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Pequenos Grandes Momentos Ilustrados da História da Recombinação (3): Cut-Up

Fazia tempo que queríamos continuar a série de textos sobre os momentos ilustrados do grande passado da recombinação, que começou com o Detournement e teve sequência com o post sobre Machinima. Eis que chegou a vez do Cut-up,  método consagrado pelo escritor beat William Burroughs, o velhinho mais junkie que esse mundo já conheceu.

Pré-história;

Tristan Tzara – Dadaísmo – TO MAKE A DADAIST POEM (1920, Tzara)

Take a newspaper. Take some scissors.
Choose from this paper an article of the length you want to make your poem.
Cut out the article.Next carefully cut out each of the words that makes up this article and put them all in a bag.
Shake gently. Next take out each cutting one after the other.
Copy conscientiously in the order in which they left the bag. The poem will resemble you.
And there you are—an infinitely original author of charming sensibility, even though unappreciated by the vulgar herd.

—Tristan Tzara, 1920

_ O que quer dizer

[youtube=http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=HRhC13wIglk]

“After developing an addiction to the substance he uses to kill bugs, an exterminator accidentally murders his wife and becomes involved in a secret government plot being orchestrated by giant bugs in an Islamic port town in Africa. (IMDB, sobre o Filme “Naked Lunch“, de 1991, dirigido por David Cronenberg)

_ E hoje?

Homenagens
As imagens, em ordem,Cutup Collective; Momafotos; Technocult; Burroughs; Naked Lunch capa; Naked Lunch (no Google Books); Cybernetic; Revista Select; Uncreative Writing (no Google Books); MixLits (Revista Overmundo nº2).

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Pequenos Grandes Momentos Ilustrados da História da Recombinação (3): Cut-Up

Volta e meia são divulgados os números da pirataria no Brasil, na América Latina, no Mundo. Menos R$ 24 bilhões aos cofres públicos nacionais em 2010. Menos US$ 6, 1 bilhões para os multinacionais estúdios de cinema. Menos 2, 4 milhões de empregos. Menos credibilidade para a fonte não divulgada desses números fajutos – que geralmente são inventados divulgados por entidades representativas de gravadoras e estúdios de cinema (APCM) ou indústrias (FIRJAN, por exemplo). E o pior é que o alarme falso quase sempre é aumentado pela imprensa que não contesta e reproduz as “estatísticas”, formando opiniões prontas em muita gente.

Pois um grupo formado por pesquisadores de nove países decidiu contestar e averiguar a realidade. Desde 2006, e divulgado desde 2010, as organizações lideradas pelo Social Science Research Center, dos Estados Unidos, analisaram os mercados informais de lá e da África do Sul, Bolívia, Brasil, Índia, México e Rússia. Como resultado foi publicado o relatório “Pirataria em economias emergentes” com 440 páginas em inglês, 86 delas dedicadas ao Brasil. Aqui, a pesquisa foi realizada pelo Instituto Overmundo e pela Fundação Getúlio Vargas, que desvendaram alguns mistérios, como disse Ronaldo Lemos:

- Fala-se que o Brasil perde dois milhões de empregos por ano com a pirataria. É um número creditado à Unicamp, então fomos à Unicamp tentar descobrir que pesquisa apontaria isso. Conversamos com as pessoas lá e descobrimos que essa pesquisa não existe. Outro dado bastante utilizado é que o Brasil deixa de arrecadar R$ 30 bilhões por ano em impostos por causa da pirataria, e esse também é um valor sem fundamento.

Na mesma matéria do Globo de onde pescamos a fala de Lemos, nos dois últimos parágrafos não publicados online, mas publicados neste blog, o chefe da Divisão de Propriedade Intelectual do Itamaraty e membro do Conselho Nacional de Combate à Pirataria e Delitos contra a Propriedade Intelectual (CNCP), Kenneth da Nóbrega, admite que “a indústria apresenta dados cuja metodologia nem sempre é clara. Existe um debate internacional sobre essa metodologia, e o governo brasileiro ainda não tem números oficiais sobre pirataria“. Ou seja, a metodologia utilizada em “pesquisas” sobre consumo de produtos piratas, como a da Fecomercio-RJ, não é confiável, tornando os números não autênticos. São falsificados.

