Flattr e a uma nova (velha) discussão

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O loiro com cara (e DNA) da Escandinávia de nome Peter Sunde já é nosso velho conhecido de algumas postagens. Inclusive, publicamos uma entrevista dele para a Folha de S. Paulo, onde Sunde comentava os recentes eventos sobre o site na qual foi um dos fundadores, o Pirate Bay. À época, discutia-se o quão definitiva seria a decisão do tribunal sueco que condenou ele e mais três parceiros a pagar uma quantia de exagerados 3,6 milhões de euros à entidade que representava os grandes poderosos de Hollywood e da Indústria Fonográfica. Dizia-se que seria o fim do Pirate Bay, o que na prática não se comprovou – procure você um arquivo de torrent para download e lá estarão os piratas suecos para te mostrar um link, ainda que não com a mesma eficiência pré-condenação.

Sunde veio ao 10ºFisl (Fórum Internacional do Software Livre), que ocorreu em junho do ano passado na Porto Alegre capital do Rio Grande do Sul, e por esta época já  dava a entender que tomaria rumos diferentes ao do Pirate Bay, o que veio a se confirmar algumas semanas depois. O caminho tomado pelo outrora pirata sueco foi o projeto que, no início do mês, tornou-se realidade: o Flattr, um sistema de micropagamentos por conteúdo, que ainda está funcionando em fase beta, apenas para teste, mas que pode ser melhor visualizado neste pequeno vídeo de apresentação:

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O Flattr baseia-se na ideia de que o público está disposto sim a pagar por conteúdo, desde que ele possa ser facilmente acessado e da maneira que os usuários quiserem. Apesar de eu particularmente duvidar desta sentença, recente pesquisa realizada pela consultoria Nielsen com 27 mil pessoas em 52 países afirma que metade das pessoas está realmente disposta a pagar por conteúdo – desde que, confirmando a ideia que balizou o funcionamento do Flattr, esse conteúdo seja consideravelmente melhor/diferente daquele que se pode conseguir gratuitamente. A grande questão fica, como Tiago Doria comenta, em descobrir qual conteúdo realmente proporciona “valor” para os seus consumidores, tarefa que será fundamental para o sucesso ou não da ferramenta de Sunde.

Gerd Leonhard – auto-denominado mídia futurista e autor de Music 2.0, dentre outros livros – declarou ter gostado do Flattr.

“Uma ideia brilhante (ainda que não seja inteiramente nova, e esteja de alguma forma relacionada ao Paypal e ao Kerchoonz). Ela corresponde a algo que eu vivenciei nos últimos anos: as pessoas pagam se a) são valorizadas e ganham méritos por isso, por isso ficam inclinadas a devolver o favor, b) elas confiam em você e c) o preço é justo. Talvez o Flattr possibilite isso; no meu ponto de vista, a economia do “muito obrigado” via micropagamentos pode ser poderosa.

Como se supõe, a ideia dos micropagamentos não é coisa nova na web. O Flickr funciona mais ou menos assim, sustentado pelos poucos (que, em escala global, são muitos) que pagam para ter o serviço pro da página, assim como diversos outros serviços. Porém, como também salienta Leonhard, micropagamentos não funcionam pra qualquer um, o que dá um tom para a dificuldade da manutenção do serviço do Flattr: ” seu público precisa ser bem grande para que o sistema funcione. Acho que esse será o primeiro desafio [para o Flattr]: conseguir 50 milhões de usuários e se tornar um serviço considerado padrão, como o PayPal, ou então o Flattr se tornará insignificante.

