Pequenos Grandes Momentos Ilustrados da História da Recombinação (3): Cut-Up

Fazia tempo que queríamos continuar a série de textos sobre os momentos ilustrados do grande passado da recombinação, que começou com o Detournement e teve sequência com o post sobre Machinima. Eis que chegou a vez do Cut-up,  método consagrado pelo escritor beat William Burroughs, o velhinho mais junkie que esse mundo já conheceu.

Pré-história;

Tristan Tzara – Dadaísmo – TO MAKE A DADAIST POEM (1920, Tzara)

Take a newspaper. Take some scissors.
Choose from this paper an article of the length you want to make your poem.
Cut out the article.Next carefully cut out each of the words that makes up this article and put them all in a bag.
Shake gently. Next take out each cutting one after the other.
Copy conscientiously in the order in which they left the bag. The poem will resemble you.
And there you are—an infinitely original author of charming sensibility, even though unappreciated by the vulgar herd.

—Tristan Tzara, 1920

_ O que quer dizer

[youtube=http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=HRhC13wIglk]

“After developing an addiction to the substance he uses to kill bugs, an exterminator accidentally murders his wife and becomes involved in a secret government plot being orchestrated by giant bugs in an Islamic port town in Africa. (IMDB, sobre o Filme “Naked Lunch“, de 1991, dirigido por David Cronenberg)

_ E hoje?

Homenagens
As imagens, em ordem,Cutup Collective; Momafotos; Technocult; Burroughs; Naked Lunch capa; Naked Lunch (no Google Books); Cybernetic; Revista Select; Uncreative Writing (no Google Books); MixLits (Revista Overmundo nº2).

A falsificação da numerologia pirata

Volta e meia são divulgados os números da pirataria no Brasil, na América Latina, no Mundo. Menos R$ 24 bilhões aos cofres públicos nacionais em 2010. Menos US$ 6, 1 bilhões para os multinacionais estúdios de cinema. Menos 2, 4 milhões de empregos. Menos credibilidade para a fonte não divulgada desses números fajutos – que geralmente são inventados divulgados por entidades representativas de gravadoras e estúdios de cinema (APCM) ou indústrias (FIRJAN, por exemplo). E o pior é que o alarme falso quase sempre é aumentado pela imprensa que não contesta e reproduz as “estatísticas”, formando opiniões prontas em muita gente.

Pois um grupo formado por pesquisadores de nove países decidiu contestar e averiguar a realidade. Desde 2006, e divulgado desde 2010, as organizações lideradas pelo Social Science Research Center, dos Estados Unidos, analisaram os mercados informais de lá e da África do Sul, Bolívia, Brasil, Índia, México e Rússia. Como resultado foi publicado o relatório “Pirataria em economias emergentes” com 440 páginas em inglês, 86 delas dedicadas ao Brasil. Aqui, a pesquisa foi realizada pelo Instituto Overmundo e pela Fundação Getúlio Vargas, que desvendaram alguns mistérios, como disse Ronaldo Lemos:

– Fala-se que o Brasil perde dois milhões de empregos por ano com a pirataria. É um número creditado à Unicamp, então fomos à Unicamp tentar descobrir que pesquisa apontaria isso. Conversamos com as pessoas lá e descobrimos que essa pesquisa não existe. Outro dado bastante utilizado é que o Brasil deixa de arrecadar R$ 30 bilhões por ano em impostos por causa da pirataria, e esse também é um valor sem fundamento.

Na mesma matéria do Globo de onde pescamos a fala de Lemos, nos dois últimos parágrafos não publicados online, mas publicados neste blog, o chefe da Divisão de Propriedade Intelectual do Itamaraty e membro do Conselho Nacional de Combate à Pirataria e Delitos contra a Propriedade Intelectual (CNCP), Kenneth da Nóbrega, admite que “a indústria apresenta dados cuja metodologia nem sempre é clara. Existe um debate internacional sobre essa metodologia, e o governo brasileiro ainda não tem números oficiais sobre pirataria“. Ou seja, a metodologia utilizada em “pesquisas” sobre consumo de produtos piratas, como a da Fecomercio-RJ, não é confiável, tornando os números não autênticos. São falsificados.

As estatísticas da pirataria são mais falsas do que os produtos

Dessas “estimativas”, os representantes das grandes empresas e de órgãos governamentais conseguem a deixa para promover campanhas e propagandas enganosas que ligam o consumo de produtos falsificados ao Crime Organizado, ao Terrorismo, ao Trabalho Escravo, ao Tráfico de Drogas – como aquelas que nos deparamos antes de ver um filme em dvd ou mais recentemente no cinema. Um exemplo mais concreto é a campanha “Brasil sem pirataria”, resultado da pesquisa supracitada encomendada pela Fecomercio-RJ, e apoiada pelo CNPC – aquele cujo representante disse ao fim da matéria que defendem “que elas não façam relações simplórias”.

“Simplório” é justamente o que mais é feito, pois há um grande problema na utilização do termo genérico “pirataria” para qualquer tipo de infração de propriedade intelectual. Nessas campanhas existem dois tipos de violação: a dos direitos autorais e a da propriedade industrial. Os primeiros valem para os produtos que incidem sobre as ideias, como cds, dvds e livros; os segundos, para invenções ou marcas, como brinquedos, remédios e tênis. Por isso Oona Castro, diretora-executiva do Overmundo diz que “A gente acaba fazendo um debate com problemas distintos, de natureza diferente, mas que são tratados da mesma forma”.

Nenhum de nós duvida dos danos que um tênis de marca diabo pode fazer no pé, ou um remédio de procedência duvidosa pode causar no teu corpo, ou um óculos totalmente de plástico no teu olho, ou um brinquedo no teu filho. O que não se pode colocar no mesmo saco são os cds, dvds e downloads – que, geralmente, possuem os mesmos dados digitais da origem, sendo cópias sem perdas de qualidade.

“Projetos de conscientização”

O debate das consequências da “pirataria de tudo” tem seus efeitos e é levado para crianças e adultos, formatando mentes através de “projetos de conscientização” escolares ou reportagens na imprensa.

Projeto Escola Legal – promovido a partir de 2007 pela Câmara Americana de Comércio (AmCham), apoiado pelo CNPC e patro$$inado pela MPAA –  é um desses que reproduzem os falsos números. A intenção do projeto é auxiliar professores a doutrinar trabalhar a anti-pirataria com seus alunos, através de um “kit para educadores” e atividades nas disciplinas – que vão desde textos sobre o assunto em Português até problemas de Matemática com os números das “pesquisas”, passando ainda pela citação dos países fonte de produtos falsificados na Geografia. Segundo o site, o projeto foi implementado em 82 escolas (9 particulares e 73 públicas) de seis cidades (de SP, GO, e SC), podendo se espalhar para mais escolas.

E os de mais idade também podem reproduzir as mesmas cifras por meio de reportagens veiculadas na imprensa. Dá uma olhada nessa reportagens do Fantástico e do R7 pra tu ver que os números são reproduzidos e a “pirataria” é usada tanto para se referir a infração de direito autoral quanto a de propriedade industrial. [Na segunda reportagem, mostra exemplar do ridículo discurso moralizador do combate à pirataria, felizmente um entrevistado diz que “as vezes você compra um cd ou dvd que você vê duas vezes e já vale a pena“.]

Como se percebe,  as campanhas e reportagens jornalísticas tentam colocar uma dose cavalar de “culpa”  na hora de compra de produtos oficiais. Se esquecem de dar o destaque devido àquela que é a principal motivação de alguém para comprar um produto considerado “pirata”: o preço mais baixo. É público e notório que o preço alto das mídias não condiz com os baixos salários dos cidadãos, especialmente em países emergentes como Brasil, Rússia e África do Sul, onde o preço de um CD, DVD ou de uma cópia do Microsoft Office é de cinco a dez vezes maior do que nos Estados Unidos ou na Europa, e os produtos oficiais acabam sendo ítens de luxo, como Lemos escreve na introdução do estudo que pode ser baixado aqui.

Créditos das imagens: 1, 2, 3, 4.
 

[Marcelo De Franceschi]

 
ssas estimativas piratas costumam

Efeméride remixada

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Ontem, dia 15 de setembro, o BaixaCultura completou dois anos.

Quando completou seu primeiro ano, em 2009, fizemos até umas “Felicitaciones“.

Agora, com dois anos, melhor não. É um pouco que nem namoro, onde a gente só comemora mesmo no primeiro ano.

Como em 15 de setembro de 2009,  novamente prometemos algumas mudanças, editoriais e de layout. Dessa vez, elas já estão em andamento.

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Enquanto isso, saiu o e-book “Novos Jornalistas: para entender o jornalismo hoje“, disponível aqui para download. O livro é uma coletânea que reúne trinta e oito textos de profissionais da mídia brasileira (jornalistas e não jornalistas), que tratam de algumas novas habilidades que supõem-se úteis aos jornalistas “modernos”, depois de toda essa revolução tecnológica que já nem parece tão revolução de tão embuída que está no nosso dia a dia.

O e-book e o blog onde os textos foram postados inicialmente vão ter uma versão em inglês – aliás, o blog em inglês já está com alguns textos, outros sendo traduzidos. Dos colaboradores, tem bastante gente interessante, como Ana Brambilla, Marcelo Costa, Rodrigo Savazoni, José Murilo Junior, Sergio Vilas Boas, Tiago Doria, André Deak, dentre outros.  Um dos textos da coletânea foi escrito por nós. Por conta disso, disponibilizamos ele aqui abaixo, com ligeiras modificações para o da coletânea. Disfrute, e se quiser mais baixe o e-book.

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Jornalismo é remix

A  recombinação não é nem nunca foi nenhuma novidade, mas sim uma prática milenar que, agora, com a facilidade que a internet nos proporciona, tem sua ação potencializada aos montes. No jornalismo, então, a recombinação é parte inseparável de sua prática desde sempre. Tanto nas técnicas empregadas quanto na dita produção de seu conteúdo, o processo jornalístico se caracteriza por ser múltiplo e heterogêneo. Um sem número de produções, sejam elas grandes reportagens ou pequenas notícias, já foram feitas tendo como base estudos e pesquisas realizadas nos mais diversos campos do saber. Nada mais do que apresentações de novas informações, decorridas das transformações naturais, reajustadas às informações previamente existentes. Recombinação.

Como diz Nilson Lage, professor aposentado da UFSC e das figuras que mais entendem de jornalismo nesse país, a própria natureza do jornalismo requer recombinação. “Vejo o campo jornalístico como um campo próprio para a reutilização de conhecimentos de outros campos. Ele toma das ciências o que lhe convém, disse o mestre em seu twitter (que, por sinal, vale e muito a pena acompanhar). O jornalismo, comumente um saber do imediato e do singular, não tem condições de usar, de maneira aprofundada, o vasto e atemporal conhecimento das ciências. O tempo em que ele é praticado não permite essa extravagância, por assim dizer, muito embora deva se buscar ao máximo esse objetivo sempre que for possível.

