Pillku e a cultura livre latino-americana

A cultura livre latino-americana é muitas vezes tão desconhecida pelos brasileiros quanto a música, os costumes e a literatura dos nossos vizinhos hispano-hablantes. Um dos elos de ligação mais importantes dessa cultura é a Pillku, uma revista digital com edições trimestrais publicada desde 2011, sempre com assuntos caros (ou tangenciando) à temática principal, cultura livre e o (pro) comúm.

Quem produz a revista é o coletivo Código Sur, grupo de pessoas, de diversos países da América Latina, que trabalham para fornecer serviços com tecnologias livres seguras para movimentos sociais, outros coletivos e pessoas que trabalhem em prol de causas como os direitos humanos, liberdades individuais, ecologia e outros tipos de processos sociais de emancipação. São uma organização da sociedade civil, com sede jurídica em San Juan, na Costa Rica, e integrantes espalhados por Argentina, Guatemala, México, Uruguay, que oferecem serviços variados que vão desde hospedagens de sites, em infraestruturas baseadas em software livre, até envio de newsletters, streaming, VPN e e-mail criptografados. Veja os serviços oferecidos e a política de associação (“membresía”) para coletivos, ongs, organizações e cooperativas ligadas às causas citadas acima.

Destacamos aqui abaixo algumas edições para você conhecer melhor Pillku, mas saiba que existe muita coisa interessante a consultar nas até agora 18 edições publicadas. Se tiver interesse também em publicar, fique atento também com o guia editorial e as chamadas de publicação de artigos da Pillku.

Nº7, LOS COMUNES.
A primeira edição de 2013 centra num tema que, hoje, cada vez mais se alia a discussão da cultura livre: o comum. Ainda que não seja nenhuma novidade na economia, a discussão sobre o comum relacionada aos meios digitais está sendo feita com maior intensidade de uns três anos pra cá, e esta edição se faz uma pergunta comum de se escutar hoje na discussão dos comuns: seriam os comuns uma ideia política para transformar o mundo? Aqui são sete entrevistas com conhecedores do assunto, seja de forma prática ou conceitual; o canadense Alain Ambrosi fala brevemente de Remix, the Commons, plataforma multimídia que documenta ideias e práticas em volta do Comum; Gustavo Castro habla desde Chiapas, no México, sobre os bens comuns na terra, também a partir da plataforma Otros Mundos Chiapas, capítulo local da organização internacional Amigos da Terra; a brasileira Carolina Moreno trata de seus 15 anos de experiência no trabalho com os bens comuns, boa parte como coordenadora da área de ecologia política na Fundação Heinrich Böll; entre mais outras 4 entrevistas que vale ler. Destaque também para o texto que discute feminismo e bem comum, a partir dos saberes e cuidados das mulheres, escrito por Angélica Schenerock, da organização mexicana Água y Vida.

 Nº8, CULTURA LIVRE.

Publicada em abril de 2013, esta edição traz textos e entrevistas que referenciam a cultura livre como um movimento social e cultural. Nessa linha está principalmente os artigos “Cultura Libre: redistribución del poder y trabajo entre pares“, por San Hoerth Moura y Angie Schenerock, que conceitualiza e aponta caminhos na discussão conceitual da cultura livre em nosso sofrido continente; e “Cultura libre: génesis y experiencias de un movimiento creciente“, escrito pelo coletivo que edita a revista, que aponta a origem do termo cultura livre (no software livre e nas quatro liberdades propostas por Stallman nos anos 1980), da ideia do código aberto e do Creative Commons, além de fazer um interessante mapeamento de iniciativas que trabalham sob esta perspectiva: rádios, editoras, cinema, redes e até mesmo coisas inusitadas como a interessante “Hacking My Vagina“.

Nº11, MÚSICA LIVRE.
Esta edição, de outubro de 2013, traz experiências de artistas que fazem música copyleft, principalmente liberando suas músicas em licenças livres. Nela, há um “Breve guía para iniciarse en la música libre“, com um explicativo de como funcionam as licenças livres, qual seu contexto histórico, sites referenciais que usam estas licenças e um pequeno passo a passo de como funciona a burocracia de registro convencional de músicas – baseado no contexto argentino, no brasileiro há algumas alterações pontuais. Na linha mais propositiva e conceitual, há um artigo tratando da gestão coletiva dos direitos de autor a partir do paradigma da liberdade, enquanto que na de experiẽncias há outro texto que fala da RedPanal, primeira plataforma livre e colaborativa de gestão musical da Argentina, quiçá uma das primeiras da Latino-América também – confere aqui a plataforma.

Nº18, CIBERFEMINISNO PARA HACKEAR EL PATRIARCADO
A penúltima edição da revista digital foi lançada em setembro de 2017 e fala desde “la resistencia, las identidades disidentes, la interseccionalidad, disputamos el acceso universal a internet, con deseos de inundar la red con contenidos feministas y descolonizar los medios digitales”. Há discussões desde a ainda pouca participação feminina na área de desenvolvimento do software livre, proposta por Cecília Ortemann, até a discussão sobre o ciber-eco feminismo, passando pelo debate sobre uma governança da internet feminista, sobre os trolls e tecnologia e feminismos anti-coloniais, esta última uma entrevista com a coletiva lésbica feminista autônoma Les Brujas. Uma edição-dossiê muito completa e com várias perspectivas sobre a temática.