As estatísticas da pirataria são mais falsas do que os produtos

Dessas “estimativas”, os representantes das grandes empresas e de órgãos governamentais conseguem a deixa para promover campanhas e propagandas enganosas que ligam o consumo de produtos falsificados ao Crime Organizado, ao Terrorismo, ao Trabalho Escravo, ao Tráfico de Drogas – como aquelas que nos deparamos antes de ver um filme em dvd ou mais recentemente no cinema. Um exemplo mais concreto é a campanha “Brasil sem pirataria”, resultado da pesquisa supracitada encomendada pela Fecomercio-RJ, e apoiada pelo CNPC – aquele cujo representante disse ao fim da matéria que defendem “que elas não façam relações simplórias”.

“Simplório” é justamente o que mais é feito, pois há um grande problema na utilização do termo genérico “pirataria” para qualquer tipo de infração de propriedade intelectual. Nessas campanhas existem dois tipos de violação: a dos direitos autorais e a da propriedade industrial. Os primeiros valem para os produtos que incidem sobre as ideias, como cds, dvds e livros; os segundos, para invenções ou marcas, como brinquedos, remédios e tênis. Por isso Oona Castro, diretora-executiva do Overmundo diz que “A gente acaba fazendo um debate com problemas distintos, de natureza diferente, mas que são tratados da mesma forma”.

Nenhum de nós duvida dos danos que um tênis de marca diabo pode fazer no pé, ou um remédio de procedência duvidosa pode causar no teu corpo, ou um óculos totalmente de plástico no teu olho, ou um brinquedo no teu filho. O que não se pode colocar no mesmo saco são os cds, dvds e downloads – que, geralmente, possuem os mesmos dados digitais da origem, sendo cópias sem perdas de qualidade.

“Projetos de conscientização”

O debate das consequências da “pirataria de tudo” tem seus efeitos e é levado para crianças e adultos, formatando mentes através de “projetos de conscientização” escolares ou reportagens na imprensa.

Projeto Escola Legal – promovido a partir de 2007 pela Câmara Americana de Comércio (AmCham), apoiado pelo CNPC e patro$$inado pela MPAA -  é um desses que reproduzem os falsos números. A intenção do projeto é auxiliar professores a doutrinar trabalhar a anti-pirataria com seus alunos, através de um “kit para educadores” e atividades nas disciplinas – que vão desde textos sobre o assunto em Português até problemas de Matemática com os números das “pesquisas”, passando ainda pela citação dos países fonte de produtos falsificados na Geografia. Segundo o site, o projeto foi implementado em 82 escolas (9 particulares e 73 públicas) de seis cidades (de SP, GO, e SC), podendo se espalhar para mais escolas.

E os de mais idade também podem reproduzir as mesmas cifras por meio de reportagens veiculadas na imprensa. Dá uma olhada nessa reportagens do Fantástico e do R7 pra tu ver que os números são reproduzidos e a “pirataria” é usada tanto para se referir a infração de direito autoral quanto a de propriedade industrial. [Na segunda reportagem, mostra exemplar do ridículo discurso moralizador do combate à pirataria, felizmente um entrevistado diz que "as vezes você compra um cd ou dvd que você vê duas vezes e já vale a pena".]

Como se percebe,  as campanhas e reportagens jornalísticas tentam colocar uma dose cavalar de “culpa”  na hora de compra de produtos oficiais. Se esquecem de dar o destaque devido àquela que é a principal motivação de alguém para comprar um produto considerado “pirata”: o preço mais baixo. É público e notório que o preço alto das mídias não condiz com os baixos salários dos cidadãos, especialmente em países emergentes como Brasil, Rússia e África do Sul, onde o preço de um CD, DVD ou de uma cópia do Microsoft Office é de cinco a dez vezes maior do que nos Estados Unidos ou na Europa, e os produtos oficiais acabam sendo ítens de luxo, como Lemos escreve na introdução do estudo que pode ser baixado aqui.

Créditos das imagens: 1, 2, 3, 4.
 

[Marcelo De Franceschi]

 
ssas estimativas piratas costumam

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Pequenos Grandes Momentos Ilustrados da História da Recombinação (3): Cut-Up

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Ontem, dia 15 de setembro, o BaixaCultura completou dois anos.

Quando completou seu primeiro ano, em 2009, fizemos até umas “Felicitaciones“.

Agora, com dois anos, melhor não. É um pouco que nem namoro, onde a gente só comemora mesmo no primeiro ano.

Como em 15 de setembro de 2009,  novamente prometemos algumas mudanças, editoriais e de layout. Dessa vez, elas já estão em andamento.

