Cópia boa, Cópia má – Ou o início

1.

Quando a certa altura do filme um funcionário da indústria fonográfica lamenta o fechamento de centenas de lojas de discos nos Estados Unidos como consequência da pirataria, é inevitável que minha memória dispare certeira praquele tempo de minha adolescência em que qualquer disco parecia raro e qualquer banda obscura, o que repercutia simetricamente no preço das iguarias que encontrávamos, eu e mais um punhado de moleques magros nas tardes quentes de São Luis.

A conclusão inevitável que retiro da memória é que esse e outros argumentos da indústria do entretenimento não são apenas falaciosos, mas solipsistas. Eles mascaram o problema do acesso com a histeria em torno da violação de direitos e do lucro indevido, sem nenhuma vergonha do anacronismo ademais antidemocrático (afinal, o acesso à cultura diz muito da qualidade de uma democracia) do tratamento dispensado a questões como a da cópia livre ou o sampler, essa técnica já secular.

Secular, pois é. Praticada na literatura desde Lautrèamont e, décadas depois, adotada por surrealistas, situacionistas, e uma pá de outros doidos defensores de que numa sociedade entupida de informação, a utilização de materiais pré-existentes pode ser bem mais subversiva do que produzir a partir dum vago princípio de originalidade.

Depois vieram dub, rap, hip hop, os soundsystems, respostas da periferia (econômica, mas também geográfica) ao caráter unidirecional da cultura pop. Respostas mais e mais ameaçadoras para a indústria à medida que a tecnologia digital se torna largamente acessível para qualquer um que queira produzir e compartilhar cultura. Nesse ponto, não apenas os modos de produção, mas também os de distribuição e consumo de produtos culturais necessitam de revisão.

A lógica industrial da cultura [a lógica cultural dominante ao longo do século 20] se baseia num esquema feroz de controle autoral (o copyright), mais ou menos feroz a depender do volume de grana envolvido [no Brasil, pelo menos, os contratos de edição de livro são bastante flexíveis se comparados aos acordos abusivos da indústria fonográfica]. Quando a tecnologia digital torna impossível esse controle, e aos lucros cada vez menores da indústria se equipara uma produção cultural descentralizada, diversificada e auto-gerenciada; quando a reação da indústria é uma dispendiosa campanha “contra a pirataria” por vezes redundando em leis ignorantes, é aí que o toque dado por Ronaldo Lemos em seu depoimento ao filme serve como uma luva: a sociedade é a grande concorrente da indústria.

A declaração de Ronaldo ganha força com o exemplo da produção cinematográfica nigeriana [que de tão fantástico merece outro post, uma série deles]. Um dos primeiros países a investir em cinema digital [é mais barato], a Nigéria produz mais filmes que os EUA e que a Índia. E, ao menos até a realização do documentário, isso tudo sem lei nenhuma de propriedade intelectual.

Ali, ou na contra-indústria tecnobrega de Belém do Pará, ou no trabalho criativo e criminoso [viva!] do dj Danger Mouse, ou em centenas de experiências que o BaixaCultura pretende cobrir, o que está em jogo é um tipo de organização que segundo os critérios de avaliação das velhas leis e dos homens-de-preto da indústria já nasceu pirata, e o incrível apego que esses mesmos homens nutrem por um modelo de indústria que existe há apenas um século, contra um monte de outros séculos de produção artística.

Hum. E talvez os dados já estejam até desatualizados, mais ainda assim pensar que nos últimos seis anos a indústria fonográfica perdeu 7 bilhõe$ de barões é mais do que animador, e confere um justificado senso de desobediência aos nossos queridos downloads.

2.

O donwload, a matéria-prima deste blog. Aqui a pauta é a rede como suporte e produtora de cultura, tanto faz se música, literatura, cinema, artes visuais, teatro, ou algum objeto não identificado, produtos virtuais que tenham a web como ponto de partida, passagem ou chegada. O ponto de vista é jornalístico, mas de um jornalismo aberto pro que ainda desconhecemos.

Este blog a princípio funciona em modo de teste, em todos os sentidos: pautas, formatos de texto, forma dos posts, categorias de links, fontes, imagens ou vídeos disponibilizados, BaixaCultura in progress, erros e acertos à vista.

[Reuben da Cunha Rocha. Leonardo Foletto.]

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