A Pillku, é claro, também trabalha muito com questões consideradas “técnicas”, mas que também são políticas. Nesta postagem há um mapeamento de iniciativas que fornecem serviços digitais ativistas/livres e que protegem a privacidade de seus usuários, material fundamental para todes de nuestra América latina saberem a quem recorrer quando necessiterem destes tipos de serviços.

Todas as imagens usadas aqui são das edições de Pillku.

#GCultural2016 – Experiências e Projetos de cultura e ativismo digital

mesa-3      A segunda semana do Congresso de Gestão Cultural #GCultural2016 é a dos trabalhos da Mesa 3 – Experiências e Projeto de Cultura e Ativismo Digital. Como o nome sugere, talvez ela seja a que mais traga diversidade nas ponéncias, porque é justamente este o objetivo: compartilhar experiências, sem um foco específico em cultura livre, questões profissionais, ferramentas/softwares ou lugares como as de outras mesas, mas tudo isso um pouco, centrado na ideia da palavra experiência – relatar o que aconteceu na experiência pesquisada/vivida por cada um@ e aprendermos com os erros e acertos de cada uma delas.

     Quando Mariana e Jorge vieram falar conosco sobre este congresso, e esta mesa em específico, pensamos que ela poderia ser o lugar para discutir um pouco mais a questão do ativismo, tão presente no nosso trabalho do BaixaCultura desde 2008 e tão importante no contexto brasileiro no qual falamos, de impeachment de Dilma Roussef. [Caso alguém queira saber: sabemos que é/foi golpe mesmo (seja político e/ou judiciário, midiático), e nada conseguimos enquanto brasileiros fazer pra evitar – muito por culpa do próprio PT, em boa parcela responsável pela situação chegar a esse ponto em que “os fins justificam os meios”, e também porque a “democracia” não parece ser um valor relevante para boa parte d@s brasileir@s. Teremos de lidar de frente com as consequências atuais e futuras deste fato, talvez concentrando energia em buscar “saídas” no micro, na autonomia, no local – mas esse é um papo pra outro momento].

     Mas aconteceu que as temáticas dos trabalhos enviados para nossa mesa não foram tão explicitamente ativistas quando imaginávamos, e tudo bem: o ativismo pode não estar explicitamente presente naquilo que fazemos, mas está lá, em todas nossas ações, em todas as decisões que tomamos, em tudo aquilo que queremos (ou não) pensar. Ativismo é ação, ação é existência. E todas os trabalhos apresentados para esta mesa falam muito dos desafios de existir enquanto projetos/pessoas de cultura (digital).

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     Começamos (empezamos!): o primeiro artigo nos traz Daniel Daza Prado, de Buenos Aires, contando como descobriu o que era uma rede livre (red inalámbrica libre) e como, então, foi atrás de etnografar duas dessas comunidades em Buenos Aires. Crias diretas da cultura livres, estas redes já existem às centenas ao redor do planeta, com milhares de pessoas trabalhando de modo voluntário para levantar antenas caseiras, hackear routers e desenhar novas arquiteturas de rede à margem das grandes operadoras de internet.

     Na sequência, Marta Álvarez conta a experiência do bit:LAV, um espaço de criação de Valladolid (Espanha) inspirado nos laboratórios do procomún, como o referencial Medialab Prado em Madrid ou o recém criado Lab Santista, apresentado na 1º mesa deste #Gcultural. bit:LAV junta Marta e Alberto Marcos Cabero, a remezcla e as implicações políticas da cultura digital, em um espaço cultural dentro do Laboratório de Artes de Valladolid (LAVA).

     O terceiro trabalho da mesa vem do Brasil, mais precisamente São Paulo: Preto Café. Um café numa mesa de cultura e ativismo digital? não um café qualquer, mas o primeiro café pague-quanto-quiser da cidade de São Paulo, aberto em 2015 como um espaço de promoção da liberdade e da confiança – e inspirado pelos princípos de compartir da cultura e do software livre. Lucas Pretti busca compartilhar a experiência desde a busca pela inovação já no modelo jurídico-administrativo até a intenção colaborativa pragmática (que leva à defesa de um modelo de gestão “semi-aberto”) que leva o Preto Café a ser uma obra artística relacional.

     Nossa quarta ponéncia é desde Assunción: música Okápe é uma plataforma que busca agregar músicos da cena independente do Paraguai através de diversos formatos de difusão e promoção musical: festivais, shows, feiras, oficinas. Okápe é uma palavra do idioma Guarani que significa “fora” e dá nome ao projeto com a ideia de expansão e de dar um impulso para fora a cena musical alternativa paraguaia, como conta José Caballero no video da ponéncia mais abaixo.

     Na sequência, Bruno César Alves Marcelino, do Centro Latino-Americano de Estudos em Cultura – CLAEC de Foz do Iguaçú, cidade brasileira da tríplice fronteira (Paraguai e Argentina), traz um mapeamento cultural de duas cidades de outra região fronteiriça brasileira, Jaguarão e Arroio Grande, no sul do Rio Grande do Sul, próximo ao Uruguai. Duas cidades que, apesar de seu diminuto tamanho, apresentam 17 grupos, entidades ou aparelhos culturais, em sua maioria escolas de samba, num processo de gestão ainda precário.