O jornalismo toma das ciências aquilo que lhe é possível aplicar no tempo em que é feito. E esse possível é nada mais que uma pequeníssima parcela da filosofia aqui, uma outra da lingüística ali, um tantinho da lógica, outro tento de história e uma parcelinha de geografia (outras áreas podem ser utilizadas, a depender do assunto tratado; essas são as mais comuns). É do “remix” dos prévios conhecimentos dessas áreas combinados com a matéria-prima da qual vive o jornalista – a informação da atualidade – que vai ser produzido aquilo que sempre costumamos chamar de jornalismo.

A constante interpretação e atualização da informação já existente, e agora digitalmente mais acessível, tem se intensificado em frequência, e ao mesmo tempo em desafio. É o que comentam outros pesquisadores e profissionais do jornalismo, como, por exemplo, Marcelo Trasel, que aponta como um dos desafios do jornalismo de hoje o de “atualizar dados em matérias antigas, que ficam disponíveis via buscadores”.

Com todas as reportagens, notícias e opiniões possíveis disponíveis na internet, a maior dificuldade do(s) jornalismo(s) existente(s) parece ser a de tornar este emaranhado de informação e opinião em algo singular. Algo que seja ao mesmo tempo atrativo ao leitor e importante para a sociedade. Que seja novidade, mas que também não se restrinja só em ser a mais-nova-informação-da-última-hora, e sim que traga um mínimo necessário de aprofundamento. O que, por sua vez, evitaria o afogamento na hipernovidade desprovida de qualquer sentido, um dos males tão ordinários hoje em nosso cotidiano recheado de links e esvaziado de significado.

Uma das formas que o jornalismo tem para usar a seu favor nestes tempos ultramodernos é, justamente, a recombinação. Se existe tanta coisa assim para nos informar e nos deixar perdido, então que aproveitemos esse contexto ímpar na história para o cruzamento enlouquecido de informações. Que com isso se busque significados que vão além da superfície e que se rompa as amarras da última novidade para propor uma ligação firme com a vida presente de cada um.

Para o jornalismo, a recombinação vale não só para a busca de informação exclusiva, ainda e por muito tempo só obtida através de fontes confiáveis, mas também para o cruzamento da informação que todo mundo tem com as mais variadas possíveis bases de dados. É claro que para isso acontecer um monte de outras coisas devem aparecer (formação adequada para o tratamento com bases de dados, informações públicas mais disponíveis e abertas a todos, iniciativas e financiamento para um trabalho jornalístico independente) e desaparecer (o preconceito de muitos com o maravilhoso mundo da informática, o comodismo das redações tomadas pelos critérios mercantis de noticiabilidade, a condição de assédio moral tomada como praxe em muitas redações).

Com tudo isso acontecendo (ou não), quem sabe não passamos a pensar na idéia que o escritor William Gibson trouxe no texto “Confissões de um Plagiador”, que republicamos alguns meses atrás: A gravação, e não o remix, é a anomalia hoje. O remix é a verdadeira natureza do digital. Em outras palavras: é a essência da comunicação dos nossos tempos. Nos arriscamos a dizer que o remix seria tão “natureza” do digital que nem mais haveria de existir uma distinção entre o próprio registro (objeto) e a recombinação (um processo). Tudo seria (e não é?) recombinação.

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Créditos das imagens: [1], [2]

Simpósios, seminários e entrevistas

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As discussões sobre a informação na era digital não dão folga essa semana. Tem três ocorrências bem importantes que parecem ter combinado de acontecer na mesma época, justamente a em que estamos com pouco tempo pra escrever. Hoje começa o Copyfight, seminário que discutirá por dois dias o tema Propriedade Intelectual e Pirataria. O evento é organizado pelo Pontão da ECO da UFRJ e é uma continuação do Fórum Livre de Direito Autoral, ocorrido em 2008 e divulgado por aqui. A programação consiste em laboratórios práticos de conhecimentos livres durante a parte da tarde e em palestras à noite. As incrições para as oficinas parecem ter se encerrado, mas pra quem mora longe dá para acompanhar os quatro interessantíssimos debates através da transmissão ao vivo, que segundo o site estará disponível lá, ou pela mala-direta e pelo grupo de e-mails do Pontão.

Um outro evento de debates que está acontecendo é o Simpósio Internacional de Políticas Públicas para Acervos Digitais, que como o nome explica, atenta para a digitalização de conteúdos de instituições brasileiras. Legislação, padrões, tecnologias e os projetos são as pautas dos quatro dias do evento, que começou segunda, dia 26, e termina amanhã, dia 29. Assim como o Copyfight, o Simpósio também tem transmissão ao vivo, mas pode ainda ser acompanhado pelo twitter “oficial” @culturadigital e pelos “extra-oficiais” @gabiagustini e @andredeak, dois dos jornalistas que integram a FLI multimídia, empresa que tem feito a cobertura jornalística no site oficial do evento. A Fli, vale dizer, integra a Casa de Cultura Digital, o simpático agrupamento mezzo-anárquico sediado na tranquila rua Vitorino Carmilo, na Barra Funda, São Paulo capital, que desde o início do ano tem estado a organizar eventos e propor discussões no âmbito da cultura digital e que, por conta disso, mui provavelmente, tem sido o mais atuante catalizador no que diz respeito à este(s) assunto(s) no Brasil.

A organização do simpósio está a cargo do Ministério da Cultura, do Projeto Brasiliana USP, que tem digitalizado e tornado possível o acesso à documentos e obras essenciais para se conhecer a história do país [e que já deveria ter sido mais comentado por aqui, aliás], e da Casa da Cultura Digital. Como o simpósio está em andamento, algumas boas discussões já foram travadas, mas menos mal que elas estão bem documentadas no site oficial. Em especial, destacamos o post que fala de Pablo Ortellado – historiador, pesquisador do Gpopai-USP – que defende a tese de que o direito autoral não faria sentido no contexto da produção/consumo de livros no Brasil de uma forma tão cartesiana e precisa que causa estranhamento, como é dito no início do texto do post; e o texto que trata da disponibilização (gratuita) para download de toda a poesia de Vinícius de Moraes, aquele que Drummond dizia ser o único poeta nacional que realmente viveu como poeta – olhe a aventuresca vida do poetinha que você entenderá o porquê.

Hoje e amanhã a programação continua com mais quatro mesas de debate [que, vale repetir, podem ser acompanhadas também do conforto do lar na transmissão ao vivo no site].

E o último acontecimento desses sete dias correntes foi a participação do nosso já conhecido Gerd Leonhard no Roda Viva (foto), o tradicional programa de entrevista que ocupa a grade de segunda-feira à noite na TV Cultura faz mais de 20 anos. A edição do programa foi gravada na última passagem do mediafuturist pelo Brasil , em 24 de fevereiro deste ano, quando o alemão residente da Suiça fez uma palestra sobre “o futuro da comunicação e midia social“.  Aqui tem algumas fotos da entrevista  – de onde retiramos essa aqui de cima, por sinal – e neste endereço será possível assistir alguns trechos do programa, daqui a dois longos meses. “Por ser um programa em outro idioma, o processo de edição é diferente. A íntegra estará disponível 2 meses após a exibição.” informou-nos o twitter do programa. Aproveitando a ocasião, Gerd lançou em seu blog a tradução para o português de uma carta aberta para a indústria fonográfica independente, que tem o grandioso título de “Carta aberta de Gerd Leonhard para a Indústria Fonográfica Independente – a música 2.0 e o Futuro da Música são seus – se você conseguir resistir a tentação de se tornar apenas outro cartel da música“.

A carta é interessante e algo polêmica. Defende uma boa ideia, a de que se tu (gravadora independente) parar com o compartilhamento tu vai acabar com o negócio da música. Ao final, traz aquilo que Gerd, por auto-instituído cargo, sabe fazer de melhor: previsões. Reproduzimos um trecho da carta aqui abaixo, que foi traduzida para o português por Juliano M. Polimeno e pode ser livremente distribuída, desde que para fins não comerciais e que seja feito a distribuição pela mesma licença creative commons. Recomendamos a leitura da original completa, nem que seja na busca de uma argumentação (contrária, até) mais consistente:

Dentro de 18 meses, em muitos territórios chave para a música ao redor do mundo, redes wireless de banda larga e redes específicas para conexão entre dispositivos irão conectar todos os aparelhos concebíveis entre si, assim como com um gigante depositório de conteúdo online – ou deveria dizer switch-boards – que conterá toda e qualquer música, filme ou programa de TV imaginável.

Se você pensa que o “compartilhamento” é um bom negócio agora, espere mais 2 anos – ele será 100 vezes mais rápido e disponível para todo e qualquer dispositivo (não só computadores). Três bilhões de celulares e um bilhão de tocadores irão se conectar perfeitamente entre si.

O acesso wirelless de banda larga e os dispositivos se tornarão tão baratos, super-rápidos e onipresentes que o compartilhamento de conteúdo será o padrão, em alta velocidade e com qualquer um que estiver próximo. Busque – Ache – Selecione – Troque. Clique e tenha.

Como você pode monetizar isso? Licenciando participação – e as redes e dispositivos que a permitem. Você terá que licenciar o uso de toda e qualquer música nestas redes, e fazer ofertas universais irresistíveis, irrefutáveis e imprescindíveis àqueles que a administram. Esses negócios de licenciamento devem ser conversas e não monólogos. Não um dedo apontado para os ISPs mas um grande, brilhante e atrativo incentivo.

[Leonardo Foletto, Marcelo De Franceschi]

Uma amostra do trabalho dos Uploaders

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Mui provavelmente, depois de ter baixado gigabytes de discos e filmes, já deve ter lhe ocorrido a seguinte pergunta: “mas quem será que colocou esse monte de arquivo pra mim?” Afinal, alguém comprou (ou copiou de alguém) o produto e botou lá, depois de um bom trabalho, pra gente consumir de graça. E é sobre eles, e um pouco sobre como eles põem os arquivos pra todo mundo baixar, que vamos falar um pouco aqui. Uma singela homenagem a esses nobres compartilhadores.

