O operário da Contra-Indústria

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É difícil encontrar Makely Ka. Difícil saber onde ele está. Entre um email e outro, por exemplo, já o encontrei em BH, na Espanha, em São Paulo e no município de Milho Verde. A idéia de entrevistá-lo rondava minha cabeça praticamente desde que este blog nasceu, e tão logo pude escrevi pro piauiense radicado em Minas convidando-o para um papo via msn. Rolaram umas duas semanas de desencontros até decidirmos partir para uma opção menos divertida: fazer a entrevista por email. E lá se foram quase dois meses de espera até que as respostas dessem as caras na minha caixa de entrada. É que Makely nunca está parado, e com tantas andanças pelo espaço, não sobra muito pro tempo.

Poeta e músico de primeira grandeza (baixe 01 dos 04 discos aqui.), Makely também é um dos editores da Revista de Autofagia (duas edições lançadas e a terceira prometida pra fevereiro), mantém o Sêlo Editorial e a distribuidora Namarra, é sócio-fundador da SIM (Sociedade Independente da Música de Minas Gerais) e da ANAMBRA (Associação Nacional da Música Brasileira), e foi por duas vezes curador do Projeto Conexão Telemig Celular de Música – Novos Movimentos. Makely foi o primeiro músico atuante em Minas Gerais a conseguir na justiça o direito de exercer livremente a profissão sem a obrigatoriedade de filiação à OMB (Ordem dos Músicos do Brasil), e desde então trava uma batalha pública pela democratização da entidade. Não é por acaso que ele não poderia deixar de pintar por aqui. Makely é um dos praticantes mais convictos de uma das idéias mais relevantes do nosso atual panorama cultural: a da contra-indústria.

Trata-se de aprofundar a discussão em torno do que significa produção artística independente, a partir da constatação de que boa parte do que se vende sob o selo do “independente” é tão viciado nos truques e tiques da indústria cultural quanto qualquer nome de catálogo de grande gravadora. O que sugere a contra-indústria? Que o artista se envolva com todas as etapas da produção de seu trabalho, desde sua concepção até o formato final, ao invés de entregar alienadamente o processo nas mãos de intermediários. Em outras palavras, ser o músico e também produtor, e também gravadora. Escrever e também editar. Autogestão.

“Independente” é um termo meio vago e guarda algumas armadilhas. Eu mesmo caí numa delas quando conversei com Makely, encucado com fato de que um dos sujeitos mais combativos que conheço dentro deste cenário também dialoga frequentemente com o Estado. Ou, para falar mais justamente, com a esfera pública. Em 2006, Makely foi consultor da Área de Música da Lei Murilo Mendes em Juiz de Fora, e membro da CTAP (Comissão Técnica de Avaliação de Projetos) da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais. Hoje ele é representante do Fórum Permanente de Música de Minas Gerais na Câmara Setorial criada pelo Ministério da Cultura. Contraditório? Makely responde generosamente que não.

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Essa generosidade, bem mais que a falta de tempo, explica a demora na conclusão da entrevista. Makely foi extremamente cuidadoso com a questão, respondendo com a minúcia de quem conhece a fundo o assunto. Mãos à obra!

Ao lado de uma forte produção independente, há uma parte do teu trabalho que dialoga com o Estado, seja através das leis de incentivo (como a Revista de Autofagia), seja na tua atuação política. Não há conflito entre as duas coisas? Como é transitar entre as duas esferas?

Acho que neste caso, antes de entrarmos realmente na questão, talvez seja necessário tentarmos entender o que significa o termo “produção independente” nos dias atuais.  Eu particularmente prefiro usar o termo contra-indústria, que vem sendo disseminado em alguns meios – principalmente na internet – há alguns anos.