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Enquanto isso, saiu o e-book “Novos Jornalistas: para entender o jornalismo hoje“, disponível aqui para download. O livro é uma coletânea que reúne trinta e oito textos de profissionais da mídia brasileira (jornalistas e não jornalistas), que tratam de algumas novas habilidades que supõem-se úteis aos jornalistas “modernos”, depois de toda essa revolução tecnológica que já nem parece tão revolução de tão embuída que está no nosso dia a dia.

O e-book e o blog onde os textos foram postados inicialmente vão ter uma versão em inglês – aliás, o blog em inglês já está com alguns textos, outros sendo traduzidos. Dos colaboradores, tem bastante gente interessante, como Ana Brambilla, Marcelo Costa, Rodrigo Savazoni, José Murilo Junior, Sergio Vilas Boas, Tiago Doria, André Deak, dentre outros.  Um dos textos da coletânea foi escrito por nós. Por conta disso, disponibilizamos ele aqui abaixo, com ligeiras modificações para o da coletânea. Disfrute, e se quiser mais baixe o e-book.

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Jornalismo é remix

A  recombinação não é nem nunca foi nenhuma novidade, mas sim uma prática milenar que, agora, com a facilidade que a internet nos proporciona, tem sua ação potencializada aos montes. No jornalismo, então, a recombinação é parte inseparável de sua prática desde sempre. Tanto nas técnicas empregadas quanto na dita produção de seu conteúdo, o processo jornalístico se caracteriza por ser múltiplo e heterogêneo. Um sem número de produções, sejam elas grandes reportagens ou pequenas notícias, já foram feitas tendo como base estudos e pesquisas realizadas nos mais diversos campos do saber. Nada mais do que apresentações de novas informações, decorridas das transformações naturais, reajustadas às informações previamente existentes. Recombinação.

Como diz Nilson Lage, professor aposentado da UFSC e das figuras que mais entendem de jornalismo nesse país, a própria natureza do jornalismo requer recombinação. “Vejo o campo jornalístico como um campo próprio para a reutilização de conhecimentos de outros campos. Ele toma das ciências o que lhe convém, disse o mestre em seu twitter (que, por sinal, vale e muito a pena acompanhar). O jornalismo, comumente um saber do imediato e do singular, não tem condições de usar, de maneira aprofundada, o vasto e atemporal conhecimento das ciências. O tempo em que ele é praticado não permite essa extravagância, por assim dizer, muito embora deva se buscar ao máximo esse objetivo sempre que for possível.

O jornalismo toma das ciências aquilo que lhe é possível aplicar no tempo em que é feito. E esse possível é nada mais que uma pequeníssima parcela da filosofia aqui, uma outra da lingüística ali, um tantinho da lógica, outro tento de história e uma parcelinha de geografia (outras áreas podem ser utilizadas, a depender do assunto tratado; essas são as mais comuns). É do “remix” dos prévios conhecimentos dessas áreas combinados com a matéria-prima da qual vive o jornalista – a informação da atualidade – que vai ser produzido aquilo que sempre costumamos chamar de jornalismo.

A constante interpretação e atualização da informação já existente, e agora digitalmente mais acessível, tem se intensificado em frequência, e ao mesmo tempo em desafio. É o que comentam outros pesquisadores e profissionais do jornalismo, como, por exemplo, Marcelo Trasel, que aponta como um dos desafios do jornalismo de hoje o de “atualizar dados em matérias antigas, que ficam disponíveis via buscadores”.

Com todas as reportagens, notícias e opiniões possíveis disponíveis na internet, a maior dificuldade do(s) jornalismo(s) existente(s) parece ser a de tornar este emaranhado de informação e opinião em algo singular. Algo que seja ao mesmo tempo atrativo ao leitor e importante para a sociedade. Que seja novidade, mas que também não se restrinja só em ser a mais-nova-informação-da-última-hora, e sim que traga um mínimo necessário de aprofundamento. O que, por sua vez, evitaria o afogamento na hipernovidade desprovida de qualquer sentido, um dos males tão ordinários hoje em nosso cotidiano recheado de links e esvaziado de significado.

Uma das formas que o jornalismo tem para usar a seu favor nestes tempos ultramodernos é, justamente, a recombinação. Se existe tanta coisa assim para nos informar e nos deixar perdido, então que aproveitemos esse contexto ímpar na história para o cruzamento enlouquecido de informações. Que com isso se busque significados que vão além da superfície e que se rompa as amarras da última novidade para propor uma ligação firme com a vida presente de cada um.