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Há quase um ano, a revista Trip publicou uma matéria buscando conhecer o perfil e entender o porquê dessas pessoas comuns se prestarem a fazer todo o trabalho de graça. Para apurar as informações, a repórter precisou ser sabatinada pelos desconfiados “criminosos” frequentadores do fórum do The Pirate Bay, até que conseguiu conversar com eles. Alguns inclusive aceitaram fazer umas espécies de retratos falados, no site FlashFace, que ilustram a matéria [e que também utilizamos para abri este post]. Então deu pra descobrir  quais os motivos que os movem e quais os custos da filantropia digital. Os esforços para fazer isso são claros. Tempo, dedicação e organização são imprescindíveis pra criar algo de qualidade, tudo na faixa.  E as razões também não poderiam ser mais simples. Eles ganham um pouco de conhecimento e de diversão, e em troca querem reconhecimento e agradecimento, na forma de um comentário ou até amizade, vinda de quem só baixa. Uma situação bem semelhante quando nós do Baixacultura escrevemos ou traduzimos algo, vide principalmente aquiaqui. Dentre seis depoimentos que aparecem na reportagem de Ana Magalhães Silva, um é bem emblemático sobre alguns dos motivos dos uploaders:

“Acho absurdo você ter que pagar R$ 100 num DVD de um filme… se os valores fossem mais acessíveis talvez não houvesse pirataria. Sempre que eles fecham um site de download, aparecem outros dez. Faço upload há dois anos e o que me motiva a lançar mais é o agradecimento dos usuários.”

O trecho é do jovem usuário chamado Júnior, autor de um video que reproduzimos abaixo. Nele, é mostrado como subir um cd de músicas e como é criado o respectivo arquivo .torrent.  Criar uma conta em um servidor de hospedagem de arquivos é fácil, mas criar um torrent não é muito popular. Torrents podem ser mais rápidos de baixar e os arquivos baixados podem  ser muito mais pesados que aqueles comportados por sites.  Entretanto,  o processo é um pouco mais complicado do que simplesmente enviar o conteúdo. O seguinte tutorial foi criado para ajudar os membros do fórum Bj-share, um dos maiores sites de torrent do Brasil, que possui regras muito bem definidas sobre os deveres de quem o utiliza e os tipos de arquivos que devem ser colocados, além de informações para iniciantes.

Antes mesmo desse processo de semeação dos arquivos, existe ainda  um outro processo bem mais demorado: a digitalização. Ripar um cd é um ato simples, mas e um livro ou um filme? São processos muito mais exaustivos e dispendiosos. Livros e revistas podem ter suas páginas diretamente escaneadas e postas num arquivo pdf, ou então ter as palavras reconhecidas e gerar um documento mais flexível. Esta forma é mostrada no site E-books Gospel, de onde vem um belo exemplo. “Ninguém pode ser dono absoluto do conhecimento” é o mandamento da página, que possui 151 livros em português e que inclusive disponibiliza o link pra baixar o programa escaneador dos livros. Juntamente com o livro baixado, vem um “leia-me” em forma de imagem explicando que o conteúdo livre visa “apenas a edificação espiritual e o fornecimento de bons livros aos menos previlegiados e acesso a cultura e conhecimento”. E que assim seja. Abaixo, a video-aula mostra a minuciosa ação de escanear página por página e depois corrigir possíveis erros.

Outro arquivo mais difícil de ser criado é um filme de 700 megabytes, ou mais. Ripar um dvd pode demorar horas. E depois tem o processo de conversão e por fim a criação do torrent. Existem muitas maneiras de se fazer a ripagem, mas uma nos pareceu bem simples. O português Ricardo Santos possui um blog onde desde 2006 publica resenhas e dicas sobre programas gratuitos. Numa dessas ele mostra num vídeo guia como criar um arquivo de um dvd e depois gravá-lo em outro. Todos os programas utilizados estão disponíveis notexto original.

E uma prática tão demorada quanto chupar um filme é a produção de uma legenda para uma série ou longa-metragem. E se se quer fazer algo que preste não é recomendável ser feito à duas mãos. Geralmente uma equipe inteira é necessária para traduzir, sincronizar e revisar corretamente as legendas ansiosamente esperadas por muitos aficionados nas produções norte-americanas. A Equipe Darkside por exemplo possui 20 pessoas para decifrar todas as dificuldades dos episódios de séries que normalmente nem estrearam no Brasil. Mais de 50 séries já passaram pela equipe, que ainda disponibiliza lições bem completas de treinamento para quem quiser se aprofundar. Para ter acesso as informações é preciso fazer um cadastro, mas no canal do grupo no YouTube eles já deixaram duas divertidas vídeo aulas. Uma é sobre a formatação e outra sobre a adequação das legendas. O grupo também aceita novos integrantes e, para quem está começando, especifica os padrões técnicos para a produção de legendas entendíveis.

Claro que há também softwares e games mas queremos destacar aqui que toda essa trabalheira é realizada por quase profissionais. Digo quase pois a diferença é que eles não ganham um tostão por isso. São como voluntários de uma ONG que beneficia milhares de pessoas que só querem ter acesso à cultura e à informação. Então, agora que você já sabe um pouco como funciona, que tal dizer um “muito obrigado” ou começar a fazer a sua parte e devolver o que baixou?

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P.s: Demos uma de uploaders e atualizamos o link do filme “Ai que vida”, que tinha expirado, deste nosso post.

[Marcelo De Franceschi.]

Infoativismo em debate na Casa de Cultura Digital

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O projetor passa o filme na parede de uma sala, onde diversas pessoas se acomodam nos puffs, almofadas, cadeiras, chão e o que mais der. Da segunda sala onde se vê as imagens estão mais umas quantas pessoas e um obstáculo bem no meio: resquícios de tijolos que foram quebrados para unir o que eram duas casas grudadas. O espaço não é dos mais amplos: esticadas de cabeça são necessárias para ver o que se passa, e alguns estão em pé porque há pouco espaço para sentar e ao mesmo tempo ver o filme. Tudo bem, ninguém parece reclamar. A pipoca corre solta em pequenos potes, e latas (de cerveja) estão nas mãos de uns quantos [entre eles, o professor Sérgio Amadeu, bem conhecido por aqui, que é o que se vê em primeiro plano, no canto direito inferior da foto abaixo], porque o calor que fazia no local, e em toda a cidade de São Paulo, exigia um certo refresco.
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O documentário “Dez Táticas para Transfomar Informação em Ação” (50 min.), apresentado na Casa de Cultura Digital na última quarta-feira às 20h, mostra como o uso de aplicativos e plataformas de redes sociais como blogs, Google Earth, Twitter, Facebook e Flickr podem ser usados para tranformar informação em ações práticas, que visem modificar uma dada realidade. O filme é fruto de um evento ocorrido na Índia em 2009, o Info-Activism Camp, organizado pelo mesmo grupo que produziu o documentário, Tactical Tech, onde centenas de ativistas internacionais se reuniram para debater, aprender, movimentar, ensinar, atuar e mostrar exemplos de ações sociais positivas. Um dos que estavam no evento era o VJ Pixel – pesquisador multimídia e VJ que também integra o coletivo alocado na Casa de Cultura Digital – que teve a incumbência de ser o apresentador da noite na CCD, onde foi apresentada uma versão legendada para o português que já está online [o filme a legenda em português podem ser baixados aqui].

Os exemplos citados serviam de ilustração para cada uma das dez táticas apresentadas [A saber: 1. Mobilize pessoas; 2. Testemunhe e grave; 3. Visualize sua mensagem; 4. Amplifique histórias pessoais; 5. Adicione humor; 6. Investigue e exponha; 7. Saiba trabalhar dados complexos; 8. Use a inteligência coletiva; 9. Permita que as pessoas façam perguntas; 10. Administre seus contatos].

Um dos casos para apresentar a tática 6, por exemplo, foi o utilizado pela Mercy Corps, organização internacional de ajuda humanitária, durante o Tsunami na Ásia. Para transmitir informação para a enorme quantidade de pessoas que tinham sido afetadas pela catástrofe, ela utilizou o Frontline SMS, um programa de código aberto que transforma o seu notebook ou o seu aparelho celular em uma espécie de hub, que pode enviar mensagens para aparelhos celulares de grandes grupos de pessoas sem necessarimente estar conectado à internet.

Outro exemplo citado no documentário é o citado na tática 5, adicione humor. Na Bielorússia, um grupo criou a página chamada “LuNet”, uma singela homenagem de aniversário ao presidente do país, Alexander Lukashenko, que prometeu aumentar o rigor na censura à internet por “não gostar dessa anarquia toda” que caracteriza a rede. O site compilava brincadeiras irônicas ao presidente em páginas-paródias como LuTube eLuJournal,

Para finalizar, mais um caso, agora para ilustrar a tática 3, visualize sua mensagem. Um grupo de “infoativistas” da Tunísia – em protesto contra o bloqueio ao acesso do Youtube e do Daily Motion por conta da exibição de vídeos denunciando abuso dos direitos humanos por parte do governo tunisiano – fez um mashup colocando vídeos proibidos que poderiam ser acessados no lugar onde ficava o Palácio Presidencial nos mapas do Google Earth, como dá pra ver aqui abaixo:

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Ao fim da exibição, antes da discussão em torno das questões levantadas pelo filme, a maioria dos que estão na duas salas se apresentam para os outros, o que funciona como uma contextualização da presença de cada um ali na CCD e introduz o debate. Não demora muito para que um certo consenso se aproxime: as táticas apresentadas, ainda que deveras interessante, despertam uma certa consciência melancólica, pois poucas delas obtiveram resultados realmente práticos – ou, dito de outro modo, poucas resultaram em transformações sociais relevantes para a realidade em que foram produzidas, já que umas apenas conseguiram com que páginas da web, como o Youtube e o Daily Motion, tivessem seu acesso proibido.

Alguns apontam que falta uma organização política em torno destes diversos movimentos, que, dispersos do jeito que estão, não conseguem ter força o suficiente para que uma realidade maior seja modificada. Nota-se esta ideia de falta de resultado prático com ainda mais veemência no Brasil, onde não há um “inimigo comum” como na maioria dos casos citados no filme, localizados em países onde impera ditaduras (ou quase isso). Percebe-se com clareza a tal consciência melancólica: ferramentas para organização, mobilização e ação não faltam, mas sim real interesse e comprometimento contra a ação de inimigos velados, que não se manifestam de maneira tão direta como em ditaduras e quetais, o que torna a mobilização muito mais penosa. Com as novas potencialidades e ferramentas com que dispunhamos para saber o que se passa, o perigo é ser imobilizado pela própria consciência de que há muita coisa a se fazer. Com receio de tão grande a tarefa a ser feita, corre-se o risco de não se fazer nada.

[Apesar dos pesares, creio, com um certo otimismo, de que as coisas estão sendo feitas. Numa escala muito menor do que deveriam, pode ser verdade. Enxergo um certo ranço – míope, vão dizer alguns – em relativizar aquilo que está sendo construído, como se só mudanças estruturais profundas, daquele tipo que com passeata dos cem mil se conquistou tempos atrás, podem ser consideradas mudanças. O movimento do software livre no Brasil, a política de cultura digital do MinC e a consolidação de redes cooperativas extremamente eficientes e bem-sucedidas, como o Fora do Eixo, são exemplos claros de ações consistentes que estão modificando a vida de muita gente, transformando, sim, informação em ação – ainda que numa escala menor do que se necessite, mas aí a discussão é outra, muito mais complexa e que fica para uma próxima postagem]

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CCD vista de trás, do seu pátio

Não é só o documentário que foi resultado da Info-activism 2009. Foram produzidos materiais informativos sobre os temas tratados, que estavam a venda na CCD pelo preço que tu quisesse pagar, no clássico esquema popularizado pelo Radiohead no lançamento de In Rainbows em 2007.