Acredito que o histórico do termo contra-indústria localize a resposta à sua pergunta dentro de um contexto bastante elucidativo por si só. Bom, cerca de três anos atrás, quando foram formadas as câmaras setoriais convocadas pelo Ministério da Cultura houve a necessidade de formatação de um projeto de política pública para a área da música; uma área que historicamente sempre esteve atrelada aos interesses das grandes corporações fonográficas que se instalaram no país e dominaram o mercado nas últimas cinco décadas. Naquelas reuniões, que aconteceram no prédio da Funarte, no Rio de Janeiro, estavam presentes representantes do governo (MinC, Ministério do Trabalho, Planejamento, Educação, OMB, etc), da iniciativa privada (ABPD, ABERT, ABEM, ECAD, etc) e representantes da sociedade civil organizada em fóruns de discussão(17 estados enviaram seus representantes). Durante aqueles meses de discussão inédita, percebemos a necessidade de demarcarmos nossas diferenças de forma mais contundente e, por sugestão do compositor Antônio Adolfo, do mítico álbum Feito em Casa (1977), adotamos a alcunha de autoprodutores. É bom lembrar também que foi a partir daquele momento que o termo “cadeia produtiva da música” passou a fazer parte do vocabulário corrente de músicos, produtores e jornalistas, às vezes deslocado ou mesmo sem um entendimento total do seu significado. A cadeia efetivamente envolve todos os elos, ou nós, do mercado da música, desde a criação, ou ainda antes, a formação, até o consumidor. Mas nossa atuação até o momento se concentrava nos dois ou três primeiros elos, ou seja, os nós da veiculação, distribuição e consumo até então não conseguíamos desatar. Nos demos conta então que muitas vezes, éramos nossos próprios consumidores, daí o caráter autofágico do termo.

Mas mais importante do que a conceituação da cadeia produtiva, que serve para ilustrar o modo de produção que herdamos da grande indústria fonográfica, talvez seja perceber a mudança de paradigma operado a partir da última década do século passado.

Ora, até meados de 1877, ano da invenção do fonógrafo pelo norte-americano Thomas Edson, a única forma de armazenamento de música era a memória. E foi assim nos últimos cinqüenta mil anos pelo menos, quando se tem notícia das primeiras tentativas do homem organizar o sons e os silêncios no tempo, imitando o que ouvia na natureza. Quando esses sons começaram a ser registrados nos discos de cera podemos dizer que foi o prenúncio de uma mudança radical na nossa forma de armazenar – e ouvir – música. De lá pra cá a coisa andou muito rápido e em menos de cinqüenta anos estava consolidado o que conhecemos hoje como Indústria Fonográfica. Essa grande indústria que surgiu e se firmou no rastro do capitalismo galopante do século XX, incorporou como poucas alguns preceitos básicos da Revolução Industrial, como a utilização de tecnologia de ponta e a reprodução em série.

Consta que Cornélio Pires foi um dos primeiros artistas a gravar de forma autônoma no país, já que teve de bancar, ele próprio, a sua famosa série de discos, a partir de 1929. Antes dele porém houve a fantástica iniciativa de Chiquinha Gonzaga e seu marido, que entre 1920 e 1922 mantiveram uma gravadora autônoma. Já na década de setenta houve iniciativas como a do próprio Antônio Adolfo e seu já citado “Feito em Casa”. Mas se foram todas essas iniciativas louváveis, pelo pioneirismo e pelo teor contestatório que traziam, foram também isoladas e amadoras, a ponto de não conseguirem se auto-sustentar como alternativa viável às grandes corporações.

Somente nos anos 90 foi possível dar um salto nesse sentido. Pela primeira vez na história da indústria os meios de produção começaram a se tornar acessíveis a uma parcela considerável da população, não somente aos donos do capital. Não a todos é verdade, mas àqueles que dispunha de um computador e uma conexão com a internet. Por mais excludente que ainda fosse, tínhamos dado um salto; não era mais necessário um grande parque industrial para produzir um disco, um livro ou mesmo um filme com qualidade compatível ao dos produtos da grande indústria.

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Há de fato um elemento artesanal na forma de trabalho desses autoprodutores. Mas o termo contra-indústria não se refere exclusivamente a esse aspecto. A grande mudança de paradigma diz respeito à mudança de procedimento num dos pilares que pautaram o desenvolvimento econômico do capital desde a revolução industrial: a especialização. A compartimentalização dos saberes e a ultra-especialização das atividades tornou-se a tônica da grande indústria, levada às últimas conseqüências com o fordismo e replicada nos mais diversos ramos do conhecimento, inclusive nas academias. Da escolástica com pretensões universalizantes chegamos à mediocridade dos MBAs e pós-graduações em especialização. Com a indústria da música não foi diferente, a esquizofrenia se instaurou no seio das grandes coroprações, onde o departamento de criação não dizia respeito ao departamento de vendas que não se comunicava com o departamento de comunicação e assim sucessivamente. A grande indústria foi à bancarrota.

