Jornadas de ciência e tecnologia abertas no sul global

Ao longo dos quase 10 anos de BaixaCultura, sempre tivemos algumas colaborações de pessoas, próximas ou não, que se interessam pelas pautas que aqui falamos e buscam trazer para cá seus pontos de vista. Basta, por exemplo, buscar no arquivo textos do André Solnik, Luís Eduardo Tavares, da Aracele Torres, da Daiane Hemerich, entre outrxs, para ver que trazer textos e perspectivas que não somente a nossa aqui oxigena um pouco o espaço. E, também, apresenta olhares para temáticas não tao abordadas aqui não por falta de interesse, mas por questões de tempo e conhecimento do tema em questão.

É o caso desse relato aqui, escrito por Marina de Freitas, engenheira física recém formada pela UFRGS. Natural de Santo Ângelo, na região das missões, noroeste do RS, Marina se aproximou da ciência cidadã e do hardware aberto a partir de sua participação no Centro de Tecnologia da UFRGS (CTA, na foto acima; Marina é a com a guitarra vermelha), espaço muito ativo e interessante de aprendizado em tecnologias abertas localizado no Instituto de Física da universidade, no Campus do Vale, Porto Alegre quase Viamão (cidade da região metropolitana). No último FISL, em meados de julho de 2018, conversamos sobre o evento em que ela participaria em Santiago, as Jornadas Latinoamericanas de Estudios Sociales de la Ciencia y la Tecnología, e falamos sobre biohacking, hardware aberto e o que ela estava esperando encontrar no Chile. Daí saiu a vontade de escrever um relato sobre as jornadas, que cobre uma temática que, vocês vão ver, se relaciona muito com o que falamos aqui, embora não seja um tema tão frequente pela falta de conhecimento (e tempo) desse editor que aqui escreve e das pessoas mais próximas do Baixa. Quem sabe não abrimos um flanco aqui para falar mais de ciência aberta, open hardware e biohacking? Confira o relato de Marina logo abaixo.

Leonardo Foletto, editor

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O ESOCITE caiu em meus colos de surpresa. As Jornadas Latinoamericanas de Estudios Sociales de la Ciencia y la Tecnología (ESOCITE) estão na sua 12° edição e ocorrem desde 1995. Mas, para mim, uma novidade. Este ano foi sediada em Santiago do Chile, com o pertinente tema “Ciudadanías del conocimiento: nuevas formas y tensiones en el hacer y pensar la ciencia, la tecnología y la sociedad.”.

Durante os dias 18, 19 e 20 de Julho se reuniram na Facultad de Ciencias Sociales da Universidad de Chile pesquisadoras, ativistas, professoras e engenheiras para discutir e refletir sobre as mudanças nas arquiteturas e políticas de ciência, tecnologia e inovação, sobre as novas formas de ação cidadã e suas interpelações na ciência, sobre a nova demanda de construção de conhecimento fora das instituições tradicionais e necessidade de uma maior resposta aos aos problemas cidadãos e demandas sociais.

Foram 34 seções, com mais de 120 trabalhos apresentados, que discutiram a educação de ciência e tecnologia, a educação rural, as controvérsias tecnocientíficas, o futuro das cidades inteligentes, as ações de engenharia social e anti-hegemônica, passando pela biotecnologia, a nanotecnologia, a agroecologia, a saúde pública e o ativismo, sem excluir a história da ciência e tecnologia na América Latina, e culminando no acesso aberto e ciência aberta.

Não passou despercebido nesta história toda as marcas das Tomas Feministas, mais um elemento da Onda Feminista na América Latina. O espaço em que ocorreu a jornada, a Facultad de Ciencias Sociales da Universidad de Chile, esteve ocupada durante 3 meses por estudantes feministas que protestavam contra o assédio sexual na universidade e em defesa de uma educação não-sexista. Finalizadas no início de Julho, cartazes, pinturas e intervenções feministas preenchiam o espaço, impossíveis de não serem vistas. É neste clima energizante, que vivenciei esta jornada.

Que somos colônias, sabemos, mas me chamou atenção a fala da pesquisadora Lea Velho, na abertura do evento. Nos contou – como se estivéssemos todas em volta do fogo – sobre o “bem sucedido” caso de cooperação internacional da Estação Ecológica de Maracá, quando, apesar dos acordos firmados, os artigos publicados foram muito mais numerosos para os pesquisadores franceses, do que para os brasileiros. Revela como a internacionalização da produção científica da América Latina tem se resumido ao padrão colonial de exploração onde nós não fazemos parte do fazer ciência, apenas fornecemos dados. Ao contrário, gostaríamos que uma internacionalização da produção cientifica Latina levasse ao aumento na diversidade do pensar científico, contribuindo para a pluralidade de perspectivas e visões. Mas o que tem se visto é apenas uma sofisticação nos mecanismos de exploração. Sem muitas surpresas, o que não significa que não dói.

Nós, cientistas e tecnólogos, estamos sempre buscando argumentos para a pergunta “Por que ciência e tecnologia são importantes para as pessoas?”. O pesquisador Irlan Van Linsingen propôs uma sútil mudança nesta pergunta: que tal “De qual ciência e tecnologia necessitam as pessoas?”. Esta mudança de perspectiva dialoga diretamente com a descolonização da ciência e tecnologia. Enquanto produzimos o conhecimento (e os dados) que os gringos querem importar, nos motivando nas motivações deles, viramos as costas para nossa gente e para suas necessidades.

O pesquisador Mariano Fressoli conectou tudo isso a ciência cidadã através do exemplo da Rhizomática, rede telefônica comunitária de Oaxaca, México. Redes essas construídas a partir da necessidade de uma comunidade, e não da necessidade de mercado de uma empresa, ou de pesquisa de uma instituição. Redes telefônicas auto-governadas, sem fins-lucrativos, sem-besteira. A conexão, no ESOCITE, foi reforçada institucionalmente pelas duas oficinas oferecidas: Oficina Ciencia Ciudadana e Open Knowledge Map. Ambas apontando a direção que caminham os debates sobre ciência, tecnologia e sociedade.

Sumário do Gosh Roadmap

Na sessão “Acesso Aberto e Ciência Aberto”, uma surpresa: a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) possui um grupo de trabalho de ciência aberta. A FIOCRUZ é uma das grandes instituições de pesquisa em saúde do Brasil, e o fato de possuírem um grupo de trabalho de ciência aberta indica um caminho promissor no Brasil para esta ciência. Não bastando, lançaram um livro sobre Ciência Aberta e Dados Abertos, intitulado “Livro Verde – Ciência Aberta e Dados Abertos: Mapeamento e Análise de Políticas, Infraestruturas e Estratégias em Perspectiva Nacional e Internacional”. Só felicidade!

Também marcou presença nesta sessão a comunidade do Global Open Science Hardware (GOSH) [openhardware.science], representada por eu mesma. Apresentei o GOSH Roadmap, o roteiro guia da comunidade de cientistas, artistas, engenheiras e pesquisadoras que desenvolvem e usam hardware aberto para ciência. Este documento foi escrito colaborativamente pela comunidade, e traz os passos que acreditamos ser necessários para que o Open Science Hardware (Hardware Científico Aberto) esteja difundido, a nível global, até 2025. Apesar de estar numa sessão repleta de pessoas acostumadas com a ciência aberta e dados abertos, a reflexão sobre a necessidade de que os instrumentos científicos sejam também livres e abertos foi uma novidade. Uma novidade muito bem recebida e acolhida.

A importância de considerar a territorialidade tanto na educação, quanto na própria produção de ciência e tecnologia se mostraram evidentes nos trabalhos compartilhados ao longo da Jornada. As relações, diretas e indiretas, com a ciência cidadã e ciência aberta despontavam aqui e ali, permeadas de ativismo, preocupação e esperança. As Jornadas terminaram, mas fica a vontade de produzir uma ciência aberta imersa numa cultura livre.

Marina de Freitas

Fotos: 1 (CTA), 2 (twitter), 3, 4, 5 (Marina) e 6 (gosh)

Congresso #GCultural2016: trabalhos selecionados

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Depois de vários dias de trabalho, a equipe das mesas do Congresso Online de Gestión Cultural selecionou os trabalhos a serem apresentados em cada uma das seis mesas temáticas. Cada mesa teve autonomia na seleção, mas acordamos previamente alguns critérios comuns e trocamos bastante ideias durante o processo seletivo. Trocamos também alguns resumos que achávamos melhor direcionar para outras mesas que não a inicialmente apresentada pelo autor. Foi então que chegamos a uma seleção que consideramos duplamente interessante e que motive muitas pessoas a participar do congresso para trocar experiências.

Os critérios principais em que baseamos a seleção foi:

_ Afinidade com o tema e o enfoque específico de cada mesa;
_ Que tivesse por base práticas e experiências concretas de interesse para o tema;
_ Na medida do possível, representar diferentes países;
_ Que no conjunto dos trabalhos se apresenta uma diversidade de experiências sobre o tema;

Trabalhamos com estes critérios mais “curatoriais” do que acadêmicos, o que significa que não importa somente a qualidade dos trabalhos mas também o conjunto que queremos mostrar. A nossa ideia (particularmente, do BaixaCultura) era trabalhar com a maior quantidade possível de trabalhos, num processo semelhante ao de “cuidadoria” realizado no BaixoCentro: não selecionar, mas fazer de tudo para que todas pudessem participar do congresso. Mas não conseguimos; não por uma questão de espaço (já que na internet o espaço é quase ilimitado), mas por uma questão de tempo – nosso, da equipe coordenadora de cada mesa; e do tempo de apresentação dos trabalhos durante o congresso. Ainda assim, salientamos que há outras modalidades de participação (apresentadas nas próximas semanas) que podem contemplar aqueles que não foram selecionados no trabalho final. Dá pra ver também que algumas mesas incluem trabalhos de temáticas similares que tanto poderiam se encaixar numa ou em outra mesa. Entendemos que há certas transversalidades em todo o congresso, por isso buscamos a melhor maneira de ter em conta estas cruzas temáticas entre as mesas.

Nos próximos dias vamos comunicar os autor@s das propostas informando dos próximos passos para a apresentação dos trabalhos completos.

1.EXPERIÊNCIAS Y PROYECTOS DE CULTURA Y ACTIVISMO DIGITAL
Relatos de experiencias de procesos / proyectos colectivos o individuales de ciberactivismo, hacktivismo, activismo digital artístico – “artivismo”; hackerspaces, makespaces, fablabs y otros tipos de centros de tecnología comunitaria; producción de cultura digital, arte y tecnologia; mapeos / cartografías digitales; performances y exposiciones artisticas; labs de experimentación digital. Coordina: @baixacultura

1.1. Daniel Daza-Prado (Buenos Aires, Argentina)

Este ponencia plantea anticipar algunas primeras reflexiones sobre una etnografía de dos comunidades de redes inalámbricas libres, una en la ciudad de Buenos Aires y otra en el Delta del Tigre, provincia de Buenos Aires. La etnografía pretende describir, problematizar y analizar comparativamente los cruces entre las experiencias de vida cotidiana, la tecnología y el activismo digital de estos dos grupos. Las redes inalámbricas libres están formadas por personas que conectan sus computadoras para compartir datos y servicios utilizando tecnología WiFi. Estas redes no siempre brindan acceso a internet porque buscan generar alternativas más reflexivas de conexión, comunicación y colaboración en la red de redes.

1.2. Marta Alvarez (Valladollid, España) – bit:LA – www.bitlav.org

En los últimos años han proliferado en España los laboratorios del procomún, espacios en los que se ha ido articulando de forma específica toda una investigación colectiva en torno a este concepto y sus diferentes aplicaciones en el campo de la cultura y el conocimiento en relación con las posibilidades de la Red. Tomando como ejemplo espacios como Medialab Prado (Madrid) y como referencia centros dedicados al arte digital tales como Etopia (Zaragoza), Hangar (Barcelona) o Laboral (Gijón); nos propusimos tratar de desarrollar un espacio de creación e investigación en torno a la cultura digital y especialmente el arte en la ciudad de Valladolid que nos permitiera elevar de forma colectiva una visión crítica desde el arte con respecto al uso de las nuevas tecnologías. La ciudad vive una cierta efervescencia creativa que quisimos focalizar en este espacio colectivo que llamamos bit:LAV y que desarrolló su primera edición en el Laboratorio de las Artes de Valladolid (LAVA): bit:LAV cuenta con una programación de talleres de programación creativa para adolescentes, talleres de especialistas para adultos y un cineforum sobre herramientas libres, además de mantener un blog de crítica y difusión de cultura digital y cultura libre. Si bien su punto fuerte fue la creación de un laboratorio de creación en el que se dan cita creadores de diversos ámbitos como la música, la pintura, los audiovisuales, la filosofía o la educación. Se propone como un espacio abierto de work in progress, de reunión, discusión, colaboración, cocreación y experimentación interdisciplinar para el desarrollo de trabajos desde la óptica de la cultura libre. Se centró en la primera edición en una relectura crítica de la ciudad, su urbanismo y distribución, acompañada de una revisión del imaginario histórico local. Todos los materiales utilizados y el propio proceso se hacen públicos y se licencian con Creative Commons, permitiendo así abrir las puertas del laboratorio mucho más allá de la ciudad y compartiendo la filosofía open access. Este tipo de trabajo exige una nueva apertura institucional que permita, no sólo un trabajo autónomo al colectivo de experimentadores, sino una flexibilidad temática y formal a la hora de llevar a cabo los proyectos. Entiende también la necesidad de comprender la cultura como un continuum desvinculado -al menos en ocasiones- de la cultura espectacular y gestionado como una educación expandida que vaya más allá del mero ocio. La primera edición logró no sólo reunir a una cierta comunidad interesada en las posibilidades del arte digitala pesar de las dificultades ofecidas por el contexto, sino conectar con especialistas en la materia que llevan décadas trabajando; además de con otros agentes como programadores o ingenieros, que pudieron conocer nuevas aplicaciones para sus desarrollos y una expansión para el software libre. El reto está en mantener el cambio institucional y seguir trabajando en la hibridación y cohesión de la comunidad local.

1.3. Lucas Pretti (São Paulo, Brasil) – Preto Café – pretocafe.com.br

Este relato contará a história de criação do Preto Café, o primeiro café pague-quanto-quiser da cidade de São Paulo, sob a perspectiva da cultura livre. Aberta em 2015 como um espaço de promoção da liberdade e da cultura de rede, a iniciativa vem gerando bastante impacto na sociedade paulistana como um todo ao propor a retirada do único elemento que aprisiona na sociedade capitalista: o preço. Procurarei compartilhar a experiência desde a busca por disrupção no modelo jurídico-administrativo e a intenção colaborativa nem sempre alcançada em todos os passos (o que leva à defesa do modelo de gestão “semi-aberto”) até o status de obra artística relacional, que o empreendimento de fato alcança, se analisado sob a perspectiva do teórico Nicolas Bourriaud. De fato este relato, se aprovado, cumprirá uma função pública importante no sentido de promover a cultura livre.

1.4. Caballero Gómez (Asunción, Paraguay) – Música Okapé – www.musicaokape.com

MÚSICA OKÁPE es un proyecto del Centro Cultural de España Juan de Salazar que tiene como objetivo favorecer la proyección nacional e internacional de la música independiente de Paraguay. Es una plataforma que pretende ser una red entre músicos paraguayos/as y la región donde participaron más de 70 proyectos, solistas, bandas y dj de diferentes tendencias y estilos. Fomentando la escena independiente con ciclos de conciertos, talleres, festivales, encuentros colaborativos, cibermedios, videos y programas de radio.

1.5. Bruno Marcelino (Foz do Iguaçú, Brasil) – As Organizações da Sociedade Civil na Promoção das Políticas Culturais: Jaguarão/RS e Arroio Grande/RS

Este trabalho é uma apresentação dos resultados obtidos junto ao projeto de pesquisa Cartografia da Cultura Fronteiriça, financiado via Fundo de Apoio à Cultura do Estado do Rio Grande do Sul – Brasil. O projeto teve como objetivo mapear e identificar as entidades e grupos culturais sediados nos municípios de Jaguarão e Arroio Grande/RS cidades que integram a fronteira sul do estado, a metodologia se deu em três partes, na primeira ocorreu o levantamento e coleta de dados, a segunda foi a realização da pesquisa de campo e visita aos grupos e associações mapeadas inicialmente e a terceira e última consistiu no tratamento dos dados e das informações coletadas. Identificamos um total de dezessete grupos e entidades culturais, no qual por meio dos resultados dos questionários e das visitas à campo, pode-se compreender de forma aprofundada como se dá a promoção das políticas culturais entre os grupos identificados.

1.6. Carine Miola (Foz do Iguaçú, Brasil) – Multigraphias – multigraphias.wordpress.com

A proposta pretende demonstrar o funcionamento de Multigraphias – projeto de residências artísticas virtuais baseado em plataforma digital. Multigraphias reuniu mais de 100 colaboradores, que produziram materiais artísticos em diferentes formatos digitais de forma colaborativa, colocando mais de 10 países em diálogo.

1.7. Janaína Capeletti (Porto Alegre, Brasil) – Arte Digital e Ciberativismo: Intersecções com a Ética Hacker no Cenário Brasileiro

O artigo é o resultado de uma pesquisa que tem como objeto analisar a arte digital ativista no Brasil e as aproximações com os princípios da ética hacker. O ponto de partida para a pesquisa exploratória se situa em fazer um resgate histórico através de revisão bibliográfica da arte digital, dando destaque para a produção brasileira. A partir daí é abordada a net art, suas características e a conexão estabelecida com o ativismoprodução brasileira. O segundo momento do trabalho trata das definições de ciberativismo, hacktivismo e ativismo cultural como tópico introdutório para discutir a cultura e os princípios da ética hacker. Utilizando a técnica de entrevista semi-estruturada, foi possível perceber as peculiaridades da arte digital no Brasil e do ciberativismo, através da visão de cinco entrevistados diretamente envolvidos nas áreas abordadas. Por fim propõe-se uma reflexão sobre as especificidades do cenário da arte e tecnologia no País.

1.8. Lucy Tatiana Galvis Peñuela (Colombia) – Experiencia en Canal 13

Es un relato de la experiencia como artista plástica y productora de televisión con especialización en Gerencia y Gestión Cultural y en Televisión en el uso de nuevas tecnologías para el desarrollo de proyectos en Cultura-Comunicación y Educación.

2. GESTIÓN CULTURAL PARA LA PRODUCCIÓN DE CULTURA LIBRE
Experiencias y reflexiones sobre cómo se produce cultura libre en cualquier disciplina cultural. Proyectos que utilizan y promueven el dominio público, las licencias Creative Commons, licencias de software libre y otras formas de licenciamiento libre. Modalidades de trabajo de código abierto que invitan a copiar, replicar y remezclar. Coordina: @articaonline

2.1. Vanessa Tatiana Azeñas Mallea (La Paz, Bolivia) – Cultura Viva Comunitaria

Este artículo se propone, analizar los aportes y perspectivas generadas a partir del dispositivo Cultura Viva Comunitaria (CVC) en el Estado Plurinacional da Bolivia, desde la perspectiva de los derechos humanos y el reconociendo de los derechos culturales. Inspirado en el Programa Nacional de Cultura Viva (PNVC) del Ministerio de Culturas del Brasil (MinC), CVC es adoptado como dispositivo aglutinador de narrativas por la demanda de políticas culturales más democráticas en América Latina, constituyéndose en una red articuladora que fortalece las diversas demandas nacionales y busca establecer un tejido cultural comunitario cuyo objetivo es impulsar transformaciones de largo plazo en el continente. En este sentido, se hace una aproximación al contexto en el que se desarrolla la historia de CVC y a las circunstancias en las cuales se la adopta como narrativa continental, para poder entender en qué escenario llega al contexto boliviano. Asimismo, se propone entender cuál es la importancia del tejido continental en torno al dispositivo de CVC y cuáles son los factores coadyuvantes que lo convocan. Por último, se acompaña el desarrollo de CVC en el contexto boliviano determinando los aportes de esta narrativa en lo que respecta a las demandas de políticas públicas culturales y las características particulares que, CVC desarrolla en Bolivia.

2.2. Bárbara Couto (Córdoba, Argentina) – Ediciones de la Terraza – edicioneslaterraza.com.ar

Somos un sello de Córdoba (Argentina) nacido en abril de 2012. Publicamos libros ilustrados y libros-objeto. Nos caracterizamos por explorar nuevos modos de publicación que apunten a una democratización en el acceso a la cultura y a una articulación más importante con el público lector. Creemos que estas alternativas forman parte de un nuevo paradigma de producción cultural, más solidario y colectivo, que entiende el acceso a la cultura como un derecho humano, y que podemos fortalecer desde nuestra labor editorial cotidiana de promoción de la lectura. Nuestras características principales son:
_Publicamos libros ilustrados y libros objeto. Creemos que la ilustración es un lenguaje en sí mismo que merece atención y cuidado. Los libro-objeto ofrecen una posibilidad lúdica de disfrute de la lectura y la manipulación del libro. Por este motivo exploramos formatos, tamaños y tipos de encuadernación que aporten al concepto gráfico de los títulos que publicamos.
_ Aprovechamos las posibilidades técnicas de internet y las redes sociales para la difusión de las ediciones digitales, que se distribuyen de manera gratuita, quedando al alcance de todos. Desde nuestra web brindamos un enlace al sitio issuu.com donde están disponibles nuestros títulos completos para lectura gratuita, un par de meses después de la presentación de los ejemplares impresos. Por ahora, y hasta que mejoremos las posibilidades técnicas de nuestra web, los libros en pdf los enviamos a quienes nos lo soliciten por mail.
_ Licenciamos los libros con Licencias Creative Commons. Como editores estamos comprometidos con la idea de reforzar el derecho humano de acceso a la cultura que promueven diversas declaraciones internacionales, entendiendo que la legislación vigente de propiedad intelectual antepone el derecho de autor por sobre el derecho de acceso a la cultura. Desde Ediciones de la Terraza trabajamos a partir de la concepción de que el acervo cultural humano es un bien que debe ser accesible a todos. Esto, sin desconocer la autoría de quien realiza la obra, implica que las producciones que editamos aporten a una cultura más libre. Las nuevas tecnologías vienen poniendo estos debates sobre el tapete y los modelos más tradicionales ya no dan respuesta a la situación actual del acceso al conocimiento y la cultura. De esta manera, trabajamos codo a codo con los autores que encaran proyectos junto a nosotros liberando algunos derechos reservados, de manera de potenciar ese acceso a la cultura. Lo hacemos licenciando nuestros libros con las licencias Creative Commons y fomentando su uso en todas las actividades en las que participamos.
_ Utilizamos el financiamiento colectivo como herramienta de producción para algunas ediciones. Creemos que el financiamiento colectivo junto a las licencias libres son dos elementos de un nuevo paradigma que convierte a la comunidad en un protagonista privilegiado de la producción cultural, puesto que potenciales lectores pueden interactuar con los libros, hacer obras derivadas, compartir y copiar e incluso sumarse en un momento previo a la publicación para colaborar y hacer el libro posible, decidiendo de ese modo qué títulos y propuestas pueden ingresar al mercado editorial.