_ Uma série de fichas sobre as dez táticas apresentadas no filme, que detalha em texto aquilo que foi apresentado no vídeo, citando os exemplos, as ferramentas usadas, os efeitos conseguidos e até mesmo o “grau” de dificuldade de cada ação (infelizmente, esse não tá disponível online);

_ Quatro kits temáticos assim chamados: “Get organized“, sobre ferramentas de organização infoativista para o dia a dia ; “Get creative“, com dicas para veicular suas campanhas através de blogs, podcasts, newsletters, etc; “Stay Mobile“, com estratégias de veículação/ação em aparelhos móveis; e “Protecy Yourself“, um compêndio muito útil de informações e dicas para proteger (e criptografar) os dados passados nas campanhas de infoativismo;

_ Quatro guias para aprofundar alguns assuntos tangenciados no documentário: “Be Inspired“, com histórias bem-sucedidas de infoativismo espalhadas pelo planeta; “Get Online“, uma introdução para diversos serviços e ferramentas usados nestas campanhas; Visualize it“, com informações para comunicar visualmente as suas estratégias; e, por fim, “Map It“, que ensina a explorar o uso de mapas (online) em campanhas de infoativismo;

Todos os arquivos estão disponibilizados gratuitamente na rede; é só clicar nos links de cada um dos guias para ter acesso. Disfrute 😉

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Créditos fotos: Andre Deak (da CCD) e  Mauro Rubens (do evento), que fez também um vídeo do evento.
 
As legendas em português do filme foram produzidas por VJ pixel, Gabriela Agustini, Rodrigo Cerqueira, Renzo Taddei, Alineh Bittencourt Souto, Mariana Mello, Hannah de Medeiros Raposo Chamon, João Marcelo dos S. M. M. da Silva e Heitor Francisco Carneiro

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[Leonardo Foletto.]

Flattr e a uma nova (velha) discussão

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O loiro com cara (e DNA) da Escandinávia de nome Peter Sunde já é nosso velho conhecido de algumas postagens. Inclusive, publicamos uma entrevista dele para a Folha de S. Paulo, onde Sunde comentava os recentes eventos sobre o site na qual foi um dos fundadores, o Pirate Bay. À época, discutia-se o quão definitiva seria a decisão do tribunal sueco que condenou ele e mais três parceiros a pagar uma quantia de exagerados 3,6 milhões de euros à entidade que representava os grandes poderosos de Hollywood e da Indústria Fonográfica. Dizia-se que seria o fim do Pirate Bay, o que na prática não se comprovou – procure você um arquivo de torrent para download e lá estarão os piratas suecos para te mostrar um link, ainda que não com a mesma eficiência pré-condenação.

Sunde veio ao 10ºFisl (Fórum Internacional do Software Livre), que ocorreu em junho do ano passado na Porto Alegre capital do Rio Grande do Sul, e por esta época já  dava a entender que tomaria rumos diferentes ao do Pirate Bay, o que veio a se confirmar algumas semanas depois. O caminho tomado pelo outrora pirata sueco foi o projeto que, no início do mês, tornou-se realidade: o Flattr, um sistema de micropagamentos por conteúdo, que ainda está funcionando em fase beta, apenas para teste, mas que pode ser melhor visualizado neste pequeno vídeo de apresentação:

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O Flattr baseia-se na ideia de que o público está disposto sim a pagar por conteúdo, desde que ele possa ser facilmente acessado e da maneira que os usuários quiserem. Apesar de eu particularmente duvidar desta sentença, recente pesquisa realizada pela consultoria Nielsen com 27 mil pessoas em 52 países afirma que metade das pessoas está realmente disposta a pagar por conteúdo – desde que, confirmando a ideia que balizou o funcionamento do Flattr, esse conteúdo seja consideravelmente melhor/diferente daquele que se pode conseguir gratuitamente. A grande questão fica, como Tiago Doria comenta, em descobrir qual conteúdo realmente proporciona “valor” para os seus consumidores, tarefa que será fundamental para o sucesso ou não da ferramenta de Sunde.

Gerd Leonhard – auto-denominado mídia futurista e autor de Music 2.0, dentre outros livros – declarou ter gostado do Flattr.

“Uma ideia brilhante (ainda que não seja inteiramente nova, e esteja de alguma forma relacionada ao Paypal e ao Kerchoonz). Ela corresponde a algo que eu vivenciei nos últimos anos: as pessoas pagam se a) são valorizadas e ganham méritos por isso, por isso ficam inclinadas a devolver o favor, b) elas confiam em você e c) o preço é justo. Talvez o Flattr possibilite isso; no meu ponto de vista, a economia do “muito obrigado” via micropagamentos pode ser poderosa.

Como se supõe, a ideia dos micropagamentos não é coisa nova na web. O Flickr funciona mais ou menos assim, sustentado pelos poucos (que, em escala global, são muitos) que pagam para ter o serviço pro da página, assim como diversos outros serviços. Porém, como também salienta Leonhard, micropagamentos não funcionam pra qualquer um, o que dá um tom para a dificuldade da manutenção do serviço do Flattr: ” seu público precisa ser bem grande para que o sistema funcione. Acho que esse será o primeiro desafio [para o Flattr]: conseguir 50 milhões de usuários e se tornar um serviço considerado padrão, como o PayPal, ou então o Flattr se tornará insignificante.

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Sunde disse, em entrevista ao caderno Link da semana passada, que o Flattr é “uma maneira de mostrar que você gostou de algo – e remunerar o criador por isso“. Tu escuta uma música, gosta, e dá um jeito de remunerar o autor de alguma forma por ela – no caso do Flattr,  pagando uma quantia mensal para usar todo o serviço. Ao final, o dinheiro é dividido igualmente entre os criadores do conteúdo (confesso que ando curioso em saber como essa divisão vai se dar de forma igualitária). É um sistema que se encaixa no que o mesmo Gerd Leonhard aponta como os mais interessantes de se “monetizar” o conteúdo digital; para ele, os únicos modelos realmente válidos são

os que funcionam por classificação de mérito do produtor de conteúdo e os que se parecem com o consumo gratuito de música, por exemplo, com pagamentos embutidos em faturas de provedores de acesso ou operadoras móveis, ou mesmo o download patrocinado por anunciantes”.

Acompanho estas discussões faz algum tempo, e posso dizer que a ideia do Flattr não é nada nova. Parece que alguns tem tentado cada vez mais adivinhar o futuro apostando na ideia de que o serviço de download ilimitado (ou streaming ilimitado, quem sabe) seja considerado como um serviço tipo energia elétrica e água encanada, onde se paga uma certa taxa por mês para ter acesso facilitado à tudo. Pagaria-se, por exemplo, para ter o acesso ao download (ou streaming) de todas as músicas possíveis de maneira fácil, de modo que qualquer usuário semi-familiarizado com o computador e a internet conseguiria, por conta própria, baixar aquele disco que tanto quer escutar. Seria talvez uma nova intermediação – que, na bem da verdade, seria uma facilitação, onde o valor seria cobrado mais para facilitar o serviço do que propriamente para o viabilizar. Não sei até que ponto isso é viável, e fico sempre com um pé atrás em iniciativas que visam restringir em vez de amplificar o acesso a cultura, mas seguimos acompanhando a discussão para ver no que (e se) vai dar.

[Leonardo Foletto.]

Créditos fotos: 1,2.

Música eletrônica globoperiférica

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Ronaldo Lemos já é figura carimbada por aqui, o que me faz dispensar apresentações. No Overmundo, site em que ele é um dos criadores e que também tem dois posts do BaixaCultura circulando por lá (“Uma voz do Presente“, sobre Wado, e “O Escritor Coletivo“, sobre o Wu Ming, ambos de Reuben) , Lemos publicou um texto em que faz um interessantíssimo apanhado do que ele chamou de “música eletrônica globoperiférica“. O texto, inicialmente escrito para a exposição I/Legítimo do Museu da Imagem e do Som em São Paulo, na qual Lemos fez a curadoria musical, é uma lista com diferentes, digamos, “tipos” de música que tem pipocado nas periferias mundiais nestes primeiros anos do século XXI, muito (totalmente, vamos dizer) por conta do barateamento da produção e da circulação, o que vem a ser resultado inequívoco da proliferação da internet em todos os confins desse mundão. Nas palavras de Lemos,

Nos últimos anos, por causa da disseminação da tecnologia digital, grande parte das músicas mais pop(ulares) do mundo passou a ser produzida eletronicamente, com equipamentos cada vez mais baratos e acessíveis. Essa música nova anima das festas portuárias de Rotterdam, aos bairros pobres de Belém, das “villas miserias” de Buenos Aires às emissões piratas das rádios de Londres, sem falar nos DJ´s canadenses (alô Paul Devro) ou americanos (alô Diplo) que surfam nessas ondas.

Eis aqui abaixo os estilos, apresentados nas palavras de Lemos, com videos auto-explicativos editados por mim (menos o tecnobrega e o funk carioca, mais que conhecidos por aqui) e mais alguns pequenos acréscimos (em itálico). Cabe, numa próxima postagem aqui mesmo ou em qualquer outro lugar que você queira ver, um aprofundamento sobre o funcionamento de cada uma dessas cenas, inclusive uma entrada em questões como os direitos autorais, a circulação de dinheiro (quem ganha, e como ganha, e porquê ganha) e o esquema de produção. Desconfio que todas cenas – inclusive o tecnobrega, que já tratamos por aqui, e o funk carioca, muito apreciado no exterior e (ainda) detonado no Brasil – tem muito a nos ensinar sobre o que vai ser esse planeta musical num futuro próximo.

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Champeta – fenômeno cultural colombiano (que inclui a música) derivado sobretudo dos descendentes negros na região de Cartagena. Apesar do termo ser usado há mais de 90 anos (quando tinha caráter depreciativo), a champeta consolidou-se como um ritmo musical nos anos 80, e nos últimos anos vem-se tornando cada vez mais eletrônica e dançante. Hoje produz hits de estádio, como a faixa “Mueve la Colita” (a do vídeo logo acima).

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Kuduro – Originado de angola (mas agora bastante presente também em Portugal), o kuduro significa exatamente o que sua sonoridade portuguesa indica (“cu duro” ou “bunda dura” para nós brasileiros). O termo diz respeito à forma como o ritmo é dançado. O kuduro, que remonta aos anos 80, tem influências do zouk e da soca, e mais recentemente, do funk carioca também. Este blog é um bom achado pra quem quiser saber mais sobre a cena kuduro, vindo diretamente de Luanda.