O filósofo inglês Thomas Kuhn, em seu livro “Estrutura das Revoluções Científicas” afirmava que nos momentos de crise há uma proliferação de novos paradigmas que competem entre si tratando de impor-se como o enfoque mais adequado. É quando se produz uma revolução e um dos novos paradigmas substitui ao paradigma tradicional. A cada revolução o ciclo inicia de novo e o paradigma que foi instaurado dá origem a um novo processo de ciência normal. Nesses momentos é fundamental uma nova terminologia, para dar conta dos novos conceitos. Com alguns ajustes podemos adaptar o mesmo esquema para pensarmos a revolução ora em curso no interior da Indústria Cultural.

O autoprodutor é o não-especialista por definição. Ele compõe, produz, divulga, distribui e consome, não necessariamente nessa ordem. A necessidade premente em desatar tantos nós quanto possíveis da ‘cadeia’ fizeram dele um profissional genérico que levou às últimas conseqüências a máxima anarquista “faça-você-mesmo”! O que quero dizer é que o autoprodutor é o operário da Contra-indústria! A negatividade implícita no termo significa menos a transformação vertiginosa dos aspectos técnico-formais do que a recusa do modelo consolidado de divisão do trabalho e atribuição de tarefas no sistema de produção em escala industrial. Essa é a principal mudança paradigmática que trás a reboque todas as outras. A Contra-indústria se impõe portanto como um novo modelo de divisão de trabalho sem no entanto abrir mão dos avanços tecnológicos e das conquistas e soluções encontradas pela própria indústria. Essa nova divisão do trabalho se estrutura em redes colaborativas onde a gestão das atividades é individual, orgânica e ao mesmo tempo coletiva. Contra-indústria é, no plano sintático, um oxímoro, mas a contradição dos termos é apenas aparente e perdura até o momento em que se percebe que ela se constitui na verdade como uma síntese dialética da revolução industrial. A idéia de redes e de rizoma aqui torna-se fundamental para compreender a forma como se dá o processo de produção contra-industrial.

Indústria Cultural, o termo sexagenário criado por Adorno no livro Dialética do Esclarecimento, escrito a quatro mãos com Horkheimer e publicado em 1947, adquire assim um novo significado dentro de uma perspectiva dialética da história da produção e do consumo de arte. Aquele foi o momento de identificação do surgimento de um fenômeno em escala mundial que se consolidaria nos anos 60 e 70, atingiria o ápice nos 80 e entraria em franco declínio a partir de meados da década de noventa do século passado.

Voltando à sua pergunta a partir dessa perspectiva, não vejo contradição porque a produção contra-industrial (independente?) não é uma esfera privada. Talvez ela esteja exatamente neste espaço indefinido entre o público e o privado. Porque se considerarmos que as leis surgiram a partir da organização da sociedade civil, que são um direito conquistado e, no entanto envolvem uma parcela de dinheiro privado, ainda que seja um imposto deduzido, encontramos um certo equilíbrio instável nessa relação. O fiel da balança aqui vai depender da forma como esse dinheiro é gerido, quais os mecanismos regulam essas ações e quais critérios são utilizados na aprovação dos projetos e como eles são realizados.

Nesse sentido, o apoio das leis de incentivo é uma forma legítima de produção contra-industrial, uma vez que permite aos criadores total autonomia criativa e parte do princípio de que o investimento em cultura por parte do estado é um dever constitucional tanto quanto a segurança ou a saúde por exemplo. Mas estamos tão acostumados ao modo de produção privado nesse setor, que muitos têm a impressão de que não é correto usar o dinheiro das leis de incentivo para produzir um espetáculo, editar um livro, realizar um show. Essa é uma visão conservadora, que sustenta a idéia equivocada de que o artista pertence a uma elite intelectual na qual seria vergonhoso investir dinheiro público. Poucos defensores dessa idéia, entretanto, seriam contra a construção de hospitais e postos de saúde para o atendimento da população, ou ainda ao investimento em segurança, com a compra de equipamentos e treinamento da força policial. É que estamos acostumados a pensar que o acesso à cultura é um privilégio – e muitas vezes efetivamente é – mas não deveria ser.