     Lucy Alvaréz Galvez nos conta, no sexto trabalho da mesa, sua experiência de 13 anos de trabalho enquanto produtora cultural na televisão colombiana. É um relato que dá voz a uma geração de produtores que trabalharam antes e depois do surgimento da internet e que passaram pelas transformações das tecnologias de comunicação nos últimos anos e suas brutais modificações no ambiente de trabalho em que a tecnologia é presença forte, como a televisão. Como se adaptar e se apropriar dos diversos aparelhos digitais que aparecem e são extintos num ambiente como o de um canal de televisão regional? É uma questão que permeia a apresentação de Lucy, no vídeo e em texto.

     Por fim, temos Janaína Capeletti, de Porto Alegre (Brasil), que traz um artigo sobre as especificidades da arte digital feita no Brasil e sua relação com o ativismo e a cultura hacker. Ela entrevistou quatro profissionais que transitam entre a academia e a produção artística brasileira para saber como se dá essa relação na arte contemporânea brasileira. Constatatou, por hora, que o ativismo se dá na própria subversão aos processos da arte convencional, à vezes usando de princípios da ética hacker de forma não intencional.

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     Para estimular o debate, propomos algumas questões para discussão na mesa e em cada trabalho:
_ Qual a ação ativista que vocês percebem nos trabalhos de vocês?
_ O que vocês tem tirado de maior aprendizado (em especial para a gestão cultural) a partir do trabalho apresentado aqui?
_ Quais os principais desafios para sobrevivermos enquanto rede na seara da gestão cultural na ibero-américa?

     O debate começa no grupo de telegram e segue por lá, nos comentários aqui ao lado (ou aqui embaixo, se quiser via Facebook), no Twitter ou em outras redes via #gcultural2016. Na quinta-feira (jueves), às 19h GMT (16h no horário de Brasília e na Argentina e no Uruguai), teremos uma videoconferência para dialogarmos e apresentarmos algumas questões para o debate. Adelante!

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Libertades con senderos que se bifurcan en red. Fragmentos de una etnografía de los grupos que crean Redes Libres, Abiertas y Comunitarias
Daniel Daza Prado (Buenos Aires, Argentina)

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     Esta ponencia plantea compartir algunos fragmentos de una etnografía de las comunidades de Redes Inalámbricas de Internet Libre. El texto pretende describir, problematizar y analizar las experiencias de vida cotidiana, la tecnología y el activismo digital de estos grupos. Las redes inalámbricas libres están formadas por personas que conectan sus computadoras para compartir datos y servicios utilizando tecnología WiFi. Surgidas en el marco de la denominada “cultura libre” ya existen cientos de estas redes alrededor del mundo, trabajando voluntariamente para levantar antenas caseras, hackear routers y diseñar otras arquitecturas de conexión con el fin de promover procesos de participación libres, igualitarios y políticos en internet.

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Arte y activismo digital en la periferia: bit:LAV
Marta Álvarez (Valladolid, Espanha)

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     En los últimos años han proliferado en España los laboratorios del procomún, espacios en los que se ha ido articulando de forma específica toda una investigación colectiva en torno a este concepto y sus diferentes aplicaciones en el campo de la cultura y el conocimiento en relación con las posibilidades de la Red. Tomando como ejemplo espacios como Medialab Prado (Madrid) y como referencia centros dedicados al arte digital tales como Etopia (Zaragoza), Hangar (Barcelona) o Laboral (Gijón); nos propusimos tratar de desarrollar un espacio de creación e investigación en torno a la cultura digital y especialmente el arte en la ciudad de Valladolid que nos permitiera elevar de forma colectiva una visión crítica desde el arte con respecto al uso de las nuevas tecnologías.

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Estética relacional e economia de código aberto: a experiência híbrida do Preto Café com o conceito pague-quanto-quiser
Lucas Pretti (São Paulo, Brasil)

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   Este relato conta a história de criação do Preto Café, o primeiro café pague-quanto-quiser da cidade de São Paulo, aberto em 2015 como um espaço de promoção da liberdade e da confiança. Procuro compartilhar a experiência desde a busca por disrupção no modelo jurídico-administrativo e a intenção colaborativa mas pragmática (que leva à defesa de um modelo de gestão “semi-aberto”) até o status de obra artística relacional, que o empreendimento de fato alcança.

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Música Okápe
Caballero Gómez (Assunción, Paraguay)


     MÚSICA OKÁPE es un proyecto del Centro Cultural de España Juan de Salazar que tiene como objetivo favorecer la proyección nacional e internacional de la música independiente de Paraguay. Es una plataforma que pretende ser una red entre músicos paraguayos/as y la región donde participaron más de 70 proyectos, solistas, bandas y dj de diferentes tendencias y estilos. Fomentando la escena independiente con ciclos de conciertos, talleres, festivales, encuentros colaborativos, cibermedios, videos y programas de radio.


