Notas sobre o futuro da música (1): Romulo Froés e a música brasileira de hoje

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O feriadão de páscoa me trouxe muitas dúvidas, discussões e leituras sobre a Indústria Musical de hoje, incluso as potencialidades e os limites da cena brasileira/paulista/independente. Antes que eu (ou vocês) falem “mas o que isso tem a ver com o BaixaCultura?”, eu vos digo o que todo mundo sabe: todas estas dúvidas são decorrentes da tal “revolução” digital que falamos aqui desde setembro de 2008, data de criação deste espaço.

[A palavra “revolução”, ainda que colocada entre aspas, não precisaria estar desse modo, porque, afinal de contas, a wikipédia me diz que revolução – do latim revolutio, “uma volta” – é uma fundamental transformação social no poder ou nas estruturas organizacionais que têm lugar em um período relativamente curto de tempo, o que se aplica perfeitamente no caso da cultura, especialmente na música, não?]

O grande catalisador de insights, e pré-insights-que-ainda-precisam-de-tempo-para-fixar, foi essa entrevista com Rômulo Froés, publicado em 1º de abril no Scream & Yell, dos melhores sítios de jornalismo cultural no Brasil desde 2000 (!), ano de sua criação. Rômulo, o que canta na foto que abre este post, é músico, cantor e compositor com três discos no currículo (“Calado”, de 2004, “Cão”, de 2006, e o duplo “No chão sem o chão”, lançado ano passado) e uma das cabeças pensantes mais interessantes da nova safra musical brasileira.

É difícil resumir a entrevista, ou fazer um “the best of” com os melhores momentos, ou ainda um lide (no jargão jornalístico, o primeiro parágrafo da notícia, que traz as informações básicas ao responder as perguntas “O quê?”, “Quem?”, “Quando?”, “Onde?”, “Como?”, e “Por quê?”). São muitas questões relacionadas, abordagens distintas , assuntos tratados em mais de cinco horas de entrevista relatadas em muitos milhares de caracteres. Basta dizer, por hora, que Rômulo faz um diagnóstico com rara lucidez do estado da arte da cena musical brasileira, e de como a “revolução” digital tem papel fundamental nessa história.

Um exemplo do que estou falando está nesse trecho:

A gente tem um mercado falido. A Tropicália surgiu no final dos anos 60, com militares no poder, mas eles ainda conseguiram aparecer no mercado, conseguiram chamar a atenção.

Era a TV começando a rolar, né. A internet é o quarto momento disso. Primeiro teve a indústria fonográfica, que começou a gravar disco. Depois o rádio, a TV e agora a internet.(…) A internet, de certa forma, fodeu uma galera também. O povo da MPB que fica chorando por causa da pirataria, falando que não vende disco, tipo o Fagner reclamando na TV. O Fagner se fodeu, em certo sentido. A Biscoito Fino [Gravadora com diversos artistas da MPB em eu catálogo, responsável pela notificação e consequente ameça de processo à diversos blogs que disponibilizavam discos desses artistas para download] fica reclamando…  uma banqueira. E tem a minha turma, que só existe por causa da internet. Só que talvez seja a geração mais difícil de assentar e se mostrar justamente porque o negócio ficou muito amplo. É muita gente fazendo no mundo inteiro a toda hora. Está cada vez mais difícil de formar o negócio.

É que hoje existe uma oferta muito grande de coisas. Antigamente você tinha um disco do Caetano e só ia pintar um disco da Gal, do Chico, meses depois. Então você ficava um bom tempo em cima daquele disco do Caetano. Agora a gente tem o seu disco e na semana seguinte sai o da Lulina…

(…) Acho que a gente pertence a uma geração que tem uma percepção diferente. E tem que parar com isso. Eu cada vez me ponho mais o desafio: posso ser esse cara pra sempre, do meu tamanho, que gravo meus disquinhos, vendo mil cópias e é isso, acabou. Talvez não exista mais o fenômeno Caetano Veloso, Gilberto Gil, os caras que fizeram música de invenção e ainda assim tiveram apelo popular no Brasil inteiro. Talvez não tenha mais. Estou cada vez mais me forçando a isso: você grava teu disco, tem uma turma que ouve, um povo te chama pra fazer entrevista, que gosta de você e é isso, acabou. Talvez a sua tia nunca vá saber que você grava disco. Tem um monte de parente meu que não sabe que eu gravo.