A contra-indústria é uma alternativa pra quem não “conseguiu entrar na indústria” ou é uma alternativa ao modelo de indústria?

Penso que a contra-indústria, dentro do que foi dito acima, seja uma alternativa ao modelo de produção industrial estabelecido. Quem trabalha na perspectiva de trampolim está equivocado e pode invariavelmente se frustrar, porque a realidade cada vez menos corresponde às suas expectativas.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Fotos: Divulgação.

V de Vertigem

Um fake salvou minha vida. Minha vida, ou pelo menos minha vida do jeito como a levo, depende da maneira como insisto em acreditar na humanidade. A humanidade, essa peça estranha no balé do planeta, penso que apenas sua capacidade de criar beleza seja capaz de redimir sua capacidade de destruí-la. Mas eu dizia que um fake salvou minha vida.

Minha vida, ou pelo menos minha vida do jeito como a levo, depende duma espécie de serenidade, de talvez sanidade proveniente em grande medida do prazer e das porradas que, voluntariamente ou não, diariamente eu levo. Às vezes, isso custa caro.

Eu não quero falar do preço que a vida nos cobra, a grande vida, a vida extraída de cada poro e seu alto risco. Não é isso, não agora. O que eu dizia é que manter a linha nem sempre é fácil e que as coisas que ajudam a mantê-la podem ser caras, mesquinhamente caras, estou falando de Grana, estou falando que há coisas muito simples que me deixam tranqüilo, não me lembro se o trema já caiu, um milhão de coisas muito simples como a beleza de um diálogo, um naco de nuvem, ou quadrinhos. E quadrinhos, ao contrário das duas outras opções, custam Grana.

Agora, voltemos ao fake.

Agora sei que seu nome é Thiago, que trabalha com publicidade e parece com aqueles retratos de Jesus. Mas antes disso, fui apresentado ao fake Von DEWS!, foi esse cara quem salvou minha vida. Entenda que não foi preciso muito e que esse papo não tem nada a ver com a leve semelhança de Von DEWS! com Jesus. Tem a ver com o Vertigem, o blog de scans de HQs que hoje comemora 02 anos e cerca de 600 posts de existência. Entenda que às vezes salvar a vida de alguém pode ser só uma expressão, um pequeno exagero nascido de uma alegria, nesse caso a alegria de contrariar os preços conhecidamente abusivos dos quadrinhos no Brasil.

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Quarto membro de uma equipe inicial da qual é o único sobrevivente, Von DEWS! hoje coordena uma equipe fixa com cerca de 10 colaboradores [além dos colaboradores eventuais e das parcerias com outros blogs e sites], a maioria deles leitores que resolveram ajudar, gente que nunca se viu na vida e trabalha conjuntamente para me impedir de gastar um dinheiro que não tenho com coisas que amo. Coisas que admiro, como esta série do Warren Ellis, coisas das quais já falei aqui, como The Walking Dead, coisas que me divertem muito, como o doido do Steve Niles, coisas geniais, como a obra do genial Grant Morrison. Tudo gratuito – traduzido, diagramado e escaneado com cuidado e persistência.

Fell (Warren Ellis+Ben Templesmith)
Fell (Warren Ellis+Ben Templesmith)

Com método, mesmo. Não é, Von DEWS? “Atualmente cada revista tem um tradutor e um letrista fixos, e raramente uma pessoa só faz as duas coisas. Eu faço as capas e os títulos, e reviso todo o trabalho dos tradutores mais de uma vez. Leio e reviso a tradução que chega em Word, e faço o mesmo trabalho quando volta das mãos do letrista”.

O trabalho é de editora, eu penso, e aproveito para perguntar sobre mercado. “É uma incógnita, as editoras escondem os números de vendas, de tiragem. Nos EUA, as editoras exibem com orgulho os números das vendas. Aqui, elas escondem. Tenta perguntar pra Panini quantas edições de X-Men foram vendidas esse mês…Nem pagando eles te falam. É dificil mensurar qualquer coisa”. E ele pergunta mesmo, seu interesse pelo mercado editorial é mais sério que a minha pergunta: apesar de figura conhecidíssima nas comunidades de download e de preparação de scans, Von DEWS! não troca os quadrinhos de papel pelos arquivos de computador, e acredita que seu trabalho deva ser de parceria com as editoras.