As Organizações da Sociedade Civil na Promoção das Políticas Culturais: Jaguarão/RS e Arroio Grande/RS, Brasil
Bruno César Álvares Marcelino (Foz do Iguaçú, Brasil)

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     Este trabalho é uma apresentação dos resultados obtidos junto ao projeto de pesquisa Cartografia da Cultura Fronteiriça, financiado via Fundo de Apoio à Cultura do Estado do Rio Grande do Sul – Brasil, o projeto teve como objetivo mapear e identificar as entidades e grupos culturais sediados nos municípios de Jaguarão e Arroio Grande/RS cidades que integram a fronteira sul do estado, a metodologia se deu em três partes, na primeira ocorreu o levantamento e coleta de dados, a segunda foi a realização da pesquisa de campo e visita aos grupos e associações mapeadas inicialmente e a terceira e última consistiu no tratamento dos dados e das informações coletadas. Identificamos um total de dezessete grupos e entidades culturais, no qual por meio dos resultados dos questionários e das visitas à campo, pode-se compreender de forma aprofundada como se dá a promoção das políticas culturais entre os grupos identificados.

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Experiencia en Canal 13
Lucy Tatiana Galvis Peñuela (Bogotá, Colômbia)


     Es un relato de la experiencia como artista plástica y productora de televisión con especialización en Gerencia y Gestión Cultural y en Televisión en el uso de nuevas tecnologías para el desarrollo de proyectos en Cultura-Comunicación y Educación en Colombia.

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Arte Digital e Ciberativismo: Intersecções com a Ética Hacker no Cenário Brasileiro
Janaína Capeletti (Porto Alegre, Brasil)

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     Este artigo é o resumo de uma pesquisa que analisa as especificidades da arte digital feita no Brasil, nos dias de hoje, e sua relação com o ativismo. Através de entrevistas com quatro profissionais que transitam entre a academia e a produção artística foi possível constatar que na arte brasileira, o ativismo se dá na própria subversão aos processos da arte convencional e na incorporação da cultura hacker no fazer artístico mesmo que, muitas vezes, de forma não intencional pelos atores.

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Radialistas pela cultura livre

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Os Radialistas Apasionados – coletivo de rádio latino-americano, um dos organizadores do Festival da Cultura Livre (2013) que participamos, em Quito – lançou semana passada uma radionovela sobre a cultura livre. Trata-se de “¡Utopía va por la libre!” e conta a história de uma banda (Utopia) que se vê no dilema de apostar no “sistema” das gravadoras ou seguir pelo caminho livre através das licenças Creative Commons.

São 5 capítulos com episódios de 6 a 12 minutos, todos muito bem produzidos em espanhol de fácil entendimento, inclusive para aqueles que não são hispano-hablantes. É um trabalho muito interessante para explicar a cultura livre para um público mais amplo, fora da “bolha” da cultura digital e da contracultura. Segue aqui abaixo o texto de abertura da radionovela e os links para escutar na Radioteca, uma rede social de radialistas da América Latina que disponibiliza o áudio em streaming, para baixar e também com o roteiro completo para ler (e baixar em PDF, se quiseres fazer uma versão na tua própria aldeia). Tudo livre, sob uma licença CC BY SA.

Cada vez son más las músicas, artistas y escritores que “van por la libre”, al margen del sistema, ajenos a discográficas o editoras, huyendo de los intermediarios porque no los necesitan. Apuestan por el conocimiento abierto y la cultura libre.

Creen que el conocimiento se genera colectivamente y lo que crean lo devuelven a la colectividad de forma abierta y libre. Esta nueva generación se sirve de Internet para difundir su trabajo. Ganan dinero en los conciertos, con charlas y así pueden seguir creando. Exploran otros camino, no ven la cultura como una mercancía y son apoyados por nuevas discográficas que quieren ayudar más que hacerse ricas.

Es un nuevo mundo,… ¡el mundo libre!

Para quienes habitan en esa utopía hemos grabado esta radionovela. Con ella queremos animar a las nuevas agrupaciones musicales, a los escritores y artistas a “ir por la libre”, como “Utopía”. Una banda de rock que se enfrenta a la disyuntiva de rendirse ante “sistema” o apostar por las licencias Creative Commons.

Música, sueños, amor, utopías y mucho copyleft. Escucha ¡Utopía va por la libre!

CAPÍTULO 1 – SUEÑOS SIN DINERO

CAPÍTULO 2 – NACISTE PARA CANTAR

CAPÍTULO 3 – BASTA DE ROMANTICISMOS

CAPÍTULO 4 – USTEDES SON LOS ELEGIDOS

CAPÍTULO 5 – SIEMPRE LIBRES

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O trabalho dos Radialistas em prol da cultura livre vai muito além dessa radionovela. No portal RadioLivres estão cursos livres, uma biblioteca com referências de software livre a produção radiofônica – inclusive, um completo manual urgente para radialistas livres de quase mais de 300 páginas. Além de uma videoteca com diversos filmes (docs, curtas) relacionados ao tema, parecida (mas mais ampla) do que a que mantemos na BaixaTV.