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Se encaixarmos a fala de Rômulo com a de Gil ao final dessa postagem, temos uma opinião in process. Vejamos Gil:

“O problema é que vocês querem que apareça outro modelo único, que não vai exigir esforço algum e te traga o sono de volta. A digitalização não exige que toda obra de arte seja de graça, mas que um modelo próprio de comercialização seja criado para cada necessidade. A tendência atual é que pensemos não na propriedade, mas no comum, no compartilhado”.

Para não descontextualizar: Gil respondia a uma banda de Santos, que achava muito bonito essa história de cultura livre, creative commons, etc, mas queria saber mesmo é de ganhar dinheiro. A ideia de ganhar dinheiro com música obviamente que não deve ser descartada, mas relativizada, porque rios de dólares para comprar iates de ouro e criar lago particulares dentro de sua própria casa estavam diretamente relacionadas à enorme quantidade de pessoas que consumiriam à sua arte, algo que hoje não mais pode acontecer.

Dito de outra forma, a quantidade astronômica de lucro dos artistas (mas principalmente das gravadoras) estava relacionada à cultura de massa da qual a música se inseria – e ainda se insere. Mas hoje nem toda música está nessa lógica de consumo massivo, e me arrisco a dizer que teremos cada vez menos música entrando nesse esquema, o que fatalmente fará com que excentricidades do mais alto luxo como as citadas sejam casos de museu – e de dinossauros que tem saudade dessa época, não por acaso aqueles que mais são contrários a qualquer coisa que diga respeito ao livre compartilhamento de arquivos.

O fato de existir a possibilidade de não haver mais luxos para os músicos não tem nada a ver com não ter mais dinheiro para os mesmos. É claro que tem, só que de outras formas, de acordo com a música e as possibilidades de cada um. Alguns tem a ideia de que um salário digno, uma conquista não só dos músicos mas de toda uma classe trabalhadora através da história, venha a ser abolido por completo em nome do intercâmbio cultural e da “panacéia” do grátis. Ora, o salário digno continuará existindo – a menos que tu considere milhões de dólares na conta e doze Ferraris Maranello na garagem como o único soldo digno para sua “arte”.

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Como um exercício de pensamento, imaginemos hoje que o século XX nunca tivesse existido – recordemos que antes do nascimento da indústria fonográfica os músicos costumavam ganhar a vida tocando de cidade em cidade. Tentemos explicar a alguma espécie de alienígena o que é essa tal de música. Poderíamos dizer que existem pessoas que gravam em casa (se possível, em um estúdio profissional) canções que tentam enriquecer a sua existência e a do próximo – ou que gravam para fazer as pessoas dançarem, o que de outro modo também pode se encaixar no “enriquecer” a existência. Que assim que terminam, colocam na internet para que escute quem queira. Que as pessoas podem escutar estas canções de grátis a partir de um computador com acesso à internet. Que se estas mesmas pessoas gostarem muito do que ouviram podem obter estas canções em alguns estabelecimentos restritos e raros, conhecido como lojas. Que, se o grupo ou artista que a criou vai atuar na tua cidade, tu poderá, normalmente mediante pago, ir ao show, escutá-la novamente agora ao vivo e com mais algumas quantas pessoas. E que, por fim, se tu gostar ainda mais depois de ter assistido ao show, pode comprar um ou mais objetos em que aquela “música” – ou qualquer coisa relacionada à imagem de quem a criou – esteja presente, obtendo assim um grau elevado de vinculação com aquele que, lá no início, “enriqueceu” a sua simplória existência.

Te parece muito mal tudo isso?

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[Leonardo Foletto.]

P.s: Os insights surgidos da entrevista, ainda em ação, vão proporcionar outras postagens. O último parágrafo desse post é uma livre-adaptação de um texto publicado na revista espanhola Rock Delux, edição especial 2000-2009 publicada em novembro de 2009, chamado “La industria musical española diez años después del tsunami”, que, de tão boa contextualização que faz, será em breve traduzido e remixado por aqui.