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Tecnobrega – Desdobramento da poderosa e antiga cena do brega paraense, o tecnobrega nasceu da fusão da música eletrônica com o brega tradicional. Antecedido na década de 90 pelo bregacalypso (também resultado de uma fusão), o gênero do tecnobrega se renova sem parar. Atualmente, há diversas vertentes: cybertecnobrega, brega melody e o novo e empolgante eletromelody (de nomes como Maderito & Joe e Banda Eletro Melody).

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Kwaito
– Surgido nas periferias de Johanesburgo na década de 90, o kwaito é o resultado da fusão do hip hop norte-americano, samples de música africana, house music com batidas um pouco mais lentas e linhas de baixo pronunciadas. Muitas vezes cantada em dialeto, o kwaito vem-se transformando de música do gueto a trilha sonora da juventude sul-africana pós apartheid.
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Cumbia Villera
– Originada das “villas miserias” de Buenos Aires (o adjetivo “villera” é depreciativo), é uma variação da cumbia colombiana (que se espalhou por praticamente toda a América Latina). De origem acústica (violão, acordeão, bateria, flautas etc), na sua vertente villera, torna-se cada vez mais eletrônica e se torna notória pelas letras pesadas sobre drogas e sexo. Nos últimos anos, vem-se tornando chic (com noites “fashion” em Buenos Aires) e até mesmo experimental. O blog Dancincg Cheetah dá mais uma explicada no estilo, conhecido popularmente como a cumbia das favelas.

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Funk Carioca – Influenciado pelo Miami Bass, o funk carioca teve origem a partir de versões em português feitas nas favelas cariocas para sucessos do estilo. A partir daí, passou a se desenvolver como um estilo próprio, incorporando elementos afro-brasileiros (como o tamborzão, atribuído ao candomblé), ao mesmo tempo em que absorve rapidamente as últimas novidades em termos de tecnologia (como o uso hoje dos samplers e seqüenciadores MPC´s nos bailes). Apesar de ainda ser referido com o adjetivo “carioca”, está presente hoje em todo o Brasil. [ E me arrisco a dizer que não tem brasileiro que já não o tenha rebolado alguma vez na vida, mesmo  – ou principalmente – em função do alto teor de borracheira].
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Bubblin – Estilo musical eletrônico que conecta o Suriname à Holanda, de batidas eletrônicas secas e arranjos econômicos, é responsável por animar festas de Rotterdam a Paramaribo. O bubblin em geral é acompanhado pelo boeke, fenômeno de dança também cada vez mais popular. Talvez por conta do bubblin ser popular em holandês, é difícil achar alguma coisa mais aprofundada sobre o estilo.

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Dubstep – Originário das periferias de Londres no começo dos anos 2000 e popularizado através de rádios-pirata e mixtapes. O dusbstep é produto da cena Garage na inglaterra. De ritmo lento, sincopado e linhas de baixo profundas e atordoantes, o dubstep é notório também por ser difícil de dançar (e nesse sentido, reinventar as possibilidades da dança). A BBC fez, ainda em 2006, um documentário que dá uma boa apresentada no estilo.

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Coupé Decalé – O coupé decalé é ao mesmo tempo um estilo de música e de dança. Originado dos imigrantes da Costa do Marfim, o ritmo nasceu na França e rapidamente migrou de volta para a Costa do Marfim, onde se tornou sucesso também. O estilo usa fortemente elementos africanos e linhas de baixo bem marcadas, tendo geralmente um tom festivo e otimista. De novo o Dancing Cheetah fez uma postagem mais explicativa sobre o ritmo que vale uma conferida.

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Segundo Lemos, a ideia de periferia tratada aqui não tem muita relação com o tradicional conceito geográfico, embora eu consiga entender que tem sim, pois a própria ideia da compilação desses ditos estilos tem um foco comum, que é o de justamente tratar de novos estilos musicais (eletrônicos) criados em lugares que raramente apareciam no disputado e massivo mercado musical mundial (Hermano Vianna diz que que o “centro” está se tornando cada vez mais “a periferia da periferia”, especialmente do ponto de vista simbólico, o que eu tendo a acreditar com um certo pé atrás cético).

Mas mais importante que a discussão sobre o que é e o que não é periferia está a constatação de que assistimos a um incrível boom mundial de cenas musicais bastante distintas umas das outras. Como diz Lemos, basta um computador, criatividade e gente com vontade de dançar que tá feito um estilo altamente dançante, pegajoso, tosco e engraçado, o que não deixa de ser a mais pura e sincera expressão cultural de quem finalmente tem as condições necessárias para poder se manifestar e ser ouvido.

[Leonardo Foletto.]

Brega S/A encerra o ciclo “copy, right?”

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No 3º e último dia do ciclo “copy, right?”, o Cineclube Lanterninha Aurélio e o BaixaCultura.org apresentam o filme “Brega S/A”, documentário dirigido por Vladimir Cunha e Gustavo Godinho, finalizado em setembro deste ano. O filme  trata da surpreendente cena tecnobrega de Belém do Pará, um fenômeno cultural que nos últimos tempos tem atraído a atenção mundial por conta de sua inovadora estratégia de comercialização, onde a pirataria entra como mais um elemento parceiro na circulação do que um “inimigo” a ser eliminado. De Chris Anderson (em seu livro mais recente, “Free – O futuro dos preços“) à Ronaldo Lemos (autor de Tecnobrega – O Pará reiventando o negócio da música”, ao lado de Oona Casto”), passando ainda pelo documentário “Good Copy, Bad Copy” (o 1º exibido no ciclo), todos que tratam e/ou se interessam por música e/ou cultura livre no planeta estão procurando saber, afinal, que diabos tem no tecnobrega do Pará.

O filme teve sua estréia oficial na MTV Brasil no sábado 3 de fevereiro, às 24h, sendo que foi disponibilizado para download na página da produtora Greenvision, responsável pela realização do documentário, na segunda feira 5 de outubro. Segue um texto de apresentação do filme, que também pode ser encontrado no blog da produtora:

Criado em estúdios precários e improvisados e vendido ao grande público através de discos piratas e gravações caseiras, o tecnobrega é a trilha sonora oficial da periferia de Belém do Pará. A música das festas de aparelhagem, dos balneários populares, das feiras livres, dos bares e dos salões de dança de terra batida e teto de zinco. O som que define parte de uma cidade, o seu lado menos visível, mas nem por isso menos importante.

Como qualquer movimento cultural que nasce do underground para depois atingir as massas, o tecnobrega vive de acordo com as suas próprias regras. A principal delas, ser um estilo musical que se estabeleceu como segmento de mercado sem o apoio de grandes gravadoras, estações de rádio ou emissoras de televisão. Para vender sua música, nada do aparato comumente utilizado pela indústria do entretenimento, apenas as aparelhagens de som e os camelôs que vendem discos piratas no centro da cidade.

Dirigido por Vladimir Cunha e Gustavo Godinho, “Brega S/A” é um documentário que pretende retratar esse peculiar fenômeno cultural e social através de personagens como DJ Maluquinho, que se auto-pirateia e enriquece sem precisar de empresário ou gravadora; Marcos Maderito, o “Garoto Alucinado”, que sobrevive de compor tecnobregas para as turmas e gangues de rua de Belém; Beto Metralha, que toca um programa de TV inteiro de um quarto nos fundos do quintal de sua casa; e os DJs Dinho, Ellysson e Juninho, as maiores estrelas do universo das aparelhagens paraenses.

A idéia inicial do filme surgiu no ano de 2003, quando Vladimir Cunha, um dos diretores do documentário, passou a se envolver com a cena tecnobrega e as festas de aparelhagem de Belém do Pará. Não só pela curiosidade em entender melhor a mutação sonora que levou à criação do gênero como também para compreender a relação entre o barateamento e a facilidade de acesso à tecnologia e essa nova cadeia de produção e distribuição que começava a se formar. Uma forma de fazer circular a produção artística local que, progressivamente, foi substituindo o modelo adotado pelas grande gravadoras.

Depois de quase três anos de pesquisa, somente em 2006 foram iniciadas as primeiras captações, que terminaram somente em junho de 2009. Sem leis de incentivo e renúncia fiscal, Vladimir e Gustavo Godinho passaram, com recursos próprios, a documentar o dia-a-dia de produtores, músicos e DJs ligados à cena tecnobrega paraense. Com isso, foi possível radiografar toda a cadeia produtiva do tecnobrega: das gravações em estúdios de fundo de quintal ao processo de distribuição através de pirateiros, camelôs e festas de aparelhagem“.

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Dê uma olhada no trailer aqui abaixo:


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“Brega S/A”, de Vladimir Cunha e Gustavo Godinho.

30/12, 19h, de graça

Cineclube Lanterninha Aurélio

Auditório do Centro Cultural Cesma, 3º andar, Professor Braga, nº55

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[Leonardo Foletto.]

Primeiro dia do “copy, right?” (e algumas pensatas que surgem)

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Com algum atraso,  tenho que dizer, em primeiro lugar, que o primeiro dia do ciclo “copy, right?” foi bastante produtivo. A presença do público foi satisfatória; compareceram entre 30 e 40 pessoas, sendo que 25 assinaram a ata de presença. Como a foto acima indica, não foi um público para encher o auditório do Centro Cultural da Cesma, mas dizem que a média do Cineclube costuma ser  nessa faixa de pessoas. A divulgação pela cidade foi abrangente, com direito a espaço nos dois jornais principais, e-mails para listas diversas e cartazinhos espalhados (pessoalmente) por alguns cantos do centro da cidade – muito embora tudo tenha sido feito com pouca antecedência.

Apresentado o ciclo, foi exibido “Good Copy, Bad Copy“, de 59 minutos de duração, seguido de alguns comentários meus e a abertura para o debate, como de praxe em cineclubes. Aí foi minha grande surpresa; debateu-se de verdade. E não apenas sobre o filme, mas sobre diversas questões que compõe o pano de fundo de Good Copy, Bad Copy, da neutralidade da rede até reações desproporcionais contra a dita “pirataria” digital como o Hadopi francês e a Lei Azeredo; da democratização cultural, agora possível (ou utópica?), até as dificuldades (ou potencialidades?) de um músico para sobreviver no variadíssimo cenário musical planetário de hoje; da apropriação (nefasta, diga-se) dos termos comunismo e socialismo na tentativa de entender o sistema da internet até o incrível modelo de negócio do tecnobrega do Pará, tema dos últimos 20 minutos do filme – provavelmente os vinte minutos que mais chamaram a atenção do público, um pouquinho a frente do exemplo da Indústria de Cinema da Nigéria (Nollywood), ambas criativas e orgulhosas formas de negócios  oriundas da periferia mundial e à margem da Grande e Poderosa Indústria do Entretenimento.