Outros dois trabalhos que vale destacar aqui são os spots de cultura livre, produzidos em agosto do ano passado, chamados “El mito…mata. ¡Mata el mito!” São 6 pequenos (até 1 min.) spots para desmistificar os direitos de autor e a cultura livre. Bem bom pra mostrar praquele seu amigo cabeça dura que acha que cultura livre é “tudo grátis” ou a “mata de fome” os artistas. Confere aqui abaixo que vale a pena:

1. MÚSICA Y DERECHOS DE AUTOR

2: LIBROS Y DERECHOS DE AUTOR

3: COPYLEFT VS COPYRIGHT

4: ORIGINALIDAD Y CULTURA LIBRE

5: CULTURA LIBRE NO ES UN “TODO GRATIS”

6: ACCESO AL CONOCIMIENTO EN LAS UNIVERSIDADES

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Por fim, e não menos importante, outro material fundamental produzido pelos Radialistas em formato de guia: 10 mitos sobre la cultura libre y el acceso abierto al conocimiento. Editado por Santiago García Gago, espanhol radicado na América Latina e nos Radialistas faz alguns anos, é um texto essencial para informar corretamente sobre a cultura livre, com argumentos básicos pra não propagar mentiras como verdades absolutas. Confira os 10 mitos aqui abaixo, em tradução para o português, e descarregue o guia, em PDF, que destrincha cada um deles.

1º mito: As obras culturais são criações completamente originais.
FALSO: toda criação é coletiva.

2º mito: A cultura e o conhecimento sempre foram mercadorias suscetíveis de serem vendidas.
FALSO: a cultura e o conhecimento são bens comuns.

3̣º mito: Os direitos autorais foram criados para proteger os artistas dos que copiavam seus livros.
FALSO: foram criadas principalmente para proteger os artistas dos editores.

4º mito: A cultura livre não protege quem cria e se pode roubar suas produções
FALSO: não há nenhum risco em licenciar as tuas obras de forma livre.

5º mito: A cultura livre promove a cópia e isso é promover a pirataria
FALSO: democratizar o conhecimento não é pirataria. Pirata é quem se apropria de algo que não é seu e o conhecimento é um bem comum.

6º mito: A internet e a cultura livre matam de fome os artistas
FALSO: A cultura livre promove modelos em que as pessoas tem acesso a cultura e os autores vivem de suas criações.

7º mito: Cultura livre é “tudo grátis”
FALSO: o modelo que a cultura livre propõe não é necessariamente o da gratuidade, mas sim o do livre acesso.

8º mito: A cultura livre não tem validade legal
Falso: As licenças livres, como as Creative Commons, tem validade legal na maioria dos países e você pode processar as pessoas que não respeitam os termos que estão em suas licenças

9º mito: Ninguém usa este tipo de licenças
FALSO: Fazem uso das CCs, por exemplo, da Casa Branca ao Banco Mundial, passando por periódicos, blogs e fotógrafos.

10º mito: Não posso fazer nada. A cultura livre não vai comigo.
FALSO: toda a sociedade pode apoiar este movimento e fazer mais acessíveis e livres a cultura e o conhecimento.

P.s: Alguém afim de ajudar a traduzir todo o guia sobre os mitos da cultura livre? Escreva pra baixacultura@gmail.com (ou baixacultura@riseup.net) que a gente tá querendo ajuda pra essa tarefa.

Reparar em vez de descartar

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Perguntas rápidas: você sabe trocar a resistência do chuveiro? consertar o abajur do lado da cama, quando ele abruptamente parou de funcionar? não se desespera quando seu computador não liga na 2º tentativa? Se sim, saiba que você tem tudo para ser um reparador, uma exceção nesse mundo que joga grandes quantidades de material fora, mesmo as coisas com quase nada de errado e que poderia obter um novo sopro de vida depois de um simples reparo.

Não é novidade nenhuma: vivemos numa cultura em que comprar um novo é muito mais fácil do que consertar o “velho”. Cito dois casos extremos: 1) as pernas (alumínio) de sua cadeira de praia estragaram, você quer levar a algum lugar que conserte. É muito provável, como já aconteceu por aqui, que você ganhe como resposta de qualquer lugar que procurar: “mas não vale a pena, compre outra que sai mais em conta”.  Mas e se eu quero que ela volte a funcionar, independente de “sair em conta” ou não?

Outro caso, na extremidade oposta: estragou uma peça no seu Iphone (o que, você usa Iphone?? :P). Se você for numa loja “autorizada”, qualquer peça que estraga costuma custar uma boa grana, só não o suficiente para você trocar seu telefone porque todos produtos Apple são exageradamente caros. As opções baratas se restringem ao mercado “negro”, em que os chineses são mestres. Talvez por isso mesmo é que o site IFixit, que traz uma grande variedade de manuais de reparo abertos e gratuitos, tem centenas de manuais dos produtos Apple. É como uma rebelião dos consumidores: “ah é, Apple, você vai incomodar tanto assim pra abrir ou reparar por conta própria um produto seu? Então nós vamos mostrar que sim, podemos fazer isso de modo colaborativo, sem vocês”.

No domingo 12/4, participamos de um evento que visa forlatecer essa cultura dos reparadores: o Café Reparo, projeto relacionado ao Ônibus Hacker e contemplado pelo edital Redes e Ruas (PMSP) da secretaria de cultura de SP. Ele prevê seis encontros voltados à cultura hacker que propõem laboratórios de pequenos reparos, discussões e proposições nos segundos domingos de cada mês no Centro Cultural São Paulo entre março e agosto de 2015. Estivemos do 2º encontro, buscando relacionar a ideia da cultura livre e do copyleft com a questão do reparo em vez do descarte. Ou você não acha que a cultura livre, ao expor o código-fonte da produção, não potencializa a autonomia também no reparo/manutenção dos objetos produzidos?