Créditos imagens: 1, 2, 3.
  1. Esse último trecho do texto me fez acordar para uma coisa absolutamente óbvia, mas na qual nunca tinha pensado: apenas no século 20 foram criadas técnicas de gravação e reprodução, que levaram ao surgimento da indústria fonográfica. Ou seja: músicos sobreviveram (e alguns até ficaram bem ricos) durante séculos e séculos sem precisar da indústria fonográfica e dos lucros vindos da venda de discos. Claro que havia outras formas de ganhar dinheiro que hoje não existem mais (o mecenato, por exemplo), mas o fato é que, se a indústria fonográfica entrar em colapso absoluto, entre mortos e feridos estarão apenas seus executivos e uma meia dúzia de artistões milhonários.

    É só uma opinião minha, mas… não é um fato a se comemorar?

  2. Fala galera. Tô fazendo uma matéria sobre o PL dos direitos autorais e queria saber se poderia encaminhar algumas perguntas pra vocês por e-mail. Abraços!

  3. E tem outra coisa interessante: diante da pioneira possibilidade de gravar a música num objeto e vendê-la, ou seja, quando surgiram os discos e vitrolas, muitos anos atrás, muitos músicos torceram o nariz, acharam isso um absurdo, um acinte à sua arte, que era até então executada ao vivo, e nisso residia a virtude, o talento, enfim, a arte.

    Curioso, não? E hoje, diante do colapso dessa indústria que acabou evoluindo e dando muito certo (pro bem e pro mal), é a hora de muitos reclamarem justamente da queda das vendas destes mesmos objetos.

    Devemos sempre ver estas questões em perspectiva, sem perder de vista a coisa real — no caso, a música.

  4. Hola Cláudio,
    Pode encaminhar sim, o e-mail é baixacultura@gmail.com. Abraço!

    Guilherme, ótimo link e boa fórmula!

    Fabrício, é sempre bom ver as coisas em perspectiva, ainda mais nesse caso. É interessante observar a reação da indústria diante de cada uma das novas tecnologias, da imprensa até o mp3. A ideia de que uma mídia vai acabar com a outra, de que a gravação ia acabar com o ao vivo, de que a tv ia acabar com o rádio, o cd com o lp… tem inúmeros casos assim, e nenhum deu certo (tirando a fita cassete, que acabou mesmo). Todos podem conviver harmoniosamente junto se o que realmente importar for a música.

    Aliás, já viram a mais nova? o streaming vai acabar com o download. No futuro próximo, não precisaremos baixar a música que queremos escutar. Bastará escolhê-la e escutá-la diretamente, na própria rede, em streaming. Andam dizendo que essa escuta vai ser mediante pago, e daí se tira a real intenção por trás desses chistes futuristas…

  5. É por aí, Leonardo, também concordo que cada formato, cada “objeto”, terá seu público. É uma boa discussão essa. Faço parte desses “nichos” que ainda consomem música em formato físico, e ao mesmo tempo, baixo muitas mp3 e sou totalmente partidário e esperançoso quanto a revolução que a música pela internet está criando. Agora, uma provocação: http://www.wk.com/wke/show/dont_move_here/episode/6 (tirado daqui, http://www.murketing.com/journal/?p=4779, que traz ainda outros links relacionados.)

  6. Fabrício,
    Os saudosistas de plantão não deixam morrer nem a pobre fita cassete!
    Haha, a dica é bem boa. Muito interessante os diversos usos que dão pra pobrezinha, e não duvido que cada vez mais descubram outros mais. Tem até o Muxtape que também se aproveitou da ideia de dar fitinha com as músicas preferidas para alguém.
    Mas é claro que a fitinha só sobrevive no design e a partir de um reaproveitamento de seus tipos de uso, porque o suporte físico para o fim que foi criado, o de armazenar música, não tem como dar certo: tem pouquíssimo espaço pros dias de hoje e é (literalmente) uma enrolação só. Não corremos o risco de ver uma Cultura da vida criar uma seção de fitas cassete, assim como fez com o vinil. A não ser que…

    Hola Guilherme,
    Não conhecia esse, tche!
    Ótima página. Mas tem um problema que complica o uso de gostos mais exóticos: falta muita música ali para que não se precise baixar mais nada. Por exemplo: fui procurar Vitor Ramil, que é um cara bem conhecido no Brasil, e tinha 9 músicas – o número exato de DISCOS que Ramil tem. Claro que esse número vai crescer, mas daí a virar uma alternativa ao download tem muito. Talvez, no momento que cada pessoa conseguir fazer o seu próprio streaming de modo fácil, isso vire uma ameaça poderosa ao download.