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[Para todos aqueles que quiserem saber mais sobre Nollywood, recomendo a reportagem “Cinema Noir“, da Trip da janeiro deste ano. Da sacada do título à pauta criativa e antenada, passando pelo texto descolado (no bom sentido, veja bem) comum aos textos da revista, é um baita exemplo de reportagem bem feita, daquelas que bons pares de sapato são mais importantes do que horas em telefone, pra ficar numa metáfora ao gosto de Tchekov. Pros que querem saber mais sobre o tecnobrega do Pará, recomendo estarem presentes no terceiro dia (30/12) do ciclo para assistir “Brega S/A”, ou lerem o bom Tecnobrega: o pará reiventando o negócio da música, de Ronaldo Lemos e Oona Casto, disponível também em pdf.]

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O debate final teve opiniões tão distintas quantos as idades dos debatedores, o que particularmente me agradou bastante, pois uma das ideias centrais do ciclo era justamente propor o debate sobre estes assuntos aqui por Santa Maria – e os filmes, nesse sentido, seriam propulsores dos questionamentos. Nas opiniões, pode-se notar que  a esperança de que a rede venha a democratizar a sociedade (e aí entram cultura, política, gostos e possibilidades criativas) convive com a expectativa de que mais essa oportunidade venha a passar, especialmente por ação da poderosa mão (invisível?) do mercado, que não admite perder o que conquistou durante os últimos séculos – e se inserem nesse guarda-chuva ações como as que visam combater a “pirataria” digital, algumas resultantes em leis que ferem frontalmente a dita neutralidade  original da rede. Apesar dos pesares, nota-se que a esperança continua sendo maior que a discrença, o que me fez resgatar um cético otimismo, quase esquecido nos últimos meses perante a maré tortuosa de más notícias.

Ao fim, o tempo de conversa/debate/discussão foi quase o mesmo que o da exibição do filme, no que eu agradeço muito às pessoas que estiveram presentes na quarta-feira passada.

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Dj DInho Tupinambá e sua trupe de fãs mirins nas ruas de Belém

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Mais do que qualquer outra coisa, ver “Good Copy, Bad Copy” novamente me fez querer pensar em mais e mais exemplos de alternativas à margens da Indústria. Casos como o do tecnobrega e o de Nollywood nos dizem muito, é certo, e funcionam bem porque essencialmente são pensados (ou foram pensados, mesmo que sem se dar conta disso) a partir das particularidades de uma dada região. Querer aplicar estes exemplos à realidade do planeta inteiro, como A alternativa a ser seguida por todos, é indício de fracasso; nestes relativíssimos tempos atuais, uma solução nunca é A solução se nela não forem consideradas as particularidades do lugar de onde se está pensando. É mais ou menos o que dizia Gil no final desse post, quando perguntado por músicos de uma banda paulista qual seria a saída para ganhar dinheiro com sua música: “O problema é que vocês querem que apareça outro modelo único, que não vai exigir esforço algum e te traga o sono de volta, dizia Gil, no que continuava ao afirmar que hoje é exigido que venhamos a pensar um modelo próprio para a necessidade de cada um, a partir das características da obra de cada um.

É nesse sentido que busco exemplos, de todos os lugares do mundo, que contenham as mais distintas características possíveis. É a experiência dessa diversidade de situações combinadas com a necessidade real e prática de um grupo de pessoas de um dado lugar que surgirão novos modelos à margens da dita Indústria do Entretenimento. Quanto mais exemplos melhor, pois é sinal de que estamos, de alguma forma, aceitando a provocação de Gil na busca de uma estratégia própria e criativa de vivermos de nossa arte. Além do que muitos, milhares e milhões de exemplos são um sinal efetivo da ruína da nefasta indústria que sustenta artistas montados em suas luxuosas, moribundas e preguiçosas fortunas,  o que, logicamente, é danado de bom, não?

[Leonardo Foletto.]

Créditos fotos: Marcelo Cabala e Marcelo De Franceschi.
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O estranho processo de Horacio Potel – ou quando a filosofia não é para todos

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Horacio Potel é professor de filosofia da Universidade de Lañus, em Buenos Aires. Em 1999, decidiu criar três diferentes páginas pessoais para disponibilizar ensaios traduzidos para o espanhol dos filósofos alemães Nietzche e Heidegger e do argelino Jaques Derrida.  Além dos textos, as páginas continham fóruns de discussão, biografia, imagens e outros tipos de materiais comuns à sites como estes. A ideia de Horácio era disserminar o material para todos aquele que tivessem interesse, num tipo de função exercidas por professores já há muitos séculos: ajudar seus estudantes a terem acesso ao conhecimento.

Boa parte do material disponibilizado pelo professor é bastante difícil de ser encontrado na Argentina. Em Buenos Aires, por exemplo, apenas duas livrarias tinham alguns dos escritos de Derrida que poderiam ser lidos gratuitamente na página de Horácio. Outros quantos textos, que deixaram de ser editados em livro na Argentina, poderiam ser encontrados em jaquesderrida.com.ar porque foram garimpados em livrarias durante décadas por Horácio, segundo o próprio afirmou em matéria da P2P Foundation.

Como não encontrava os textos de Derrida em seu país, o professor chegou a entrar em contato com duas companhias do México que editavam a obra de filósofo, Porrúa e Cal y Arena. Uma edição com a obra do filósofo argelino – 80 páginas, letras míudas – custaria em torno de U$42 dólares, aproximadamente 162 pesos argentinos. Se para um professor como Horácio – que alega ter recebido em seu último contra-cheque $1350 pesos – o valor já é quase mais que 10% de seu salário, imagina para seus alunos.

Por conta destes e de outros fatores, Horácio manteve suas páginas durante 10 anos, até abril de 2009, quando começaram os embates com a justiça argentina. Neste tempo, ambas tiveram mais de 4 milhões de acessos, e até então estavam sempre entre os três primeiros resultados quando se fazia uma busca pelos nomes dos autores no Google da Argentina.

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Li a nota do jornal argentino Página 12 um pouco mais de uma semana atrás, quase ao mesmo tempo em que também foi publicada no  Trezentos e difundida por diversas blogs e listas de e-mails Brasil (e mundo) afora. Uma operação envolvendo a editora Les Editions de Minuit, Câmara Argentina do Livro e a Embaixada Francesa na Argentina conseguiu processar o professor por tornar disponíveis gratuitamente textos dos filósofos Heidegger e Derrida nas páginas heideggeriana.com.ar e jaquesderrida.com.ar, respectivamente – textos estes que ainda se encontram protegidos pela lei de direitos autorais, já que tanto Heidegger como Derrida morreram há menos de setenta anos, prazo necessário para que a obra passe a ser de domínio público. Horácio pode pagar uma multa de 40 mil pesos, além de já ter recebido o singelo aviso de que sua correspondência e sua casa poderão ser violadas ao longo do processo.

Segundo nos conta o repórter Facundo García, autor da matéria do jornal argentino, a história toda começou quando a Les Editions de Minuit – editora que tem os direitos autorais de sete obras de Jaques Derrida –  entrou com uma queixa contra Horácio, com o apoio da Embaixada Francesa na Argentina e da Câmara Argentina do Livro.  A queixa enquadrava a disponibilização dos textos gratuitamente dos filósofos na lei argentina 11.723, que trata de propriedade intelectual – espantosamente criada em 1933 e só modificada em 1998, ainda que somente para incluir o software no mesmo rol de produção científica/artística/cultural/didática supostamente protegidos pela lei.

O professor Horácio logicamente que estranhou muito a situação. Em um de seus comunicados sobre o assunto, publicado  aqui, Horácio disse que:

“Al parecer, mantener bibliotecas públicas de filosofía en Argentina es ilegal porque viola la ley 11.723. Si las cosas se guiaran por la razón, se debería revisar esa ley de 1933, que está provocando que se criminalice a las bibliotecas públicas y a sus bibliotecarios. Eso, claro, si se sigue pensando que éstas son instituciones útiles y necesarias, como me enseñaron en la escuela primaria, donde me decían que entre las principales funciones del Estado está la difusión de la cultura, en la convicción ilustrada de que sólo el conocimiento nos hace libres”.

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Logo quando as duas páginas foram retiradas do ar, no início de abril deste ano, surgiram diversas manifestações de apoio a  Horácio, inclusive do Partido Pirata da Argentina. No Brasil, o blog Catatau emcampou a ideia e tratou de publicar uma boa parte do material que estava em heideggeriana.com.ar, assim como diversos apoiadores disponibilizaram outro tanto do material para download no easy-share – além do fato de que uma considerável parte dos arquivos da página estão disponíveis no Wayback Machine, um imenso arquivo que conta com mais de 1,6 bilhão de páginas criadas desde 1996.  Idelber Avelar, do recém-finado blog O Biscoito Fino e a Massa, enviou uma carta à Horácio, além de ter feito um post onde o defende de forma bastante contundente e afirmar coisas como “elas não eram simplesmente duas páginas dedicadas a Heidegger e Derrida. Eram, de longe, os melhores recursos existentes sobre os dois pensadores em toda a internet, em qualquer língua.”

A decisão da Justiça Argentina cabe recurso, mas como diz a matéria do jornal Página 12, “los fantasmas de una condena injusta siguen rondando“.

[Leonardo Foletto.]

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P.S: A terceira página com textos de filósofos mantida por Horácio continua em atividade: trata-se da www.nietzscheana.com.ar, dedicado à Nietzsche. Ficou livre da decisão da justiça por conta de que o alemão morreu  ainda em 1900.

Créditos: 1,2.

Scott McCloud e a “pirataria” musical

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Um livro posto em uma mesa com duas canetas de um lado e  uma água mineral de outro. Uma estante com livros (ou revistas em quadrinhos) ao fundo. Uma máquina fotográfica digital, uma pequena pilha de livros (ou revistas em quadrinhos) e, no foco dessa mini-tentativa de descrever a foto acima, um quarentão sorridente fazendo pose para uma fotografia no que se deduz facilmente ser uma sessão de autógrafo. O quarentão em questão, de nome Scott McCloud, nascido a 10 de junho de 1960 em Boston, Estados Unidos, está possivelmente autografando o livro Making Comics (no Brasil, Desenhando os Quadrinhos, de 2006), o terceiro da trilogia de livros teóricos sobre quadrinhos em quadrinhos iniciada em 1993 com o já clássico Desvendando os Quadrinhos e continuada com o também importante Reinventando os Quadrinhos, de 2000.

Ganhador de vários dos principais prêmios da arte quadrinística mundial, o sujeito da foto acima é também autor de uma vasta produção de webcomics publicadas desde 1998 em sua excelente página na web – é muito provavelmente um dos primeiros a ter feito isso na rede. Neste acervo é que  achei, na série “I can’t Stop Thinking“, uma história especialmente dedicada a “pirataria” musical, feito por McCloud ainda em 2001, quando o assunto começava a ser pauta frequente no planeta graças ao saudoso Napster.