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Café Reparo na Holanda

O projeto foi abertamente inspirado por um movimento global chamado Repair Café, um conceito de café em que as pessoas de uma vizinhança se reúnem para consertar objetos quebrados em vez de jogá-los fora e comprar novos. O primeiro foi criado em Amsterdã, na Holanda, por Martine Postma. A ideia do café é simples: num determinado dia da semana, voluntários se reúnem para consertar itens que vão de brinquedos quebrados e roupas descosturadas a secadores de cabelo que não funcionam mais. Todos os reparos são feitos gratuitamente, como em uma troca de aprendizado entre os moradores de determinada região. Hoje são mais de 300 cafés desse jeito espalhados por 10 países – um deles no Brasil, em Santos, que acontece através da ANDES (Agência Nacional de Desenvolvimento Eco-Social).

O Repair Café não fala em competir com as assistências técnicas e as pessoas que fazem disso seu modo de ganhar a vida. Muito pelo contrário: a intenção é chamar a atenção para a possibilidade de cada um poder fazer o reparo de suas próprias coisas. De que você não tem que jogar fora tudo que “não funciona”: existem alternativas de conserto. Mas é claro que nem sempre vai se conseguir resolver o problema do objeto em questão, e quando isso acontece é que entram os (cada vez menos) técnicos disponíveis.

No Café Reparo de SP, a estrutura montada no evento conta com dois monitores – um mais de hardware, outro mais de software – mais três integrantes/produtores do projeto, que ficam durante o dia, das 10 às 18h, para ajudar você mesmo a reparar o seu objeto. Que fique bem claro: eles não vão fazer o serviço sozinho, você vai fazer junto com eles. Do It Together. No domingo em que participamos, um abajur, uma torradeira e uma cafeteira foram reparados; um videocassete teve seu problema detectado, o que em muitos casos é a maior parte do problema. Veja aqui abaixo algumas fotos desse dia, por Milena Migrans.

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Há diversos motivos para justificar a cada vez mais necessidade de repararmos aquilo que usamos. Muitos deles foram bem descritos neste manifesto abaixo, desenvolvido pelo site Ifixit a partir de um texto publicado por Mister Jalopy em seu site – que, por sua vez, foi publicado inicialmente na Make Magazine nº4. Traduzimos apenas o início, a tradução completa faremos em conjunto com o pessoal do Café Reparo SP – se alguém quiser ajudar a por isso numa arte, bota o dedo aqui (nos comentários desse post).

1. Reparar é melhor que reciclar
Fazer nossas coisas durarem mais tempo é mais eficiente e barato do que buscar/extrair matérias-primas de baixo custo

2. Reparar poupa seu dinheiro
Consertar coisas muitas vezes é grátis e geralmente mais barato do que a substituição delas. Quando você mesmo conserta você economiza dinheiro.

3. Reparar ensina engenharia
A melhor maneira de saber como algo funciona é desmontá-lo.

4. Reparar salva o planeta
A Terra tem recursos limitados. Eventualmente, vai acabar. A melhor maneira de ser eficiente é reutilizar o que já temos.

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A ideia dos cafés reparos é, no fundo, mais uma das iniciativas globais que visam fortalecer a autonomia das pessoas. Que visa abrir as “caixas-pretas” que estão por trás de qualquer objeto técnico e mostrar como eles funcionam. Como este texto da revista Wired aponta, talvez mais do que um movimento de “fazedores”, se faz necessário um movimento de “reparadores”, que deem novos (ou mantenham os velhos) usos a centena de milhares de objetos que são desperdiçados por aí. Quantas empresas no século XX tem promovido objetos feitos para quebrar em menos tempo do que de fato a capacidade deles poderia aguentar? o ato de reparar é também um ato de resistência contra a obsolescência programada, essa maldição tecnológico do século XXI.

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Se ficou interessado em saber mais do que rolou na conversa que fizemos no sábado, o pessoal do dispositivo – um projeto artístico-tecnológico-arquitetônico que vale muito a pena conhecer – fez uma gravação experimental da conversa, disponibilizada aqui abaixo. Como de praxe, versamos caoticamente sobre diversos temas relacionados a cultura livre, do nascimento do direito autoral aos movimentos de vanguarda do século XX, anticopyright por excelência, passando até por temas atuais e correlatos (?) como o Uber e o AirBnb. Fizemos uma apresentação, chamada cultura livre e copyleft, uma espécie de guia dos temas a serem falados, baseados em outras oficinas que demos de cultura livre e copyleft por aí.

 Créditos fotos: Milena Migrans (Café Reparo SP), Hypeness (Café Reparo da Holanda)

Produtoras colaborativas e uma tecnologia digital social

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Quem trabalha com os princípios da cultura livre, especialmente a partir do software livre e das licenças Creative Commons, já passou pela situação: você apresenta seu projeto/pesquisa/produto pra alguém (ou um grupo de pessoas), é aplaudido, recebe os parabéns, vários “muito legal!”. Em determinado momento, depois ou mesmo durante os parabéns, surge alguém a questionar: “muito interessante o trabalho de vocês, mas como vocês se sustentam, se tudo é livre?” como ‘ganham dinheiro‘, se o software é dado de graça?”.