Os Invisiveis (Grant Morrison)
Os Invisíveis (Grant Morrison)

E com outros grupos de scans. Segundo o editor do Vertigem, sempre que pinta uma dúvida de tradução ou diagramação, sempre que aparece a oportunidade de colaborar com resenhas e artigos, enfim, sempre que há a possibilidade de diálogo, há diálogo. “Quase todo mundo tem o msn de todo mundo”, por exemplo. Mas vamos voltar ao papo sobre mercado.

“Apesar do crescimento da internet, os scans circulam entre uma parcela mínima de leitores. Eu vejo isso no orkut, a quantidade de leitores que nem sabe o que é scan, não sabe que existe uma edição original americana [nota deste repórter: caramba!]. O papel dos scans é mais de divulgação que de qualquer outra coisa. Eu acho que, por exemplo, se ninguém tivesse traduzido The Walking Dead há alguns anos, a [editora] HQM nunca teria investido nos encadernados. Por mim, a gente fazia parceria e a divulgação seria conjunta! Só esse semestre eu gastei mais de 800 reais em quadrinhos! Eu tenho 40 giga de quadrinhos no PC, mas tenho o equivalente a 900 giga em papel! E não os troco por nada!”, ele afirma, com as exclamações que lhe são peculiares.

Parece haver de certa forma uma correspondência entre essa disposição em colaborar com o mercado regular de quadrinhos e, se não a disposição contrária, pelo menos a raridade da fiscalização legal. Porque embora nós dois acreditássemos que a ação do Vertigem e de qualquer outro blog de scans seria ilegal apenas se resultasse em lucro, a legislação de direito autoral é, segundo o Edson, bem menos tolerante. Mas a intolerância tem se mostrado felizmente alheia ao trabalho de divulgação de scans, ao contrário do que ocorre com blogs de download de arquivos de áudio e vídeo.  “Até hoje, em quadrinhos, só o Eudes [do Rapadura Açucarada] teve problemas com isso. A questão é que ele vinha escaneando quase tudo que saía em banca, e na época o blog tinha muita visibilidade. Com a proliferação dos espaços essa visibilidade exclusiva diminuiu, ele precisou parar durante um tempo mas depois voltou com força total”.

Von DEWS! concorda quando digo que a situação é essa: os blogs existem, ninguém sabe direito o que pode ou não pode fazer legalmente, mas também é como se a lei não estivesse preocupada com isso. Parece uma espécie de benefício, fruto do eterno anti-lugar que os quadrinhos ocupam na estante cultural das sociedades, da imagem que preservam de entretenimento inofensivo e fonte de roteiros quadrados pra indústria cinematográfica, e não uma linguagem como qualquer outra, capaz do que é capaz qualquer linguagem quando usada por uma voz sincera e afiada. De ocupar o tempo de pessoas que a amam e não vão ganhar nada em troca, não vão ganhar nada que tenha valor de troca, pessoas que não vão trocar isso por nada.

[Reuben da Cunha Rocha.]

Uma voz do presente

“Escuta Wado, bicho! Esse cara é completamente contemporâneo! Escuta!”, foi o primeiro elogio que ouvi sobre a obra do cantor e compositor catarinense, mas a conexão ruim é a verdadeira inimiga da cultura livre e depois de ouvir o elogio levou ainda algum tempo até que eu conseguisse baixar seu primeiro disco, O Manifesto da Arte Periférica (2001), encontrado solitário numa comunidade de orkut.

Tempo o bastante pra que eu me tocasse do melhor: não apenas o primeiro disco, toda a obra de Wado até aqui tá disponível pra download, desdo Manifesto, passando por Cinema Auditivo (2002) e A Farsa do Samba Nublado (2004) até Terceiro Mundo Festivo, lançado este ano e em processo de divulgação, com shows até agora realizados do Pará a SP, passando por Pernambuco, Ceará, Distrito Federal, Bahia e Alagoas, onde o cantor reside há quase dois anos.

Na verdade, pra onde voltou há quase dois anos. Nascido em Santa Catarina, com oito anos de idade Wado se mudou pra Maceió, e lá viveu o bastante pra chegar a gravar os dois primeiros discos. Depois disso, dois anos e meio no Rio + um ano em São Paulo.