Como em todas as sessões da série “I can’t Stop Thinking“, esta tem como personagem o mesmo dos livros clássicos de McCloud – seu alter-ego quadrinístico, um rapazito muito parecido com Harry Potter em sua fase pré-adolescente. O quadrinho é uma (boa) pensata sobre o assunto pirataria musical, tendo como mote (e exemplo) o Napster, nossas velhas conhecidas fitinhas cassetes, dentre outras coisas. Disfrute de alguns trechos (em inglês) dos quadrinhos aqui abaixo – a íntegra da história dá para acessar aqui.

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Em tempo: McCloud foi chamado ano passado pelo Google para fazer a cartilha de apresentação do novo navegador da empresa, o Chrome. Boa parte das pessoas que não habitam o (cada vez menos) nicho dos quadrinhos só teve conhecimento de sua existência a partir desta ocasião, o que provavelmente seja muito bom.

[Leonardo Foletto.]

Créditos: 1, 2.

BaixaCultura no RS: um relato

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vista interna do prédio da cesma
vista interna do prédio da cesma

Dizem alguns que quanto mais próximo do evento presenciado melhor é o relato sobre o mesmo evento. O pouco tempo para a digestão daquilo que se vê edita naturalmente o que de melhor deve ser dito; saem os excessos contextualizadores e narrativos e sobra a primeira impressão, limpinha,  sem reedições, pedindo para sair e fixar-se em seja qual for o suporte.

Dizia Borges que a memória é inventiva, e por medo de uma possível iniciativa ficcionista por demais da minha memória é que pensei em relatar o Seminário Estadual para a Auto-Sustentatabilidade Cineclubista o quanto antes possível, o que significava escrever um post aqui pro BC na mesma sexta-feira que aconteceu o evento ou talvez no dia seguinte. Mas só hoje, segunda, foi possível escrever, então desculpe possíveis invencionices e bora lá.

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O seminário começou já pela manhã, com um debate sobre distribuição de conteúdo para cineclubes. Quem falou foi Luís Alberto Cassol, figura das mais conhecidas na cidade e que, dentre outras funções, é Vice-presidente do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros e editor do blog Filmes de Junho, e Eduardo Ades, representante carioca da Associação Cultural Tela Brasilis.

À tarde participei da mesa que teve o nome oficial de “Direito Autoral & Constituição de Redes”. Gilvan Dockhorn e Antônio Martins falaram cada um por mais ou menos quarenta minutos, que eu deveria ter cronometrado, já que nesse momento era a minha função. Ambos são ótimos oradores, sabem como se expressar muito bem com palavras, como sabiamente comentou depois do evento Paulo Henrique Teixeira, assessor da Cesma e que, junto com Francelle Cocco, me convidou para o evento.

Gilvan, que além de cineclubista é professor de história, tratou de fazer primeiramente um balanço da história do copyright e do direito autoral, parecido com que Edson fez aqui no BC. Fez depois a necessária distinção entre bens culturais e mercadorias: ao baixar uma música sem o consentimento do detentor do direito autoral da mesma, está se obtendo um bem cultural, e não uma mercadoria que possui um “dono”  a lucrar com esta. Como na própria constituição brasileira se fala em “garantir a todos os acesso à cultura”, nada mais normal que a internet possibilite, com os downloads e tudo o mais, justamente o acesso à cultura para toda a população.

(Não é tão simples essa discussão, mas em outro momento que não aqui cabe complexificá-la)

Depois, passou para relacioná-los com os cineclubes, dizendo que tem muita coisa sendo produzida no Brasil, mas há dificuldades de distribuição desses produtos,  que daí a importância dos cineclubes e de uma formação de profissionais cineclubistas.

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Antonio, yo e Gilvan
Antonio, yo e Gilvan

Antônio Martins, que trabalhava até ano passado como editor da versão web do Le Monde Diplomatique e também faz parte do blog Trezentos, falou logo depois de Gilvan. Com calma e didatismo, tratou de resumir a questão do novo paradigma cultural/social/intelectual/econômico que a internet está possiblitando.

“A cultura e a comunicação de massa são paradigmas associados à modernidade e estão em crise, assim como estão em crise também as formas políticas de representação”.

Martins fala que a web possibilita uma troca (e uma circulação) de produtos culturais nunca antes vista. Da invenção da imprensa no século XIV aos meios de comunicação em massa do século XX,  boa parte (para não dizer TODA) dos bens culturais que tinhamos acesso eram aqueles que  eram selecionados pelos que tinham o controle das formas de  produção e distribuição desses bens – em suma, de quem detinha o $$. Na medida que, com a internet, tudo isso barateia, e, portanto, passa a poder ser produzido e distribuído por qualquer um, nós podemos selecionar àquela cultura que vamor ter acesso. As proporções dessa TREMENDA mudança ainda estão sendo sentidas – e, também, tentando ser entendidas, o que ainda não se concretizou e nem se sabe quando vai se concretizar.

Como jornalista que é, Antônio também falou de sua profissão. Disse que é preciso políticas públicas, como Internet banda larga para todos, para que a população possa ter condições de veícular a sua versão dos fatos e, desta forma, criar alternativas à mídia tradicional. Uma ideia interessante apontada seria a de remunerar, com recursos públicos, as  pessoas que estão produzindo comunicação não mercantilizada – ou que não é produzida em larguíssima escala. Editais de concursos para rede de blogs, criação de programas de formação, oficinas, prêmios, estímulos a formação de redes de blogs sobre difusão do cinema, dentre outras, são ideias que Martins acredita que possam mudar este sistema mercantil dos bens culturais.

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Entrada da cesma
Entrada da cesma

Para encerrar o debate, foi dado chance às perguntas. Que de início não vieram, talvez por acanhamento da platéia. Mas com a intervenção do já citado Cassol, foi dada novamente à palavra aos participantes – e aí me incluíram para falar, pois alguém na platéia (que agora não lembro) falou que “o mediador podia falar um pouco do Baixacultura, que é uma iniciativa bastante interessante no que diz respeito à estes temas“.  Foi bom de ouvir a lembrança ao nosso trabalho. Mas então tive de falar, com nada preparado, uma torrente de pensamentos não conclusos sobre cultura livre, direito autoral, cibercultura, jornalismo… mostraram até mesmo o blog no telão, o que foi legal.

Pelo menos a minha fala serviu (um pouco) de estímulo a platéia, que aí resolveu fazer perguntas aos participantes da mesa, que responderam até quase 17h, quando o coffe-break se tornou mais estimulante do que qualquer outro ponto para se discutir.

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Free-Culture

Tinha pensado em, ao final do debate, indicar dois livros que poderiam ser usados para quem quisesse entender um pouco mais dos assuntos discutidos. Pensei e até escrevi, mas acabei esquecendo. Então aí vai: o primeiro é Além das Redes de Colaboração, organizado por Nelson de Luca Pretto e Sérgio Amadeu e editado pela UFBA (e que está disponível em PDF). O livro conta com textos de muita gente importante no mundo da cibercultura, das artes e do cinema,  e é fruto de um seminário com o mesmo nome realizado em Porto Alegre, em 2007. A apresentação, a cargo do cineasta gaúcho Jorge Furtado, dá o tom da coisa:

“Ao mesmo tempo que devora, digere e recria o telefone, o cinema, a televisão, os correios, o rádio e a indústria fonográfica, a internet se aproxima do sonho de Borges de uma biblioteca infinita, onde o saber humano está disponível ao alcance de um toque. O que fazer com tão imenso poder é a pergunta que definirá o nosso futuro. Esse livro é uma boa contribuição para o debate”.

Outro livro que ia indicar é o Cultura Livre, do Lawrence Lessig, que também tá disponível em PDF – se quiser ler no original, tem em inglês também. Cultura Livre é um dos mais indispensáveis livros para entender o que significa a tal da cultura livre, e Lessig é um dos que melhor fala (por ser simples sem ser simplório) sobre o assunto.

Outra sugestão, aí mais no âmbito da academia e da cibercultura, é o blog de André Lemos, dos mais destacados pesquisadores brasileiros da área, professor associado na UFBA. Em especial, destaco esse texto sobre Cibercultura Remix, apresentado no Seminário Sentidos e Processos, realizado no espaço do Itaú Cultural em agosto de 2005.

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Agradeço à Silvana, que fez um post bem informativo sobre o evento e “me lembrou” de algumas falas dos debatedores. As aspas que usei dos entrevistados foram tiradas do blog dela, que é uma ótima referência para acompanhar o que anda acontencendo em Santa Maria. É dela também a  única foto do evento desse post. Agradeço também a Francelle pelo convite para participar do seminário e por quebrar um galho tremendo depois do debate.

[Leonardo Foletto.]

Campus Parte Final

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Eu prometi no post de sexta falar dos eventos dos dias finais da Campus Party 2009, especialmente do acalorado debate sobre a questão do futuro da internet no Brasil. Mas acontece que a canseira bateu, em todos os sentidos, e me senti obrigado a encarar dois dias sem internet para poder digerir melhor tudo aquilo que vi e ouvi pelo Imigrantes, até para fazer um balanço final da coisa toda.

Para começar: apesar dos pesares, não posso deixar de fazer um balanço mais positivo que negativo do evento. A programação da área Campus Blog, que acompanhei mais de perto, esteve na maior parte do tempo bastante interessante, com temas e convidados que tinham o que dizer sobre aquilo que estavam dizendo. Noutros momentos, não esteve tão boa, mas aí porque certos convidados – ou certos assuntos, ao meu ver – não renderam, o que é normal num evento de 5 dias com no mínimo 3 palestras a cada dia. Tudo bem que a superficialidade foi a tônica das palestras, mas creio que ninguém esperava muito mais que isso por ali.

Protestos no debate sobre a questão da Lei Azeredo
Protestos no debate sobre a questão da Lei Azeredo

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Sei que a maioria dos blogueiros que estava lá saiu reclamando de muitos problemas dessa edição, a começar pela presença gigantesca dos patrocinadores e pelas diversas falhas com a acústica de cada uma das áreas, já que falas de algumas áreas eram invadidas por outras com mais constância do que deveriam. Mas eu entendo que a maioria dos blogueiros é reclamona por demais, o que, afinal de contas, não é problema deles: simplesmente é muito mais fácil, para qualquer ser humano, apontar mais defeitos do que qualidades, descontinuidades do que continuidades.

A maioria dos problemas da #cparty, ao meu ver, decorreu do enorme tamanho que o evento adquiriu – muito maior do que a maioria dos presentes gostaria, é bem verdade, embora esses mesmos tenham adorado os diversos pontos positivos que só um evento dessa magnitude traz, a começar pela presença dos “notáveis” em sua programação. Se a segurança não foi 100% eficiente, já que a organização constou um notebook roubado, pode-se dizer que ela foi boa, porque, afinal de contas, um notebook roubado em meio a 4000 é uma média até aceitável num Brasil como o nosso. Se a acústica não foi boa, já que havia palestras simultâneas em 13 palcos muito próximos uns dos outros, como melhorar isso sem perder a liberdade de acesso de um palco a outro, e a interação inédita que isso proporcionava, que, penso eu, faz parte do espírito anárquico que permeia o evento?