Para o jornalismo, a recombinação vale não só para a busca de informação exclusiva, ainda e por muito tempo só obtida através de fontes confiáveis, mas também para o cruzamento da informação que todo mundo tem com as mais variadas possíveis bases de dados. É claro que para isso acontecer um monte de outras coisas devem aparecer (formação adequada para o tratamento com bases de dados, informações públicas mais disponíveis e abertas a todos, iniciativas e financiamento para um trabalho jornalístico independente) e desaparecer (o preconceito de muitos com o maravilhoso mundo da informática, o comodismo das redações tomadas pelos critérios mercantis de noticiabilidade, a condição de assédio moral tomada como praxe em muitas redações).

Com tudo isso acontecendo (ou não), quem sabe não passamos a pensar na idéia que o escritor William Gibson trouxe no texto “Confissões de um Plagiador”, que republicamos alguns meses atrás: A gravação, e não o remix, é a anomalia hoje. O remix é a verdadeira natureza do digital. Em outras palavras: é a essência da comunicação dos nossos tempos. Nos arriscamos a dizer que o remix seria tão “natureza” do digital que nem mais haveria de existir uma distinção entre o próprio registro (objeto) e a recombinação (um processo). Tudo seria (e não é?) recombinação.

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Créditos das imagens: [1], [2]

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Pequenos Grandes Momentos Ilustrados da História da Recombinação (3): Cut-Up

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As discussões sobre a informação na era digital não dão folga essa semana. Tem três ocorrências bem importantes que parecem ter combinado de acontecer na mesma época, justamente a em que estamos com pouco tempo pra escrever. Hoje começa o Copyfight, seminário que discutirá por dois dias o tema Propriedade Intelectual e Pirataria. O evento é organizado pelo Pontão da ECO da UFRJ e é uma continuação do Fórum Livre de Direito Autoral, ocorrido em 2008 e divulgado por aqui. A programação consiste em laboratórios práticos de conhecimentos livres durante a parte da tarde e em palestras à noite. As incrições para as oficinas parecem ter se encerrado, mas pra quem mora longe dá para acompanhar os quatro interessantíssimos debates através da transmissão ao vivo, que segundo o site estará disponível lá, ou pela mala-direta e pelo grupo de e-mails do Pontão.

Um outro evento de debates que está acontecendo é o Simpósio Internacional de Políticas Públicas para Acervos Digitais, que como o nome explica, atenta para a digitalização de conteúdos de instituições brasileiras. Legislação, padrões, tecnologias e os projetos são as pautas dos quatro dias do evento, que começou segunda, dia 26, e termina amanhã, dia 29. Assim como o Copyfight, o Simpósio também tem transmissão ao vivo, mas pode ainda ser acompanhado pelo twitter “oficial” @culturadigital e pelos “extra-oficiais” @gabiagustini e @andredeak, dois dos jornalistas que integram a FLI multimídia, empresa que tem feito a cobertura jornalística no site oficial do evento. A Fli, vale dizer, integra a Casa de Cultura Digital, o simpático agrupamento mezzo-anárquico sediado na tranquila rua Vitorino Carmilo, na Barra Funda, São Paulo capital, que desde o início do ano tem estado a organizar eventos e propor discussões no âmbito da cultura digital e que, por conta disso, mui provavelmente, tem sido o mais atuante catalizador no que diz respeito à este(s) assunto(s) no Brasil.

A organização do simpósio está a cargo do Ministério da Cultura, do Projeto Brasiliana USP, que tem digitalizado e tornado possível o acesso à documentos e obras essenciais para se conhecer a história do país [e que já deveria ter sido mais comentado por aqui, aliás], e da Casa da Cultura Digital. Como o simpósio está em andamento, algumas boas discussões já foram travadas, mas menos mal que elas estão bem documentadas no site oficial. Em especial, destacamos o post que fala de Pablo Ortellado – historiador, pesquisador do Gpopai-USP - que defende a tese de que o direito autoral não faria sentido no contexto da produção/consumo de livros no Brasil de uma forma tão cartesiana e precisa que causa estranhamento, como é dito no início do texto do post; e o texto que trata da disponibilização (gratuita) para download de toda a poesia de Vinícius de Moraes, aquele que Drummond dizia ser o único poeta nacional que realmente viveu como poeta – olhe a aventuresca vida do poetinha que você entenderá o porquê.

Hoje e amanhã a programação continua com mais quatro mesas de debate [que, vale repetir, podem ser acompanhadas também do conforto do lar na transmissão ao vivo no site].