  7. Leonardo, eu acredito que esses formatos, esses suportes físicos, sobrevivem e sobreviverão na mesma medida em que há quem ainda cultive o gosto por eles, como produtos culturais e/ou peças de arte que alguns bem produzidos são — nem todos são meros símbolos de uma indústria decadente e ganaciosa. Ok, concordo contigo: saudosistas de plantão, em sua maioria. A tendência planetária é, sem dúvida, coisas que ocupem menos espaço, mais ecológicas, sustentatibilidade, essa coisa toda. Mas acho que só o tempo vai nos mostrar até que ponto irá esse gosto que gerará a demanda pelas fitas, vinis e etc. Eu, por exemplo, gosto realmente de um belo vinil, para além da nostalgia. E não vejo nada de errado nisso. Acho que tudo pode conviver em harmonia, perfeitamente: a música que vem embalada num suporte físico, com uma bela arte, para ser ouvida num bom aparelho de som, produzida por uma empresa digna e que cobre um preço justo, e também a música em formato digital. O que vai acontecer é que as empresas dos formatos predominantes no século passado irão fatalmente apequenar-se, lidarão apenas com uma parcela do público de outrora — o que é bem sudável, claro. Quanto a fitinha cassete, ela tem bem menos pontos a seu favor, mas respeito o pequeno nicho que desconfio haver ainda em torno delas!

  8. Ô Leonardo, acho legal você levantar essa bola por aqui, mas sinceramente, o que o Rômulo fala não tem nada demais, até gosto dos discos dele, mas como teórico ele precisa de mais sustância, não basta ser queridinho da Folha de São Paulo e da Rolling Stone pra virar referência intelectual. Essas sinapses quem está por dentro da cadeia produtiva da música fez há pelo menos uns 5 anos atrás. A idéia que ficou conhecida como teoria da cauda longa – que no final das contas é o que ele está tantando dizendo de uma outra forma, diga-se de passagem muito mais prolíxa e quase nenhum poder de síntese – foi vulgarizada pelo editor-chefe da Wired, o Cris Anderson, e é atualmente mais manjada que teto de barbearia. Acho inclusive que o Rômulo está um pouco desatualizado, talvez seja em função da música ser assim quase um hobby pra ele, o cara não vive disso, ele é assistente do Nuno Ramos, então fica fácil ficar fazendo diagnósticos distanciados. Nada contra, mas é uma visão limitada. Vou dar uma dica: vai bater um papo com o pessoal que está no batente, com o Pablo Capilé do Fora do Eixo por exemplo, ou então com o Reinaldo Pamponet da Eletrocooperativa, com o Makely Ka do Fórum Nacional dos Músicos, com o Gustavo Anitelli que produz o Teatro Mágico e articula o movimento MPB (Música pra Baixar), essa galera está realmente no olho do furacão fazendo uma revolução de verdade, goste-se ou não da música que eles fazem e das ideologias que eles representam.

  9. Hola João,
    Talvez o Rômulo esteja um pouco atrasado, ou o fato de não viver de música, como tu diz, não o faça a melhor pessoa para fazer diagnósticos. Mas, de qualquer forma, é interessante a visão dele, nem que seja para botar lenha na fogueira das discussões que estão sendo travadas hoje. Os caras que tu falou são, talvez, pessoas mais indicadas a dar palpites porque estão na luta, batalhando em busca de novos modelos para os seus (e os dos outros) casos – inclusive, Makely já foi tema de um longo post aqui no Baixacultura – http://baixacultura.org/2009/01/28/operario-da-contra-industria. Como diz o próprio Makely, estamos num período de crise/revolução, onde diversos paradigmas de indústria, contra-indústria, etc, tentam achar seu espaço e tomar a frente. Por enquanto, nenhum parece ter tomado, e parece que o melhor a ser escolhido deve ser definido a partir dos objetivos e interesses de cada um, numa talvez radicalização bem típica da famigerada “pós-modernidade”, onde tudo e nada pode.

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