Coelhinhas da Playboy, atrativos femininos para a nerdzada
Coelhinhas da Playboy, atrativos femininos para a nerdzada

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Disse Juca Kfouri, em uma entrevista no sábado, que este ano a Campus party estava muito “Salão do Automóvel” , algo que não foi ano passado,  sendo que ela não pode ser um Salão do Automóvel, principalmente pela natureza anárquica e nada hierárquica/ostentantiva que o evento tem como aspecto fundamental.

Acredito que um evento da magnitude da Campus Party 2009 só se diferenciará dum “Salão do Automóvel” quando houver uma participação genuinamente colaborativa entre seus participantes, e aí entra incluso a arrecadação para custear a coisa toda. Como isso é pouco provável – pelo evidente nível de organização que isso demandaria, e que ainda não estamos preparados para atingir –  a #cparty só continuará existindo  – e crescendo a cada ano – enquanto a parceria com as empresas privadas patrocinadoras do evento continuar existindo.

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Heresia dizer isso? Mas é verdade, sejamos sinceros. Porque hoje não há como montar uma estrutura daquele tamanho sem um dinheirinho bom das malvadas patrocinadoras do evento. E se a tendência do evento é crescer ainda mais nas próximas edições, é certo que teremos de lidar com ainda mais $$ das Telefonicas da vida.

Em tempo: O caderno Link, do Estadão, fez uma lista dos pontos positivos e negativos desta edição do evento. E também fez o seu balanço do evento, bem mais crítico do que o meu.

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Como esse post é para encerrar de vez o tema Campus Party, fiz uma seleção de vídeos que dão uma boa noção do que aconteceu no Imigrantes durante a semana passada:

1) Abertura,  com direito a discurso ufanista de Marcelo Branco, o organizador-chefe do evento;

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2) A Vingança dos Nerds; a manifestação da cambada nerd contra o show da banda Leme, capitaneada pelo rapper carioca De Leve, desde já um dos grandes momentos da Campus Party;

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3) Competição de robôs Lego, em vídeo feito pelo blog do IDG Now na Campus Party.

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4) Parte da Dança do Ventre que relatei no post Causos da Campus Party, por Luana Hazine, que foi ajudada pelo post, segundo comentário seu no mesmo.

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5) Debate sobre o substitutivo de lei proposto pelo senador Azeredo, no momento da explanação de José Henrique Portugal, representando o senador juntamente com o Desembargador mineiro Fernando Botelho, enquanto Sérgio Amadeu e Ronaldo Lemos, no lado esquerdo do vídeo, preparam seus argumentos para a réplica;

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6) Show de um grupo de Maracatú (penso eu) de Campinas, um dos momentos mais interessantes do evento por justamente não fazer parte do imaginário da maioria das pessoas que estavam por ali. A energia presente no momento foi algo inexplicável, bonito de se ver e sentir.

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7) A “dança das cadeiras” promovida pelos campuseiros na sexta à noite, totalmente sem sentido ou explicação. É aquela coisa: um resolveu fazer uma “ola”, outros foram atrás, e quando se vê….

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[Leonardo Foletto, enviado especial e conclusivo a São Paulo]

Créditos Fotos: 1 e 2,  Flickr de Tuca Hernandes; 3 e 4 do Flickr oficial do evento.

Campus Parte 5

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Quinta-feira foi outro dos dias movimentados por aqui, principalmente na área da Campus Blog.  Para aguentar o excesso de programação, só com Açaí ou Red Bull – disparado o líquido mais vendido aqui,  a ponto de acumular latas e latas nas mesas dos mais viciados. Lamentável é a proibição de venda de bebidas alcólicas, já que uma parte do público é menor de 18 anos. Uma cerveja seria muito bom pra ficar pensando melhor, inclusive para os mais novos. Percebo que a vontade de beber aqui é imensa; há um incipiente mercado informal de bebidas no camping, onde latinhas adquirem preços de até R$12,00. Na entrada do centro de exposições, acumulam-se grupinhos com seus isopores lotados de bebida, principalmente à noite. Outros levam às escondidas em pequenos cantis. É uma grande necessidade coletiva que precisa ser resolvida para o próximo Campus Party.

Dois painéis mereceram mais a minha atenção ontem: o lançamento do livro Blogs.com: Estudos Sobre Blogs e Comunicação, organizado pelas pesquisadoras Adriana Amaral (U. Tuiuti do Paraná), Raquel Recuero (UCPEL) e Sandra Montardo (Feevale), pelo motivo de que um dos 11 artigos do livro é  o  Blogosfera X Campo Jornalístico: Aproximação e Consequências, fruto de minhas elocubrações acadêmicas no ano passado; e a palestra “O direito conhece a internet?“, pela óbvia relevância do tema também para o BaixaCultura.

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Comecemos pelo merchand, então. O livro foi lançado após a palestra da Raquel – uma das organizadoras, aí na foto acima – sobre os microblogs e o twitter, que foi uma das mais concorridas do espaço e, também, uma das que o pessoal mais gostou, a considerar os comentários via twitter na LiveStream do BlogBlogs.

(Acho que não contei o que é a LiveStream do BlogBlogs, então vale um novo parêntese: é um agregador que pega tudo quanto é post em blogs, fotos no Flickr, twitters, vídeos no YouTube e mais um monte de coisas que usem a tag #cparty, atualizando de minuto a minuto. Se você usar essa tag em qualquer um dos programas acima e mais outros quantos, vai aparecer no LiveStream. É um dos negócios mais populares daqui, já que os cerca de quatro milhares de computadores aqui produzem no mínimo três vezes isso sob a tag #cparty)

Ao fim da palestra, Raquel chamou as outras organizadoras do livro, que falaram sobre o quanto ele pode ser importante para a pesquisa de blogs no Brasil, já que não existe muita bibliografia nacional sobre o assunto, e do processo que fizeram para selecionar os doze artigos (+ prefácio de André Lemos e posfácio de Henrique Antoun). Por enquanto, ele só está disponível em versão E-Book, que dá para baixar grátis aqui.

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Algumas horas mais tarde teve o debate sobre direito e internet. Estavam lá o onipresente Ronaldo Lemos, Ivo Côrrea, advogado do Google no Brasil, Renato Opice Blum, da Blum Advogados, e Franciso Madureira, jornalista responsável pelos blogs do UOL – na foto, da esquerda para direita. Feito um guri birrento, tentei de novo fazer uma cobertura em “tempo real” via twitter.  Se novamente não consegui direito, pelo menos o que escrevi na hora me ajudou a gravar algumas falas da palestra, tipo:

_ Ronaldo Lemos: Não existe regulamentação específica sobre qualquer pessoa que coloca conteúdo na internet. Cada juiz acaba decidindo segundo suas próprias convicções, porque não existe detalhamento na lei para estes crimes.

_ Renato Blum: “A grande maioria das decisões judiciais no Brasil segue a regulamentação da lei americana“.

_ Ivo Côrrea: Há uma dificuldade do judiciário em entender a internet, sejam juízes, advogados, promotores…

Como pode-se notar, não se ouviu muita novidade; as falas acima, e o tom restante da palestra, foram mais no sentido de reforçar que há a necessidade de um marco regulatório civil para a internet brasileira, porque do jeito que está hoje há uma brecha tremenda para a interpretação pessoal de cada um. E aí pode praticamente tudo, desde proibições ridículas a liberações abusivas.

Ainda assim, a mesa estava bem interessante. Reforçou essa posição que falei acima, e houve vários exemplos para ilustrar isso. Deu pra ver que espera-se cada vez mais uma movimentação da sociedade com relação a esta dita regulamentação, principalmente em não deixar que ela não seja restritiva demais  – e que essa restrição se dê na esfera penal, a “última” das esferas a se recorrer – como aquela que propõe a Lei Azeredo. Aliás, daqui a pouco vai ter um debate imperdível sobre esse tema: O futuro da Internet no Brasil“. De um lado, José Henrique Santos Portugal (Representando o Senador Eduardo Azeredo) e o Desembargador Fernando Neto Botelho; do outro, Sérgio Amadeu, um dos principais coordenadores do evento, e, novamente, Ronaldo Lemos. O nobre senador mineiro negou-se a vir pessoalmente ao evento, embora boatos dêem como não impossível sua presença. Vai apanhar na certa, aparecendo ou não.

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Mais à noite houve dois lançamentos de livro na área da música. Um foi o de TecnoBrega: O Pará reiventando o negócio da musica“, de Oona Castro, do Overmundo, e dele, o  irrequieto da Cultura Livre no Brasil,  Ronaldo Lemos. O livro está disponível em PDF e impresso, a módicos R$30,00.  Vale a pena: é um estudo profundo, acadêmico (no melhor dos sentidos da palavra, parece) e bem escrito sobre o fenômeno da música tecnobrega do Pará. Como diz o outro irrequieto da cultura livre no Brasil, Hermano Vianna, na contracapa do livro:

“Escondido em Belém do Pará, o tecnobrega testa uma original economia cria há aos, na marra. As músicas saem direto de estúdios da periferia e são distribuídas nos camelôs da cidade, animando gigantescas festas de aparelhagem, sem mais depender da grande mídia ou gravadoras. Um mundo paralelo cujo funcionamento é finalmente revelado neste livro: estudo pioneiro sobre as novas indústrias culturais que comandam a vida musical mais popular no Brasil de hoje. Quem quiser pensar o futuro da música não pode ignorar as lições tecnobregas da Amazônia digital.”

O outro foi O Futuro da Música depois do CD“, no mesmo esquema coletânea e E-Book do livro sobre blogs, organizado por Sérgio Amadeu e Irineu Franco Perpétuo.  O livro é bem abrangente: tem artigos de músicos, (Chico Pinheiro, André Mehmari), engenheiros (Davi N. Nakano, João C. leão), comunicólogos/jornalistas (Adriana Amaral, Laam Mendes de Barros), sociólogos (Sérgio Amadeu), antropólogos (Simone Pereira de Sá) produtores musicais (Pena Schimidt), musicólogos (Harry Crowl, Ricado Bernardes), dentre outros. Desde já penso que o livro é essencial para entender essa coisa toda que a gente tá passando. Para baixar, entre aqui.

Os dois compensam a leitura, e o bom de ser lançado por aqui é que sempre dá pra acessar os livros gratuitamente em PDF.

[Leonardo Foletto, enviado especial e irrequieto a São Paulo]

Créditos fotos: 1) Minha 2) João Pedro 3, 4) Flickr de Talita Mariano
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