E o último acontecimento desses sete dias correntes foi a participação do nosso já conhecido Gerd Leonhard no Roda Viva (foto), o tradicional programa de entrevista que ocupa a grade de segunda-feira à noite na TV Cultura faz mais de 20 anos. A edição do programa foi gravada na última passagem do mediafuturist pelo Brasil , em 24 de fevereiro deste ano, quando o alemão residente da Suiça fez uma palestra sobre “o futuro da comunicação e midia social“.  Aqui tem algumas fotos da entrevista  - de onde retiramos essa aqui de cima, por sinal – e neste endereço será possível assistir alguns trechos do programa, daqui a dois longos meses. “Por ser um programa em outro idioma, o processo de edição é diferente. A íntegra estará disponível 2 meses após a exibição.” informou-nos o twitter do programa. Aproveitando a ocasião, Gerd lançou em seu blog a tradução para o português de uma carta aberta para a indústria fonográfica independente, que tem o grandioso título de “Carta aberta de Gerd Leonhard para a Indústria Fonográfica Independente – a música 2.0 e o Futuro da Música são seus – se você conseguir resistir a tentação de se tornar apenas outro cartel da música“.

A carta é interessante e algo polêmica. Defende uma boa ideia, a de que se tu (gravadora independente) parar com o compartilhamento tu vai acabar com o negócio da música. Ao final, traz aquilo que Gerd, por auto-instituído cargo, sabe fazer de melhor: previsões. Reproduzimos um trecho da carta aqui abaixo, que foi traduzida para o português por Juliano M. Polimeno e pode ser livremente distribuída, desde que para fins não comerciais e que seja feito a distribuição pela mesma licença creative commons. Recomendamos a leitura da original completa, nem que seja na busca de uma argumentação (contrária, até) mais consistente:

Dentro de 18 meses, em muitos territórios chave para a música ao redor do mundo, redes wireless de banda larga e redes específicas para conexão entre dispositivos irão conectar todos os aparelhos concebíveis entre si, assim como com um gigante depositório de conteúdo online – ou deveria dizer switch-boards – que conterá toda e qualquer música, filme ou programa de TV imaginável.

Se você pensa que o “compartilhamento” é um bom negócio agora, espere mais 2 anos – ele será 100 vezes mais rápido e disponível para todo e qualquer dispositivo (não só computadores). Três bilhões de celulares e um bilhão de tocadores irão se conectar perfeitamente entre si.

O acesso wirelless de banda larga e os dispositivos se tornarão tão baratos, super-rápidos e onipresentes que o compartilhamento de conteúdo será o padrão, em alta velocidade e com qualquer um que estiver próximo. Busque – Ache – Selecione – Troque. Clique e tenha.

Como você pode monetizar isso? Licenciando participação – e as redes e dispositivos que a permitem. Você terá que licenciar o uso de toda e qualquer música nestas redes, e fazer ofertas universais irresistíveis, irrefutáveis e imprescindíveis àqueles que a administram. Esses negócios de licenciamento devem ser conversas e não monólogos. Não um dedo apontado para os ISPs mas um grande, brilhante e atrativo incentivo.

[Leonardo Foletto, Marcelo De Franceschi]

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Pequenos Grandes Momentos Ilustrados da História da Recombinação (3): Cut-Up

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Mui provavelmente, depois de ter baixado gigabytes de discos e filmes, já deve ter lhe ocorrido a seguinte pergunta: “mas quem será que colocou esse monte de arquivo pra mim?” Afinal, alguém comprou (ou copiou de alguém) o produto e botou lá, depois de um bom trabalho, pra gente consumir de graça. E é sobre eles, e um pouco sobre como eles põem os arquivos pra todo mundo baixar, que vamos falar um pouco aqui. Uma singela homenagem a esses nobres compartilhadores.