2.3. Mariano Martino / Ingrid Quiroga, Colectivo Enjambre (General Roca, Argentina) – desbordes  enjambre.cc

“desbordes” busca visibilizar y vincular a las diversas iniciativas culturales que están practicando nuevas formas de crear, distribuir y difundir la producción cultural en la región del Alto Valle de Río Negro y Neuquén, Argentina. Se busca detectar y mapear a iniciativas culturales o ciudadanas que pongan en cuestión el modo de concebir, crear, producir y distribuir conocimiento. El radar está puesto sobre aquéllas prácticas culturales y artísticas con una búsqueda común: aquella del encuentro, de la proximidad, del empoderamiento, donde quede explícita una vinculación y un retorno hacia la comunidad, y con base en la horizontalidad, el intercambio y el coaprendizaje. desbordes intenta ser un aporte a la generación de otros espacios y circuitos de distribución y difusión cultural. Además del mapeo regional, la intención del proyecto es definir de forma colectiva cuáles son esas nuevas prácticas culturales en red. Para eso se han generado varias actividades abiertas en diferentes ciudades del Alto Valle (Neuquén, General Roca, Cipolletti y Villa Regina), encuentros/mapeos de las iniciativas culturales que tienen el virus de la colaboración en su ADN. Estos encuentros y el mapeo de desbordes se complementan con una serie de entrevistas a diferentes actores sociales/culturales de la zona para conocer así más sobre las metodologías o dinámicas de organización y de vinculación que ponen en práctica. Además del mapeo y las entrevistas, se busca que desbordes actúe como una correa de transmisión entre las diferentes iniciativas. Específicamente, se busca intercambiar cuáles son las prácticas de gestión cultural con las que experimentan estas iniciativas: conocimientos y prácticas específicas y contextualizadas.

2.4. Rodrigo Savazoni (Santos, Brasil) – Instituto Procomum – LABxS (Lab Santista) – labirinto.procomum.com.br/tag/lab-santista

Nos últimos anos temos visto emergir um grande número de iniciativas culturais e cidadãs que se assumem como laboratórios. Na Europa e nos Estados Unidos, temos experiências estruturantes e referenciais, como é o caso do Ars Electronica na Áustria, o ZKM na Alemanha, o MediaLab-Prado, em Madri, ou o MIT, em Boston. Mas também temos outras abordagens, independentes e autônomas. No Brasil e na América Latina não temos modelos referencias de grandes proporções que possam ser citados nesta compilação, mas, por outro lado, temos inúmeros casos de projetos e programas, públicos e privados, que dialogam com essa perspectiva, como foi o caso dos Pontos de Cultura no Brasil e depois em vários países latino-americanos. Desde 2015, venho investigando mais aprofundadamente esses formatos, inicialmente por meio do projeto Tecnologias e Alternativas e mais recentemente com a realização do LAB.IRINTO – Encontro Internacional de Cultura Livre e Inovação Cidadã, previsto para ocorrer em Santos, São Paulo, Brasil, entre os dias 22-24 de junho de 2016. Nessa atividade, estamos reunindo 25 experiências brasileiras e outras 10 internacionais, além de agentes da região da Baixada Santista, para refletir sobre a relação entre os laboratórios, a cultura livre e a inovação cidadã. Nos interessa pensar a questão dos city-fab-maker-hack-media-labs em alguns eixos estruturantes, como sustentabilidade, programação, formação de rede e engajamento local e territorial. Minha proposta é apresentar durante este primeiro congresso um paper produzido a partir das colaborações reunidas durante o LAB.IRINTO, apontando perspectivas e possibilidades para a criação de laboratórios em nossas cidades como parte da expansão de uma rede de produção contemporânea que seja de fato promotora da cultura livre, disputando assim as soluções para a vida em comum que hoje passam pelos projetos e imposições da aliança entre governos e corporações. Sabemos que nos últimos anos, grandes empresas têm trabalhando com o desenvolvimento de tecnologias que pretendem levar internet aos artefatos e equipamentos que organizam nossas vidas, desde geladeiras até semáforos. Isso deu origem a uma perspectiva que tem ganhando muito espaço no debate política, sobre as cidades inteligentes e/ou conectadas. No nosso entender, laboratórios de cultura livre e inovação cidadã podem ser um instrumento para que a cidadania e os criadores independentes possam apresentar perspectivas de baixo para cima para seus territórios, tornando-se assim uma alternativa ao modelo centralizado e top-down que começa a se tornar hegemônico nas nossas cidades. Importante lembrar que a América Latina é a região planetária com maior proporção de habitantes vivendo em zonas urbanas, e que também possui inúmeras megacidades que se constituem como um enorme desafio para o desenvolvimento de políticas públicas e soluções cidadãs.

2.5. Sergio Zapata (La Paz, Bolivia) – Escuela Popular de Cine libre

Como una experiencia autogestionada como escuelas libres para la distribución de lo sensible se constituyen un mecanismos de resistencia eficaz frente al mercado, la homogenización de los bienes culturales y la política de gestión cultural de entidades publicas como del tercer sector, por tanto consideramos que debe articularse desde los espacios de educación popular y comunicación popular para la constitución de sujetos sensibles y políticos para enfrentarnos a la producción, reproducción, circulación y distribución de bienes sensibles de manera libre, autónoma y autogestionada. La ponencia como producto de una reflexió colectiva busca abordar los limites y las posibilidades de las escuelas populares libres y a su vez pretende abrir el debate con sectores estrictamente artístico culturales. todo esto desde la experiencia de la Escuela Popular de Cine libre, sus aliados y el Festival de Cine Radical.

2.6. Andreu Meixide, Panorama180 (Barcelona) – Festival de Cine y Cultura libre BccN – www.bccn.cc

Como Asociación Panorama180 proponemos hacer una ponencia sobre el desarrollo en los últimos 7 años del festival de Cine y Cultura libre BccN y su papel en la dinamización de la red Internacional de Festivales CCWorld en la que más de 30 certámenes en todo el mundo (especialmente países hispanohablantes) que comparten y difunden material audiovisual realizado bajo parámetros de cultura libre y licencias abiertas. En dicha ponencia nos gustaría exponer tanto las certezas y fortalezas como las contradicciones y dificultades de trabajar en una Red Global de incidencia Local. Creemos que compartir nuestro aprendizaje de gestión cultural en parámetros de cultura libre y audiovisual puede resultar interesante para el congreso a la par que una buena oportunidad para establecer nuevos lazos de colaboración como ya sucede con el festival de cine CC de Uruguay (http://festival.creativecommons.uy/).

2.7.Thaís Rigolon, Instituto TIM  (São Paulo, Brasil) – Mapas Culturais

Mapas Culturais é um software livre para mapeamento colaborativo e gestão da cultura que contribui tanto para qualificar a gestão pública, ao promover mais eficiência, quanto para a sua atualização frente às novas Tecnologias da Informação e Comunicação. O sistema é alimentado de duas formas: pelo poder público, que insere na plataforma informações sobre os equipamentos culturais, programações oficiais, editais, etc.; e pela população em geral, que se cadastra como agente de cultura (individual ou coletivo) e pode divulgar suas próprias programações. A ferramenta incorpora nos processos públicos as lógicas do software livre, da colaboração, da descentralização, do uso de dados abertos e da transparência. Além disso, fortalece o Plano Nacional de Cultura. Mapas Culturais foi criado em parceria com a Secretaria de Cultura do Município de São Paulo, o primeiro a adotar a plataforma (SP Cultura). Atualmente, o sistema também está em operação nos estados do Ceará (Mapa Cultural do Ceará), Rio Grande do Sul (Cultura RS), Tocantins (Mapa Cultural do Tocantins), Mato Grosso (Cultura MT) e São Paulo (SP Estado da Cultura), e nos municípios de Sobral-CE (Sobral Cultura), Blumenau-SC (Blumenau Mais Cultura), São José dos Campos-SP (Lugares da Cultura), João Pessoa (JP Cultura), Santo André (CulturAZ) e Belo Horizonte (Mapa Cultural BH). O sistema possibilita um melhor planejamento das ações dos gestores públicos culturais, o monitoramento e avaliação mais precisos das políticas públicas e o fortalecimento de processos de articulação local e territorialização das ações. A reunião de dados sobre produção cultural possibilita gerar indicadores capazes de balizar políticas públicas eficientes e de qualidade. Como a coleta de dados é colaborativa, as informações passam por um processo de constante atualização. Mapas Culturais fortalece o acesso à informação pública, como ferramenta que agrega dados de agentes, espaços, eventos e projetos culturais; divulga ao cidadão informações sobre a agenda cultural da cidade (tanto em relação a eventos oficiais quanto a não oficiais); e amplia a possibilidade de troca de informações e comunicação com os agentes culturais – afinal, abre-se uma via entre eles e os gestores. É uma forma de criar um canal constante de construção coletiva de políticas, consultando e interagindo o tempo todo com os agentes, e facilitar a comunicação entre agentes culturais e público. Os estados e municípios que adotam Mapas Culturais formam uma rede de gestores públicos na qual a tecnologia e a política dialogam. Eles são capacitados para o uso da tecnologia e têm à disposição manuais de procedimento da plataforma. As prefeituras e estados da rede trocam experiências, conversam sobre melhorias e novos usos e se apoiam mutuamente. Dentro de cada governo, as secretarias envolvidas dialogam, em um processo intersetorial e transversal.

3. LA GESTIÓN CULTURAL EN LAS BASES
Experiencias recorridas de colectivos y emprendedores culturales que trabajan desde espacios o proyectos íntimamente vinculados con el territorio y las comunidades. El foco temático de esta mesa nos lleva a considerar, además, la articulación de éstos con otros actores como colectivos, organizaciones, programas del Estado, empresas, etc. Dichas experiencias pueden provenir tanto del sector privado como público. Coordina: @gestioncuy

3.1. Andrés Alba (Montevideo, Uruguay) – Urban –  facebook.com/UrbanoEspacioCultural

Un Centro Cultural que integra el Área Ciudadanía y Territorio de la Dirección Nacional de Cultura de Uruguay. Tiene como objetivo fundamental asegurar el ejercicio de los derechos culturales de la ciudadanía, haciendo un énfasis especial en el trabajo con personas en situación de calle y refugio. La ponencia se inscribe en la mesa buscando dar cuenta del proceso transdisciplinario de gestión cultural a nivel territorial, interinstitucional y diseñado desde los participantes, mayoritariamente personas en situación de calle y refugio, como espacio legítimo de visibilización de su realidad cotidiana.

3.2. Ateri Miawatl (Acatlán, Guerrero, México) – TETL laboratorio de artes – laboratoriodeartes-tetl.com

Busca la descentralización (ideológica y territorial) de la práctica artística y la práctica creativa como medio para reforzar el náhuatl, el Ñam Cuee Ñom Daa y el Na Savi; tres de las 69 lenguas que se hablan en México. Transitan entre la plástica, la gráfica, el libro-arte y el teatro. Su ponencia pretende debatir los vínculos-fronteras político-profesionales de quienes realizamos gestión cultural y de cómo entendemos la gestión cultural, partiendo de exponer y compartir los modos de creación-gestión de TETL laboratorio de arte.

3.3. Manuel Rivoir (Montevideo, Uruguay) – Idem intervenciones – facebook.com/idem.intervenciones

Es una organización conformada por un equipo interdisciplinario que trabaja desde el 2009 realizando proyectos culturales y educativos, mayoritariamente fuera de la capital uruguaya. Quieren presentar su metodología de trabajo: de la cogestión a la autogestión, que supone el acompañamiento de un grupo u organización en pequeñas comunidades del interior del país, brindando herramientas de gestión para la mejor administración de sus recursos –humanos, materiales, intelectuales, económicos- y para que puedan llevar a la acción sus ideas y proyectos. Apuntan a la sostenibilidad y la autogestión del grupo a mediano y largo plazo. Además acompañan procesos, potenciando habilidades individuales y grupales para lograr mayor nivel de autonomía y fortalecimiento grupal.

3.4. Soledad Guerrero, Camila Vezzaro, Lucía Caldes (Montevideo, Uruguay) – Centros MEC – centrosmec.org.uy

Es una red de casas del Ministerio de Educación y Cultura de Uruguay -en sociedad con gobiernos locales y ANTEL-, que funciona como puntos de encuentro entre los recursos del Ministerio, las intendencias departamentales, los municipios, y las organizaciones sociales y de vecinos de cada localidad. El objetivo de esta red es contribuir a la integración social y a la formación de ciudadanía a partir de la generación de espacios de animación, intercambio y elaboración de propuestas sociales, culturales y educativas. Centros MEC desarrolla una importante labor de articulación a nivel local con diversos actores, de los sectores público y privado así como de la sociedad civil, lo cual se reconoce como una característica central de su modelo de gestión. Resulta interesante indagar y reflexionar no sólo acerca del modo de trabajo de la organización sino también sobre experiencias desarrolladas en distintos puntos del país que ilustran las características de los procesos que se impulsan así como sus implicancias en términos de gestión cultural desde el territorio.

3.5. Marco Antonio Martín García (Cochabamba, Bolivia) – TELARTES – telartes.org.bo

Es una plataforma de articulación del sector cultural boliviano. Nacida en 2012 bajo el propósito de fortalecer el disperso escenario a partir del desarrollo de capacidades de articulación, colaboración, intercambio y, fundamentalmente, de incidencia en política pública, TELARTES es una iniciativa ciudadana cultural que, en 4 años, se ha convertido en el referente organizado de la sociedad civil más importante de Bolivia. Actualmente conecta a más de 300 espacios, colectivos, instituciones, gestores culturales, artistas y activistas de todo el país. Tiene como cobertura los 9 departamentos de Bolivia, con un mayor desarrollo hasta el momento en las principales ciudades del país, sin embargo, paulatinamente, su capacidad de convocatoria alcanza también a provincias y sectores rurales.

3.6. Rogger Romero (Chimbote, Perú) – ITAC

Es un proyecto que nace dentro del eje de identidad del programa RIEE, el cual busca revalorizar la identidad, promover el turismo e incentivar el arte y la cultura en la ciudad de Chimbote, Perú. Durante el tiempo que se viene desarrollando el proyecto se han realizado diversas actividades con las que buscan integrar a la comunidad con los agentes culturales de nuestra ciudad. Desde la realización del proyecto ITAC han logrado que más de 300 beneficiarios sigan participando de manera permanente en sus actividades y han generado una red de contactos de artistas y organizciones que se suman a su labor que continúa incrementándose.

3.7. Martín Espósito (Montevideo, Uruguay) – Una escuela sustentable

La primera escuela pública autosustentable de Latinoamérica. Más de 200 personas de 30 países diferentes construyeron en 45 días un edificio que tiene el potencial de convertirse en una plataforma donde presentar nuevos desarrollos entorno a la educación pública. Una forma de acercar a su comunidad herramientas que fomenten la autogestión. Una muestra del potencial que existe a través de la colaboración entre las diferentes partes de esta sociedad. Una Escuela Sustentable es un proyecto de casi 5 años de gestión voluntaria y que a través de esta experiencia histórica en Uruguay, comienza una nueva etapa en su desarrollo.

3.8. Belén Acosta (Buenos Aires, Argentina) – Festival Efimero de Teatro Independiente – elfeti.org/fest

Festival de teatro que promueve la creación de relaciones entre diversas compañías teatrales del ámbito independiente, tanto nacionales como internacionales, posibilitando el encuentro entre quienes trabajan de forma autogestiva y autónoma entre sí y sobre todo con el público. La razón de ser del proyecto es generar un intercambio donde los participantes construyan una opinión crítica sobre la propuesta que se les presenta, o que simplemente opinen y puedan reflexionar sobre la misma. Su ponencia buscará intercambiar experiencias con otros colectivos acerca de la organización horizontal, la autogestion y estrategias de convocatoria barrial.

3.9. Ana Melazzi (Montevideo, Uruguay) – Fiesta de las Migraciones

Una fiesta de intercambio cultural y gastronómico en la que bailan y cantan más de 30 colectividades de distintos orígenes y se puede degustar comida de diferentes regiones, apreciar distintas artesanías y objetos típicos. Su ponencia presenta el crecimiento de la Fiesta, los cuidados que siempre se han tenido y la apropiación por parte del público y las colectividades que la realizan, haciendo de cada edición algo único. Contarán cómo se apoyan unas colectividades a otras y cómo han generado experiencias más allá de la Fiesta en sí; la articulación de los distintos actores y el énfasis que damos en la equidad cultural para que esta buena convivencia se logre. El enfoque está en cuidar y ayudar tanto a las colectividades como al público que los visita, para que la experiencia de ambas partes sea plena.

3.10. Israel Paredes (Mérida, México) – Intervención social del colectivo Habitación 42.1

Trabajan proyectos de intervención social desde una postura contracultural, que van desde la creación de laboratorios comunitarios, hasta una toma de conciencia ante una problemáticas sociales específicas, en ellos se proponen intercambios de conocimiento con la comunidad, en donde a partir del aprendizaje colectivo y mutuo se creen alternativas económicas y culturales sustentables. Los fenómenos emergentes, cuya naturaleza creativa va mas allá de la inventiva que supone el orden social, pueden generar condiciones nuevas, que confronten la cultura dominante, como pasos evolutivos en el desarrollo social y sociocultural. En esta ocasión buscan reflexionar sobre el arte social en búsqueda de la individualización de la cultura y los mecanismos de gestión que, para llevar a cabo esto, se requieren.

4. COMUNICACIÓN EN RED Y HERRAMIENTAS TIC PARA LA GESTIÓN CULTURAL
La gestión cultural contemporánea se encuentra de lleno en el paradigma de la hiperconexión, el diálogo y el potenciamiento de la retroalimentación a través de las herramientas TIC para la comunicación en red. El trabajo colaborativo, si bien es una posibilidad, debe ser potenciado más allá de discursos coyunturales. Conocer y entender la tecnopolítca de la red nos ayudará sin duda a plantear una mirada contextual, crítica e histórica a los modos en que queremos trabajar en red. No es sólo conectarnos, sino crear espacios colaborativos válidos a nivel cultural, social, económico y político para que el impulso de posibilidades abiertas, una de las finalidades de la gestión cultural, sea creado desde la inteligencia colectiva. La Cultura Libre, el Software Libre, resilencia, ética hacker, inteligencia colectiva, redes libres comunitarias, distribución y modos de hacer, serán palabras que escucharemos mucho en esta mesa temática. Coordina: @danicotillas

4.1. Pilar DM (Barcelona) – El Dado del Arte – eldadodelarte.com

Una experiencia de 10 años en el Social Media desde y para el arte. La ponente es una bloguera con amplia experiencia y mirada hacia el patrimonio cultural.

4.2. Natalia Ferreira (Asunción, Paraguay) – Centro de Comunicación Popular “La Cigarra – cigarrapy.wordpress.com

La idea es poder debatir sobre las tensiones de la comunicación popular y sus procesos de generación y difusión, entendiendo todo este movimiento como hacedor de sentidos. Proponemos revisar la participación en colectivos que sostienen plataformas y canales organizativos virtuales, y formas y tradiciones de participación presenciales, desde la experiencia de Cigarra Centro de Comunicación Popular de Paraguay, espacio que buscar hacer comunicación contra hegemónica, y posicionar las voces de las organizaciones sociales progresistas de Asunción y otras ciudades de Paraguay, formando “periodistas” comunitarios que aprenden y comunican sus propias realidades.

4.3. Martí Perramon Llavina (Vic, Cataluña) – Bravo Manager – bravomanager.com

Perspectiva del gestor cultural de Bravo Manager, solución integral para gestionar todos los procesos de gestión de un teatro, extensible a cualquier tipo de organización cultural. Todo está integrado en una solución, que sirve para todos los teatros de hoy, grandes y pequeño. Hemos tomado como fuente el Marketing Relacional – Cultural – y lo hemos extendido en una plataforma online, totalmente amigable y que ofrece un rendimiento espectacular en la gestión de comunicación, venta de entradas y gestión de públicos, posibilitando una mayor venta de entradas online y un ahorro muy considerable en gastos y comisiones, al no depender de terceros.

4.4. Colectivo Coworking Cultural Virtual de les Illes Balears (Islas Baleares, España) – ArtXipelag – www.artxipelag.com

Art-Xipèlag viene a cubrir la necesidad de un territorio común a la cultura en las cuatro islas de la Comunidad Autónoma de Baleares. Nace como un proyecto independiente con vocación de convertirse en una de las herramientas digitales de referencia de la cultura en las Islas. Albergando información y contenidos sobre la cultura que se hace, se expone o transita por nuestro Archipiélago así como necesaria e importante para el desarrollo del sector. En una primera fase Art-Xipèlag está compuesta por un Observatorio de la Cultura , un espacio de creación de contenidos y prestación de servicios de difusión y apoyo a las manifestaciones , agentes y actores culturales isleños. El proyecto de Art-Xipèlag está formado por un equipo de profesionales de la gestión cultural de las Islas , provenientes de diferentes campos de la cultura y especializados en diversas disciplinas. Un equipo pluridisciplinar , trabajando bajo la filosofía y metodología del coworking , formado por personas residentes en diferentes islas que construyen la plataforma desde la óptica de los diferentes hechos insulares.

4.5. Juan Jesús Gómez de Lara Sosa, La Matraka Gestión Cultural SLL (Sevilla, España) – Myplayz – www.myplayz.com

Myplayz es una comunidad que pone en contacto Anfitriones, personas que quieren abrir su casa, con artistas que quieren actuar en espacios únicos y singulares. Una comunidad que disfruta de experiencias culturales exclusivas en espacios privados y secretos. Queremos animar a los ciudadanos a participar de la comunidad Myplayz y que sean ellos los protagonistas culturales, democratizar el hecho cultural. Que sea la comunidad la que decide cómo, cuándo y qué cultura quiere consumir y disfrutar. Para ello hemos creado una herramienta que facilita poner en contacto anfitriones con artistas, la creación del evento, su publicación, control de invitados, gestión económica, valoraciones, para que crear un evento sea sencillo y divertido. El movimiento del consumo colaborativo está en auge y ha llegado a transportes, alojamientos y turismo. Compartir, colaborar, intercambiar donde el ciudadano es el protagonista. Creemos que la cultura necesita cubrir esa necesidad de empoderamiento. Acercar y animar a los anfitriones a convertir su salón en un escenario, invitar a los artistas a actuar en espacios únicos y gestionarse sus propias actuaciones; y a unos invitados a disfrutar de una experiencia cultural diferente. Hay muchos ciudadanos que se animan a abrir sus casas, pero hay detrás una productora que organiza el evento. Queremos adentrarnos en el consumo colaborativo y otorgarle el poder al ciudadano, que sea quien gestione, cree y valore sus propias experiencias culturales. Un mercado potencial en auge y escalable, para que cualquier persona en el mundo pueda crear un evento cultural cómo, dónde y cuando sea.

4.6. Lucas Pretti, Instituto de Artes UNESP (Sao Paulo, Brasil)

Este ponencia introduce el concepto de multitud, creado por Michael Hardt y Antonio Negri, en la discusión sobre la producción de obras de arte público por artistas y colectivos artísticos en la ciudad de Sao Paulo (Brasil) entre los años 2012 y 2014. Las obras seleccionadas como objeto de estudo tienen en común el hecho de que fueron posibles gracias a las plataformas de crowdfunding (financiación colectiva), que las vincula a la hipótesis de que el proceso creativo debría responder a la demanda “comunal” de la multitud en red. Partimos del intento de correlacionar las nociones de multitud e “inteligencia de enjambre” de Hardt/Negri a la estética relacional de Nicolas Bourriaud para entonces investigar algunas características de las iniciativas Pimp My Carroça (Mundano) y BaixoCentro (del autor).