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Sunde disse, em entrevista ao caderno Link da semana passada, que o Flattr é “uma maneira de mostrar que você gostou de algo – e remunerar o criador por isso“. Tu escuta uma música, gosta, e dá um jeito de remunerar o autor de alguma forma por ela – no caso do Flattr,  pagando uma quantia mensal para usar todo o serviço. Ao final, o dinheiro é dividido igualmente entre os criadores do conteúdo (confesso que ando curioso em saber como essa divisão vai se dar de forma igualitária). É um sistema que se encaixa no que o mesmo Gerd Leonhard aponta como os mais interessantes de se “monetizar” o conteúdo digital; para ele, os únicos modelos realmente válidos são

os que funcionam por classificação de mérito do produtor de conteúdo e os que se parecem com o consumo gratuito de música, por exemplo, com pagamentos embutidos em faturas de provedores de acesso ou operadoras móveis, ou mesmo o download patrocinado por anunciantes”.

Acompanho estas discussões faz algum tempo, e posso dizer que a ideia do Flattr não é nada nova. Parece que alguns tem tentado cada vez mais adivinhar o futuro apostando na ideia de que o serviço de download ilimitado (ou streaming ilimitado, quem sabe) seja considerado como um serviço tipo energia elétrica e água encanada, onde se paga uma certa taxa por mês para ter acesso facilitado à tudo. Pagaria-se, por exemplo, para ter o acesso ao download (ou streaming) de todas as músicas possíveis de maneira fácil, de modo que qualquer usuário semi-familiarizado com o computador e a internet conseguiria, por conta própria, baixar aquele disco que tanto quer escutar. Seria talvez uma nova intermediação – que, na bem da verdade, seria uma facilitação, onde o valor seria cobrado mais para facilitar o serviço do que propriamente para o viabilizar. Não sei até que ponto isso é viável, e fico sempre com um pé atrás em iniciativas que visam restringir em vez de amplificar o acesso a cultura, mas seguimos acompanhando a discussão para ver no que (e se) vai dar.

[Leonardo Foletto.]

Créditos fotos: 1,2.

  1. Eu tenho a sensação (e pode ser preconceituosa da minha parte [mas, por outro lado, seria preconceituosa contra mim mesmo, minha própria origem]) de que a ideia de pagar expontaneamente, sem obrigação, por um produto que você gosta, essa ideia parece que não tem como dar certo, apenas quando pensada no caso do Brasil (e talvez de outros povos, que tenho certeza que existem, mas desconheço para citar). A terra da malandragem, do jeitinho brasileiro, onde “dar-se bem” é um valor em todas as esferas da sociedade, desde a corrupção até as camadas populares. Aqui, onde mesmo em cenas banais, como na fila de um ônibus, pouco se pensa no coletivo.

    Na Alemanha, as estações de trem não tem catracas. Há fiscal nos trens, claro, mas é bem possível viajar “a brasileira” e não pagar pelo ticket. A maioria dos alemães, porém, paga o bilhete, não por “burrice”, como poderia aos olhos de um brasileiro, mas por senso de coletivo: estou usando um serviço que tem custos, por isso devo pagar por isso. Para um alemão, pagar expontaneamente para baixar a música de um artista que você admira, não é apenas justo, como o outro lado – não pagar – é praticamente impensável. Bem o contrário daqui, onde não pagar é aceitável, e pagar – perante os valores sociais vigentes – pode ser sinal de burrice.

    Um bom exemplo de como a cultura influi na economia…

  2. Augusto,
    No caso do Brasil, eu apostaria certo que não vai funcionar. Como iniciativas desse tipo por aqui nunca funcionaram, pelo menos não com a eficiência que se imaginaria que funcionariam – o que é uma pena, claro. A busca por um modelo de negócio que funcione para estes casos vai ser mais complicada no Brasil do que em outros lugares do mundo (como na Alemanha, por exemplo) e vai exigir um esforço tremendo de quem quiser ir atrás disso. Me arrisco a dizer que qualquer esforço que não considerar as particularidades de cada caso, seja o mais local quanto o mais global, não vai dar certo. É o mundo virando cada vez mais “cada caso é um caso”, um outro nome para o famigerado “pós-modernismo”.

    Beto,
    De boa vontade o mundo (e o Brasil) está cheio. Mas torcemos sinceramente que o Flatrr dê certo.

    abraços,

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