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Há quase um ano, a revista Trip publicou uma matéria buscando conhecer o perfil e entender o porquê dessas pessoas comuns se prestarem a fazer todo o trabalho de graça. Para apurar as informações, a repórter precisou ser sabatinada pelos desconfiados “criminosos” frequentadores do fórum do The Pirate Bay, até que conseguiu conversar com eles. Alguns inclusive aceitaram fazer umas espécies de retratos falados, no site FlashFace, que ilustram a matéria [e que também utilizamos para abri este post]. Então deu pra descobrir  quais os motivos que os movem e quais os custos da filantropia digital. Os esforços para fazer isso são claros. Tempo, dedicação e organização são imprescindíveis pra criar algo de qualidade, tudo na faixa.  E as razões também não poderiam ser mais simples. Eles ganham um pouco de conhecimento e de diversão, e em troca querem reconhecimento e agradecimento, na forma de um comentário ou até amizade, vinda de quem só baixa. Uma situação bem semelhante quando nós do Baixacultura escrevemos ou traduzimos algo, vide principalmente aquiaqui. Dentre seis depoimentos que aparecem na reportagem de Ana Magalhães Silva, um é bem emblemático sobre alguns dos motivos dos uploaders:

“Acho absurdo você ter que pagar R$ 100 num DVD de um filme… se os valores fossem mais acessíveis talvez não houvesse pirataria. Sempre que eles fecham um site de download, aparecem outros dez. Faço upload há dois anos e o que me motiva a lançar mais é o agradecimento dos usuários.”

O trecho é do jovem usuário chamado Júnior, autor de um video que reproduzimos abaixo. Nele, é mostrado como subir um cd de músicas e como é criado o respectivo arquivo .torrent.  Criar uma conta em um servidor de hospedagem de arquivos é fácil, mas criar um torrent não é muito popular. Torrents podem ser mais rápidos de baixar e os arquivos baixados podem  ser muito mais pesados que aqueles comportados por sites.  Entretanto,  o processo é um pouco mais complicado do que simplesmente enviar o conteúdo. O seguinte tutorial foi criado para ajudar os membros do fórum Bj-share, um dos maiores sites de torrent do Brasil, que possui regras muito bem definidas sobre os deveres de quem o utiliza e os tipos de arquivos que devem ser colocados, além de informações para iniciantes.

Antes mesmo desse processo de semeação dos arquivos, existe ainda  um outro processo bem mais demorado: a digitalização. Ripar um cd é um ato simples, mas e um livro ou um filme? São processos muito mais exaustivos e dispendiosos. Livros e revistas podem ter suas páginas diretamente escaneadas e postas num arquivo pdf, ou então ter as palavras reconhecidas e gerar um documento mais flexível. Esta forma é mostrada no site E-books Gospel, de onde vem um belo exemplo. “Ninguém pode ser dono absoluto do conhecimento” é o mandamento da página, que possui 151 livros em português e que inclusive disponibiliza o link pra baixar o programa escaneador dos livros. Juntamente com o livro baixado, vem um “leia-me” em forma de imagem explicando que o conteúdo livre visa “apenas a edificação espiritual e o fornecimento de bons livros aos menos previlegiados e acesso a cultura e conhecimento”. E que assim seja. Abaixo, a video-aula mostra a minuciosa ação de escanear página por página e depois corrigir possíveis erros.

Outro arquivo mais difícil de ser criado é um filme de 700 megabytes, ou mais. Ripar um dvd pode demorar horas. E depois tem o processo de conversão e por fim a criação do torrent. Existem muitas maneiras de se fazer a ripagem, mas uma nos pareceu bem simples. O português Ricardo Santos possui um blog onde desde 2006 publica resenhas e dicas sobre programas gratuitos. Numa dessas ele mostra num vídeo guia como criar um arquivo de um dvd e depois gravá-lo em outro. Todos os programas utilizados estão disponíveis notexto original.

E uma prática tão demorada quanto chupar um filme é a produção de uma legenda para uma série ou longa-metragem. E se se quer fazer algo que preste não é recomendável ser feito à duas mãos. Geralmente uma equipe inteira é necessária para traduzir, sincronizar e revisar corretamente as legendas ansiosamente esperadas por muitos aficionados nas produções norte-americanas. A Equipe Darkside por exemplo possui 20 pessoas para decifrar todas as dificuldades dos episódios de séries que normalmente nem estrearam no Brasil. Mais de 50 séries já passaram pela equipe, que ainda disponibiliza lições bem completas de treinamento para quem quiser se aprofundar. Para ter acesso as informações é preciso fazer um cadastro, mas no canal do grupo no YouTube eles já deixaram duas divertidas vídeo aulas. Uma é sobre a formatação e outra sobre a adequação das legendas. O grupo também aceita novos integrantes e, para quem está começando, especifica os padrões técnicos para a produção de legendas entendíveis.