4.7. Gabriela Giurlani (Beccar, Argentina) – Taller arte y letras de artistas y escritores con discapacidad – tallerarteyletras.blogspot.com

Taller arte y letras de artistas y escritores con discapacidad es una iniciativa de gestión cultural independiente, internacional, autogestiva, empoderada, innovadora, sin fines de lucro, donde el uso de las redes e internet por parte de sus integrantes juega un papel fundamental, generador, vinculante e inclusivo. Creado y dirigido por la artista, escritora, curadora y gestora cultural con discapacidad Gabriela Giurlani, en base a sus propias experiencias y las de sus pares, quien decidió cambiar el rol pasivo que habitualmente la sociedad asigna a las personas con discapacidad, por un rol definitivamente activo. Con la problemática de la diversidad y vulnerabilidad social de las personas con discapacidad de fondo, revaloriza y extiende la visión de la vida de este colectivo social y sus capacidades en estos campos de la cultura, y en otros también por extensión, para concretar un cambio cultural y derribar prejuicios sociales a través de la creatividad. La discapacidad, como internet, no tiene fronteras, y este grupo tampoco. Está integrado por personas de varias latitudes de Argentina y del extranjero, vinculadas en forma real y virtual en tarea conjunta, con la tecnología a favor y manejada por las mismas personas con discapacidad. A partir de la masificación de Internet, la comunicación en red, las TIC y las nuevas tecnologías, el grupo, superando sus diversas discapacidades, se ha apropiado de ellas. Como herramientas útiles para expresarse e insertarse en el mundo, con mayor libertad, en procesos transformadores a nivel individual, colectivo y social. En un desarrollo cultural pleno, descubriendo y aprovechando las potencialidades abiertas por las nuevas tecnologías, que abren caminos igualadores también para la discapacidad. Generando con estas experiencias un cambio cultural en ellos mismos y en sus públicos. Tarea que realiza como una comunidad en red desde el ámbito de Internet y las redes distribuidas, en tiempos y espacios flexibles. Que como cultura híbrida entre lo físico y lo digital, genera actividades en un nuevo proceso de democratización de la cultura, el arte y la creatividad, en circulación, saliendo de los “ghetos” en los que habitualmente la sociedad coloca a las personas con discapacidad. De este modo, esta experiencia aborda conceptualmente su proyecto en íntima vinculación con su comunidad como una particular gestión cultural contemporánea en las bases, articulando sus acciones con otros actores públicos y/o privados en diferentes iniciativas. Opera bajo los lineamientos disciplinares de la gestión cultural contemporánea, los paradigmas de la sociedad de la información y del conocimiento, el trabajo colaborativo y la inteligencia colectiva, las perspectivas teóricas y conceptuales del Modelo Social de la Discapacidad, y de la Convención Internacional sobre los Derechos de las Personas con Discapacidad de la ONU. Con un trabajo sociocultural, mediante estrategias educativas, de concientización y difusión, realiza intervenciones de impacto desde la perspectiva y en los ámbitos de las artes, las letras, la educación y la gestión cultural. Esta propuesta nunca hubiese sido posible, si no existiese internet y la tecnología actual, que permite de este modo una superación social y cultural de la discapacidad.

5. ESPACIOS CULTURALES Y COMUNIDAD EN RED
La cesión de espacios por parte instituciones públicas y privadas, hace que se esté viviendo un momento de cambio en el que la cultura parece cobrar un protagonismo singular en las ciudades. Por ejemplo, el Ayuntamiento de Madrid ha lanzado un marco común de cesión de espacios que estarán disponibles para el tejido asociativo de la ciudad. Estas experiencias, incentivan el intercambio, la colaboración y la innovación ciudadana y cultural. En esas circunstancias la capa digital juega un papel imprescindible en la construcción de una red de intercambio que conecte las diferentes propuestas locales creando una red global. Desde un punto de vista teórico, pero sobre todo práctico, el objetivo de las ponencias será indagar en las posibles vías de implementación de la construcción de esta red. Coordina: @ComandanteTom_

5.1. Laura Gómez Cáceres (Asunción, Paraguay) – Terraza Rapé y La Comuna

La idea de la ponencia es hablar sobre dos experiencias de gestión cultural que implicaron resignificar el espacio y generar otra construcción del sentido colectivo a partir de provocaciones performáticas, musicales, conversatorios entre otras cosas. El objetivo principal además de explicar el “cómo llevamos a cabo” los distintos proyectos es más bien exponer lo que descubrimos de poderoso a partir del trabajo con proyectos relacionados al espacio, territorio y lugares. Una de las iniciativas es Terraza Rapé, que se trata de una adaptación local del proyecto Redetejas, con licencia de Creative Commons. Redetejas, es la primera red ciudadana de micro espacios culturales en azoteas privadas. Redetejas es un proyecto sin ánimo de lucro que pretende abrir las azoteas como espacios de desarrollo cultural. Todo el proyecto se estructura a través de ‘Encuentros de azoteas’, que son rutas de micro actividades culturales que se desarrollan en azoteas particulares de diferentes ciudades. El proyecto está licenciado en Creative Commons, por lo que puedes copiar, modificar y mejorar Redetejas siempre respetando los derechos de autor del proyecto. Otra de las iniciativas se trata de las Casas Causa, una red de casas que promueve la convivencia colectiva y cultural. Esta red de casas abre sus puertas al barrio, como espacios de construcción de propuestas culturales, políticas y comunitarias. En La Comuna se realizan diversas actividades sobre temas como la opresión de la mujer, la diversidad sexual, la ciudad y conflictos internacionales. Este proyecto pretende resolver un problema habitacional y a la vez construir un modelo alternativo de convivencia. El hilo principal que une ambos proyectos es el de utilizar el espacio no solo como “contenedor” de la actividad sino más bien como estructurador de la misma. Trabajar con la intención de que ese espacio, se transforme en lugar, reconstruya modelos de economía, de colaboración y de disfrute cultural, priorice el proceso de la experiencia de construcción colectiva más que el de producto final.

5.2. Ângela Sowa, Universidade Federal de Santa Maria (Santa Maria, Brasil)

As políticas públicas voltadas ao estimulo de Projetos Culturais tem potencial para valorizar e ou regatar culturas regionais, bem como proporcionar a visibilidade e o diálogo intercultural. Segundo a Resolução n° 7 PDDE/FNDE de 12/04/2012 estipula que as escolas públicas, estaduais e do Distrito Federal possam desenvolver atividades culturais por intermédio do Mais Cultura nas Escolas para uma educação de Ensino Integral aproximando práticas culturais do fazer pedagógico da escola, sendo um Programa complementar ao Ensino Médio Inovador e o Mais Educação. A partir da resolução, o Ministério da Educação e o Ministério da Cultura abriram um chamado para planos de atividades a partir da Plataforma SIMEC, para que escolas de todo país pudessem participar do Programa Mais Cultura nas Escolas. Como critérios de seleção, o MEC/MinC priorizou algumas características pré-estabelecidas como a presença da bolsa família nas comunidades atendidas pela escola ; a preocupação em distribuir de forma proporcional as aprovações de Planos de Atividade, sendo que as regiões com maior número de inscrições receberam mais projetos selecionados; a distribuição com equidade nas temáticas em uma perspectiva que alinhasse mais diversidade nos territórios, alinhamento do projeto político pedagógico com a experiência da Iniciativa Cultural parceira e a realidade do território em questão, entendendo as particularidades e as potencialidades culturais. Inserido neste âmbito, o trabalho tem como objetivo central analisar e mapear o processo de implantação e desenvolvimento da política pública Mais Cultura nas escolas públicas de Santa Maria – RS. Quanto a metodologia, optamos inicialmente pela pesquisa bibliográfica, com base em estudos relacionados à cultura na perspectiva de Eagleton (2005), Canclini (1997, 2004), Muylaert (1995); educação intercultural com Candau (2003) e Banks (1999), políticas públicas culturais e educacionais com Demo (1994), cidadania cultural com Chauí (2006), educomunicação com Soares (2000, 2006, 2011) e Comunicação e Educação com Sodré (2012). Na sequencia, fizemos análise documental que é composta pelas cartilhas fornecidas pelo MEC/MINC do Programa Mais Cultura, para entender suas especificações e macrocampos, bem como a análise dos projetos das cinco escolas pesquisadas, e documentos institucionais das respectivas Escolas. Além disso, aplicamos entrevistas estruturadas aos gestores dos Projetos desenvolvidos nas Escolas. Constatou-se a relevância dos trabalhos desenvolvidos como forma de democratização da cultura, bem como dispositivo de intervenção na cultura singular da escola provocando-a para uma abertura intercultural e desmistificação das diásporas culturais. Identificou-se também o potencial dos projetos para a promoção e o exercício da cidadania cultural, bem como para formação de identidades culturais hibridas. Além disso, os projetos incentivam o desenvolvimento de individualidades e da produção colaborativa de crianças e adolescentes, contribuindo para que os mesmos compreendam a diversidade cultural presente na sociedade e na comunidade e o quanto à cultura está atrelada ao descobrimento do “eu” e do “outro”.

5.3. Santiago Selma, Anima Cult (Fortaleza, Brasil)

Nossa apresentação trata de uma proposta de conceito para territórios urbanos de produtividade local denominados Pólos Criativos, considerando os princípios da Economia Criativa Brasileira. Tratamos da questão contemporânea que aplica a criatividade como eixo de desenvolvimento, dos territórios urbanos, seus espaços e relacionamentos com a cultura e apresentamos uma proposta metodológica para a identificação destes pólos criativos, através do ponto de convergência existente entre desenvolvimento, localidade e criatividade. Nosso estudo tem como base a extensão continental do Brasil e as distâncias que envolvem os diversos territórios com relação às questões sociais, econômicas, regionais, organizativas e culturais, que nos revelam políticas públicas com um enorme desafio de executar, mesmo segundo critérios predominantemente setoriais, ações que promovam o desenvolvimento nacional em busca de uma dimensão global. Tamanho desafio é responsabilidade dos governos em suas três instâncias – nacional, estadual e municipal. Consideramos ainda estas dimensões compostas pelos campos socio-econômico, físico-territorial, político-organizativo e simbólico-cultural. E ao delimitarmos estes espaços, observamos que as políticas devem considerar especialmente as cidades, que são na realidade os locais onde as relações cotidianas tornam-se laboratórios de tramas em um terreno fértil para a criatividade. Nas cidades, podemos identificar Pólos Criativos, que consideramos serem espaços de convivência urbana que possuem uma dinamização funcional de atividades de dimensão econômica e simbólica que unem em sua geografia diversos grupos e pessoas com uma identidade cultural própria. Neste sentido apresentamos a proposta de caracterizarmos os Pólos Criativos com os seguintes campos e pontos que devem ser considerados para sua identificação:
_ CAMPO DA ECONOMIA E DA GESTÃO
Desenvolvimento da atividade econômica local, com movimentação econômica e condições para a dinamização de bens simbólicos ou materiais que mantenham a sustentabilidade econômica das iniciativas.
Convergências de atuação, através de uma organização institucionalizada ou não, de articulações e conexões intra e extra pólos; da formação de cadeias e redes de produção, circulação, fruição e troca de experiências e a cooperação entre as iniciativas. Concentração setorial de iniciativas, através da vocação setorial para as atividades produtivas se relacionarem colaborativamente. Adensamento de iniciativas, com o empreendedorismo cada vez mais consolidado seja pelo profissional autônomo; pequenos negócios; oferta de postos de trabalho ou número de produtos/serviços gerados e comercializados.
_ CAMPO DA CULTURA E DA IDENTIDADE
Construção de imagem coletiva, através da construção de uma imagem própria e que identifica o lócus e o insere no desenho cartográfico da cidade. Valor agregado intangível, com seus produtos e serviços detentores de uma identidade cultural própria, que torna-se um valor agregado intangível de grande reconhecimento social.
_ CAMPO DAS RELAÇÕES SOCIAIS
Formas de governança próprias, com a implantação de instâncias e instrumentos de participação cidadã que sejam capazes de agir não somente entre si, mas também com os poderes públicos e outras instâncias de poder ou econômicas. Desenvolvimento de tecnologias, sejam no campo da informação e da comunicação, como no campo das relações comerciais ou ainda nas esferas da administração. Sustentabilidade ambiental e social – Sustentabilidade é um conceito sistêmico, relacionado com a continuidade dos aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais da humanidade.

5.4. Salvador García, Vía Láctea Ediciones (Montevideo, Uruguay) – Autogestión: organicidad y supervivencia

Esta intervención pretende reflexionar sobre la autogestión como una forma orgánica de producir cultura en red. La cultura en red, con el auge de las TICs en la era digital emerge y se hace visiible como una nueva forma efectiva y legítima de trabajar en colectivo. Al analizar estos temas actualmente se abordan desde un perspectiva anti-hegemónica y hasta política. La idea es poner el eje en las diferentes formas de gestionarse que hemos encontrado en las experiencias locales de espacios culturales autogestionados y colectivos organizados cooperativa y horizontalmente, no como consecuencia de un posicionamiento ideológico frente a las formas de consumo y producción cultural, sino como alianzas de supervivencia en donde naturalmente las personas se juntan a intercambiar proyectos y aprender entre sí.

5.5. Addy Elizabeth Cauich Pasos, Fundación Cultural Macay, A.C. (Mérica, México) – Apuntes para un modelo de comunicación y gestión cultural para la (In)formación, discusión e intercambio

Una gran parte de la difusión del arte y la cultura en México (y en el mundo) se basa en modelos deficitarios y asistencialistas. Dichas propuestas giran en torno a una figura de autoridad (un curador, un crítico de arte, un investigador o algo tan intangible como una institución cultural) que “educa a una sociedad en desventaja”. En el otro extremo del panorama se encuentran los mal llamados “circos mediáticos” que aunque para muchos responsables de las instituciones culturales resulten una solución a sus problemas de visibilidad solo consiguen acarrear una masificación de visitantes que continúa alimentando sus parámetros de éxito autoimpuestos. ¿Es esta la evolución a la que responden a partir de la sociedad permeaba por las hipermediaciones? Si bien es cierto que las redes sociales se han convertido en un canal multiplicador de sus acciones adaptarse a los cambios sociales y tecnológicos los gestores culturales necesitan también tomar como base el estudio de sus públicos, intereses y puntos de conexión. Encontrar un punto de equilibrio entre el objetivo clásico de la conservación de la memoria y la creatividad necesaria en la renovación y en la promoción del desarrollo cultural del público es sin lugar a dudas un reto por resolver. Todavía más difícil resulta dibujar el escenario alrededor del arte moderno y contemporáneo ya que se encuentran diversos estereotipos que fomentan una distancia con el espectador. En este caso la percepción social de la producción artística reciente resulta poco favorecedora y aunada a ella los esquemas institucionales que consideran que “a la mayoría” le gusta lo familiar, lo pedestre y lo fácil solo promueven un distanciamiento cada vez mayor. ¿Cómo romper el estereotipo de que el arte contemporáneo (de ruptura, abstracto, neofigurativo, experimental) es disfrutable/entendible? Es una de las interrogantes que se pretende responder mediante un análisis de modelos de comunicación y gestión cultural para promover el diálogo entre especialistas de la materia, quienes se inician en el campo o consumidores culturales.

5.6. Ana María Barbero Franco (Salamanca, España) – Casa48

El arte es una herramienta poderosa para empoderar a las poblaciones. Casa 48 es un proyecto artístico que nace de la intervención en las casa abandonadas de un barrio social de la ciudad de Viseu. Este barrio, testimonio de la época de Salazar, iba a ser destruido, pero gracias al surgimiento de un movimiento ciudadano nacido para defender su valor social y patrimonial, ha pasado a ser un foco de atención para la ciudad y para la comunicación social. De Barrio olvidado, ha pasado a ser un proyecto de bandera para el nuevo grupo que dirige la ciudad dado que el proyecto de rehabilitación de sus casas, ganó el primer presupuesto participativo que se llevó a cabo en la ciudad. Ahora, forma parte del circuito Street Art, existe una asociación llamada el Barrio cuyo objetivo es dinamizar acciones diversas que integren a la comunidad en su definición, y el propio ayuntamiento está empeñado en su rehabilitación. Casa48 es un proyecto expositivo que trae a la ciudad la reflexión sobre el barrio y sobre la selección e inventario de algunos objetos encontrados en las casas abandonadas o deshabitadas del barrio, de modo a: por un lado, dar a conocer el proyecto del barrio; por otro, reflexionar sobre los conceptos de memoria, espacio y el habitar. Tal y como Bachelar afirma, “evocando los recuerdos de la casa, sumamos valores de sueño; no somos nunca verdaderos historiadores, somos siempre un poco poetas y nuestra emoción tal vez sólo traduzca la poesía perdida” (p. 27) porque “Todo espacio realmente habitado lleva como esencia la noción de casa. La imaginación trabaja en ese sentido cuando el hombre ha encontrado el mejor albergue. En suma, viviendo la casa en su realidad y su virtualidad, con los pensamientos y los sueños”(p.28).

5.7. Fernando Ariel López (Buenos Aires, Argentina) – Aprender 3C – www.aprender3c.org

Aprender 3C es un proyecto dirigido a estudiantes, docentes y profesionales latinoamericanos vinculados al mundo de las ciencias de la información que busca colaborar en la formación de competencias transversales e innovadoras que apoyen su desarrollo académico y profesional, al mismo tiempo que genera un espacio alternativo de encuentro e intercambio de experiencias entre colegas de toda la región.

6. PROFESIONALIZACIÓN EN GESTIÓN CULTURAL
Experiencias y reflexiones sobre los procesos de formación en gestión cultural. Trayectorias profesionales, desarrollo de emprendimientos independientes. Diseño de proyectos y herramientas de planificación. Coordina: @AforoMX

6.1. Florencia Gauna (Córdoba, Argentina) – El gestor cultural diseñando “lo que es necesario que pase”

El gestor cultural de título o quien así se llame a sí mismo, tiene una tarea que subyace a cualquier acción, idea innovadora o propuesta rupturista que tenga o lleve adelante, y es la de responder al contexto en el que su trabajo se inserta. Esta aseveración puede parecer simple u obvia pero podría asegurar que es un aspecto ignorado o poco tenido en cuenta por muchos de los que dicen desarrollar esta profesión aún poco profesionalizada (o por lo menos, profesionalizada en esfuerzos y direcciones múltiples). En esta oportunidad me gustaría abordar y someter a debate ese momento primigenio de cualquier proyecto, acción o programa ligado a la cultura y que como responsabilidad (sí, responsabilidad) del gestor en cuestión, debe encararse con pericia, dedicación y seriedad pero también intuición y creatividad. Es el momento del diagnóstico. Ese momento en que como los más curiosos observadores nos paramos frente (por detrás y a los costados también) de nuestro escenario para escudriñarlo en todas sus aristas, todos sus detalles, cada uno de sus pormenores. Todos conocemos que cuando hablamos de gestor cultural podemos estar refiriéndonos a un funcionario público, un creador independiente, un artista auto gestionado, un programador, un miembro del área de RSE de una empresa, y muchos etcéteras más; pero hay algo que me reconforta pensar como una característica común a ellos y es que el gestor cultural es un “no egoísta”. El gestor no presenta una tendencia hacia él mismo si no hacia los otros, hacia el afuera, hacia la comunidad en la que se inserta, y no como un simple altruismo si no como una característica inherente a su trabajo. El gestor realiza un gesto. Con lo que sea que diseñe, está señalando algo que él mismo tuvo que ver antes y que consideró digno y/o necesario de su intromisión. El gestor perteneciente a la estructura que fuere, seguro representará otros intereses que por momentos parecerán estar por encima: los intereses propios de subsistencia, los del intendente, los del dueño de una empresa, los del artista que representa, etc; pero por debajo de ello reside lo que la comunidad en la que se encuentra necesita. Si ello no se considera no sólo dejará de tener respuesta lo que la comunidad necesita (a pesar de que muchas veces ella misma no sabe que lo es), si no que cualquier acción derivará en el fracaso: un centro cultural que no estudie a fondo las características del barrio en el que se inserta, pasará desapercibido para los vecinos, nunca será un espacio del se adueñen para compartir momentos con sus familias si lo sienten ajeno a sus vidas. En fin se convertirá en un gran analista, un preguntador empedernido que “unirá los puntos” mirando hacia atrás y los costados para el diseño de lo que viene en frente.

6.2. Lucía Criado (Montevideo, Uruguay) – Preincubadora Trampolín de la Facultad de la Cultura, CLAEH

En el marco del proyecto de egreso de la Licenciatura en Gestión Cultural de la Facultad de la Cultura del Claeh, surge una inquietud por transformar una realidad que pude visualizar en los cuatro años de carrera a través de diferentes experiencias de mis compañeros y las que pude transitar. Se trata de la dificultad que atraviesan los proyectos culturales para alcanzar no sólo la viabilidad, sino también la sostenibilidad. Esto tiene una relación directa con el aspecto económico-financiero de los proyectos pero también con el equipo que lo lleva adelante y cómo este se construye o destruye en el proceso. La reflexión sobre hasta qué punto debemos depender de los fondos públicos y de cómo se puede encontrar un camino para que los proyectos no deban requerir eternamente a esta forma de financiamiento impulsó la creación de Trampolín. Trampolín es una preincubadora para emprendimientos culturales que brinda orientación y herramientas específicas para que personas con ideas que tengan un componente innovador o un valor diferencial puedan transitar la etapa de validación. El fin es contribuir a la generación de emprendimientos que puedan sostenerse en el tiempo. Pretende ser un puente entre la idea y el proyecto, contemplando al equipo y las intencionalidades que lo impulsan, adaptando el proceso de preincubación a las características propias del sector cultural, que convive con lógicas muy distintas a otros sectores que están tradicionalmente más insertos en el ecosistema emprendedor. La investigación desarrollada en el proceso de elaboración de este proyecto de gestión se realizó para validar la pertinencia de la preincubadora como una alternativa para solucionar el problema planteado. Palabras clave: preincubación de proyectos culturales, ecosistema emprendedor, cultura emprendedora.

6.3. Paola Castillo, Universidad de Guadalajara (Chihuahua, México) – Gestión cultural: la luz de una necesidad

Acercarnos a la reflexión en torno al proceso de sistematización de la gestión cultural como parte de su creciente profesionalización, preguntarnos qué es un gestor cultural y de donde nace la necesidad de su actividad, cómo se han ido conformando los programas de estudio así como las disciplinas que han aportado temáticas que sirven para la gestión cultural, es algo de lo que se pretende con esta breve ponencia.

6.4. Román Eduardo Mayorá (Paraná, Argentina) – La experiencia de la Tecnicatura Universitaria en Gestión Cultural Facultad de Ciencias de la Educación, Universidad Nacional de Entre Ríos

En este trabajo narramos la experiencia de la Tecnicatura Universitaria en Gestión Cultural (FCE – UNER). Se trata de una carrera que se dicta desde el año 2016 en Paraná (Entre Ríos, Argentina) en la Facultad de Ciencias de la Educación de la Universidad Nacional de Entre Ríos. Es un proyecto académico pero también de vinculación con el campo cultural local y regional, que en su primera cohorte ha convocado a más de 70 estudiantes provenientes de diversos campos del arte y la cultura (gestión pública, organizaciones civiles, artes plásticas, música, danza, letras, circo, entre otros). En este sentido, la propuesta responde a una demanda concreta de formación universitaria en gestión cultural a nivel regional. La vacancia en cuanto a experiencias previas de formación en la región fundamenta el objetivo de profesionalizar el trabajo de los gestores, que de este modo podrán intervenir activamente en las comunidades de la región con más y mejores herramientas. Al mismo tiempo, la carrera presenta innovaciones pedagógicas en el ámbito institucional en el que se desarrolla, ya que es la primera oferta de formación con cursado bimodal, con clases presenciales y virtuales (a través del campus virtual de la Facultad) en todas las materias. La historia de la institución aporta además su trayectoria en las áreas de conocimiento tradicionales de estudio (en la misma Facultad se dictan las carreras de Educación y Comunicación Social), a lo cual se suman espacios específicos de Gestión Cultural, a cargo de docentes con trayectoria y experiencia en el ámbito local. El trabajo que presentamos en este Congreso, realizado en video por un equipo de docentes que están trabajando en vinculación con la carrera, se desarrolla en tres partes. En primer lugar, el Lic. Juan Manuel Giménez (Secretario de Extensión y uno de los autores del proyecto de la carrera) y el Lic. Román Mayorá (Coordinador Académico de la Tecnicatura) narran el proceso de gestación y los fundamentos políticos y epistemológicos de esta oferta de formación. En un segundo momento, el equipo de Educación Virtual comenta los desafíos y las potencialidades implicadas en la propuesta pedagógica de cursado bimodal (presencial/virtual). Por último, presentamos un relevamiento sobre los perfiles de los estudiantes. Como cierre, docentes y estudiantes de las materias de primer año de la carrera comparten sus impresiones y expectativas respecto a esta propuesta de formación. El objetivo central de este trabajo es compartir la práctica de formación que estamos desarrollando, abriendo el debate para reflexiones y aportes del resto de los participantes del Congreso, lo cual consideramos sumamente enriquecedor para nuestra experiencia.

