invenção da imprensa, os livros eram todos editados manualmente, letra por letra, pelos escribas. Como diz o advogado e professor de direito da UFMG Túlio Vianna em artigo sobre o assunto, “as dificuldades inerentes aos processo de reprodução dos originais, por si só, já exerciam um poderoso controle da divulgação de idéias, pois o número de cópias de cada obra era naturalmente limitado pelo trabalho manual dos copistas”.

Quando a invenção da imprensa contamina a europa, aumenta e muito a possibilidade de distribuir diversas cópias do mesmo texto, o que é particularmente interessante para quem quer dizer algo – especialmente algo político – por meio de jornais, panfletos, livros, etc. É daí que surge o temor, por parte de quem manda, de que ideias “subversivas” possam ser difundidas perigosamente. Como controlar isso? Pelo meio mais fácil, na época: acordo com quem detém o material necessário para a impressão. Surge, então, na Inglaterra de 1556, a Stationer’s Company [“Companhia dos Editores”], um grupo de profissionais que, mediante acordo com a monarquia inglesa, passa a deter a exclusividade do direito de copiar – como Wu Ming nos fala em artigo em que aqui publicamos. Está formada a base do que até hoje ganha o nome de “direito autoral”, tema que será mais abordado na segunda parte desta tentativa de ensaio, que vai falar da segunda fase que Lemos e Primo apontam, a do conforto.
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[Leonardo Foletto.]
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