Claro que há também softwares e games mas queremos destacar aqui que toda essa trabalheira é realizada por quase profissionais. Digo quase pois a diferença é que eles não ganham um tostão por isso. São como voluntários de uma ONG que beneficia milhares de pessoas que só querem ter acesso à cultura e à informação. Então, agora que você já sabe um pouco como funciona, que tal dizer um “muito obrigado” ou começar a fazer a sua parte e devolver o que baixou?

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P.s: Demos uma de uploaders e atualizamos o link do filme “Ai que vida”, que tinha expirado, deste nosso post.

[Marcelo De Franceschi.]

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Pequenos Grandes Momentos Ilustrados da História da Recombinação (3): Cut-Up

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O projetor passa o filme na parede de uma sala, onde diversas pessoas se acomodam nos puffs, almofadas, cadeiras, chão e o que mais der. Da segunda sala onde se vê as imagens estão mais umas quantas pessoas e um obstáculo bem no meio: resquícios de tijolos que foram quebrados para unir o que eram duas casas grudadas. O espaço não é dos mais amplos: esticadas de cabeça são necessárias para ver o que se passa, e alguns estão em pé porque há pouco espaço para sentar e ao mesmo tempo ver o filme. Tudo bem, ninguém parece reclamar. A pipoca corre solta em pequenos potes, e latas (de cerveja) estão nas mãos de uns quantos [entre eles, o professor Sérgio Amadeu, bem conhecido por aqui, que é o que se vê em primeiro plano, no canto direito inferior da foto abaixo], porque o calor que fazia no local, e em toda a cidade de São Paulo, exigia um certo refresco.
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O documentário “Dez Táticas para Transfomar Informação em Ação” (50 min.), apresentado na Casa de Cultura Digital na última quarta-feira às 20h, mostra como o uso de aplicativos e plataformas de redes sociais como blogs, Google Earth, Twitter, Facebook e Flickr podem ser usados para tranformar informação em ações práticas, que visem modificar uma dada realidade. O filme é fruto de um evento ocorrido na Índia em 2009, o Info-Activism Camp, organizado pelo mesmo grupo que produziu o documentário, Tactical Tech, onde centenas de ativistas internacionais se reuniram para debater, aprender, movimentar, ensinar, atuar e mostrar exemplos de ações sociais positivas. Um dos que estavam no evento era o VJ Pixel - pesquisador multimídia e VJ que também integra o coletivo alocado na Casa de Cultura Digital – que teve a incumbência de ser o apresentador da noite na CCD, onde foi apresentada uma versão legendada para o português que já está online [o filme a legenda em português podem ser baixados aqui].

Os exemplos citados serviam de ilustração para cada uma das dez táticas apresentadas [A saber: 1. Mobilize pessoas; 2. Testemunhe e grave; 3. Visualize sua mensagem; 4. Amplifique histórias pessoais; 5. Adicione humor; 6. Investigue e exponha; 7. Saiba trabalhar dados complexos; 8. Use a inteligência coletiva; 9. Permita que as pessoas façam perguntas; 10. Administre seus contatos].

Um dos casos para apresentar a tática 6, por exemplo, foi o utilizado pela Mercy Corps, organização internacional de ajuda humanitária, durante o Tsunami na Ásia. Para transmitir informação para a enorme quantidade de pessoas que tinham sido afetadas pela catástrofe, ela utilizou o Frontline SMS, um programa de código aberto que transforma o seu notebook ou o seu aparelho celular em uma espécie de hub, que pode enviar mensagens para aparelhos celulares de grandes grupos de pessoas sem necessarimente estar conectado à internet.

Outro exemplo citado no documentário é o citado na tática 5, adicione humor. Na Bielorússia, um grupo criou a página chamada “LuNet”, uma singela homenagem de aniversário ao presidente do país, Alexander Lukashenko, que prometeu aumentar o rigor na censura à internet por “não gostar dessa anarquia toda” que caracteriza a rede. O site compilava brincadeiras irônicas ao presidente em páginas-paródias como LuTube eLuJournal,

Para finalizar, mais um caso, agora para ilustrar a tática 3, visualize sua mensagem. Um grupo de “infoativistas” da Tunísia – em protesto contra o bloqueio ao acesso do Youtube e do Daily Motion por conta da exibição de vídeos denunciando abuso dos direitos humanos por parte do governo tunisiano – fez um mashup colocando vídeos proibidos que poderiam ser acessados no lugar onde ficava o Palácio Presidencial nos mapas do Google Earth, como dá pra ver aqui abaixo:

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Ao fim da exibição, antes da discussão em torno das questões levantadas pelo filme, a maioria dos que estão na duas salas se apresentam para os outros, o que funciona como uma contextualização da presença de cada um ali na CCD e introduz o debate. Não demora muito para que um certo consenso se aproxime: as táticas apresentadas, ainda que deveras interessante, despertam uma certa consciência melancólica, pois poucas delas obtiveram resultados realmente práticos – ou, dito de outro modo, poucas resultaram em transformações sociais relevantes para a realidade em que foram produzidas, já que umas apenas conseguiram com que páginas da web, como o Youtube e o Daily Motion, tivessem seu acesso proibido.

