Redes, software e cultura livre em charla

Nosso convidado para a BaixaCharla #3 foi Rodrigo Troian, ativista de software livre desde 2004 e que desde 2008 vem pesquisando e fazendo redes em malha por wifi utilizando roteadores de baixo custo – as chamadas redes livres.

Troian participa desde 2010 da comunidade Latino Americana de Redes Livres, palestrando e organizando eventos em diferentes países da América do Sul. Entre 2011 e 2013 desenvolveu implementações de redes comunitárias na região sul do Brasil e no Chile. Desde 2016 atua como consultor externo para organizações nacionais e internacionais construindo redes e ministrando oficinas no Brasil e no exterior. É um dos integrantes do coletivo da Coolab – laboratório cooperativo de redes livres, colaborando na instalação e no modelo de sustentabilidade de provedores comunitários de Internet no Brasil.

Justo na hora da entrevista, tivemos um problema com a rede do Vila Flores/ Hackerspace Matehackers e não conseguimos fazer a transmissão ao vivo. Coisas que só acontecem quando o papo é, justamente, sobre redes…

Fizemos a charla igual e gravamos. Nela, nosso convidado contou de toda sua experiência desde os 2000 com a política & técnica na instalação de redes livres mundo afora, e como aquilo que já foi uma utopia apenas para “escovadores de bits” (a expansão das redes livres, seja para quem não tem acesso a internet, seja praqueles que querem ter uma rede paralela à internet) tem se tornado, nos últimos anos, uma realidade global. Terminamos o papo de forma otimista – sim, não só é possível como está acontecendo (it’s happening!): há redes livres enormes, redes mistas (com acesso a internet), intranets de comunidades inteiras, redes geridas por associações/cooperativas e muito mais.

Assista o vídeo. Abaixo dele e das fotos temos bonus tracks!

Alguns dos links das organizações/iniciativas citadas: Artigo 19, Nupef, AlterMundi, Libremesh, LibreRouter.

Instalação de uma rede livre em Juruti Velho, no Oesta do Pará, na Amazônia.

Em meados de 2013, fizemos um texto sobre redes livres aqui no Baixa que nunca conseguimos terminar, por uma série de fatores que não cabe aqui falar. Como ele trata de redes livres e é uma boa contextualização sobre o assunto, publicamos aqui abaixo, para complementar o relato já cheio de informações da BaixaCharla.

ASCENSÃO E QUEDA DAS REDES LIVRES COMUNITÁRIAS

Para você ler este texto aqui, seja de um notebook, desktop, smartphone ou tablet, o esquema costuma ser o seguinte: você adquire um dispositivo que permite a conexão à rede e contrata um plano de alguma das operadoras a disposição, que vai fazer a ligação da sua casa, ou do seu dispositivo, à internet através de uma porta disponibilizada na sua rua, no caso de internet a cabo e nas possíveis redes wifi criadas a partir daí, ou possibilitar o registro a um “espaço” no ar criado por uma antena 3G ou de rádio, por exemplo.

Com este aparato físico de ondas ou cabos por trás é que você, de posse de um identificador de sua rede (o “IP”), vai ligar seu dispositivo, abrir um navegador e digitar “http://baixacultura.org” e ler esse texto, ou chegar a ele através de alguma pessoa nas suas redes sociais, principalmente Twitter e Facebook – hoje, disparada a opção mais comum de entrada em alguns sites. Me arrisco a dizer que todas as pessoas que você conhece se conectam a rede dessa forma.

Pois bem, saiba que esta não é a única forma de se conectar a uma rede digital. Uma opção cada vez mais popular no mundo inteiro são as redes livres (ou redes “mesh”), que funcionam basicamente como grandes redes sem fio abertas, montadas a partir de um grupo de roteadores sem fio interconectados que propagam o tráfego entre usuários e também emitem serviços em banda larga a partir de nódulos conectados à internet.

Elas costumam funcionar de duas maneiras: se não tem nenhum ponto conectado à internet, funcionam como grandes intranets, onde os usuários têm acesso a uma rede comunitária offline e podem se comunicar entre si da maneira que quiserem nessa rede, além de usufruir serviços da rede.

Se um dos pontos tem acesso a internet, então se tornam opções mais baratas de conexão à rede – o que propicia a criação de pequenos provedores comunitários estruturados em organizações sem fins lucrativos, que podem comprar seus equipamentos e terem até 35 pessoas ligadas a sua pequena rede, segundo a lei brasileira.