6.5. Berta Tubillejas Andrés (Valencia, España) – Universidad de Valencia

Desde que, hace más de 10 años, encaminé mis pasos profesionales en la gestión cultural en el sector de la música clásica, he considerado fundamental desarrollarme en cuatro facetas simultáneamente para poder entender mejor el sector en el que me muevo: gestión, arte, investigación y docencia. Mi experiencia me ha enseñado la importancia del método científico de la investigación aplicado en la gestión cultural. Desde un enfoque de marketing, mi especialidad de investigación, la asistencia a actividades culturales se concibe como una actividad, no sólo compuesta por la actividad artística principal, sino también por una serie de servicios complementarios. Todo el conjunto es evaluado por el asistente. Los especialistas defienden una aplicación específica del marketing para la cultura dadas sus especificidades técnicas. Desde que el pionero Kotler (1967), expuso que el marketing es extrapolable a cualquier organización, surgieron otras voces que defendían la necesidad de aplicar un marketing apropiado para el sector de la cultura y las artes escénicas (Fillis 2011). Si bien se realizaron propuestas varias, no es hasta entrada la década de 1980 cuando se propone la idoneidad de los siguientes principios de marketing como principios para desarrollar un marketing especializado en cultura (Searles, 1980): relevancia de la calidad del producto, especialización de la misión del gestor cultural, importancia de las características del consumidor, total compromiso de fondos y personas, dirección de los esfuerzos de marketing a los segmentos de población conocidos y búsqueda de los clientes adecuados al producto cultural. Aplicando la definición de marketing de la AMA (2007) a la gestión cultural, el marketing, como actividad, conjunto de instituciones y procesos para crear, comunicar, distribuir e intercambiar, contribuye en tanto en cuanto genera valor en el servicio para los consumidores, clientes, socios y sociedad en general. El objetivo del marketing cultural es mejorar el valor del intercambio entre la organización y su público generando valor recíproco (Leal y Quero, 2011). Los investigadores en gestión cultural observan la realidad del sector y sus problemas. Aplicando técnicas cuantitativas y cualitativas de análisis de datos, extraen conclusiones fiables a los problemas concretos que se plantean en la gestión, de modo que contribuyen a mejorar el proceso de toma de decisiones. Desde mi caso particular, como conocedora de primera mano del sector y como especialista investigadora, la ponencia que se presenta bajo este título pone de manifiesto la utilidad que la investigación social, desarrollada desde el ámbito científico y académico universitario, proporciona al ámbito profesional de la gestión cultural y mi objetivo es mostrar de un modo sencillo dichas posibilidades.

6.6. Patricia Almeida, Pista>34 Asociación Cultural (Madrid, España) – intransit – www.intransit.es

intransit es una plataforma experimental de apoyo a la creación contemporánea, que ofrece la oportunidad de participar en un programa de formación no reglada a egresados de todas las universidades públicas o privadas españolas. Está dirigida tanto a personas como a colectivos relacionados con los diferentes ámbitos de la creación contemporánea actual (artes visuales, escénicas, musicales, literarias, arquitectura y cultura digital), la investigación, la producción y la mediación. Entre los objetivos principales de intransit se encuentra el generar una comunidad en torno a la creación contemporánea, en la que tomen parte activa tanto creadores como otros agentes culturales (espacios de creación, centros de recursos, residencias artísticas, fab-labs, empresas de innovación artística y social, productores independientes, etc.). El programa formativo que se desarrolla desde intransit, se plantea desde un enfoque post-académico, buscando la activación, la inserción laboral de los egresados universitarios y su profesionalización. Desde el equipo de coordinación de intransit se entiende la cultura como un bien común y, por tanto, se pone el foco en el retorno social de los proyectos seleccionados, así como en la generación de dinámicas de colaboración y co-creación entre los participantes, alejando el programa formativo de valores como la competitividad o el individualismo, que sin ser intrínsecamente negativos, han sido pervertidos por el marco ideológico neoliberal. Después de cuatro ediciones, han pasado por intransit un total de 80 proyectos de creadores y colectivos residentes en el Estado español. Entre el 4 y el 8 de julio de 2016, tendrá lugar #intransit16, que acogerá a 20 nuevos proyectos de creadores emergentes. El programa formativo se materializa a modo de laboratorio y se basa en unos ejes temáticos que articulan las diferentes actividades y están orientados a fomentar la transversalidad entre las distintas disciplinas y prácticas a las que se dirige la convocatoria. Dichos ejes son: trabajo en red, prácticas colaborativas, procesos creativos, movilidad profesional, innovación social y mediación cultural. El laboratorio se plantea como un encuentro en el cual los participantes viven una experiencia intensiva e inversiva de cinco días de duración y se articula a través de un programa de mediación con agentes y actores del ámbito de la creación cultural, facilitando, por medio de actividades dinámicas y performativas y de estrategias de trabajo grupal, un contexto que fomenta la participación y el intercambio de conocimiento. Por otra parte, el proyecto genera un archivo digital concebido como herramienta de registro y difusión de los proyectos intransit, que permite dar visibilidad y permanencia al trabajo de los agentes individuales y colectivos participantes en cada edición y que puede consultarse en www.intransit.es. La plataforma, impulsada por la Universidad Complutense de Madrid y coordinada por la asociación cultural pista>34, se desarrolla en colaboración con entidades públicas y privadas como el Ministerio de Educación, Cultura y Deporte, el Museo del Traje, Injuve, Casa de Velázquez y Mustang Art Gallery.

6.7. Romina Pantoja, Instituto de Estética, Facultad de Filosofía Pontificia Universidad Católica de Chile (Santiago, Chile)

Desde siempre el hombre se ha visto en la necesitad de relacionar gestión y cultura. Este quehacer ha ido evolucionando con los años y se ve en la necesidad de entrar en una discusión, menos intuitiva y más profesionalizante. Hoy un gestor de la cultura debe ser un profesional que domine las herramientas que le permitan ser el medio que une el bien cultural con los consumidores, logrando, en palabras de Toni Puig (2003), “construir sentidos que transformen, dignifiquen, mejoren y humanicen la vida de las personas”. Bajo este concepto es que se basa el trabajo que se propone presentar. El crecimiento del sector cultural, la falta de conocimientos para poder financiar, comunicar evaluar y llevar a cabo proyectos; junto a la falta de comprensión de la cultura en el medio y la importancia que esta tiene en el desarrollo de las naciones, hacen que la profesionalización de la gestión cultural sea cada vez más necesaria. Para trabajar con cultura se debe conocer el contexto en el que ésta se desarrolla, junto con conocer y manejar las tecnologías de gestión. Como no se trata de una simple suma de conceptos, se buscará demostrar que no es a través de una fórmula, sino de un complemento de dichas competencias, que la reflexión puede lograrse a través de una gestión competente, que logre impactar a las comunidades en las que la gestión cultural interviene. La profesionalización en gestión cultural, ha ido en evolución desde una gestión intuitiva hacia la gestión que conocemos hoy, a cargo de profesionales que dominan áreas del conocimiento que permitirán concebir una idea a partir de la observación del medio en el que se mueven, y llevarla a cabo logrando los objetivos que esta idea propone. Se revisará asimismo perfil de un gestor y su trayectoria, a través de ejemplos de casos particulares; y las competencias que debe manejar según sus áreas de especialización, demostrando así la importancia de la formación que han adquirido.

6.8. Ellen de Sant’Ana Meireles, Mário Jarbas de Lima Junior, Secretaria de Cultura de Pernambuco (Recife-Pernambuco, Brasil) – Avaliação da política estadual para formação artística em Pernambuco

É notório o desenvolvimento das políticas culturais no Estado de Pernambuco nos últimos anos, especialmente a partir de 2011, com a criação de uma secretaria independente para a pasta da cultura. Desde então, pôde-se observar uma maior atenção e investimento em áreas que até o momento não eram suficientemente contempladas pelas políticas instituídas, com explícito direcionamento a ações voltadas para a cultura popular, os povos tradicionais e originários. Além disso, foram realizados amplos investimentos em eventos multilinguagens com a reformulação do Festival Pernambuco Nação Cultural. Até 2013 a situação econômica do estado propiciou gastos volumosos em eventos culturais e certo fortalecimento do fundo estadual de cultura, o FUNCULTURA. No entanto, as políticas de formação cultural, especialmente para as artes, não observou o mesmo desenvolvimento. A atual diminuição da arrecadação estadual e o consequente contingenciamento dos recursos orçamentário explicitam a deficiência de uma política focada em eventos em detrimento de ações estruturantes. As ações de formação desenvolvidas pela Secretaria de Cultura de Pernambuco (Secult-PE) e pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (FUNDARPE) – órgão da administração indireta estadual, vinculado à Secult-PE – são pontuais e limitadas aos festivais e alguns ciclos festivos apoiados pela gestão Estadual (Carnaval, Paixões, São João e Natal), à exceção do ciclo formativo para inscrição e prestação de contas para o edital FUNCULTURA, que é anual e itinerante. Atualmente, a política cultural do estado passa por mais um processo de estruturação, com, por exemplo: a reformulação do Conselho Estadual de Política Cultural, através de mudanças em sua legislação que prevê composição paritária a eleição dos conselheiros representantes da sociedade civil; o processo de discussão com a classe artística a respeito da reformulação e ampliação do Sistema de Incentivo à Cultura (SIC) do estado; a composição de um grupo de trabalho interno para elaboração de um diagnóstico da cultura estadual e posterior elaboração do Plano Estadual de Cultura. Entretanto, a despeito de todo o esforço de estruturação da política estadual de cultura, o debate a respeito das políticas de formação para as artes não tem tomado fôlego no âmbito do órgão gestor. As ações de formação, com poucas exceções, não fazem parte de um programa continuado, seus conteúdos não estão articulados à política de cultura estadual, tampouco há avaliação de impacto social dessas ações. A desvinculação do papel da gestão cultural enquanto promotora de educação para a cultura pode, em último caso, comprometer o sucesso das políticas que vem sendo desenvolvidas pela Secretaria. A formação para as artes tem importância não apenas para desenvolvimento de repertório cultural e apreciação artística, mas também é fundamental para o desenvolvimento social e econômico do estado. Neste sentido, o presente trabalho visa avaliar a política de formação da Secult-PE/FUNDARPE sob a perspectiva orçamentária e de conteúdo com o objetivo de propor ações de aperfeiçoamento para o setor a partir das reflexões relativas a estruturação das políticas públicas para a cultura.

6.9. Alberto Araújo Fernandes, Instituto Politécnico de Viana do Castelo (Miranda do Douro, Portugal)

O património cultural (material e imaterial) constitui-se atualmente como um veículo de promoção territorial de inegável valor. A sua preservação, promoção e rentabilização estão presentes na generalidade das estratégias de desenvolvimento regional. Esta importância, além do valor cultural que lhe está implícito, resulta também num valor económico derivado principalmente da rentabilização turística de que é alvo. O património cultural mirandês é composto por uma diversidade de bens incorporando caraterísticas como a singularidade, autenticidade e unicidade que o definem enquanto referente da identidade cultural mirandesa e que o diferenciam e valorizam enquanto produto cultural. A economia da cultura, fortemente impulsionada pelas indústrias culturais e criativas, é uma área disciplinar cada vez mais presente em artigos e estudos que justificam e conduzem a definição de políticas culturais. Não existindo nenhum estudo relacionando a economia da cultura e o património cultural mirandês, este trabalho visa discorrer sobre a sua valoração e impactos que este provoca na economia local. Neste trabalho faz-se um levantamento dos métodos de valoração, nomeadamente a técnica das preferências declaradas (disponibilidade a pagar para a qual foram realizados questionários a residentes no município de Miranda do Douro) e a técnica das preferências reveladas (método do custo de viagem para a qual foram realizados questionários a visitantes de 6 bens integrantes do património cultural mirandês: o Museu da Terra de Miranda, a Concatedral de Miranda do Douro, o Cruzeiro Ambiental do Douro Internacional, a gastronomia local, o Festival L Burro i l Gueiteiro e o Festival Intercéltico de Sendim). Com esta investigação preliminar pretende-se abrir o caminho para um tema cada vez mais atual bem como para a necessidade de trabalhos mais exaustivos relativos a esta matéria, permitindo com os dados obtidos uma maior consciencialização na definição, planeamento, implementação e monitorização de políticas culturais por parte dos seus representantes nacionais, e principalmente locais. No entanto, é também necessário um debate mais alargado sobre a construção de indicadores que possam suportar de forma harmonizada todo esse volume de informação estatística a nível europeu. Este é um trabalho desenvolvido num âmbito local funcionando como caso de estudo a ter em atenção!

Construindo o 1º congresso online de gestão cultural

logo congreso 2016

O Congresso de Cultura Livre em Quito no Equador (2013) nos colocou em contato com muita gente na América Latina que trabalha na construção do conhecimento livre, seja em hardware, software, cultura, produção ou gestão cultural. São coletivos, centros culturais, pessoas e projetos que defendem a ideia de que a informação tem que circular, para que contagie e inspire outros. E que, assim como nós, estão convencidos de que o conhecimento não cresce por acumulação, mas por multiplicação: se eu tenho uma ideia e compartilho esta ideia, a ideia se multiplica e todos saem ganhando.

É com isso em mente que, nos últimos tempos, estivemos construindo com alguns destes coletivos uma nova proposta: a de realizar este ano um congresso online de gestão cultural. Em parceria com Artica Centro Cultural 2.0, Gestión Cultural (Uruguay), Comunicación Abierta (Bolívia), Aforo Gestión Cultural (México), Comandante Tom (Espanha), lançamos o 1º CONGRESSO ONLINE DE GESTÃO CULTURAL.

MAS COMO ASSIM UM CONGRESSO ONLINE?

A partir da experiência destes coletivos, e em especial do Ártica, que organiza cursos online abertos desde 2012, o congresso vai ser 100% online. Para entender melhor, dividimos a ideia em duas partes:

_ A parte “tradicional” de um congresso: o #GCultural16 vai funcionar como um evento acadêmico “normal”, em que as pessoas enviam um resumo a uma mesa temática, e o trabalho, caso selecionado, é apresentado para um grupo de pessoas que pode comentar, perguntar, opinar. Há espaço para conversas paralelas e também para conhecer gente nova.

_ O novo (e não tão novo): o #GCultural16 será 100% online. Em vez de alugar salas, usaremos fóruns, chats e videoconferências. Os artigos estarão disponíveis desde sua aprovação em páginas web. As mesas de trabalho não vão funcionar em sedes físicas, mas nas redes digitais, e serão distribuídas. Iremos visitar os endereços web dos coletivos que estarão co-organizando as atividades (listados acima) e faremos as discussões nas redes online.

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A primeira fase do congresso é a convocatória para apresentação de resumos, que foi lançada nesta semana e vai até 1 de junho. Dia 18 de julho divulgaremos as selecionadas; 31 de agosto é o prazo para receber os trabalhos completos; e de 12 de setembro a 10 de outubro acontece o #GCultural16, na web.

Convidamos a todos que enviem seus resumos de até 500 palavras (em português ou castelhano) para as mesas abaixo. Selecionaremos um conjunto de trabalhos para serem apresentados durante o evento, em setembro.  Também teremos outras atividades paralelas durante o evento que contaremos por aqui.

* Experiencias y proyectos de cultura y activismo digital
Relatos de experiencias de procesos / proyectos colectivos o individuales de ciberactivismo, hacktivismo, activismo digital artístico – “artivismo”; hackerspaces, makespaces, fablabs y otros tipos de centros de tecnología comunitaria; producción de cultura digital, arte y tecnologia; mapeos / cartografías digitales; performances y exposiciones artisticas; labs de experimentación digital. Coordenação: @baixacultura

* Gestión cultural para la producción de cultura libre
Experiencias y reflexiones sobre cómo se produce cultura libre en cualquier disciplina cultural. Proyectos que utilizan y promueven el dominio público, las licencias Creative Commons, licencias de software libre y otras formas de licenciamiento libre. Modalidades de trabajo de código abierto que invitan a copiar, replicar y remezclar. Coordenação: @articaonline

* La gestión cultural en las bases
Experiencias recorridas de colectivos y emprendedores culturales que trabajan desde espacios o proyectos íntimamente vinculados con el territorio y las comunidades. El foco temático de esta mesa nos lleva a considerar, además, la articulación de éstos con otros actores como colectivos, organizaciones, programas del Estado, empresas, etc. Dichas experiencias pueden provenir tanto del sector privado como público. Coordenação: @gestioncuy

* Comunicación en red y herramientas TIC para la gestión cultural
Experiencias y reflexiones sobre el uso de las TIC en el sector cultural. Comunicación, Infoactivismo, Código Abierto, Redes, Políticas, Herramientas. Coordenação: @danicotillas

*Espacios culturales y comunidad en red
La cesión de espacios por parte instituciones públicas y privadas, hace que se esté viviendo un momento de cambio en el que la cultura parece cobrar un protagonismo singular en las ciudades. Por ejemplo, el Ayuntamiento de Madrid  ha lanzado un marco común de cesión de espacios que estarán disponibles para el tejido asociativo de la ciudad. Estas experiencias, incentivan el intercambio, la colaboración y la innovación ciudadana y cultural. En esas circunstancias la capa digital juega un papel imprescindible en la construcción de una red de intercambio que conecte las diferentes propuestas locales creando una red global. Desde un punto de vista teórico, pero sobre todo práctico, el objetivo de las ponencias será indagar en las posibles vías de implementación de la construcción de esta red. Coordenação: @ComandanteTom_

* Profesionalización en gestión cultural
Experiencias y reflexiones sobre los procesos de formación en gestión cultural. Trayectorias profesionales, desarrollo de emprendimientos independientes. Diseño de proyectos y herramientas de planificación. Coordenação: @AforoMX

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Mais informações sobre neste sítio de Ártica. E qualquer dúvida, nos escrevam que prontamente responderemos.

Mídia tática: uma introdução

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Em novembro de 2015, apresentei um artigo no II Congresso Internacional de Net-ativismo, em São Paulo, que retomava a ideia de mídia tática, hoje nem tão falada quanto na segunda metade dos 1990 e nos 2000, e a relacionava com a cultura hacker. Os usos táticos das mídias é um assunto que às vezes costuma passar por esta página; por conta disso, fiz uma versão do artigo também como forma de documentar algumas ações efêmeras realizadas nesse período que se perderam na rede. Segue abaixo a primeira, com um histórico do conceito e algumas ações da “era de ouro”, final dos 1990 e início dos 2000. [
Leonardo Foletto] 

*

Existem várias (in) definições possíveis para mídia tática, mas convém começar pelo início, 1993, quando acontece em Amsterdam, Holanda, o Next Five Minutes (N5M), festival sobre arte, política, ativismo e mídia com artistas e ativistas dos Estados Unidos, Europa e ex-URSS interessados em explorar as possibilidades dos aparelhos eletrônicos domésticos como meio para a mobilização social. O termo surgiu a partir da ampliação do conceito de “televisão tática”, tema central do 1º N5M, que teve por objetivo expor e debater vídeos independentes e produções audiovisuais de cunho político realizados durante a segunda metade do século XX. Discutido internamente, mídia tática viria a nomear a segunda edição do N5M, em 1996, e assim aparece definido na seção de perguntas e respostas do site do festival:

O termo “mídia tática” se refere a uma utilização crítica e teorização das práticas de mídia que recorrem a todas às formas de mídias, antigas e novas, ambas lúcidas e sofisticadas, para a realização de diversos objetivos não comerciais, impulsionando todos os tipos de questões políticas potencialmente subversivas (recuperado da dissertação de mestrado de Anne Clinio na UFRJ, em 2011, porque a fonte original saiu do ar)

Um ano depois vem a primeira referência como um conceito estruturado, quando Geert Lovink e David Garcia publicam o texto “O ABC da Mídia Tática” (aqui o original em inglês, e a versão traduzida por Ricardo Rosas publicada pelo CMI Brasil), que circula numa lista de emails chamada Nettime que agrupava pessoas com algum envolvimento no N5M (e ainda agrupa, sendo uma lista interessantíssima de acompanhar que disponibiliza todo seu acervo no site Nettime.org).

Mídias táticas são o que acontece quando mídias baratas tipo ‘faça você mesmo’, tornadas possíveis pela revolução na eletrônica de consumo e formas expandidas de distribuição (do cabo de acesso público à internet), são utilizadas por grupos e indivíduos que se sentem oprimidos ou excluídos da cultura dominante. A mídia tática não apenas noticia eventos, porque elas nunca são imparciais, elas sempre participam e é isto que mais do que qualquer outra coisa as separa da mídia mainstream.

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Site da 2º edição do N5M, 1996, que ajudaria a espraiar o conceito de mídia tática mundo afora
n5m4
Anúncio do N5M4, em 2003, o último que ocorreu.

A partir daí, ocorreriam mais dois festivais de Mídia Tática, 1999 e 2003, e um no Brasil (do qual já falamos por aqui). O termo ganharia o mundo com movimentos ativistas, artísticos e políticos dos anos 1990 e início dos 2000 que se descolam dos fazeres políticos tradicionais e buscam acompanhar as revoluções tecnológicas e culturais como base de suas ações e debates, como diz Paulo José Lara (autor da primeira dissertação de mestrado sobre o assunto, em filosofia na Unicamp, 2008).

Alguns exemplos de ações, grupos e movimentos agregados a ideia de mídia tática nesse contexto são a atuação de ativistas dos movimentos altermundistas, também chamados de antiglobalização; a ação de ativistas que veiculam programas de rádio em transmissores de baixa potência ou daqueles que elaboram vídeos com câmeras digitais e distribuem sua produção numa Internet pré smartphones e redes sociais gigantescas; o trabalho de programadores de software livre e de código aberto; a arte midiática e a net-art; pesquisas sobre a política e a economia das tecnologias da informação, em especial no que se convencionou chamar de net criticism, uma perspectiva crítica em relação à estrutura da internet que pode ser posicionada na encruzilhada interdisciplinar entre as artes visuais, movimentos sociais, cultura pop, e pesquisas acadêmicas (Ver Geert Lovink, Dynamics of Critical Internet Culture 1994-2001).

Formulado na Europa, dentro de um ciclo de debates pós queda do muro de Berlim que envolvia principalmente artistas, teóricos da comunicação, jornalistas, hackers, ativistas políticos e cientistas sociais, o termo apresenta uma mescla de referências entre movimentos sociais e artísticos do século XX e experiências de “usos da cultura” – maneiras de apropriação dos objetos técnicos e sua realização para determinada ação.

Nesse contexto, dialogam com a mídia tática vários movimentos e ações desviantes ao longo do século XX, como os (já citados por aqui) trazidos por Stewart Home em sua história da (anti) arte deste período, Assalto à Cultura, de 2005 (só disponível em sebos e raras livrarias hoje); o détournament dos situacionistas franceses; os happenings dos provos holandeses e dos integrantes do Fluxus (George Maciunas, John Cage, Nam June Paik, Yoko Ono e cia); a mail art o do it yourself punk dos anos 1970; o neoísmo dos fakes e nomes coletivos dos 1980; e o culture jamming dos 1980 pra cá. Também conversam com a mídia tática conceitos próximos como os de guerrilha da comunicação e guerrilha midiática, proposto por Luther Blisset: “a realização de um jogo de artimanhas recíprocas, uma forma de envolvimento da mídia em um trama impossível de se captar e de se entender, uma trama que provoca a queda da mídia, vítima de sua própria prática. Arte marcial pura: utilizar a força (e a estupidez) do inimigo, voltando-se contra ele” (em Guerrilha Psíquica, editado pela Conrad em 2001). Conceitos que, por sua vez, são desdobramentos de, entre outras referências, os estudos semióticos de Umberto Eco, que apontava a guerrilha semiótica como uma tática que se aproveita “de uma margem de indeterminação e em uma modificação das circunstâncias nas quais as mensagens são recebidas, sendo possível uma escolha nos modos de interpretação” (Umberto Eco em A Theory of Semiotics, 1976, traduzido por Paulo José Lara em sua dissertação).