Alguns apontam que falta uma organização política em torno destes diversos movimentos, que, dispersos do jeito que estão, não conseguem ter força o suficiente para que uma realidade maior seja modificada. Nota-se esta ideia de falta de resultado prático com ainda mais veemência no Brasil, onde não há um “inimigo comum” como na maioria dos casos citados no filme, localizados em países onde impera ditaduras (ou quase isso). Percebe-se com clareza a tal consciência melancólica: ferramentas para organização, mobilização e ação não faltam, mas sim real interesse e comprometimento contra a ação de inimigos velados, que não se manifestam de maneira tão direta como em ditaduras e quetais, o que torna a mobilização muito mais penosa. Com as novas potencialidades e ferramentas com que dispunhamos para saber o que se passa, o perigo é ser imobilizado pela própria consciência de que há muita coisa a se fazer. Com receio de tão grande a tarefa a ser feita, corre-se o risco de não se fazer nada.

[Apesar dos pesares, creio, com um certo otimismo, de que as coisas estão sendo feitas. Numa escala muito menor do que deveriam, pode ser verdade. Enxergo um certo ranço – míope, vão dizer alguns – em relativizar aquilo que está sendo construído, como se só mudanças estruturais profundas, daquele tipo que com passeata dos cem mil se conquistou tempos atrás, podem ser consideradas mudanças. O movimento do software livre no Brasil, a política de cultura digital do MinC e a consolidação de redes cooperativas extremamente eficientes e bem-sucedidas, como o Fora do Eixo, são exemplos claros de ações consistentes que estão modificando a vida de muita gente, transformando, sim, informação em ação – ainda que numa escala menor do que se necessite, mas aí a discussão é outra, muito mais complexa e que fica para uma próxima postagem]

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CCD vista de trás, do seu pátio

Não é só o documentário que foi resultado da Info-activism 2009. Foram produzidos materiais informativos sobre os temas tratados, que estavam a venda na CCD pelo preço que tu quisesse pagar, no clássico esquema popularizado pelo Radiohead no lançamento de In Rainbows em 2007.

_ Uma série de fichas sobre as dez táticas apresentadas no filme, que detalha em texto aquilo que foi apresentado no vídeo, citando os exemplos, as ferramentas usadas, os efeitos conseguidos e até mesmo o “grau” de dificuldade de cada ação (infelizmente, esse não tá disponível online);

_ Quatro kits temáticos assim chamados: “Get organized“, sobre ferramentas de organização infoativista para o dia a dia ; “Get creative“, com dicas para veicular suas campanhas através de blogs, podcasts, newsletters, etc; “Stay Mobile“, com estratégias de veículação/ação em aparelhos móveis; e “Protecy Yourself“, um compêndio muito útil de informações e dicas para proteger (e criptografar) os dados passados nas campanhas de infoativismo;

_ Quatro guias para aprofundar alguns assuntos tangenciados no documentário: “Be Inspired“, com histórias bem-sucedidas de infoativismo espalhadas pelo planeta; “Get Online“, uma introdução para diversos serviços e ferramentas usados nestas campanhas; Visualize it“, com informações para comunicar visualmente as suas estratégias; e, por fim, “Map It“, que ensina a explorar o uso de mapas (online) em campanhas de infoativismo;

Todos os arquivos estão disponibilizados gratuitamente na rede; é só clicar nos links de cada um dos guias para ter acesso. Disfrute ;)

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Créditos fotos: Andre Deak (da CCD) e  Mauro Rubens (do evento), que fez também um vídeo do evento.
As legendas em português do filme foram produzidas por VJ pixel, Gabriela Agustini, Rodrigo Cerqueira, Renzo Taddei, Alineh Bittencourt Souto, Mariana Mello, Hannah de Medeiros Raposo Chamon, João Marcelo dos S. M. M. da Silva e Heitor Francisco Carneiro

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[Leonardo Foletto.]

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