A resposta varia de acordo com cada um, mas costuma fazer a pessoa questionada condensar, em poucas frases, muitas e muitas horas de conversas, pensamentos e estudos sobre os princípios da cultura e do software livre. Por exemplo: software (e cultura) livre não significa software (e cultura) grátis, como diz Richard Stallman na sempre citada frasefree speech, not as in free beer“; nem toda troca precisa ter dinheiro envolvido – porque mesmo estando num sistema capitalista, em algum nível é possível sobreviver, sim, de trocas e moedas que não necessariamente o dinheiro; o sustento provém de atividades indiretamente relacionada aos serviços prestados ou produtos oferecidos de maneira gratuita, como consultoria, capacitação, ensino, personalização; ou, ainda, não me sustento com isso, faço porque gosto e quero que seja assim.

Penso nisso porque o II Encontro das Produtoras Colaborativas, que juntou mais de 10 coletivos na semana passada no NAEA, em Belém, trouxe essa questionamento em diversos momentos. E, mais do que isso, trouxe alguns exemplos que podem fornecer respostas criativas às perguntas já citadas. Por que desde que a internet cortou alguns intermediários e ressignificou outros, a realidade é clara: não existe mais um modelo único, pronto pra aplicar sem esforço, que vai sustentar tua produção cultural – seja ela cinema, música, software, eventos, etc. Como Gilberto Gil já dizia em 2009, aqui mesmo no BaixaCultura: “A digitalização não exige que toda obra de arte seja de graça, mas que um modelo próprio de comercialização seja criado para cada necessidade. A tendência atual é que pensemos não na propriedade, mas no comum, no compartilhado”.

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A tecnologia social das produtoras colaborativas

Pensar no comum e no compartilhado é justamente a linha-mestra das produtoras colaborativas, que, por hora, podemos resumir como uma tecnologia social que reúne um conjunto de metodologias baseados na cultura e no software livre, no cooperativismo e nas moedas sociais. São metodologias que começaram a ser estudadas em 2006, nos pontos de cultura do Quilombo do Sopapo e da Biblioteca do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, e aplicados pela primeira vez pelos pontões de cultura iTEIA, CDTL e Caravana Arcoirís na Aldeia da Paz, realizada no Acampamento Intercontinental da Juventude dentro do Fórum Social Mundial de 2009, em Belém.

De 2009 pra cá, a tecnologia tem sido testadas em diferentes lugares, principalmente em Pontos de Cultura – projeto criado dentro do Cultura Viva e uma das maiores conquistas da história da cultura brasileira, referência internacional (olhaí o relato basco aqui no Baixa em que ele é destacado) e que desde 2014 é, por lei, política pública brasileira.

A Produtora Colabor@tiva.PE, que integra 6 pontos de cultura da região metropolitana de Recife mais um cineclube e um centro de recondicionamento de computadores, foi a primeira que aplicou de forma permanente, a partir de 2010, o conjunto das metodologias das produtoras colaborativas. Pedro Jatobá, um dos criadores da Colabor@tiva.PE, apresentou a tecnologia, em uma das falas do primeiro dia de encontro, a partir da metáfora da árvore: assim como as árvores precisam de nutrientes para gerar frutos, as produtoras necessitam de insumos para alimentar o processo de formação continuada e, assim, fomentar os ciclos de amadurecimento de novos empreendimentos.

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Assim, os tronco são as 6 áreas de atuação: memória, gestão, produção, economia, educação e comunicação. Os galhos são os núcleos temáticos: fotografia, áudio, vídeo, comunicação, produção cultural, criação de páginas na internet, entre outros. As folhas são os produtos e serviços (clipe, registro fotográfico, curso de fotografia, mapeamento, site, etc); os frutos são a formação continuada, aquilo que cai e dá fruto, replica; e, por fim, tudo está estruturado em seis raízes sólidas, que vale destacar aqui:

cultura popular: atuar na divulgação e no fomento da cultura popular de cada local; ser a mídia livre da expressão cultural popular;
software livre: além de toda a questão social do software livre, ele é, também, a única maneira legalizada de funcionar numa comunidade sem precisar pagar fortunas por licenças de software.
cooperativismo: ser autogestionado, sem “patrão”, mas cooperativados; relação horizontal;
criatividade: buscar formas alternativas e criativas de não fazer “empacar” os projetos;
empreendedorismo: a necessidade de fazer a produtora funcionar, e minimamente pagar as contas;
moeda social: em muitas comunidades onde as produtoras atuam o dinheiro é escasso; então é criada uma moeda social pra balizar trocas dentro da comunidade. Ela pode fazer serviços pra fora da comunidade por dinheiro, mas dentro ela pode fazer serviços na moeda social, trocar a criação de uma página na internet por almoços, por exemplo. No caso da Colabor@tiva.PE, há a moeda social Concha, a primeira criada em Pernambuco, toda gestionada dentro da plataforma Corais.org, que, ademais, é um ambiente de criação/gestão de projetos todo criado em software livre e que reúne várias outras produtoras colaborativas e outras redes.