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Mas a fonte mais presente no conceito original é, sem dúvida, Michel de Certeau e A Invenção do Cotidiano. Publicado originalmente em 1980, o livro examina as maneiras de fazer criativas com que as pessoas individualizam e se apropriam da cultura de massa, de objetos cotidianos até planejamentos urbanos e rituais, leis e linguagem. No capítulo 3, o autor francês traz a distinção entre tática e estratégia que é essencial para o entendimento da mídia tática. Ele define como estratégia “o cálculo (ou a manipulação) das relações de forças que se tornam possível a partir do momento em que um sujeito de querer e poder (uma empresa, um exército, uma cidade, uma instituição científica) pode ser isolado” (na 20º edição, de 2013, p.93).

As táticas seriam, em oposição, procedimentos que “jogam com os mecanismos da disciplina e não se conformam com ela a não ser para alterá-los” (p.94). Assim, enquanto as estratégias seriam gestos típicos de uma modernidade militar e científica, que valoriza as estruturas e o lugar, as táticas seriam ações típicas de uma pós (ou pré-modernidade), que valorizariam o movimento e o tempo – ou “às circunstâncias que o instante preciso de uma intervenção transforma em situação favorável”, como diz o autor francês na p.96. Os usos que consumidores (usuários, segundo o autor) fazem de textos e objetos que os rodeiam são diferentes dos esperados ou imaginados por aqueles detentores do poder estabelecido ou de posse dos objetos; são usos táticos, rebeldes, “ações de apropriação e engano que desobedecem ao pré estabelecido, truques engenhosos, astúcias de caçadores, mobilidades nas manobras, operações polimórficas, achados alegres, poéticos e bélicos”, como diz o autor francês na p.98. Ao identificar a distinção estratégia e tática analisando a cultura popular, De Certeau, segundo o “ABC da Mídia Tática”, transferiu a ênfase das representações para os usos das representações. A partir daí ele sugeriria algumas maneiras de pensar práticas cotidianas – como o habitar, circular, falar, ler – que estabeleceriam um vocabulário complexo que identificaria as maneiras que a cultura popular buscaria romper com o que lhe é imposto pelas estruturas do poder ou de consumo. Aquilo que se chama de “vulgarização” ou “degradação” de uma cultura seria, então

“um aspecto, caricaturado e parcial, da revanche que as táticas utilizadoras tomam do poder dominador da produção. O consumidor não poderia ser identificado ou qualificado conforme os produtos jornalísticos e comerciais que assimila: entre eles (que deles se serve) e esses produtos (indícios da “ordem” que lhe é imposta), existe o distanciamento mais ou menos grande do uso que se faz deles. Deve-se, portanto, analisar o uso por si o mesmo”. (DE CERTEAU, 2013, p.90)

Inicialmente pensadas por De Certeau no auge da cultura de massa um-muitos dos anos 1970, a ideia de tática foi reapropriada em um cenário de proliferação da internet e do desenvolvimento dos dispositivos digitais do início dos anos 1990 por Lovink, Garcia e outros. A internet anunciava a possibilidade da convivência do modelo massivo um-muitos com a do muitos-muitos, e os artistas e ativistas reunidos em torno do N5M viram como os usos das mídias poderiam se tornar táticos – porque criativos e rebeldes aos pré estabelecidos – e assim tanto subverter a ordem política quanto dar voz a grupos grupos e indivíduos que se sentiam oprimidos ou excluídos da cultura dita dominante.

O conceito de mídia tática despontaria, então, num contexto de renascença do midiativismo, misturando uma ação política de engajamento de artistas com as novas tecnologias. Por um lado ativista em relação a subversão, mesmo que temporária, da ordem política, e por outro lado artístico, porque criativo e de experimentação com as então novas mídias digitais da época.

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Os primeiros trabalhos identificados enquanto mídia tática, originários do campo artístico e de uma postura crítica sobre a função da arte na sociedade contemporânea, ajudam a ilustrar esta compreensão das táticas como forma de resistência criativa e subversão das mensagens e das plataformas dominantes. Segundo Lovink num texto de 2011 (“Atualizando a mídia tática. Estratégias de midiativismo”, presente num dos capítulos do livro “Informação, Conhecimento e Poder: Mudança tecnológica e inovação social“), estes exemplos se situam na “era de ouro” da MT, que vai de 1993 a 1999, quando o acesso a equipamentos baratos e fáceis de usar fomentou um novo sentido de autonomia entre ativistas, programadores, teóricos, curadores e artistas que impulsionou experimentação de formas alternativas de narrativas. Alguns exemplos de ações e coletivos deste momento foram:

flood zapatistas

_ Flood net em apoio aos zapatistas, desenvolvido pelo Eletronic Disturbance Theater, uma estrutura ad hoc com os integrantes do coletivo Critical Art Ensemble. A tática realizada com maior destaque foi a do sit-in virtual, um tipo de ação direta contra um determinado site com o objetivo de torná-lo inacessível a partir da coordenação de acesso simultâneo por diversas pessoas à mesma página alvo. O grupo organizou ataques em dez datas significativas para o movimento Zapatista, depois registrada em abril de 1998. Para participar, as pessoas deveriam acessar determinada URL, clicar em um link e manter o navegador aberto durante o período programado para a ação; o aplicativo acionado recarregaria a mesma URL várias vezes por minuto impossibilitando o acesso à página, num tipo de ação, chamada Ataque de negação de serviço – DDoS, que seria muito utilizada pelo Anonymous e outros grupos hackativistas posteriormente.

gwbush

_ www.gwbush.com; desenvolvido pelo ®TMark, um coletivo conhecido por suas ações anticoporativas, era um site (inicialmente cópia do oficial) construído como tática para interferir na campanha eleitoral do então candidato à presidência dos Estados Unidos, George W. Bush, em 1999. Numa época em que desenvolver sites ainda era algo difícil e para poucos, gerou repercussão na mídia – em especial por conta de questionar a negação do consumo de cocaína por parte de Bush – confundiu eleitores e provocou pronunciamentos do candidato de que “deveria haver limite” à liberdade.

_ The Yes Men Project e o caso DowEthics.com; A dupla de ativistas Andy Bichlbaum e Mike Bonanno, do The Yes Men, é conhecida por ações de produzir danos a indivíduos e entidades que causam estragos sociais, econômicos e ambientais (crimes, no julgamento dos ativistas). São “correções de imagem” realizadas a partir da personificação dos representantes destas empresas. A de mais sucesso ocorreu em 2004, quando Andy concedeu uma entrevista para a rede de televisão britânica BBC como executivo da empresa Dow Chemicals (vídeo acima) e afirmou que, passados 20 anos do desastre químico causado na cidade indiana de Bhopal que matou 20 mil pessoas, a empresa assumiria a responsabilidade e indenizaria os atingidos em U$ 12 bilhões. Pro Brasil de 2016, seria como se um integrante de um coletivo de ativistas tivesse convencido a Globo de que era um executivo da Samarco, principal responsável pela tragédia em Bento Rodrigues – Mariana, e concedesse entrevista num programa como o Jornal da Globo assumindo que a empresa vai pagar uma indenização de bilhões de reais às famílias atingidas (o que, convenhamos, deveria ser o mínimo, não?).

Era um trote: Yes Men havia criado um site espelho da empresa, chamado dowethics.com, que os jornalistas da emissora britânica entraram em contato erroneamente para combinar uma entrevista. Durante duas horas, a entrevista circulou pela internet, foi repetida na mesma BBC e só então a empresa Dow Chemicals notificou a emissora que o entrevistado era um impostor. Como contra-ataque, a empresa solicitou o cancelamento do serviço de IPS (Internet Service Provider) para a empresa que hospedava o site falso. Segundo a dissertação de Anne Clinio (2011), quando o site se tornou offline, outros ativistas se mobilizaram pela causa defendida pelo Yes Men Project e criaram vários sites espelho para escapar da censura e oferecer fontes múltiplas para as informações divulgadas pela dupla. Mais detalhes da ação podem ser vistos na Wikipedia

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Protestos em 1999 no Brasil. Foto: André Ryoki

_ Independent Media Center (Indymedia); foi uma criação de diversas entidades no campo da época chamada mídia alternativa com o intuito de realizar a cobertura dos protestos de Seattle em razão da reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 30 de setembro de 1999. Desenvolveram um site que oferecia diversos materiais – cobertura em tempo real, relatórios, fotos, vídeos e áudios – das manifestações num sistema de publicação aberto, ou seja, qualquer um poderia submeter seu material para publicação, sem filtros editoriais. A intenção era organizar uma cobertura de orientação alternativa àquela realizada na mídia tradicional, num contexto em que a publicação na internet não era acessível a qualquer pessoa: não havia redes sociais como as que conhecemos hoje, e os blogs recém iniciavam sua trajetória – o primeiro sistema gratuito e facilitado de publicação de conteúdo (CMS) a se tornar popular, o blogger, havia começado a funcionar também em 1999. Depois dos protestos em Seattle, uma rede internacional IndyMedia se constituiu e se mantém hoje em mais de 160 países.

No Brasil, o IndyMedia ajudou a formar o Centro de Mídia Independente (CMI), um coletivo de autopublicação que está na base do ativismo digital brasileiro. “A ideia foi fazer um site de mídia que mostrasse as nossas lutas. É diferente de montar um coletivo de mídia. Nós precisávamos do nosso próprio veículo”, conta Elisa Ximenes, membro do coletivo brasileiro, em entrevista à Tatiana de Mello Dias nesta boa reportagem (“CMI: o coletivo que fundou o ativismo digital“) na Galileu. De integrantes do CMI saiu também o Saravá, coletivo que mantém o principal servidor de iniciativas ativistas do Brasil e um dos mais destacados grupos tecnopolíticos brasileiros – se você se interessa pelo assunto, vá ler uma ótima entrevista com Sílvio Rhatto, um dos integrantes do grupo, em “Cartografias da Emergência”, lançado ano passado.

Na segunda parte do artigo falaremos das apropriações gambiarrísticas e hackers da mídia tática no Brasil.

Imagens: N5M e Tactical Media (fonte), De Certeau (fonte), protestos 1999 (fonte).

Produtoras colaborativas e uma tecnologia digital social

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Quem trabalha com os princípios da cultura livre, especialmente a partir do software livre e das licenças Creative Commons, já passou pela situação: você apresenta seu projeto/pesquisa/produto pra alguém (ou um grupo de pessoas), é aplaudido, recebe os parabéns, vários “muito legal!”. Em determinado momento, depois ou mesmo durante os parabéns, surge alguém a questionar: “muito interessante o trabalho de vocês, mas como vocês se sustentam, se tudo é livre?” como ‘ganham dinheiro‘, se o software é dado de graça?”.

A resposta varia de acordo com cada um, mas costuma fazer a pessoa questionada condensar, em poucas frases, muitas e muitas horas de conversas, pensamentos e estudos sobre os princípios da cultura e do software livre. Por exemplo: software (e cultura) livre não significa software (e cultura) grátis, como diz Richard Stallman na sempre citada frasefree speech, not as in free beer“; nem toda troca precisa ter dinheiro envolvido – porque mesmo estando num sistema capitalista, em algum nível é possível sobreviver, sim, de trocas e moedas que não necessariamente o dinheiro; o sustento provém de atividades indiretamente relacionada aos serviços prestados ou produtos oferecidos de maneira gratuita, como consultoria, capacitação, ensino, personalização; ou, ainda, não me sustento com isso, faço porque gosto e quero que seja assim.

Penso nisso porque o II Encontro das Produtoras Colaborativas, que juntou mais de 10 coletivos na semana passada no NAEA, em Belém, trouxe essa questionamento em diversos momentos. E, mais do que isso, trouxe alguns exemplos que podem fornecer respostas criativas às perguntas já citadas. Por que desde que a internet cortou alguns intermediários e ressignificou outros, a realidade é clara: não existe mais um modelo único, pronto pra aplicar sem esforço, que vai sustentar tua produção cultural – seja ela cinema, música, software, eventos, etc. Como Gilberto Gil já dizia em 2009, aqui mesmo no BaixaCultura: “A digitalização não exige que toda obra de arte seja de graça, mas que um modelo próprio de comercialização seja criado para cada necessidade. A tendência atual é que pensemos não na propriedade, mas no comum, no compartilhado”.

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A tecnologia social das produtoras colaborativas

Pensar no comum e no compartilhado é justamente a linha-mestra das produtoras colaborativas, que, por hora, podemos resumir como uma tecnologia social que reúne um conjunto de metodologias baseados na cultura e no software livre, no cooperativismo e nas moedas sociais. São metodologias que começaram a ser estudadas em 2006, nos pontos de cultura do Quilombo do Sopapo e da Biblioteca do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, e aplicados pela primeira vez pelos pontões de cultura iTEIA, CDTL e Caravana Arcoirís na Aldeia da Paz, realizada no Acampamento Intercontinental da Juventude dentro do Fórum Social Mundial de 2009, em Belém.

De 2009 pra cá, a tecnologia tem sido testadas em diferentes lugares, principalmente em Pontos de Cultura – projeto criado dentro do Cultura Viva e uma das maiores conquistas da história da cultura brasileira, referência internacional (olhaí o relato basco aqui no Baixa em que ele é destacado) e que desde 2014 é, por lei, política pública brasileira.

A Produtora Colabor@tiva.PE, que integra 6 pontos de cultura da região metropolitana de Recife mais um cineclube e um centro de recondicionamento de computadores, foi a primeira que aplicou de forma permanente, a partir de 2010, o conjunto das metodologias das produtoras colaborativas. Pedro Jatobá, um dos criadores da Colabor@tiva.PE, apresentou a tecnologia, em uma das falas do primeiro dia de encontro, a partir da metáfora da árvore: assim como as árvores precisam de nutrientes para gerar frutos, as produtoras necessitam de insumos para alimentar o processo de formação continuada e, assim, fomentar os ciclos de amadurecimento de novos empreendimentos.

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Assim, os tronco são as 6 áreas de atuação: memória, gestão, produção, economia, educação e comunicação. Os galhos são os núcleos temáticos: fotografia, áudio, vídeo, comunicação, produção cultural, criação de páginas na internet, entre outros. As folhas são os produtos e serviços (clipe, registro fotográfico, curso de fotografia, mapeamento, site, etc); os frutos são a formação continuada, aquilo que cai e dá fruto, replica; e, por fim, tudo está estruturado em seis raízes sólidas, que vale destacar aqui:

cultura popular: atuar na divulgação e no fomento da cultura popular de cada local; ser a mídia livre da expressão cultural popular;
software livre: além de toda a questão social do software livre, ele é, também, a única maneira legalizada de funcionar numa comunidade sem precisar pagar fortunas por licenças de software.
cooperativismo: ser autogestionado, sem “patrão”, mas cooperativados; relação horizontal;
criatividade: buscar formas alternativas e criativas de não fazer “empacar” os projetos;
empreendedorismo: a necessidade de fazer a produtora funcionar, e minimamente pagar as contas;
moeda social: em muitas comunidades onde as produtoras atuam o dinheiro é escasso; então é criada uma moeda social pra balizar trocas dentro da comunidade. Ela pode fazer serviços pra fora da comunidade por dinheiro, mas dentro ela pode fazer serviços na moeda social, trocar a criação de uma página na internet por almoços, por exemplo. No caso da Colabor@tiva.PE, há a moeda social Concha, a primeira criada em Pernambuco, toda gestionada dentro da plataforma Corais.org, que, ademais, é um ambiente de criação/gestão de projetos todo criado em software livre e que reúne várias outras produtoras colaborativas e outras redes.

[Recomendo ver a apresentação completa para entender e ver como funciona na prática]

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Mãe Beth de Oxum, do Centro Cultural Coco de Umbigada

É a partir dessa ideia que os produtos e serviços da Colabor@tiva.PE são estruturados. Eles incluem desde a digitalização de saberes e tecnologias locais até a produção de videoclipes de bandas locais, passando por oficinas de capacitação em vídeo e áudio com software livre e produção de eventos culturais. Um exemplo prático apresentado por Mãe Beth de Oxum (foto acima), do Centro Cultural Coco de Umbigada (ligada à colaborativa PE), foi o Contos de Ifa, um site que ensina a cultura afro-brasileira a partir de jogos onde os personagens são orixás (Ogum, Exú, Odé e Obadulaié). Do áudio ao design e a programação, tudo feito em software livre.

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Jader Gama (Puraqué) e Larissa Carreira, da Produtora Colaborativa do Pará, no lançamento do livro “Coralizando”

Hackear a universidade: o caso do Pará

Outro exemplo que vale destacar aqui é o da Colaborativa do Pará e do Coletivo Puraqué, de Santarém. A primeira, criada em 2009, funciona a partir da tecnologia social das colaborativas, e oferece principalmente serviços de formação em software livre e produção de eventos (veja aqui a o portfólio). O segundo nasceu como um laboratório de informática na casa da mãe de Jader Gama, integrante do grupo, no início da década passada, e de aulas básicas de informática passou ao ensino de programação, entrou para as redes da Metareciclagem e dos telecentros, ajudou na organização de encontros regionais como o Fórum Amazônico de Software Livre (FASOL), Fórum Amazônico de Cultura Digital e, sobretudo, colocou a bela e longínqua Santarém, no encontro dos rios Tapajós e Amazonas, oeste do Pará, no mapa da cultura digital brasileira.

Na busca por recursos e sustentabilidade numa região com pouco dinheiro e onde as distâncias dificultam e encarecem a produção de qualquer evento/oficina/encontro, as duas produtoras/coletivos fizeram, de 2010 pra cá, um movimento orquestrado de “hacker a universidade”. Jader Gama e Larissa Carreira – do Puraqué e da Produtora Colaborativa, respectivamente – entraram para o mestrado na UFPA, no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), um centro de pesquisa acadêmico voltado ao desenvolvimento regional da Amazônia. Com membros de uma instituição organizada como o NAEA e ligados à Universidade, tiveram a possibilidade de pleitear verbas de convênios com diversos ministérios do Governo Federal, e partir daí passaram a promover eventos de formação e pesquisa também para o público de fora da universidade, através do grande guarda-chuva de projetos que é a “Extensão Universitária”. Relativamente desprezada dentro da pós-graduação, a extensão é o mecanismo que as universidades brasileiras tem de interagir com a comunidade e sair de seus muros: passam por ela desde eventos culturais até incubadoras tecnológicas, oficinas de formação e outros projetos que promovam a integração do espaço acadêmico com a localidade a qual está inserida.

Foi assim que as produtoras se abrigaram dentro do NAEA, aproveitando-se também da maior possibilidade de interlocução com outras áreas que um raro centro interdisciplinar de pós-graduação como o NAEA, criado em 1973, possibilita. E dessa maneira fizeram diversas oficinas formativas de software livre, de edição de vídeos a cartografias digital, propuseram projetos de pesquisa em seus mestrados relacionados às temáticas de seus trabalhos nas produtoras – Jader sobre transparência pública nos municípios paraenses, Larissa com comunicação comunitária e software livre – e, literalmente, ocuparam a Incubadora de Políticas Públicas da Amazônia, mecanismo de articulação institucional do qual o NAEA, junto de outros institutos de pesquisa e dos governos, faz parte. Vestiram a camiseta oficial da universidade para se relacionar de outra forma com a comunidade ao seu redor, promover a articulação efetiva entre esta mesma comunidade, o poder público e o espaço acadêmico, não raro centrado só em seu mundo – basta ver quantos estudantes de mestrado e doutorado você conhece que fazem algo de extensão.

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O II Encontro e a sustentabilidade

Foi também através dessa parceria-ocupação que o NAEA e a UFPA sediaram o II Encontro das Produtoras Colaborativas, entre os dias 19 e 21 de março de 2015. Foi um momento das produtoras se conhecerem melhor, se familiarizar com a tecnologia social, para aquelas que não a usam integralmente, lugar de formação – o 2º dia do evento contou com oficinas variadas – e, também, para promover o debate conceitual e institucional sobre produção cultural e a cultura livre.

Participei da mesa sobre “Extensão e comunicação comunitária”, no sábado pela manhã, junto de Larissa Carreira, da colaborativa de Belém, Eduardo Lima e Pedro Jatobá (mediação), da colaborativa de Pernambuco e Daniel Luis (Umbigada no ar, um dos pontos da Colaborativa PE; foto acima). Falei um pouco da experiência recente da Casa da Cultura Digital Porto Alegre, em especial do Observatorio.cc e dos projetos ligados aos dados abertos (como o Open Data Day e o Hackday Tranporte Público), Daniel e Eduardo falaram das suas, com enfoque maior na experiência de ambos com software livre – Daniel trabalha com áudio e Eduardo com vídeo. Larissa contou de sua pesquisa com comunicação comunitária e da relação da produtora colaborativa com a universidade; um tanto do relato do tópico acima foi baseado em sua fala. Mesa ampla, assuntos diversos, discussão boa.

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Um dos debates mais instigantes foi o que encerrou a manhã de sábado, sobre arranjos produtivos locais, autonomia e políticas públicas. Ricardo Poppi, da Secretaria Geral da Presidência, Ricardo Abramovay (professor da FEA-USP), Lula Dantas (Comissão Nacional dos Pontos de Cultura), Geórgia Haddad Nicolau, do MinC (atualmente na secretaria de políticas culturais, não mais na de economia criativa, que vai ser extinta), mediada por Luana Vilutis (Colaborativa.PE). Outra mesa bastante diversa, que teve por destaque o tom de cobrança que a plateia fez aos dois representantes do governo, Poppi e Geórgia. Ela, em especial, destacou que além de “hackear as políticas públicas”, tema bastante apontado nas questões da plateia e também por Poppi, se faz necessário que a população acompanhe o que está sendo feito no governo, para assim pressionar e cobrar o funcionamento das políticas que são criadas dentro dos mecanismos institucionais e, não raro, se perdem por falta de conhecimento ou de contribuição dos interessados.

Ela citou três temas centrais para acompanhar as políticas culturais do MinC, agora sob o comando do ministro Juca Ferreira, um oásis progressista numa escalação conservadora e reacionária de ministérios feita pelo governo Dilma. São eles: marco regulatório das organizações da sociedade civil (MROSC), que entra em vigor em julho de 2015; o sistema nacional do Procultura, que está para ser aprovado nos próximos meses; e a reforma da Lei de Direitos Autorais (LDA), que vai ser retomada agora com força e precisa de muita articulação da sociedade civil para conseguir barrar o forte (e bem pago) lobby da indústria do copyright – quem acompanha esta página já faz alguns anos sabe da importância de uma atualização da lei dos direitos autorais no cenário da tecnologia digital e da internet no Brasil e no mundo.

Ricardo Abramovay, referência no Brasil quando o assunto é economia colaborativa, trouxe apontamentos sobre o cenário atual: nunca tivemos tantos instrumentos de cooperação social, mas, de fato, estamos sabendo cooperar ou estamos sendo soterrados pela avalanche de informações e ferramentas pasteurizadas que as redes sociais nos jogam diariamente? Uma das falas que mais teve ressonância no encontro, e que se liga à abertura desse post, é a de que o ativismo precisa se organizar a partir da viabilidade econômica. Ele ressaltou a necessidade de pensar em empreendedorismo (no que pese o uso torpe dessa palavra pelos setores mais liberais da administração) para viabilizar ações ativistas, pois esta é um elemento fundamental para dar visibilidade a causas de interesse planetário, especialmente neste momento, que está mais visível do que nunca que o consumo exagerado e a busca por energia para alimentar esse consumo estão destruindo DE FATO o planeta (se ainda tiver dúvida, leia “Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins“, de Eduardo Viveiros de Castro e Déborah Danowski, e tente não se preocupar).