A volta pro nordeste coincidiu com outra mudança, essa na discografia do cantor: o ingresso no independente. Com um primeiro disco lançado pelo selo Dubas [do compositor Ronaldo Bastos] e os dois seguintes pela Outros Discos, Wado primeiro jogou Terceiro Mundo Festivo na rede pra somente em seguida lançar o produto material, sem selo mesmo.

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Perguntado, ele associa tanto o uso da internet quanto a entrada no independente à necessidade de renovação criativa. “Eu tava me reconstruindo, tentando não me repetir. Me pareceu uma boa estratégia”, ele me diz no msn e eu respondo que acredito ter funcionado. Mas voltando um pouco. Como é que os primeiros discos [que têm selo] foram parar na rede? As gravadoras liberaram, e tal? “O que rolou foi que os contratos acabaram. Os contratos estão mais curtos hoje em dia, geralmente com dois anos o disco volta pra mim. Daí chegou uma hora que era tudo meu novamente e eu postei tudo no site”, e se tu [como eu] não fazia idéia dessa mudança nos contratos com gravadora, o compositor explica: “os contratos começam como padrão, mas quando tu não tá mais no primeiro disco dá pra negociar uns detalhes”.

Baixo então disco após disco e sem procurar encontro aquilo de que me haviam alertado, a contemporaneidade da voz, da palavra e do som do artista, profundamente pessoais [pra mim o nome disso é sotaque, nos discos de Wado até os timbres dos instrumentos o têm.] ao mesmo tempo que sempre sensíveis ao outro, ao fora, ao que não é umbigo. É isso para mim a ‘arte periférica’ de Wado: um olhar e um modo de se relacionar com as coisas mais do que um tema. Uma sensibilidade que fala só do que lhe emociona, e que refinada se emociona com coisas que mal vemos. Um carteiro de favela empenhado na ingrata tarefa de vencer as ruas fora de catálogo bebe com coração tranquilo sua cerveja no final do dia. Pé que dá fruta é o que mais leva pedra, e uma raiz é uma flor que despreza a fama. Meu corpo escuta o groove com os poros e pensa, o groove introduz leveza na subversão sonora.

E escuto então isso tudo e penso no dilema do artista contemporâneo, ou melhor, no dilema contemporâneo do artista, construir trajetória, batalhar grana, tocar em Paris e produzir o próprio show, gravar o próprio trabalho e procurar trabalho. É aí que dou uma boa olhada no meu próprio entusiasmo e penso, que beleza, nada é tão simples quanto parece, nada se reduz ao tamanho gigantesco de nossos entusiasmos, e sou obrigado a segurar minha própria onda quando escuto de Wado que voltar pro centro é uma possibilidade, que “voltar é pra ter mais visibilidade”. Que nem tudo são flores no 3º mundo apesar da festa e que mesmo a decisão de descer pro sudeste novamente não depende só do seu talento ou do que sua voz tem a dizer de nós. Que é preciso ainda se “preparar pra poder trabalhar com outras coisas por lá, eu não consigo viver só de música”.

Até a permanência no independente e a distribuição livre do seu trabalho na internet, esses dois enormes entusiamos do declarado fã que sou, não têm futuro certo. Da internet os frutos, segundo o compositor, têm sido mais shows vendidos, melhor distribuição e até, imagine você, mais vendas de disco [“depois de ouvirem as pessoas querem a coisa fisicamente também”]. Eu acho massa. Mas ele mesmo não tem certeza se seguirá na trilha recentemente aberta e tá tranquilamente aberto a negociar contrato com gravadora. “Acumula muita função pra mim, ter de ser artista, gravadora, produtor. Essas porras todas”, né?

É assim que nem tudo é festa no 3º mundo festivo e que apesar da festa, dos quatro excelentes discos [baixa logo, maluco!], do enorme talento, da singularidade de sua proposta e da disposição em seguir fazendo o melhor nas condições dadas, sejam elas quais forem, o futuro do artista periférico é que nem morar de aluguel: provisório e em permanente mudança.

E Wado nem reclama. “A vida tá boa”, ele diz, e eu penso no quanto isso fala sobre sua música, que se fosse pra dizer do que se trata ao invés de escrever este texto eu diria isso, é trilha sonora pra vida boa, pra dançar a lição do samba: dançar a vida boa quando a vida não tá fácil, que a vida mesmo nunca é.

[Reuben da Cunha Rocha.]