Moradia e cultura livre em discussão no centro de SP

Não é novidade que nos últimos tempos o centro de São Paulo tem sido palco de confrontos dos mais tensos sobre moradia e urbanismo. A recente ação policial na Cracolândia, que resultou na dispersão dos usuários por toda a região central da cidade, foi talvez o fato que mais chamou dentre as inúmeras atrocidades “higienistas” promovida pelo governo de São Paulo no centro.

A dispersão à bala e truculência dos usuários de crack na Cracolândia foi mais uma prova do tipo de ação que São Paulo tem feito nos últimos tempos – ação de um governo que, vale lembrar, está há 17 anos nas mãos do maior covil de reacionários da política brasileira, os mesmos que vieram com uma “versão brasileira” do #sopa semana passada. A ideia é “limpar” a cidade de seus degenerados, levando-os para longe e “maquiando” o centro para a especulação imobiliária jogar seus edifícios em “ilhas” cada vez mais fechadas e menos integradas com o seu entorno.

O resultado é conhecido: criam-se guetos murados que passam a odiar qualquer ação que não esteja “de acordo” com os seus hábitos. E aí dê-lhe truculência, medo, intolerância, desrespeito “a tudo que não me diz respeito”, algo que já acontece em muitos lugares de São Paulo, como no bairro de Higienópolis – que teve a petulância de não querer (!) uma estação de metrô em suas dependências e gerou, como protesto, o já histórico Churrascão da Gente Diferenciada.

Qualquer um que entenda de viver em sociedade sabe que a melhor forma de se combater a insegurança é a ocupação, não o isolamento. É assim que, quanto mais próximo o morador estiver de seu bairro, de suas histórias, nuâncias e pessoas, maior será a sua sensação de segurança ao andar nele.

Essa longa introdução está aqui, numa página sobre cultura livre & digital, primeiro porquê é impossível dissociar a ação “digital”, “cultural”, da realidade das ruas. Fruto disso é a nossa participação no movimento BaixoCentro, que pretende justamente ocupar as ruas do centro de São Paulo e mostra que elas podem sim ser “para dançar”, não apenas para abrigar usuários de drogas ou passantes sem nenhum apreço por onde passam.

O segundo motivo que nos faz falar de moradia e urbanismo por aqui é que vamos participar, amanhã, da mostra multimídia “Inter-Ditos: mídia livre e o direito à cidade“, no terraço do Instituto Pólis, instituto de pesquisa, formação e assessoria em políticas sociais dos mais importantes do país, sede também da redação do Le Monde Diplomatique brasileiro.

A mostra está dentro do projeto “Pólis Digital“, uma plataforma colaborativa, física e virtual, de produções em mídias livres que tratam sobre os temas relevantes da cidade e do contexto global. A ideia do Polis Digital no seu lado “físico” é reunir grupos e artistas para apresentar e discutir suas produções.

Imagem da 1º edição do Pólis Digital, no terraço do edifício

A estreia se deu em dezembro, com o tema “Primavera Digital – Mídia Livre e os indignados” (na foto acima, imagem do terraço durante o evento) e a segunda edição é amanhã, a partir das 18h, entrada gratuita e com bebidas a vender no local. Serão três núcleos de projeção, instalações de vídeos, filmes, webdocs e instalações fotográficas ao ar livre, com direito a intervenções de vídeo mapping.

Tudo no terraço do prédio do Pólis, no (baixo) centro de SP, Rua Araújo 124, a uma quadra do famoso Edifício Copan, um dos cartões-postais de SP, e da praça da República, símbolo da ligação do centro velho – Anhangabaú, Viaduto do Chá – com o centro “novo”, formado pelos bairros República, Santa Cecília e Vila Buarque.

Na Tenda A, serão exibidos filmes essenciais para entender a situação de moradia em SP (e no Brasil inteiro), caso do webdoc “Ipiranga, 895” (imagem acima), do Outras Palavras, e do vídeo “Cidade Luz”, do coletivo Política do Impossível. A programação ainda tem instalações fotográficas relacionada ao tema – como a Morar, do coletivo Garapa (da Casa da Cultura Digital), que documentou os últimos dias do processo de demolição do edifício São Vito, ao lado do Mercado Municipal de São Paulo – e debates com os realizadores dos vídeos produzidos.

Nós cuidaremos da Tenda B, que será focada em filmes sobre cultura livre, cultura digital, remix, direitos autorais, etc, mas também trará vídeos sobre urbanismo e direito a moradia, temas do evento. Fizemos uma curadoria prévia de filmes a partir da BaixaTV, mas a ideia é que qualquer um chegue ali com seu pendrive e exiba seu vídeo relacionado aos temas tratados. Aproveite, não é sempre que se tem a oportunidade de ver seu vídeo sendo projetado nas costas dos prédios!

Aliás: se tu quiser sugerir algum vídeo para apresentarmos por lá, faça isso nos comentários (ou por email, facebook, twitter, enfim). Semana que vem tem fotos e comentários sobre o evento por aqui. Aos que moram em São Paulo, apareçam!

“Inter-Ditos: mídia livre e o direito à cidade”
Mostra multimídia de urbanismo e cultura livre
Terraço do Instituto Pólis – Pólis Digital
Rua Araújo, 124
15/3, A partir das 18h 

Créditos: 1 (Felipe Morozini), 2 (Pólis Digital), 3 (Ipiranga 895).

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