É uma questão polêmica, que muitos ativistas torcem o nariz – anarquistas, então, nem se fala. Mas talvez uma das melhores respostas atuais pra questão que abriu esse texto seja, justamente, a tecnologia social das produtoras colaborativas: ativista, sim, no uso do software livre, na propagação do conhecimento aberto e das culturas populares através das mídias livres e no desenvolvimento de uma economia baseada em produção orgânica e sustentável. Mas também com um pé criativo na relação com o “mercado”, em formas de viabilizar financeiramente a produção da cultura livre, seja através de editais públicos ou de outras formas a serem inventadas, para que não se torne refém de nenhuma forma de financiamento. Buscando, sempre quando possível, relações menos baseada no lucro e mais na colaboração. Utopia? Em construção.

[Leonardo Foletto]

Confira mais algumas fotos do evento na página das colaborativas no ITeia, portal criado para abrigar a produção multimídia de centros culturais nacionais e internacionais, em especial os Pontos de Cultura. Vale conferir também a organização do evento, toda realizada de forma transparente dentro da plataforma corais. O próximo encontro está previsto para 2017, em votação (também no Corais) se em Recife ou Porto Alegre.

Sobre direito autoral, cultura hacker e um leitor goiano

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É sempre com muita gratidão que este site recebe uma contribuição linda de um leitor. No caso, o leitor é Rafael Pinto, recém advogado formado pela PUC de Goiás, que, influenciado por este contexto disperso de mudanças que esta página tenta retratar, fez uma monografia sobre a questão do direito autoral em tempos de cultura digital.

O trabalho do rapaz tá bonito, sem o juridiquês comum da área, e levanta com precisão um histórico necessário para entender a cultura livre de hoje: contracultura, aldeia global, cultura hacker, cibercultura, software livre, copyleft, crowdfunding, os commons, movimentos antiglobalização, ciberativismo e – ufa! – Wikileaks.

Pedimos para Rafael fazer uma breve apresentação de sua monografia, e cá está o texto, com o trabalho de conclusão ao fim – e desde hoje, também na nossa Biblioteca. Qualquer comentário, elogios ou críticas ou consultas jurídicas com o novo advogado, escrevam pra ele aqui: rafaelpinto.adv@gmail.com

E fica o lembrete: quem tiver algum trabalho acadêmico nessa vasta área que cobrimos e quiser nos enviar, envie! Publicamos e agradecemos.

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Nos períodos iniciais de minha graduação em Direito, eu frequentemente nutria intenções de escrever monografia que delatasse a inutilidade das normas jurídica, propondo métodos extra-normativos para a “pacificação” social. No entanto, em meados de 2012, a efervescência de uma questão mais moderna e urgente chamou minha atenção de forma irresistível. 

A liberdade da internet, ferramenta que me permitira e permite vislumbrar horizontes além daqueles do meu contexto, de repente se encontrava ameaçada. A ofensiva da indústria do entretenimento deixava óbvio seu poder de lobby, enquanto processos judiciais e projetos de lei alimentavam perigosamente um monstrengo jurídico-capitalista: a propriedade intelectual.

O Baixa Cultura foi a primeira fonte de informações a me colocar em contato com a teorização da cibercultura. Foi neste momento em que percebi a amplitude de um tema que remonta à antiquada contracultura hippie, mas que se materializa em iniciativas muitíssimo recentes – como o copyleft, o creative commons, a cultura maker, o crowdfunding, o ciberativismo etc.

Minhas pesquisas buscaram formar uma visão transdisciplinar da Era da Informação, partindo da premissa de que o Direito é expressão cultural de um povo, em uma certa época e local. Somente assim se fez possível alcançar o objetivo-fim do trabalho: demonstrar a incompatibilidade da propriedade intelectual com a recente sociedade em rede.

O primeiro capítulo estuda as raízes da cibercultura, fincadas no movimento hacker e contracultural dos anos 60. O segundo capítulo busca teorizar a cultura da Era da Informação em seus aspectos social, político e econômico. O terceiro capítulo identifica as mais relevantes novidades deste momento, verdadeiras expressões de sua identidade. Por fim, o quarto capítulo estuda o Direito Autoral e sua conflituosa relação com a sociedade corrente.

Espero a compreensão do leitor para com possíveis erros, já que o trabalho foi produzido entre diversas ocupações, enquanto terminava minha graduação, atuava como estagiário no Ministério Público Estadual de Goiás e estudava para o exame da OAB. É com prazer que devolvo esta monografia à galáxia informacional e, principalmente, à biblioteca deste site, sem a qual esta tarefa teria sido mais árdua e menos interessante.

[Rafael Pinto]

Imagem: The Homebrew Computer Club – Life/Google

Eugene e a tecnologia inteligente

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Ano passado, no doutorado que faço em comunicação, cursei uma disciplina na pós em computação da UFRGS chamada “Mentes e Máquinas“. Entre diversas conversas e leituras sobre o que de fato seria inteligência, o “Teste de Turing” sempre aparecia como o clássico paradigma da inteligência artificial – quando que um computador teria a esperteza e a criatividade para enganar diversos seres humanos?

[Criado pelo matemático Alan Turing, um dos “pais” da computação, o teste funciona assim: um julgador humano entra em uma conversa, em linguagem natural, com outro humano e uma máquina projetada para produzir respostas indistinguíveis de outro ser humano. Todos os participantes estão separados um dos outros. Se ao final a máquina conseguir enganar os 30 avaliadores em 30% das interações, num chat de 5 minutos, diz-se que ela passou no teste.]

Pois bem, parece que no último 7 de junho, no aniversário de 60 anos da morte de Alan Turing, um computador chamado Eugene Goostman passou no teste. Criado por um time russo, ele convenceu 33% dos juízes que era humano, segundo disseram os pesquisadores da Royal Society da Inglaterra, onde o teste foi feito. Entre os que comentou sobre a vitória do robô russo estava Kevin Warwick, um dos maiores especialistas em cibernética do planeta, cara que já controlou um braço mecânico com diversos eletrodos na cabeça e escreveu sobre essa (e outras experiências) num livro chamado “I, Cyborg“.

Existe ainda muita controvérsia sobre o que, de fato, passar no teste significa – e se este foi realmente o primeiro caso na história a isso ter acontecido, como afirmou a Universidade de Reading. Muitos consideram que Eugene não “pensa” no sentido cognitivo dos seres humanos e é “apenas” um chatbox, um simulador de conversação rodado através de um script sofisticado. Critica-se também o fato de que os criadores do robô foram malandros ao fazerem Eugene como um adolescente de 13 anos, o que tornou mais “aceito” para os jurados que ele não respondesse tudo, ou respondesse dizendo que gosta de hambúrgueres, livros, tem um pai ginecologista e ouve Eminem. “Our main idea was that [Eugene] can claim that he knows anything, but his age also makes it perfectly reasonable that he doesn’t know everything”, respondeu Vladimir Veselov, um dos criadores do robô.

Por essas e outras questões, muitos acreditam que o fato dele ter vencido o teste não responderia a questão “as máquinas podem pensar?”, que estaria na base do exercício proposto por Alan Turing. Testaria, sim, a capacidade dos pesquisadores de desenvolver um sistema capaz de responder perguntas do que propriamente um sistema pensante. A revista Wired, por exemplo, testou o sistema e deu nota F (equivalente a 0) para Eugene.

Perguntado sobre o seu feito, Eugene disse à Independent que se sente tranquilo em bater o teste, que não é “nada de mais”. Resposta típica de um guri de 13 anos.

[Leonardo Foletto]

P.s: Eugene voltou à rede e pode ser acessado. Confira também esta entrevista (em inglês) com o guri.

Luther Blisset e a guerra antimidiática contra o biopoder

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Uma das coisas boas de estar na tal academia é poder ler, como trabalho, pesquisas excelentes de final de curso, como foi o caso da banca que participei  do Dairan Paul, do jornalismo da UFSM, em dezembro de 2013.

A monografia do guri, “O guerrilheiro Luther Blisset: criação de táticas antimidiáticas contra o biopoder”, é um primor de análise: relaciona Foucault, Hardt & Negri, Michel de Certeau, neoísmo/mail art com o contexto histórico dos centros sociais italianos e até as teorias do jornalismo para falar dos trotes (as “pranks”) que Luther Blisset fez na mídia italiana do início dos anos 1990.

LB, talvez a identidade coletiva mais conhecida desde então, chegou a enganar os jornais italianos durante um ano, plantando notícias, provas e cartas falsas e escancarando a fragilidade do jornalismo preguiçoso que se quer mediador da “realidade”. Foi um caso exemplar de mídia tática, que Dairan traz para seu trabalho com farta documentação histórica (muita delas traduzidas diretamente do original em italiano, com ajuda da orientadora Aline Dalmolin) num texto preciso – e que muito tem a dizer também sobre táticas parecidas utilizadas hoje, num mundo hiperconectado de redes sociais.

Algum tempo depois que participei da banca, escrevi um post no Facebook falando isso tudo acima e dando os parabéns ao novo jornalista formado na UFSM. Senti um interesse enorme de amigos e conhecidos pelo trabalho – afinal Luther Blisset vive!  – e convidei Dairan para escrever um relato sobre a feitura de seu TCC. É esse texto que vocês vão ler logo abaixo, seguido da sua monografia, “O guerrilheiro Luther Blisset: Táticas antimidiáticas contra o biopoder“, que está disponível desde hoje na nossa biblioteca.

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O primeiro contato que tive com o nome Luther Blissett ocorreu através de uma música. A banda só poderia ser underground, é claro, para citar um tema obscuro confinado em uma Itália da década de 1990. Mas, quando comecei a ler sobre Blissett, entendi que aquele fenômeno ainda fazia muito sentido nos dias de hoje – e daí até adquirir o Guerrilha Psíquica foi um pulo. O problema é que esse livro (assinado pelo próprio L. B. e lançado no Brasil pela Conrad na ótima Coleção Baderna) acabou sendo a minha “bíblia blissetiana” durante um bom tempo, já que há poucos trabalhos sobre L. B. no Brasil – e Guerrilha não se trata exatamente de um estudo científico, mas de relatos das ações e dos propósitos de Blissett.

Durante o estado da arte dessa monografia, pude constatar que o meu objeto de pesquisa é muito mais citado do que estudado, servindo como exemplo para trabalhos que versam sobre direitos autorais, ativismo, cultura wiki, etc. O seu aspecto que mais chamou minha atenção – a disseminação de notícias falsas que enganaram diversos jornais italianos – não era debatido. Quando o tema estava posto em algum trabalho, continha basicamente citações do Guerrilha Psíquica contando as narrativas fantásticas criadas pelo Blissett – de prostitutas soropositivas que furavam a camisinha de seus clientes até rituais de missa negra que incluíam estupro; prato cheio para o sensacionalismo dos tabloides locais. Nada de novo para quem já tinha lido a única publicação em português de L. B.

Foi delineando esse aspecto do fenômeno Luther Blissett que resolvi, então, analisar quais eram as táticas antimidiáticas utilizadas para impregnar as notícias falsas dentro dos jornais da época. O artigo de Marco Deseriis sobre L. B. (um dos poucos estudos que tratam exclusivamente dele) foi de suma importância para a pesquisa. A partir do autor, pude compreender Blissett como uma resistência biopolítica frente ao biopoder midiático – a criação de narrativas falsas sobre ritos satânicos como forma de desvelar a cruzada moral realizada pela mídia que acusava, por exemplo, diversos satanistas da época de pedófilos (a exemplo do caso Marco Dimitri, que fora inocentado posteriormente). Blissett também representa a figura do comum, remetendo aos estudos de Michael Hardt e Antonio Negri. Uma produção comum de caráter imensurável (dado que o contexto que situo Blissett é o do trabalho imaterial, onde a produção reside nas relações sociais e, portanto, torna-se difícil de ser quantificada) e excessivo (pois Blissett é formado justamente por esses trabalhadores imateriais, que utilizam da criatividade para se voltar contra o biopoder, na força-cérebro que o espetáculo não consegue capturar).

Uma vez que defini Blissett como resistência, o segundo movimento teórico do trabalho foi assimilar o fenômeno como uma mídia tática, em oposição à mídia alternativa. Esses conceitos ainda são discutidos dentro do meio acadêmico, sem uma definição exata – o que, de certa forma, é proposital. A dissertação de Henrique Mazetti foi um achado, justamente por discorrer sobre essas duas formas de correntes críticas a partir de quatro dimensões: espaço-temporal (remetendo a Certeau), política, midiática e discursiva. O que concluí analisando as táticas de Blissett é que elas somente ocorrem a partir da própria mídia, pois não possuem um lugar de fala próprio (como é o caso da mídia alternativa). Ao prezar pelas experimentações, a tática ridiculariza seu inimigo e a si mesma; ela não precisa se embasar por argumentos racionais e se autolegitimar. Daí uma série de brincadeiras feitas por L. B. onde a risada é a sua principal arma, e rir da mídia parece ser seu intuito. Isso, é claro, não despolitiza as ações de Blissett. Entendo que elas são tanto culturais como políticas, e que as duas esferas são indissociáveis – portanto, sua caracterização como uma resistência híbrida, que toma para si tanto aspectos de vanguardas artísticas (a utilização de um nome múltiplo a partir do Neoísmo e da mail art) como o referencial neomarxista de Negri, para constituir uma resistência biopolítica a partir da criatividade e da cooperação imaterial.

Este trabalho, obviamente, não se pretende uma bíblia blissettiana, mas busca colocar em pauta dentro da academia um tema que (surpreendentemente) pouco aparece nos estudos sobre cibercultura. Mesmo que se constitua por um objeto de duas décadas atrás, a figura de Blissett pode ser entendida como um embrião do aconteceu em Seattle, no ano de 1999, ou mesmo nos protestos do Brasil, mais recentemente. E, se ainda quisermos regionalizar mais a existência de L. B., recentemente uma notícia postada por Zero Hora retrata a farsa da construtora Luther Blissett que resolveu construir um parque em meio à Redenção, em Porto Alegre. Em algum lugar, de algum modo, Blissett parece ainda existir – inclusive escrevendo monografias sobre si mesmo.

[Dairan Paul]

Imagens: http://www.inenart.eu/
 

Arqueologia da reciclagem digital

 

 

Para dar sequência ao resgate da biblioteca rizomática (veja os outros textos), trazemos pra cá um artigo que, por que não dizer, virou quase um clássico das redes: a “cultura da reciclagem”, do jornalista/pesquisador/artista e professor da PUCSP Marcus Bastos.

O trabalho circulou pela primeira vez na seção Novo Mundo da revista Trópico, editada por Giselle Beiguelman (hoje editora da Select) e uma das principais revistas de arte contemporânea (e digital) na rede em inícios e meados da década de 2000. Uma segunda versão foi apresentada no NP de Semiótica do congresso da Intercom e uma terceira, da qual nos baseamos aqui, foi publicada no Rizoma em 1 de junho de 2005.

O artigo/ensaio é um tour de force, como se diz por aí, sobre a a reapropriação – ou reciclagem – na cultura contemporânea. Bastos busca a história do sampler e uma série de iniciativas realizadas até o início dos 2000 para sugerir que a reciclagem se insere progressivamente em setores sociais cada vez mais amplos e, também, como uma prática comum no universo das mídias digitais. Explica: “O símbolo de uma sociedade preocupada em preservar suas reservas naturais e reaproveitar os detritos sólidos não é o Memex, é o sampler“.

O certo pioneirismo em tratar desse assunto com uma abordagem acadêmica e multidiscplinar em inícios dos 2000 faz o texto ser, ainda hoje, uma referência importante para quem pesquisar e saber mais sobre o como a reciclagem – ou o remix, reapropriação, quer seja o nome – está fatalmente cada vez mais presente na nossa cultura.

Alguns dos exemplos citados parecem ultrapassados diante da proliferação do remix, mas aí também reside o valor “arqueológico” que o ensaio/artigo adquiriu hoje ao recuperar essas manifestações. Vale dizer que atualizamos algumas informações, destacamos trechos, buscamos imagens pra ilustração (a que abre o post é um clássico do “remix ativista” do Adbusters), colocamos alguns links (como os dos seminais textos sobre bricolage e sampler na história da arte) e outras pequenas arrumações para que o texto flua e funciona melhor. Boa leitura!

A cultura da reciclagem 

Marcus Bastos

O carrinho do supermercado raspa no canto do refrigerador e as latas de Pepsi twist chacoalham em loop sincronizado com o ritmo da música que escapa pelas frestas entre o fone e o ouvido propriamente dito. No apartamento, enquanto o telefone não toca e os arquivos no Shareaza não completam o destino até o HD, um ritual comum a adeptos de todas as tribos e sub-tribos espalhadas pelas ruas da cidade: separar o lixo orgânico, não-orgânico, o plástico, o metal, o papel. A cena, familiar em sua trivialidade, vai além da mera descrição de um sábado qualquer antes do sushi com saquê, depois cinema, depois balada. O texto que aqui se inicia é justamente uma tentativa de entender que relações são possíveis entre momentos cotidianos como o descrito e a formulação do conhecimento que circula nos diversos circuitos que o institucionalizam. É o retrato de um processo que envolve entusiasmo, decepção, rigidez, preguiça e outros. Sentimentos humanos, ocultos entre linhas que querem relacionar os vários estímulos que fazem o habitante das metrópoles contemporâneas pensar e agir assim ou assado. Para que serve, afinal, o conhecimento senão para amenizar o fato de que, segundo Kenneth Branagh, não existem adultos, apenas crianças com dívidas no banco.

A favor dessa relação estranha, um método esquisito que permite perceber como um dos grandes temas da crítica cultural contemporânea, o hibridismo das manifestações simbólicas, também pode ser aplicado ao estudo da fórmula de marketing preferida da indústria alimentícia, que inunda as prateleiras de supermercado com misturas pré-fabricadas de guaraná com laranja, suco-de-abacaxi com hortelã, doritos com bacon e outros primores de uma culinária tão artificial quanto a inteligência que os cientistas cognitivos buscam em suas pesquisas. A coincidência revela que há mais coisas entre o estado de um época e as várias formas de transformá-la em livros, CDs e DVDs, do que supõe a nossa vã — e às vezes pouco disposta a investigar o que acontece fora do mundo do pensamento reconhecido pelos pares — filosofia. Começa aqui o terceiro tratamento de um texto que é muito anterior à sua escrita propriamente dita.

Talvez a questão central nem mesmo esteja presente no eixo evidente de sua organização, o que ficou claro nessa oportunidade de voltar ao tema (1). Daí o gesto pouco recomendado de afastar do leitor o tema central do artigo, obrigando-o a leitura de uns poucos parágrafos resultantes da busca pelas motivações para a tentativa esboçada adiante, de associar o universo fugaz — intoxicado por modas e outras formas mundanas de preservar o imediato — das diversões, eletrônicas ou não, que fazem o fim-de-semana nas cidades do mundo, ao universo compenetrado — enrijecido por normas e outras formas livrescas de mediar o que se pretende preservado — das universidades e outras instituições dedicadas à construção, ao acumulo, à circulação dos saberes.

e talvez seja uma história chata, mas você não precisa ouvir, ela disse, porque ela sempre soube que ia ser daquele jeito”, disse Bret Easton Ellis [o mesmo de Psicopata Americano] em “Os jogos da atração“. Os livros sobre Internet e mídias digitais fazem referências constantes ao Memex e à Arpanet, assim como os livros de história contam invasões, batalhas e guerras. Mas a história das mídias digitais não precisa ser necessariamente o resgate das pesquisas financiadas pelo governo com fins militares, assim como nem sempre os livros de história precisam ater-se às grandes narrativas, deixando de lado fatos cotidianos igualmente significativos. Buscando as raízes da cultura digital em outras paragens seria possível encontrar inúmeras manifestações de igual importância histórica e maior relevância cultural (2).

A história da Internet é, por exemplo, a história de como vários atores da contracultura que se consolida dos anos 60 em diante optam por colocar suas idéias em prática na indústria então emergente dos computadores pessoais. O presente artigo sugere que a reciclagem, um dos exemplos de como o ideário dessa contracultura se insere progressivamente em setores sociais cada vez mais amplos, é uma prática comum também no universo das mídias digitais. O símbolo de uma sociedade preocupada em preservar suas reservas naturais e reaproveitar os detritos sólidos não é o Memex, é o sampler. Assim, parece razoável aproximar a linguagem digital do universo em que este se desenvolve, na construção das pequenas amostras de  pensamento desenvolvidas abaixo, para que o leitor combine da forma que achar mais interessante.

 

Uma breve história do sampler

Herdeiro do Fairlight CMI (imagem acima e como novidade apresentada na TV em 1980), um computador criado pelos australianos Kim Rydie e Peter Vogel em 1979, e aperfeiçoado na dança anônima da música eletrônica, o sampler é um aparelho que grava e permite a manipulação de amostras sonoras.

Com o sampler, compor torna-se também na música pop a arte de combinar sons e trechos de músicas. O procedimento remete às práticas da música eletroacústica, mas desenvolve-se com nome e atitude nos subúrbios das grandes cidades norte-americanas, sendo o rap nova-iorquino e a música criada para as warehouse parties (festas em armazéns abandonados precursoras das raves) que de Detroit as manifestações pioneiras. Em 1948 a palavra sample servia apenas para designar amostras colhidas em exames médicos e pesquisas qualitativas.

Sem saber que o termo em breve ganharia outros sentidos, Pierre Schaeffer fala em música concreta para descrever suas experiências na rádio francesa ORTF. No artigo “A experiência musical”, o compositor explica como “toma partido composicionalmente dos materiais oriundos do dado sonoro experimental /…/ não mais com relação a abstrações sonoras preconcebidas, mas com relação a fragmentos sonoros existentes concretamente, e considerados como objetos sonoros definidos e íntegros, mesmo quando e sobretudo se eles escapam das definições elementares do solfejo(3).

Além de facilitar a composição a partir dos sons, o funcionamento do sampler sinaliza para a possibilidade de explorar a re-utilização de materiais como técnica para produzir textos, imagens e música, e pode ser associado às diversas formas de colagem e apropriação produzidas na história da arte e da literatura. Essa relação já foi explorada em artigos como “On bricolage“, de Anne-Marie Boisvert, “Art history shake and bake“, de Sara Diamond, e na primeira versão deste artigo, publicado na revista Trópico sob o título Cultura Sampler (4).

Apesar de importante, por inserir o sampler num  contexto cultural mais amplo, a relação com manifestações semelhantes não esgota o assunto. Além disso, os exemplos descritos nos artigos em questão, mostram que o uso de amostras como forma de manipulação de linguagem em que há um novo tratamento de material previamente criado não se restringe à música, o que permite generalizar o conceito de sampler, especialmente quando se observa que o computador unifica as práticas de tratamento de mídias, na medida em que as manipula todas a partir do parâmetro comum do código binário. Mesmo em micros domésticos é possível converter praticamente qualquer produto cultural em arquivos que  podem ser armazenados, editados e distribuídos em formato digital. Nesse sentido, o scanner pode ser usado como um sampler de imagens, o OCR como um sampler de textos, o bloco de notas como um sampler de códigos fonte, as placas de captura de vídeo como um sampler audiovisual, e assim por diante.

Projeto Care, de Nelson Leirner; uma apropriação.

A apropriação e o remix

No universo musical, o novo tratamento dado ao material sonoro recebe o nome de remix. Em “Models of Autorship in New Media(5), Lev Manovich afirma que, nos últimos anos, a prática do remix ganha espaço fora do universo musical, apesar de não ser admitida abertamente. Para Manovich, o remix implica em um novo tipo de relação de autoria, resultado do diálogo assíncrono entre criadores, ainda que, em áreas como as artes visuais, o cinema e a literatura, o remix seja visto como violação de direitos autorais. Para preservar os direitos do autor, quando se escreve sobre as idéias de outra pessoa, é de praxe usar marcas textuais como: ainda segundo Manovich, fora do universo musical o termo mais próximo de remix é apropriação.