[Recomendo ver a apresentação completa para entender e ver como funciona na prática]

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Mãe Beth de Oxum, do Centro Cultural Coco de Umbigada

É a partir dessa ideia que os produtos e serviços da Colabor@tiva.PE são estruturados. Eles incluem desde a digitalização de saberes e tecnologias locais até a produção de videoclipes de bandas locais, passando por oficinas de capacitação em vídeo e áudio com software livre e produção de eventos culturais. Um exemplo prático apresentado por Mãe Beth de Oxum (foto acima), do Centro Cultural Coco de Umbigada (ligada à colaborativa PE), foi o Contos de Ifa, um site que ensina a cultura afro-brasileira a partir de jogos onde os personagens são orixás (Ogum, Exú, Odé e Obadulaié). Do áudio ao design e a programação, tudo feito em software livre.

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Jader Gama (Puraqué) e Larissa Carreira, da Produtora Colaborativa do Pará, no lançamento do livro “Coralizando”

Hackear a universidade: o caso do Pará

Outro exemplo que vale destacar aqui é o da Colaborativa do Pará e do Coletivo Puraqué, de Santarém. A primeira, criada em 2009, funciona a partir da tecnologia social das colaborativas, e oferece principalmente serviços de formação em software livre e produção de eventos (veja aqui a o portfólio). O segundo nasceu como um laboratório de informática na casa da mãe de Jader Gama, integrante do grupo, no início da década passada, e de aulas básicas de informática passou ao ensino de programação, entrou para as redes da Metareciclagem e dos telecentros, ajudou na organização de encontros regionais como o Fórum Amazônico de Software Livre (FASOL), Fórum Amazônico de Cultura Digital e, sobretudo, colocou a bela e longínqua Santarém, no encontro dos rios Tapajós e Amazonas, oeste do Pará, no mapa da cultura digital brasileira.

Na busca por recursos e sustentabilidade numa região com pouco dinheiro e onde as distâncias dificultam e encarecem a produção de qualquer evento/oficina/encontro, as duas produtoras/coletivos fizeram, de 2010 pra cá, um movimento orquestrado de “hacker a universidade”. Jader Gama e Larissa Carreira – do Puraqué e da Produtora Colaborativa, respectivamente – entraram para o mestrado na UFPA, no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), um centro de pesquisa acadêmico voltado ao desenvolvimento regional da Amazônia. Com membros de uma instituição organizada como o NAEA e ligados à Universidade, tiveram a possibilidade de pleitear verbas de convênios com diversos ministérios do Governo Federal, e partir daí passaram a promover eventos de formação e pesquisa também para o público de fora da universidade, através do grande guarda-chuva de projetos que é a “Extensão Universitária”. Relativamente desprezada dentro da pós-graduação, a extensão é o mecanismo que as universidades brasileiras tem de interagir com a comunidade e sair de seus muros: passam por ela desde eventos culturais até incubadoras tecnológicas, oficinas de formação e outros projetos que promovam a integração do espaço acadêmico com a localidade a qual está inserida.

Foi assim que as produtoras se abrigaram dentro do NAEA, aproveitando-se também da maior possibilidade de interlocução com outras áreas que um raro centro interdisciplinar de pós-graduação como o NAEA, criado em 1973, possibilita. E dessa maneira fizeram diversas oficinas formativas de software livre, de edição de vídeos a cartografias digital, propuseram projetos de pesquisa em seus mestrados relacionados às temáticas de seus trabalhos nas produtoras – Jader sobre transparência pública nos municípios paraenses, Larissa com comunicação comunitária e software livre – e, literalmente, ocuparam a Incubadora de Políticas Públicas da Amazônia, mecanismo de articulação institucional do qual o NAEA, junto de outros institutos de pesquisa e dos governos, faz parte. Vestiram a camiseta oficial da universidade para se relacionar de outra forma com a comunidade ao seu redor, promover a articulação efetiva entre esta mesma comunidade, o poder público e o espaço acadêmico, não raro centrado só em seu mundo – basta ver quantos estudantes de mestrado e doutorado você conhece que fazem algo de extensão.

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O II Encontro e a sustentabilidade

Foi também através dessa parceria-ocupação que o NAEA e a UFPA sediaram o II Encontro das Produtoras Colaborativas, entre os dias 19 e 21 de março de 2015. Foi um momento das produtoras se conhecerem melhor, se familiarizar com a tecnologia social, para aquelas que não a usam integralmente, lugar de formação – o 2º dia do evento contou com oficinas variadas – e, também, para promover o debate conceitual e institucional sobre produção cultural e a cultura livre.

Participei da mesa sobre “Extensão e comunicação comunitária”, no sábado pela manhã, junto de Larissa Carreira, da colaborativa de Belém, Eduardo Lima e Pedro Jatobá (mediação), da colaborativa de Pernambuco e Daniel Luis (Umbigada no ar, um dos pontos da Colaborativa PE; foto acima). Falei um pouco da experiência recente da Casa da Cultura Digital Porto Alegre, em especial do Observatorio.cc e dos projetos ligados aos dados abertos (como o Open Data Day e o Hackday Tranporte Público), Daniel e Eduardo falaram das suas, com enfoque maior na experiência de ambos com software livre – Daniel trabalha com áudio e Eduardo com vídeo. Larissa contou de sua pesquisa com comunicação comunitária e da relação da produtora colaborativa com a universidade; um tanto do relato do tópico acima foi baseado em sua fala. Mesa ampla, assuntos diversos, discussão boa.