Mais do que isso, a opção se torna ilegal  (não é mais)– muito por, sabemos, pressões das grandes operadoras nacionais, que não vêem com bons olhos as iniciativas de redes domésticas oferecendo serviços que poderiam ser melhores que as redes tradicionais.

Apesar dessa ilegalidade, em época de vigilância na rede (vide caso NSA) e de restrição de colocação de novos pontos de internet tem potencializado sobremaneira a expansão das redes livres, como relata essa matéria publicada no New York Times (e republicada na Folha) semana passada.

Como as redes abertas (offlines) são autônomas em relação à internet, elas não podem ser fechadas por um governo. São também mais difíceis de vigiar porque os dados oscilam de maneira imprevisível entre os nós da rede, sem um polo centralizado. E, com a expansão dos nós da rede, as redes livres podem funcionar como uma pequena internet, com os mesmos serviços oferecidos.

É o caso da maior e mais antiga rede desse tipo, a Athens Wireless Metropolitan Network, criada na Grécia em 2002 e que, hoje, conta com mais de 2.500 usuários em toda a área metropolitana de Atenas e nas ilhas vizinhas – em algumas áreas, oferece velocidades de mais de 100 Mbps por segundo. A AWMN tem serviços próprios de busca, compartilhamento, chats e telefonia VoIP (voz sobre IP, a maneira que o Skype funciona), o que muitas vezes faz com que os usuários nem precisam se conectar a internet, segundo afirma Joseph Bonicioli, presidente voluntário da associação que supervisiona a AWMN.

No Rio Grande do Sul

Durante algum tempo, uma rede livre funcionou em Santa Maria, criada em setembro de 2011 junto ao Centro Marista de Inclusão Digital (Cmid), por sua vez vinculado à escola Marista Santa Marta, na região da Nova Santa Marta, oeste da cidade. A intenção de montar o sistema na cidade surgiu no 3º Encontro Latino Americano de Redes Livres, realizado no mesmo período do 12º Fórum Internacional Software Livre (Fisl), em Porto Alegre, nos dias 1 e 2 de julho de 2011.

Do evento, a Associação de Software Livre (ASL) e o Centro Social Marista (Cesmar) partiram para a construção da rede livre em Porto Alegre, no bairro Mario Quintana, onde fica a sede do Centro de Recondicionamento de Computadores (CRC). Ali surgia a Rede Livre Mário Quintana, a primeira que sem tem notícia no estado, que inspirou a criação da rede da Nova Santa Marta, a 2º, ambas construídas a partir de equipamentos – servidores, antenas de wi-fi, roteadores – doados pelo Ministério Público e o Governo Federal.

Aberta à comunidade e a visitantes, a rede (que era offline) tinha por objetivo armazenar e disponibilizar conteúdo próprio via wireless numa das áreas mais carentes da cidade. Continha blogs, dicionário, enciclopédia, fotos, vídeos, rádio online e material diático dos cursos oferecidos pelo Cmid. “Nós somos um fornecedor de conteúdo, não de internet, até porque legalmente nós não podemos ser um provedor de internet”, explicou em entrevista publicada aqui quando do lançamento da rede, o engenheiro eletricista Everton Bocca, engenheiro eletricista e um dos professores do Cmid na Nova Santa Marta. Instituição que, aliás, deveria ser um lugar mais reconhecido em Santa Maria, dado o trabalho de referência nacional que executa com os cursos que oferece a jovens de 5º a 9º séries (robótica, informática, meta-reciclagem e meta-arte; mais infos sobre eles aqui)

A rede livre, que funcionou durante alguns meses na cidade, era acessível gratuitamente para quem possuísse um computador com wi-fi nos 187 hectares da área do bairro cobertos por 12 antenas. Devido a população ser de baixa renda, à época muito poucos tiveram condições de utilizar o serviço, o que, somado a interesses particulares e a relação dúbia (à época) com a lei, acabou por fechar a rede. Uma pena.

A esperança é que, neste momento, com a ofensiva contra a espionagem comandada pelo governo brasileiro, as redes livres voltem com mais força a serem pautadas no país (e em Santa Maria). Iniciativas, como as citadas aqui, e o portal da nascente rede criada, são bons indicativos pra isso.

E hoje?

Assiste a BaixaCharla logo aqui em cima.

Fotos: Flickr Colab, Sheila Uberti (do dia da transmissão)

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