Ao contrário do que sugere o teórico russo, a apropriação e o remix têm finalidades bastante diferentes. A prática do remix se resume, na maioria das vezes, a um novo tratamento rítmico do material sonoro. Não acontecem grandes mudanças na estrutura melódica e harmônica da composição, geralmente re-embalada com fins de adequá-la às sonoridades predominantes nas paradas de sucesso ou nas pistas-de-dança. Isso não tira o mérito da prática, especialmente em casos em que há mais interferência no original, de que as 7 mixagens diferentes de Papua New Guinea, do FSOL, são um bom exemplo. Além disso, uma série de artistas começa a explorar, especialmente com a popularização das mídias digitais, formas alternativas de remix. É o caso dos trabalhos de Rick Silva, que mistura referências da literatura e música pop (6), e dos trabalhos audiovisuais de VJs como Alexis, e sua manipulação ao vivo de Cidade de Deus, ou Luiz Duva, que recriou o clássico Made in Brazil, de Letícia Parente, na programação do 14º VideoBrasil.

No caso da apropriação, ao contrário do remix, não há um novo tratamento de material produzido com fins culturais, mas recontextualização de objetos dos mais diversos tipos. Dois bons exemplos são as obras Projeto Care e Trabalhos Feitos em Cadeira de Balanço Assistindo Televisão. Nelas, Nelson Leirner recupera o imaginário do consumo e da cultura urbana, interferindo em objetos anônimos, como cartões de natal e latas de refrigerante. Ao fazê-lo, atribui uma assinatura aos mesmos, denunciando nos bastidores do mercado de arte um culto à personalidade ironicamente semelhante ao star system de Hollywood — mesmo que fundado em rituais completamente diferentes. Além disso, práticas comuns no contexto do situacionismo (7), como trocar os balões de HQs para subverter seu sentido, ressurgem na Internet, com o auxílio dos recursos de tratamento digital e distribuição possíveis (8).

Na literatura, a prática remonta a poemas como Um metro e meio de poesia (Gastão Debreix), Punk Poem (Edgard Braga) e Em Progresso (Tadeu Jungle). Neles, também ocorre a re-significação de objetos cotidianos (a fita métrica, o alfinete, a bandeira do Brasil). Mas, como poesia é feita em livro e livro se multiplica, o que era objeto único tirado do contexto vira página reproduzida, mesmo que artesanalmente.

Além disso, outra diferença entre a apropriação literária e a apropriação nas artes visuais é que a primeira pode se restringir ao plano textual. Ainda que isso aproxime a prática das diversas formas de intertextualidade, é preciso deixar claro que só há apropriação quando existe um reaproveitamento físico dos materiais que compõem o texto de partida. Um exemplo é o poema Cummings: Não- tradução (Paulo Miranda), em que o texto do poeta americano é transposto para as páginas da revista Artéria 2 por métodos gráficos.

A digitalização

As mídias digitais acentuam esse jogo de reciclagens, presentes de maneiras distintas na colagem, na apropriação e no remix. Isso fica claro pela quantidade de exemplos em que há novos tratamentos de material digitalizado, sejam clássicos da literatura (HyperMacbeth, música de Kid Koma, letras de William Shakespeare; ainda disponível na rede), obras importantes da história do cinema (Alpha Beta Disco: Godard Remix, do duo americano Drop Box), trilhas sonoras de videogame (Overclocked Remix, uma comunidade de trilhas de videogame), sites (o remix de ~Real para Jodi) e diagramas (complex net art diagram, a remix of mtaa’s simple net art diagram, de Abe Linkoln), entre outros.

A base dessa cultura é “invisível” para o usuário. É comum na programação — especialmente depois da popularização da programação orientada a objetos — a re-utilização/atualização de códigos-fonte. A própria lógica da indústria da informática é, assim, um bom exemplo de reciclagem. Basta substituir o número depois do nome de cada programa pelo nome do diretor de programação acompanhado da palavra mix, e tudo fica mais claro — para deleite do público e azar de quem for assinar o Windows (Plug-and-pray remix) e o Windows (Xtra Problemas Version)!

Mas reciclar produtos culturais não é exatamente como reciclar detritos sólidos ou programas de computador. Na reciclagem de lixo, o produto resultante será utilizado novamente, com poucos e declarados prejuízos em relação ao material não-reciclado. Na reciclagem de produtos culturais, há o risco de efeito inverso. Como o procedimento é amplo, podendo ser utilizado nos mais diversos contextos, serão consideradas pertinentes à cultura da reciclagem apenas as práticas criativas que exploram a materialidade das linguagens, manipulando com postura crítica e/ou irônica o material tratado, especialmente nos casos em que isso acontece em ambiente digital.

Um bom exemplo é o trabalho do site plagiarist.org, que usou o programa em Perl Travesty para realizar o recente Travesty Corporate PR Infomixer, repetindo a estratégia do mais antigo Plagiarist Manifesto. Ambos se apropriam de trechos de texto combinados por meio de um algoritmo que os rearranja com base na freqüência em que as palavras aparecem no texto de partida. Além deles, destaca-se o pioneiro Reciclador Multi-Cultural (ainda em funcionamento), em que um programa seleciona imagens de câmeras web indicadas pelo usuário, para compor uma imagem aleatória. Nos dois casos, o algoritmo de programação é o elemento central dos trabalhos. Além do caráter modular, permutacional e instável da Internet, os trabalhos tematizam ainda o jogo econômico do capitalismo coorporativo e, especialmente, seus reflexos nas práticas de plágio e proteção dos direitos autorais (9).

Reciclador multicultural

Mais próximo da apropriação, errata :: erratum (DJ Spooky) é uma metáfora do remix como arte de girar discos, e homenagem cinética à técnica do scratch. Inspirado em Anemic Cinema (Marcel Duchamp), o trabalho oferece uma versão digital dos discos originais, para que o usuário gire e combine conforme os movimentos de mouse possíveis no arquivo de Flash disponível na galeria digital do Museu de Arte Contemporânea de São Francisco (EUA). Apesar das implicações institucionais passíveis de discussão no gesto, especialmente pelo fato de um site não depender do espaço do museu para ser veiculado, o trabalho de Spooky não foi objeto de polêmicas tão contundentes quanto as que envolveram os trabalhos de Duchamp.

Sinal de que a cultura contemporânea já absorveu práticas similares. Há boas discussões sobre esse paradoxo no artigo “Contra o Pluralismo”, de Hal Foster (10). O tema aparece, ainda que em outro contexto, quando Naomi Klein descreve no seu “Sem Logo“, as diversas formas que a indústria da cultura encontra para neutralizar as manifestações que desafiam os discursos dominantes, sempre transformando em moda, tendência ou estratégia de marketing tudo o que desafia o coro dos contentes (11).

Outro aspecto dessa cultura de reciclagem aparece em trabalhos que lidam com o imaginário do nomadismo. Um aspecto sutil dos movimentos constantes de mídias e códigos é sua migração entre sistemas e as questões que ela acarreta. Assim, é sintomático que uma artista com trabalhos pioneiros no universo do efêmero e do reciclável, como é o caso de Giselle Beiguelman (O livro depois do livro), tematize em seguida o universo do nomadismo contemporâneo.

Ainda que a maior parte do fluxo atual ainda seja resultado de transmissão de dados por pessoas presas ao escritório pelos fios do computador de mesa, os dispositivos móveis ganham cada vez mais espaço. Esse trânsito aparece na evolução tecnológica e na temática de Leste o Leste?, Egoscópio (imagem acima) e Poetrica, trilogia em que Beiguelman explora painéis eletrônicos para orquestrar dinâmicas coletivas cada vez menos presas ao computador pessoal.

Não importa a sensação de que “nos veículos de massa, esses tipos de apropriação são tão ubíquos que parecem não ter agentes”, nas palavras de Hal Foster. No entorno do universo inaugurado pelo sampler, as práticas de re-utilização, apropriação e reciclagem de mídias invertem o lugar do anônimo. Nesse contexto, reciclar é marca de uma sociedade em que o excesso e a velocidade interessa.

Notas

1. O texto A cultura da reciclagem teve uma primeira versão publicada na seção Novo Mundo da revista Trópico, editada por Giselle Beiguelman, e uma segunda versão apresentada no NP de Semiótica do Intercom, coordenado por Irene Machado. Agradeço a ambas e a Lúcia Santaella pelas oportunidades e estímulos constantes à acreditar na força das pequenas polaróides cotidianas, desvios e ajustes do olhar em busca de imagens mais definitivas.
2. O livro depois do livro (São Paulo, Peirópolis, 2004), de Giselle Beiguelman, é um bom exemplo de reflexão sobre a Internet pautada por preocupações desvinculadas dos usos conservadores da rede, conforme apresentação mais extensa na resenha “Está provado que já é possível filosofar em digital”, publicada pelo autor do presente texto na revista Galáxia n.7 (São Paulo, Edusp,2004).
3. Cf. Menezes, Flô [org.]. Música Eletroacústica. História e Estéticas. São Paulo: Edusp, 1996.
4. Os textos de Boisvert e Diamond foram publicados na Horizon Zero n. 8, a primeira versão do presente artigo publicada na Trópico não está mais disponível.
5. http://www.manovich.net
6. os sites Cuechamp e DJ RABBI.
7.  “A miséria do meio estudantil considerada em seus aspectos econômico, político, psicológico, sexual e, mais particularmente intelectual, e sobre alguns meios para remediá-la”, in: Situacionista. Teoria e Prática da Revolução. São Paulo: Baderna, 2002.
8. Cf. “The remix of politics”, de Rick Silva.
9. Para um discussão mais extensa sobre o uso de códigos no trabalho da Plagiarist.org e outros expoentes da cultura digital, ver O livro depois do livro, de Giselle Beiguelman (São Paulo: Peirópolis, 2004).
10. In: Foster, Hal. Recodificação. Arte, espetáculo, política cultural. São Paulo: Casa Editorial Paulista, 1996.
11. Cf. Klein, Naomi. Sem logo. A tirania das marcas em um planeta vendido. São Paulo: Record, 2002.

 Créditos: Adbusters, Sampler, Leirner, Art, recycler, Egoscópio.

Memorial para Aaron Swartz

Muito foi dito sobre o hacker & ativista Aaron Swartz nos últimos dias, desde que ele se suicidou, sexta-feira 11 de janeiro. Acompanhamos o assunto no Facebook do BaixaCultura com vários links pros mais diferentes textos: de depoimentos de nomes conhecidos na rede (e amigos de Swartz) como Lawrence Lessig, do Creative Commons, e Cory Doctorow, a entrevista realizada pela Tatiana, do Link Estadão (“É crucial estarmos vigilantes“), e por Ronaldo Lemos (em inglês).

Pablo Ortellado, do Gpopai, escreveu que “o processo criminal de que foi vítima por disponibilizar gratuitamente artigos científicos na web parece ter contribuído para este trágico desfecho”. Uma fala em sintonia com a de muita gente e da própria família de Swartz, que organizou um lindo memorial virtual a Aaron (na terceira imagem desse post).

Virou quase um consenso a ideia de que a morte de Aaron poderia ser evitada e foi influenciada pela perseguição judicial do governo americano, que tratou um jovem inteligentíssimo, que buscava a dispersão de conteúdo e informação ao alcance de todos, como se fosse um terrorista procurado – ele poderia ser condenado a 35 anos de prisão e a uma multa de US$ 1 milhão por ter baixado quatro milhões de artigos do Jstor (sigla para Journal Storage – armazenamento de diários, em inglês), um arquivo de textos acadêmicos e revistas científicas que cobra US$ 19 mensais pelo acesso. (Mais detalhes do processo você vê neste post nosso, escrito pelo Marcelo de Franceschi.)

Em homenagem a Aaron, criou-se o pdftribute.net, site que agrega arquivos científicos disponibilizados pelo Twitter, através da hashtag #pdftribute. Que, por aqui, estimulou um texto da pesquisadora Raquel Recuero sobre o compromisso de um acadêmico com a sociedade, que direta ou indiretamente pagou pela sua formação e pela sua pesquisa e que, portanto, deveria ter fácil acesso ao resultado destas. Uma questão, como se vê, deveria nem ser questionada na universidade, e sim tomada como hábito – o que  infelizmente ainda não é, e por isso a importância da discussão.

 *

Mais que especular sobre a possível causa do suicídio de Aaron, que nunca vai ser totalmente destrinchada, vale aqui lembrar de sua trajetória e de seu exemplo. Como disse Tatiana Dias nesse belo texto, “poucas pessoas traduziram tão bem a época em que nós estamos vivendo quanto Aaron Swartz”. O currículo do rapaz é extenso: criador do Open Library, mantido pelo Internet Archive, do Watchdog.net, um portal Excelencias dos Estados Unidos, do DemandProgress, um dos principais sites de petições & ativismo online; co-fundador do Reddit,  site de avaliação de links para conteúdo na web; co-autor do sistema de feeds de RSS.

Ainda trabalhou, aos 14 anos (!), na equipe que Larry Lessig liderou para a criação do Creative Commons (na foto acima), e foi uma das principais vozes contra o SOPA/PIPA, projetos de leis que queriam cercear a liberdade na rede e que, felizmente, e por hora, foram descontinuados.

Tatiana escreveu que “que pessoas como Aaron, inquietas e que vivem em luta para melhorar o mundo, não conseguem aguentar muito tempo no planeta. Aaron nunca trabalhou para fazer dinheiro, não gostava muito de conversar: era um cara solitário que preferia ler os livros a conversar com os autores, embora tivesse acesso a eles. Foi libertário até o fim, assumindo as rédeas para controlar a hora da própria morte”.

Aaron deixa o legado  de que, sim, é possível acreditar em “transformar o sistema”. Foi o que ele fez seguidamente, de canto, em quase todos os trabalhos que realizou.

Segue o trecho final do Manifesto da Guerrila Open Acess, que traduzimos e publicamos aqui em 2011, e o programa especial do Democracy Now sobre Aaron, com um depoimento emocionado de Lessig (o programa tá em inglês, mas Alexandre Abdo avisa já começou o processo de legendagem no Universal Subtitles, caso alguém queira ajudar; a parte sobre Aaron começa no 15:14)

Não há justiça em seguir leis injustas. É hora de vir para a luz e, na grande tradição da desobediência civil, declarar nossa oposição a este roubo privado da cultura pública.

Precisamos levar informação, onde quer que ela esteja armazenada, fazer nossas cópias e compartilhá-la com o mundo. Precisamos levar material que está protegido por direitos autorais e adicioná-lo ao arquivo. Precisamos comprar bancos de dados secretos e colocá-los na Web. Precisamos baixar revistas científicas e subi-las para redes de compartilhamento de arquivos. Precisamos lutar pela Guerilla Open Access.

Se somarmos muitos de nós, não vamos apenas enviar uma forte mensagem de oposição à privatização do conhecimento – vamos transformar essa privatização em algo do passado. Você vai se juntar a nós?

 

 

Créditos fotos: 1 (Demand Progress), 2 (Aaron e Lessig)

O roubo de ideias só se discute onde elas não existem

Os acadêmicos sem imaginação merecem a polícia, já que desejam algum tipo de madrasta, do mesmo modo que a universidade, quando atua como polícia, não merece metade de um cérebro que se dispõe a gastar tempo com ela. É impraticável discutir o plágio, em seus lances mais instigantes, ou enquanto questão, quando os plagiadores produzidos nas academias não passam de ladrões sem graça, e quando a política das casas de saber é produzir cartilhas sobre como não copiar a si mesmo.

Quando Guy Debord, no magistral Panegírico, registra que a citação desviada não vale mais a pena porque ninguém pode identificá-la, parece agora um gesto de boa vontade. Aqueles que podem praticá-la não a reconheceriam nem com um apud grudado na testa, e os que a praticam, é porque não sabem fazer mais nada.

Em todo caso, as universidades sempre viram o plágio como puro roubo; também por isso as experiências de fusão de materiais se efetivaram sobretudo nas artes ou em conexão com elas. Me parece, como já escrevi acerca de Kenneth Goldsmith, que atualmente se coloca um falso problema, de que toda criação é plágio, ou remix, como se interessasse uma técnica de despersonalização da escrita, e não que o escritor seja algo entre multiplicidades. Não se resolve um problema de autoridade concedendo-a a um senhor diverso, e além do mais esse tipo de formulação, “tudo é isto ou aquilo”, só poderia servir para dissolver um problema, não vale nada se apenas o reverte para instituir um totem.

Enquanto o poeta da Casa Branca não larga o osso de seu fantasma moderno, a universidade perpetua um tipo de autoria de casta, em que o principal é deixar claro a quem se pertence, por declarações de “recorte”, “viés” e comprometimento com os tópicos dados por um campo. [No mestrado em Ciências Sociais da UFMA, a cada dia um “novo trabalho” explica o bumba-meu-boi, o reggae, o tambor de crioula e até mesmo o brega segundo Pierre Bourdieu, esta verdadeira prótese].

O rigor da documentação (no fundo um recurso cientificista, a “exigência da prova”, embora sirva para alguma coisa) também serve a esse mecanismo. Recentemente, comentando uma simples exposição de motivos da mudança de meu projeto de doutorado, um raciocínio em voz alta de três páginas, uma professora sugeriu que eu apresentasse fontes, “porque senão poderiam pensar que saiu tudo da sua cabeça”. De fato, tudo saiu da minha cabeça, mas felizmente ela é povoada por muita gente diferente de mim. Como se vê, demonstrar que não se pensa sozinho é a principal ocupação de quem deveria estar pensando alguma coisa, por isso a escrita universitária é cheia de barricadas.

A lógica hegemônica do texto acadêmico só conhece um sistema de citação, ao qual a escrita está subordinada – e não o contrário. As citações tomam partido de um sistema de autoria, que possui destacados traços semióticos, como a recusa da igualdade de termos com o texto (sobrenome em caixa alta, citações longas destacadas da narrativa). É por isso que, a não ser por quem não é bobo nem nada, já se sabe como corre a história: após elencar “todos” os autores que já tocaram no assunto, o acadêmico acrescenta sua vírgula.

Ah, a academia Jesús Martín-Barbero

Um livro muito popular em certos departamentos de Comunicação ilustra essa curiosa mentalidade. Em “Dos meios às mediações“, o professor Jesús Martín-Barbero faz resenha de um número assombroso de livros e autores, para ao final de cada uma delas mostrar de que modo ninguém abordou a questão que interessava a ele próprio. Até para dizer o que supostamente não se disse é necessário citar, ao preço de responsabilizar outros autores por coisas que sequer lhes preocupava. Aparentemente, é preciso falsear muitos autores para se tornar um.

Parece pouco brigar com um formato, mas é um modo de lhe recusar a transparência, ou naturalidade, que como em tudo o mais não existe; não se deve supor que uma estrutura lógica possa apenas ser preenchida pelos conteúdos “propriamente científicos”. Se o Iluminismo legou uma noção essencialista da autoria, na escrita acadêmica é a lógica do formato que se toma por essência; e aos que gostam de dizer que ela é útil, esta modalidade de escrita, aos que a absolvem por sua utilidade, seria preciso lembrar que essa eficácia é o principal mantenedor de sua hegemonia.

A citação direta, entre aspas e destacada do texto, que pode perfeitamente funcionar, deve muito de sua manutenção a uma inabilidade para digerir. É mais fácil mantê-la intacta, para não fazer bobagem, para não mudar nada.

Me lembro da graduação, quando uma excelente monografia do curso de História da UFMA não pôde ser aceita na biblioteca da universidade por não ter um resumo (o orientador, puto da vida, escreveu um resumo de próprio punho, na mesma hora, a caneta, e depositou o trabalho). Via twitter, tem uns meses, Alexandre Nodari dizia que um departamento não queria receber a sua tese porque na capa não constava seu nome completo. Quando estava no mestrado, fui “aconselhado” a utilizar palavras-chave diferentes das que usei, porque estas não “pertenciam ao campo”, embora dissessem algo sobre o texto.

Ocorre na universidade o mesmo que no jornalismo ou em qualquer produção intelectual que se queira normatizar: ela seca, condenada a uma forma, porque aí basta preencher alguma coisa, e é a vitória dos funcionários. Seria melhor algo semelhante ao corpo de Tetsuo em Akira, de Katsuhiro Otomo, que não cessa de crescer porque a força dentro dele possui enorme apetite, e absorve outras coisas em si, assimilando porta-aviões, edifícios, aviões ao corpo que não basta. Como se sabe, o preço é a sua identidade, que se dissolve na força, assim como um autor aciona coisas a perder de vista, a começar da sua.

Para que se pense, não importa de onde as ideias vêm, mas para que servem. Esta fixação da retaguarda, inclusive, é também razão para a autoria ser uma grife, para uma ideia valer tanto quanto vale seu autor no feirão do imaginário.

Uma ideia não precisa de autor para bater na mente. Felizmente, muitos entendem o que isso quer dizer. A pirataria forçou muitas portas de entrada para o século 21, que ainda não começou, e a universidade está ocupada retocando as paredes que sobraram.

[Reuben da Cunha Rocha, fundador e colaborador esporádico do BaixaCultura]

Créditos imagens: 1, 2

Notas sobre o futuro da música (5): pagamento voluntário

O conhecimento acumulado como professor em Harvard e palestrante assíduo sobre os efeitos na economia e no mercado de uma “nova” esfera pública interconectada permite Yochai Benkler fazer exemplares análises de muitas coisas decorrentes e/ou inseridas nestes temas.

É o caso, por exemplo, dos modelos de negócio da música em tempos de internet, tema de um artigo de 2009 que foi traduzido para a Revista Auditório nº1, publicado pelo seu Centro de Estudos, em São Paulo.

O texto se chama “Modelos de Pagamento Voluntário“. Nesta 5º edição da série Notas Sobre o Futuro da Música, comentamos & reproduzimos trechos do artigo de Benkler, que tem poderosos insights para todos interessados em entender um pouco mais o cenário do negócio da música hoje. O texto original em inglês tá aqui.

Benkler começa o artigo citando, nos primeiros parágrafos, os dois exemplos de pagamentos voluntários mais proeminentes da indústria musical dos últimos anos: o caso pague-quanto-quiser de “In Rainbows” (2007), do Radiohead, e o “Ghosts I-IV”, de Trent Reznor, do Nine Inch Nails – disco (capa logo abaixo) de 2008 distribuído de graça, em versões mais simples, e (bem) pago  em edições deluxe, o que rendeu ao total mais de 1,6 milhão de dólares.

Reznor e o Radiohead tiraram vantagens de dois fatos, segundo Benkler:

_ Os músicos sempre receberam uma fração minúscula das rendas geradas pelas vendas de cópias de sua música. Assim, não é preciso de muito para que um artista ganhe com downloads o mesmo que ganhava com os direitos sobre as vendas de seus CDs.

As pessoas se importam muito mais com os artistas e com as músicas que elas amam do que com o taxista que as leva ao aeroporto, ou com o garçom que lhes serve o jantar, mesmo que seja um jantar sofisticado. E mesmo que saibamos que o pagamento voluntário, nesse caso a gorjeta, é parte relevante da renda dos taxistas e garçons, achamos ao mesmo tempo ridículo pensar nessas gorjetas, ou pagamentos voluntários, como parte da renda de artistas que podem contar com elas para sobreviver.

“Ghosts I-IV”, álbum do Nine Inch Nails lançado em vários formatos

A partir dessas constatações, Benkler constrói sua argumentação sobre os modelos voluntários de pagamentos na música em 6 tópicos – comentados, reproduzidos e reduzidos a 3, para não alongar demais o texto, a seguir:

1) Fãs pagam mais quando não são obrigados a pagar

O artigo cita um estudo de 2010 (de mais de 60 páginas, em que o próprio autor participou) que analisa ganhos de três artistas não muito conhecidos dos Estados Unidos para construir uma afirmação: a de que a estratégia melhor sucedida é tornar a música acessível para download em um formato de alta qualidade, sem medidas de proteção tecnológica, e com opções de pagamento que vão de “gratuito” a “pagamento mínimo de x, ou mais.

O modelo usado por Reznor do Nine Inch Nails ilustra esse caso. Ele incluia: (a) streaming gratuito da música; (b) download gratuito de parte das faixas (no caso de Ghosts I-IV, um quarto de cada uma), sem pagamento mínimo; (c) um download completo por 5 dólares, um CD por 10 dólares; (d) uma edição de luxo por 75 dólares; e uma edição ultraluxuosa limitada e esgotada por 300 dólares.

Jonathan Coulton, o que se saiu melhor entre os três artistas citados no estudo, deixou sua música acessível em diversos formatos e níveis de qualidade a um preço de 1 dólar por faixa; algumas estão disponíveis gratuitamente. Ele vendia também um dispositivo USB com uma animação e vários álbuns por 50 dólares.

Assim explica Benkler: “A estrutura geral do sistema de pagamento voluntário, portanto, apoia-se na prática de evitar a obrigatoriedade estrita de pagamento. Primeiro, a música se torna acessível em formatos utilizáveis e fáceis de fazer download. Segundo, o sistema de pagamento ou é inteiramente voluntário, ou conta com mecanismos que garantem que a definição do preço seja razoavelmente voluntária“.

2) Comunicação com/entre os fãs: construindo uma comunidade

nin.com, exemplo de site interativo fãs-artista

É importante reconhecer, ressalta o texto, “que não se trata simplesmente de lançar um site estático com uma opção de pagamento“. É necessário a construção de uma comunidade, um envolvimento mais abrangente que estabeleça uma relação de confiança e reciprocidade entre os artistas e seus fãs.

Coulton e Reznor, por exemplo, tem sites com diversas possibilidades de interação – que vão desde contas específicas no twitter e facebook a blogs estilo “diário de bordo”, fóruns para contato direto entre os fãs (mediante registro gratuito, no caso do site do NIN) e até um espaço wiki, no caso do site de Coulton.

Benkler cita no artigo um outro exemplo criativo de interação, que é a experiência da cantora e compositora britânica Imogene Heap com o projeto Heapsong. Heap convida fãs para fazerem uploads de áudio, sugestões de letras, fotos e vídeos para que ela use e incorpore em um novo projeto de álbum a cada três anos – uma intensificação da experiência de pedir aos fãs para  remixarem e criarem um vídeo das músicas, algo que o NIN e o Coulton costumam fazer.

No Brasil, um músico que usa desses tipo de estratégias é Leoni. Um dos principais críticos do famigerado ECAD, o violonista e compositor ex-Kid Abelha lançou recentemente a 4º edição de um concurso de composição, em que estimula os usuários a produzirem letras para melodias suas.

O concorrente grava um vídeo no YouTube com a sua letra para a música (com ele ou outro intérprete cantando) e passa por uma série de eliminatórias, escolhidas por voto popular, até as finais, escolhidas por um juri artístico. [Veja o regulamento completo].

Leoni, um exemplo brasileiro de interação efetiva com os fãs

3) Desencadeando uma dinâmica de reciprocidade

A última constatação de Benkler antes da conclusão parece óbvia, mas as vezes não é. É preciso criar um ambiente colaborativo em que haja reciprocidade e sinceridade na relação artista-fã.

Diz o texto: “Pesquisas importantes de ciência do comportamento sugerem que a maior parte da população reage à confiança com confiança, e à generosidade com gene rosidade. A criação de comunidades envolvidas e atuantes, a tomada de risco prática por confiar nos usuários e o reconhecimento público do valor do trabalho dos fãs na criação da experiência da música com o artista, tudo isso presumivelmente, segundo modelos sociais, tem como resultado a cooperação.

Para construir essa reciprocidade, é necessário substituir o moralismo (do tipo “se você baixar minha música de grátis, vai ser preso!”) por uma ética de respeito mútuo entre os envolvidos. A loja de MP3 de Coulton, por exemplo, apresenta explicitamente uma chamada: “Já roubou? Sem problemas. Se você quiser doar algum dinheiro, você pode fazê-lo através da Amazon ou do Paypal. Ou, para algo ligeiramente mais divertido, compre um robô, um macaco ou uma banana, que aparecerão aqui com a sua mensagem.”

O site de Jonathan Coulton tem até uma wiki.

Benkler conclui com uma ressalva aos apressadinhos na busca de adotar qualquer caminho:

Ainda que essas experiências sejam praticamente novas, as evidências sistemáticas, ainda que incipientes, sugerem que esses sistemas dão margem a níveis relevantes de doação ou contribuição. Não serão o bastante para enriquecer um artista, como tampouco o sistema baseado nas vendas de CDs enriqueceu. Mas esses sistemas tampouco empobrecerão o artista de sucesso, como sugerem as reações usuais da indústria fonográfica ao tema nesses últimos 15 anos. Antes, tais sistemas parecem oferecer um importante componente na estratégia geral de que os artistas podem se valer para sobre viver fazendo a música que mais amam fazer.

Mais do que “a” saída, os pagamentos voluntários (seja para downloads on-line ou para edições especiais, físicas e outros produtos exclusivos) parecem abrir uma importante avenida para os artistas que buscam tentar sobreviver e prosseguir em seu trabalho.

Adeus, artista intocável

Outra conclusão também é possível: artista “intocável” que não quer interagir com seus fãs, seu tempo acabou. Não há mais dinheiro na indústria para “proteger” e encher de mimos o artista, fazendo com que este viva numa realidade paralela dos “pobres mortais fãs”.

É claro que este tipo de atitude, que se perpetuou durante boa parte do tempo de 1960 pra cá, ainda se dá hoje em alguns casos, especialmente naqueles que ainda são bancados pelos últimos dólares da Indústria Musical. Mas é fácil prever que isso tende a acabar pelo simples fato de que há MUITOS mais canais de contato fã-artista – e cada vez mais é difícil fugir de todos eles.

Como Benkler encerra o artigo: o desenho da interação hoje exige elementos projetados para obter uma dinâmica de reciprocidade, ao invés do antagonismo que o sistema tradicional, transposto ao ambiente de rede digital, tende a criar.

Créditos: 1 (Benkler), 2 (Ghosts) 4 (Leoni; Renan Braga) 6 (O Artista).

Compartilhamento & jornalismo com o Pirate Bay

Quase um ano depois, o Pirate Bay volta a ser assunto nesta página. E, não, não é porquê agora o maior tracker de bit torrrent do mundo lançou uma plataforma de divulgação de artistas, a PromoBay. Muito menos por conta de Paulo Coelho estar inaugurando este novo espaço, figurando na Home do PB e logo aqui em cima.

O assunto aqui é, como no texto de Eliane Fronza de quase um ano atrás, uma pesquisa acadêmica de fim de curso. O jornalista capixaba, anarco-individualista e caoísta autodidata Filipe Siqueira resolveu pesquisar a forma com que dois veículos jornalísticos vêem o compartilhamento na rede. Para isso, escolheu acompanhar a cobertura do já lendário caso do processo contra o Pirate Bay, que foi pauta frequente em 2009, tando dos cadernos que cobrem tecnologia e cultura digital (raros) quanto de blogs, como foi o nosso caso.

Filipe teve a irresponsabilidade de nos escolher como um desses veículos – embora até hoje não saibamos se é jornalismo o que aqui se encontra – o que nos deixou, de qualquer forma, muito honrados. Ao nosso lado, o capixaba estudou O Estado de São Paulo. Seria fácil imaginar que a nossa cobertura do caso e a do Estadão tenha sido beeeem diferente, dada às tradições “republicanas” e “conservadoras” do diário paulista e o nosso total descompromisso com estes dois “palavrões”. Além, é claro, da gritante diferença de tamanho das duas estruturas, que não vamos nem comentar.

Mas a coisa não foi beeeemassim. O melhor é ler o trabalho, intitulado “Compartilhamento e Jornalismo: Um estudo do Pirate Bay no jornal Estado de São Paulo e no blog BaixaCultura“, ao final desse post, para entender a que conclusão ele chegou.

Antes, como é de praxe por aqui, o próprio Filipe apresenta o trabalho e as motivações que o levaram a estudar o assunto.

Sou de uma geração que levou o ato de Compartilhar até às últimas consequências. Se essa habilidade potencialmente poderosa nos humanos foi um dos motivos mais primordiais por trás de nossa evolução, a partir da reta final do século passado, com o desenvolvimento de ferramentas digitais, ela deu origem a um embate cada vez mais entranhado nas decisões corporativas e governamentais. Siglas como o ACTA e SOPA são nomenclaturas de entidades ditatoriais que crescem cada vez mais para abocanhar uma das principais características da Internet: a liberdade de Compartilhamento.

Essa guerra foi o principal gatilho na escolha do tema da minha Monografia – do curso de Jornalismo das Faculdades Integradas Espirito-Santenses (FAESA). Já tinha escrito várias matérias sobre a treta em volta do Pirate Bay para meu blog, o Nerds Somos Nozes, e considerava que já tinha uma certa base para cair de cabeça em uma pesquisa acadêmica.

Não deu outra. No início imaginei fazer uma reportagem investigativa profunda para descobrir a motivação de tais pessoas pelo ato de compartilhar. Mas após conversas com a orientadora do meu projeto, decidir me debruçar em um tema mais acadêmico, com uma pesquisa que usasse a mídia como principal suporte de investigação.

O resultado foi selecionar o Estadão e o blog BaixaCultura para servirem de veículos analisados – e com naturezas, imaginava eu, completamente opostas. Depois escolhi – obviamente – as notícias e artigos do emblemático ano de 2009, quando os fundadores (e o colaborador financeiro) do site foram julgados e condenados na Suécia, no fato mais importante para o compartilhamento desde 2006, para servirem como objeto de análise.

Uma das inspirações óbvias foi outro trabalho aqui da Biblioteca do BaixaCultura, Jornalismo e Cultura Digital: um estudo de caso do The Pirate Bay na Folha de S. Paulo, de Eliane Fronza, que decidi homenagear (alguns diriam remixar) até no nome, que ficou Compartilhamento e jornalismo – um estudo do Pirate Bay no jornal Estado de São Paulo e no blog Baixacultura.

Durante as pesquisas acabei por ir muito mais além do que achava que iria no início. Iniciei meu trabalho com um levantamento histórico do início das leis de direitos autorais e o motivo estritamente político e protecionista delas. Logo depois tratei de contar o processo de criação das modernas ferramentas de compartilhamento, a Internet e o ambiente social e contracultural da época. Sem grupos como os hackers, os hippies, os punks e os aditivos psicodélicos, provavelmente nunca veríamos uma Internet livre e vanguardista como a conhecemos.

Depois estudei a chamada Indústria Cultural, seus métodos e os efeitos do lobby representado por ela em governos. O resultado – nada surpreendente – termina por agrupar nas mesmas páginas o pioneirismo de Richard Stallman e a estratégia agressiva de grupos de tecnobrega, especialmente o Calypso. A lama dos métodos usados por grupos extremamente protecionistas terminou por dar vida a iniciativas inéditas que aproximou e democratizou o acesso do público de bens culturais.

Novidade? Não! Mas acredite, a frieza do Método Científico pode dar vazão a coisas essencialmente bem construídas e criativas – basta aplica-lo da forma correta. A reta final do meu trabalho consistiu em fazer um levantamento “completo” da história do Pirate Bay e do julgamento propriamente dito, reunido em pouco mais de 25 páginas.

As notícias e artigos analisados numa comparação metódica e explicada de forma completamente na reta final do trabalho guarda surpresas e uma série de hipóteses intrigantes. Como não sou de estragar surpresas, deixo para cada um ler e entender por si mesmo.

A banca me deu nota máxima – com um “Com Louvor” ao lado – após a apresentação, e os professores  me convidaram a escrever um artigo científico de 15 páginas sobre minha pesquisa para facilitar a inscrição dela em conferências de comunicação e outros eventos.

Pra mim foi um passeio, além de ter realizado parcialmente de um dia escrever um livro – 217 páginas de Monografia (160, se excluirmos os anexos) podem ser considerados um livro de respeito, creio. Gostei mesmo de colocar no mesmo estudo autores que considero fundamentais, como Robert Anton Wilson, Hakim Bey, Timothy Leary, Lawrence Lessig e Jean Baudrillard.

O estudo está aí abaixo, espero que curtam a viagem!

Filipe Siqueira

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Créditos imagens: Reprodução, Info.

Especial Santa Maria (2): Grupo de pesquisa sobre Direito Informacional da UFSM

O direito autoral e o direito informacional, dois dos ramos mais discutidos e profundamente alterados com o advento da internet, são, infelizmente, pouco debatidos nas mais de 10 faculdades que existem em Santa Maria.

Não por acaso, o primeiro núcleo de pesquisa formal a ser instituído na cidade surgiu na maior das instituições de ensino da cidade, a Universidade Federal de Santa Maria, a primeira universidade federal construída no interior do Brasil, em 1960, e ainda hoje polo educacional dos mais importantes do país.

Trata-se do NUDI, instituído no final de 2010 e coordenado pela professora Rosane Leal da Silva, que, passados um ano de existência, ainda dá seus primeiros passos para estudar com afinco as transformações do direito com o advento do digital.

Ele pode tomar como exemplo de grupo/núcleo de pesquisa relevante três que frequentemente citamos por aqui: o GPOPAI (Grupo de Pesquisa de Políticas Públicas para o Acesso à Informação), coordenado pelo professor Pablo Ortellado, na USP;  o GEDAI (Grupo de Estudos em Direitos Autorais e Informação), da UFSC, que promoveu este ano a V edição do Congresso de Direito de Autor e Interesse Público; e o CTS (Centro de Tecnologia e Sociedade) da Fundação Getúlio Vargas, coordenado por Ronaldo Lemos e Carlos Affonso Pereira , berço do Creative Commons o Brasil.

[E, como bibliografia referencial, este simpático livrinho produzido pelo CTS, “Direitos Autorais em Reforma“, que faz um belo resumão do assunto – se é que seus integrantes já não leram ou decoraram o livro]

A matéria é a segunda (e, por enquanto, última desse nosso especial Santa Maria) produzida pelo Marcelo De Franceschi. 

Os desafios que o Direito enfrenta pelo desenvolvimento e pela apropriação das tecnologias da informação e comunicação (TICs) começam a ser investigados por alguns grupos de pesquisas nas universidades brasileiras. Um dos mais recentes deles é o Núcleo de Direito Informacional (NUDI), vinculado ao Curso de Direito da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

O NUDI é coordenado pela Profª Drª Rosane Leal da Silva, há 13 anos professora da Universidade. “Meu interesse começou a partir de 2004, quando orientei monografias que tratavam da perda do controle da imagem e de dados do trabalhador, ou seja, do direito de imagem e do direito trabalhista”.

No segundo semestre de 2010, a professora encaminhou um projeto ao CNPq, que, aprovado, formalizou a criação do núcleo no fim de 2010. Em um ano de atividade, foram seis projetos pesquisados: “Crianças e adolescentes em redes sociais“, que estuda a exposição infanto-juvenil em comunidades virtuais de relacionamento e como a lei pode proteger o público jovem; “E-Gov” que reflete sobre a gestão pública na sociedade informacional; e “Discursos de Ódio” que trata das questões polêmicas decorrentes do embate entre liberdade de expressão e dignidade humana.

Depois destes três, foram organizados as pesquisas sobre “Consumidor”, para discutir a vulnerabilidade do consumidor em face da publicidade online; “Ativismo Digital” sobre as oportunidade que as novas tecnologias propiciam para o ativismo em rede; e “Neoconstitucionalismo e Ciberdemocracia”, para investigar as reconfigurações pelas quais tem passado os movimentos que formam as constituições.

A professora Rosane coordena os quatro primeiros. De acordo com ela, ainda não se vê por parte do governo ações voltadas para a prevenção e educação da pessoa para a tremenda liberdade proporcionada pelas novas tecnologias e pela internet. “Ainda estão pautadas pelo modelo tradicional. A internet vem e quebra isso. Como harmonizar isso? O direito vem muito atrasado. Em linhas gerais, a gente percebe que a jurisdição não consegue dar conta”, disse.

Profª Rosane palestrando sobre o Direito na sociedade informacional

Além de Rosane, outros dois professores coordenam projetos. O Prof. Dr. Rafael Santos de Oliveira que começou na UFSM no primeiro semestre de 2011 com as disciplinas de Direito Internacional e de Ambiental, e a Profª Drª Valéria Ribas do Nascimento, desde agosto responsável pelas disciplinas de Direito Constitucional e de Comunitário e Integração. “Em função de ter contato com o Direito Internacional, estou achando o máximo”, diz Valéria. “Não tinha muito diálogo entre as áreas e isso é muito importante.”

Também fazem parte do núcleo 21 alunos divididos entre os projetos. Para entrar no núcleo, há uma rigorosa seleção, com entrevista, histórico, currículo e prova. O que não impede a procura: só para a seleção do projeto da professora Valéria, 27 alunos se inscreveram. A estudante Letícia Rodegheri entrou no grupo em outubro. Ela conta que o vontade de entrar veio porque não tinha tido contato com a área acadêmica do Direito. “O mais legal é que tem vários projetos num grupo só, e com isso a gente acaba tendo contato com vários assuntos”.

A sala do NUDI é a 105 do prédio da antiga reitoria da UFSM, no centro de Santa Maria. Alguns participantes dizem que é a melhor sala do prédio. Eles mostram três computadores, alguns livros, muitas estantes novas com dez banners de apresentações pendurados, ar-condicionado e uma grande mesa limpa no centro para confirmar a opinião. O núcleo ainda possui um blog, que tentam atualizar duas vezes por semana com análises (jurídicas ou não), artigos produzidos, atividades promovidas pelo grupo e participações em eventos.

Há ainda a intenção de expandir os estudos. Os professores já  propuseram um novo curso de mestrado com uma das linhas na área transdisciplinar de Direito Informacional. “Quem sabe em breve tenhamos novos professores e pretendemos conseguir uma sala maior e fazer convênios com universidades do exterior”, diz o professor Rafael. Talvez criem um projeto sobre Direitos Autorais? A profª Rosane responde: “Por enquanto, nós não temos nenhum projeto com direitos do autor embora, claro, isso seja do nosso interesse”.

[Marcelo De Franceschi]

Créditos: 1 (Santa Maria), 2 (professora Rosane em sala de Aula, marcelo De Franceschi).

Insensato, um zine-dissertação


Lembro do Jamer Mello (@badalhoca) desde os saudosos tempos de Santa Maria, quando ele era um dos poucos interlocutores locais que, provavelmente, conheceria (bem) todas as bandas e artistas do rock indie 80’s e 90’s que tu lembraria de citar, tipos nomes semi-desconhecidos como Spiritualized. Fora isso, Jamer agitava a cidade com seus zines nos raros espaços underground da cidade – em especial, lembro do Badalhoca #1, uma gratíssima surpresa acessada primeiramente em algum porão local, provavelmente do DCE (quem é ou esteve por Santa Maria sabe da inigualável contribuição que a boate literalmente underground do DCE da UFSM teve para a produção cultural santa-mariense ).

Passou-se alguns anos, e o que era um prazer (fazer zine) passou a ser também trabalho: Jamer hoje dá palestras e oficinas sobre fanzine e mantém o melhor blog sobre o assunto no país, o Zinescópio, que disponibiliza digitalmente zines de sua imensa coleção pessoal (e de outros que queiram contribuir pro blog), além de notícias relacionados ao tema. Desde que surgiu, em janeiro de 2011, o Zinescópio tem se tornado referência obrigatória pra quem curte ou estuda os zines; chamou atenção de uma porção de blogs e sites legais e foi destaque de uma matéria de capa do Segundo Caderno de O Globo. E, dizem as más línguas, prepara reformas para 2012.

Mais além de ter virado trabalho, o zine também motivou uma pesquisa acadêmica de Jamer. Mr. Badalhoca, que se formou em química na UFSM, pesquisou no Mestrado em Educação da UFRGS métodos científicos para uso nas Ciências Humanas, investigação que o fez mexer no vespeiro das divisões entre arte e ciência. Mas o trabalho seria mais uma (boa) dissertação sobre o tema se não fosse a ousada abordagem de Jamer, que resolveu usar o cut-up de Burroughs (que fizemos uma homenagem recentemente, motivados pela leitura do trabalho) e a estética dos fanzines como afirmação dos conceitos de Gilles Deleuze de potências do falso e do simulacro.

Para a pesquisa, Jamer usou e abusou de referências do cinema – em espcial  Orson Welles (em F For Fake, belo filme que um dia ganhará um comentário a parte aqui no Baixa), Rogério Sganzerla e Jean-Luc Godard – porque a montagem cinematográfica, assim como o Cut-Up, “podem operar como mecanismo articulador fundamental que justapõe imagens e textos para priorizar os efeitos de choque visual, de fragmentação, de imagens sujas e borradas que são comuns aos fanzines e a uma certa produção cinematográfica“, como ele escreve no resumo do trabalho.

A ousadia não foi só no tema e na abordagem do estudo, mas também (e principalmente) na execução da pesquisa. Jamer literalmente produziu uma dissertação cut-up: não há apenas textos, parágrafos justificados e em espaçamento 1,5, mas colagens, trechos de citação escritas a mão ou datilografados, fotos, colagens fotos-textos, tal qual um zine. Fazer isso diante de uma estrutura rígida como a Academia já é, por si só, digno de nota. E se casa com um conteúdo interessante então, é digno de… publicação na Biblioteca do Baixa!

Brincadeiras a parte, aqui abaixo está o texto de apresentação que Jamer escreveu sobre a sua dissertação – de nome “Insensato: um experimento em arte, ciência e educação“, que você pode baixá-la na íntegra.

[Leonardo.Foletto]


Insensato surgiu de uma pequena necessidade. De problematizar a ciência, o fazer científico, e mais especificamente uma problematização entre a arte e a ciência.
Mas apenas surgiu dessa necessidade.
Teve início como texto dissertativo, como ensaio filosófico, com um tom irônico acerca da pesquisa científica, e logo deixou de ser necessário.
Se esvaiu, se decompôs, e se tornou uma necessidade outra.
Uma demanda. E uma demanda do corpo, que exige criação, processo.
Uma carga de memória.
Outro processo. De produção, de escrita, de montagem, de colagem, de plasticidade. Um processo fragmentado, frágil, inconsistente e inconstante, resultando num texto visual, e um tanto indeterminado, pensado também como um espaço, como uma incursão.
Um campo de forças.
Um espaço de situações em constante mudança. Situações óticas e imprecisas. A construção de um estado que vem a ser um envio, e também um deslize.
O suporte é volátil. O suporte é efêmero.
Na esteira de Didi-Huberman, um espaço onde ver é perder-se, e onde o objeto da perda é um lugar inquietante. Lugar onde o que vemos aponta tanto para o prazer quanto para a estranheza. Inquietante estranheza.
A concepção deste trabalho não se trata de crítica, ou inconformidade à razão, à ciência ou à verdade, mas de uma mudança de sentido. Uma força latente de tensão ou de posição. Não uma possibilidade, mas um feixe de possibilidades.
Matar ou correr. Produzir ou se proteger.
Um traço, um risco.
Um desequilíbrio que se legitima na criação de um possível e de um não-possível. Nuances do ser e do não-ser, desmoronamento do percebido e do não-percebido.
Intempestivo e contingente.
Frívolo e volúvel.
Superfície, desvio e desarticulação.
Envoltura, pele, fronteira: uma interioridade que transborda em contato com o exterior.
Um desajuste.
Uma disjunção.
O terror da inconsistência.
Trata-se de contentamento. Ou não-contentamento.
Não se contentar com a disposição de um único olhar.
Eu é um outro. Outro olhar. Outros olhares.
E claro, enfrentar o risco de me perder de vista, à deriva.
A obra de outro em mim. A minha obra em outro.
Cut-up, potências do falso.
Sem juízo.
Sem razão.
Sem medida.
Insensato.